A secretária de Estado e a América Latina

hillarypaEla conhece melhor a América Latina do que Barack Obama (que diabo, ele nunca foi primeira dama!). Esteve na região, inclusive no Brasil, muitas vezes. E o que nos promete a secretária de Estado indicada, Hillary Clinton? Há pouco mais de um ano, ainda  líder absoluta (apoiada pela cúpula do Partido Democrata, superdelegados e milhões de dólares em contribuições de campanha) entre os candidatos potenciais democratas, ela só dedicou um único parágrafo à AL em sua proposta de política externa.

O texto ocupou 18 páginas do número de novembro-dezembro da principal revista de política externa do país, Foreign Affairs, sob o título geral “Security and Opportunity for the Twenty-first Century” (leia a íntegra AQUI). Pareceu desapontador. Na mesma época o principal analista, Tom Barry, do Programa de Política das Américas no Centro de Política Internacional (CIP), sediado em Washington e presidido pelo ex-embaixador Robert White, divulgou crítica dura e bem fundamentada na internet à proposta de Hillary. 

De acordo com aquela análise de Barry, a ex-primeira dama demonstrava, em primeiro lugar, falta de respeito pela América Latina. Ele achou insólito Hillary ter, ao mesmo tempo, acertado no diagnóstico – ao lamentar que o governo Bush “tenha malbaratado o respeito, a confiança e o crédito que teve entre nossos mais próximos aliados e amigos”. Pois nos últimos anos, disse Barry, as autoridades dos EUA “concentraram-se mais no medo de novos desdobramentos políticos na região do que nos meios de melhorar as oportunidades e a segurança humana”.

Um retorno ao intervencionismo

Alegava o artigo de Hillary que no governo Bush “vimos o retrocesso de ganhos democráticos e da abertura econômica em partes da América Latina”. Ao invés de aplaudir a tendência de número maior de governos eleitos, superando obstáculos estruturais que têm marginalizado populações pobres e indígenas, observou Barry, “ela evoca o quadro de uma região ameaçada por forças retrógradas.

Assim, “ao culpar o governo Bush por sua negligência, Hillary dá a entender que uma política americana mais engajada teria obstruído a ascensão de governos democráticos de centro-esquerda, como os da Venezuela, da Bolívia e do Equador”. Ou seja, ela reclama a volta a um “engajamento vigoroso”, a pretexto de ser a região crítica demais, na qual o melhor é os EUA se intrometerem.

De que tipo de “engajamento vigoroso” Hillary está falando? – perguntou Barry. “Formas passadas de intromissão”, conforme lembrou ele, “incluiram intervenção em eleições nacionais, apoio financeiro e militar a movimentos ilegais de oposição, campanhas de propaganda para disseminar mensagens favoráveis a forças pro-EUA e difamação de outras”.

Qualquer “retorno” a política desse tipo, como denunciou com irritação o analista do CIP, na certa vai ser encarada desfavoravelmente na América Latina. “Os poucos exemplos positivos recentes de engajamentos americanos a pretexto de proteger interesses ‘críticos’ dos EUA, geopolíticos e econômicos, revelaram-se com frequência sinônimos de ações intervencionistas” (leia a análise na íntegra AQUI).

“Bush I, Clinton I e Bush II”

Hillary incluiu entre suas prioridades o apoio às “maiores democracias da região, Brasil e México”; o aprofundamento “da cooperação econômica e estratégica com Argentina e Chile”; e o combate “às ameaças interligadas do tráfico de drogas, crime e insurgência”, na Colômbia, na América Central e no Caribe”. O que equivale à mesma retórica abraçada pelo governo Bush.

Barry percebe, como qualquer pessoa com um mínimo de bom senso, que após estabelecer essa agenda para o envolvimento dos EUA nas questões de segurança, Hillary conclui com esta frase: “Precisamos trabalhar com nossos aliados para fornecer programas de desenvolvimento sustentável que promovam oportunidade econômica e reduzam a desigualdade entre os cidadãos da América Latina”.

O analista resume, enfim, que “a política latino-americana de Hillary Clinton provavelmente será muito semelhante às dos governos de Bush I, Clinton I e Bush II, que vieram antes” (ele partia do pressuposto, obviamente, de que ela esperava um Clinton II, o dela). A única diferença notável, para ele, seria que o governo dela poderia “tomar medidas mais fortes para conter governos que ousem determinar seu rumo próprio no campo comercial, de desenvolvimento e de política externa”.

Ela sequer mencionara a necessidade de reformular a desastrosa política em relação a Cuba. Mas em outra oportunidade já tinha prometido (de olho no lobby cubano de Miami, claro) manter o embargo “até haver uma transição democrática”. Também pretendia manter a fracassada estratégia das guerras à droga, erradicação de plantações de coca e combate à contrainsurgência, a pretexto de reduzir o fluxo de narcóticos para o bilionário mercado americano.

Respeito é bom e a gente gosta

Embora o Establishment político de Washington fique limitado a poucas opções sobre América Latina, os países da região, em especial na América do Sul, vivem momento promissor, com novas políticas. Mesmo sem endossá-las Hillary poderia no mínimo, inspirando-se no exemplo de Franklin Roosevelt, declarar seu respeito pelo direito dos latino-americanos de decidir o próprio rumo.

Após três décadas de intervencionismo imperial e ocupações, lembrou Barry, Roosevelt optou pela política da Boa Vizinhança, com “respeito mútuo” e “auto-determinação”. Nem sempre seguiu tais princípios, mas pôde construir o respeito pelos EUA e uma cultura de cooperação nas Américas. Hillary fala em recuperar o respeito, mas através das “dimensões do poderio americano”.

Ela deixava de reconhecer que as relações EUA-América Latina sofreram muito mais pela arrogância americana e seus “engajamentos” mal avaliados e mal conduzidos do que pela negligência ou inação face a ameaças imaginárias aos interesses americanos. O respeito mútuo pode ser restabelecido, mas os EUA terão de mostrar mais respeito pelos vizinhos do sul – e dizer a eles que respeitarão o que eles decidirem.

Felizmente a própria Hillary reconheceu, já nas primeiras manifestações como secretária indicada, que conduziria uma política externa conforme os rumos determinados pelo presidente. E o presidente-eleito Barack Obama escolheu Franklin Roosevelt, junto com Abraham Lincoln, como uma espécie de modelo, tanto para a política interna, centrada num esforço semelhante ao do New Deal, como para a externa, na qual ele apostou na Boa Vizinhança e no fim do intervencionismo. Por enquanto pode ser um alívio para o continente – mas ainda é cedo para dizer que seja uma garantia.

Published in: on dezembro 13, 2008 at 1:23 pm  Comments (4)  

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4 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Nossa! É exatamente o que penso. Jamais os EUA irão se conformar com nossa petulância de decidir nosso próprio destino. Não, no que eles consideram como seu quintal. Imagina! Brasil querer se tornar uma potência; um congo de meia tigela.

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