Moniz Bandeira e as fantasias sobre a morte de Jango

Para o historiador Luiz Alberto Moniz Bandeira (ao lado de Brizola em Paris na foto acima, feita em 1978), é preciso um mínimo de cautela antes de se veicular versões sem base, como as que circulam atualmente, atribuindo a assassinato a morte de João Goulart, o presidente deposto pelo golpe militar de 1964. “Não é admissível apresentar como verdade uma versão que não pode ser comprovada por documentos ou outros depoimentos. É charlatanice”, disse ele enfaticamente, na entrevista exclusiva que me concedeu para Carta Maior.

Baiano de nascimento, Moniz Bandeira está com 74 anos e atuou durante vários anos como jornalista e militante político, principalmente no Partido Socialista, antes de formar-se em Direito e depois doutorar-se em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Posteriormente lecionou em Universidades no Brasil e no exterior, especializando-se em política internacional – especialmente as relações do Brasil com os EUA e a Argentina.

Um de seus principais livros, O governo João Goulart – As lutas sociais no Brasil, 1961-1964 (ver a capa de uma edição anterior abaixo, à direita) foi publicado em 1977, quando morava na Europa, depois de ter cumprido pena no Brasil durante o regime militar e passar algum tempo exilado no Uruguai – onde conviveu com outros brasileiros cassados e perseguidos pela ditadura, entre eles Jango e o ex-governador Leonel Brizola. A 8ª edição desse livro, revista e ampliada, será lançado em maio. Ela se refere ainda ao papel desempenhado pela diplomacia dos EUA no episódio da fuga de Brizola do Uruguai, sob a ameaça da operação Condor.

Moniz Bandeira escreveu também, entre outros, os livros Presença dos EUA no Brasil (Dois Séculos de História); Cartéis e Desnacionalização; Brizola e o trabalhismo; O Eixo Argentina-Brasil – O processo de integração da América Latina, Brasil-Estados Unidos; A rivalidade emergente (1955-1980); Brasil, Argentina e EUA – Da tríplice aliança ao Mercosul; As relações perigosas: Brasil-Estados Unidos (De Collor a Lula), Fórmula para o caos – A derrubada de Salvador Allende, 1970-1973; Formação do Império Americano (Da guerra contra a Espanha à guerra do Iraque).

Anos após seu retorno ao Brasil, Moniz Bandeira passou seis anos (de 1996 a 2002) como adido cultural no Consulado Geral do Brasil em Frankfurt. Em seguida, já aposentado, continuou a morar na Alemanha, país sobre o qual também escreveu (três livros: A Reunificação da Alemanha – do Ideal Socialista ao Socialismo Real; O ‘milagre alemão’ e o desenvolvimento do Brasil; Brasil e Alemanha, a construção do futuro). Abaixo, minhas perguntas e as respostas do historiador.

Argemiro FerreiraProfessor Moniz Bandeira, o senhor viveu no Brasil as crises de 1954, 1961 e 1964 e escreveu – com o apoio do presidente deposto no golpe militar – o livro O governo João Goulart, agora em 8ª edição. Depois do golpe, cumpriu dois anos de prisão, exilou-se no Uruguai, conviveu ali com o ex-presidente e voltou a ter muito contato com ele entre 1974 e 1976, quando pesquisava para o livro, com a colaboração do próprio Jango. A última vez que o viu foi um mês antes de sua morte, ocorrida em dezembro de 1976 no Uruguai. Como vê as especulações atuais sobre a hipótese de que foi assassinado?

Moniz BandeiraAs especulações sobre a hipótese de que Goulart foi assassinado não são atuais. Datam desde, pelo menos, o dia imediato ao seu falecimento. E o que ocorre agora é uma exploração do depoimento de um delinqüente uruguaio, preso no Rio Grande do Sul, Mario Barreiros Neira, um megalomaníaco. O deputado Miro Teixeira (PDT-RJ) nem quis convocá-lo para depor na comissão que investigou a morte de Goulart por considerá-lo sem credibilidade.

AFA primeira versão de assassinato, que começou a circular logo depois da morte do ex-presidente, sugeria envenenamento e levantava suspeitas contra a própria viúva, Maria Tereza Goulart, que teria negado autorização para uma autópsia. Mais tarde, ao voltar, a hipótese veio com roupagem nova e ganhou espaço mais amplo na mídia. Já então tratava-se de uma “confissão” – do uruguaio Mario Ronald Barreiros Neira, que cumpre pena no Brasil como criminoso comum e cuja extradição é reclamada pelo Uruguai. Porque questiona a credibilidade dele e da versão que sustenta?

MB – A hipótese do assassinato que circulou logo após o enterro de Goulart sugeria uma troca de medicamentos, para acusar, injustamente, a viúva. Maria Tereza Goulart na verdade não negou autorização para uma autópsia. Simplesmente ninguém pediu que fosse feita a autópsia. Como a própria Maria Tereza declarou, esse fato era “absolutamente normal”, pois “a autópsia só é feita quando existem dúvidas sobre a causa da morte. Não foi este o caso”. Ela disse: “Vi meu marido sofrendo o infarto”. Em 1982, ela e os filhos recusaram-se a autorizar a exumação, por considerá-la desnecessária.

AFUm confronto entre as duas versões expõe contradições entre elas? A primeira, de Enrique Foch Diaz, chegou a ser apoiada na época por Danilo Groff, militante do PDT próximo a Leonel Brizola. Foi repudiada publicamente por Maria Tereza e os filhos de Jango, João Vicente e Denise. Está no livro João Goulart – El Crimen Perfecto. Busca comprometer a viúva. Já a de Barreiros Neira, exposta em depoimento dele na TV Senado em 2006, foi defendida nos originais do livro dele, ainda inédito. Depois de se referir ao livro em 2004 com o título de Morte Premeditada, ele passou depois a chamá-lo de Entrevista com um réu confesso – Todas as respostas sobre o assassinato de João Goulart. Pode expor as diferenças entre as alegações de Barreiros Neiva e as de Foch Diaz?

MB – Nenhuma das versões é consistente com a lógica e com os fatos. Nem Enrique Foch Díaz, que apresentou a denúncia de “morte duvidosa” duas vezes à Justiça, uma em Corrientes, na Argentina (1982), a outra em Maldonaldo, no Uruguai (2000), nem Danilo Groff, no Rio Grande do Sul, puderam confirmar suas acusações e foram condenados à pena de prisão, em decorrência de processo movido, com o apoio de Maria Tereza Goulart e de sua filha Denize, por Cláudio Braga, ex- secretário particular de Goulart. Quanto às diferenças, eu demonstro claramente no apêndice que escrevi para a 8ª edição revista e ampliada de meu livro O Governo João Goulart, a ser lançado em maio pela Editora UNESP. O que caracteriza todas as versões é a falta de consistência. Não existe nenhum só documento, nenhuma prova, de que houve uma tal Operação Escorpião, referida por Mario Barreiros. O fato de que as atividades de Goulart eram monitoradas pelos serviços de inteligência do Brasil, Uruguai e Estados Unidos, não constitui novidade e muito menos serve para dar qualquer fundamento à versão de que foi assassinado.
Quando solicitei ao professor Oswaldo Munteal (defensor da versão de Barreiros) que apresentasse uma prova documental para confirmar a existência da Operação Escorpião, cuja única fonte é a cabeça do próprio Barreiros), João Vicente retransmitiu para mim e-mails de três amigos que trabalham para o Instituto Presidente João Goulart em defesa da pesquisa sobre a morte de Goulart. Estranhei essa atitude. Nunca fui contra qualquer pesquisa. Quem quiser, tem todo o direito de pesquisar sobre tudo que julgar necessário. O professor Oswaldo Munteal e os que estão a trabalhar com João Vicente podem até pesquisar se há chifres na cabeça de burros. Mas o que não é admissível é apresentar como verdade uma versão que não pode ser comprovada por documentos ou outros depoimentos. É charlatanice.

AFSuas críticas às duas versões têm sido contundentes. Na mais recente mostrou que Barreiros Neiva mudado e adapta sua história desde o primeiro depoimento, quando alegava que Morte Premeditada seria publicado pela editora Menz de Porto Alegre, o que na realidade não aconteceu. Como avalia agora a atual versão sustentada por ele? Acha que a inventou apenas na obsessão de escapar à Justiça comum, fingindo-se ex-agente arrependido da repressão na ditadura uruguaia?

MB – Realmente, existem diferenças entre os diversos depoimentos prestados por Mario Barreiros, desde que, em 2001, pretendeu evitar que sua extradição para o Uruguai, por crimes comuns, fosse aprovada no Brasil pelo STF. Alegou então que seu único crime foi escrever um livro onde relata o assassinato de João Goulart, que “foi morto a pedido do DOPS” na Argentina, “com a participação de agentes uruguaios e argentinos […]”. Não falou de sua participação, nem mencionou os nomes do delegado Sérgio Fleury e do presidente Geisel. Aliás, não foi comprovada a existência dos personagens por ele citados como participantes da suposta Operação Escorpião, salvo a do médico Carlos Milles, que nada podia dizer, pois já havia morrido. Em realidade, Mario Barreiros, homem bem informado, mesmo preso em Porto Alegre sabia sobre o livro de Foch Díaz e, inicialmente, atribuiu a si a autoria de um livro igual, para evitar que o STF aprovasse sua extradição. Não conseguiu. O STF não encontrou fundamento nas suas alegações e aprovou o parecer do ministro José Neri da Silveira, em favor da extradição, que somente ainda não foi efetuada porque Mario Barreiros tem de cumprir uma pena de mais de 19 anos no Brasil. Depois, Mario Barreiros desenvolveu sua estória, mesclando fatos do seu conhecimento com outros de sua imaginação, para ganhar notoriedade como eventual criminoso político. Percebe-se nele uma clara tendência para a megalomania.
Em novembro de 2009, Mario Barreiro, diante de testemunhas, deu uma entrevista ao Canal Brasil de televisão, monitorada e analisada pelo módulo de Tempo Real do Programa de Análise de Voz Multicamadas – AVM 6.50, um polígrafo (detector de mentiras), da empresa TRUSTERBRASIL. Com base no arquivo de voz obtido, o perito Mauro Nadvorny, da TRUSTERBRASIL, analisou a entrevista e o módulo de análise de gravações do mesmo programa. O sumário da detecção apontou 60 amostras de verdade, contra 229 amostras de que estava provavelmente mentindo, 266 amostras de fraude e 720 imprecisões, das quais uma grande parte com indicação de fraude pelo perito. A análise concluiu que Mário Barreiros Neira “não está sendo verdadeiro quando relata que pertenceu ao serviço secreto uruguaio”. Trata-se de afirmação falsa, uma fraude. O mesmo ocorre quando relata em que consistia a Operação Escorpião, que seria centralizado principalmente em João Goulart. Em suma, a conclusão da análise foi a de que Mario Barreiros Neira “não foi verdadeiro na maior parte da entrevista e de sua participação nos fatos narrados”. Entretanto, fontes do Instituto João Goulart difundiram, através dos jornais Correio do Povo, de Porto Alegre, e La República, de Montevidéu, bem como de sites e blogs, a notícia segundo qual Mario Barreiros, por cerca de duas horas, detalhou episódios envolvendo a morte do líder político, e “durante boa parte do depoimento, o detector de mentiras apontou serem verdadeiras as informações relatadas por ele”. É uma informação falsa, irresponsável, que afeta a credibilidade da instituição e de qualquer investigação.

AFUm dado novo da controvérsia sobre as versões opostas é a entrada em cena, como historiador, do personagem a que o senhor se referiu, Oswaldo Munteal. Em 2006 ele lançou um livro, O Brasil de João Goulart: um projeto de nação. Com o patrocínio do filho de Jango, João Vicente, à frente do Instituto Presidente João Goulart, responsável na internet pelo website Página 64. Munteal endossa ali e em livro a ser lançado a versão-“confissão” de Barreiros Neira. Não só Jango teria sido envenenado, como coubera a ele próprio fazer a troca do veneno. Isso seria parte dessa suposta Operação Escorpião, que teria sido ordenada pelo presidente Geisel ao delegado Sérgio Fleury, usando ainda o ministro Armando Falcão.Não soa fantasiosa uma ordem do próprio presidente (e seu ministro da Justiça) ao mais notório delegado torturador?

MB – Não conheço – nem mesmo de nome conhecia – o professor Oswaldo Munteal. Soube de sua existência porque me foi enviada uma entrevista sua, reproduzida no website Página 64, do Instituto João Goulart, o que me levou a solicitar a João Vicente que retirasse meu nome do Conselho Editorial. Não me parece sério, honesto, endossar e apresentar como verdadeira uma estória, contada por um delinqüente, sem credibilidade, sem qualquer comprovação documental. Nada tenho, é certo, contra o professor Munteal, mas o fato foi que lhe pedi para apresentar um documento sobre a denominada Operação Escorpião, o que não foi feito. Não o fez, simplesmente, porque não existe. Como eu disse, a única fonte é a cabeça de Mario Barreiros Neira.

AFNa fase atual do debate, que ainda parece restrito a um setor da esquerda brasileira, o papel de Munteal, em razão de seus vínculos acadêmicos (formação, mestrado, doutorado, envolvendo a PUC, UFRJ, Fundação Getúlio Vargas), pode dar um peso indevido à versão mesmo sem respaldo na realidade? E como deve ser visto o apoio da família de Jango, em especial o filho João Vicente, que preside a Fundação que tem o nome do ex-presidente? Como historiador respeitado o senhor teve ligações próximas com Jango e a família Goulart. Apesar de morar hoje na Alemanha, mantém contatos com João Vicente e Munteal. Isso permite avaliar adequadamente esses atuais desdobramentos?

MB – O professor Munteal, antes de mais nada, tem de apresentar provas contundentes, inegáveis, de que existiu a Operação Escorpião. Conheço os documentos que João Vicente obteve na Coordenação Regional do Arquivo Nacional, no Distrito Federal. Apenas comprovam que as atividades de Goulart eram acompanhadas pelos serviços de inteligência do Brasil. Isto nunca foi segredo para ninguém e não constitui prova de que ele foi assassinado. Estive exilado no Uruguai e todos sabíamos que desde 1964, quando lá chegamos, os passos de Goulart e de Brizola, bem como de todos nós, eram monitorados. Surpreendente seria se não fossem. João Vicente, como presidente do Instituto João Goulart, tem, entretanto, motivos particulares para tentar viabilizar a versão de Mario Barreiros, o que é um erro grave, no meu entendimento. Não vou entrar em detalhes. Gosto de João Vicente e entendo que ele tem todo o direito de investigar o que quiser e puder sobre a morte do pai. Só não julgo certo endossar e tentar impingir à opinião pública uma versão com evidentes aspectos fantasiosos, colorindo algum conhecimento de fatos reais, conhecidos por Mario Barreiros. Isto afeta a credibilidade de todo o seu trabalho e também pode induzir à crença de que a versão caluniosa e infamante de “morte duvidosa”, formulada por Foch Díaz, também possa conter elementos de verdade. Não aceito nem endosso nenhuma das duas versões. Mas se for admitida como séria a versão de Mario Barreiros, qualquer outra hipótese, como a de Foch Díaz, também é válida, como ponto de partida para uma investigação. João Vicente ainda não pensou sobre isto.

AFAo expor suas reservas em relação à versão-“confissão” de Barreiros Neira, parece inclinar-se a minimizar ou até desqualificar o depoimento dele, entre outras coisas por ser um criminoso comum, envolvido até em narcotráfico. De fato seria difícil imaginar tal epifania. Mas ele alega que atuava na repressão uruguaia. Não poderia ser mero “bagrinho” daquelas operações paralelas da ditadura? Seria necessária uma investigação séria e ampla a partir de cada detalhe?

MB – Mario Barreiros não era agente do serviço de inteligência. Foi apenas um rádiotécnico da polícia de Montevidéu. Participou de um grupo paramilitar de ultra-direita denominado Garra 33 e do movimento Juventud Uruguyaia de Pié (JUP). Em realidade, era um criminoso comum, recrutado no lumpesinato para executar as mais sujas tarefas na repressão política. Nos anos 1990 integrou a Superbanda (quadrilha de policiais criminosos), que atuou no Uruguai. Seus antecedentes criminais são muitos e os mais diversos. Esteve envolvido com o tráfico de armas pesadas e diversos outros crimes, tanto no Uruguai como no Brasil, onde foi preso pela primeira em 1996, em Bagé, Rio Grande do Sul. Libertado dois depois, voltou ao Uruguai e, em 1998, cometeu vários assaltos. Detido em Rocha, no Uruguai, entrou no Rio Grande do Sul e, pela segunda vez, foi capturado. Evadiu-se. Mas em 1999 voltou a ser preso, em flagrante, pela Polícia Federal, em Gravataí, Rio Grande do Sul, por porte de arma e roubo de automóvel, juntamente com outro uruguaio, Ricardo Anacleto Ruiz Mendieta. Com eles, havia um arsenal de armas, munições, equipamentos de comunicação e anotações das frequências de rádio da polícia estadual. Ambos estavam vinculados a assaltos a caminhões blindados da empresa Proforte S.A. Transporte de Valores, em Canoas e Sapucaia de Sul, a um frustrado roubo de um avião no aeroporto de Rivera-Livramento e ao tráfico de automóveis dentro do Mercosul. Em 2003, Mario Barreiros fugiu do Instituto Penal de Mariante, onde cumpria pena em regime semi-aberto, mas foi outra vez capturado pela Polícia Federal e encarcerado na Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas para cumprir uma pena de mais de 19 anos de prisão. Atualmente voltou a cumprir a pena em regime semi-aberto.

AFComo cientista político e historiador sua norma tem sido afirmar apenas o que está apto a provar. Em nome da credibilidade prefere deixar explícito quando se trata de mera hipótese, conjectura, ilação ou interpretação a partir de indícios. No caso de Munteal, põe em dúvida, além da Operação Escorpião, uma frase que ele atribuiu a Vargas, e que estaria numa carta daquele presidente a Jango: “Agora eles me pegaram, o próximo será você”. Na crise final de Vargas, de fato, Jango estava fora do governo, deixara o ministério do Trabalho. O PTB tinha então outros líderes, como Oswaldo Aranha (Jango até perdeu a eleição gaúcha para o Senado). O suicídio de Getúlio e a morte de Aranha é que criariam condições para Jango eleger-se vice com JK. Seria aquela frase, sem prova, o escorregão definitivo, a luz vermelha final para a credibilidade de Munteal?

MB – Numa entrevista a um site da internet, Munteal declarou que “Vargas deixou uma Carta Testamento assinada e endereçada a João Goulart”, na qual está escrito: “Jango, agora eles me pegaram. O próximo será você” . Solicitei ao professor Munteal que apresentasse o original dessa carta que ele atribuiu a Vargas. Ele não o fez. E não o fez, simplesmente porque Vargas nunca escreveu tal carta. A único hipótese, se é que se pode acreditar, é que o professor Munteal seja discípulo de Chico Xavier, o médium, autor de 451 livros psicografados, e o espírito de Vargas ditou-lhe aquela frase, que não conseguiu escrever para Goulart, antes de suicidar-se. A frase “Jango, agora eles me pegaram. O próximo será você” só pode ser de alguém que já morreu, i. e., de Vargas, no outro mundo (“agora eles me pegaram”), prevendo que Goulart seria presidente, deposto dez anos depois e assassinado (“o próximo será você”). Que maravilha poder reconstituir a história conversando com os mortos e psicografando suas entrevistas. É o fenômeno da mediunidade que pode beneficiar alguns historiadores capazes de receber espíritos do além túmulo. Quem sabe, um dia, o próprio Goulart pode contar ao professor Munteal ou a algum historiador vinculado ao Instituto Presidente João Goulart o que realmente lhe passou antes de morrer. A história psicografada é um grande contributo que enriquecerá a historiografia brasileira.

AFComo Munteal tem sido vago nas entrevistas, como a gravada há algumas semanas por Paulo Henrique Amorim e a disseminada na internet através do website “Fazendo Media”, são compreensíveis as reservas e o ceticismo que têm surgido – da frase duvidosa de Vargas à suposta Operação Escorpião. Mas e os vínculos acadêmicos dele e sua presença atual na Fundação Getúlio Vargas? Tais instituições não deveriam ser uma espécie de selo de garantia?

MB – Solicitei ao professor Munteal que também apresentasse um documento, indicando a respectiva fonte, para comprovar inequivocamente a existência da suposta Operação Escorpião. Ele não o fez. E não o fez, repito, simplesmente porque nada existe, além do depoimento do delinqüente preso no Rio Grande do Sul. Como já disse, não conheço – nem o nome conhecia – o professor Munteal. Nada posso dizer sobre ele. Pode ser um docente sério, mas inexperiente, desorientado e influenciado por interesses não muito claros. Devia ter o devido cuidado com respeito às fontes, pois está comprometendo sua credibilidade acadêmica, escrevendo sobre o que não pode provar, o que também pode refletir-se sobre as instituições às quais está vinculado. De qualquer modo, as instituições, sejam elas quais forem, não são uma espécie de selo de garantia. Nas universidades e fundações como na imprensa ou em qualquer instituição, pública ou privada, há profissionais muito bons, bons, sérios, outros medíocres, ruins etc.

AFA nova edição de seu livro O Governo João Goulart, ampliada e atualizada, deverá conter fatos ou análises novas em torno das versões surgidas nos últimos anos para a morte de Jango?

MB – Essa 8ª edição, ampliada e atualizada, contém muitas informações novas, sobretudo quanto ao período do exílio. Sobre os últimos anos de Goulart, acrescentei muitas informações, em mais um capítulo que incorporei ao livro. E, sobre sua morte, escrevi um apêndice, no qual analiso, detalhadamente, não somente as versões como as circunstâncias do seu falecimento.

AF – E quanto ao episódio da expulsão de Leonel Brizola do Uruguai e o papel dos EUA? Há informações recentes mais concretas relacionadas a alvos da Operação Condor, com base em documentos secretos liberados nos EUA, no Brasil, Paraguai ou outros países? O seu livro deve voltar de alguma forma a esses assuntos?

MB – Com respeito à expulsão de Brizola do Uruguai consegui novas e surpreendentes informações, que podem esclarecer o que realmente ocorreu. Em resumo, entendo que esse fato não se relaciona com a Operação Condor, mas com a luta interna, dentro do regime militar, no Brasil. Os indícios apontam no sentido de que o setor do Exército, liderado pelo ministro, o general Sílvio Frota, em oposição às diretrizes de política econômica e política externa do presidente Ernesto Geisel, pressionou o governo do Uruguai para que expulsasse Brizola e este, sem opção de asilo, retornasse ao Brasil e, aí, preso ou morto, serviria como pretexto para um golpe militar contra o governo, acusando-o de estar “traindo os ideais revolucionários”. Não contaram que Brizola pudesse jogar a carta americana. Esse é um acontecimento que ainda carece de uma pesquisa mais ampla e profunda em arquivos do Uruguai e, também, dos Estados Unidos. Mas, infelizmente, não tenho condições de realizá-la. Cabe a outros acadêmicos empreender essa tarefa.

AFQuando fala em “jogar a carta americana”, significa também um envolvimento mais direto dos EUA, usando a diplomacia e até a CIA, para garantir a saída em segurança de Brizola do Uruguai sob proteção dos EUA, até sua chegada a Nova York?

MB – É óbvio que Brizola, para entrar na Argentina e pernoitar, em segurança, em Buenos Aires, a fim de tomar o avião para Nova York, no aeroporto de Ezeiza, contou com discreta cobertura de agentes da embaixada americana. Ele era exilado político no Uruguai e a ditadura militar da Argentina, segundo se soube, negou-lhe o visto de passagem. Em tais circunstâncias, ele não teria conseguido entrar em Buenos Aires, onde corria maior risco, se não fosse protegido por agentes da embaixada americana. Essa questão eu examino no prefácio à 8ª edição de O Governo João Goulart, porém ela ainda deve ser pesquisada mais profundamente, com base na documentação existente nos Estados Unidos e ainda não desclassificada.

(Na foto abaixo, a primeira página do Jornal do Brasil no dia seguinte ao comício de 13 de março de 1964, com Jango ao lado da primeira dama Maria Tereza no palanque. Entre as outras fotos que ilustram a entrevista, ele aparece com o presidente Kennedy à saída da Casa Branca em sua visita oficial aos EUA)

Published in: on abril 13, 2010 at 1:18 am  Comments (9)  

A Globo e a ditadura militar, segundo Walter Clark

Ainda que não tivesse sido esse o objetivo de sua autobiografia, na qual relatou há 19 anos a incrível trajetória que o transformara no todo-poderoso senhor, por mais de uma década, da quarta rede comercial de televisão do mundo, Walter Clark acabou por oferecer no livro – O Campeão de Audiência (veja a capa abaixo), que teve o jornalista Gabriel Priolli como co-autor, Editora Best Seller, 1991 – uma contribuição importante para a compreensão das relações muito especiais entre a TV Globo e o regime militar à sombra do qual floresceu. Além de rejeitar a conhecida imagem da emissora como uma espécie de porta-voz do “Brasil Grande” do ditador Médici, ele garantia nunca ter visto Roberto Marinho (foto no alto, da capa do livro promocional assinado por seu empregado Pedro Bial), “se humilhar diante de quem quer que fosse, milico ou não, presidente da República ou não. Ao contrário, é uma altivez que fica sempre no limite da arrogância.”

Clark referia-se à suposta independência do dono da Globo por “manter em torno de si homens de esquerda em cargos importantes” (citava Franklin de Oliveira, Evandro Carlos de Andrade e Henrique Caban) – inclusive depois que o SNI ampliou a pressão contra os dois últimos, com acusações contidas numa fita de vídeo que o dono da Globo fora convocado a assistir em companhia de Clark e Armando Nogueira. Explicitamente, admitia apenas que o regime “incomodava” a Globo, que enfrentou “o mesmo gosto amargo da censura, das intimidações, das impossibilidades que todo mundo sentiu: imprensa, rádio, televisão, as artes, a universidade, a cultura”. Claramente na defensiva, o autor mostrava-se ressentido com os que o culpavam – na própria Globo, e mais até do que Marinho – pela submissão ao regime militar. Mas ao passar das opiniões subjetivas aos fatos concretos, acabava por confirmar o que pretendia desmentir: a docilidade das TVs (em particular a sua), em parte resultante do caráter precário das concessões de canais pelo governo, tinha uma longa história e já o atropelara antes, na TV Rio.

Essa emissora, na qual também foi autoridade máxima (com o título nominal de “diretor comercial”), Clark submeteu-se, sem reação, ao assalto dos lacerdistas – liderados pelo empresário Abrahão Medina, fazendo valer a condição de patrocinador de programas – no episódio da tomada do Forte de Copacabana, em 1964. Posteriormente, conseguiu o prodígio de entregar-se tanto ao governo estadual como ao federal, até mesmo depois do desafio do governador Carlos Lacerda (foto à esquerda) ao presidente Castello Branco. Clark confessou ter retirado do ar programas de Carlos Heitor Cony e Roberto Campos para satisfazer o coronel Gustavo Borges, chefe de Polícia do Rio, que o chantageava com a ameaça de mudar o horário da novela O Direito de Nascer, líder de audiência.

Da promiscuidade à cumplicidade

Não por acaso, a experiência da Globo acabaria por extremar a tendência à  acomodação, a ponto de Clark contratar um ex-diretor da Censura (“o Otati”) para “ler tudo que ia para o ar” e, pior ainda, uma “assessoria especial” para cortejar o poder, formada pelo general Paiva Chaves, pelo civil linha dura Edgardo Manoel Erickson (“pelego dos milicos”, conforme disse) e mais “uns cinco ou seis funcionários”. O episódio que aparentemente o convenceu a ir tão longe chegava a ser cômico: um certo coronel Lourenço, do Dentel, tinha tirado a estação do ar em 1969, convocando Clark ao ministério da Guerra, porque Ibrahim Sued, na esperança de agradar ao Planalto, divulgara uma intriga plantada pelo grupo do general Jaime Portela, então na conspiração do “governo paralelo” juntamente com d. Yolanda Costa e Silva. Ibrahim foi preso e Clark (ao lado, numa capa da Veja em 1971) aprendeu a lição depois de levar um pito do coronel Athos, “homem de Sílvio Frota”.

Além da pretensa altivez de Marinho, impressionaram Clark a “integridade”, a “honestidade” e o “patriotismo” do general Garrastazu Médici, que depois de 1974 passara a frequentar seu gabinete na Globo para ver futebol aos domingos. Muita gente apanhava e morria nos cárceres da ditadura, mas para ele isso não podia, de forma alguma, ser coisa do ditador Médici: “Tenho a impressão de que ele não se envolveu com nenhum excesso, nenhuma violência do regime”. De quem era, então, a responsabilidade? “Foi coisa dos caras da Segunda Seção do Exército, do SNI, do Cenimar, do Cisa, a turma da segurança. E era tudo na faixa de major, tenente-coronel”. Pronto a absolver os poderosos, frequentadores de seu gabinete (até mesmo o general Ednardo D’Ávila‚ chamado no livro de “figura agradável”), e a condenar apenas o guarda da esquina, obscuro, Clark comete o disparate de afirmar que “a censura e as pressões não eram feitas pelos generais”, mas por “gente como o Augusto”, beque do Vasco que virou agente do DOPS. Mas se era assim, por que submeter-se a eles?

O autor recorreu ainda a outra desculpa para justificar o adesismo e o ufanismo tão escancarados na ocasião pela rede dos Marinho: “A Globo não fazia diferente dos outros”. E mais: “Se o Estadão não conseguia enfrentar o regime, se a Veja não conseguia, como é que a Globo, sendo uma concessão do Estado, conseguiria resistir à censura, às pressões?” O problema, para os críticos de Clark dentro da própria emissora, é que ela, como ele, parecia preferir aquela filosofia de que se o estupro é inevitável só resta relaxar e aproveitar. Daí os comerciais da AERP (Clark alega que foram feitos para evitar uma “Voz do Brasil” na TV, projeto de um certo coronel Aguiar), as coberturas patrióticas de eventos militares (Olimpíadas do Exército e o resto), as baboseiras ufanistas de Amaral Neto (foto à esquerda). “Era o preço que pagávamos para fazer outras coisas”, alegou. Não se deu ao trabalho de explicar que coisas eram essas. E ele mesmo admitiu na autobiografia que o apregoado Padrão Globo de Qualidade “acabou passando por vitrine de um regime com o qual os profissionais da TV Globo jamais concordaram”?

A Globo devia ao regime, como ficou claro no relato de Clark, até mesmo a introdução da TV a cores – imposta pelo ministro das Comunicações, coronel Higino Corsetti, sabe Deus para atender a que lobby multinacional. Mas a intimidade promíscua com o regime foi mais longe, a ponto de compartilhar com o SNI os serviços clandestinos do “despachante” encarregado de liberar contrabandos na Alfândega: para a empresa, equipamentos de TV; para os militares da espionagem oficial, sofisticados aparelhos de escuta ilegal. Graças a isso, Clark podia desfrutar estranhas sessões de lazer como a conversa com um tal general Antônio Marques, pressuroso em exibir foto tirada no escuro de um cinema (com equipamento infravermelho) e identificar o personagem em cena comprometedora como Dom Ivo Lorsheiter, progressista odiado pela linha dura militar.

Para Armando, “uma questão de realismo”

O autor defendeu no livro tudo o que fez para “afagar o regime” (expressão dele) e investiu contra os que o acusavam de “puxar o saco dos militares” (também expressão dele). Para fazer autocensura, revelou, tinha importantes aliados internos, com destaque especial para o papel do diretor de jornalismo, Armando Nogueira. Por “questão de realismo”, por exemplo, Armando e ele tomavam “muito cuidado” para não trombar “com o regime e nem com Roberto Marinho”. Mas o leitor tropeça nas contradições da narrativa, entre elas a ambiguidade em relação ao ex-amigo J. B. (Boni) de Oliveira Sobrinho – acusado de fazer vista grossa quando Dias Gomes e outros enfiavam “coisas nos textos que certamente iam dar problemas”, mas também de cumplicidade com os militares para destruir o próprio Clark (“lá por 1976, Laís, a mulher do Boni, foi me denunciar para o pessoal do SNI, que ela conhecia, dizendo que eu era um toxicômano perigoso”).

Não é preciso inteligência privilegiada para perceber que o jogo de cumplicidade com o regime confundia-se com a luta interna pelo poder dentro da Globo, arbitrada por Marinho e envolvendo não apenas Clark e Boni, mas também o segundo escalão – Joe Wallach (que representou o grupo Time-Life – mais sobre ele AQUI), José Ulisses Alvarez Arce e, em especial, o diretor de jornalismo Armando Nogueira (todos eles estão na sugestiva foto acima). Esse último é pintado no livro como incompetente, preguiçoso e traiçoeiro. Em meio à guerra, as reuniões do conselho de direção nas manhãs de segunda-feira tornaram-se um inferno, em generalizado clima de intriga e discórdia, com todo mundo brigando com todo mundo. O dinheiro farto que todos ganhavam, contou Clark, “era como veneno, especialmente nas mãos das mulheres”. Munidas de talões de cheque, elas estrelavam “um festival de nouveau-richismo, pretensão e falta de educação”. Acusado de consumir drogas, Clark defendeu-se ao encarar a prática como generalizada: “a cocaína era chique nas festas intelecto-sociais, e o seu consumo, bastante disseminado”, mas “resolveram me transformar em drogado”.

Quando Marinho decidiu tomar “o brinquedo de volta” – ou seja, recuperar o controle da Globo, que “tinha emprestado para uns garotos mais moços brincarem” – uma das mãos firmemente agarradas ao tapete de Clark, segundo o livro, foi a do ministro da Justiça, Armando Falcão (na foto abaixo, ao lado do ditador Ernesto Geisel), “tipo deletério, que adorava fazer intrigas, dizer que éramos todos comunistas, drogados, os piores elementos”. No relato aparece um Roberto Marinho bem mais coerente na conspícua (e promíscua) aliança com o regime do que o autor chega a reconhecer explicitamente – tanto que o episódio no qual Clark é afinal defenestrado mistura, de forma reveladora, a disputa pelo poder no regime militar com aquela que se processava na Globo, escancarando as relações perigosas entre o governo e a rede de TV consolidada à sombra do autoritarismo.

O autor nega que o motivo de sua saída tenha sido, como se propalou na época, seu comportamento pessoal pouco ortodoxo (em razão de excessos alcoólicos) numa festinha com poderosos de Brasília. O livro atribuiu a demissão a queda de braço com o regime, que exigia o expurgo na Rede Globo da afiliada paranaense de Paulo Pimentel, político que rompera com o antigo protetor, ministro Ney Braga, e ainda era desafeto do chefe do SNI, general João Baptista Figueiredo, então a caminho da presidência (na foto à esquerda, já ditador, de braço dado com Marinho). Se assim foi, faltou a Clark reconhecer ter sido demitido na primeira vez em que de fato ousava contrariar os donos do poder. “Eu argumentava – escreveu ele – que o governo tinha o poder concedente dos canais de rádio e TV e, se quisesse atingir o Paulo (Pimentel), que cassasse a sua concessão e enfrentasse o desgaste político”. Mas Marinho, pragmático, pensava diferente – talvez sintonizado, naquele sombrio ano de 1977, com o clima incerto gerado por mais uma demonstração de força do regime, o Pacote de Abril.

Até veto de música no festival da canção

Clark nem sequer notou a semelhança desse episódio com tantos outros que marcaram a aliança promíscua da Globo com o poder – e nos quais ela se limitara a acatar a vontade do regime. Alguns de tais episódios, envolvendo a TV e autoridades militares, desfilaram ao longo de Campeão de Audiência: o ataque do general Muricy a um documentário da CBS (para ele, “subversivo”) sobre o Vietnã, comprado ironicamente pelo americano Wallach, do Time-Life (na foto, cochichando no ouvido de Roberto Marinho); o Jornal Nacional, no terceiro dia de sua existência, proibido por um coronel (Manoel Tavares) do gabinete do general Lira Tavares (membro da Junta que tomara o poder) de noticiar o sequestro do embaixador dos EUA e a doença de Costa e Silva, os dois principais assuntos; o aviso do general Sizeno Sarmento de que as músicas “Caminhando” e “América, América” estavam proibidas de ganhar o Festival Internacional da Canção; a ordem do general Orlando Geisel para as patriotadas de Amaral Neto serem incluídas no horário nobre; a prisão do próprio Clark pelo DOPS no dia do Ato 5, por ordem do coronel Luís França (em represália por ter ele discutido com o motorista do militar num incidente de trânsito).

Enfim, a especialidade da Globo era acomodar-se a cada situação. A acomodação prevaleceu ainda no dia da queda de Clark. Ele aceitou sem discutir o prêmio de consolação (US$ 2 milhões) oferecido por Marinho. E limitou-se a encomendar o texto da carta de demissão (“em alto  estilo… literário”) ao amigo Otto Lara Resende, suficientemente versátil para também escrever em seguida a resposta na qual o dono da Globo agradeceu os serviços prestados pelo demissionário (quatro anos depois Otto aceitaria também a missão de fazer o prefácio de Campeão de Audiência).

A demissão é uma espécie de anticlímax da autobiografia, na qual o autor assumiu compulsivamente a responsabilidade pelas iniciativas bem sucedidas da Globo, declarou-se adepto de programas de qualidade (mas o salto de audiência veio com os popularescos de baixo nível, de Raul Longras, Chacrinha [foto abaixo], Dercy Gonçalves, etc, bem na linha da atual pornografia BBB) e atribuiu o mal feito a outros – como os que mantiveram elevado o faturamento e a liderança absoluta de audiência nos anos seguintes, enquanto o próprio Clark, que na Globo tinha o maior salário do mundo (compre AQUI, por US$3,95, a notícia no New York Times sobre a demissão do brasileiro com o maior salário do mundo) e frequentava presidentes e ministros, descia ao fundo do poço, de fracasso em fracasso (como diretor de duas TVs, logo demitido, e produtor de dois filmes nos quais sequer se reconheceu sua contribuição, mais um espetáculo teatral altamente deficitário).

“Em 14 anos, depois de minha saída, o que houve de realmente novo?” – perguntou o autor naquele ano de 1991, referindo-se à Globo. Pouca coisa, talvez. Hoje, com a perda crescente de audiência para os concorrentes e sem os privilégios garantidos nos 20 anos de ditadura militar, ela está condenada a conformar-se com as regras da democracia e da competição. E passa a valer para a Globo a amarga reflexão pessoal de Clark no livro: “Não se deve cultivar excessivamente o poder, pendurar-se emocionalmente nele, porque um belo dia o poder acaba, e o dia seguinte é terrível”.

Published in: on abril 3, 2010 at 12:36 pm  Comments (12)