O anjo da guarda de Barack Obama

Obama_JarrettA revista semanal do New York Times sai aos domingos, mas uma das reportagens de destaque do próximo número já está na edição online do jornal (leia AQUI). Oferece perfil elaborado de uma das pessoas que exercem mais influência sobre o presidente Barack Obama. Atualmente ela ocupa na Casa Branca o espaço na ala Oeste que foi de Karl Rove, estrategista das campanhas de 2000 e 2004, chamado no título de uma biografia de “o cérebro de George W. Bush”.

Um pouco mais nova do que Obama, advogada como ele, mulher de negócios, ex-executiva da Bolsa de Chicago, Valerie Jarrett era presença constante a assessorá-lo durante a campanha presidencial (na foto ao lado ela acompanha uma entrevista dele). Agora tem um título semelhante ao de Rove, alta assessora e assistente presidencial para assuntos intergovernamentais e compromissos públicos. Ou, trocando em miúdos: ela é uma intermediária entre Obama e o mundo exterior.

O texto de 8.000 palavras, assinado por Robert Draper no Times está repleto de pequenas histórias e testemunhos que atestam o atual poder de Jarrett. Desde o início da campanha ela tem funcionado como ponte para tornar realidade alguns eventos e feitos considerados improváveis – ou mesmo impossíveis. Na campanha chegou a ser hostilizada algumas vezes por outros, como se fosse um complicador em certas situações.

A conselheira que funciona como ponte

Circulam rumores sobre problemas gerados pela atividade dela, tanto durante a campanha, quando seu papel não estava definido e podia ser imprevisível, como hoje, quando se tornou claro e institucional. O problema pode resultar, pelo menos em parte, do relacionamento muito próximo de Jarrett com o presidente e também com com a primeira dama Michelle Obama.

Jarrett_Valerie-2Mas um episódio contado por Draper parece especialmente significativo. Foi uma reunião em julho de 2007, na casa de Jarrett em Chicago. A campanha não parecia decolar nas pesquisas. Dizia-se que a ênfase nas primárias iniciais, em especial em Iowa, distanciava o candidato de um enfoque nacional. Além disso, havia a queixa dos negros contra o abandono das questões afro-americanas.

A bilionária Penny Pritzker, que presidia o comitê de finanças, disse então que o candidato precisava ter um conselheiro inteligente, capaz e realmente muito próximo dele, para ser uma espécie de ponte. E recomendou o nome da própria dona da casa, Jarrett (foto ao lado), como “a solução perfeita”. No resto da campanha, de fato, ela desempenhou esse papel com sucesso, apesar de trombadas eventuais com os estrategistas, com responsabilidades mais concretas no dia-a-dia da campanha.

Uma poderosa força oculta

Gente poderosa – como Rahm Emanuel, chefe de gabinete,  hoje onipresente na Casa Branca; David Axelrod, estrategista que definia as questões críticas no esforço eleitoral, com  ação extremamente delicada; e David Plouffe, que administrava a campanha de Obama – teve dificuldades com ela. Eventualmente, ainda tem. Mas em geral eles reconhecem a relevância do trabalho que ela desenvolveu antes e do papel que desempenha agora na Casa Branca, dada a sua amizade estreita com o casal Obama.

Dificilmente ela já não tenha vivido tais situações no passado, já que passou quase uma década (até 1995) como autoridade municipal da cidade de Chicago – como sub-chefe de gabinete do prefeito Richard M. Daley, depois integrante da comissão de planejamento e em seguida presidente da Autoridade do Trânsido (saiba mais sobre ela AQUI e AQUI). Ao sair, tornou-se executiva-chefe (CEO) da Habitat Company, cargo que só deixou para integrar o governo Obama.

Iraniana de nascimento, ela tem – como o presidente – uma história singular de sucesso para os padrões afro-americanos. Quando Obama ainda era um estranho entre os afro-americanos de Chicago, ela já tinha status de nobreza naquela comunidade negra. Primeiro conheceu Michelle, que se candidatava a um cargo sob a supervisão de Jarrett no gabinete do prefeito. Desde então tem sido um anjo da guarda para os dois.

Os Daley e a má fama de Chicago e Illinois

Formada em Stanford e na Escola de Direito da Universidade de Michigan, Jarrett fez na prática o curso de política numa cidade corrompida pelos gangsters no tempo da lei seca e, mais tarde, celebrizada pelos hábitos duvidosos do boss Richard J. Daley (foto ao lado), Daley_RichardJúltimo dos lendários chefões políticos (mais sobre ele AQUI). Em 1960 ele garantiu os votos (possivelmente fraudulentos) para eleger John Kennedy e em 1968, como prefeito, ordenou a repressão dos protestos de rua na mais tumultuada convenção democrata da história.

O prefeito a quem Jarrett serviu é filho daquele outro Daley, que morreu em 1976. Embora os tempos sejam outros, alguma coisa permanece, como ficou claro no episódio este ano da queda do governador Rod Blagojevich – no qual Obama, seu chefe de gabinete Rahm Emanuel e a própria Jarrett foram ouvidos pelos investigadores do FBI sobre a tentativa de venda da cadeira que o atual presidente tinha ocupado.

Mas os antecedentes dela têm ainda outra vertente sugestiva. O bisavô de Jarrett foi o primeiro negro a se formar no M.I.T., o avô foi o primeiro a dirigir a Autoridade Habitacional de Chicago e o pai foi o primeiro médico negro a fazer residência no St. Luke’s Hospital. E mais. Ainda que ela não tenha trabalhado antes em Washington, foi precedida pela celebridade do tio-avô Vernon Jordan, insider respeitado e ex-colaborador próximo do presidente Clinton (que o encarregou, entre outras coisas, de encontrar um emprego para a ex-estagiária Monica Lewinsky).

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David Axelrod, Valerie Jarrett, o secretário de imprensa Robert Gibbs, Emanuel e um agente do serviço secreto acompanham uma entrevista coletiva de Obama
Published in: on julho 24, 2009 at 2:25 am  Comments (3)  

O esforço de Árias e o golpismo da mídia

ElHeraldo-090720

Ainda não é fato consumado o fracasso da mediação de Oscar Árias (foto abaixo, à direita), presidente da Costa Rica, já que pediu mais 72 horas e sua equipe considera a mediação “bem encaminhada” (saiba mais AQUI). O deposto e exilado Manuel (Mel) Zelaya marcou para o dia 24 a volta a Honduras. E Roberto Micheletti, ditador instalado pelo golpe militar, rejeita enfaticamente o retorno do presidente legítimo, eleito pelo voto popular.

Arias_090720As figuras da foto do alto, publicada no jornal hondurenho El Heraldo (leia AQUI), feitas de fibra de vidro, parecem saídas de desfile de escola de samba. O regime do golpe diz que estavam num jardim da casa presidencial e representam o presidente deposto (Zelaya) ao lado de heróis da independência no século XIX. Um presidente não precisa necessariamente ter bom gosto, mas seria ridículo ver nisso “prova” de que era ditador – estapafúrdia alegação dos golpistas.

Com tais “provas” fica fácil entender porque nenhum país (nem Israel!) reconhece o regime. A diplomacia dos EUA continua ambígua (a secretária Hillary Clinton, da Índia, puxou ontem a orelha de Micheletti pelo telefone); OEA e ONU apoiam a democracia, com a volta do presidente eleito; BID e Banco Mundial suspendem programas (mais AQUI); e União Européia congela US$ 65,5 milhões da ajuda a Honduras.

Apesar desse quadro os golpistas conseguem protelar o fim da crise. Na proposta de Árias a volta de Zelaya ao cargo do qual foi retirado à força é o ítem 1 (leia a íntegra da proposta AQUI), mas os golpistas tentam ganhar tempo. Como na crise dominicana de 1965: ante a resistência popular, o chefe do golpe pediu socorro aos EUA e os fuzileiros vieram (45 mil) – tropa transformada depois em “força de paz da OEA”. A protelação impediu o presidente Juan Bosch de voltar. (Mais sobre o episódio AQUI; e uma interpretação de Noam Chomsky AQUI)

O exemplo de Wessin y Wessin

Há 45 anos, claro, a moda era outra: o pretexto da “ameaça comunista” justificava golpes militares e intervenções dos EUA. Na época o Brasil dos generais retribuiu a operação Brother Sam (de apoio ao golpe de 1° de abril no ano anterior, contra o “comunista” João Goulart). Enviou as tropas brasileiras comandadas pelo general Meira Mattos, que se somaram à falsa “força de paz”.

Wessin_y_Wessin_650507O cinismo do governo do presidente Lyndon Johnson e dos países que o apoiaram (nosso ditador de plantão, Castello Branco, entre eles) tornou aquele episódio página infame da história continental. Do outro lado lutavam pela democracia as forças constitucionalistas lideradas pelo coronel Francisco Caamaño Deño (mais sobre ele AQUI) e integradas por oficiais jovens e civis.

Com larga adesão popular, a “revolução constitucionalista” tentou sem sucesso restabelecer a Constituição. Bosch tinha sido o primeiro presidente eleito depois da ditadura Trujillo. O líder do golpe foi o general Elias Wessin y Wessin (mais sobre ele AQUI). Junto com outros chefes militares formados à sombra de Trujillo, tinha respaldo no Pentágono.

É oportuno lembrar Wessin y Wessin – retratado na capa da revista Time (foto acima) em seguida ao golpe, como herói da luta contra o comunismo. Ele morreu há apenas três meses, com 84 anos. Morte serena, na cama. Depois daquela crise o general viveu um tempo no luxo em Miami (como em geral ocorre com ditadores e golpistas) mas voltou para integrar vários governos dominicanos.

Zelaya, um novo Juan Bosch?

A intervenção americana de 1965 foi ainda uma das razões da sobrevivência política de outros filhotes da ditadura Trujillo – como Joaquín Balaguer, outra vocação autoritária, que acabaria ocupando três vezes a presidência dominicana, num total superior a 20 anos. Balaguer só morreria em 2002, com 95 anos (mais sobre ele AQUI).

O equívoco dos constitucionalistas de 1965 foi acreditar na promessa dos EUA, ainda no governo Kennedy, de apoiar reformas democráticas no continente. Como o presidente que prometera foi assassinado em 1963, o sucessor Johnson preferiu aderir aos golpistas. Hoje a situação é parecida.Tiempo_090720 Em Honduras e no resto do hemisfério não se sabe até que ponto é real o compromisso dos EUA com a democracia.

Para Zelaya, a protelação reduz o tempo na presidência e favorece a pregação golpista da mídia. E há mais complicadores: a proposta de Árias anula na prática os poderes do presidente; golpistas do legislativo e judiciário serão anistiados e participarão do governo; e a mídia golpista, impune, manterá seu papel nos complôs, atacando e difamando governantes que não se submetem aos interesses dela.

Vale a pena passar os olhos nas edições online dos diários hondurenhos (Tiempo, reproduzido acima, parece mais moderado). Repetem todo dia que Micheletti, instalado pelo golpe, é democrata; e Zelaya, que o povo elegeu, é ditador – “violava a Constituição não uma, mas muitas vezes”, dizem os golpistas. Favorável a estes e tão irresponsável como a do Brasil, a grande mídia de Honduras chama Zelaya de “corrupto”, “golpista”, “chavista”, “comunista”, etc.

Ou um novo Saddam Hussein?

As figuras em fibra de vidro no jardim foram feitas por artista popular em troca de uns trocados. São bregas mas Zelaya (foto abaixo) é presidente, não crítico de arte. O que elas provam é o baixo nível a que desce a mídia partidária dos golpes. O jornal El Heraldo achou gravíssimo as “estátuas” estarem na residência presidencial, mas um leitor contestou o relato.

Dominican Republic Honduras CoupDisse na edição online não ser hoje e nem ter sido antes empregado do governo. E explicou que visitara há algum tempo ateliê no qual são feitas imagens como aquelas. “Soube então que eram dadas de presente a Zelaya, para um evento. O veneno de vocês nesses artigos é incrível. Não sei quem é pior, vocês ou ele”, concluiu.

Os que invadiram a casa presidencial esperaram mais de 20 dias para falar das tais figuras do jardim. El Heraldo, como costuma fazer O Globo, Folha de S.Paulo, Estadão e Veja, ouviu “especialistas”. Um deles, psiquiatra, diagnosticou e definiu a “megalomania” de Zelaya: “É um exagero delirante da própria capacidade, um delírio de grandeza”.

Já um analista político viu naquilo “simbologia típica de ditadores”. Lembrou que “Saddam Hussein mandou erigir estátua gigantesca de si mesmo”. E proclamou com eloquência cívica: “Zelaya julga-se no direito de governar (…) pela eternidade”, precisa de “ajuda psiquiátrica”.

Published in: on julho 21, 2009 at 8:02 pm  Comments (4)  

O “lobby” golpista aposta tudo em Hillary

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Bastaria um mínimo de atenção às fotos da situação em Honduras (acima, militares contra protesto; abaixo, à direita, um ataque a jornalistas; no fim deste post, a reza das marchadeiras) para qualquer um concluir que o golpe militar em nada difere de outros da tradição imposta ao continente para servir aos EUA – desde os tempos da United Fruit (conheça AQUI os versos de Pablo Neruda sobre ela), que deu origem à expressão “república de banana” e nas últimas décadas tem mudado de nome (foi também United Brands, agora virou Chiquita Brands – saiba mais AQUI e AQUI).

HN_ContraTeleSurNo domingo o Los Angeles Times alegou (leia AQUI) que a derrubada do presidente Manuel (Mel) Zelaya é diferente – “exemplo de uma rebelião de novo tipo na luta da América Latina, no qual os líderes da esquerda desafiam o status quo e testam os limites da democracia”. Afirmou ainda: “naquela noite os militares de Honduras desligaram telefones para não ter de falar com autoridades dos EUA”.

Será? Na verdade até o truque de fingir que nada tem a ver com o golpe foi repetido pelos EUA, como no passado (em 1964 o cínico embaixador Lincoln Gordon jurou que o golpe tinha sido “100% brasileiro”). Em Honduras outra semelhança foi a ação precipitada de grupelhos: um general e dois coroneis invadiram a casa de Zelaya de madrugada, arrancaram-no da cama e tornaram o golpe fato consumado ao enfiá-lo de pijama no avião militar.

Um golpe igual a todos os outros

HN_TiempoAo contrário do que disse o Times californiano, nada se inovou, foi um “golpe no velho estilo” – expressão usada por outro jornal americano em 1964, para qualificar o que acontecia então no Brasil. Os ingredientes estão no próprio relato do diário de Los Angeles: elite indignada com gastos em programas sociais, coro da mídia golpista e a palavra piedosa de figurões da Igreja pagos pelos bushistas do National Endowment for Democracy (NED).

Observem o que ocorre agora. Pelo menos mais dois líderes de movimentos populares foram assassinados. Roger Bados (do Bloco Popular e da Resistência Popular, além de membro da coalizão do governo Zelaya), foi baleado e morto em San Pedro Sula. Ramon Garcia foi retirado por militares do ônibus em que viajava e executado. Anunciou-se a suspensão do toque de recolher, mas ele continua em vigor.

Golinger_EvaEssas e outras informações estão no website “Postcards from the Revolution” (AQUI) de Eva Golinger (foto ao lado), advogada venezuelana que atua em Nova York e publicou, entre outros livros, The Chávez Code – Cracking US Intervention in Venezuela, sobre o golpe fracassado de 2002. Ela citou ainda a prisão e expulsão de jornalistas estrangeiros da agência espanhola EFE e de dois canais da Venezuela, Telesur e VTV.

Um jornal de Tegucigalpa citou com ligeireza o fato, atribuindo as prisões insolitamente a “roubo de carro”. O Tiempo (capa no alto, à direita) pode ter sido a exceção, pois contou a história (leia AQUI). Os veículos hondurenhos adotam uma linha golpista semelhante à da mídia brasileira. Filiam-se todos, como a nossa grande imprensa, à notória Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), que se diz defensora da liberdade de imprensa mas tradicionalmente aplaude os golpes apoiados pelos EUA – como o de Pinochet no Chile em 1973.

O lobista e as marchadeiras do cardeal

O golpe trouxe ainda a versão hondurenha da “marcha da família com Deus pela liberdade”. Como os golpistas foram incapazes de obter reconhecimento em qualquer país (até Israel repudiou a idéia), o cardeal Andrés Rodriguez (que recebe dinheiro do NED, a organização dos EUA que patrocina golpes a pretexto de defender a democracia) faz concentrações e rezas em vários países imploranddo a Deus pelo sucesso do golpe.

Davis_LannyO dado mais preocupante, revelado pelo New York Times (leia AQUI), é sobre uma ofensiva de relações públicas lançada pelos golpistas nos EUA. Segundo o jornal, já trabalha nesse sentido junto à secretária Hillary Clinton (de quem foi conselheiro na campanha presidencial de 2008) o lobista Lanny J. Davis (foto ao lado), ex-advogado pessoal do presidente Bill Clinton na Casa Branca. Outro ligado a Clinton que já estaria a serviço dos golpistas é Bennett Ratcliff, da Califórnia.

A ofensiva golpista nos EUA pode revelar-se decisiva. Se Barack Obama declarou-se no primeiro momento pelo imediato retorno ao poder do presidente legítimo (Zelaya), sua secretária de Estado tem sido ambígua. Agora, destacou Golinder, Hillary pode até já ter concordado com cinco condições (exigidas pelos golpistas) que ameaçam reduzir Zelaya a uma figura decorativa:

  1. Zelaya teria a presidência mas não o poder;
  2. Ficaria proibido de insistir no plano de reforma da Constituição ou mesmo de realizar referendos ou votações de qualquer natureza;
  3. Seria obrigado a se distanciar do presidente venezuelano Hugo Chávez;
  4. Compartilharia a governança com o Congresso e os golpistas até o fim do mandato;
  5. Assumiria o compromisso de anistiar os envolvidos no golpe.
“El negrito que no sabe de nada”?

HN_OrtezColindres_chancelerTambém nisso o golpe de Honduras imita o Brasil – de 1961, quando militares golpistas exigiram que se retirasse os poderes de João Goulart antes de empossá-lo. Nada destoa do figurino clássico do golpe latino-americano, até por ter nascido em Honduras a expressão banana republic. Só o que difere é a reação inicial de Obama, enfático no repúdio. Terá ele depois deixado a bola para o Departamento de Estado que herdou de Bush?

Ali dois veteranos do golpe venezuelano de 2002, Thomas A. Shannon e Hugo Llorens, tentam sob a liderança da secretária Hillary desconstruir Obama. Shannon está onde Bush o colocou – é secretário assistente para assuntos hemisféricos, o mesmo posto no qual seu ex-chefe cubano Otto Reich encaminhara o outro golpe (revertido em 48 horas). E em Tegucigalpa está Llorens, enviado no ano passado por Bush.

Quadro perfeito para o contágio no continente, onde a mídia parece atraída por um modelito “diferente” – a new kind of coup, na expressão do Los Angeles Times – para responder ao que a elite latino-americana teme como ameaça a séculos de sua perversidade social. Só não faz sentido ver Obama metido no papel de um Bush obcecado por Chávez, já que sua promessa foi o contrário: mudança.

Estará nos planos do presidente americano, a reboque da secretária de Estado, tal confraternização promíscua com a insaciável elite branca, tão bem representada na figura grotesca de Enrique Ortez Colindres (foto acima, à esquerda), ministro do Exterior do golpe, que escancarou o racismo ao reagir ao repúdio de Obama? “Ele é só um negrinho que não sabe de nada”, disse (saiba mais AQUI). Colindres, claro, teve de cair fora. Mas o resto da turma, da mesma linhagem nobre, confia na loura Hillary.

(E observem abaixo o fervor fanático na reza das marchadeiras pelo golpe)

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Published in: on julho 14, 2009 at 11:15 pm  Comments (4)  

A diplomacia sinuosa dos EUA em Honduras

US Honduras

Circulam versões desencontradas, desde o primeiro momento, sobre a posição dos EUA frente ao golpe militar que derrubou e sequestrou o presidente legítimo de Honduras, Manuel (Mel) Zelaya, suspendeu as garantias constitucionais e instalou no poder o oligarca Roberto Micheletti. O presidente Obama foi explícito e enfático na reação inicial, o Departamento de Estado não.

Ambígua desde sua declaração inicial, a secretária Hillary Clinton (foto acima) tenta a mágica duvidosa de transferir ao presidente Oscar Arias, da Costa Rica, uma mediação que deveria caber à OEA. Paralelamente, surgem informações das habituais fontes anônimas do Departamento de Estado para alimentar a alegação golpista que atribui culpa à Venezuela – ou países simpáticos ao presidente Hugo Chávez.

Mais sensato, no entanto, seria revisitar o papel recente de diplomatas herdados pelo governo Obama do antecessor Bush, cuja obsessão pela derrubada de Chávez encorajava golpes – como o de abril de 2002, que depôs o presidente da Venezuela mas foi revertido 48 horas depois pela reação popular.shannon_thomas Pois a secretária Hillary ainda mantém bushistas fora de controle em cargos sensíveis.

Um daqueles diplomatas, Thomas A. Shannon (foto à direita), atualmente espera que o Senado confirme seu nome para chefiar a missão dos EUA no Brasil. Mas ainda ocupa o cargo de escalão superior para o qual Bush o nomeou: secretário de Estado assistente para assuntos do hemisfério ocidental. Nele supervisiona, entre outros, o estranho embaixador dos EUA em Honduras, Hugo Llorens, cubano de nascimento (leia AQUI uma violenta crítica aos dois feita pela resistência hondurenha ao golpe).

Os americanos no complô do golpe

HN_LlorensPara substituir Shannon o presidente já indicara (e ainda espera a confirmação do Senado) o chileno de nascimento Arturo Valenzuela (saiba mais sobre ele AQUI), qualificado por sua carreira acadêmica e passagens anteriores (no governo Clinton) pelo Departamento de Estado e Casa Branca (Conselho de Segurança Nacional). O golpe hondurenho atropelou Obama sem Valenzuela, com Shannon em posto chave e Llorens (foto ao lado) em Tegucigalpa, enviado um ano antes por Bush. E vale a pena ler ainda (AQUI) a biografia oficial do adjunto de Llorens, Simon Henshaw, que cursou o National War College (Escola Superior de Guerra) e serviu no setor de assuntos cubanos do Departamento de Estado.

Remanescentes do governo passado, ambos acompanharam na intimidade a marcha do golpe de Honduras. Como relatou o New York Times a 30 de junho (AQUI), eles falaram antes com os chefes militares e líderes da oposição que preparavam o golpe, supostamente para encontrar uma “saída para a crise”. Antes do golpe! Não se sabe o que os dois disseram. Mas depois de o dizerem os golpistas, confiantes, tiraram o presidente da cama, de pijama, e o enfiaram num avião para fora do país.

O cientista político Valenzuela (foto abaixo, à direita), democrata e autor de livros críticos dos golpes militares no continente, apoiaria isso? Dificilmente. Shannon ainda reza pelo catecismo de Bush. E Llorens, subordinado a ele, foi uma das 14 mil crianças mandadas de avião de Cuba para MiamiValenzuela pelos pais entre 1960 e 1962 na infame operação Peter Pan da CIA (muitas delas ficaram marcadas o resto da vida pelo trauma).

Como impor na Casa Branca uma política externa contrária ao golpismo militar na América Latina? Obama até começou bem. Na reunião da OEA em Trinidad ele afirmou seu compromisso com a democracia, declarando-se ainda pronto a aprovar a volta de Cuba à organização – da qual a ilha fora expulsa 50 anos antes pelos EUA (não por falta de democracia, pois votos de dois ou mais ditadores tiveram então de ser comprados com suborno).

Otto Reich e os cubanos de Miami

Shannon e Llorens viveram situação semelhante à atual em 2002, no golpe contra Chávez. Um tratava então de questões andinas (Venezuela entre elas) no Departamento de Estado, como adjunto do secretário assistente Otto Reich, lobista anti-Cuba e padrinho do golpe; o outro cuidava do mesmo assunto no Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca, junto com Elliot Abrams (do escândalo Irã-Contras).

Como a nomeação de Reich era precária (se fosse submetida ao Senado, teria sido rejeitada devido às travessuras dele também no escândalo Irã-Contras), depois do fracasso do golpe seu cargo de secretário assistente para assuntos hemisféricos ficou para o subordinado Shannon, diplomata de carreira que já fora conselheiro político na embaixada de Caracas. E Llorens seguiria depois para Honduras.

HN_OscarAndrés_Rodriguez_cardenalNão se deve personalizar a dupla Shannon-Llorens, pois há outro complicador – o conspícuo NED (National Endowment for Democracy: Dotação Nacional para a Democracia). Essa organização (mais sobre ela AQUI e visite seu site, AQUI) foi criada no governo Reagan, em meio aos banhos de sangue “em defesa da democracia”. Tem o faculdade de injetar dinheiro público (da USAID) e privado na política interna de outros países do hemisfério. Que o diga o piedoso cardeal Oscar Andrés Rodrigues (foto): em troca dos dólares do NED vocifera hoje contra Zelaya e Chávez.

O expediente resultou das dificuldades no Congresso (de maioria democrata) para o presidente Reagan financiar suas aventuras sangrentas, em especial na América Central. A guerra secreta da CIA (que recrutava, vestia e armava os mercenários “contras” para atacar a Nicarágua) a partir do território de Honduras (tudo pago com os lucros da venda clandestina de armas ao Irã) foi o modelo conspícuo.

O vocabulário novo dos golpistas

O NED ainda sobrevive, paradoxalmente graças a favores aos dois partidos (leia dura crítica a ele e ao IRI AQUI). Através de seu IRI (International Republican Institute – vá ao seu site AQUI), os republicanos – cuja corrupção tem alarmado os EUA – acumulam dinheiro e recorrem a vocabulário orwelliano do tipo “promoção da democracia”, “combate à corrupção”, “boa governança”, etc. O propósito real é patrocinar golpes como o da Venezuela em 2002 e o de Honduras mas há uma nova OEA, atenta (na foto, a argentina Cristina Kirschner com Zelaya na sua sede em Wasshington).Zelaya_Cristina_enWashington2

Com abundância de recursos o republicano IRI e o democrata NDI (National Democratic Institute for International Affairs – AQUI) criam ONGs com programas próprios. Como o CIPE (Center for International Private Enterprise), de empresários republicanos; e o ACILS (American Center for International Labor Solidarity), de sindicatos democratas. Com eles infiltram-se metas da política externa dos EUA na sociedade civil de outros países (como fazia a CIA na guerra fria). Desta vez a nova OEA, com  o chileno José Miguel Insulza (foto abaixo) à frente, agiu prontamente, mas foi paralisada por uma diplomacia americana minada pela herança sinistra de Bush e cubanos de Miami.

O papel do NED (mais IRI, NDI & penduricalhos) e da USAID ficou fartamente exposto na investigação do Inspetor Geral do Departamento de Estado sobre a ingerência no golpe de 2002 na Venezuela (leia AQUI a íntegra).HN_Insulsa2 O erro do relatório foi absolver a-priori a ação – ilegítima por corromper políticos a pretexto de “combater a corrupção” e patrocinar golpes em nome da “democracia” e “boa governança”.

Uma frase que confessa tudo isso foi dita em 1991 pelo notório intelectual de direita Allen Weinstein (mais sobre ele AQUI), um dos fundadores do NED: “Boa parte das coisas que estamos fazendo hoje eram feitas clandestinamente, há 25 anos atrás, pela CIA, Agência Central de Espionagem”. De fato: ontem, a derrubada de governantes eleitos no Irã, Guatemala, etc; hoje, a mesma coisa no Haiti, Venezuela, Honduras – e os que ainda virão se o golpismo ficar impune.

(Clique no YouTube abaixo para ver a homenagem aos que resistem ao golpe)
Published in: on julho 11, 2009 at 12:10 pm  Comments (4)  

Honduras, a OEA e o papel dos EUA

Honduras_fotoAP

Quando o recém-empossado ditador de Honduras, Roberto Micheletti, principal beneficiário até agora do golpe militar que depôs o presidente legítimo Manuel Zelaya (foto abaixo, à esquerda), eleito pelo voto popular, decidiu mandar às favas a OEA (Organização dos Estados Americanos), pode ter dito algo que muitos gostariam de ter ouvido, no passado, de presidentes latino-americanos: “Vá para o inferno. Não precisamos de vocês”. (Mais sobre o golpe AQUIAQUI)

ZelayaNo quadro continental, seria um avanço se tivesse ocorrido há algum tempo, pois nenhum país abaixo da fronteira EUA-México precisava de uma organização cujo papel consistia em subordinar a América Latina e o Caribe aos interesses políticos e econômicos de Washington. A diferença é a OEA, que em 1965 legitimou com tropas a invasão da República Dominicana pelos EUA, ter passado a rejeitar os golpes e invasões (mais sobre a invasão AQUI).

Cúmplice da prepotência dos EUA em 1965, ela foi omissa ou apoiou a derrubada de governantes escolhidos pelo povo e tirados por militares golpistas – mau hábito iniciado com a Guatemala em 1954 e que ainda incluiria o cone sul, Brasil (64), Uruguai (72), Chile (73) e Argentina (76), sem falar nos banhos de sangue da política ensandecida de Ronald Reagan na América Central. A conversão da OEA à democracia exigiu décadas.

Doutrina Monroe e outras torpezas

Antes a organização era instrumento conveniente a que recorriam sucessivos governos dos EUA na tentativa de legitimar suas invasões e intervenções militares. Servia tanto para consolidar os golpes como para levantar o ego dos ditadores amigos – os Somoza, Duvalier, Trujillo, Batista, Perez Jimenez, Stroessner, etc, para não falar nos muitos regimes submissos, das bananas da América Central ao petróleo da Venezuela.

No passado mais remoto o temor à independência das colônias espanholas já tinha levado os EUA a ignorar o sonho de Simon Bolivar e inventar a infame doutrina Monroe – outro pretexto para intervenções.Rogers_WilliamD Nascida em 1948, a OEA tornou-se ainda executora do igualmente infame TIAR (Tratado Inter-Americano de Assistência Recíproca), filhote da guerra fria, que a ela atrelou o continente em 1947.

Pelo menos um diplomata americano – William D. Rogers (foto à direita – e saiba mais sobre ele AQUI), então respeitado como especialista em problemas latino-americanos – teve certa vez o bom senso de recomendar a saída dos EUA da OEA, por achar que isso a fortaleceria ao permitir que se concentrasse nas questões regionais legítimas, “os interesses comuns das nações da América Latina”. Rogers explicou ainda:

“A medida poria fim à acusação de que a OEA é dominada pelos EUA. Permitiria ainda aos EUA terem na organização o mesmo status atual de observador mantido pelos países europeus. Além disso, seria como um exemplo aos soviéticos e à Europa Oriental. E nós abriríamos mão de nossos esforços penosos e às vezes até ridículos para manter ali um ‘perfil baixo’ para o nosso país enorme”.

Uma escola para formar golpistas

Aquela opinião de Rogers, que morreu em setembro de 2007, foi manifestada em 1973. Ele poderia ter feito alguma coisa em relação à OEA, pois em seguida à renúncia do presidente Nixon (1974) foi chamado (no governo Ford) pelo secretário Kissinger_1970Henry Kissinger (ao lado, numa foto da época) para o Departamento de Estado, onde se tornou secretário Assistente para Assuntos Interamericanos e sub-secretário para assuntos econômicos.

Kissinger e Gerald Ford não deviam simpatizar com a idéia de Rogers – e este, por sua vez, aproximou-se demais do ex-secretário de Estado nos anos seguintes, como sócio e vice-presidente no rendoso escritório de consultoria Kissinger Associates. A ponto de defendê-lo na controvérsia em torno de um dos crimes nefandos dele, a ingerência americana a favor do golpe de setembro de 1973 no Chile, único país que defendera antes a saída dos EUA da OEA (mais AQUI, AQUI e AQUI sobre a controvérsia e a crítica devastadora do historiador Kenneth Maxwell a Kissinger e Rogers).

O empenho de sucessivos governos dos EUA para manter o controle da OEA, cuja sede fica a poucas quadras da Casa Branca, foi outro obstáculo à idéia. Embora a dominação escandalosa faça ainda menos sentido depois da guerra fria, vale citar mais ações e instrumentos usados pelos EUA para impor a dominação – WHINSEC_logocomo a infame Escola das Américas (School of the Américas, SOA) do Exército dos EUA.

Ao invés de fechá-la depois de sucessivos escândalos envolvendo militares da América Latina formados ali (muitos viraram ditadores, torturadores ou chefes da espionagem), o Pentágono optou apenas por trocar o nome dela. Rebatizou-a como Instituto do Hemisfério Ocidental para Cooperação de Segurança – ou, em inglês, Western Hemisphere Institution for Security Cooperation (WHINSEC – veja seu logo acima).

Galtieri_Leopoldo

O embaixador, o general e os ditadores

Com nome tão extenso e sigla tão difícil de decifrar, o Pentágono achou que mal seria notada. Mas opositores que monitoram a atividade dela (como o “School of the Americas Watch”, SOAW – conheça seu website AQUI) mantêm vivos o nome, a vigilância e o passado sinistro da SOA, por onde passaram ditadores conspícuos (Leopoldo Galtieri, o da foto ao lado; Efraín Rios Montt, Hugo Banzer, Manuel Noriega) e até terroristas (como Posada Carrilles, cubano de Miami).

Dentro dos EUA, grupos religiosos e outros não esquecem as vítimas torturadas ou mortas em vários países por alunos da escola. Desde 1990 renovam protestos a cada ano em Ft. Benning, Georgia, onde a escola continua a funcionar sob o atual disfarce de WHINSEC. Os protestos são em novembro, mês no qual 27 militares de El Salvador (19 formados na SOA) assassinaram seis padres jesuítas em 1989.

Negroponte_JohnEm Honduras, de onde o governo Reagan – ali representado pelo embaixador John Dimitri Negroponte, o da foto à esquerda (mais sobre ele AQUIAQUI) – lançou sua guerra secreta, dos “contras”, na década de 1980, contra a Nicarágua, o homem-forte era o general Gustavo Álvarez Martínez, um ex-aluno da SOA que criou o 316° Batalhão de Inteligência Militar, responsável por assassinatos políticos, torturas, cadeias secretas e outras atrocidades (mais sobre os crimes de Álvarez e dos militares hondurenhos AQUIAQUI).

Assassinado em 1989, o general Álvarez – símbolo do momento em que o país era uma espécie de porta-aviões para as agressões dos EUA a vizinhos da região – ainda parece, com sua carreira sinistra, o exemplo para os atuais militares hondurenhos. Formado na SOA, ligou-se ainda à Argentina dos generais e frequentava as folhas de pagamento da CIA e da United Fruit (hoje Chiquita Brands). E obedecia a Negroponte.

Published in: on julho 7, 2009 at 1:10 am  Comments (3)