O salto da CNN que ameaça a Fox News

O candidato democrata Barack Obama, como costumo lembrar, já fez história ao se tornar o primeiro negro a ter sua indicação presidencial aprovada num dos dois grandes partidos dos EUA. Ele ainda corre o risco de contribuir para outros marcos. Por exemplo, a derrubada da Fox News Channel (FNC) da liderança na audiência das redes de TV a cabo dedicadas exclusivamente ao jornalismo.

Um indício claro de que isso poderá acontecer foi registrado no último sábado pelo New York Times (leia AQUI), com base em pesquisa Nielsen (o ibope deles). Graças à campanha democrata, a audiência no horário nobre das duas redes rivais da FNC – a CNN, do império Time Warner, e a MSNBC, criada numa associação entre a NBC (propriedade da General Electric) e a Microsoft – cresceu bem mais do que a do império de Rupert Murdoch.

Observe acima o quadro publicado pelo Times. A Fox ainda lidera a audiência, mas por causa dos mais velhos. A mudança, conforme destacou a reportagem, ocorreu precisamente na faixa etária que mais atrai os anunciantes e as agências de propaganda – a dos 25 aos 54 anos de idade. Entre os telespectadores desse grupo, a audiência no horário nobre da FNC era antes mais do dobro da CNN: 530 mil contra 248 mil. Mas de janeiro a junho deste ano de 2008 a Fox caiu para 440 mil e a CNN subiu para 420 mil.

O formato que Turner criou

Esses números equivalem a um quase-empate. O salto da CNN foi superior, em média, a 170 mil telespectadores, a cada noite, no horário mais cobiçado da TV. Ao mesmo tempo, a FNC perdia nada menos de 90 mil. A outra rival, MSNBC, cresceu ainda mais que a CNN: 181 mil, em boa parte empurrada pelo programa do liberal Keith Olbermann (foto abaixo, à direita) – uma ameaça direta a Bill O’Reilly, o campeão de audiência da FNC.

Ironicamente o grande avanço inicial da FNC, nascida em meados da década de 1990, tinha sido favorecido pela política: primeiro, a euforia republicana com o escândalo de sexo que quase derrubou o presidente Clinton; depois, o roubo de votos na Flórida para eleger George W. Bush presidente; e, finalmente, a histeria patrioteira abraçada por ela depois do terrorismo de 11 de setembro de 2001.

O inventor desse formato de rede de cabo dedicada ao jornalismo nas 24 horas do dia foi o magnata Ted Turner, suficientemente ousado para bancar em Atlanta, na Georgia, seu desafio às três gigantes da TV aberta – CBS, ABC e NBC – que tinham consolidado bases sólidas, simultâneas, tanto na costa leste (Nova York) como na costa oeste (Los Angeles).

A programação das grandes redes incluia mil coisas (filmes, entretenimento, novelas, shows) além daquele jornalismo de credibilidade na TV, simbolizado então pelo noticiário das seis e meia da noite, em rede nacional, com âncoras como Walter Cronkite. “Se perdi Cronkite, perdi a América”, queixou-se com realismo o presidente Johnson ao reconhecer, depois de uma crítica do âncora da CBS, a falta de apoio para sua guerra no Vietnã.

A aposta no conservadorismo

A audiência nos anos seguintes ainda continuou favorecendo majoritariamente as três grandes redes. Até o período de Dan Rather na CBS, Peter Jennings na ABC e Tom Brokaw na NBC. Os três (leia AQUI uma análise feita em 2005 pela American Journalism Review sobre o trabalho deles) ainda reinaram nas décadas de 1980, 1990 e início da de 2000, mas passaram a perder terreno. Lançada a CNN em 1980, ninguém acreditara no projeto de Turner. Ainda assim ele mudou hábitos e acabaria por impor aos poucos o jornalismo “all news”.

Só depois de ter a cobertura da guerra do Golfo, em 1991, consolidado o sucesso da CNN, as três grandes redes, preocupadas, anunciaram a intenção de criar canais para competir no jornalismo de TV a cabo. Uma delas, a NBC, concretizou a idéia (com a MSNBC), as demais desistiram. Mas Murdoch, depois de firmar uma quarta rede aberta nos EUA, a Fox, decidiu lançar a FNC para desafiar a posição privilegiada da CNN.

O império de mídia de Murdoch tivera início na Austrália, onde ele nasceu. Na Grã-Bretanha, entrou comprando tablóides de escândalos (mas hoje até o tradicional The Times já é dele) e aliou-se aos conservadores de Margaret Thatcher. Nos EUA enfrentou resistências e teve de naturalizar-se americano para entrar no mercado de TV, sempre contando com apoio republicano – desde o governo Reagan.

Ao ser criada a FNC, rede de cabo, o governo era democrata (Clinton), mas a oposição republicana acabara de ganhar (em 1994) o controle das duas casas do Congresso. A direção da rede foi entregue a Roger Ailes, que nunca fora jornalista. Ailes era formado em política partidária: só tinha experiência na área de relações públicas, tendo trabalhado na Casa Branca durante os governos Reagan e Bush I (o pai).

Errando e pedindo desculpas

A aposta de Murdoch foi sempre política, a ponto de investir (financiando desde o primeiro número) e bancar a revista ideológica dos neoconservadores – Weekly Standard, que se anuncia desde 2001 como a mais lida na Casa Branca. Neocons notórios como William (Bill) Kristol, Charles Krauthammer e Fred Barnes são presenças predominantes, diariamente, nos debates políticos da FNC.

Mesmo criada à imagem e semelhança da CNN, de tendência liberal, a FNC buscou ser mais dinâmica, provocadora e agressiva. Sua aposta maior foi ideológica. Os talk shows denunciavam o resto da mídia como parcial (a favor do Partido Democrata) e liberal (contra os conservadores). Na crise do impeachment seu moralismo seria derrotado no julgamento do Senado; mas depois ela ganhou seguidamente, com Bush na Flórida (graças à Suprema Corte) e na histeria patrioteira depois do 11/9.

Na campanha eleitoral de 2008 teve conduta facciosa no único debate dos democratas que promoveu. Em razão disso, foi preterida, em favor da CNN, da NBC e da ABC nos demais – o que ajudou a empurrar a audiência da principal rival. Aparentemente, a declaração recente de Murdoch (foto à direita) de que talvez vote em Obama foi uma tentativa de reabilitar a imagem declinante da FNC. E nas últimas semanas ela ainda se viu constrangida a pedir desculpas pelo menos três vezes por declarações mentirosas ou levianas contra o democrata Obama (leia AQUI uma crítica dura do candidato às distorções deliberadas da FNC).

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Published in: on junho 30, 2008 at 4:01 am  Deixe um comentário  

A lua de mel de Bush e Sarkozy

O presidente Bush está em lua de mel com o francês Nicolas Sarkozy (leia AQUI os discursos dos dois na Casa Branca no dia 6 de novembro de 2007). Mais sensato, no entanto, seria entender que a política exterior da França não mudou – e estudar a análise feita há cinco anos pelo professor Stanley Hoffman, de Harvard, autor de livros de política internacional e questões européias (leia AQUI seu artigo em The Nation a 29 janeiro de 2004). Ele registrou dois pontos críticos nas relações dos EUA com a França. Primeiro, a maneira como a divergência foi tratada em Washington às vésperas do ataque ao Iraque.

No passado o general De Gaulle tinha alertado os EUA para mudar o rumo equivocado no Vietnã – prevendo o desastre iminente. Nunca foi perdoado. Houve então uma divergência séria. A França raciocinava a partir de sua própria derrota na Indochina em 1954, após oito anos de guerra sangrenta. Sabia que os EUA agiam como protetores do regime fantoche de Saigon, a pretexto de combater a “agressão comunista”. O presidente Johnson julgava maliciosa e anti-americana a interpretação francesa de que os EUA estavam em confronto com o nacionalismo vietnamita.

Para Kennedy e Johnson, os soldados americanos eram benvindos no Vietnã, como protetores contra o comunismo. O caráter colonialista do conflito só foi reconhecido pelos EUA depois de oito anos de guerra e 58 mil soldados americanos mortos. Houve ressentimento na época pela posição do general De Gaulle, mas isso não se fez acompanhar, segundo Hoffman, de um assalto geral à França, como ocorreu na divergência com o neoconservadorismo bushista sobre o Iraque (leia AQUI outra reflexão dura de Hoffman sobre a política externa de Bush na New York Review of Books de 12 de junho de 2003).

Pecado da França foi estar certa

Em 2005 a nova secretária de Estado Condoleezza Rice recebeu a missão de atrair a França de volta, mas sem admitir que os franceses estavam certos e o governo Bush errado. A França queria continuar as inspeções de armas enquanto Bush partia de uma ficção – a suposta existência das tais armas proibidas. Na etapa seguinte, a França recomendou o pronto restabelecimento da soberania do Iraque, mas os EUA insistiram na fase da ocupação militar – um novo desastre.

O que Bush tentou em 2005 não foi exatamente recompor a aliança com a França e sim convencê-la a dividir com os EUA as consequências dos erros americanos, para os quais Bush fora advertido por Paris. A França apoiara o aliado e fora à guerra com ele no Afeganistão. Ao se opor ao erro no Iraque, tornara-se alvo de campanha destrutiva e orquestrada (até contra o consumo nos EUA de vinho francês), cheia de insinuações malévolas, distorções e mentiras. Por que teria depois de arcar com o ônus?

Buscara-se desacreditar os argumentos e a própria França. Hoffman (foto à esquerda – e saiba mais sobre ele AQUI e AQUl) observou que a campanha só parou “depois que o embaixador francês enviou à Casa Branca a lista das maiores mentiras. Era falsa a alegação de que a França opusera-se a qualquer guerra contra Saddam Hussein: os franceses tinham apenas informado Bush de que dariam tropas se houvesse prova de que o Iraque não admitia livrar-se das supostas armas proibidas.

As mentiras e a prepotência

Pouco antes da guerra do Iraque os franceses ainda ofereceram uma solução de compromisso, segundo a qual os EUA interpretariam a ambígua resolução 1441 do Conselho de Segurança, de novembro de 2002, como fundamento para sua ação contra o Iraque; enquanto a França e outros países apenas manifestariam sua divergência. Isso teria evitado uma votação. O Conselho, assim, não ficaria dividido na segunda resolução.

Mas Bush, prepotente e arrogante, preferiu ridicularizar as inspeções de armas (até comparou Hans Blix ao “inspetor Clouseau”) e insistir na escalada retórica – “quem não está conosco está contra nós”, “cada um que mostre suas cartas”. Naquela bobajada texana de pôquer, o alvo do desafio era a França. O governo Chirac limitou-se a advertir os EUA: “se houver votação, vocês perdem”. Só à última hora Bush caiu na realidade e desistiu do voto. Ignorou então a posição idêntica de outros (Alemanha, Rússia, China, até Chile e México) e dirigiu sua ira contra a França, cujo pecado foi estar certa e advertir lealmente o aliado.

O segundo ponto destacado por Hoffman foi sobre a própria posição francesa. Jacques Chirac discordou por várias razões. De algumas delas participavam também críticos americanos da obsessão neoconservadora de forçar a guerra. Para a França, era absurdo considerar o Iraque, enfraquecido pela derrota de 1991 e anos de inspeções e sanções, “perigo iminente e claro”. Afinal, até a União Soviética, superpotência nuclear, fora contida durante 40 anos.

Tentando dividir os europeus

Os franceses – como também o general Brent Scowcroft, que antes tinha assessorado Bush pai na Casa Branca – temiam que o efeito da guerra no Iraque seria desviar atenção e recursos do combate ao terrorismo e ainda atrair terroristas para novo front (o que de fato aconteceu). Enfatizavam a importância do Direito Internacional e instituições como ONU, OTAN e União Européia num mundo inderdependente no qual nenhuma potência deve impor sua vontade.

A linha dura do governo Bush, com desprezo pelas normas internacionais, pela ONU e pelas alianças estabelecidas, namorou abertamente o unilateralismo e o expediente obceno batizado de “coalition of the willing” (coalizão de “voluntários” – na verdade, de “submissos”), e hostilizando o que chamou de “velha Europa”. Finalmente, Hoffman (veja à esquerda a capa de seu livro de 2004 sobre o Iraque e a tentação imperial dos EUA – e saiba mais AQUI) viu três componentes na preferência da França pelas inspeções ao invés de guerra:

1. Confiança na capacidade e alcance das inspeções, como na objetividade e rigor de Hans Blix, chefe da equipe de inspetores internacionais de armas;

2. Mesmo sem simpatia por Saddam, a França relutava em apoiar guerra para mudar um regime, receita potencial de caos no mundo, ou impor democracia à força aos árabes;

3. Com 5 milhões de muçulmanos no país e longa experiência de terrorismo, era natural que encarasse com apreensão outra tese bushista, a do “choque de civilizações”.

Published in: on junho 28, 2008 at 4:16 am  Deixe um comentário  

Os republicanos e o “candidato da Manchúria”

Desde fevereiro tenho sugerido aqui que durante a campanha, até as eleições de novembro, o democrata Barack Obama será difamado como “candidato da Manchúria”. É esse o título original (The Manchurian Candidate) do filme Sob o Domínio do Mal, dirigido em 1962 por John Frankenheimer e baseado na ficção política (mesmo título) de Richard Condon, refilmada por Jonathan Demme em 2004.

No bombardeio leviano a que Obama está submetido, iniciado pela adversária democrata Hillary Clinton ainda nas primárias, ele já chegou bem perto disso, graças à “culpa por associação”, no estilo macarthista. E agora há dois livros a caminho e uma enxurrada de ataques na mídia que já o tratam abertamente como “o candidato da Manchúria”.

Fiz referência terça-feira a um livro em preparo, The Case Against Barack Obama – The Unlikely Rise and Unexamined Agenda of the Media’s Favorite Candidate, escrito por autor ultraconservador, David Freddoso, e a ser lançado por editora de extrema direita, a Regnery Publishing, a mesma que bancou em 2004 a difamação de John Kerry sob o título Unfit for Command.

Pior do que Bush e Cheney

A livraria virtual Amazon.com já está aceitando encomendas de The Case Against Obama, que por enquanto tem uma capa temporária porque só estará à venda no dia 4 de agosto. Mas, para minha surpresa, desde o início de junho a Amazon.com oferece outro livro que chama Obama de “candidato da Manchúria”. Trata-se de Obama, the Postmodern Coup: The Making of a Manchurian Candidate.

O autor, Webster Giffin Tarpley, apresenta-se como “especialista em espionagem e historiador” e descreve Obama como “personalidade profundamente perturbada” e “títere megalomaníaco para o golpe posmoderno das agências de espionagem, usando pesquisas falsas, turbas de adolescentes, doadores super-ricos e histeria orquestrada na mídia para subverter a política normal e tomar o poder”.

Qualquer um minimamente sensato fica tentado a filiar Tarpley – como os dois “colaboradores” que cita, Bruce Marshall e Jonathan Mowat – à escola tradicional de malucos e paranóicos. Até porque a contra-capa do livro oferece pistas sugestivas. A serviço da Trilateral, segundo diz, Obama quer confrontar a China e a Rússia, sendo por isso “muito mais perigoso para os EUA do que a aventura de Bush-Cheney no Iraque”.

Sob o controle de Brzezinski

Observem também este trecho: “Obama vem da órbita da Fundação Ford e nunca ganhou eleição em disputa verdadeira. Seu guru e controlador é Zbigniew Brzezinski, revanchista enlouquecido que odeia a Rússia e há 30 anos dominou o catastrófico governo de Jimmy Carter. Todas as indicações são de que Brzezinski recrutou Obama quando este era estudante na Universidade de Columbia”.

Todo esse texto (reforçado com mais meia dúzia de desatinos) aparece sob um título geral na contra-capa: The Making of a Manchurian Candidate. Há ainda um cartum de três quadrinhos: no primeiro Hillary Clinton promete declarar guerra ao Irã e é chamada de maluca. No segundo, o fantasma de Brzezinski põe um míssil nuclear na mão de Obama, que no terceiro esgoela: “Temos de atacar a Rússia”.

A capa oferece algo também contundente: a foto de Obama de terno e gravata, levantando o braço esquerdo (aparentemente num comício) é colocada ao lado de outra, na qual o ditador Benito Mussolini, em uniforme militar pomposo e cheio de condecorações, levanta o braço direito na saudação fascista. Só faz sentido, talvez, por expor o que se passa na cabeça conturbada do autor.

O “golpe posmoderno” de Obama-Brzezinski, assim, pode até ser uma piada inofensiva. Já o The Case Against Barack Obama (veja a capa provisória abaixo, à direita) da Regnery foi feito para complementar o futuro bombardeio de comerciais sórdidos na TV. Tende a ter efeito negativo semelhante ao outro, Unfit for Command, publicado pela mesma editora que em 2004 reforçava a campanha do assassinato da reputação de John Kerry.

A arrogância do gigante cruel

O republicano John McCain tinha em 2004 relações tão boas com Kerry que condenou publicamente o livro e os comerciais. Houve até um boato de que seria vice da chapa democrata. Agora o boato é outro: McCain, crítico feroz – e alvo – de Karl Rove no passado, pode estar acreditando que sua única esperança de vencer em 2008 é recorrendo a difamação como aquela, a cargo de alguém com o caráter de Rove.

A semelhança é grande demais para ser subestimada. Sem vínculo oficial com a campanha (seu único papel é o de comentarista do império Murdoch, na Fox News e no Wall Street Journal), Rove está à vontade para comandar, ostensivamente ou não, a sórdida operação paralela. Sua ferocidade ontem no Journal surpreendeu: ele proclamou em sua coluna que será a pessoa de Obama o tema da campanha, a ser centralizada na “arrogância” dele (leia AQUI a íntegra no Journal).

Que arrogância? Rove pinça algo aqui e ali, sob uma única ótica – coisa que já fazia com seus “talking points” na Casa Branca, ao atacar a oposição. É como se Davi (John McCain), herói de guerra e ex-prisioneiro torturado, humilde e bondoso, enfrentasse com uma funda o todo-poderoso Golias (Obama), egoista e egocêntrico, que põe ambição e interesse pessoal acima de tudo. Contra o gigante impiedoso e cruel, por que não usar jogo sujo?

A ironia é a ficção política – um espião infiltrado na política para eleger-se presidente – ter contribuído para um projeto nas comunidades militar e de espionagem, o MK Ultra, com experiências extremas de lavagem cerebral e controle da mente e resultados desastrosos. O que levou o pesquisador John Marks a publicar em 1991 o estudo The Search for the Manchurian Candidate – The CIA and Mind Control, A procura do candidato da Manchúria – a CIA e o controle da mente (saiba mais AQUI sobre esse livro).

Published in: on junho 27, 2008 at 2:52 am  Comments (1)  

Lições da fraude de Ohio que reelegeu Bush

Em ano de eleição presidencial o tema é obrigatório – até por ser subestimado, mesmo tendo recebido alguma atenção em 2004. Na campanha daquele ano o secretário de Estado Kenneth Blackwell, de Ohio, repetiu a fraude de Katherine Harris na Flórida em 2000. Mas em 2006, ironicamente, tanto o eleitorado de Ohio derrotou Blackwell para governador como o da Flórida repudiou Harris para o Senado.

Você se lembra da mulher esquisita da foto ao lado? É Harris. Em 2000 ela era co-presidente da campanha presidencial de George W. Bush, apesar de ter a responsabilidade de conduzir com neutralidade e lisura um processo eleitoral honesto na Flórida. Blackwell, com  idêntica missão eleitoral em 2004, fora presidente honorário da campanha para reeleger Bush. A diferença foi ter havido em Ohio uma crônica da fraude anunciada: tudo ocorreu exatamente como fora previamente denunciado.

Vale uma reflexão. Os EUA sonham com convenientes mudanças de governo no mundo sem o desgaste de seu apoio habitual, desde o início do século passado, a golpes militares no velho estilo – que às vezes dão certo mas também podem fracassar, como o de 2002 contra Chávez na Venezuela (leia AQUI sobre documentos secretos da CIA que provam ter o governo Bush acompanhado durante semanas a preparação do golpe). Não seria a fraude eleitoral, após testes bem sucedidos em casa (nos EUA) receita eficaz também em outros países?

Aquela outra eleição roubada

De qualquer forma, ainda é no mínimo subavaliado o que aconteceu no Ohio. Na Flórida a mídia preferiu omitir-se nos desdobramentos pos-eleitorais – até mesmo na interpretação dos estudos encomendados por ela própria. No Ohio, em meio à sua campanha para governador, Blackwell viu-se forçado a suspender a destruição das cédulas da eleição de Bush em 2004.

Em dezembro de 2007 a nova secretária de Estado do Ohio, Jennifer Brunner, concluiu que os sistemas de votação que apontaram o resultado eleitoral do estado três anos antes tinham sido minados por “falhas críticas de segurança”. Meses antes já fora lançado o livro (veja a capa ao lado) What Happened in Ohio? – A Documentary Record of Theft and Fraud in the 2004 Election (O que aconteceu em Ohio? – Registro documental do roubo e da fraude na eleição de 2004), escrito por Robert J. Fitrakis, Steven Rosenfeld e Harvey Wasserman (saiba mais AQUI sobre o livro).

Com base em fontes primárias, os três autores mostraram a desonestidade na eleição, apuração, expurgo de eleitores, cassação, etc. Fitrakis é advogado e professor de Ciências Políticas, além de diretor do Institute for Contemporary Journalism. Passou dois anos estudando o processo eleitoral de 2004. O repórter Rosenfeld, residente em San Francisco, trabalhava para a rede pública de rádio. Wasserman era do jornal Free Press, de Ohio.

Anomalias maciças na votação

O adiamento da destruição das cédulas resultou do trabalho dos três e do esforço de democratas da comissão de Justiça da Câmara, em Washington, presidida pelo deputado John Conyers, além de ações judiciais paralelas, que fizeram avançar as investigações da fraude. Muita gente continuou empenhada no trabalho, mas a mídia corporativa dos EUA fez o possível para ignorar a questão, que motivou ainda mais um livro (How the GOP Stole America’s 2004 Election & Is Rigging 2008, dos mesmos Fitrakis e Wasserman) e o volume (What Went Wrong in Ohiocom as conclusões da comissão Conyers (capa acima, à esquerda – leia mais AQUI).

Como acontece desde o 11/9, a mídia fez o que pôde para preservar a duvidosa legitimidade de Bush. Uma exceção foi reportagem do New York Times a 31 de agosto de 2006 (leia AQUI), ao noticiar o retardamento da destruição dos votos de 2004. Em 2000 o próprio candidato democrata Al Gore, vencedor da votação popular no país, optou por jogar a toalha sem questionar a fraude. John Kerry seguiu o exemplo dele em 2004.

Mas uma equipe de estatísticos e advogados que investigou a eleição de 2004 viu nos resultados preliminares sinais de irregularidades bem mais amplas do que se pensava antes. Por isso cresceu a campanha pela preservação da papeladada toda – e não apenas adiamento da destruição. Na Câmara, estudo dos democratas também descobriu “irregularidades e anomalias maciças e sem precedentes na votação”.

Uma análise devastadora

O rosário de irregularidades incluiu artifícios para impedir eleitores de votar (expurgo prévio de nomes, como na Flórida), panfletos informando mudança falsa de muitos locais de votação, correspondência fraudada a eleitores avisando que não votariam por estar em situação irregular, retirada de máquinas de votação em distritos de tendência democrata e filas forjadas (em um posto a votação estendeu-se até 4 da manhã). Daí o título apropriado do segundo livro de Filtrakis e Wasserman, Como os republicanos roubaram a eleição de 2004 & estão fraudando 2008 (veja a capa ao lado e leia AQUI mais informações sobre ele).

Depoimentos e documentos comprovaram que pelo menos 129.543 eleitores foram impedidos de votar no candidato democrata (seria o suficiente para inverter o resultado). Aparentemente, Blackwell conseguiu proeza ainda maior que a de Harris na Flórida. O cálculo de outro estudo – publicado na revista Rolling Stone por Robert F. Kennedy Jr. em 2006 – foi ainda mais minucioso: ampliou para 350 mil o total daqueles votos perdidos.

Depois do escândalo da última eleição do México, toda a América Latina está no dever de estudar com cuidado o caso de Ohio. Neste ano eleitoral dos EUA é possível que os democratas estejam mais atentos. Nesse sentido recomenda-se a leitura do livro What Happened in Ohio, do relatório Conyers e ainda o trabalho de Bob Kennedy Jr, filho do senador assassinado há 40 anos, após vencer a primária de 1968 na Califórnia. Leia-o AQUI, na edição de junho de 2006 da Rolling Stone.

Published in: on junho 26, 2008 at 2:37 am  Deixe um comentário  

As duas realidades nos relatórios sobre o Iraque

Enquanto nos EUA a mídia bushista (Fox News à frente) insiste em vender a idéia de que a guerra já fez o Iraque virar um paraíso, em Sadr City – subúrbio da capital, Bagdá – a explosão de uma bomba terrorista voltou a matar pessoas nas últimas horas, inclusive quatro americanos (dois soldados e dois funcionários do governo dos EUA) e seis civis iraquianos.

O paradoxo da cobertura oferecida diariamente pela Fox News é que os repórteres de vídeo passaram a aparecer de uniforme e superequipados – não com câmeras e sim blindados com coletes à prova de bala e capacetes reforçados. Se a situação estivesse sob controle das autoridades, como teimam em repetir, por que eles fazem questão de se vestir como combatentes e não repórteres?

A última bomba explodiu no prédio do Conselho Municipal em Sadr City. É inegável que o surge (reforço que aumentou o número de soldados dos EUA) funcionou ao reduzir as baixas nas tropas. Mas até o general David Petraeus evita dizer quando a força de ocupação voltará ao nível anterior. Em 10 anos, 50, 100? O plano original é transferir a responsabilidade aos próprios iraquianos. Não é mais?

Aquele complicador iraniano

O Wall Street Journal, que hoje integra com a Fox News e outros veículos o império Murdoch de mídia, foi o primeiro ontem a revelar um novo relatório do Pentágono que considera o Irã “a maior ameaça a longo prazo à segurança do Iraque” (leia AQUI). Trata-se de relatório largamente positivo. Registra a queda da violência e exalta o primeiro-ministro Nouri al-Maliki por atacar e destruir os milicianos xiitas.

Mas o GAO (Government Accountability Office), braço investigativo do Congresso, divulgou seu próprio relatório e desmentiu amplamente o otimismo róseo do Pentágono ao analisar a situação. Segundo o Washington Post (leia AQUI), os dois relatórios “parecem avaliar realidades totalmente diferentes”. Aliás, o GAO sequer fez referência ao Irã – que não é citado nem de passagem.

Coisa parecida já tinha acontecido há poucos meses, também tendo o Irã como alvo. O governo de Teerã alega que seu programa nuclear (foto AFP à esquerda) é para fins pacíficos; e depois de sucessivas advertências do Departamento de Estado sobre suposta “ameaça nuclear” iraniana, um relatório de inteligência (NIE) da CIA (Agência Central de Espionagem) negou a ameaça, subestimando o significado do enriquecimento de urânio, sobre o qual a Casa Branca vinha fazendo declarações alarmistas (leia AQUI sobre o relatório em reportagem do New York Times).

Revivendo a fraude das ADM

Para quem acompanhou os preparativos da invasão do Iraque – e a campanha de propaganda sobre a ameaça das armas de destruição em massa (ADM) de Saddam Hussein, que não existiam – o quadro atual parece um dejà vu. A diferença é que naqueles dias a resistência era do Departamento de Estado, que só se rendeu depois de um acerto entre o presidente Bush e o secretário Colin Powell.

Uma guerra no Irã continua a ser a obsessão de Bush e do vice Cheney mas a dupla já não conta com a histeria patrioteira que manipulou a partir do 11/9. E o Congresso (Senado e Câmara) está sob o controle da oposição democrata. Claro que sempre será possível contar com o belicismo incontrolável de Israel – até para um ataque de surpresa ao Irã. Mesmo assim é uma situação muito mais complexa do que a de 2002-03.

Um presidente com nível de aprovação inferior a 30% dificilmente seria capaz de fabricar mais uma guerra de forma irresponsável. Além disso, o relatório do GAO disse que a maneira escolhida pelo governo Bush para medir progressos no Iraque deixa de mostrar o quadro por inteiro. Muitas das metas estabelecidas pelo presidente não foram alcançadas. E não existe estratégia clara sobre o que as tropas farão depois do surge.

A força de Muqtada al-Sadr

Segundo o relatório do GAO, há uma idéia equivocada sobre o significado da redução da violência. Isso porque o governo Bush frequentemente usa dados exagerados e enganosos na obsessão de demonstrar progressos. Para auditores oficiais, apenas 10% das forças de segurança do Iraque conseguem de fato operar sem uma efetiva assistência das tropas americanas.

Como agora o Wall Street Journal colocou também sua reportagem a serviço do governo Bush (antes da invasão de Rupert Murdoch, apenas a página de opinião estava afinada com os neocons) parece natural o jornal tornar-se linha auxiliar do bushismo, patrocinando – como fez ontem – o relatório róseo do Pentágono, que proclamou o triunfo de al-Maliki sobre as milícias de Muqtada al-Sadr.

Segundo o Journal, os sadristas ainda têm apoio das bases no sul do Iraque rural, onde a população é majoritariamente xiita (leia AQUI a reportagem de ontem). A esperança dos EUA são os rivais deles no Conselho Supremo Islâmico, graças a Maliki. Mas a bomba que ontem matou uns 10, entre eles quatro americanos, põe em xeque a conclusão do jornal da Wall Street de que Maliki praticamente já neutralizou os xiitas anti-americanos.

Published in: on junho 25, 2008 at 2:54 am  Deixe um comentário  

O chumbo grosso contra Barack Obama

A pesquisa divugada no fim da semana pelo site da revista Newsweek, dando pela primeira vez uma vantagem de dois dígitos (15 pontos percentuais) ao candidato Barack Obama, está sendo festejada com entusiasmo pelos democratas. Mas não parece conveniente exagerar a relevância do resultado, segundo o qual Obama tem a preferência de 51% do eleitorado – contra 36% de John McCain. (Leia AQUI a análise de Newsweek).

A própria revista lembrou números do mesmo período (junho-julho) nas últimas eleições, de 2000 e 2004, como também, por seu significado especial como alerta aos setores mais otimistas do Partido Democrata, do ano de 1988. Em 2004 John Kerry estava com vantagem menor (6 pontos percentuais: 51% contra 45% de George W. Bush). E no ano 2000 Al Gore e Bush estavam empatados em 45%.

A atenção dada por Newsweek ao episódio eleitoral de 1988 tem uma boa razão: ele foi uma grande lição e desautoriza excesso de confiança da parte da oposição (leia AQUI sobre a queixa levada à FEC, Comissão Federal de Eleições). O democrata Mike Dukakis, como lembrei em artigo anterior, tinha saído da convenção partidária com vantagem de 17 pontos percentuais e acabou derrotado depois pelo então vice-presidente George H. W. Bush, o pai.

Willie Horton e Swift Boat

É bom deixar de lado, pela anormalidade escandalosa, o ano 2000, no qual Gore ganhou a votação popular no país e viu os votos eleitorais da Flórida serem roubados por um conjunto de irregularidades que não vem ao caso revisitar neste momento. Até porque o candidato democrata poderia ter derrotado até o roubo maciço de votos na Flórida se tivesse ao menos vencido no seu próprio estado, Tennessee. (Clique abaixo para ver o trailer do filme de Greg Palast, da BBC britânica, sobre o assunto),

 

Mais instrutivo seria examinar o que aconteceu em 1988 (o velho Bush contra Dukakis) e 2004 (Bush filho contra Kerry), pois está sendo preparada para 2008 a mesma receita republicana dessas duas eleições. Bush pai inverteu a tendência em 1988 com o bombardeio dos célebres comerciais de Willie Horton; e em 2004 Bush filho fez o mesmo com os comerciais Swift Boat (mais a fraude de Ohio).

Ohio mal entrou nas discussões de quatro anos atrás, ante o escândalo da torpe campanha contra Kerry – que teve sua imagem de herói, condecorado cinco vezes por bravura no Vietnã, destruída por uma ação difamatória cujo efeito prático foi o de transferir para Bush, fujão da guerra do Vietnã graças à proteção de amigos da família, o status heróico do adversário.

A difamação desregulamentada

A pergunta relevante então, a esta altura da campanha, é se a posição vigorosa de Obama nas atuais pesquisas pode ser golpeada por esforço difamatório como os comerciais “Willie Horton” e “Swift Boat”. A resposta é afirmativa. Já está em preparo campanha no padrão desses comerciais de grupos 527 – dos quais McCain vai distanciar-se publicamente e até condenar, como fizeram os Bush em 1988 e 2004.

“Grupos 527” são organizações que se beneficiam de isenção de imposto, prevista em parágrafo com esse número do Código Fiscal. Elas não podem pedir votos para este ou aquele candidato, mas podem defender causas envolvidas nas eleições. E não estão sujeitas a restrições impostas por regulamentos da Comissão Federal de Eleições, o que motiva controvérsia e debates acalorados.

Como foi explicado anteriormente, Horton era um presidiário negro que, de acordo com a lei de Massachusetts, teve um fim de semana livre para visitar a família – do que se aproveitou para estuprar e matar uma mulher branca. O governador do estado era Dukakis, acusado na campanha de ser relapso no combate ao crime (mas a lei liberal que permitia saídas de presos era do antecessor dele, republicano).

No caso “Swift Boat”, distinto, difamava-se do mesmo jeito. O nome referia-se aos “barcos rápidos”, como os que Kerry comandava no Vietnã. Condecorado pela sua conduta na guerra, ele voltou ao país e aderiu a protestos anti-guerra, condenando o papel dos EUA. A campanha foi assumida por desafetos dele e duvidosos patriotas da extrema direita, republicanos. (Clique abaixo para ver um dos comerciais).

Uma campanha em gestação

O projeto Swift Boat incluiu, além dos comerciais, o livro Unfit for Command – escrito por militares que retrataram Kerry como traidor por denunciar atrocidades praticadas por americanos no Vietnã. O livro foi para a lista de “best sellers”. E os comerciais, veiculados especialmente em redutos patrióticos do Sul e Meio-Oeste, assassinaram a reputação de Kerry, transformando-o em traidor.

Neste momento, como contou ontem o site Politico.com, a editora do livro contra Kerry (Regnery Publishing, de extrema direita) conclui o de Obama, a cargo do jornalista ultraconservador David Freddoso. Título: The Case Against Barack Obama: The Unlikely Rise and Unexamined Agenda of the Media’s Favorite Candidate (O caso contra Obama: a ascensão improvável e a agenda não examinada do candidato favorito da mídia).

Obviamente, a tese é de que Obama foi “fabricado” pela mídia, que nunca “examinou” seu passado e supostas ligações com extremistas – do pastor Jeremiah Wright (do qual se afastou) ao ex-radical da década de 1960 (quando Obama tinha apenas seis anos de idade) Bill Ayers, hoje vizinho. O comando da operação difamatória pode ser, por baixo do pano, de Karl Rove, a quem se atribui também a desconstrução de Kerry há quatro anos.

Published in: on junho 24, 2008 at 3:24 am  Deixe um comentário  

Receita de Bush amplia o vício em petróleo

O preço do petróleo está enlouquecendo a direita americana, em especial depois que a bomba de gasolina dos postos passou a cobrar do consumidor, em média, mais de US$4 por galão. Mas o presidente Bush e os políticos republicanos ainda não foram capazes de articular uma posição minimamente racional para enfrentar a situação, até pela tendência natural a identificar a culpa do atual governo.

Em primeiro lugar, é preciso considerar que antes de Bush ter desencadeado sua “invasão preventiva” no Iraque, as próprias autoridades de seu governo chegaram a alegar que a guerra forçaria a queda dos preços do petróleo. E mais: que o custo da gigantesca operação militar seria coberto pelo próprio Iraque, com o aumento de sua produção de petróleo. Está acontecendo exatamente o contrário.

Depois da invasão os preços do petróleo apenas subiram – e nos últimos meses o salto superou as piores estimativas, foi além de US$140 por barril. Em razão das antigas conexões da família Bush com o negócio do petróleo em geral e a Arábia Saudita em particular os americanos vêem com suspeita as ações do governo, ultimamente obcecado em repetir no Irã a lambança criada no Iraque (veja o cartum acima, de Donar para o blog Political Graffiti).

Remédio que mata o doente

No discurso do Estado da União de 31 de janeiro de 2006, o presidente Bush tinha reconhecido pela primeira vez, com todas as letras, que o país padece de uma doença grave: “A América está viciada em petróleo, produto que é importado, com freqüência, de regiões instáveis do mundo. A melhor maneira de acabar com esse vício é através da tecnologia.” (Leia a íntegra AQUI, no site da Casa Branca) 

Desde 2001, acrescentou, os EUA já tinham investido quase US$10 bilhões para desenvolver fontes mais limpas, mais baratas e mais confiáveis de energia alternativa. E graças a isso estavam às portas de progressos incríveis. Em seguida Bush anunciou sua Iniciativa Avançada de Energia (AEI), para elevar em 22% a pesquisa de energia limpa em duas áreas vitais.

A meta era mudar, primeiro, o uso de energia nas casas e escritórios, investindo mais em instalações energéticas de emissão-zero, com base no carvão, tecnologia solar e eólica, além de energia nuclear limpa e segura. “Temos ainda de mudar a maneira de mover nossos carros, ampliando a pesquisa em baterias melhores para os híbridos e elétricos e os movidos a hidrogênio, que não poluem”, afirmou.

Recordo o discurso porque agora Bush anunciou outro plano. Como destacou o colunista Tom Friedman domingo, consiste em “reforçar o vício no petróleo”, com sofisticação: 1. “conseguir que a Arábia Saudita, que nos vende a droga, aumente a dosagem, impedindo que as alternativas de energia renovável funcionem”; 2forçar o Congresso a revogar a proibição de furar poços de petróleo em áreas costeiras e no Ártico (ANWR).

Um viciado-chefe à deriva

Para Friedman, “é como se nosso viciado-chefe estivesse a nos dizer: ‘Ei caras, essa é da boa, tome um pouco mais. Mais uma cafungada aqui e um pico aí, cara. Ano que vem a gente fica careta. Até boto uma turbina de vento na minha biblioteca presidencial. Agora não dá. Temos de furar poço, cara. Só mais uma transfusão daquele doce petróleo da área oceânica da costa'”.

Entendo a confusão mental de Friedman. Esse colunista do New York Times é useiro e vezeiro em se converter ao disparate que antes condenava. Sentado no seu escritório em Washington ele disse em 2003 que a guerra do Iraque foi fabricada “por 25 pessoas que estão aqui perto, num raio de cinco quarteirões desta sala” (leia a declaração dele AQUI, no Haaretz, de Israel). E mesmo assim esse jornalista apoiou a aventura como “farol para disseminar a democracia no Oriente Médio”.

Parece insólito mas o colunista convive com as próprias contradições. Agora escreve que é difícil encontrar palavras para expressar “como é maciça, fraudulenta e patética a desculpa (de Bush) para a política energética” (leia AQUI a coluna do Times na íntegra). Talvez desta vez, como o mandato presidencial já está muito perto do fim, Friedman consiga resistir mais um pouco à insanidade do governo, o que não aconteceu em relação ao Iraque.

Ao mesmo tempo, dá pena ver o esforço de políticos republicanos para se adaptar às bruscas mudanças de Bush – que jamais admite ter cometido qualquer erro. Eles se surpreenderam com o discurso do Estado da União de 2006. Agora têm de dar meia volta e reabilitar as posições passadas, como se o problema fosse a oposição democrata à perfuração de poços de petróleo na costa e no Alasca.

Unir esforços, sem ameaça

O futuro dos EUA, advertiu o colunista, não está no petróleo. Um presidente de verdade não devia peitar o Congresso para furar poços hoje. Devia dizer ao país uma verdade bem mais contundente: “O petróleo envenena nosso clima e nossa geopolítica. E a receita para curar nosso vício é esta: fixamos o preço base de US$4,50 o galão de gasolina e US$100 o barril de petróleo”.

Para Friedman, isso iria disparar investimentos maciços em energia renovável. O país ainda embarcaria num programa rápido, de emergência, capaz de aumentar dramaticamente a eficiência energética, empurrar a conservação para um nível novo e ampliar a geração de energia nuclear. Um presidente verdadeiro também conclamaria democratas e republicanos a se unirem a ele no esforço.

“É o que faria um presidente de verdade”, afirma. “Ele nos daria um plano estratégico para pôr fim ao vício em petróleo e construiria coalizão bipartidária para executá-lo. Na certa não usaria os últimos dias no cargo para ameaçar os parlamentares democratas de que, se não aprovarem a perfuração de poços até o recesso de 4 de Julho, serão culpados pela gasolina a US$4 o galão. Isso é inépcia – uma política energética indigna de nossa data da Independência.”

Published in: on junho 23, 2008 at 5:24 pm  Deixe um comentário  

A CIA, a transparência e as “jóias da família”

Foi surpreendente a facilidade com que a mídia festejou, em meados do ano passado, feitos duvidosos como a súbita divulgação das “jóias da família” da CIA, a Agência Central de Espionagem dos EUA. Eram segredos de outro tempo (décadas de 1950, 1960 e 1970), com apenas uns poucos detalhes relevantes, aqui e ali, não revelados antes.

Ainda que seja sempre saudável recordar aquelas ações torpes o esforço de fato meritório em favor da transparência foi outro – o realizado em 1975 e 1976 pela comissão de investigação presidida pelo senador Frank Church (foto), responsável por 14 relatórios que chocaram os americanos e o mundo (conheça AQUI os relatórios). Ele devassou operações de espionagem, muitas delas ilegais, e abusos variados da CIA e demais órgãos da espionagem, inclusive o FBI (saiba mais sobre ele AQUI).

A oportunidade escolhida pelo governo Bush para voltar ao assunto foi suspeita. Entre outras coisas, desviava a atenção da série de quatro reportagens publicadas na mesma época pelo Washington Post, expondo o papel do atual vice Dick Cheney, com sua obsessão pelo sigilo e por ações ocultas que violam os direitos humanos e liberdades civis e ignoram a lei do país e tratados internacionais.

1964, Brother Sam e Pinochet

Bastava observar nas tais “jóias da família” a parte sobre o Brasil, destacada em nossa mídia na ocasião. Nada havia que não tivesse sido publicado antes. A maior parte do material referia-se a fatos e personagens do período imeditamente anterior e posterior ao golpe militar de 1964 – viabilizado pela promessa de ajuda, na forma da Operação Brother Sam, que abasteceria os golpistas com combustível e armas se necessário.

Tudo isso era sabido dos brasileiros desde que a escritora Phyllis Parker, que fez pesquisa sobre o episódio em projeto para a LBJ School of Public Affairs, de Austin, conseguiu levantar o sigilo sobre numerosos documentos da Biblioteca LBJ, que funciona na Universidade do Texas em Austin. Com base nos mesmos documentos o Jornal do Brasil publicou sua série de reportagens no final de 1976.

Já a comissão Church fez revelações chocantes sobre a ação da CIA na América do Sul – inclusive a suspeita de que Carlos Andrés Perez, então presidente da Venezuela, e outras figuras conspícuas tinham sido informantes da espionagem dos EUA. E ainda acrescentou detalhes sobre a participação da CIA na trama para matar o general René Schneider e abrir caminho ao golpe sangrento que derrubou Salvador Allende no Chile (saiba mais AQUI sobre a comissão).

A política dos assassinatos

Coube também à comissão Church revelar pela primeira vez o envolvimento da espionagem americana na sucessão de planos para assassinar Fidel Castro – alguns encomendados até à Máfia. E ainda as conspirações para matar outros governantes estrangeiros, entre eles Patrice Lumumba (no antigo Congo belga), Ngo Dinh Diem (no Vietnã do Sul), Rafael Trujillo (na República Dominicana), etc.

Os americanos só ficaram horrorizados, no entanto, com a revelação pelo painel do Senado sobre o extraordinário alcance da vigilância interna dentro dos EUA: violação de correspondência, grampeamento de telefones, etc. Graças às muitas descobertas da comissão Church, viriam depois a ordem presidencial para sustar assassinatos de governantes, leis restringindo abusos da espionagem e até a Lei da Liberdade de Informação (FOIA).

Celebrar tudo isso em 2007, quando o governo Bush já tinha restabelecido até a prática do assassinato de pessoas no exterior e tentava contornar, neutralizar ou revogar as leis resultantes das revelações da comissão Church em 1975-76 – ou seja, dando marcha-a-ré nos efeitos positivos – pareceu não só insólito, mas também cínico e ofensivo.

Church, primeiro senador a ser reeleito (duas vezes) na história do estado de Idaho, foi rotulado de antipatriota pelos conservadores, devido à sua ação corajosa. Nas primárias democratas de 1976 ele fracassou ao tentar a indicação presidencial. E logo desistiria da carreira política depois de ser transformado em alvo prioritário da direita. Não tinha mais mandato ao morrer de câncer em 1984.

E os relatórios escondidos

Os esqueletos do armário que o governo Bush tentou requentar no ano passado pouco acrescentaram à façanha de Church há 33 anos. Ela foi possível em parte pelo clima favorável à transparência, em seguida a Watergate – o conjunto de escândalos que levou Richard Nixon à renúncia. Mas em 1981, com a mudança radical de rumo em meio à crise dos reféns do Irã, Ronald Reagan chegou à Casa Branca.

Como observou Amy Zegart – um especialista no assunto – na página online do New York Times, aquela imundície do passado ainda era leitura interessante, mas sem se saber o que houve de errado a 11/9 não haverá melhor inteligência. A investigação da própria CIA sobre isso, concluída há três anos, continua guardada a sete chaves, embora reclamada pelos dois partidos na comissão de Inteligência do Senado.

Ironicamente, é a mesma comissão de Church – antes era temporária, hoje é permanente. Reformas radicais na CIA foram propostas depois do 11/9 pelo general Brent Scowcroft, assessor de Segurança Nacional de Bush I (o velho), em relatório encomendado por Bush II (o filho). O relatório foi engavetado pelo ex-chefe do Pentágono, Donald Rumsfeld. E a julgar pelas “jóias da família”, disse Zegart, continuará escondido pelo menos até 2041.

Published in: on junho 21, 2008 at 5:17 pm  Comments (1)  

A volta ao Iraque dos donos do petróleo

Depois de insistir durante seis anos – desde a preparação do “ataque preventivo” de março de 2003 – que a invasão do Iraque nada tinha a ver com o petróleo, sendo motivada apenas pelas armas de destruição em massa (AMD), que se revelariam fantasia delirante da Casa Branca, os EUA estão confirmando agora a iminente volta das corporações de petróleo do Ocidente, 36 anos depois de serem expulsas.

Esse retorno da Exxon Mobil, Shell, Total e BP (British Petroleum), parceiras originais do que se chamava então Iraq Petroleum Company, foi destaque principal na primeira página do New York Times (leia AQUI). Elas voltam juntamente com a Chevron e dezenas de companhias menores. Todas estão negociando contratos sem licitação com o governo do Iraque, país ainda sob ocupação de fato.

Por coincidência, nos últimos dias a mídia mais próxima da Casa Branca de Bush, em especial a Fox News do magnata Rupert Murdoch, passou a defender a tese de que o petróleo do Iraque será a solução para os EUA em meio à atual controvérsia sobre o grande salto dos preços internacionais do barril – hoje em torno de US$ 140 dólares, o que alarma a população americana. (clique abaixo para ouvir o comentário satírico do site The Young Turkish sobre a situação)

Os contratos fora dos padrões

Segundo o Times, os acordos do atual governo de Bagdá, ainda sustentado pelas tropas de ocupação, com as gigantes ocidentais de petróleo devem ser anunciados até o dia 30 de junho. Serão o fundamento para o primeiro trabalho comercial a ser assumido pelas empresas petrolíferas estrangeiras desde a invasão do Iraque pela máquina de guerra do Pentágono.

De acordo com a mídia dos EUA, isso abre as portas do Iraque, como um novo e potencialmente lucrativo mercado, às operações das gigantes de petróleo. Os contratos sem licitação (como aqueles conquistados pela Halliburton e outras corporações logo depois da invasão do país) são incomuns na indústria do petróleo, devendo contemplar também companhias da Rússia, China e Índia.

Por enquanto os contratos serão por prazos de dois a três anos. Pelos padrões da indústria petrolífera, como explicou o Times, devem dar às companhias certa vantagem na disputa futura de outras concessões. De acordo com a análise de especialistas, o expediente em vias de ser anunciado oficialmente é a esperança maior dos EUA para elevar em larga escala a produção mundial de petróleo. Mas no Iraque radicais xiitas já protestam. Encaram a volta das gigantes do petróleo como uma humilhação imposta pelas forças de ocupação, que tira a soberania do governo de Bagdá (leia AQUI o que a Associated Press noticiou).

Para “agradecer” a invasão

Durante as discussões dos últimos dias sobre o salto dos preços de petróleo para o consumidor americano (que já está pagando em média, nos postos do país, mais de quatro dólares por galão de gasolina), a Fox News tem repetido que os EUA têm de convencer o Iraque a “agradecer” o governo Bush pela invasão, redobrando o esforço para assegurar um grande salto na produção de petróleo.

A reportagem publicada pelo Times foi enviada de Bagdá pelo jornalista Andrew E. Kramer. A certa altura, afirma textualmente: “Sempre houve a suspeita entre muita gente no mundo árabe e mesmo no público americano de que os EUA forçaram a guerra contra o Iraque precisamente para garantir a riqueza petrolífera que esses novos contratos pretendem extrair”.

O governo Bush repetia à exaustão que a guerra era necessária para desarmar o Iraque, destruindo suas armas proibidas (as fantasiosas ADM que a Casa Branca alegava serem ameaça aos EUA e outros países); para combater o terrorismo (que só chegou ali com os combatentes da al-Qaeda, depois da invasão dos EUA); e para “disseminar a democracia no Oriente Médio”.

Não se sabe com precisão, como observou Kramer, que papel as autoridades dos EUA desempenham, por baixo do pano, para forçar essas concessões petrolíferas em favor das multibilionárias corporações de petróleo. Mas já antes da guerra tais empresas participavam ativamente de reuniões com autoridades dos EUA sobre as “oportunidades de negócios” a serem abertas no Iraque.

Exxon comanda a pilhagem

Conselheiros americanos, mesmo buscando manter perfil baixo, continuam ativos no ministério do petróleo do Iraque. Atribuem-se a eles até a redação das leis daquele país sobre a exploração do petróleo. Ao mesmo tempo, altos executivos de pelo menos duas grandes companhias ocidentais, admitiram que estão “ajudando” o Iraque a refazer suas instalações petrolíferas obsoletas.

Segundo um analista de petróleo ouvido pelo Times – David Fyfe, da Agência Internacional de Energia, sediada em Paris – a produção petrolífera do Iraque pode elevar-se a 3 milhões de barris por dia (atualmente é de 2,5 milhões), mas isso talvez exija mais tempo do que os seis meses de uma estimativa do ministério do petróleo. Em alguns anos chegaria a 4 milhões. E com o acréscimo de mais campos, a 6 milhões.

Qualquer que seja o desdobramento, terá gosto de marcha-a-ré. Pois as quatro gigantes petrolíferas que lideram o retorno são as mesmas que Saddam Hussein expulsou do país há 36 anos, ao nacionalizar o petróleo. Lee Raymond, executivo-chefe da Exxon, exaltou no ano passado o Iraque como um produtor potencial. “Nós sabemos, estivemos lá e éramos donos do país inteiro. Eles de fato têm uma enorme quantidade de petróleo”.

Published in: on junho 21, 2008 at 4:31 pm  Comments (2)  

Aquele vigarista da guerra de Bush

O caso de “Curveball”, nome em código do vigarista iraquiano que o governo Bush apresentou ao mundo como prova da existência de armas biológicas no Iraque, tende a entrar para o capítulo das grandes fraudes da História. Sabia-se que o nome dele é Rafid Ahmed Alwan, mas agora ele foi localizado e entrevistado pelo jornal Los Angeles Times e ficou clara a extensão da fraude com que os EUA justificaram a guerra de Bush (leia AQUI a íntegra da reportagem publicada ontem pelo Los Angeles Times).

Alwan sequer é um vigarista refinado. Apesar da alegação dos EUA de que dirigia instalações de armas biológicas e sabia tudo sobre algo aterrador – “laboratórios móveis de germes”, levados de um lugar para outro a fim de enganar inspetores internacionais – “Curveball” era só um vigarista barato. Mentia tanto que se tornou motivo de chacota entre os próprios colegas de trabalho na Alemanha. (AQUI, um post anterior deste blog, quando o programa “60 Minutes” revelou pela primeira vez a identidade de “Curveball”).

E onde trabalhava exatamente? Fazia o que na Alemanha? Foi empregado do McDonald’s e do Burger King, botando salsicha ou hamburger na chapa; num restaurante chinês lavava pratos; numa padaria passava a noite fazendo pretzels ou pão comum. Seu conhecimento não ia além disso. Nada sabia de armas biológicas. Mas os espiões dos EUA juraram que sabia tudo sobre armas de destruição em massa (ADM).

“Foi sempre um mentiroso”

Os autores da reportagem do jornal – o alemão John Goetz e o americano Bob Drogin – foram os primeiros jornalistas a entrevistar o personagem celebrizado pela leviandade do governo de Washington. Inicialmente o vigarista prometeu falar em troca de dinheiro. Goetz rejeitou tal proposta mas ele concordou, depois, em falar assim mesmo, durante várias entrevistas breves.

“Curveball”/Alwan contou então que, além de receber segurança especial e proteção, sua identidade era escondida – tudo com a ajuda da espionagem alemã, o Serviço Federal de Inteligência (BND, nas iniciais germânicas). Primeiro ele tentou defender sua reputação, mas isso se tornou impossível depois que os repórteres localizaram ex-colegas de trabalho do vigarista.

Um deles, no Burger King, contou: “Esse sujeito sempre mentiu. É apenas um mentiroso”. Um amigo da família, para o qual ele tinha trabalhado antes, também confirmou. “Trata-se de um corrupto”, disse. O curioso é os jornalistas não terem encontrado ninguém que o defendesse. Havia unanimidade sobre a reputação do vigarista. Só o presidente Bush e seu vice Cheney acreditaram no que ele contava.

“Não tenho nada com isso”

A certa altura o próprio Alwan negou tudo. “Eu nunca disse que o Iraque tinha ADM. Nunca, em toda a minha vida”, afirmou. “Desafio qualquer pessoa no mundo a mostrar um pedaço de papel com minha assinatura ou qualquer coisa que prove que eu disse haver armas de destruição em massa no Iraque”. Como, então o governo conseguiu ser enganado? “Não tenho nada com isso”, respondeu ele.

Na verdade, a carreira de Alwan/”Curveball” como informante secreto, segundo a reportagem, começou em janeiro de 2000, pouco depois de ter ele preenchido os papéis em busca de asilo político em Zirndorf, campo de refugiados nas cercanias de Nuremberg, onde ainda vive. O pessoal do BND ficou interessado nele por ter dito que ajudava a dirigir um programa secreto de armas biológicas.

Devido a isso, durante um ano e meio o vigarista reuniu-se nada menos de 52 vezes com gente do BND, a quem fornecia desenhos mostrando supostos “laboratórios móveis” e outros detalhes. Ele adorava as reuniões – aos domingos, pela manhã, em “aparelhos” da espionagem. Isso porque depois era premiado com uma boa pizza, talvez por conta do contribuinte.

Só que nas conversas Alwan apenas mentia. Dizia-se perseguido no Iraque de Saddam Hussein. Era meia verdade: chegou a ser caçado pelas autoridades, mas por roubar equipamento de filmagem e vender no mercado negro em Bagdá. Outra mentira contada por ele ao BND foi que o filho do seu ex-chefe Basil Latif comandava secretamente um grupo que, da Inglaterra, contrabandeava ADM.

Anthrax, botulismo e muito mais

A “informação” foi levada às autoridades britânicas. Elas sairam à procura do filho de Latif, mas ele só tinha 16 anos – não podia estar chefiando quadrilha daquele porte. Entrevistado ainda em 2002 por agentes ocidentais fora do Iraque, Latif avisou então que Alwan tinha sido demitido por ser ladrão. Falsificava faturas. “Acharam que eu é que estava mentindo”, contou Latif agora, em Omã, onde vive hoje.

O mais fantástico é que Alwan contava histórias mirabolantes, claramente mentirosas, sobre instrumentos de produzir anthrax, toxinas de botulismo e outros agentes biológicos. Os analistas de armas da CIA e do Pentágono, sem nada que pudesse corroborar as fantasias, preferiam acreditar nele do que nas pessoas que advertiam sobre o hábito de mentir de Alwan.

O próprio George W. Bush, por exemplo, declarou com pompa e circunstância em janeiro de 2003, em sessão conjunta do Congresso: “nós sabemos que o Iraque construiu fábricas móveis de germes”. Semanas depois foi a vez do então secretário de Estado Colin Powell (na foto, entre o diretor da CIA, George Tenet, e o embaixador John Negroponte) dizer ao mundo, no Conselho de Segurança da ONU, que suas fontes eram “sólidas”, entre elas “uma testemunha ocular” (ou seja, Alwan) que “prova a existência dos laboratórios móveis”. (Clique abaixo para ouvir o mea culpa de Powell na NBC, anos depois, num video do grupo LiberalViewer).

Published in: on junho 19, 2008 at 12:02 pm  Comments (2)