FHC e a guerra fria cultural da CIA

O blog do Nassif tem seu Ubaldo paranóico, inspirado no personagem do Henfil. Poderia esconder-se debaixo da cama mas ao invés disso prefere desautorizar teorias conspiratórias. E, com razão, não se conforma com o boato selvagem na internet de que o excelente livro Quem pagou a conta? – A CIA e a guerra fria da cultura, de Frances Stonor Saunders, prova que o Cebrap de FHC foi financiado pela CIA usando a Fundação Ford (FF).

O que me surpreendeu ao ser lançada a tradução brasileira desse livro, bem pesquisado, bem escrito e bem editado, foi o atraso de quase 10 anos no lançamento (minha edição em inglês é de 1999). Na ocasião, 2008, escrevi sobre o assunto, na Tribuna da Imprensa. Mesmo sem qualquer simpatia pelo PSDB ou pelo governo FHC, para mim estava claro que a FF, largamente citada, não era apontada ali como tendo canalizado dinheiro da CIA para grupos ou instituições no Brasil. O livro sequer levanta suspeita de que o Cebrap recebeu verbas da espionagem via FF.

A denúncia veio de alguém que fez a seguinte ilação: 1. o livro diz que a Fundação Ford era uma das instituições que canalizavam secretamente dinheiro da CIA para a área cultural, sem deixar impressões digitais da agência (o que é verdade); 2. o Cebrap tinha recebido recursos da Fundação em 1969 (o que é verdade); 3. logo, o Cebrap recebera dinheiro da CIA.

Ora, o Brasil e o Cebrap (ou FHC) não entraram na pesquisa de Saunders. O que a autora devassou pacientemente, com base em documentos até então protegidos pelo sigilo, foi o amplo esquema de corrupção – com verbas secretas via fundações legítimas ou entidades fantasmas – de intelectuais e instituições culturais. A CIA montou o esquema principalmente a partir do CCF (Congresso pela Liberdade Cultural), notório instrumento anticomunista da agência na guerra fria.

A ameaça vermelha e a caça às bruxas

Saunders documentou sistematicamente o que afirma. Antes já se sabia alguma coisa. Em 1989 fiz muitas referências, no livro Caça às Bruxas – Macartismo, uma tragédia americana, à ação secreta da CIA na área cultural e a intelectuais que se somaram à histeria da “ameaça vermelha”, como Irving Kristol, Gertrude Himmelfarb, Norman Podhoretz, Midge Decter, Sidney Hook, Stephen Spender, etc.

Famílias até então respeitadas no meio cultural faturavam bom dinheiro, sabendo ou não que vinha da CIA. Muita gente jurou depois que ignorava a origem – já que às vezes a fonte real não era identificada. O escândalo estourou em 1967, graças a denúncia da revista Ramparts (mais sobre ela AQUI, AQUI e AQUI), da nova esquerda, então perseguida de forma implacável pela CIA. O mérito de Saunders foi mergulhar posteriormente nos papéis secretos liberados e apurar toda a trama.

O título original do livro é quase o mesmo do Brasil, Who paid the piper? – The cultural cold war: the CIA and the world of arts and letters. Mas a autora concentrou-se nos nomes da cultura norte-americana e européia cooptados pela espionagem na guerra fria cultural – por sinal, muitos sobrenomes reapareceram no movimento neoconservador infiltrado no governo de George W. Bush.

Bill Kristol, filho do casal Irving Kristol-Gertrude Himmelfarb é um deles: foi o primeiro, na capa da revista política Weekly Standard (do império Murdoch de mídia), da qual é editor, a exigir a invasão do Iraque depois do 11/9. O pai dele, Irving, que criou o “neoconservadorismo”, dirigia a principal revista de cultura inventada às escondidas pela CIA, a internacional Encounter, de confecção esmerada – e muito respeitada, até se descobrir quem a financiava (mais sobre ele AQUI).

O dinheiro fácil da “OTAN cultural”

Claro que não excluo a hipótese de ter a Fundação Ford repassado verbas da CIA ao Cebrap em 1969, como alguns alegam. Mas o período coberto pelo livro só vai de 1950 a 1967 – ano da denúncia de Ramparts (veja abaixo uma de suas capas mais vigorosas e conheça outras AQUI), que provocou mudanças nos projetos “culturais”. Assim, a suposta conexão CIA-FF-Cebrap nunca foi objeto do estudo de Saunders, por estar fora tanto daquele período como da área geográfica coberta (EUA-Europa).

Chamou-se a isso “OTAN cultural” (e “contenção cultural”). Só incluía EUA e os aliados do Tratado do Atlântico Norte na guerra fria. América Latina não. Saunders devassou em especial a “família mundial das revistas” do CCF: a nobre Encounter, sediada em Londres, Partisan Review, Kenyon Review, Hudson Review, Sewanee Review, Poetry, The Journal of the History of Ideas, Daedalus.

Esse supermercado de compra e venda de idéias, cultura e intelectuais foi criado pela CIA mediante uma teia de organizações, algumas criadas especificamente para esse fim por espiões como o mefistofélico C. D. Jackson, especialista em guerra psicológica que reinou um tempo no grupo Time-Life e foi assistente especial do presidente Eisenhower (fazia a ligação entre Eisenhower e a CIA).

Saunders mergulhou nesse submundo com competência e talento, daí minha estranheza quando alguém alega ter desistido de ler o livro ao verificar que não se referia ao Cebrap de FHC. Ora, a história é fascinante: expõe a receita para corromper intelectuais. Até ideológicos de esquerda, como certos trotskistas, que adoraram a chance de atacar Stalin e ainda serem bem pagos para isso.

A América Latina, fora da jurisdição, passou a interessar só depois de Fidel Castro chegar ao poder. De qualquer forma, Saunders fala brevemente do hemisfério sul no capítulo 21, “Caesar of Argentina”, com informações tímidas. O poeta Robert Lowell ganhara do CCF passagem (de navio) para vir à América do Sul (sua amiga Elizabeth Bishop estava no Rio, certamente na casa de Lotta Macedo Soares).

A controvérsia da revista Mundo Nuevo

Cabia a Keith Botsford, que por três anos representou o CCF na América Latina, com base no Rio, uma mal-disfarçada tarefa de espionagem. Ele avisou seu superior John Hunt que para os intelectuais brasileiros a entidade era “instrumento ianque”, por isso seria melhor o CCF tornar-se mais discreto, modesto e até “invisível”, só dando apoio a projetos que tivessem forte respaldo local.

Hunt discordou. Advertiu Botsford de que nenhuma área do mundo devia ser negligenciada na heróica luta contra o comunismo ateu. O CCF estava em plena campanha para impedir que se desse o prêmio Nobel a Pablo Neruda. Depois, em meio às intrigas da guerra cultural em 1963-64, aconteceu o pior: o Nobel não foi para o poeta chileno mas para Jean Paul Sartre, alvo prioritário do CCF – e Sartre o recusou.

Estranho, para mim, foi Saunders não ter citado no livro a Mundo Nuevo, revista de cultura latino-americana editada em Paris com dinheiro da CIA – via CCF e outras fundações, para ocultar a fonte real dos recursos. Na década de 1960 comprei alguns números em livraria do Rio. Num deles li Gabriel Garcia Márquez (foto ao lado) pela primeira vez – um trecho extraído do até então inédito Cem Anos de Solidão.

Sempre quis saber mais sobre Mundo Nuevo. Só recentemente encontrei afinal uma dissertação acadêmica (Universidade do Texas, Austin, 2007, 260 páginas) do americano Russell St. Clair Cobb. Título: “Mundo Nuevo”, a revolução cubana e a política da liberdade cultural (leia em inglês AQUI e saiba mais AQUI). O autor cita o patrocínio da CIA (via CCF), exalta a qualidade da revista e discorda dos que subestimam o papel da espionagem.

Mundo Nuevo, segundo Cobb, “publicou ensaios, entrevistas e ficção de autores como Garcia Márquez, Carlos Fuentes e Guillermo Cabrera Infante. Tornou-se motivo de controvérsia ao ser descoberta a ação oculta da CIA”. Atacada pelos intelectuais cubanos como “propaganda imperialista” dos EUA, foi defendida por seu diretor, Emir Rodríguez Monegal. Alegou ele tratar-se de “uma revista de diálogo”.

“O bastião contra a revolução cubana”

Ficou difícil, para Monegal (foto ao lado), convencer outros de que a revista era “desinteressada e sem compromisso político”. Como fica claro hoje no material dos arquivos do CCF, afirmou Cobb, Mundo Nuevo foi criada na guerra fria cultural “para ser um bastião contra a revolução cubana. Usava a retórica da literatura descomprometida e cosmopolita para se contrapor ao modelo revolucionário da literatura engajada”.

Não se deve perder de vista que ao esconder obsessivamente seu papel mediante artifícios e canais de lavagem de dinheiro a CIA implicitamente reconhecia a imoralidade de sua intromissão para “dirigir” o debate cultural. Já o caso Cebrap-FHC é outra coisa, pois em 1969 o escândalo já tinha forçado a espionagem, que antes usava a FF como canal, a no mínimo mudar os truques na área cultural.

Se alguém acha que dinheiro canalizado pela FF para o Cebrap vinha mesmo da CIA, terá de fazer sua própria pesquisa para provar. A fundação foi criada de certa forma para melhorar a imagem da família (e da indústria), prejudicada pelo anti-semitismo do primeiro Henry Ford. Ultimamente é alvo à esquerda e à direita. Se não me engano, até Henry Ford II a criticou uma vez por desvio anticapitalista.

A FF de fato prestava-se à espionagem, num papel sujo, legitimando o que se fazia num período vergonhoso da sociedade americana – o da caça às bruxas. Mas teve também outro papel. Financiou o grupo Fund for the Republic, no projeto da primeira grande pesquisa a expor a caça às bruxas e as listas negras no cinema e no rádio – o que resultou, em 1956, nos dois volumes de Report on Blacklisting, de John Cogley (capa ao lado).

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Published in: on janeiro 19, 2010 at 10:41 pm  Comments (16)  

O Haiti antes e depois da tragédia

Certas coisas que nos atormentam tornam-se menores, até insignificantes, diante de uma tragédia como a que golpeou o povo haitiano. Acompanhamos o quadro chocante também por estarmos mais próximos desse país graças ao papel relevante do Brasil na força de paz da ONU, onde são elevadas nossas baixas – ainda que seja bem mais dramático o custo em vidas humanas dos própros haitianos.

A morte da dra. Zilda Arns emocionou o Brasil por sua história de vida e pelo trabalho humanitário ao longo de muito tempo. Nas últimas horas o secretário geral Ban Ki-Moon confirmou as mortes do tunisino Hedi Annabi (foto abaixo), Representante Especial da ONU no Haiti, e de seu adjunto e número dois à frente da missão, Luiz Carlos da Costa (foto do alto, condecorando soldados de operação de paz), um dos brasileiros mais graduados e experientes nos quadros da ONU. (Leia AQUI a declaração do secretário geral)

Os dois estavam familiarizados com as missões em pontos conturbados do mundo. Antes cabia a Da Costa (como era chamado) na sede de Nova York planejar cada uma delas conforme a situação específica do país, criando os cargos e escolhendo, dentro ou fora da ONU, pessoas capazes para ocupá-los. O desaparecimento dele no dia do terremoto já levara o secretário geral a nomear, para o lugar de Annabi, Edmond Mulet, que o antecedera.

O nível dos três no quadro é de secretário geral assistente. Curiosamente, nos últimos dias emails estavam sendo disparados por um grupo político no Brasil com ataques levianos à missão de estabilização no Haiti, Minustah – criticada como ineficaz e inoperante. Na verdade, seus prédios tinham sido destruídos no terremoto e suas autoridades maiores, Annabi e Da Costa, já estavam mortos.

Como Peter Sellers em “Being There”

Convivi alguns anos no prédio da ONU com gente dedicada que serve em tais missões. A jornalista brasileira Sonia Nolasco, esteve em Timor Leste e depois no Haiti. Já não estava lá no dia do terremoto. Em resposta a um email, explicou: “Por acaso estou aqui em Nova York, rezando por meus colegas. Nosso prédio desabou”. Antiga colega de redação no Rio, foi para os EUA em 1973, onde casou com Paulo Francis, seu namorado na juventude.

Os dois sempre moraram a uma quadra da sede da ONU, frequentado por Sonia como correspondente de jornais do Brasil. Algum tempo depois da morte do marido, ela decidiu servir em missões que exigiam sacrifício pessoal. Outro brasileiro, Manoel de Almeida e Silva, foi porta-voz muito tempo do secretário geral Kofi Annan e depois serviu mais de três anos na também caótica missão do Afeganistão.

O departamento de operações de manutenção da paz (peacekeeping) é um dos mais ativos da ONU. O jornalista James Traub, especialista em política externa que escreve para o New York Times, sabia bem como atuava com Annabi e Da Costa. Em artigo para o website Daily Beast (leia AQUI) observou: “Num filme, George Clooney poderia interpretar Sérgio Vieira de Mello. Mas não Annabi, tunisino seco, às vezes obscuro e cético mas nunca cínico. Seria um papel mais para o Peter Sellers de Being There”.

Traub uma vez ouviu o relato de Annabi (mais sobre ele AQUI) sobre encontro com delegação dos EUA após o Conselho de Segurança decidir em 2000 despachar soldados contra os assassinos psicopatas que tentavam depor o governo de Sierra Leone. “O que o senhor fará naquela confusão?”, perguntou alguém. E Annadi: “Vocês vieram me dizer como consertar aquilo com tropas que não estão me dando ou vão me ajudar a encontrar um meio de resolver a coisa? Se for o primeiro caso, a reunião será curta”.

Aquela maldição de Pat Robertson

A visita da secretária de Estado Hillary Clinton ao Haiti neste fim de semana busca dar ênfase ao empenho do presidente Barack Obama, que tem falado ao país diariamente sobre a tragédia e chamou Bill Clinton e George W. Bush para um esforço extra. Mas nos EUA é notória e chega a ser constrangedora a insensibilidade de personalidades, políticos e profissionais da mídia em relação ao Haiti. Quatro nomes destacaram-se negativamente nos últimos dias.

O primeiro foi o conspícuo tele-evangelista Pat Robertson (foto ao lado). Criador da notória Coalizão Cristã, esse reverendo fundamentalista disputou em 1988 as primárias do Partido Republicano como candidato à Casa Branca. Não emplacou. Mas como ex-dono de um canal de cabo o pastor Robertson continua influente no partido graças a seu programa de TV “Clube dos 700”, financiado por milionários republicanos.

Apesar de se julgar teólogo, filósofo e sábio, Robertson é capaz de asneiras monumentais. No último dia 13 declarou que a causa da pobreza e das tragédias do Haiti é um pacto com o diabo feito há dois séculos pelos escravos negros: em troca da vitória deles na rebelião de 1804 contra a escravidão e o controle dos colonos franceses, segundo a versão, passaram a servir ao senhor das trevas – e por isso foram amaldiçoados (saiba mais AQUI e AQUI).

Tal idiotice virou tema de debates em talk shows das redes de TV a cabo dos EUA. No passado o mesmo Robertson vendeu milhares de fitas VHS acusando o casal Clinton de homicídio, conclamou ao assassinato de Hugo Chávez, chamou o profeta Maomé de terrorista, ganhou mina de ouro do ditador liberiano Charles Taylor (hoje acusado de crimes de guerra) e disse que o 11/9 foi castigo divino por causa das feministas, dos gays e do aborto.

Os ‘iluminados’ e uma velha receita

Há mais “iluminados”, além de Robertson, determinados a sabotar na mídia a campanha em favor de doações às vítimas do Haiti. Rush Limbaugh (ao lado), extremista de direita e rei dos talk shows de rádio, conclamou as pessoas a negarem doações. “Já doamos antes. (…) Chega de jogar dinheiro fora”. E dois conservadores – Bill O’Reilly, da Fox News, e David Brooks, do New York Times – apresentaram suas próprias receitas mágicas. (E eles frequentam capas de revistas, como as reproduzidas aqui).

A receita de O’Reilly (veja-o na capa de Parade, à direita) é risível, digna do mau jornalismo do império Murdoch. Para ele, a cura dos problemas econômicos e sociais do Haiti consiste em impor disciplina aos haitianos. “Metade da população é analfabeta, o desemprego é 50%, as pessoas vivem com menos de US$2 por dia. Nenhuma caridade será suficiente e boas intenções não resolvem. O Haiti continuará caótico até se impor disciplina a eles”.

Já a receita “civilizada” de Brooks é contra a “cultura resistente ao progresso”. Ele explicou: “É hora de promover ali o ‘paternalismo dirigido’. Tentamos primeiro o combate à pobreza espalhando dinheiro, tal como fizemos em outros países. Depois, os esforços microcomunitários, como também fizemos em outras partes. Mas os programas que realmente funcionam envolvem paternalismo intrusivo”.

Ao expor esses dados o crítico de mídia Steve Rendall apelou para um grupo de direitos humanos, que ofereceu esta conclusão: “a receita do ‘paternalismo intrusivo’ para ‘consertar a cultura’ foi a política dos EUA no Haiti nos últimos 100 anos: ocupação militar brutal (1915-34); apoio à ditadura (1957-86); e, recentemente, a imposição de políticas comerciais que empobreceram ainda mais o povo. É preciso consertar não a cultura haitiana mas as políticas dos que só ajudam a si próprios. Elas é que deixaram milhares de haitianos literalmente enterrados vivos” (leia o original AQUI).

Published in: on janeiro 17, 2010 at 11:34 am  Comments (5)  

Dalva, Herivelto e a polêmica da mini-série

Como expliquei no blog de Luis Nassif (leia AQUI e AQUI), infelizmente – por razões diversas – não pude ver a mini-série da Rede Globo sobre Dalva de Oliveira e Herivelto Martins (na foto acima, os atores Adriana Esteve e Fábio Assumpção; abaixo, os personagens da vida real). No passado, como milhões de brasileiros, também acompanhei aquela briga musical. Hoje acho saudável o empenho da Globo em investir na história de nossa música popular (mesmo com eventuais tropeços, às vezes inevitáveis) como também partirmos, na nossa análise, de uma visão cética ao examinar a veracidade ou não do que nos é contado na TV.

Um comentário no blog do Nassif alegou que Herivelto, apesar de “grande sambista, grande compositor e grande músico”, foi um “grande canalha”. De certa forma foi essa a imagem maniqueista e provavelmente injusta que ficou da briga do casal. Mas a conclusão do comentarista pareceu-me reveladora. Disse ter chegado a ela “com base nas informações da maior testemunha de toda essa história: o filho mais velho do casal, Pery Ribeiro”.

Ora, ele se referia às conclusões do livro assinado por Pery Ribeiro e sua ex-mulher Ana Duarte. Um livro publicado às pressas pela editora Globo, subsidiária da mesma corporação cuja rede de TV produziu a série, para a mesma jogada de marketing. Nada contra a sinergia dos impérios de mídia, sempre boa receita para fazer muito dinheiro. Mas terá mesmo o Pery Ribeiro escrito o livro? E se escreveu, será ele testemunha confiável?

À época da briga do casal Pery tinha uns cinco anos, creio, e morava com a mãe. Já adulto, passou a dar palpites até sobre a visita ao Brasil do cineasta Orson Welles, numa época em que era quase bebê. Num filme sobre a visita de Welles, Pery “testemunhou” como se lembrasse de tudo, embora a única relação dele com o fato fosse o detalhe de ser filho de Herivelto, que assessorava o cineasta em matéria de música, samba, carnaval, etc. Aliás, pelo que sei, não houve qualquer referência na mini-série àquele episódio.

Seria bom saber que tipo de pesquisa fez Pery ou Ana Duarte para produzir o livro bancado pela editora e pela mini-série. Jonas Vieira, jornalista e pesquisador de nossa música popular, fez juntamente com Natalício Norberto, o único livro em que o lado de Herivelto de fato apareceu. Se eu fosse o Jonas, a esta altura estaria procurando um advogado para processar eventuais plagiários que podem ter faturado muito surrupiando o que só ele e Norberto apuraram – e, pior, tomando o partido do outro lado.

Num programa de duas horas na Rádio Roquette Pinto do Rio de Janeiro o Jonas já ofereceu sua análise crítica da mini-série. Tem autoridade para isso: o último depoimento do compositor foi feito a ele, para o livro Herivelto Martins, uma escola de samba (capa ao lado), lançado em 1992, poucas semanas antes de sua morte naquele mesmo ano (uma reedição revista e ampliada está prevista para as próximas semanas).

A visão bem fundamentada de Jonas aparentemente entra em choque com o relato oportunista da Globo, que no fundo limitou-se a perpetuar a impressão dada na época pela cobertura leviana da mídia. Impressão que obviamente seria ainda a da testemunha não confiável (por ser criança e vítima da separação), que no máximo daria um bom estudo psicanalítico sobre os efeitos nocivos das brigas de casal e da má conduta da imprensa.

Jonas também foi minucioso e enfático ao analisar o assunto no seu programa da Roquette Pinto, “Rádio Memória”. Expôs um amontoado de erros grosseiros da mini-série – citando até personagens reais que eram negros e na Globo viraram brancos de olhos azuis (que diabo, Ali Kamel, somos ou não racistas?). Os interessados podem ouvir a gravação no website da rádio (AQUI), conferir a continuação no próximo domingo e talvez ainda no seguinte, com muita música, selecionada por Jonas com extremo cuidado.

Entre quase três dezenas de comentários (muitos deles interessantes e reveladores) sobre a mini-série Dalva-Herivelto no blog do Nassif, preferi incluir aqui apenas o de Lu Dias BH, que também me escreveu. É o que transcrevo abaixo, antes de incluir minha última intervenção, sugerindo que se deixe para a sensatez dela a palavra final.

ATÉ ONDE HERIVELTO É CULPADO?
Lu Dias BH

É fato, que os espectadores da minissérie, que trouxe à tona a vida turbulenta do casal artístico Dalva de Oliveira e Herivelto Martins, em sua maioria, tomaram o partido de Dalva. Isso acontece, porque somos muito mais, movidos pelos sentimentos, de que pela razão. Mas, até que ponto o outro é responsável por nossas atitudes, por nossa maneira de sentir o mundo e agir?

Não é fácil bloquear ou romper nossas relações, uma vez, que o relacionamento é a essência do existir. Por isso, o ato de cortar relações foge à natureza humana, tornando-se uma atitude hostil à realidade. Quando isso acontece, de certa forma, prejudica todos os envolvidos. Todo rompimento traz sangramento, assim como acontece com qualquer órgão de nosso corpo. É uma perda de energia, mesmo que, em longo prazo, ela possa nos fazer bem.

Não podemos negar que, na vida, todos os seres sofrem. Mas, a verdade é que uns sofrem bem mais de que outros. A indagação a ser feita é por que uns sofrem mais e outros menos. Suponhamos que Emilinha Borba ou Marlene estivesse no lugar de Dalva. O sofrimento teria sido o mesmo? E por quê?

Sinto que certas predisposições biológicas tornam-nos mais ou menos afeitos ao sofrimento. De forma que, cada um, reage diferentemente. E, ninguém pode nos tornar tal fardo mais leve, a não ser nós mesmos. Como fazer isso é uma tarefa que nos cabe, individualmente.

Não é possível negar que fazemos mal, uns aos outros. Assim como não podemos negar que as conseqüências do mal recebido, variam de conformidade com o receptor. Ele é o responsável por colocar sua dor ao sol e fazê-la secar, reduzindo-a ao pó. Ou colocá-la na água com fermento, alimentando-a para que cresça e frutifique. A opção é pessoal. E, por isso, diminui a capacidade de o observador fortuito analisar o responsável maior, por esse ou aquele sofrimento.

A cultura humana ensina que o mal maior é aquele, que recebemos, e não o que fazemos ao outro. A nossa avaliação é, portanto, muito mais exterior que interior. Por isso, eu me pergunto se, o nosso sofrimento, muitas vezes, não é uma forma inconsciente de punir o outro, que julgamos não ter o direito de nos ter feito sofrer? Vemos isso, principalmente, nas relações entre casais, ou entre familiares. Enquanto esquecem, com facilidade, o sofrimento a eles impingido, por estranhos, têm dificuldade em esquecer o que lhes é direcionado pelos que amam.

A paixão tem a capacidade de nos toldar a razão e de nos cobrir com o manto da ignorância. Não me refiro apenas à falta de conhecimento, mas, também, à incapacidade que adquirimos de ver, ouvir e sentir, de modo a negarmos a realidade, em que estamos inseridos.

Uma união em desequilíbrio não é só prejudicial aos atores principais, como a todos que estão à volta. Se, não é possível reformá-la, o melhor é desfazer-se dela. Sem falar que, nenhum dos cônjuges pode, em sã consciência, comprometer-se com a durabilidade dos sentimentos, que o levou a se unir ao outro.

Quando, um dos lados opta por deixar o relacionamento, seja lá qual for o motivo, o outro nada pode fazer, a não ser aceitar e continuar buscando a sua felicidade, em outra seara. Talvez, seja isso o que a nossa querida estrela devesse ter feito, uma vez que Herivelto sacrificara o amor que tinha por ela, em função do machismo que carregava. Postura que carregou até à morte da cantora.

Dalva era uma mulher vibrante, batalhadora e moderna demais para a época. Enquanto, Herivelto ainda se apegava à falsa moralidade de que o homem podia fazer tudo sem manchar o nome, mas, qualquer coisa maculava o “sexo frágil”. Ele era, apenas, fruto dos preconceitos de seu tempo. Sem falar, que o sucesso de Dalva pesava sobre o seu machismo. Ela era a grande diva do Trio de Ouro. Um casamento não poderia sobreviver a tamanho descompasso.

Ainda, com a emoção à flor da pele, podemos condenar Herivelto. Mas, não podemos lhe imputar a obrigação de ter continuado, num relacionamento que não mais lhe dava satisfação, quaisquer que sejam as suas causas pessoais. O fato de Dalva não ter aceitado a separação e sofrido em conseqüência dela, não o torna melhor ou pior.

O sofrimento de Dalva foi uma escolha pessoal. Herivelto não pode ser culpabilizado, por ela não ter superado o desenlace amoroso. Ele não queria mais continuar preso àquela união. E ninguém pode o julgar por isso. Podemos questionar a sua conduta, no acirramento da discórdia. Mas, jamais pelo fato de ter se separado da cantora.

Como observadores atentos e justos, não podemos simplificar ou intensificar a complexidade da relação do casal Oliveira Martins, sem que compreendamos, primeiro, o contexto em que, cada um, se encontrava inserido, levando em conta o modo diferente como viam a moralidade da época.

Ouso pensar, que a não aceitação de se separar de Herivelto, teve um complicador maior, no caso de Dalva: o sentimento de rejeição. Coloquem-se na posição de uma mulher rica, importante, famosa no país inteiro, desejada por muitos homens, sendo trocada por outra, aparentemente desconhecida. O sentimento de rejeição mexeu com a auto-estima da cantora, apesar de todas as batalhas vencidas. Ela tinha tudo, menos o amor “daquele homem”. E era ele, quem ela desejava, para sua infelicidade.

Todo drama é, no fundo, fruto de um amor mal dirigido, o desejo desordenado de um bem, que não mais se tem e, em que se perde a essência do amor, para se deter apenas na sua causa. Qualquer tipo de paixão extrema destrói e devora. É a anulação do sujeito em função do objeto de seu desejo. É o deixar-se engolir, por inteiro, por sentimentos e circunstâncias. É a incapacidade de elevar-se acima da própria dor. E, por mais que saibamos disso, sempre caímos na mesma armadilha.

Ainda que, inconscientemente, é possível deduzir, que Dalva optou pela postura de vítima, a ponto de se colocar na mão de um homem, que já se encontrava, definitivamente, com outra. Esquecendo-se de que era uma cantora deslumbrante, que arrebatava o país e outros cantos do mundo. Ela não conseguiu se fortalecer, diante dos obstáculos enfrentados, nessa união tumultuada, permitindo que Herivelto determinasse a qualidade de sua vida interior, como se houvesse lhe entregado as chaves de seu destino, quer pro bem, quer pro mal.

De Argemiro Ferreira a Luis Nassif

Caro Nassif,

A palavra final sobre esse debate Herivelto-Dalva bem que poderia ser essa análise sensível de Lu Dias BH. Sem tomar partido, ela soube entender os dois lados, como também medir com precisão os efeitos dos preconceitos da época, a conduta leviana da mídia, a manipulação, etc.

Esclareço aos que participaram da discussão e aos demais leitores que o título “Reabilitando Herivelto Martins” deve ser aplicado não a mim, mas a Jonas Vieira. O mérito, no esforço de reabilitação, é dele – com a reedição de seu livro (com Natalício Norberto) Herivelto Martins – uma escola de samba, ampliado e com capítulos novos. Apenas chamei atenção para o esforço dele. Coube a Jonas trazer contribuição fundamental, ao ouvir a palavra do próprio compositor em 1992, poucas semanas antes de sua morte.

É injusta a redução maniqueista que acabou prevalecendo por muitos anos, com o retrato da cantora como vítima e do compositor como vilão desalmado. Grande cantor mas canalha, escreveu alguém. Hoje há mais discernimento, não se justifica voltar aos clichês explorados na mídia da época – do marido “corneado” ou da mulher “pecadora”.

Respeitar e admirar o talento do compositor e da cantora, buscar entender os dois lados da briga e os sentimentos de cada um naquele tempo marcado pelo preconceito e pela misoginia – como tentou fazer lu dias bh – é a única coisa sensata a fazer. A música popular saiu ganhando com a briga do casal mas o compositor e a cantora foram igualmente golpeados e feridos.

Ao invés de ter sido a “pecadora” dos boleros (ou das letras de David Nasser), ela na verdade foi uma mulher corajosa e à frente de seu tempo. Sofreu com isso. Ele, ao invés de ter sido um “canalha”, ficou condenado a conviver com o preconceito que o diminuia num mundo machista. Resquícios dessas coisas apareceram no debate – e estou pronto a me penitenciar se contribuí para isso.

Também não tentei subestimar Pery Ribeiro, apenas manifestar a opinião de que um trabalho de pesquisa profissional seria mais confiável como base para a mini-série. Incomodou-me, ao mesmo tempo, o fato de Pery ter aparecido num filme sobre a visita de Orson Welles ao Brasil, pois ali nada dizia de minimamente relevante. O que poderia dizer se era só uma criança pequena à época do fato?

(Para encerrar, clique abaixo para ouvir a Dalva de verdade)
Published in: on janeiro 14, 2010 at 7:41 pm  Comments (7)  

O neoliberal anti-Lula da “Newsweek”

Mac Margolis, correspondente de Newsweek no Brasil há mais de 25 anos, é tido como competente mas seu trabalho talvez seja afetado por ligações próximas com a oposição do PSDB. Mesmo com o mérito de nunca ter descido ao nível de um Larry Rohter, deixou-se conquistar pela rendição do governo FHC ao neoliberalismo econômico, ainda hoje a referência maior do jornalismo dele.

Como profissional experiente da mídia corporativa, Margolis frequenta nossa elite branca e teve acesso privilegiado ao governo anterior e seus ministros. Um destes, Roberto Muylaert, à época em que deixou a secretaria de comunicação da presidência passou a tê-lo como colaborador fixo em publicação largamente contemplada pela publicidade oficial. Além dessas relações, identificava-se com a política de privatizações e seu patrocinador FHC.

Agora, no entanto, um ativo crítico de mídia dos EUA – Peter Hart, da revista Extra!, publicada pela organização FAIR (Fairness & Accuracy in Media, Honestidade e Precisão na Mídia) – submeteu o trabalho de Margolis, tão prodigamente premiado aqui pelo alinhamento ao neoliberalismo e até ao Consenso de Washington, a análise séria e rigorosa. E com uma visão de esquerda.

O resultado foi uma crítica demolidora – apesar de Hart, aparentemente, nada saber sobre a intimidade promíscua de Margolis com os ressentidos ex-detentores do poder no Brasil, alijados pelo voto popular depois da compra de votos no Congresso que permitiu a reeleição em 1998. A análise na Extra! (veja a capa acima, à esquerda) deu-se ao trabalho de cotejar os textos do correspondente nos últimos anos.

Consenso de Washington salvou o Brasil?

Se a crítica ao menos tornar o jornalista de Newsweek mais cuidadoso já terá valido a pena: ele estava acostumado demais aos encômios ouvidos dos tucanos. Ao contrário de Merval Pereira, que recebeu o prêmio Moors Cabot em 2009 (a pretexto de ter “combatido valentemente a ditadura militar”, coisa que seu jornal na verdade nunca fez), Margolis pode até ter merecido o mesmo prêmio em 2003 por razões mais sólidas.

O correspondente tiraria proveito das críticas se tentasse distanciar-se mais dos aduladores tucanos – sempre à procura de jornalistas estrangeiros para convencê-los (em inglês: odeiam falar português) sobre méritos do governo FHC, que encaram como injustiçado. Ao exaltarem, por exemplo, a onda de privatizações selvagens, só teriam um ponto: foi ruim para o país, mas as comissões eram polpudas.

Na reportagem de capa de Extra!, Hart (foto à direita) é minucioso na análise dos textos de Margolis no período dos dois mandatos do presidente Lula. Expõe seu caráter tendencioso e preconceituoso – sempre na linha neoliberal que certamente soava como música aos ouvidos dos editores em Nova York. Chega ao extremo de afirmar, com todas as letras, que o Brasil foi salvo pelo Consenso de Washington.

O antetítulo do texto (“Meet Mac Margolis, their man in Latin America”, Conheça Mac Margolis, o homem deles na América Latina), é seguído pelo título em corpo maior, “Newsweek’s Name-Calling Neoliberal”, O neoliberal desbocado da Newsweek. A ilustração principal é uma capa-paródia da revista com a caricatura de Hugo Chávez à frente dos três que seriam seus inspiradores: Hitler, Mussolini e Stalin. Título: “Difamando a esquerda da América Latina”.

Será Oliver Stone a Riefenstahl de Chávez?

Quem comparou Chávez (na foto acima com o cineasta Oliver Stone no Festival de Veneza) aos três ditadores de uma vez foi Margolis, induzido pela própria inclinação ideológica, numa reportagem leviana publicada a 2 de novembro (leia a íntegra AQUI). Ali fazia piadas sobre a criação na Venezuela de uma produtora pública de cinema, com estúdio e tudo: “Como Mussolini e Stalin antes, o presidente Chávez criou seu próprio estúdio de cinema”. O objetivo, sugeriu, é a propaganda deslavada.

Escreveu ainda o corresponente em novembro: “Como os autocratas do século 20 que procura imitar, Chávez é fascinado pelo poder do cinema. Desde que Hitler voltou-se para Leni Riefenstahl os ditadores têm sonhado em ganhar a força épica da tela grande para seu script político. Com a Villa del Cine, posicionou-se, conscientemente ou não, como herdeiro dos totalitários maiores do século 20”.

Para Hart, não há muitas evidências de que as instalações de edição e os estúdios da Villa del Cine são passos iniciais rumo ao fascismo. Se fossem, observou ainda, o National Film Board do Canadá já teria há muito tempo empurrado esse país vizinho dos EUA para o Gulag. Mas Margolis (foto ao lado) prefere carregar nas tintas contra Chávez, crítico feroz do neoliberalismo e da retórica submissa ao poder das corporações.

Em plena crise financeira que golpeou o mundo graças à irresponsabilidade de Wall Street e dos bancos que criaram a bolha imobiliária, Margolis continuava fiel, em julho de 2009, ao desastroso rumo neoliberal. Escreveu: “Apesar do Consenso de Washington ter salvado sua economia, o Brasil hoje tenta enterrar a agenda ‘neoliberal’ das reformas de mercado, que nos anos 1990 impulsionaram os países em desenvolvimento.”

A afirmação é ainda mais insólita se for levado em conta o sucesso do governo Lula naqueles dias, a ponto de tornar o Brasil o primeiro país a sair da crise. Mas Margolis reclama mais privatizações. E acrescenta: “Não é a América Latina que precisa ser resgatada nos destroços das reformas de mercado. São as reformas que precisam ser resgatadas na América Latina”.

“Esses latinos contra o livre comércio?”

Hart registra com sarcasmo a enorme arrogância do comentário, que beira a desfaçatez. E sugere o que passa pela cabeça de Margolis – “Esses latinos babacas acham que vão desacreditar o livre mercado?” Na tentativa de explicar que o Consenso de Washington funcionou, disse Hart, não eram as reformas de mercado que tinham precisado de socorro. Assim o próprio Margolis escrevera em junho:

“Uma das explicações (…) para a atual trapalhada na América Latina tem como alvo o evangelho das reformas de livre mercado pregadas na década de 1990 pelos ‘pundits’ em Washington e ‘magos’ em Wall Street. Críticos do chamado Consenso de Washington argumentam que os frutos da estabilidade deixaram de alcançar as massas. Ao arranharem a superfície, o quadro pareceu mais complexo.

Através da América Latina, a mortalidade infantil tinha caído drasticamente, enquanto a alfabetização e a expectativa de vida tinham chegado às alturas, até na empobrecida Bolívia. Matrículas em escolas primárias e acesso à água potável e à eletricidade estão subindo. Mais cidadãos envolvem-se na política agora do que em qualquer época: indígenas já constituem 30% do Congresso boliviano”.

Para Hart, Margolis não viu necessidade de explicar a relação de causa e efeito entre as políticas econômicas neoliberais que ele apóia e a melhoria das condições de vida. Isso por achar a conexão auto-explicativa. Um sociólogo que tinha trabalhado na Bolívia discordou e disse em carta à revista que muitos avanços resultaram de intervenções do governo – o oposto do que prega o “Consenso”, que exige austeridade nos orçamentos e mais privatizações. E a Bolívia de Evo Morales (na foto à direita, ao lado de Chávez), é outro alvo prioritário de Margolis, pelas razões óbvias.

Um populismo de talão de cheque?

No caso particular do Brasil, as avaliações equivocadas de Margolis parecem até tradução para o inglês daquilo que nossa grande mídia obstina-se em repetir em português. Às vezes Lula ganha elogio dele – mas só quando suas políticas parecem, por exemplo, favorecer os investidores de petróleo e o capitalismo global. “Lula não é Hugo Chávez”, chegou a dizer. Mas, de repente, ele volta ao ataque: “Lula dá guinada à esquerda”.

A grave suspeita de “populismo”, tão cara a FHC e seu Cebrap, sempre reaparece. “Com um olho na posteridade e outro na urna”, provocou. “Exatamente o tipo de armadilha populista que Lula tinha evitado até agora”, escreveu. O repúdio aos programas sociais que o neoliberalismo odeia também é recorrente. “Populismo de talão de cheque”, sentenciou. Hart estranha, lembrando como o Brasil saiu bem da crise.

Números e dados de Margolis nem sempre são confiáveis. “Quase 63% de jovens latinos dizem agora que o livre mercado beneficia todas as pessoas”, escreveu ele. Mas Hart explicou e corrigiu: “a pesquisa foi pela internet, a que só tinham acesso 31% da população; e mesmo assim Margolis não notou que nela sua tese fora contestada por 90% – favoráveis a que os governos façam mais para ajudar os pobres”.

E mais um escorregão de Margolis ficou exposto quando afirmou que o continente está às vésperas de uma virada à direita, devido às eleições dos 17 meses seguintes no Brasil, Uruguai e Chile: “Em nenhum dos três países o partido de esquerda no poder é cotado para ganhar”. A realidade já o desmentiu. A esquerda ganhou no Uruguai e foi para o segundo turno no Chile, enquanto no Brasil José Serra hesita em ser candidato, com medo de perder outra vez para a esquerda.

Restaria, enfim, lembrar que Newsweek incluiu Lula, há um ano, no 18° lugar da lista (encabeçada por Barack Obama) das 50 pessoas mais poderosas do mundo, o que chamou de “Elite Global” (leia AQUI). Só não entendo porque os editores encomendam a Margolis textos sobre Lula: ele sempre dá um jeito de enfiar FHC (veja os dois juntos acima, numa foto dos anos 1970), que quebrou o Brasil três vezes, como “o grande reformista” (bom exemplo AQUI).

Quanto à revista Extra!, esse número de janeiro está à venda há apenas dois dias. O website da FAIR (conheça-o AQUI) inclui algumas matérias, mas não a da capa, escrita por Peter Hart. Para ler a íntegra é preciso fazer a assinatura anual (12 números de 16 páginas) da edição eletrônica em pdf, ao custo de US$15.

Published in: on janeiro 8, 2010 at 6:14 pm  Comments (3)  

Krugman e o Ano Novo chinês

Como observei no Blog do Nassif (leia AQUI), justificaria um debate a lógica exposta pelo economista Paul Krugman (foto), em sua coluna do New York Times, sobre a política monetária da China, que chama de “mercantilista”. Ele argumenta que a China tornou-se uma grande potência financeira e comercial mas não age como outras grandes economias. E, ao invés disso, segue a política mercantilista que mantém artificialmente alto o seu superávit comercial (íntegra AQUI, no original inglês).

Para Krugman, no mundo de hoje, em depressão, tal política é predatória – para usar uma palavra dura. Explica como isso funciona: diferente do dólar, do ouro ou do yen, cujos valores flutuam livremente, a moeda da China está atrelada à política oficial de 6,8 yuan por dólar. A essa taxa de câmbio, o que exporta tem grande vantagem de custo sobre os produtos rivais, criando enormes superávits comerciais.

Em circunstâncias normais, o influxo dos dólares gerados pelos excedentes elevaria o valor da moeda chinesa, a menos que fosse compensado pelos investidores privados na direção oposta. E os investidores privados estão tentando entrar na China e não sair de lá. Mas o governo chinês restringe os influxos de capital, até ao comprar dólares e mantê-los no exterior, ampliando seus fundos superiores a US$ 2 trilhões em reservas estrangeiras. Sustenta Krugman que essa política é boa para o complexo industrial do estado chinês orientado para as exportações. Mas que não é boa para os consumidores chineses. E quanto ao resto de nós? – pergunta.

Uma resposta a Wen Jiabao

“No passado – escreve ainda – podia-se dizer que a acumulação pela China de reservas externas, muitas delas investidas em bônus dos EUA, nos fariam um favor, pois mantinham baixas as taxas de juros, embora o que fizemos com aquelas taxas de juros baixas foi principalmente inflar uma bolha imobiliária. Mas neste momento o mundo está inundado de dinheiro barato procurando um lugar para ir. As taxas de juros de curto prazo estão perto de zero; as taxas de juros a longo prazo são mais altas mas apenas porque os investidores esperam que um dia acabe a política de taxa zero. As compras de bônus pela China fazem pouca ou nenhuma diferença”.

Enquanto isso, argumenta Krugman, os superávits comerciais drenam a demanda, muito necessitada, de uma economia mundial deprimida: “Minhas contas sugerem que o mercantilismo chinês pode terminar reduzindo em cerca de 1,4 milhões os empregos nos EUA. Os chineses negam-se a reconhecer o problema. O primeiro-ministro Wen Jiabao descartou recentemente as queixas estrangeiras. Alegou que ‘por um lado vocês pedem que o yuan seja valorizado e por outro estão adotando todo tipo de medidas protecionistas’”.

O próprio Krugman respondeu: “De fato. Outros países estão adotando medidas protecionistas (modestas) precisamente porque a China se nega a deixar sua moeda subir. E muitas de tais medidas são apropriadas. Mas serão mesmo? Em geral ouço duas razões para se evitar o confronto com a China por causa de suas políticas. Nenhuma das duas se sustenta.

Primeiro, há a alegação de que não podemos confrontar os chineses porque eles tumultuariam a economia dos EUA desfazendo-se de suas reservas de dólares. É um raciocínio equivocado e não só porque se o fizessem infligiriam grandes perdas para eles próprios. O ponto maior é que as mesmas forças que tornam o mercantilismo chinês tão danoso neste momento também significam que a China tem pouca ou nenhuma alavancagem financeira.

Neste momento, repito, o mundo está repleto de dinheiro barato. Logo, se a China resolvesse começar a vender dólares, não há razão para pensar que isso iria elevar significativamente as taxas de juros. Provavelmente enfraqueceria o dólar frente a outras moedas – mas isso seria bom, e não ruim, para a competitividade americana e o emprego nos EUA. Assim, devíamos na verdade agradecer se os chineses se desfizessem dos dólares.

Segundo, há a alegação de que o protecionismo é sempre uma coisa ruim, em quaisquer circunstâncias. Se é o que você acha, no entanto, então você aprendeu os princípios básicos de economia com as pessoas erradas. Pois quando o desemprego está alto, e o governo não consegue restaurar o pleno emprego, não se aplicam as regras normais”.

A advertência de Paul Samuelson

Krugman prossegue: “Cito aqui um trabalho clássico do falecido Paul Samuelson (foto à esquerda), que de certa forma criou a economia moderna: ‘Com emprego abaixo do pleno (…) todos os argumentos mercantilísticos desacreditados’ – isto é, alegações de que as nações que subsidiam suas exportações na prática roubam empregos de outros países – ‘tornam-se válidos’. Ele argumentou em seguida que as taxas de câmbio persistentemente desalinhadas criam ‘problemas genuínos para os defensores do livre comércio’. A melhor resposta para tais problemas é a volta das taxas de câmbio ao ponto em que deviam estar – exatamente o que a China impede que aconteça”.

O resultado final, para Krugman, é que o mercantilismo chinês é um problema crescente, e as vítimas desse mercantilismo têm pouco a perder num confronto comercial. E conclui: “Assim, eu conclamaria o governo da China a reconsiderar sua teimosia. Do contrário, o próprio protecionismo brando de que se queixa atualmente será o início de algo muito maior”.

(Abaixo, um cartum a que recorreu Krugman em seu blog no passado para expor o efeito manada nas Bolsas)

Published in: on janeiro 2, 2010 at 10:12 am  Comments (5)