Edward Moore (Ted), o último dos irmãos

Kennedy_family(Ted Kennedy é o único dos nove filhos e filhas que não aparece acima rodeando o pai Joseph P. Kennedy e a mãe Rose Fitzgerald. Não tinha nascido quando foi feita esta foto do álbum da família)

Aos 77 anos ele era o último dos quatro filhos homens de Joseph P. Kennedy, milionário de passado nebuloso e negócios duvidosos que sonhou em tornar-se presidente. De olho na Casa Branca, o patriarca (na foto abaixo, com os quatro) ajudou a financiar as campanhas do presidente Franklin Roosevelt, que o recompensou com o cargo de embaixador em Londres. Mas Joseph P. cometeu graves erros de avaliação.

Apesar de estar num posto privilegiado para acompanhar o desdobramento dos acontecimentos na Europa e a evolução da ameaça nazifascista, ousou namorar o isolacionismo e ignorar os instintos políticos de Roosevelt em relação ao futuro próximo. Deixou-se levar pela mesmo derrotismo do primeiro ministro Neville Chamberlain, que assinou o pacto de Munique com Adolf Hitler.

KennedyMen_coverpicJoseph P. continuou embaixador até o final de 1940, quando já começara o bombardeio alemão da Inglaterra. Teve de deixar o cargo e desistir da carreira política depois de declarar a dois jornais, em dezembro, que “a democracia na Inglaterra terminou – talvez a dos EUA também”. Sua aposta política transferiu-se então para o filho Joseph Jr., que se tornou piloto da Marinha em 1942 mas foi morto em 1944 numa missão.

Um presidente e dois senadores

O segundo filho, John Kennedy, também serviu na guerra. Comandou no Pacífico pequena unidade da Marinha (o barco PT-109), atacada por destróier japonês em 1943. Por sua conduta “extremamente heróica” no episódio foi condecorado com a Medalha da Marinha e mais três – muito úteis ao se lançar na política. Em 1946 elegeu-se deputado (reeleito duas vezes), em 1952 senador e em 1960 presidente.

A carreira do terceiro, Robert (Bob), começou como chefe das campanhas do irmão. Em 1952, quando John elegeu-se para o Senado, foi indicado pelo pai ao notório senador Joseph McCarthy, então empenhado na caça aos comunistas do país, para ser assessor jurídico assistente da célebre sub-comissão permanente de investigações – principal instrumento da grande inquisição macarthista.

Renunciou em 1953, mas voltaria no ano seguinte, já então no papel de consultor principal da equipe de advogados que assessorava a bancada democrata na mesma sub-comissão. É que a eleição de 1954 dera a maioria no Senado à oposição democrata, contra o governo republicano do presidente Eisenhower – o que permitiria aprovar no mesmo ano o voto de censura que afinal golpeou o senador McCarthy.

Vocação e apetite pela política

Kennedy_brothers-corAs coisas nunca sairam como o velho Kennedy planejava. Ele queria o filho mais velho na Casa Branca. Joseph Jr. era o orgulho da família, no seu uniforme de piloto da Marinha. Fiel ao pai, também desapontado com Roosevelt e distanciado da política, até ensaiou os primeiros passos no Partido Democrata, declarando-se na convenção nacional de 1940 contrário à candidatura do presidente à reeleição.

Com a morte de Joseph Jr. antes do final da guerra, o pai voltou-se para John – ainda que Bob parecesse o mais fascinado pela política, tanto nas campanhas do irmão como no cargo de assessor no Senado – e mesmo, mais tarde, na sua própria campanha de 1968, interrompida por uma bala assassina em seguida à vitória nas primárias da Califórnia, que poderia levá-lo ao triunfo na convenção de Chicago.

Mas entre os quatro, pode ter sido Edward Moore (Ted) o filho com mais vocação e apetite para a política – mesmo sendo o mais subestimado, talvez porque era o mais novo. A partir de 1962, quando se lançou candidato à vaga do irmão John no Senado, Ted entregou-se à política – a ponto de nunca ter perdido uma eleição e de exercer com aparente prazer até os deveres mais maçantes de um senador.

Na primeira campanha Ted Kennedy foi duramente atacado pelo adversário com o argumento de que, não fosse pelo sobrenome e por ser irmão do presidente, sequer seria candidato. “Se você fosse apenas Edward Moore não estaria aqui” – disse num debate. Aquela eleição era para completar o resto do mandato de JFK – dois anos (ao morrer agora, Ted deixou três anos dos seis anos de seu último mandato).

Bem mais do que esperavam dele

Imbatível em nove disputas seguidas para o Senado, perderia – e desistiria da Casa Branca – no desafio à reeleição de Jimmy Carter em 1980. Mas viveu uma carreira extraordinariamente produtiva, apesar das tragédias pessoais e familiares. Tinha 12 anos quando o irmão mais velho morreu na guerra aos 29 anos. Os outros dois foram assassinados no Texas (1963) aos 46 e na Califórnia (1968) aos 43.

TedKennedy_08Para viver bem mais do que eles e deixar seu legado na política teve de sobreviver a dois desastres (de avião e de carro). O país deve a ele um conjunto de leis – de sua iniciativa ou resultantes de seu esforço negociador na busca de acordos capazes de superar impasses. Leis marcantes no campo dos direitos civis, da educação, da saúde. Lutou ainda pela reforma do sistema de saúde, meta maior de Barack Obama, cuja candidatura em 2008 recebeu dele empurrão decisivo em momento crítico da campanha.

JFK foi deputado seis anos, senador oito e presidente menos de três. Bob, secretário de Justiça no curto governo do irmão, invisível no período do sucessor Johnson, cumpriu depois apenas três anos e meio do mandato de senador por Nova York. Os 45 anos de Ted, quase um recorde no Senado, foram o dobro da soma dos diferentes mandatos cumpridos pelos dois irmãos. Um feito bem além dos planos do pai.

Anúncios
Published in: on agosto 27, 2009 at 12:33 am  Comments (4)  

O mea culpa do “guerreiro frio” George Kennan

KennanGeorge_NYT

Ao morrer em 2005, com 101 anos, o cientista político e diplomata George F. Kennan (sua foto acima é da década de 1940; abaixo, à direita, nos anos 1990) já tinha sido retratado por Walter Isaacson e Evan Thomas como um dos “seis sábios” que construiram o mundo pos-II Guerra Mundial (os outros eram Averell Harriman, Dean Acheson, John J. McCloy, Charles Bohlen e Robert Lovett). Foi clara a influência dele no rumo da política externa dos EUA e da guerra fria mas teve o mérito incomum de reconhecer os erros cometidos (mais sobre ele AQUI).

Com pouco mais de 40 anos de idade, em seguida à vitória aliada contra o eixo nazi-fascista e aos ataques atômicos ao Japão, ele concebeu a estratégia do containment – a contenção global do comunismo em qualquer parte do mundo, por meios políticos, diplomáticos e ações da espionagem (AQUI, um texto do Departamento de Estado sobre a teoria). Isso levaria à criação do setor de operações clandestinas da CIA, que derrubou governos e eliminou governantes e líderes pelo mundo.

Kennan julgava-se mais intelectual (amante da poesia e da ficção) do que homem de ação, mas entrou para a história como conspícuo guerreiro frio – um dos primeiros. Isso se deu em parte devido ao despacho diplomático secreto de 8.000 palavras (conheça-o AQUI) que enviou de Moscou, onde servia como embaixador adjunto, ao Departamento de Estado, transformado depois num artigo para a revista Foreign Affairs, assinado com o pseudônimo “X”.Kennan_050318

O containment contra a URSS

O despacho chegou a Washington em fevereiro de 1946. Foreign Affairs publicou o artigo, sob o título “As Fontes da Conduta Soviética”, em julho de 1947 (leia a íntegra AQUI). Kennan era então adjunto do embaixador Averell Harriman – que, como ele, achava estarem a diplomacia e o governo dos EUA iludidos sobre a cooperação da URSS, aliada na guerra. Para os dois, era preciso sacudir e alertar os americanos para uma possível ameaça.

O presidente Harry Truman tinha chegado ao poder em 1945, quando a morte de Franklin Roosevelt traumatizou o país. Parte da equipe herdada por ele defendia uma continuação da política rooseveltiana de cooperação com os russos. Outros reclamavam imediata mudança de rumo. Estes apressaram-se então em fazer dos argumentos de Kennan a justificativa intelectual do endurecimento que pregavam.

Walter Lippman, o mais influente analista de política externa na mídia daqueles dias, contestou Kennan (saiba porque AQUI). Interpretou seu containment como também fizera a linha dura – sob o ângulo militar. Mais tarde, em entrevistas e nas suas memórias, Kennan admitiria ter sido ambíguo na linguagem ao propor uma contenção firme, vigilante e a longo prazo do “expansionismo russo”. Reconheceu que o texto, ambíguo, de fato comportava aquela interpretação.

Em entrevista à rede pública de TV (PBS), Kennan reafirmou em 1996 (leia AQUI) que não encarava os soviéticos como primariamente uma ameaça militar. “Não eram como Hitler”, disse. Explicou ainda que o “mal entendido” deveu-se ao trecho do artigo no qual dizia que “onde quer que eles (a liderança russa) nos confrontem no mundo, temos de fazer todo o possível para contê-los, e não permitir que se expandam mais” (saiba outros detalhes na entrevista dada à CNN, AQUI).

Da doutrina Truman à OTAN

Ao falar a David Gergen, na PBS, Kennan admitiu que devia ter acrescentado “não suspeitar que eles (os russos) tinham qualquer desejo de nos atacar. Isso foi logo depois da guerra e era absurdo supor que iam se voltar contra nós, atacar os EUA. Naquele momento não achei que tinha de dar essa explicação. Obviamente eu devia, sim, ter explicado.” Lippman, que o criticou, como também a linha dura, interpretaram o texto da mesma forma.

Century_EndingGraças a isso, o artigo acabou usado para justificar a doutrina Truman (cujo passo inicial foi a ajuda à Grécia e à Turquia, para deter os comunistas), o Plano Marshall que viria em seguida e a criação da aliança atlântica (OTAN, Tratado do Atlântico Norte). E forneceu rationale aos duros. Mas não era a intenção de Kennan, que fez mea culpa em seus livros de memórias, desapontado com os efeitos do que escrevera antes (o da capa ao lado foi o último que publicou, At a Century’s Ending – Reflections, 1982-1995 – mais sobre ele AQUI).

Para ele, a coisa não devia ter sido tão simplista como quis a linha dura. Já na década de 1950 rejeitou a enorme escalada armamentista da guerra fria, tanto das armas convencionais como das nucleares. Era tarde demais, mas Kennan foi contrário à obsessão belicista a que se recorreu a pretexto da “ameaça vermelha”, montando o palco para os excessos anticomunistas (histeria, macarthismo, caça às bruxas, etc).

Depois do alerta para a conduta soviética, enquanto servia sob Harriman na embaixada dos EUA em Moscou, Kennan voltou aos EUA em 1946. Integrou a Escola Nacional de Guerra, a equipe de planejamento de políticas e, em seguida, tornou-se conselheiro do secretário de Estado Dean Acheson. Divergiu do papel militar na Coréia e outras questões, até deixar o governo e optar pela área acadêmica – em Princeton.

Conservador, independente, racional

Kennan_050317Ele ainda teve novo período na embaixada dos EUA em Moscou, em 1952, mas breve, de apenas cinco meses (na foto à esquerda, a entrega de credenciais, ao lado de Nikola Shvernik e A.F. Korkin, membros do Presidium do Soviet Supremo). Desta vez como embaixador pleno. Serviu apenas para aumentar seu desencanto com a diplomacia, pois não se entendia com o então secretário de Estado John Foster Dulles, no governo Eisenhower. Amigos e colegas, como o cientista Robert Oppenheimer e outros diplomatas, tornaram-se então alvos do senador Joe McCarthy, sem que Dulles e Eisenhower ousassem defendê-los.

Teve ainda passagem rápida pela embaixada dos EUA na Iugoslávia, no governo Kennedy. De volta à Princeton em 1963, Kennan não mais deixou a Universidade. Suas reflexões posteriores, especialmente em livros (escreveu quase duas dezenas, inclusive volumes de memórias), expuseram posições independentes e ousadas para sua postura conservadora – como a oposição ao envolvimento no Vietnã.

Na coragem e no bom senso esse conservador soube fugir aos padrões. Assumiu os próprios erros e até chamou atenção para eles. Em momento crítico da história soube perceber que suas advertências tinham sido ouvidas pelas razões erradas e sua percepção do perigo soviético fora levada a extremos. A franqueza usada então foi a mesma com que antes tinha criticado os que, para ele, confiavam demais na amizade russa. (Correções feitas às 23:20h)

Published in: on agosto 13, 2009 at 6:46 pm  Comments (2)  

Truman, Stalin e Churchill em Potsdam

Potsdam_1945

Como foi lembrado (no primeiro post de 6/8), o presidente dos EUA estava na cúpula de Potsdam, Alemanha, ao receber a 16 de julho de 1945 a informação sobre o êxito do teste atômico no deserto do Novo México. Harry Truman – o senhor daquela reunião, como relataria Churchill – deu a notícia a um Stalin impassível. E no dia 31 expediu a ordem para a superarma ser usada a 6 de agosto em Hiroshima e três dias depois em Nagasaki.

Na cúpula anterior – em Yalta, na Rússia – Roosevelt, Churchill e Stalin tinham enfrentado a questão das áreas de influência na Europa Central e Oriental. O avanço do Exército Vermelho na Europa deixara o Ocidente enfraquecido nas negociações. Tornara-se relevante, então, o entendimento com Stalin antes que as tropas dos EUA iniciassem a retirada do continente europeu (mais AQUI e AQUI sobre Yalta).

A Polônia era encarada como questão-chave. O equilíbrio ali entre os políticos de inclinação ocidental e os mais próximos da URSS poderia estabelecer os padrões a serem seguidos mais tarde no resto da Europa Oriental. Mas a cúpula de Yalta (veja na foto abaixo, à direita, a aparência frágil de Roosevelt, enfraquecido pela doença que o mataria pouco depois) terminara com um acordo mais aparente do que real. Os três grandes passaram a interpretar, cada um à sua maneira, o texto pouco definido.

Depois de Roosevelt, a linha duraYalta_1945

Na sua linha de cooperação e conciliação, Roosevelt pode ter ficado atônito entre a firmeza de Churchill, em favor de maior influência ocidental, e a obstinação de Stalin, em oposição a isso. Para o historiador Gar Alperovitz, Truman distanciava-se da linha de cooperação do antecessor. Lançava-se numa política externa dura, com o objetivo de reduzir ou eliminar a influência soviética na Europa.

A bomba influenciou a diplomacia e determinou muitas das posições de Truman, numa linha dura para forçar a aceitação soviética dos planos dos EUA para a Europa Central e Oriental. Como previram os secretários da Guerra (Henry Stimson) e de Estado (James Byrnes), o presidente era impelido pela master card (a bomba) – que “nos colocou em posição de impor nossos termos”, como o próprio presidente escreveria mais tarde em suas memórias (saiba mais AQUI, inclusive com trechos do diário de Stimson).

O secretário da Marinha – James Forrestaal, depois sucessor de Stimson à frente do Pentágono – referiu-se a 28 de julho, no diário que mantinha, à ânsia de Byrnes de acabar com o problema japonês antes da entrada dos russos. Walter Brown, assistente pessoal, registrou que o secretário de Estado queria o uso da bomba para o Japão se render logo e a Rússia ficar sem condição de fazer qualquer exigência.

Ao contrário de Byrnes (veja-o abaixo, à esquerda, festejado pela linha dura na capa  da revista Time), o secretário da Guerra Stimson iria arrepender-se mais tarde de ter recomendado a transformação da superbomba num instrumento da diplomacia contra os soviéticos – um rumo “perigoso”, conforme registraria em seu diário, depois de deixar o governo em setembro de 1945, devido a um problema cardíaco.

Byrnes ama a bomba, Ike e MacArthur não

Byrnes_James-TimeO esforço final de Stimson foi em favor de contato imediato e direto com a Rússia, para se tentar o controle internacional da energia atômica e assim evitar uma “corrida armamentista de caráter talvez desesperado”. Disse ele num memorando a Truman: “Se fracassarmos agora na aproximação com os soviéticos e simplesmente insistirmos em negociar usando ostensivamente a vantagem da bomba-A, isso vai apenas alimentar as suspeitas e a desconfiança”.

Os depoimentos de oficiais e documentos das Forças Armadas, inclusive livros de memórias de importantes líderes e comandantes da época, são contundentes na afirmação de que, do ponto de vista militar, o uso da bomba era desnecessário para levar os japoneses à rendição. A começar pelo próprio comandante supremo das forças aliadas na Europa.

“O Japão já estava derrotado. Usar a bomba era completamente desnecessário. Além do mais, nosso país não devia chocar a opinião pública mundial com a utilização de uma arma que já não era relevante para salvar vidas americanas”, escreveu o general Dwight D. Eisenhower (Ike) em Mandate for Change, seu livro de memórias publicado em 1963 (veja-o na foto abaixo, ainda como general da ativa).

“Não era preciso ameaçar o Japão com aquela coisa pavorosa”, afirmou ainda. O comandante das forças aliadas no Pacífico, general Douglas MacArthur, disse não ter sido ouvido sobre o assunto – o governo limitara-se a informá-lo sobre a decisão. Ele repetiria muitas vezes, no futuro, que do ponto de vista militar considerava completamente desnecessário o uso da bomba atômica.

“O Japão já estava derrotado”Eisenhower

Antes de ser usada a bomba, também os membros do Estado-Maior Conjunto avisaram que o Japão seria forçado a se render incondicionalmente sem a superarma e sem uma invasão. Seu chefe, general George Marshall (que depois seria secretário de Estado), escreveu a 18 de julho de 1945: “o impacto da entrada dos soviéticos na guerra do Pacífico contra os já desesperados japoneses poderia muito bem ser a ação decisiva para levá-los à capitulação”.

Outros chefes militares em posições sensíveis achavam a mesma coisa. Antes e depois das explosões atômicas, o almirante William Daniel Leahy, chefe de gabinete de Truman, estava convencido – como contaria em seu livro I Was There – que “o uso dessa arma bárbara em Hiroshima e Nagasaki não representava qualquer ajuda material na guerra contra o Japão”, pois os japoneses “já estavam derrotados e prontos para se renderem”.

E na sua autobiografia (Fleet Admiral King) o almirante Ernest Joseph King, chefe das Operações Navais, disse que durante a maior parte de 1945 considerou desnecessário usar a bomba. Quanto à posição da Força Aérea, foi definida assim pelos generais Henry Harley Arnold e Curtis Emerson LeMay: “Se a bomba seria ou não lançada, não cabia à Força Aérea decidir. Mas a explosão não era necessária para ganhar a guerra ou evitar uma invasão.”

Published in: on agosto 7, 2009 at 9:38 am  Comments (1)  

Hiroshima antes e depois da bomba-A

Hiroshima_Bomb_Before.JPG

As fotos são disponíveis AQUI e AQUI. No alto está a maquete de Hiroshima como era antes de ser lançada a bomba atômica pelos EUA. A de baixo é de como ficou a cidade depois da destruição.

Segundo a informação oferecida nos dois endereços eletrônicos, as maquetes estão no museu da paz em Hiroshima, onde foram feitas estas fotos em 2005. E conheça mais dados sobre a destruição de Hiroshima e o balanço das mortes AQUI.

Hiroshima_Bomb_After.JPG

Published in: on agosto 6, 2009 at 7:15 pm  Comments (1)  

O crime de Hiroshima, 64 anos depois

Hiroshima_Atomic_cloud

No atual debate internacional exorcizam-se como loucos os governantes do Irã e da Coréia do Norte, acusados de buscarem armas nucleares. Mas não se fala que o único país a usar tais armas – não uma, mas duas vezes; não contra alvos militares, mas populações civis – é precisamente o mais veemente nas denúncias (a foto acima foi feito de um avião americano em seguida ao bombardeio de Hiroshima). Nem Stalin, vilão dos vilões no discurso dos EUA na guerra fria, praticou tal atrocidade.

Para alguns estudiosos, as bombas atômicas contra Hiroshima e Nagasaki, há 64 anos, não foram o ato final da II Guerra Mundial, mas o primeiro da guerra fria, cuja data de nascimento pode ter sido aquele 6 de agosto. Tal questão está na raiz do debate sobre as razões invocadas para a decisão do presidente Harry Truman – EnolaGay_PaulTibbetscontrovérsia reaberta nos EUA em 2005, por causa da exposição do avião Enola Gay no Museu Aéreo-Espacial do Smithonian Institution (na foto ao lado o piloto Paul Tibbets acena ao dar partida no avião que levava a bomba Little Boy).

No projeto original dos curadores da instituição, na exposição a réplica da superfortaleza voadora B-29 que lançou a bomba em Hiroshima estaria acompanhada das imagens e informações sobre os efeitos causados pela explosão. Ante vigorosa pressão conservadora, o projeto foi drasticamente reduzido. Mas a American University de Washington decidiu fazer outra exposição, na qual exibiu a destruição que o Smithsonian, envergonhado, optou por esconder do público.

A tragédia das cidades japonesas

A campanha conservadora contra exposição questionava o patriotismo dos responsáveis pela exposição. Alegava que, por tornar desnecessária uma sangrenta invasão do Japão, a bomba poupara muitas vidas.Alperowitz_Gar.JPG Em 1947 Truman tinha sido específico. Falou que salvara 250 mil vidas americanas. Depois elevou o número a meio milhão. Mais tarde, um milhão. E afinal, “milhões”. Documentos militares só diziam 20 a 60 mil.

Em 1965 o professor Gar Alperovitz (foto ao lado), com base em vasta documentação, refutara (no livro Atomic Diplomacy: Hiroshima and Potsdam) a tese de que a bomba poupara vidas daquela forma. E 30 anos mais tarde constataram-se duas realidades críticas: 1. havia um abismo cada vez maior entre o que os historiadores sabiam e o que fora dito ao público; 2. poucas questões controvertidas ainda restavam.

Não se deve confundir – advertiu ele – o debate da eventual necessidade militar de se usar a bomba (para poupar vidas e apressar o fim da guerra) com a questão do ataque a Pearl Harbor ou a brutalidade dos militares japoneses – bombardeio de Shangai, saque de Nanking, prostituição forçada de mulheres coreanas, a marcha da morte de Bataan, torturas e assassinatos de prisioneiros de guerra, etc.

Se há quatro décadas a linha de raciocínio de Alperovitz era às vezes rejeitada como “revisionismo” ou “esquerdismo”, hoje existe – como chegou a escrever J. Samuel Walker, historiador-chefe da Comissão Regulamentadora Nuclear dos EUA – “o consenso de que a bomba não era necessária para evitar uma invasão do Japão e por fim à guerra em prazo relativamente curto”.

Para Walker, o exame acadêmico cuidadoso de registros, documentos e manuscritos revelados nos últimos anos “aumentou grandemente nossa compreensão sobre as razões da administração Truman para usar as bombas contra o Japão. Especialistas ainda discordam sobre certos pontos, mas questões críticas estão respondidas”. Entre elas o fato de que havia alternativas – e que Truman e seus assessores sabiam. (Leia AQUI como Alperowitz retomou o tema do primeiro livro; AQUI uma entrevista dele sobre os dois livros; e AQUI uma crítica dos que se opoem à sua posição)

Aqueles documentos devastadores

Alperowitz_The decision_Em artigo para a revista Foreign Policy e em outro livro (The Decision to Use the Atomic Bomb) Alperovitz referiu-se há 14 anos a esse reconhecimento de que já participam – às vezes enfaticamente, mas nem sempre – até alguns historiadores ortodoxos. Robert Messer, da Universidade de Illinois, considerou certos documentos (antes secretos, mas já então liberados) “devastadores” para a idéia tradicional de que a bomba era a única maneira de evitar uma invasão.

Ao morrer, a 22 de abril de 1945, o presidente Franklin Roosevelt não tinha informado o seu vice Harry Truman sobre a existência do secretíssimo Projeto Manhattan. Só 10 dias depois o secretário da Guerra, Henry L. Stimson (na foto abaixo, entre Gromyko e Molotov em Potsdam), comunicou o fato ao novo presidente. Ao mesmo tempo, enfatizou o provável efeito decisivo da bomba na política externa. Stimson referiu-se então à arma como “a grande carta” (the master card) dos EUA no jogo diplomático.Gromyo_Byrnes_Molotov_Potsdam

Até então o governo americano reclamava garantias do ditador Josef Stalin (elas seriam dadas na conferência de Potsdam) de que o União Soviética declararia guerra ao Japão três meses depois da derrota alemã – consumada oficialmente a 8 de maio. Isso porque a superarma ainda não tinha sido testada quando Truman embarcou no encouraçado USS Augusta, a 8 de julho, para a cúpula de Potsdam.

Byrnes na linha dura – contra Stimson

Os americanos, que tinham decifrado os códigos japoneses, conheciam o teor das mensagens secretas trocadas pelos japoneses, nas quais ficava claro que se Washington concordasse com a permanência no trono do imperador Hirohito (o que iria acontecer após Hiroshima e Nagasaki) não haveria obstáculo à rendição. E que Hirohito já decidira intervir para por fim à guerra.

A1832-9Stimson não acompanhou Truman no Augusta. Embora encarasse a bomba como master card, defendeu junto ao presidente a idéia – exposta antes pelo secretário Adjunto da Defesa John McCloy (foto ao lado), numa reunião na Casa Branca – de um plano para a rendição japonesa que combinasse a aceitação da permanência do imperador no trono com a ameaça de lançamento da bomba.

Para Stimson, era importante “uma advertência ao Japão cuidadosamente calculada” antes de se usar a bomba. Mas o secretário de Estado James Byrnes tinha maior ascendência sobre Truman, de quem fora o mentor no Senado. E era contrário a qualquer tipo de concessão aos japoneses, preferindo chamar atenção para as atrocidades deles contra prisioneiros de guerra americanos. Deixo o desdobramento desse papel de Byrnes para o próximo post.

(Clique abaixo para ver uma reconstituição dos efeitos devastadores do ataque atômico a Hiroshima no dia 6 de agosto de 1945)
Published in: on agosto 6, 2009 at 6:40 pm  Comments (4)  

Os Mesquita, o Estadão e a liberdade de imprensa

Mordaça_no_EstadaoNunca é demais lembrar a resistência de O Estado de S.Paulo (e Jornal da Tarde) à censura – com os versos de Camões, as receitas de bolo e as fotos de flores.  É justo lembrar em livro, como fez no 40° aniversário do AI-5, em dezembro do ano passado, o jornalista José Maria Mayrink (veja ao lado a capa de  seu Mordaça no Estadão), que viveu aqueles tempos difíceis (mais sobre a mídia e o AI-5 AQUI, num depoimento de Alberto Dines).

Mas é injusto esquecer que quando Fernando Gasparian, diretor de Opinião, decidiu impetrar mandado de segurança contra a censura em 1973, o mesmo Estadão, através de seu diretor Ruy Mesquita, ficou atemorizado, negando-se a ser parte da causa (saiba mais sobre Gasparian e seu jornal AQUI e AQUI).

Eu entenderia se a razão tivesse sido apenas o fato de ser Opinião um semanário alternativo, menor, enquanto o Estadão era um dos jornalões tradicionais do país, muito conhecido até no exterior. Mas Gasparian disse então a Ruy Mesquita que, se o Estadão preferisse não entrar junto com Opinião, estaria bem: entraria sozinho e o semanário, nanico, se somaria apenas depois à iniciativa.

Essa história, com mais detalhes, foi contada pelo próprio Gasparian e está no livro (veja a capa abaixo, à direita) Opinião x Censura – Momentos da luta de um jornal pela independência, de J. A. Pinheiro Machado (editora L&PM, 1978). O motivo real dos Mesquita (o irmão Júlio estava então fora do país), além do medo de represálias, era o fato de já ter a promessa do general Ernesto Geisel de que a censura do Estadão seria levantada.

Adauto Cardoso, outro herói esquecido

OpiniãoXCensuraO episódio teve ainda outro herói: Adauto Lúcio Cardoso, jurista da UDN, conspirador no golpe de 1964 e ex-presidente da Câmara (em 1966, até renunciar em protesto pela cassação dos mandatos de seis deputados da oposição), ideologicamente mais afinado com o Estadão do que com Opinião. Nomeado para o Supremo, votara a favor de habeas corpus para Vladimir Palmeira e Darcy Ribeiro. Mas em 1971 aposentou-se, envergonhado com uma decisão que mantivera restrições à liberdade de imprensa.

Cardoso tinha prometido só voltar ao STF para defender a causa da liberdade de imprensa. Assim, ao ser procurado em 1973, concordou em ser o advogado de Opinião no caso. Como Estadão e Veja estavam também sob censura, explicou a Gasparian: a causa ganharia força se um deles (ou os dois) se somasse a ela. O dono de Opinião não tinha ilusões sobre os Civita, mas procurou Ruy Mesquita.

Ficou desapontado com a resposta negativa. Naqueles dias o Estadão, que participara do complô do golpe, apostava na troca de generais, a se consumar no Planalto. O então presidente, Garrastazu Médici, tinha Orlando Geisel à frente do ministério do Exército – uma garantia de que só um grave acidente de percurso seria capaz de impedir em 1974 a ascensão do irmão dele, o também general Ernesto Geisel.

Poupar o Estadão e esquecer o resto?

GasparianUm amigo comum do jornal e do futuro presidente, segundo Gasparian (foto ao lado), já tinha assegurado aos Mesquita que o novo governo ia tirar a censura do Estadão. De fato, isso ocorreria em 1975. Mas as vítimas menores – Opinião, O São Paulo, Tribuna da Imprensa, Movimento, etc – continuariam sob censura implacável. Ao confiar em Geisel, a família Mesquita ficou indiferente à sorte dos demais.

Toda a prática da censura, explicitamente proibida na Constituição em vigor, foi exposta – até com as minúcias ridículas e grotescas – na petição do mandato de segurança levada ao Tribunal Federal de Recursos, a 10 de maio de 1973, pelo advogado Adauto Lúcio Cardoso. Ao final, por 6 votos contra 5, o TFR decidiu: a censura prévia feita no Opinião pela Polícia Federal violava a Constituição.

Consumada a decisão judicial, no entanto, a Polícia Federal avisou a redação de Opinião pelo telefone: “Não publiquem o jornal sem obedecer à censura. Se isso acontecer, temos ordem para apreender a edição”. Na manhã seguinte o general-presidente Garrastazu Médici (veja-o abaixo, à direita, na Casa Branca), em simples despacho, mandou a PF ignorar a Justiça e manter a censura no jornal, com base no AI-5. Eis a íntegra do despacho, de 20 de junho:

Despacho do Presidente da República – Processo 5005/73

Diante do exposto neste processo pelo Senhor Ministro da Justiça:

1. Ratifico o despacho exarado em 30 de março de 1971, na exposição de motivos n° 165 B, de 20 de março daquele ano, no qual adotei em defesa da revolução, com fundamento no artigo 9 do Ato Institucional n° 5, as medidas previstas no art. 152, parágrafo 2°, letra E, da Emenda Constitucional b. 1;

2. Tendo a decisão proferida no mandato de segurança impetrado pela Editora Inúbia Ltda. Afirmado não existir nos autos provas de imposição de censura por ato do Presidente da República, reitero a autorização de que a Polícia Federal estabeleça censura quanto ao período OPINIÃO.

Emilio Garrastazu Médici – Presidene da RepúblicaMédici_nos_EUA

Um detalhe escabroso de tudo isso é que o tal despacho citado no ítem 1 (de 30 de março de 1971) teria sido secreto, nunca fora revelado. Assim, o mandado de segurança de Opinião tivera no mínimo o mérito de forçar a ditadura ou a revelar a existência de “despachos secretos” (como sabemos, havia também “decretos secretos”), ou a fabricar um às pressas (e a posteriori), na obsessão de forjar cobertura jurídica para invalidar a decisão do TFR.

A mesma mídia covarde que hoje apregoa compromisso com a liberdade de imprensa – em ataques torpes ao governo Lula e especialmente a outros governos do continente, como o da Venezuela – acovardava-se então (leia AQUI sobre o heroismo do Estadão no passado e sua prepotência atual). Em 1973, recebeu uma lição de coragem cívica, dada por Gasparian, Opinião e o advogado Adauto Lúcio Cardoso. O Estadão, pelo menos, ainda noticiou o fato discretamente em sua primeira página do dia seguinte. O resto da mídia, nem isso.

Published in: on agosto 2, 2009 at 6:26 pm  Deixe um comentário