Juan Carlos, Aznar – e Mauro Santayana

bush_jcarlosEm geral tenho preferido evitar confrontos com as posições dos leitores, apesar de ter o cuidado de respeitar as opiniões divergentes. Mas retomo a questão sobre José Maria Aznar em razão de duas manifestações, em comentários, que justificam mais algumas observações. Uma delas, correta, educada e inteligente. A outra, apenas um conjunto de insultos e idéias mal formuladas.

Recebo com humildade e respeito a divergência manifestada por Pablo (veja os dois comentários do post anterior, “Por qué no te callas, José Maria Aznar?”), mesmo mantendo minha opinião. Compreendo as razões dele. Acredita que o rei Juan Carlos (na foto acima, com Bush) ajudou a consolidar a democracia na tentativa de golpe de fevereiro de 1981. E assinala que estava defendendo menos Asnar do que a imagem da Espanha.

Como Pablo expõe de forma articulada e inteligente o que acha, deixando claro que é sincero e tem argumentos racionais, vou transcrever depois deste texto um artigo publicado na época do episódio pelo jornalista Mauro Santayana, que além de ser um amigo de meio século, conhece muito bem a Espanha – e acompanhou ali, como correspondente internacional, todo o processo de democratização da Espanha, em seguida à morte do ditador Franco.

Os fatos e os xingamentos

Pode mudar ou não a posição de Pablo – que tem suas próprias idéias e sabe muito bem defendê-las. Estou certo de que nesse processo, na troca civilizada de opiniões e pontos de vista, ambos sairemos ganhando. Em relação ao outro comentário, não me pareceu que seu autor, Mozart Guariglia, estivesse sequer interessado em ler uma resposta. De qualquer forma, aqui vai esta.

Ele atribuiu a mim a “mania de criticar acidamente pessoas notoriamente decentes e exaltar nulidades”, o que considera comum “nessa nossa imprensa chapa branca no que se refere a comunas e cretinos de maneira geral”. “Sentam o pau no rei e se omitem diante de uma coisa abominável como esse boquirroto Chávez”. Na verdade, toda a mídia “sentou o pau” em Chávez, não no rei. Quanto a mim, não me considero chapa branca, cretino ou comuna, não exaltei Chávez e nem xinguei Aznar – ou o rei. Fiz avaliações sobre fatos.

Poderia penitenciar-me, no máximo, pela expressão “reizinho de fancaria”, que se apoiava em outra afirmação (factual, não xingamento), “monarca por obra e graça do ditador Francisco Franco”. Mas submeto à apreciação dos leitores – tanto os dois citados como os demais que se interessam pelo tema – o excelente artigo de Santayana, o mais consistente que li no Brasil sobre o episódio de novembro de 2007.

MAURO SANTAYANA: “A ARROGÂNCIA COLONIALISTA”

escudo_realO presidente Hugo Chávez é descuidado e franco no que fala. Usa, em sua retórica antiimperialista, metáforas quase divertidas, como chamar Bush de diabo. Mas não exagerou ao qualificar o ex-primeiro-ministro espanhol José Maria Aznar de fascista. Aznar, produto típico da Opus Dei, que se reorganiza com novo alento na Espanha, sempre tratou a América Latina com desdém. Em 2002, em Madri, atreveu-se a dar ordens ao presidente Eduardo Duhalde, da Argentina, para que aceitasse e cumprisse as exigências do FMI. Reincidiu na grosseria, ao telefonar a Buenos Aires, logo depois, como um dono de fazenda telefona para seu capataz, a fim de determinar-lhe a assinatura imediata do acordo com o órgão.

Conforme disse o próprio ministro de Relações Exteriores da Espanha, Miguel Angel Moratinos, Aznar deu ordens ao embaixador da Espanha em Caracas para que apoiasse o golpe contra Chávez em 2002. Com o presidente eleito preso pelos golpistas, o embaixador foi o primeiro a cumprimentar o empresário Pedro Carmona, que, também com o entusiasmado aplauso do representante dos Estados Unidos, tomava posse do governo, para ser desalojado do Palácio de Miraflores horas depois.

Não se pode pedir a Chávez que trate bem o ex-primeiro ministro espanhol, embora talvez lhe tivesse sido melhor ignorá-lo no encontro de Santiago. Mas, como comentou, na edição de ontem de El País, o jornalista Peru Egurdide, há um crescente mal-estar na América Latina com a presença econômica espanhola, identificada como “segunda conquista”. A Espanha opera hoje serviços como os bancários, de água, energia, telefonia e estradas, que não satisfazem os usuários. Ainda na noite de sexta-feira, em reunião fechada, Lula e Bachelet trataram do assunto com Zapatero, de forma veemente – longe dos jornalistas.

Mas se Chávez, mestiço venezuelano, homem do povo, fugiu à linguagem diplomática, o rei Juan Carlos foi imperial e grosseiro, ao dizer-lhe que se calasse. O rei, criado por Franco, tem deixado a majestade de lado para intervir cada vez mais na política espanhola – conforme o El País critica em seu editorial de ontem. Em razão disso, as reivindicações federalistas dos povos espanhóis (sobretudo dos catalães e dos bascos) se exacerbam e indicam uma tendência para a forma republicana de governo. Pequenos episódios revelam o conflito latente entre os espanhóis e seu rei. Já em 1981, quando do frustrado golpe contra o Parlamento Espanhol, o comportamento de sua majestade deixou dúvidas. Ele levou algumas horas antes de se definir pela legalidade democrática. Para muitos, o golpe chefiado por Millan del Bosch pretendia que todos os poderes fossem conferidos a Juan Carlos, em um franquismo coroado.

Os dirigentes latino-americanos tentarão, diplomaticamente, amenizar a repercussão do estrago, mas o “cala a boca” de Juan Carlos doeu em todos os homens honrados do continente. O rei atuou com intolerável arrogância, como se fossem os tempos de Carlos V ou Filipe II. A linguagem de Zapatero foi de outra natureza: pediu a Chávez que moderasse a linguagem. Como súdito em um regime monárquico, não pôde exigir de Juan Carlos o mesmo comportamento – o que seria lógico no incidente.

Durante os últimos anos de Franco, a oposição republicana espanhola se referia ao príncipe com certo desdém, considerando-o pouco inteligente. Na realidade, ele nada tinha de bobo, mas, sim, de astuto, vencendo outros pretendentes ao trono e assumindo a chefia do Estado. Agora, no entanto, merece que a América Latina lhe devolva, e com razão, a ofensa: é melhor que se cale. (Transcrito do Jornal do Brasil de 12/11/2007)

(E abaixo os leitores podem rever, pelo You Tube, as imagens do episódio na Cúpula Iberoamericana do Chile. No primeiro, no qual não se ouve o que Hugo Chávez fala, pode ser notado que a intervenção do rei atropelou ostensivamente a fala de Zapatero. O segundo vídeo é uma montagem apenas divertida sobre o caso)


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Published in: on dezembro 12, 2008 at 3:15 pm  Comments (4)