Vice singular: miss, caçadora e pescadora

Alguns analistas nos EUA estranharam a escolha de Sarah Palin, a jovem governadora do Alasca, para vice da chapa republicana, porque vai privar o senador John McCain de seu principal argumento atual contra o rival Barack Obama – de que é inexperiente para o cargo. Ela tem 44 anos, foi prefeita de uma pequena cidade e governa, há apenas dois anos, um estado de 683 mil habitantes (2,5 por km2).

McCain pode estar vendo Sarah Palin, em primeiro lugar, como a mulher atraente e capaz de trazer para a chapa presidencial republicana os votos que iriam para Hillary Clinton. Um comercial dele, anterior, entrevistava suposta eleitora ressentida com a preferência de Obama por Joe Biden em detrimento de Hillary, sugerindo que os votos dela vão migrar para a chapa de McCain.

Mas as pesquisas anteriores indicavam que os (ou as) descontentes estavam na casa de 20% dos eleitores de Hillary, assim mesmo naquele primeiro momento. É lícito supor que o show de unidade na convenção democrata, com a conclamação enfática da própria Hillary, reforçada pelo discurso vigoroso do ex-presidente Bill Clinton, tenha reduzido drasticamente a tendência dissidente entre as clintonistas (leia AQUI como o marqueteiro Ed Rollins, que a considera “brilhante”, acredita ter sido a escolha “arriscada”).

O papel da direita religiosa

Ao ser apresentada por McCain, Palin tentou explicitamente atrair as descontentes. Até cortejou a irada democrata Geraldine Ferraro, primeira mulher a se candidatar ao cargo com chance de vitória (em 1984) e a própria Hillary, pelos 18 milhões de votos em 2008. Mas a governadora é o oposto das duas. Sonha revogar a mesma decisão Roe v. Wade (do aborto) vista por elas como a maior conquista da mulher.

A mágica tentada pela campanha republicana parece no mínimo um despropósito: ganhar as seguidoras de Hillary e ao mesmo tempo os fiéis do evangelismo fundamentalista que infesta o meio-oeste e o sul do país. Estes não esquecem a infame primária da Carolina do Sul em 2000, quando Karl Rove recrutou o reverendo Pat Robertson e comparsas para destruir McCain, cujo troco foi execrar o poder da direita religiosa (saiba mais AQUI sobre as acusações de McCain em 2000 à direita religiosa).

Ao optar por Palin como vice, McCain na certa levou em conta que as posições tradicionalistas dela agradam aquele segmento do eleitorado – o mais fiel do agora amigo George W. Bush, que promete ajudá-lo junto aos evangélicos. McCain antes inclinava-se muito mais por Joe Lieberman, que só poderia reforçá-lo no reduto judaico da área metropolitana de Nova York e nos três estados sob sua influência.

Karl Rove contra Lieberman

A resistência a Lieberman, a julgar pelo noticiário da mídia, cresceu nos últimos dias, com a ação subterrânea de Karl Rove, que o teria conclamado a fazer McCain desistir; e do colunista Bob Novak, que já anunciara a aposentadoria, por doença, mas voltou à ativa para publicar artigo sobre os “perigos” associados a tal opção. Lieberman tinha o apoio de neoconservadores como Bill Kristol mas ameaçava subverter a “base” de Bush (direita religiosa).

Repudiado pelo eleitorado democrata de Connecticut, ele se reelegera como independente mas tornara-se herói dos neocons, Kristol à frente, e ainda do milionário lobby israelense. Na direita religiosa – dos seguidores de Robertson e do falecido Jerry Falwell – há notórios anti-semitas, muitos egressos da extremista Universidade Bob Jones (anticatólica e racista), da Carolina do Sul.

McCain conformou-se em desistir de Lieberman – que o ensinara a não confundir sunita com xiita – mas pode ter prometido nomeá-lo para o Pentágono ou o Departamento de Estado no caso de vitória. Seria um prêmio ao senador de Connecticut e ex-candidato a vice na chapa de Al Gore em 2000. Ele fez tanta bobagem que ganhou até beijo de Bush, mas parece agora rejeitado tanto por democratas como por republicanos.

Jovem e singular, como o próprio Obama, Palin pode ter potencial e apelo na campanha. A singularidade, claro, é por ser bonita, nova, mãe de cinco filhos – entre eles um patriota que se alistou a 11 de setembro do ano passado para lutar no Iraque e um bebê com síndrome de Down – e pela trajetória. Passou das reuniões da PTA (associação de pais e mestres) à Câmara Municipal, depois prefeitura e governo do estado.

Aquelas posições polêmicas

Na história dela a vitória inicial foi numa eleição para Miss Wasilla, sua cidade. Não emplacou depois como Miss Alasca, para tentar ser Miss América. Ficou em segundo lugar, celebrada como Miss Simpatia. Depois estudou jornalismo e ciências políticas na Universidade, casou-se com o namorado da escola secundária, chegou a ser repórter de esporte na TV e optou pelos deveres de dona de casa.

Entre eles, orgulha-se da participação como hockey mom – aquelas mães que levam os filhos aos treinos e torcem por eles nos jogos. Em estados “normais”, o esporte é o futebol e elas são soccer moms, mas imagino que no Alasca tudo é diferente. Foi o envolvimento apaixonado numa campanha pela ética, contra figurões do próprio Partido Republicano, que a projetou na política – e a levou ao conselho municipal e à prefeitura.

No desdobramento da campanha presidencial Palin certamente será cobrada pelo pouco apreço pelas causas ambientais e suspeita de aliança com a indústria do petróleo ao defender a causa da perfuração de poços no Alasca – como prega o presidente Bush e seu candidato McCain.

Da mesma forma pode ser chamada a explicar porque não dá a mínima para a sobrevivência dos ursos polares (leia AQUI a biografia dela no New York Times, ilustrada por foto onde aparece sentada num sofá de urso polar) e outros animais, gosta tanto de caçar e pescar e é filiada à NRA (Associação Nacional do Rifle), o poderoso lobby” das armas. (E saiba AQUI porque o blog de Chris Kelly acha que ela é igual a Dick Cheney: “olha a gente nos olhos e diz que preto é branco”).

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Published in: on agosto 30, 2008 at 4:52 am  Comments (2)  

O rolo compressor Biden-Clinton

A dose dupla da noite de quarta-feira na convenção democrata, Bill Clinton e Joe Biden, foi a preliminar adequada para o discurso de Barack Obama ontem à noite, aceitando oficialmente a indicação presidencial de seu partido – já então num estádio com capacidade para 75 mil pessoas. O balanço final no momento em que escrevo, quinta-feira à tarde, é largamente promissor para os democratas.

Coube a dois pesos pesados da política do país, Clinton e Biden, oferecer razões fortes, mais do que convincentes, para enterrar a enxurrada de comerciais negativos de ataque do candidato adversário à suposta experiência insuficiente de Obama para governar, ser comandante-chefe e defender a segurança nacional. Os dois foram enfáticos. Um tinha a autoridade de presidente de dois mandatos. O outro, a de um senador de cinco.

Clinton fez piada com os ataques republicanos a Obama como despreparado para liderar ou ser comandante-chefe. “Soa familiar?”, perguntou. É que disseram a mesma coisa do próprio Clinton. Ele não identificou quem o fizera: foi George H. W. Bush, o pai, em 1992. O velho Bush repetiu a acusação muitas vezes. Chegou mesmo a ir mais longe: chamou Clinton, que não lutara no Vietnã, de fugitivo do serviço militar. (Clique na imagem abaixo para ver e ouvir um trecho do discurso de Clinton)

Clinton e Bush, Obama e McCain

A ironia, no caso do serviço militar de Clinton, foi ter o então presidente Bush, como candidato à reeleição, insistido em desqualificar o caráter do adversário a partir de tal detalhe. Como poderia alguém que se negara a lutar no Vietnã (guerra contra a qual Clinton protestou nas ruas) ser comandante-chefe? Ele não dizia que o próprio filho, George W. Bush apoiava a guerra do Vietnã mas buscou a proteção de amigos do pai para não ter de lutar nela.

O tiro saiu pela culatra em 1992. A questão do caráter, que o velho Bush insistia em introduzir no debate presidencial, voltou-se depois contra ele próprio. Pois em entrevista à NBC o presidente alegou, para eximir-se de culpa no escândalo Irã-Contras (quando ainda era apenas vice), que estivera ausente numa reunião que discutira o assunto – o que seria negado pelos secretários de Estado e da Defesa, que estiveram na tal reunião.

Os advogados da Casa Branca tiveram dificuldades, depois, para conciliar a versão de Bush com os fatos relatados por ele próprio. E a campanha de Clinton explorou o caso – lembrando que a questão do caráter, levantada pelo presidente, passara a perseguí-lo por não ter dito a verdade. Clinton não voltou aos detalhes agora. Poupou o ex-adversário, hoje um ex-presidente com o qual tem participado de missões internacionais.

McCain na lambança de Bush

Ao referir-se às acusações dos comerciais de John McCain a Obama, Clinton preferiu ser econômico. Quem acabou por destroçar o atual conteúdo negativo da campanha republicana, sem sequer poupar seu amigo McCain, foi Joe Biden, no discurso final da noite. Relacionou momentos em que McCain e Obama divergiram. E concluia para cada um: “McCain estava errado e Obama certo.”

Antes de se referir pela primeira vez ao candidato presidencial republicano, Biden não deixou de prestar homenagem (como também fizera Hillary e, depois, o ex-presidente Clinton) aos seus serviços ao país e aos cinco anos e meio que passou no Vietnã como prisioneiro de guerra. E explicou que a amizade entre os dois tem mais de 30 anos, durante os quais viajaram muitas vezes pelo mundo.

Sem questionar o caráter do colega com quem conviveu tanto tempo no Senado, Biden pôs em dúvida sua capacidade de julgamento e avaliação, que o leva agora a defender todos os erros do atual governo Bush – e até aliar-se ao presidente em 95% das votações do Senado. No plenário os delegados em coro repetiam “That’s not change, that’s the same” (Isso não é mudança, é a mesma coisa) a cada lambança recordada. (Clique abaixo para ouvir um trecho do discurso)

Os Clinton na festa da unidade

O candidato a vice também afirmou que a escolha na eleição de 2008 é clara. “Os tempos atuais exigem mais do que um bom soldado. Exigem um líder com sabedoria, um líder capaz de concretizar a mudança que todos sabemos que o país precisa”. Destacou ainda que “o presidente Clinton nos lembrou aqui como é diferente quando um presidente coloca o povo em primeiro lugar” – revivendo o slogan da campanha de 1992 (Put the people first).

Antes dos discursos de Clinton e Biden, a própria Hillary Clinton – como alguns já tinham previsto – interrompeu a chamada dos delegados para a declaração de voto e pediu sua suspensão para que Obama fosse indicado, por aclamação, candidato democrata à presidência. O gesto selou finalmente a tão esperada unidade do partido. “No espírito da unidade e olhos fixos no futuro”, anunciou ela.

O ex-presidente Clinton subiu depois ao palco para o discurso e foi ovacionado por tanto tempo e de forma tão barulhenta que quase teve de implorar para que cessasem os aplausos. “Sentem-se todos, por favor, temos de continuar o programa”, pediu. No discurso disse o que, afinal, corrigiu em parte o maior ataque de Hillary a Obama: “Com Obama e Biden a América terá a liderança de segurança nacional que precisamos”. (E clique abaixo para ver a parte final do discurso de Biden e a chegada de Obama à convenção na noite de quarta-feira)

Published in: on agosto 29, 2008 at 4:37 am  Deixe um comentário  

As duas convenções de Obama

Está havendo duas convenções em Denver, Colorado. A que a maioria das pessoas vêem nas grandes redes de TV (abertas e de cabo) dos impérios de mídia que controlam a opinião do país e a que uma minoria vê em duas redes públicas – a C-SPAN (a da foto acima, na qual Obama viu Hillary discursar), dedicada sobriamente à cobertura do Congresso e às questões de interesse público, e as afiliadas da PBS, com sua grade de informação, debate e entretenimento de nível elevado.

No dois primeiros dias, por exemplo, o país inteiro viu no horário nobre da cobertura da convenção a homenagem ao senador Ted Kennedy e a apresentação da mulher do candidato, Michelle Obama (na segunda-feira); e o keynote speaker, Mark Warner, seguido pelo discurso da senadora Hillary Clinton (na terça-feira, mesmo horário).

As grandes redes, tanto da TV aberta (ABC, NBC, CBS, Fox) como as de cabo (CNN, Fox News, MSNBC) têm suas próprias receitas para disputar a audiência, com intervalos comerciais e tudo. Tais receitas excluem, por opção, a fala de personagens como Jim Leach (líder do grupo Republicanos por Obama, citado ontem neste blog), ou o deputado Dennis Kucinich, candidato presidencial censurado por elas desde 2004 porque sempre diz inconveniências (saiba AQUI porque ele decidiu retirar a candidatura à Casa Branca).

Censurando e desinformando

As atrações maiores do horário nobre aparecem também nas grandes redes, onde as estrelas maiores do jornalismo político discutem os discursos depois em tempo abreviado. As três redes all news de cabo, por sua vez, iniciam a cobertua no início da tarde e a prolongam até ser cumprida toda a agenda da noite. Mas são seletivas – e às vezes, como no caso da Fox, ainda impoem suas restrições de ordem ideológica.

A cobertura de terça-feira praticamente ignorou o discurso de Warner. A Fox News só colocou no ar uns dois minutos da exposição calorosa feita por um político com chance até de chegar em outra eleição à Casa Branca. Nascido em Indiana, cresceu em Illinois e Connecticut e foi a primeira pessoa da família a cursar universidade (George Washington na capital, Harvard em Massachusetts).

O fato de ter sido governador da Virgínia (2002-06) e ser candidato a senador já exigiria atenção. E no discurso ele cativou os que o ouviram contar como criou uma empresa que faliu em seis semanas, outra que durou oito meses e depois ainda teve a terceira chance (“em que outro país isso aconteceria?” – perguntou), que lhe permitiu ser bem sucedido como empresário de telefonia celular (Nextel, depois Capital Cellular).

A Fox News deixou Warner de lado e dedicou o resto do tempo a ataques a Obama por ter como vizinho William Ayers, que há 40 anos (quando o candidato de hoje tinha seis anos de idade) foi ativista do grupo extremista Weather Underground. A TV do império Murdoch não faz cobertura: apenas usa o espaço da convenção como palco para ali produzir seus programas politicamente destemperados.

A singularidade invisível

CNN e MSNBC mostraram o discurso de Warner na íntegra. Já o de Hillary veio por inteiro até na Fox. Como desmentia as previsões catastróficas de “racha”, feitas pela rede, a palavra foi dada ao ideólogo neoconservador Bill Kristol, que negou com veemência ter havido apoio explícito e enfático a Obama. Sua “interpretação”: Hillary ainda rejeita o candidato, já que não retirou os ataques que fizera nas primárias.

Kristol e a Fox viram a prometida catarse de Hillary como golpe de misericórdia no candidato – para selar a derrota de Obama frente a McCain e inviabilizar uma candidatura dela em 2012, quando seria castigada com um boicote dos negros. Mas os fatos atropelaram a “profecia” insólita: primeiro, Obama cresceu com a unidade do partido; depois, um eventual insucesso dele já não privará Hillary no futuro de um respaldo negro.

É difícil enxergar, à distância, as duas convenções que se desdobram em Denver – a descrita nos veículos dos impérios de mídia e a que aparece, completa, nas redes públicas PBS e C-SPAN. O obstinado esforço republicano de difamação, turbinado pela Fox e outros, apela para o racismo envergonhado dos eleitores – e a campanha democrata, insegura, parece tentada a tornar “invisível” a singularidade de Obama.

O momento Hi, daddy da apresentação de Michelle foi emblemático. É a imagem que se prefere vender ao eleitorado – como se o pai e a mãe, formados em Harvard, e as duas filhas, fossem uma família americana igualzinha às outras, brancas, da classe média. Tal preocupação pode até estar afastando a campanha de uma resposta dura, negativa, que já devia ter sido dada à enxurrada negativa do rival McCain.

Kucinich: “Acorda, América!”

O clima favorece há muito a saída da defensiva para o ataque – reclamada por gente equilibrada como Paul Krugman, do New York Times, na sua coluna do dia 24, sob o título “Accentuate the negative” / Acentuem o negativo (leia o texto AQUI). John Kerry perdeu em 2004 porque insistiu em continuar “bonzinho”, mesmo sob o fogo cerrado de uma das campanhas republicanas mais sórdidas da história do país.

Já está claro que McCain copia o exemplo mas até o início da tarde de ontem só o discurso de Dennis Kucinich na convenção esteve realmente à altura da ofensiva adversária. A prova de que encontrou a linguagem e o tom adequados foi o súbito entusiasmo das pessoas na medida em que o discurso avançava, numa condenação candente da lambança generalizada dos últimos oito anos de Bush-Cheney.

A conclamação de Kucinich – coerente com outras admiráveis inconveniências dele, inclusive a formalização do pedido de impeachment de Cheney ano passado na Câmara e do próprio Bush este ano – foi para sacudir e despertar o país (conheça AQUI a fundamentação dele para o impeachment de Bush). “Acorda, América!” – implorou ele. “Acorda, América! Acorde, América!” repetiu. (Clique abaixo para ver e ouvir o curto e inflamado discurso, também na tela da C-SPAN).

Published in: on agosto 28, 2008 at 3:42 am  Deixe um comentário  

Um republicano na convenção de Obama

Na medida em que as convenções partidárias – que no passado de fato tomavam decisões relevantes, entre elas a escolha do candidato presidencial – tornaram-se espetáculos grandiosos, coloridos, roteirizados e coreografados, também perderam o poder e as funções práticas que tinham antes. Hoje elas servem apenas para referendar candidatos previamente escolhidos em primárias e caucuses.

No caso democrata, a última convenção que definiu de verdade o candidato pode ter sido a de 1960. John Kennedy realmente foi escolhido ali, em Los Angeles, graças a ações e manobras para neutralizar a mal disfarçada pretensão de Adlai Stevenson à terceira tentativa (perdera duas vezes para Eisenhower) e a habilidade de Lyndon Johnson, a raposa que líderava os democratas no Senado.

Johnson só se conformou com o desfecho – favorável ao seu liderado Kennedy, que criticava como eterno ausente no plenário do Senado – porque o escolhido, certo de que Johnson seria fundamental para ganhar os votos do Texas, tomou a iniciativa de convidá-lo para vice da chapa. Claro que tinha razão, pois mesmo com o Texas ainda foi preciso fraudar urnas no Illinois para garantir a vitória.

Kennedy, Michelle e Leach

A imagem que ficou no folclore político como ícone das convenções do passado é a de salas enfumaçadas nas quais os chefões e fat cats negociavam e decidiam. Por sinal, coube aos democratas de Nova York dar o pior exemplo, simbolizado na figura do Boss Tweed, o chefão William Tweed de Tammany Hall – sede da máquina política corrupta onde eram feitos negócios escusos, acertos políticos e distribuição de empregos (na caricatura de Thomas Nast em 1870, abaixo, ele é o gordo do “Anel de Tamanny”).

Ganhou a democracia com as mudanças mais recentes? Só é certo que os hábitos mudaram, mas é sempre confortador acreditar que mudaram para melhor. Pelo menos agora a queixa, em relação às convenções partidárias, é de que deixaram de ter a função de escolher candidatos pelo conchavo, tornando-se grandes espetáculos coloridos de discursos vazios, encenados especialmente para a TV.

O primeiro dia da convenção democrata, por exemplo, foi marcado por dois momentos emocionais. A homenagem ao senador Ted Kennedy, único sobrevivente dos três irmãos que marcaram dramaticamente a política do país. E o discurso da mulher do candidato, Michelle Obama, que pode ter acrescentado muito à imagem do candidato, definido na mídia pela difamação e pelos comerciais sórdidos do adversário.

Mal foi notada, no entanto, uma presença diferente – e significativa. A do ex-deputado republicano Jim Leach, que foi um crítico extremamente ativo do governo democrata do presidente Bill Clinton e também das trapalhadas anteriores (em Arkansas) do casal Clinton, que motivaram a investigação de três promotores especiais, culminando num processo de impeachment.

Em busca dos antigos valores

As críticas de Leach, no entanto, costumavam ser bem fundamentadas. Limitavam-se quase sempre à área econômica e financeira, especialidade dele. Moderado e sério, ele agora vai liderar na campanha o grupo “Republicanos por Obama”. Aderiu com entusiasmo à plataforma da mudança por estar convencido de que “ficou claro para todos os americanos que algo está fora de controle em nossa grande república”.

“Como republicano, eu me apresento diante de vocês com profundo respeito pela história e pelas tradições de meu partido”, explicou Leach (que aparece na foto à esquerda). “A liderança extraordinária de nossa nação em tantas áreas simplesmente não se reflete na brigalhada e na política ideológica de Washington. Raramente a defesa de uma nova ética política foi colocada de forma tão convincente. Raramente um líder emergente (Obama) se ajusta tanto à necessidade do momento”.

Na eleição de 2004 um governador fisiológico da Geórgia, mais afinado com a linha da Confederação sulista, bandeou-se para o governo Bush e discursou na convenção republicana. Era figura claramente menor. Este ano John McCain conta com o amigo Joe Lieberman, que deixou de ser democrata por ter sido repudiado pelo voto dos eleitores do partido. Mas Jim Leach está longe de tais posturas políticas oportunistas.

Ele preferiu comparar Obama aos ícones de seu partido – Abraham Lincoln, Teddy Roosevelt, Dwight Eisenhower. Liberal e sóbrio, não se ajusta à linha bushista, da guerra do Iraque, da ameaça de mais guerras no mundo, do controle partidário por evangélicos fundamentalistas, dos maiores déficits orçamentários da história. “O Partido Republicano desligou-se dos valores republicanos”, disse ele.

Uma biografia de respeito

Aos 65 anos, Leach tem um compromisso com a própria biografia. Nascido no pequeno Iowa, ocupou por 30 anos sua cadeira na Câmara dos Deputados e presidiu a importante comissão de Bancos. Mas discordou do boicote dos pagamentos à ONU, da retirada da Unesco, da rejeição de decisões da Corte Internacional de Justiça e também do abandono do Tratado de Proibição Ampla dos Testes Nucleares.

Embora tenha apoiado a guerra do Golfo em 1991, aprovada na ONU, votou contra a invasão do Iraque em 2002 e foi o único republicano a ficar contra o corte de impostos de Bush (em favor dos ricos) em 2003. Mesmo sendo crítico de Clinton no caso Whitewater, questionou o Departamento de Justiça por ter permitido ao promotor Ken Starr incluir na sua investigação o caso de sexo (Lewinsky), que levaria ao impeachment.

Formado nas Universidades de Princeton, Johns Hopkins e London School of Economics, ele foi primeiro diplomata, servindo na ONU e na Comissão de Desarmamento em Genebra. Renunciou em 1973, em protesto contra a decisão do presidente Nixon de demitir um ministro e dois promotores, para deter a investigação de Watergate. Hoje é professor da Woodrow Wilson School, de Princeton, e diretor interino do Instituto de Política da JFK School of Government, de Harvard.

Published in: on agosto 27, 2008 at 3:20 am  Comments (1)  

Lições amargas da convenção de 1948

Em tempo de convenções partidárias nos EUA, o nome que sempre me vem à cabeça não é o de algum candidato presidencial mas o de autores e jornalistas que no passado foram rigorosos na avaliação desses eventos. Na peça The Best Man (veja a capa do livro ao lado), Gore Vidal maltratou Joe Cantwell (visto como um John Kennedy aventureiro e ambicioso) e exaltou William Russell (um Adlai Stevenson honesto demais para ser político).

The Best Man virou filme em 1964 – com roteiro de Vidal, direção de Franklin J. Schaffner, Henry Fonda como Russell e Cliff Robertson como Cantwell. Vidal, nascido numa família de políticos (a mesma de Al Gore), não só sabia tudo sobre eleições como chegou a ser candidato e, depois, comentarista cáustico na TV – o que lhe abreviou drasticamente a carreira na cobertura de convenções.

Mas o mais implacável na cobertura de convenções, eleições e políticos em geral, pode ter sido o cético H. (Henry) L. (Louis) Mencken. Como colunista, ele foi a todas entre 1906 e 1948, quase sempre a serviço de seu jornal, o Baltimore Sun. Esse conservador escrevia muito bem e odiava a burrice. Não tinha a menor paciência para o gosto e a (in) cultura dos americanos. Mencken era impiedoso nas suas avaliações.

Mencken contra Roosevelt

Quando ouvi falar pela primeira vez de Mencken ele já tinha morrido. Crítico literário desde o início do século, celebrizado por publicações como Smart Set e American Mercury, nem por isso abandonava o jornalismo. E não poupava os políticos, entre eles o presidente Franklin Roosevelt em pleno New Deal. Mas era ainda mais rigoroso com os próprios colegas jornalistas (veja à direita a capa de uma recente biografia dele e saiba mais AQUI sobre o livro).

Conta-se que em 1934, no célebre banquete anual do Gridiron Clube, quando os papéis se invertem e cabe ao presidente vingar-se das críticas da imprensa, Roosevelt resolveu ser devastador contra os jornalistas. Mas somente no final de seu discurso o presidente revelou que todos aqueles ataques e farpas tinham sido citações de Mencken, na época o mais impiedoso de seus críticos na imprensa.

Convidado pelo Departamento de Estado em 1978 a visitar os EUA, com o privilégio de escolher o roteiro, fiz questão de incluir a cidade de Baltimore e a redação do Sun. O jornal pediu então ao seu editor Theo Lippman Jr. – que acabara de lançar um livro (A Gang of Pecksniffs) reunindo 32 artigos de Mencken com críticas e desabafos contra donos de jornais, editores e repórteres – a ser meu cicerone, levando-me inclusive à biblioteca do célebre escritor.

Rebeliões à esquerda e à direita

Mencken morreu em 1956, oito anos depois de sofrer um derrame que praticamente pôs fim à sua carreira de autor e jornalista. Até hoje é lembrado em especial seu papel como jornalista (colunista) na cobertura irreverente, que fez o mundo rir dos EUA, do “julgamento do macaco” em 1925 – no qual era réu o jovem professor John Scopes, que ousara ensinar na sala de aula, em Dayton, Tennessee, o que era a teoria da evolução, de Darwin.

As últimas convenções partidárias cobertas por Mencken como jornalista foram as duas de 1948, no início da guerra fria – o mesmo ano em que o presidente democrata Harry Truman comemorou a vitória nas urnas exibindo a manchete do Chicago Tribune que anunciava o triunfo do adversário republicano Thomas Dewey (veja a foto à direita). A convenção democrata, na Filadélfia, foi uma das mais conturbadas da história.

O partido de Truman, no poder desde a morte de Roosevelt em 1945, rachou duplamente: à esquerda, o ex-vice-presidente Henry Wallace, considerado pela ala progressista o herdeiro legítimo de Roosevelt, tornou-se candidato do Partido Progressista; e à direita o Sul racista, liderado pelo governador Strom Thurmond, da Carolina do Sul, rebelou-se contra a proposta do prefeito Hubert Humphrey, de Minneapolis, de incluir os direitos civis na plataforma.

A surpreendente reviravolta

Se Thurmond não tivesse abandonado a convenção, Truman poderia ter perdido a indicação presidencial, pois o candidato do Sul – o senador Richard Russell, da Georgia – só foi derrotado, no final, por margem muita estreita. Com aquele desfecho, Thurmond então lançou-se candidato pelo pequeno grupo criado para os racistas – o Partido dos Direitos dos Estados, conhecido como Dixiecrat.

Os dois rachas pareciam condenar à derrota a chapa democrata encabeçada por Truman. Wallace tinha crescido muito em seguida ao seu lançamento, com grandes comícios que incluiram a participação ativa de celebridades de tendência esquerdista. Mas o clima da guerra fria, com o início da caça às bruxas que se agravaria nos anos seguintes, enfraqueceria gradativamente o apoio popular ao ex-vice-presidente de Roosevelt.

Mesmo assim, as perspectivas pareciam amplamente favoráveis ao candidato republicano, Tom Dewey, já que Truman perdera apoio à esquerda e à direita no próprio partido. A derrota do republicano foi uma surpresa. Wallace, que chegara a liderar muitas pesquisas no primeiro momento da candidatura, acabou num distante quarto lugar, atrás de Truman, Dewey e até do racista Thurmond, do Dixiecrat. (E veja abaixo uma foto histórica, do National Press Club: Mencken escreve sua coluna em plena convenção democrata de 1948)

Published in: on agosto 26, 2008 at 2:31 am  Deixe um comentário  

Denver entre a festa e o desafio

O senador Joe Biden era candidato no início das primárias (veja à esquerda seu logo da época). Agora é o vice do ex-adversário Barack Obama (veja à direita o cartaz dos dois juntos). Consumada a chapa, a Convenção Nacional Democrata começa hoje em Denver, Colorado. Adversários republicanos apostam num desastre de relações públicas, ao invés dos habituais espetáculos roteirizados e coreografados. Confiam num imprevisível desafio dos Clinton, embora menos traumático do que a rebelião de 1968.

Há 40 anos contestadores indignados com a guerra do Vietnã e frustrados com o assassinato do senador Bob Kennedy em Los Angeles, depois da vitória nas primárias da Califórnia, enfrentaram a polícia de Chicago nas proximidades da convenção. Hoje os adeptos de Hillary estão frustrados mas o apoio público dela à chapa do partido parece longe de sugerir qualquer tipo de confronto.

Ela própria foi enfática ao falar da escolha do companheiro de chapa de Obama. “Ao indicar meu colega e amigo, senador Joe Biden, para completar a chapa presidencial, o senador Obama manteve-se fiel às melhores tradições da vice-presidência. Escolheu um líder excepcionalmente vigoroso e experiente, além de dedicado servidor público”, declarou a senadora e ex-primeira dama.

Mas a campanha do republicano John McCain encarregou-se de veicular, no mesmo dia, um comercial contendo os ataques dela, quando ainda disputava as primárias, contra o colega democrata que agora ela declara apoiar. Clique na imagem abaixo (do You Tube, para ver e ouvir na íntegra o comercial de McCain no qual é ela a principal estrela.

O fantasma que reaparece

Manifestações de outras personalidades citadas antes como cotadas para integrar a chapa – como os governadores da Virgínia, Tim Kaine, e de Kansas, Kathleen Sebelius, e os senadores Chris Dodd e Claire McCaskill – foram igualmente entusiásticas. Os Clinton, aliás, estarão ainda entre os oradores especiais da convenção, amanhã (ela) e quarta-feira (o ex-presidente Bill Clinton).

Apesar disso, comentaristas da Fox News – do império Murdoch de mídia – continuavam ontem a prever que coisas terríveis podem acontecer. William (Bill) Kristol, um dos ideólogos neoconservadores que ajudaram a “vender” ao país a invasão do Iraque, só faltou conclamar a facção feminista do Partido Democrata à guerra. Ele lembrou que Hillary teve 18 milhões de votos e Biden apenas 9 mil.

Biden, na verdade, retirou-se da disputa ainda nas escaramuças iniciais das primárias. Até comentaristas da Fox News, entre eles o próprio Kristol, reconheceram que Biden, que está à direita de Obama, é um reforço para a chapa devido à larga experiência e por ter presidido duas das comisões mais importantes do Senado – a de Justiça e a de Relações Exteriores, atualmente sob a presidência dele pela segunda vez.

A palavra fácil – ou vazia

O pequeno estado de Delaware, que Biden representa, tem apenas três votos no colégio eleitoral. Mas esse senador católico sempre cultivou também o eleitorado do vizinho e bem mais importante (e populoso) estado da Pensilvânia. Candidado potencial à Casa Branca pela primeira vez em 1988, acabou desistindo em seguida à crítica de que “plagiara” discurso de um político britânico, Neil Kinnock.

Esse episódio foi prontamente recordado, horas depois da indicação anunciada por Obama, mas a Fox News e demais veículos que o fizeram não se deram ao trabalho de explicar que Biden citara algumas vezes o autor original da frase usada, com um paralelo entre suas razões e as do político britânico. Seu pecado teria sido apenas o de deixar de fazê-lo pelo menos uma vez, conforme o argumento em sua defesa.

Apesar da relevância discutível do caso, os críticos republicanos acham Biden muito capaz de mais escorregões porque fala pelos cotovelos. Na Fox News, o recado ontem do diretor da sucursal de Washington, Brit Hume, foi nesse sentido. Ele contou ter publicado artigo uma vez sob o título “Shut Up, Biden” (Cale a boca, Biden), para fazer reparos a coisas ditas por ele.

Uns dois anos depois, ao ouvir queixa do senador, em conversa informal, de estar sendo relegado, Hume argumentou que o senador falava muito nas entrevistas mas na hora da edição não se conseguia achar soundbites – aquelas frases sucintas que a TV adora. “Sabe o que é?”, disse Hume a ele. “O senhor é um ‘saco de vento’ (windbag, no original inglês)”.

Impossível como “cão de ataque”

Na versão de Hume, o próprio Biden teria concordado, mas o compromisso da Fox News com a verdade não é lá essas coisas. Tanto Hume como Kristol, ao mesmo tempo, dizem que o candidato democrata a vice é “ótima pessoa”, “sujeito muito decente”, mas que terá dificuldade em fazer o papel mais importante que cabe a um número dois da chapa: o de virar “cão de ataque” do candidato presidencial.

Além disso, os dois estão convencidos de que Biden, apesar de “escolha sólida”, não será capaz de “unir o partido” e “unir a convenção”, o que exigiria Hillary Clinton (na verdade, há meses a Fox dedica-se a pregar essa chapa Obama-Hillary). Para Hume, Biden não vai atrair eleitores centristas e conservadores – os que, diz estarem fora do circuito de Obama. “E este país é centro-direita”.

A Fox reproduziu esta fala anterior de Hillary aos seguidores: “Eu preciso de um presidente com o qual eu possa trabalhar. E vocês também”. Essa manifestação insólita explica a também insólita palavra-slogan forjada no grupo dela: NOBAMA. Equivalente a “não” a Obama. Talvez por isso, a esperança democrata é de por fim à ambiguidade durante a convenção. Mostrar que isso é coisa da Fox e demais inimigos.

Mas não só Hillary atacou Obama nas primárias democratas. O próprio Biden, como ela, fez crítica dura a Obama por candidatar-se sem ter suficiente experiência. Embora tenha bem mais tarde passado a apoiá-lo, inclusive contra Hillary, Biden confirmou a crítica no debate da rede ABC, como mostra sua resposta à pergunta de George Stephanopoulos, reeditada depois pela CNN (clique abaixo para ver e ouvir).

Published in: on agosto 25, 2008 at 1:18 am  Deixe um comentário  

Vozes do passado na crise dos mísseis

Se dependesse apenas de generais como Curtis LeMay, chefe do Estado Maior da Força Aérea e arquiteto da estratégia nuclear, e David Shoup, voz dos Fuzileiros no Estado Maior Conjunto, ou de políticos como o senador Richard Russell, presidente da Comissão das Forças Armadas, teria havido em 1962 um confronto nuclear, de conseqüências imprevisíveis, entre as duas grandes superpotências.

Essa já era a suspeita de alguns historiadores da Guerra Fria, mas em 1997 surgiram afinal as provas definitivas: as próprias vozes, gravadas secretamente, dos personagens centrais nos EUA da crise dos mísseis de Cuba, vivida há quase 46 anos. Durante 13 dias e noites, em outubro de 1962, o mundo esteve à beira da catástrofe nuclear – como contou Robert (Bob) Kennedy em seu livro Thirteen Days, ampliado depois e transformado em 2000, graças a mais depoimentos, no docudrama do mesmo título (veja acima a capa do DVD).

O que disseram naqueles dias tensos o presidente John Kennedy, o irmão Bob (secretário de Justiça na época), o vice-presidente Lyndon Johnson, os secretários Dean Rusk (de Estado), Robert McNamara (Defesa), Douglas Dillon (Tesouro), os chefes do Estado Maior Conjunto e outras autoridades tornou-se conhecido em 1997 graças ao livro The Kennedy Tapes: Inside the Cuban Missile Crisis (As fitas de Kennedy: por dentro da crise dos mísseis de Cuba), de Ernest May e Philip Zelikow.

“Como o mundo não acabou”

May e Zelikow, professores de História em Harvard, explicaram e analisaram as fitas transcritas no livro (algumas ainda são mantidas em sigilo). O livro transcreveu mais de 260 horas de gravação das discussões no gabinete oval da Casa Branca e na sala das reuniões ministeriais, além de chamadas telefônicas. Só o presidente, o irmão Bob e dois ou três auxiliares próximos sabiam do sistema de gravação.

A crise dos mísseis começou no dia 14. Um avião-espião U-2 documentara, num de seus vôos sobre Cuba, a instalação de plataformas de lançamento de mísseis. As forças armadas ficaram em “alerta vermelho”. As gravações transcritas permitem acompanhar o desdobramento da crise, só superada com a trégua negociada por Kennedy e o então premier Nikita Kruschev. Navios com mais equipamentos para Cuba deram marcha-a-ré e retornaram à Rússia, apesar de ameaça anterior de desafiar o bloqueio dos EUA.

Segundo expressão de um analista americano, as fitas cujo conteúdo o livro transcreveu mostram “como o mundo não acabou”. De fato, ali há momentos dignos da ficção de Hollywood. Como o desafio do general LeMay à opção do bloqueio, preferida pelo presidente (saiba mais sobre o general AQUI, num breve texto da TV pública, PBS). O chefe militar (notem na foto ao lado a abundância de medalhas no peito dele) praticamente chamou Kennedy de covarde por descartar a proposta de ação militar imediata.

“Para mim, bloqueio e ação política só levam à guerra”, diz LeMay na fita gravada. “É quase tão ruim como Munique (o pacto com Hitler em 1938). (…) Não vejo nenhuma outra solução além da ação militar direta – e imediata! (…) Bloqueio e ação política serão vistos por nossos aliados e pelos neutros como fraqueza. Nossos próprios cidadãos vão achar isso. É muito ruim, sr. presidente”.

Um presidente encurralado?

Terminada a reunião, o general David Shoup, chefe do Estado Maior dos Fuzileiros, ainda ficou na sala com LeMay, a quem elogiou por ter encurralado Kennedy. “Nossa, você puxou o tapete dele!”, disse Shoup. “Jesus Cristo, que diabo você está dizendo?” – pergunta LeMay. E Shoup: “Alguém tem de impedir essa conversa de pacifismo. (…) Acabe com o filho da puta. É isso!”.

Esse diálogo ocorreu sexta-feira, 19 de outubro – quinto dia de discussões na Casa Branca após a descoberta dos mísseis soviéticos em Cuba. No dia 22, alarmado com a linha dura dos chefes militares, o presidente Kennedy pediu ao secretário Assistente da Defesa, Paul Nitze, para se certificar de que nenhum deles iria disparar arma nuclear sem a autorização presidencial.

“Não quero essas armas nucleares sendo disparadas sem que eu saiba. (…) Podemos cuidar disso, Paul? Precisamos expedir nova instrução”, disse Kennedy. “Volto lá e digo a eles”, respondeu Nitze. Kennedy perguntou então se “eles são contra expedir nova instrução”? E Nitze: “São. Acham que compromete as instruções em vigor”.

Nitze explicou ainda a Kennedy, na resposta, que “o contato estratégico da OTAN (jargão militar para ataque nuclear russo) exige, em tal situação, a execução imediata do E.D.P.”. E Kennedy: “O que vem a ser E.D.P.?” Nitze: “European Defense Plan (Plano de Defesa da Europa). Significa guerra nuclear”. “Não. É por isso que a instrução tem de ser expedida”, reiterou Kennedy, tornando a ordem inequívoca. “E o que temos a fazer é nos certificarmos de que esses caras saibam disso”.

“Berlim na guerra generalizada”

Em outro diálogo, o subsecretário de Estado George Ball manifestou o temor de ficarem os EUA estigmatizados “se atacarem Cuba primeiro, como os japoneses fizeram em Pearl Harbor”. Kennedy observou que a resposta de Kruschev seria tomar Berlim. “Ele vai tomar Berlim, claro. Qualquer coisa que ocorra, perdemos Berlim por causa desses mísseis”.

A uma pergunta de McNamara, Kennedy disse que Berlim seria tomada por tropas soviéticas. “Aí o que faremos?”, perguntou uma voz não identificada. “Vamos para a guerra generalizada”, respondeu Ball, com respaldo de McGeorge Bundy. “Você quer dizer confronto nuclear?”, perguntou Kennedy. E a voz não identificada: “Exato”. O senador Richard Russell, presidente da Comissão das Forças Armadas, foi informado por Kennedy sobre a situação e exigiu “ações mais duras”, alegando ter “chegado a hora”. “Um dia teremos de fazer isso por Berlim, pela Coréia, por Washington ou Winder, Georgia. Guerra nuclear. (…) Haverá condições mais auspiciosas?”

Russell tratou o presidente com desprezo por ter ponderado ser a situação difícil e delicada. Queria que ele fosse duro para garantir a posição de grande potência, pois “um dia isso terá de acontecer”. Na mesma linha ficou o senador William Fulbright, da Comissão de Relações Exteriores. No livro, May e Zelikow elogiaram “a mente fria e analítica” de Kennedy ao fazer perguntas sensatas e extraordinariamente pertinente em meio ao clima tenso e exaltado. (Saiba mais AQUI sobre o livro)

Além dos choques com Kennedy, LeMay teve outros, em ocasiões diversas – com o secretário da Defesa McNamara, com o chefe do Estado Maior Conjunto (Maxwell Taylor), com o secretáro da Força Aérea (Eugene Zuckert), etc. Shoup, mais velho, morreu no ano seguinte, 1963. Forçado a se aposentar em 1965, LeMay candidatou-se sem sucesso a vice na chapa presidencial de George Wallace em 1968. Ao morrer, em 1991, com 85 anos, ainda encarava a decisão de Kennedy como “a maior derrota de nossa história”.

Published in: on agosto 24, 2008 at 12:16 am  Deixe um comentário  

Blix, a França e as armas da mentira

Em julho passado, quando Tony Snow (veja sua foto ao lado), ex-apresentador da rede Fox News e ex-secretário de imprensa na Casa Branca de Bush, morreu de câncer, os necrológios na mídia evitaram lembrar outro papel histórico dele. Tinha sido também a pessoa que em 1996 apresentara Linda Tripp a Lucianne Goldberg – a dupla que detonou o escândalo Lewinsky, quase responsável pela queda do presidente Bill Clinton (leia AQUI como a CNN referiu-se ao papel dele em 1998).

Sem ser brilhante, Snow parecia sempre risonho e simpático, além de leal aos chefes, o magnata de mídia Rupert Murdoch e o presidente George W. Bush. Mas num domingo de 2006, ao voltar pela primeira vez à Fox para uma entrevista, ouviu pergunta claramente formulada com a intenção de reabilitar como verdade a mentira das ADM (armas de destruição em massa) do Iraque. Negou-se a embarcar nisso. Nada havia capaz de confirmar a versão, garantiu.

Propagadora incansável dessa e outras mentiras bushistas, a Fox News nunca desistiu de vender a lorota como verdade. Talvez por isso uma pesquisa posterior concluiu: 89% dos telespectadores dessa rede ainda acredita na existência das armas invocadas para justificar a invasão dos EUA pelo Iraque. Em relação a outras redes, a percentagem caia para 30% ou mesmo 20%. Em 2004 os bushistas James Woolsey, ex-diretor da CIA, e George Will, jornalista, pregadores impenitentes da guerra, disseram-se na ABC perplexos pela inexistência das ADM.

Bush no país dos espelhos

Foi comovente o espanto de Woolsey, a se perguntar como fora possível “todo mundo ter errado”, até em informações e detalhes específicos? Mas ele próprio era exemplo da farsa: integrava organismo do Pentágono em claro conflito de interesses com empresa a que servia, fornecedora de armas. Felizmente havia, na discussão da ABC, um jornalista mais sensato, cuja intervenção fez diferença.

Fareed Zakaria, colunista da Newsweek, interrompeu os dois panacas: “Espere aí”, disse. “Nem todos erraram. Os inspetores internacionais da ONU não erraram. O que David Kay e sua equipe americana de caçadores de ADM disseram depois da invasão foi aquilo que especialistas da ONU tinham dito em seguida a inspeções, com base até em dados dos EUA, em centenas de lugares no Iraque, antes da guerra. Eles estavam certos”.

Kay (saiba mais AQUI sobre o relatório dele) foi o primeiro americano a procurar as ADM depois da ocupação. Charles Duelfer, que o substituiu, chegou a conclusão idêntica (conheça AQUI as conclusões dele). Ainda em fevereiro de 2004, segundo o Washington Post, Bush resolvera não mais insistir numa investigação independente sobre “as causas do erro da espionagem”. Claro, a suposta culpa dos espiões só provaria a suposta “ingenuidade” do presidente. E se ele não queria passar por mentiroso, tampouco queria passar por idiota.

A trama não confessada é hoje mais ou menos óbvia: colocados contra a parede por Bush, pelo secretário da Defesa Donald Rumsfeld e em especial pelo vice Dick Cheney, só restava a especialistas de inteligência declararem o que os chefões queriam ouvir. Era um pouco como Alice no país dos espelhos. E permitiu a Bush, naquela campanha eleitoral de 2004, fugir outra vez da da própria responsabilidade.

Quem acreditou nas armas?

Teoricamente tanto Kay como Duelfer investigavam para a CIA. Depois, mesmo fora do emprego de caçadores de armas, os dois continuaram tentando preservar a imagem de Bush. Insistiram na culpa da espionagem e negaram que tivesse havido pressão para intimidar os analistas. Como? Repetindo a desculpa de que “todo mundo” acreditava nas armas, até os inspetores da ONU. Outra mentira.

Era insólita a repetição de tal mentira qualificada – o que também Woolsey fez na ABC, diante de Zakaria. Só não era lorota completa porque no passado, de fato, um ou outro inspetor ou ex-inspetor da ONU rendera-se à tese de Bush. Quem? Gente como o próprio Kay, integrando equipe da ONU (antes da guerra ele também fora “analista” da rede de televisão MSNBC e defendia a fantasia bushista).

Os inspetores da ONU a que se referia Kay eram dois, além dele próprio. O australiano Richard Butler servira menos ao esforço da ONU do que ao governo dos EUA. Sabe-se hoje que à época dele a equipe fazia espionagem para a CIA. E Scott Ritter, um americano que se arrependeu do papel que teve e mais tarde contou a verdade em livros que negam a existência de ADM e comprometem os EUA (conheça AQUI o livro que escreveu com o jornalista Seymour Hersh expondo a trama dos EUA para sabotar a ONU e derrubar Saddam).

Resistindo ao império arrogante

O austero Hans Blix (veja sua foto ao lado), sucessor de Butler à frente da equipe da ONU, não se submeteu à intimidação da Casa Branca. Trabalhou com seriedade e negou a existência das ADM até a véspera da invasão dos EUA (saiba AQUI sobre o livro no qual relata o trabalho que fez para a ONU no Iraque). Coube ainda a um colega dele, Mohamed El Baradei, diretor da AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica), ridicularizar os tubos de alumínio de Colin Powell e chamar de “fraude grosseira” as “provas” sobre o fantasioso urânio africano de Saddam.

Powell tentara dentro do governo resistir aos que forçaram a guerra a pretexto daquelas mentiras. Mas sua imagem acabaria detroçada – por ter cessado a resistência, prestando-se a papel melancólico no Conselho de Segurança da ONU. Pior: para servir Bush, ainda buscou ridicularizar Blix, comparando-o ao Inspetor Clouseau, interpretado por Peter Sellers na sátira A Pantera Cor-de-Rosa.

A piada embutia ainda, claro, a intenção de atingir a França. O pobre Powell tentou explicar-se depois, Blix e a França não, pois estavam certos todo o tempo. O presidente Jacques Chirac pagou caro por defender as inspeções da ONU. Inspirada no macarthismo, gente de Bush apoiou o boicote de produtos franceses – na campanha liderada pela Fox News e atribuída cinicamente pela Casa Branca a “reação expontânea” do povo.

Published in: on agosto 23, 2008 at 10:31 pm  Deixe um comentário  

Gorbachev e a ingerência de Bush na Geórgia

Não é preciso morrer de amores por Mikhail Gorbachev, o ex-presidente da Rússia, para perceber a relevância do que ele tem declarado sobre a Geórgia, seu conflito com os russos e o papel dos EUA. Apesar de ter desaparecido na poeira do tempo, a ponto de ser apenas figurante inexpressivo nas eleições da Rússia, na mídia dos EUA ele continua a ser, no mínimo, uma celebridade cortejada.

Foi nessa condição que reapareceu há menos de uma semana, como entrevistado de Larry King na CNN, para contestar a versão fantasiosa do governo Bush-Cheney e seu títere da Geórgia, Mikhail Saakashvili. O mínimo que declarou, tirando proveito de sua imagem de “herói” que desmantelou a União Soviética para os EUA, foi que Saakashvili e seu padrinho Bush estão mentindo ao mundo.

“Não houve invasão russa e sim um assalto bárbaro perpetrado pela Geórgia na Ossétia do Sul. (…) A Geórgia começou isso”, garantiu Gorbachev, para quem “a ingerência externa forçou as coisas na direção errada”. A Rússia, disse, não podia ignorar “o assalto, (…) a devastação, (…) aquele uso de armas sofisticadas contra pequenas cidades, contra pessoas que dormiam. Aquilo foi bárbaro”. (Leia AQUI a transcrição da entrevista e ouça a palavra de Gorbachev clicando no final deste artigo)

“Mentiras do princípio ao fim”

Saakashvili tinha dito à mesma CNN, na véspera: “Estamos testemunhando, nestes últimos dias, o assassinato brutal, calculado, premeditado e a sangue frio, pela Rússia, de uma pequena democracia”. Perguntado sobre isso, Gorbachev rebateu: “Tudo mentira, do princípio ao fim. O que houve foi invasão de tropas da Geórgia na Ossétia. A Rússia não teve como deixar de responder”. Só que a CNN deu a última palavra a Saakashvili: em seguida à entrevista de Gorbachev, Larry King o trouxe de novo para repetir seu teatro.

Mesmo assim a CNN teve um mérito: não se limitou, como o resto da mídia, a uma única versão. Trouxe o outro lado da história – a contestação do ex-líder soviético. Na rival Fox News, o noticioso Fox Report, apresentado por Shepard Smith, deu apenas a versão Bush-Saakashvili, além de um adendo de efeito dramático: o depoimento de uma americana de 12 anos, ao lado da mãe. Ela alegou ter estado num café quando a guerra estourou na rua e fugiu, como centenas de civis, sob o inferno de bombas russas.

A versão da “pequena democracia brutalmente atacada” nada tem a ver com os fatos. É parte de outra guerra, a da propaganda. Basta lembrar o que se inventou sobre o Iraque para justificar a primeira guerra do Golfo. A mesma CNN foi usada em 1990 pelo governo do outro Bush (o pai, George H. W.), para veicular versão fraudada de que no Kuwait tropas de Saddam Hussein tinham invadido um hospital para retirar bebês recém-nascios de incubadoras e matá-los (leia mais AQUI sobre tal fraude dos EUA).

É saudável que um veículo da mídia ouse dar atenção ao que diz Gorbachev. Afinal, essa mesma mídia, e a direita americana, o tornaram “herói” no passado. Isso pode contribuir de alguma forma para equilibrar a habitual veiculação leviana das versões cínicas do bushismo e seu apadrinhado georgiano. Até porque o candidato presidencial de Bush, John McCain, também entrou no jogo com um palpite insólito – de que a Rússia decretou “regime change” na Geórgia.

Reeditando o projeto do Iraque

Ora, “regime change” foi a receita da segunda aventura dos EUA no Iraque. Os ideólogos neocons inspiraram a lei que pôs os EUA nessa rota e conseguiram que, depois do 11/9, a dupla Bush-Cheney bancasse a invasão invocando a mentira das armas inexistentes. O efeito prático é o atual controle do petróleo pelos EUA, que hoje namoram “regime change” no Irã e a conexão Geórgia-gás-petróleo-oleoduto. Mas atribuem à Rússia a própria receita.

Obviamente Gorbachev tenta tirar proveito da celebridade com que antes o Ocidente premiou seus serviços – entre outras coisas, com o Nobel da Paz. Talvez tenha consciência de que será impossível derrotar Bush-Cheney na arte de manipular a mídia. Mas ele na certa ajudará a impedir a fabricação mentirosa de armas inexistentes, de assassinato de bebês em incubadoras e sabe-se lá mais o que.

Os EUA e seu títere georgiano falaram na covardia da invasão – uma invasão que Gorbachev nega ter havido. “Então a Geórgia não foi invadida mas, ao contrário, invadiu?” – perguntou Larry King. Gorbachev foi enfático. Contou ter falado com Eduard Shevardnadze, ex-chanceler da URSS e ex-presidente da Geórgia para conhecer a história real – a invasão da Ossétia do Sul para um expurgo étnico da população russa. “A cidade, Tskhinvali, dormia. De repente foi bombardeada e invadida por todos os lados”.

Bombardeio aéreo, artilharia, lançadores de chamas – uma matança. “Atacaram pessoas, casas, hospitais, instalações de água e esgoto, a infra-estrutura de energia e de comunicação. Tudo ficou completamente destruído Até velhos monumentos. Alguns dos mais antigos do Cáucaso. Sepulturas ancestrais foram arruinadas, tanques passaram por cima de tudo”.

O militarismo crescente dos EUA 

Gorbachev declarou-se perplexo com a cobertura da mídia ocidental, em especial a dos EUA. “Eles disseram ter havido invasão deliberada da Rússia, mas a Ossétia do Sul, onde estava a força de paz russa – atuando desde o acordo de 1992, quando a província separou-se de fato da Geórgia – é que foi invadida por tropas georgianas. A Rússia respondeu. O que a mídia fez foi desinformar. Tudo mentira. Houve na verdade um plano prévio para o ataque à Ossétia”.

Para o ex-líder soviético, Saakashvili enganou a Europa. “Enganou também os EUA, a não ser que tenha sido tudo um projeto americano implementado por ele”. Gorbachev preocupa-se com o que ocorre hoje no mundo. “No Sul, na Ásia, no Sul da Rússia, no Oriente Médio. Preocupa-me em especial o processo de militarização. Orçamentos militares crescem em ritmo acelerado”.

Ele chama atenção para o que ocorre na Geórgia, hoje armada até os dentes. “Não fosse isso, não teria feito o que fez. Esse pequeno estado tem orçamento militar de nada menos de US$1 bilhão. Os EUA, principalmente, armaram a Geórgia com armas sofisticadas – aviões, armas terrestres, montanhas de armas. O resultado era inevitável. Mas ainda há tempo de evitar a volta ao clima da guerra fria entre Rússia e EUA”.

Ele lamentou a falta, até hoje, de uma boa relação entre Rússia e EUA. Alegou que o governo americano comete erros pelos quais o povo acaba tendo de pagar. “O orçamento militar dos EUA é superior a US$600 bilhões – metade de todos os orçamentos militares do mundo somados. (…) No mundo há situações que levam a conflitos. Saakashvili só criou o confronto porque teve apoio e proteção. Mesmo agora os EUA ainda insistem em apoiar e justificar Saakashvili”. (Clique abaixo para ver e ouvir trechos da entrevista de Gorbachev à CNN)

Published in: on agosto 21, 2008 at 4:38 pm  Comments (1)  

A nova guerra dos neocons de Bush

Num artigo publicado há dias na revista CounterPunch, o conservador Paul Craig Roberts – economista que foi secretário assistente do Tesouro no governo Reagan e depois editor adjunto da página de opinião do Wall Street Journal (veja sua foto ao lado e saiba mais AQUI sobre ele) – afirmou que um governo Bush turbinado pela gangue neoconservadora, com a cumplicidade da mídia americana sob ocupação israelense, tenta empurrar o mundo para a guerra nuclear.

No período de Ronald Reagan, observou, criou-se o notório NED (National Endowment for Democracy) como instrumento da guerra fria; hoje o NED é uma agência controlada pelos neocons para buscar a hegemonia mundial dos EUA. Sua função principal é espalhar dinheiro americano e eleições fraudadas em áreas que foram parte da União Soviética a fim de encher a Rússia de títeres dos EUA.

Ou seja, o governo Bush-Cheney, sob a influência dos neocons, usa o NED, cujo papel sinistro escancarou no passado recente o intervencionismo da política externa americana (inclusive no escândalo Irã-Contras), para meter-se nos assuntos internos da Ucrânia e Geórgia e executar um plano destinado a instalar regimes amigos dos EUA e hostis à Rússia em países que integravam a URSS.

Reciclando a antiga prática

O NED também foi usado, lembrou, para desmembrar a antiga Iugoslávia através de intervenções na Eslovênia, Sérvia e Montenegro. Allen Weinstein, autor e acadêmico anticomunista, hoje diretor do Arquivo Nacional (saiba mais AQUI sobre ele), contou em 1991 ao Washington Post, como co-autor do estudo para criar o NED, que muito do que faz hoje essa organização que ajudou a incendiar a América Central e instalar ditaduras militares, já “era feito clandestinamente há 25 anos pela CIA”.

Para Craig Roberts, o governo Bush-Cheney, depois de instalar seu títere Mikhail Saakashvili como presidente da Geórgia, tenta tornar este país membro pleno da OTAN – a aliança militar da guerra fria, integrada por EUA e Europa Ocidental. Só que, extinta a União Soviética (e o Pacto de Varsóvia), deixou de haver razão para a existência do Tratado do Atlântico Norte, que tinha gerado a aliança militar ocidental.

Os neocons, no entanto, obstinam-se em transformar a OTAN em instrumento, como o NED, para afirmar a hegemonia mundial dos EUA. Os países europeus que se somaram aos EUA para criá-la há muito já viam com preocupação a meta atual dos neocons americanos no uso do NED. Para a Europa, tal afronta e provocação deliberadas à Rússia, de cujo fornecimento de gás natural ela depende, são desnecessárias e inconvenientes.

A lógica de uma provocação

O projeto neocon encampado pelo regime Bush-Cheney para instalar defesas de mísseis balísticos na Polônia e República Tcheca assusta particularmente a Europa Ocidental. O efeito lógico dele é a Rússia apontar mísseis nucleares de cruzeiro para capitais européias. Qual a vantagem para os europeus de deter a retaliação russa contra os EUA à custa da própria existência deles, já que defesas de mísseis balísticos são inúteis contra mísseis de cruzeiro?

Craig Roberts destaca especialmente um ponto. Todos os países estão fartos de guerras, à exceção dos EUA. Na terra de Bush-Cheney a guerra, inclusive a nuclear, é parte da estratégia neocon de dominação mundial. O mundo inteiro sabe que o conflito armado entre forças da Rússia e da Geórgia na Ossétia do Sul é de inteira responsabilidade dos EUA em conluio com o governo títere de Saakashvili.

Segundo Roberts, os americanos são os únicos que não sabem terem sido as hostilidades iniciadas pelo regime da dupla Bush-Cheney com respaldo na mídia (ocupada pelos israelenses), que volta a mentir ao país, como na campanha bushista que “vendeu” a guerra do Iraque. Ele cita duas razões para o ataque georgiano à população da Ossétia do Sul:

1 – convencer a Europa de que o retardamento da integração da Geórgia à OTAN foi a causa do que hoje os EUA chamam, na sua linguagem enganosa, de “agressão russa”;

2 – purificar a Ossétia do Sul com o expurgo étnico de sua população russa (segunda a Rússia, dois mil russos já foram mortos pelo Exército georgiano, treinado e equipado pelos EUA).

Passo maior do que as pernas

Para Saakashvili e seus padrinhos de Washington, a esperança é de que as dezenas de milhares de russos forçados a fugir tenham medo de voltar – o que afastaria a ameaça secessionista. Roberts acha que o governo Bush-Cheney, apoiado na mídia, quer enganar os americanos reeditando a teia de mentiras das armas inexistentes do Iraque, da atual campanha contra a “bomba nuclear” do Irã, na manipulação do 11 de setembro, etc.

Acredita, mesmo assim, que o resto do mundo resistirá – inclusive os aliados europeus habitualmente subornados por Washington. Apesar dos tambores de guerra na mídia dos EUA, analisa ele, desta vez o governo Bush, com pouco a oferecer, pode estar tentando um passo maior do que as pernas. O país está falido, seus déficits (orçamentário e comercial) excedem a soma dos do resto do mundo.

O dólar despencou, seu mercado de consumo sofre com a exportação de empregos, os colapsos das hipotecas e fundos derivativos minam a economia. O que resta a Bush para oferecer à Europa se o declínio econômico americano já golpeia as exportações do velho continente e eleva o valor do euro? Quanto ao surrado discurso da liberdade, só sobrevive como piada: Abu Ghrabi, Guantánamo e os vôos secretos da CIA para terceirizar a tortura pelo mundo é que são a herança da era Bush-Cheney (leia AQUI a íntegra to artigo de Craig Roberts na CounterPunch).

Published in: on agosto 20, 2008 at 1:24 pm  Comments (2)