Paralelo entre personagens da guerra de Bush

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Enquanto a bancada republicana bloqueava no Congresso, há dois anos, o debate da guerra, um relatório oficial do Inspetor Geral (IG) do Departamento da Defesa confirmou o que todo mundo já sabia – que antes da invasão do Iraque o Pentágono manipulou deliberadamente informações de inteligência, na obsessão de ligar Saddam Hussein à al-Qaeda de Osama Bin Laden e às ações terroristas de 11 de setembro de 2001.

Essa ligação inexistente, como lembrou então o senador democrata Carl Levin, à frente da comissão de Serviços Armados, foi o argumento central usado para “vender” a guerra de Bush ao povo americano – em plena histeria patrioteira abraçada pela mídia do país. O que o Pentágono fez, disse Levin, “foi errado, foi uma distorção, foi inapropriado (…) e foi algo altamente perturbador”.

Como se processou aquela manipulação? Os detalhes foram expostos no texto. O relatório deixou claro que os responsáveis maiores tinham sido os dois das fotos acima – o então chefão do Pentágono, Donald Rumsfeld, secretário da Defesa, e o número dois, Paul Wolfowitz, secretário adjunto. Em seguida vinha o sub-secretário (para programas) Douglas J. Feith, cujo gabinete Colin Powell chamou uma vez de “Gestapo” e “governo paralelo”.

Mas o relatório do IG, estranhamente, alegava ao mesmo tempo que não tinha havido ilegalidade (saiba mais sobre o relatório AQUI). Simplesmente porque aquela gente estava autorizada pelo escalão superior – leia-se, George W. Bush – a fazer o que fizera.

O desastre de US$3 trilhões no Iraque

Ou seja, o IG não considerou crime a manipulação deliberada, ainda que ela tenha fabricado pretextos para uma guerra declarada ilegal com base na Carta das Nações Unidas. Há dois anos Rumsfeld, Wolfowitz e Feith já não estavam no governo.  No entanto, Rumsfeld continuava a usar um gabinete no Pentágono, Wolfowitz era presidente do Banco Mundial (demitiu-se em meio a escândalo envolvendo a namorada) e Feith ensinava (o que?) na Escola de Serviço Exterior da Universidade de Georgetown.fog_of_war

Wolfowitz repetira a proeza de Robert McNamara, secretário da Defesa na fase inicial da guerra do Vietnã, contemplado com a mesma mordomia do Banco Mundial. Mas McNamara ao menos, ao assumir o Banco Mundial estava arrependido de seu papel no banho de sangue (no premiado documentário The Fog of War, do cartaz ao lado, o cineasta Errol Morris apresentou o depoimento dele). Não foi esse o caso dos três executores dos planos bélicos da dupla Bush-Cheney, que primeiro decidiu fazer a guerra e só depois mandou que se achassem pretextos para justificar a invasão.

Bush, Cheney, Rumsfeld, Wolfowitz, Feith e o resto da turma certamente nunca chegaram a perder o sono por causa da trapaça macabra. Mesmo conscientes de sua participação no processo de decisão ou na manipulação de dados para fazer a guerra de US$3 trilhões (cálculo de Joseph Stiglitz e Linda Bilmes), na qual já morreram 4.252 soldados americanos (por enquanto, até esta semana – confira os dados oficiais AQUI) e 650.000 a 800.000 civis iraqueanos (na estimativa conservadora da Universidade Johns Hopkins, já que outras falam em mais de 1 milhão).

Feith manifestou até certa euforia pelo relatório do IG. Estava convencido de que seu papel não fora ilegal e que tudo o que fizera tinha sido devidamente autorizado. Coube a ele, entre outras coisas, conduzir o OSP (Escritório de Planos Especiais), criado por Rumsfeld para falsificar dados capazes de contestar o ceticismo da CIA, cujos analistas negavam a ligação Saddam-Bin Laden, a existência de armas de destruição em massa, etc.

Um tenente na corte marcialwatada_ehren

Agora, passo a outro personagem. Se todos aqueles fabricantes e planejadores da guerra estão tranquilos e nunca sequer perderam o sono, é bem diferente a situação do tenente do Exército Ehren Watada (foto ao lado), considerado modelo de militar. Por tudo o que se sabia na época, muito antes do relatório do IG, ele concluiu ser ilegal a guerra do Iraque. Assim, ofereceu-se para lutar no Afeganistão ou outro lugar. Como insistiram em mandá-lo para o Iraque, preferiu ser julgado por uma corte marcial.

Em 2007, enfrentou um primeiro julgamento. Não chegou ao fim, devido a falhas de procedimento. Houve ainda um impasse. Depois, foi para o segundo. Tratava-se do primeiro e único oficial a se recusar publicamente a lutar no Iraque. Sua unidade, numa brigada de Fort Lewis, estado de Washington,  seguiu para a guerra em junho. Ele ficou. Respondia por cinco acusações diferentes (saiba mais AQUI).

Em geral, a grande mídia dos EUA não dá maior atenção a essas coisas. Ao contrário, finge que não aconteceram. Watada está agora com 30 anos. Ele é do Havaí, onde o presidente Barack Obama nasceu e viveu boa parte de sua vida. Quando explicou aos superiores que achava aquela guerra ilegal e imoral, eles lembraram o que já sabia: não cabe a um militar escolher a guerra de que quer participar. E também não podia deixar o Exército – tinha de enfrentar as consequências de sua decisão.

Nem covarde e nem pacifista 

O fato ocorre com mais frequência no escalão inferior, entre os soldados. Milhares já desertaram ou se declararam contrários à guerra. No caso de oficial, a máquina militar se mexe, teme a subversão do esforço de guerra. O capítulo mais recente da aventura de Wataba, que continuou a servir (em tarefas burocráticas) em sua brigada de Fort Lewis, foi vivido a 22 de outubro do ano passado. 

Um juiz federal, Benjamin Settle, decidiu naquele dia que Watada não terá de enfrentar uma nova Corte Marcial em três das acusações, pois isso equivaleria a ser julgado duas vezes pelos mesmos crimes (leia AQUI). Ficou em aberto se ainda terá de ir a julgamento pelas outras duas acusações, ambas relacionadas a “conduta indigna de um oficial e cavalheiro”. Sem dúvida, uma vitória, mas não o capítulo final. Pois se for julgado, ainda pode receber pena de prisão, embora por apenas dois anos.

watada_02Além disso, Wataba agora é cause célèbre. Fotos dele frequentam protestos antiguerra, embora alegue ser apenas “um americano comum” – nem “pacifista” e nem “covarde”, mas um “patriota” que viveu um dilema moral e agiu de acordo com a própria consciência. “Não tenho medo de lutar, (…) se meu país precisar, seria o primeiro a pegar o fuzil. O que não quero é participar de uma guerra que considero criminosa”, declarou ao jornal Los Angeles Times.

A oposição dele à guerra começou quando se revelaram fraudulentos os pretextos invocados pelo governo Bush para a guerra. O pai e a mãe dele passaram a ir a escolas e igrejas, em diferentes pontos do país, para falar do caso. Quanto aos guerreiros Bush, Cheney, Rumsfeld, Wolfowitz, Feith & Cia, é verdade que já estão fora do governo, mas nunca tiveram por que se preocupar.

Published in: on fevereiro 28, 2009 at 11:02 am  Comments (2)  

Orçamento: US$3,6 trilhões. Déficit: US$1,75 trilhão

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O presidente Barack Obama estava à frente de sua equipe econômica – Christina Romer (Conselho de Assessores Econômicos), Joe Biden (vice-presidente), Timothy Geithner (secretário do Tesouro) e Peter Orszag (diretor de orçamento) – ao anunciar ontem a proposta orçamentária para o ano fiscal de 2010, que caberá a Orszag, economista de Princeton, 40 anos de idade, vender ao Congresso e ao país até setembro (saiba mais AQUI).

Enquanto crescia, a partir de reportagem (leia AQUI) do Wall Street Journal (hoje integrado ao império de mídia do magnata Rupert Murdoch), a especulação sobre iminente tomada do controle do Citigroup/Citibank (saiba mais AQUI), a oposição republicana fingia ter levado um susto com o novo orçamento de US$ 3,6 trilhões, que aumenta impostos para os mais ricos.citigroup

Quem ganha acima de US$ 250 mil por ano (mais de US$20 mil por mês) vai pagar mais impostos, conforme o próprio presidente prometia na campanha e repetiu no discurso de terça-feira. Trata-se de inversão ousada – na verdade, uma guinada significativa – no rumo orçamentário herdado do governo Bush, que presenteara a camada mais rica da população com polpudos cortes de impostos (conheça alguns detalhes AQUI).

Mas a herança maior de Bush, graças à devastadora crise econômica que legou aos americanos, é o próprio deficit orçamentário a ser enfrentado (US$1,75 trilhão) pelo atual governo, que promete reduzí-lo à metade até o fim do mandato de Obama. O orçamento prevê gastos substanciais para melhorar o sistema de saúde, a educação e ampliar a independência do país no campo energético.

Evitando sacrificar os investimentosobama_ti

Ao anunciar o orçamento, Obama afirmou: “Não concordo em sacrificar os investimentos que farão o país mais forte, mais competitivo e mais próspero neste século 21 – investimentos que já foram negligenciados demais”. Para a oposição conservadora, o aumento de impostos dos ricos será usado para financiar uma reformulação do sistema de saúde que ainda nem se sabe como será feita.

De acordo com a crítica já levantada, isso também pode ter como consequência não desejada um aumento da carga tributária para pequenas empresas. Assim, ao invés de criar mais empregos, o que tem sido contribuição substancial delas ao longo dos anos, elas poderiam ser levadas a demitir empregados e fechar postos de trabalho.

De qualquer forma, com o que pode acabar tornando-se uma mudança bem mais profunda do que esperava a oposição, o governo Obama – que até agora preferia enfoque mais conciliatório, num namoro bipartidário ostensivamente repelido pelos republicanos – deixa claro com a proposta estar mais inclinado do que pensavam democratas progressitas mais céticos em cumprir certas promessas de campanha.

“Uma nova era de responsabilidade”

Publicada sob o título “Uma nova era de responsabilidade – Renovando a promessa da América”, a proposta orçamentária também contém reducões substanciais de gastos, em parte resultantes das mudanças previstas para o papel dos EUA no Iraque; cortes de subsídios; e até cortes de verbas de certos programas sociais (nesse caso, graças a operação destinada a combater o desperdício e eliminar fraudes).

clinton_1995De qualquer forma, o governo não parece preocupado com as acusações que já começam – e certamente vão continuar – de que está voltando atrás, para o tempo em que os “democratas gastadores” aumentavam o tamanho do governo. Big government é uma expressão que irritava os democratas (leia AQUI uma análise francamente hostil da agência Reuters), acusados de gostarem de impostos e gastarem demais – em programas sociais e outras “bobagens”.

O próprio Bill Clinton, como presidente (veja-o à esquerda, em 1995) declarou certa vez o fim da “era do big government” (leia o discurso AQUI). E Obama, no seu discurso desta semana sobre o Estado da União, também reafirmou que não gosta de big government. A partir daí, a liderança republicana já proclamou que os EUA, com o atual governo, está promovendo o retorno àquela era – o que, de resto, teriam dito qualquer que fosse o orçamento proposto.

Punindo executivos irresponsáveis

A oposição republicana, no entanto, fica em situação extremamente incômoda para fazer suas críticas nesse terreno, já que o presidene republicano Bush recebeu do antecessor Clinton, há oito anos, um orçamento com superávit – devolvido agora, ao democrata que o sucede, com o maior déficit da história. Isso para não falar nas guerras que agravaram o quadro (só o custo da do Iraque, segundo cálculo do economista Joseph Stiglitz, eleva-se a US$3 trilhões) e na desastrosa crise econômica.

No mesmo dia o líder da minoria oposicionista na Câmara, John Boehner (veja-o na foto do final deste texto, à frente dos colegas da liderança partidária), retomou seu cansativo refrão de que não se aumenta impostos em períodos de recessão – no caso, a recessão de Bush. As pequenas empresas afetadas, alegou, representam o motor da criação de empregos. “O orçamento dos democratas é, simplesmente, um assassino de empregos”, afirmou.

Na sua contribuição ao debate, Obama também destacou o preço que os executivos desonestos, que ajudaram a fabricar a atual crise, serão forçados a pagar. Segundo afirmou, a ampliação do ativismo do governo será “um rompimento emblemático com esse passado perturbador”, punindo com aumentos de impostos muitos dos que lucraram com a desgraça do país nessa “era de profunda irresponsabilidade”.

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Published in: on fevereiro 27, 2009 at 10:34 am  Deixe um comentário  

Duro no diagnóstico, confiante no remédio

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O clima sombrio criado pela oposição antes da aprovação do pacote de US$ 787 bilhões para estimular a economia (que só teve três votos republicanos) e nos dias que antecederam a sessão conjunta de ontem no Congresso, acabou neutralizado por um discurso vigoroso, que o New York Times exaltou (AQUI) como “The Time of Reckoning” (A Hora do Acerto de Contas). O presidente Barack Obama voltou a ser duro e franco no diagnóstico da crise mas foi confiante e frequentemente convincente ao expor o remédio (leia a íntegra AQUI e ouça em video, AQUI, algumas das passagens memoráveis).

limbaugh_95-01-231A retórica do partido de George W. Bush, indiferente ao seu legado de guerras desastrosas, divisão interna, desprestígio internacional e a crise econômica cuja extensão ainda não está suficientemente avaliada, passou a pintar uma ameaçadora marcha do país “para o socialismo”. É o que repetem Rush Limbaugh (veja-o à esquerda, numa capa do Time em 1995), celebridade extremista do rádio, e o império Murdoch de mídia (Fox News, Wall Street Journal, etc).

Limbaugh (veja-o abaixo em outra capa, retratado ao lado do pornográfico Howard Stern em 1993 como a “Voz da América”) é o mesmo que na campanha das primárias, em programas diários retransmitidos por centenas de emissoras do país, tentara impor em diferentes estados o que chamava de “Operação Caos” – votos de republicanos nos adversários de Obama em primárias democratas (saiba mais AQUI). Consumada em novembro a vitória final do democrata, o esforço de Limbaugh passou a ser contra o pacote de estímulo econômico – para, ao menos, impedir que tivesse qualquer voto da oposição.limbaugh_93-11-011

Recessão é real, está em toda parte

A pretexto de que “o dinheiro é do povo e não de Washington”, ele intimidava parlamentares republicanos. E num espaço generoso dado por Murdoch na página de opinião do Wall Street Journal (veja e leia na íntegra AQUI) Limbaugh garantiu: recessões só duram cinco a 11 meses e a recuperação ocorre naturalmente em seis anos. “Não se deve fazer nada, só esperar que terminem por elas mesmas. O que pode torná-las pior é o tipo errado de intervenção do governo”.

limbaughObama, que antes elevara Limbaugh à condição de líder dos republicanos (saiba mais AQUI), rejeitou enfaticamente no discurso a tese de que não se deve fazer nada. Às vésperas da sessão conjunta do Congresso, até o ex-presidente Bill Clinton parecia assustado e deu um conselho público ao presidente, para que mostrasse otimismo – como Ronald Reagan. Mas ao começar, Obama ignorou o chavão de que “o Estado da União é forte”. Optou pela franqueza: “O estado da economia é uma preocupação que se sobrepõe a todas as outras”. (Reagan, entre outras coisas, é o santo padroeiro de Limbaugh: veja os dois na foto acima).

Afirmou ainda que “o impacto desta recessão é real, está em toda parte”. E logo destacou: “Apesar de nossa economia enfraquecida e nossa confiança abalada, (…) esta noite quero que cada americano saiba disso: Vamos reconstruir e recuperar. E  os Estados Unidos da América ficarão mais fortes do que antes”. Essas e outras frases soaram tão vigorosas que vieram aplausos, de pé, até do lado oposicionista do plenário.

A hora do acerto de contas

A mágica do discurso consistiu em expor os erros desastrosos, como as ações desregulamentadoras para permitir lucros fáceis ou bônus inescrupulosos para executivos, até o inevitável dia do acerto de contas. Os problemas econômicos do país, conforme deixou claro, “não começaram quando o mercado imobiliário entrou em colapso ou quando o mercado de ações afundou”.

bernanke_greenspanA oposição republicana, atormentada pela suspeita de que grandes bancos premiados com socorro do governo podem ser nacionalizados por algum tempo, talvez tenha ficado aliviada, horas antes, devido à palavra de Ben Bernanke, presidente do Federal Reserve, banco central americano (na foto, seguido por Alan Greenspan, à entrada do gabinete Oval da Casa Branca de Bush). Ele negou (saiba mais AQUI) que o governo pretenda nacionalizar o sistema financeiro do país – o que fez as ações do Citigroup e do Bank of America subirem 20% (logo depois da fala de Bernanke).

No domingo o colunista (e prêmio Nobel de Economia) Paul Krugman, do New York Times, citara com ironia a conclamação do antecessor de Bernanke no Fed, tratado como “camarada Alan Greenspan”, para que “tomemos as colinas de comando da economia”. Krugman o apoiou, embaraçado. O que aquele defensor do “livre mercado” tinha dito, explicou, é que “pode tornar-se necessário nacionalizar temporariamente alguns bancos para facilitar uma reestruturação rápida e ordenada” (leia a íntegra AQUI).

O futuro incerto dos bancos

Três observações de Krugman, ao concordar: “Primeiro, alguns dos grandes bancos estão perigosamente no limite – já teriam desmoronado se os investidores não esperassem a decisão do socorro. Segundo, os bancos têm de ser socorridos. O colapso do Lehman Brothers quase destruiu o sistema financeiro mundial e não podemos correr o risco de deixar que instituições muito maiores, como Citigroup ou Bank of America, implodam. Terceiro: embora bancos tenham de ser socorridos, o governo não pode se dar ao luxo, fiscal ou político, de dar presentes colossais aos acionistas de bancos”.

beck_glennApesar de sensato, Obama ainda parece distante de algo assim – ao menos por enquanto. É que a nacionalização dos bancos tem sido enfaticamente exorcizada a cada dia pelos republicanos e o presidente continua namorando o bipartidarismo. Mas Limbaugh e a Fox News – em especial a nova atração do império Murdoch, o destemperado Glenn Beck (foto ao lado) – redobram as denúncias veementes contra a “marcha para o socialismo” (saiba mais sobre “The Road to Socialism” na estapafúrdia explicação do próprio Beck AQUI).

Mesmo dedicando a maior parte do discurso à crise da economia, Obama deixou de responder com clareza a preocupações específicas sobre seu plano de socorro ao sistema bancário do país. Limitou-se a dizer que não tem a intenção de fornecer recursos sem impor condicionamentos. Deixou as opções em aberto, mas sua equipe tem sugerido que acredita em alguma forma de nacionalização.

(Abaixo, uma foto panorâmica do New York Times, onde o discurso pode ser acompanhado AQUI, com uma análise interativa)

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Published in: on fevereiro 25, 2009 at 1:39 pm  Comments (1)  

O Afeganistão e as raízes do império americano

IMF-WORLDBANK/A decisão do governo Obama de reforçar as tropas dos EUA no Afeganistão sugere uma volta ao tema do império americano. Nesse debate alguns chegaram a se referir com escrúpulo, há sete anos, à E-word (palavra E, Empire) ou à I-word (palavra I, Imperialism). Na ocasião alguns livro optaram ostensivamente, no título, pela expressão “Império Americano”. Andrew Bacevich, o autor de American Empire: The Realities & Consequences of U.S. Diplomacy (veja abaixo uma reprodução da capa), observou que cada vez mais a corrente central do pensamento no país reconhecia o papel imperial dos EUA.

A questão que “os americanos não podem mais se dar ao luxo de evitar não é se os EUA se tornaram potência imperial. A questão é que tipo de império pretendem que seja o deles”, escreveu Bacevich. Para ele, deixar de reconhecer o fato e tentar esconder a realidade imperial pode levar a “não só negar o império americano como a um grande perigo para aquilo que foi conhecido como república americana”.

Na fase inicial o debate era mais sobre a nova ordem mundial e o papel ampliado e novas responsabilidades globais dos EUA, devido ao fim da União Soviética. Foi nesse contexto que o neoconservador Paul Wolfowitz (número 2 do Pentágono entre 2001 e 2005, depois chefão do Banco Mundial até ser defenestrado por privilegiar a namorada) redigira em 1992 – para Dick Cheney, então secretário da Defesa – uma DPG (Orientação de Política de Defesa), documento interno de contornos imperiais (Wolfowitz é o da foto do alto, à direita, mas o mundo o conhece do documentário Farenheit 9/11, no qual passa cuspe no cabelo para pentear). Mas havia ainda os antecedentes históricos.

O fervor imperialista de Ted Roosevelt

empire_bacevichNo final do século XIX, depois de ter sido adicionado ao território dos EUA o que hoje são os estados do Texas, Novo México, Califórnia e Arizona, Theodore (Ted) Roosevelt defendeu a expansão colonial no Caribe, Ásia e Pacífico, rumo ao status de potência mundial. Jornalistas (Hearst e Pulitzer à frente, na feroz competição do yellow journalism), homens de negócios, banqueiros e políticos apaixonaram-se pela idéia.

No seu fervor imperialista, Roosevelt – herói e mito graças à sua “esplêndida guerrinha”, a tomada de Cuba – evocava Rudyard Kipling, o poeta do imperialismo britânico e do “fardo do homem branco”. Surgiram, quase à mesma época, as comparações com o Império Romano. “Somos uma grande República Imperial, destinada a exercer influência controladora sobre as ações da humanidade”, previra  Marse Henry Watterson em 1896.

Logo depois do 11 de setembro, outro neoconservador, Max Boot, ousou um puxão de orelha no secretário Donald Rumsfeld, por ter declarado que os EUA não buscavam império. “O problema é que isso não é verdade. Os EUA têm sido um império, desde pelo menos 1803, quando Thomas Jefferson comprou o território da Louisiana. (…) O império estendeu-se ao exterior, adquirindo colônias, de Porto Rico e Filipinas ao Havaí e Alasca”, escreveu (leia AQUI o artigo dele, publicado em 2001 na revista Weekly Standard, em defesa do imperialismo).

Do outro lado do espectro político, um historiador revisionista da fase aguda da guerra fria, William Appleman Williams (saiba mais AQUI sobre ele), teria concordado em parte. Ao constatar em 1980, uma década antes de sua morte, que as palavras “império” e “imperialismo” não encontravam “hospitalidade fácil nas mentes e corações da maioria dos americanos contemporâneos”, Williams lembrou não ter sido sempre assim.

Sinônimo do Sonho Americano

williams_empire“Império era comum no vocabulário dos americanos que fizeram a revolução contra a Grã Bretanha e no daqueles que conceberam e executaram o subsequente levante doméstico”, afirmou Williams. E mais: “Nossos Revolucionários e Pais Fundadores, conheciam as idéias, a linguagem e a realidade do império a partir do estudo deles da literatura clássica sobre a Grécia e Roma (e sobre a política em geral)”.

A palavra império, observou, era usada regularmente por eles nas conversas sobre a Inglaterra; e a empregavam cada vez mais ao falar da própria condição deles, de suas políticas e aspirações. Tornou-se, na verdade, sinônimo da realização do Sonho deles”. Para Williams (veja acima a capa de seu Empire as a Way of Life, republicado com introdução de Bacevich), as gerações posteriores é que se tornaram “menos francas sobre as atitudes e práticas imperiais, apoiando princípios nobres como ‘integridade territorial e administrativa’ e a meta de ‘salvar o mundo para a democracia’ – mesmo quando destruiam as culturas dos Primeiros Americanos, conquistavam a metade do México e expandiam incansavelmente o poderio de seu governo em todo o globo.”

williamsNa análise de Williams (foto ao lado), “império tornou-se tão intrinsicamente nosso sistema americano de vida que passamos a racionalizar e suprimir a natureza de nossos meios na euforia de nosso usufruto dos fins. Abundância era liberdade, e liberdade era abundância. A democrática Cidade na Colina. Daí projetarmos nosso imperium para o exterior, sobre os outros – declarados amigos ou então antagonistas malignos”.

Na visão daquele historiador, tal processo de reificação, de transformação das realidades da expansão, conquista e intervenção numa retórica de cunho religioso sobre virtude, riqueza e democracia, alcançou seu ponto culminante nas décadas seguintes à II Guerra Mundial. Ele se referiu aos “incontáveis documentos que monitoram o avanço de nosso auto-embuste imperial, nossa rendição à doutrina”.

Uma aberração na história do país

Segundo Williams, talvez o mais revelador, entre os muitos documentos, tenha sido um estudo conspículo do Conselho de Segurança Nacional feito (por Paul Nitze) em 1949-50 e conhecido como NSC-68 (conheça-o AQUI e saiba mais AQUI). “Ali os líderes dos EUA declararam o direito e a responsabilidade excepcionais de impor a ‘ordem entre as nações’, uma ordem da escolha deles, para que ‘nossa sociedade livre possa florescer'”.

tedroosevelt_cowboyA propósito das manifestações imperiais de Ted Roosevelt (veja ao lado sua caricatura da época, como cowboy) foi sintomático como historiadores ortodoxos, afinados com o pensamento dominante, distanciaram-se do entusiasmo de Watterson. Pouco condescendentes na crítica, viram aquele período imperialista como aberração na história de um país que oferecera ao mundo o exemplo da guerra da independência contra o domínio colonial britânico.

De qualquer forma, o fervor imperialista daquele primeiro Roosevelt (um dos presidentes mais amados pelas gerações seguintes, embora às vezes por razões mais nobres, pois era também o trust buster) foi retomado pelos neoconservadores (com a DPG) na agonia da guerra fria, ainda no período do primeiro Bush, quando a escola Cheney-Wolfowitz tinha o controle do Pentágono. A dupla não prevaleceu no primeiro momento, sob George Bush I, mas quase uma década depois, com Bush II.

O reforço de 17 mil soldados no Afeganistão, decidido pelo presidente Barack Obama, mostra no mínimo que o legado dos neocons permanece vivo – mesmo sem a presença deles no governo.

Published in: on fevereiro 21, 2009 at 12:57 am  Deixe um comentário  

Brasil, Venezuela e o governo Obama

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A foto acima dos presidentes Lula e Hugo Chávez – aparentemente feita na reunião do Fórum Social Mundial de Belém e distribuída pela agência Reuters – ilustrou a reportagem do Wall Street Journal sábado passado, dia 7, na qual era analisada a posição favorável do Brasil no quadro negativo da economia mundial (veja AQUI a foto e a íntegra em inglês do artigo, incluído na versão online às 10:04 h da noite anterior).

wsj_grafico_090206Blogs progressistas ou que confiam mais nos rumos da economia do país criticaram nos dias  seguintes o fato de ter nossa mídia golpista – sempre atenta na busca e diligente na amplificação dos textos de fora com previsões de efeitos catastróficoss da crise internacional que ainda irão golpear o Brasil – ignorado aquela avaliação publicada no Journal de sábado, 7 de fevereiro, que ainda incluía o gráfico ao lado, com dados do FMI, explicando porque  o Brasil ficará melhor do que os outros.

A impaciência dos blogueiros é compreensível: enquanto nossos jornalões, revistonas e redes campeãs de audiência faziam questão de ignorar o artigo do Journal, até a Câmara de Comércio Brasileiro-Americana (Brazilian-American Chamber of Commerce), ao fazer a convocação em Nova York (leia AQUI) para sua “2009 Brazil Summit”, a ser realizada a 27 de abril no Hotel Pierre, usou como epígrafe estas frases do jornal tido como a bíblia de Wall Street:

“Embora a economia brasileira rica em commodities, 10ª maior do mundo, deva ser afetada pelo declínio mundial, espera-se que tenha conduta melhor do que a maioria, mantendo crescimento enquanto EUA, Europa e Japão contraem, conforme previsão de economistas (…). O poder penetrante da diplomacia do Brasil é desdobramento benvindo para os formuladores da política externa dos EUA”.

A força da economia – e as intrigas

Até o título do artigo pode matar de inveja os tecnocratas sobreviventes do “Brasil Grande” do ditador Médici e os tucano-demo-pefelês de FHC: “Economia alimenta ambições do Brasil além da América do Sul”. E embora o Journal o tenha publicado sob a rubrica “Negócios”, a análise estava no contexto da política externa – o governo Obama e o salto do Brasil, a partir da economia, com seu novo papel no mundo.

É sintomático esse reconhecimento vir do Journal, publicado pela Dow Jones, hoje parte do império Murdoch de mídia. Até porque grupos de reflexão mais à esquerda que debatem questões latino-americanas, como o COHA (Council on Hemispheric Affairs) de Washington (conheça AQUI sua expectativa sobre Obama e a América Latina), há muito dizem a mesma coisa e insistem em escancarar o erro da ênfase dos EUA ao usar a Colômbia como ponta de lança na América do Sul.

O texto do Journal (assinado por John Lyons, de São Paulo; e com colaboração de Peter Millard, do México) começou assim: “Nos anos seguintes aos ataques terroristas, com o foco da política externa dos EUA desviado para o Oriente Médio, o Brasil e a Venezuela disputavam a posição de substituto dos EUA como principal negociador (a expressão usada foi chief broker) nos assuntos do hemisfério. Agora a queda dos preços do petróleo aponta o vencedor: o Brasil”.

Provavelmente não foi coincidência John Lyons ter passado pela Venezuela, onde acompanhou a eleição de novembro, antes de viajar a São Paulo e escrever aquele texto. Desnecessário reconhecer que ele escorregou, para variar, na imagem caricata disseminada na imprensa dos EUA, ao reduzir o papel de Hugo Chávez no continente apenas à “diplomacia do talão do cheque praticada pela Venezuela”.

Contrapeso à influência de Chávez?

Mas Lyons pareceu preciso ao assinalar que “as fontes da influência brasileira são mais diversificadas e menos vulneráveis às intempéries econômicas”. Daí a observação de que os formuladores da política externa dos EUA deviam dar as boas vindas à capacidade diplomática “penetrante” do Brasil. Também o governo Bush já via o Brasil como contrapeso relevante à influência venezuelana, ainda que incapaz de ousar alguma proposta (ou nova intriga) a partir disso.

amorim_celsoNesse quadro, como deixar de admirar a competência da diplomacia brasileira, sob a liderança do chanceler Celso Amorim (foto ao lado), ao usar o prestígio e a imagem do presidente Lula e, paralelamente, os êxitos inegáveis de nossa economia? Note-se que aí aparecem os alvos obsessivos da mídia golpista do país, tanto nos destemperados ataques cotidianos (Amorim virou permanente saco de pancada), como na obstinação da escolha daquilo que publica e daquilo que esconde.

Citando Michael Shifter, do Diálogo Latino-Americano, o Journal destacou que a cooperação com o Brasil é crucial para qualquer progresso na agenda hemisférica. “Maior exportador mundial de minério, carne, galinha, açúcar e café, o Brasil e seu carismático presidente Luiz Inácio Lula da Silva podem ajudar os EUA a reparar na região sua imagem gravemente danificada pelo governo Bush”.

A diplomacia brasileira deixou claro, em episódios como o do ataque da Colômbia (apoiada por Bush) ao Equador, que repudia o velho jogo americano no continente. Ao mesmo tempo, o presidente Lula tem feito questão de ignorar as pressões e intrigas dos EUA, com o respaldo de nossa mídia golpista, na ânsia de lançá-lo contra Chávez e  de envolver o Brasil na aventura de Álvaro Uribe e seu sonho maluco de ser Israel na América do Sul.

A herança de Bush e Otto Reich

Muita gente queixou-se de que durante a campanha presidencial Obama ignorou o continente. A escolha da secretária de Estado, uma Hillary Clinton voltada para outras áreas, pouco ajuda representou em favor de uma mudança no quadro deixado por Bush, da versão americana da ALCA às escaramuças com Chávez – posições que, não por acaso, encantam a mídia. Mesmo assim o Brasil está agora em melhor posição para defender um diálogo franco.

shannon_thomasO que Shifter disse pode parecer óbvio, até em razão da descoberta recente dos novos campos de petróleo pela Petrobrás num momento em que declinavam na Venezuela os investimentos no setor petrolífero. Mas estará o Departamento de Estado preparado? Permanece no cargo o secretário Assistente para o Hemisfério Ocidental, Thomas A. Shannon Jr. (foto ao lado) agora subordinado ao novo sub-secretário para Assuntos Políticos, William J. Burns – ambos diplomatas de carreira.

Para a América Latina, soa como continuidade, não mudança. Shannon (leia AQUI sua biografia oficial) serviu nas embaixadas do Brasil (1989-92) e da Venezuela (1996-99), depois integrou o Conselho de Segurança Nacional na Casa Branca (governo Clinton), como diretor de Assuntos Interamericanos (1999-2000), foi embaixador alterno na OEA (2000-2001) e era adjunto do infame Otto Reich, ex-secretário Assistente que encorajou e gerenciou para Bush o fracassado golpe contra Chávez na Venezuela em 2003 (saiba mais AQUI sobre o golpe que teve a sua marca e AQUI sobre a carreira controvertida que o envolveu até no escândalo Irã-Contras).otto_reich

Como o ideológico Reich (foto à direita) viera do lobby cubano (nomeação política de Bush, no recesso do Congresso, para fugir do voto no Senado, onde havia o risco de rejeição), há razoável diferença entre os dois. Mesmo levando em conta que a mudança terá de ser decisão de cima e não da burocracia, ainda é um início pouco alentador para o continente. O telefonema do próprio Obama a Lula seria o fato positivo, mas até isso ainda espera versão definitiva, capaz de alimentar alguma esperança.

Published in: on fevereiro 13, 2009 at 11:14 am  Comments (5)  

A cena patética da medalha de Tony Blair

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A condecoração que Tony Blair recebeu a 13 de janeiro de George W. Bush (acima, a foto da Casa Branca), cujas guerras apoiou, é a “Medalha da Liberdade”. Eu tiraria as aspas para citar alguns que a ganharam por merecimento no passado: Doris Day, Lucille Ball, John Ford, James Cagney, Audrey Hepburn, se nos limitarmos a simpáticas celebridades do cinema. Mas junto com elas, há hoje gente desprezível de diferentes áreas (veja a lista AQUI – até Vernon Walters está lá).

Em janeiro Blair somou-se aos piores, ao lado de John Howard, ex-premier da Austrália, e Álvaro Uribe, presidente colombiano. O que Bush premiou, assim,  foi a submissão deles aos EUA. Blair e Howard – como o espanhol José Maria Aznar, estranhamente esquecido por Bush – apoiaram a invasão do Iraque.uribe_alvaro Quanto a Uribe (foto ao lado), mantém tropas americanas na Colômbia e sonha torná-la “a Israel da América do Sul”.

Blair era caso à parte por ter colocado acima de tudo as “relações especiais” entre Washington e Londres, consideradas pelo jornal conservador britânico Daily Telegraph “apenas um mito”. Em 2006, o correspondente desse jornal nos EUA, Toby Harnden, citou a avaliação feita por Kendall Myers (leia AQUI e saiba mais AQUI), um alto conselheiro do Departamento de Estado, sobre o papel britânico na guerra do Iraque.

O exemplo dos conservadores

No Brasil, a mídia golpista sonha com a submissão aos EUA – no caso do debate da ALCA ou em qualquer situação. E o que conseguiu Blair com o apoio à aventura bélica de Bush? Para Myers, que servia no Bureau de Análises e Pesquisas do Departamento de Estado, “absolutamente nada”. Isso foi o que expôs em palestra feita em 2006 na Escola de Estudos Internacionais Avançados, da Universidade John Hopkins, em Washington.

O tema da conferência era “Quão especiais são as relações EUA-Grã Bretanha?” O analista explicou que os trabalhistas já deviam há muito ter defenestrado Blair da liderança partidária, mas não tiveram “coragem e audácia”. Blair sairia meses depois. Estava com a imagem no fundo do poço e o teatrólogo Harold Pinter, ao receber o prêmio Nobel, pedira seu julgamento por crimes de guerra (leia AQUI e saiba mais AQUI sobre a acusação). É um debate provocativo por causa das posições dos conservadores europeus sobre o relacionamento de seus países com o Império Americano.

A oposição conservadora britânica, mesmo evitando envolver-se, manteve certa distância da desastrosa política de Blair. E nas Nações Unidas a França de Jacques Chirac, então presidente, foi decisiva para o repúdio no Conselho de Segurança do belicismo de Bush. Mas no Brasil, uma ousadia assim assusta a mídia corporativa e os principais aliados dela, tucanos e demo-pefelês.

bustani_josemauricioEx-ministros de FHC, Luiz Felipe Lampréia e Celso Lafer parecem, ao contrário, adeptos da submissão a qualquer custo (inclusive tirar os sapatos no aeroporto, ao invés de atirá-los em certo presidente). A ponto de ter o Itamaraty, sob pressão de Washington, tentado forçar José Maurício Bustani (foto ao lado), como embaixador licenciado do Itamaraty, a deixar a direção da OPAQ, a organização da ONU dedicada a fiscalizar a proibição de armas químicas, da qual era diretor em segundo mandato, eleito pela unanimidade dos países-membros (saiba mais AQUI sobre o caso). 

Tudo de graça, nada em troca

A direita brasileira tem sempre, decorada, a desculpa de que o melhor é nunca aproximar-se de países às turras com os EUA – Venezuela, Cuba, Bolívia, etc. O pretexto é de que eles nada têm a nos oferecer e, ao mesmo tempo, podem prejudicar nossas boas relações econômicas com o mercado americano. Parece uma gente nostálgica da velha receita do alinhamento automático no tempo da guerra fria.

rumsfeldConservadores britânicos e europeus em geral costumam ser mais realistas, apesar da “Nova Europa” – a dos ex-satélites da Rússia, que encantavam Donald Rumsfeld (foto). Coube a este criar a expressão, quando ainda era o chefão do Pentágono, num eforço para diminuir França e Alemanha, que ousavam resistir na ONU à guerra de Bush. Mas Rumsfeld foi dos primeiros a cair do cavalo – por causa da guerra.

Um mínimo de dignidade na política externa, ao contrário do que o governo FHC pensava, é como canja de galinha – se não fizer bem, mal não faz. Para o Telegraph, o líder conservador David Cameron foi astuto e engenhoso ao se distanciar do governo Bush, ainda que a expressão “relações especiais” tenha sido cunhada (há mais de 60 anos, claro) por um conservador ilustre, Sir Winston Churchill.

Na sua análise franca, o americano Kendall Myers observou ainda que desde o começo aquelas “relações” foram benéficas apenas aos EUA. E qual seria a lição maior da guerra de Bush para o relacionamento futuro? Os chefes de governo em Londres na certa tentarão ser menos próximos dos EUA do que Blair (antes da invasão, aliás, Rumsfeld esnobou Blair, dizendo que poderia fazer a guerra sem a Grã Bretanha).

Como Wilson enganou os EUA

Myers confessou que se sentia “um pouco envergonhado e triste por termos tratado Blair daquela forma. Ele nada obteve em troca – nenhum tipo de compensação. Não houve reciprocidade naquela relação”.wilson_harold Durante a guerra do Vietnã, acrescentou, o trabalhista Harold Wilson (foto ao lado) soube como fazer, “foi mais inteligente do que Blair, procurando nos enganar”.

Segundo Myers, a esperteza de Wilson (que o caçador de espiões James Angleton, da CIA, suspeitava ser agente russo) consistiu em “soar bem, mas não fazer rigorosamente nada” – o oposto de Blair, que se deixou envolver e acabou atolado na aventura como um poodle de Bush. Mesmo mais articulado do que Bush, Blair cometeu erro catastrófico ao ignorar a experiência britânica na Mesopotâmia. “Sua formação é de ator, não de historiador. Se tivesse lido algum livro sobre a década de 1920, teria ao menos hesitado”.

medal_of_freedomO Iraque tornou-se estado-nação em 1920, depois de extraído do império otomano por franceses e ingleses, e de virar uma sangrenta “lambança mesopotâmica” –  definição que Myers atribui a Churchill. No Oriente Médio os EUA, “além de não terem feito o que queriamos no Iraque, ainda prejudicaram grandemente nossas relações com outros”. O Iraque virou tema dominante entre as questões bilaterais e Blair foi incapaz de conseguir qualquer coisa de Bush em troca. A não ser, claro, aquela medalha (a da foto acima). 

Published in: on fevereiro 3, 2009 at 5:25 pm  Comments (1)