Obama, McCain e os boatos mais sórdidos

O Politico.com, um website que cobre muito bem a campanha presidencial de 2008 e a política dos EUA (leia AQUI), fez um balanço dos rumores levianos contra os dois candidatos na Internet. E que levam pessoas – algumas, talvez de boa fé, mas muitas apenas empenhadas em iludir outros através de jogo sujo – a reclamar a atenção da mídia em geral para aqueles boatos.

A vítima mais frequente das intrigas e esforços sórdidos de difamação, claro, é o democrata Barack Obama, mas também John McCain é alvo de ataques. Na reta final da campanha, nos últimos dias, o esforço subterrâneo redobrou. E leitores cobram informações dos jornais e outros veículos, em especial da TV. Às vezes o leitor exagera na queixa, exigindo a cobertura, a pretexto de que os boatos não podem ser ignorados.

Veículos como a rede de cabo Fox News, conservadora e favorável à disseminação de boatos lançados claramente para denegrir Obama, não esconde o desejo de ver o democrata despencar da liderança nas pesquisas. Mas o Politico.com revelou a informação supreendente de que esse canal, do império Murdoch de mídia, julgou “absolutamente falso” pelo menos um boato difamatório, iniciado com a capa em julho da revista New Yorker (veja à direita), de que Michelle Obama fora radical raivosa contra os brancos.

O ativismo conservador religioso

Alguém que tenha acompanhado a total irresponsabilidade da grande mídia do Brasil (organizações Globo, Veja, Estadão & cia.) durante a campanha presidencial de 2006, quando os veículos acabaram humilhados por causa da obsessão de mudar a tendência do eleitorado e impedir a reeleição do presidente Lula, poderia estranhar que veículos dos EUA não sejam tão levianos na cobertura eleitoral.

Curiosamente, um brasileiro que escreve para jornais do Rio e São Paulo está em processo de assimilação pela direita religiosa dos EUA através de um “ativista conservador cristão”. E envia regularmente ataques à mídia, dos dois países, por omitir os boatos suspeitos. Ao mesmo tempo, veicula – ele próprio – os rumores selvagens que a mídia americana rejeita como maluquice sem pé nem cabeça.

Não por coincidência, claro, também abraça com entusiasmo baboseiras que fazem a festa no submundo dos talk shows de rádio, onde as falsidades são veiculadas com aparência de verdades eternas. A essa gente referia-se o Politico.com no texto publicado agora – um balanço do que chamou de “os mais sórdidos rumores” da campanha de 2008, sobre os quais seus leitores têm perguntado e pedem mais informações.

A certidão de nascimento de Obama

Em matéria de sordidez, o boato que deixa longe todos os outros continua a ser o da certidão de nascimento de Obama. Primeiro alegou-se que o candidato não tinha a tal certidão. Depois que o documento foi exposto no website do candidato, mostrando que ele de fato nasceu no Havaí, onde morava a mãe, americana branca, e o pai, negro do Quênia, adaptou-se o rumor. E em seguida passou-se ao novo ataque, com a denúncia de que a certidão é falsa.

Para ser presidente dos EUA, não basta ser americano: é preciso ter nascido no país. E os boateiros juram que Obama nasceu no Quênia. O rumor já circulava, durante as primárias, em blogs que apoiavam Hillary Clinton. Agora existe até uma ação judicial, na Filadélfia, iniciada pelo advogado Philip Berg – o mesmo que, depois do 11/9, tinha denunciado o governo Bush como cúmplice da ação terrorista no World Trade Center.

O Politico.com citou o website Annenberg Political Fact Check (confira AQUI), que reuniu provas da autenticidade da certidão de nascimento – documentação farta e até ampliações dos detalhes. Não há qualquer dúvida, mas Berg disse há seis dias, no talk show do extremista de direita Michael Savage, que “em um ou dois dias” mostraria gravação na qual a avó queniana de Obama jura ter ele nascido num hospital do Quênia. Ao menos por enquanto a tal fita não apareceu.

O caso Odinga e outros boatos

A Jerome Corsi (veja-o ao lado, na tela da Fox News), autor de um dos livros escritos para difamar Obama (depois de ter feito o mesmo com John Kerry em 2004, em outro livro), é atribuído o boato de que o atual premier do Quênia, Raila Odinga, que se diz primo distante do candidato, teve apoio de Obama para chegar ao cargo. Na versão de Corsi, os dois conspiraram ainda para “impor a lei islâmica no Quênia” – o que não faz sentido, pois ambos são cristãos (Odinga é anglicano).

Boatos envolvendo McCain estão longe de ter a mesma gravidade. Um deles refere-se a suposto palavrão ofensivo que ele teria dito em 1992, referindo-se à esposa Cindy – e citado depois pela revista Vanity Fair. Na mesma linha, falou-se de conduta imprópria e insultos de McCain a turistas certa vez em Fiji. Mesmo se fossem boatos com fundamento, o que não é o caso, parece coisa sem maior relevância.

O boato que poderia ser mais sério – mas foi considerado falso pelo mesmo FactCheck que investigou a certidão de nascimento de Obama – referia-se à suspeita de conduta irresponsável de McCain como piloto, que teria causado um acidente grave. Não há qualquer prova de que seja verdade. Se fosse o caso, não passaria de um excesso como tantos que ocorrem com pilotos jovens. E, afinal, acidentes acontecem.

Published in: on outubro 31, 2008 at 10:45 pm  Comments (36)  

Tim Russert e as mentiras de Bush

Poucas semanas antes do primeiro aniversário, em 2004, da invasão do Iraque pelas tropas dos EUA, o presidente George W. Bush decidiu dar uma entrevista à televisão – e escolheu o “Meet the Press” da rede NBC, então o programa político de maior audiência nas manhãs de domingo. Mas o apresentador Tim Russert, então o mais bem preparado perguntador da TV, preciso e minucioso, não se deixou intimidar pela solenidade do gabinete Oval do presidente, na Casa Branca.

O entrevistador tocou cada ponto crítico, até as dúvidas sobre o serviço militar de Bush e o gigantesco déficit orçamentário (leia a íntegra AQUI). O entrevistado refugiou-se num amontoado de slogans vazios, como os que naqueles dias o presidente repetia nas escalas da campanha eleitoral. Disse dezenas de vezes que Saddam Hussein era “um louco”, “um homem perigoso”, “uma ameaça”. Para a proteção do povo americano, tinha de ser derrubado – garantiu.

Até então mais de 500 soldados americanos já tinham sido mortos, parte inicial do sacrifício imposto pela aventura bélica de Bush – cujo custo em vidas de militares dos EUA eleva-se hoje a 4200, fora as contagens oficial (30.764) e não oficial (100 mil) dos feridos (sem falar nas centenas de milhares de civis iraqueanos que morreram, ficaram feridos ou tiveram de fugir de casa e até do país). O Congresso dos EUA não tinha autorizado o uso da força por achar Saddam “louco” e sim por causa do pretexto falso invocado por Bush – a mentira das ADM (armas de destruição em massa). Russert perguntou se os EUA pretendiam continuar derrubando ditadores “loucos” pelo mundo – e ouviu mais slogans.

O prazo eleitoral de uma comissão

Russert (foto) morreu em junho deste ano de 2008 (saiba mais sobre ele AQUI). Aquela fora uma de suas melhores entrevistas. Ao perguntar, por exemplo, porque o ditador não usara as célebres ADM para defender o país da invasão – e porque até então centenas de investigadores da CIA, chefiados por David Kay, não tinham encontrado uma só das tais armas – vieram desculpas: “Era a informação de inteligência disponível”, “Saddam era louco, capaz de tudo”.

Como as perguntas foram mais importantes do que as respostas, vale a pena recordar algumas. Russert lembrou, por exemplo, que Tony Blair, na Inglaterra, também nomeara uma comissão independente para investigar o fracasso da inteligência britânica sobre as ADM. Mas o prazo que fixara tinha sido julho de 2003. Por que o de Bush era março de 2005? Para evitar um relatório delicado antes da eleição de 2004?

Apesar de óbvio, veio a negativa. Depois, nova pergunta: a comissão “independente” de Kay, escolhida por Bush, dirá ao país e ao mundo se houve manipulação e exageros quando o presidente, seu vice Cheney, os secretários de Estado e da Defesa e o governo inteiro alegavam haver provas das ADM? O presidente dispõe-se a depor na comissão? Não. Também não depusera antes na comissão sobre as falhas que precederam o 11 de setembro.

A garantia dele de que o diretor da CIA era competente, fizera um bom trabalho e ficaria no emprego era previsível depois de um recado de George Tenet, dias antes, na Universidade de Georgetown. Tenet avisara que a comunidade de inteligência não aceitava ser bode expiatório (ele se demitiria pouco depois). Seus analistas divergiram de posições de altas autoridades, não viam ameaça iminente e sabiam bem que Saddam estava muito longe de uma arma nuclear (ao contrário do que Bush e Cheney diziam).

Fugindo a um papel central da ONU

O presidente admitiu então que as ADM não iam aparecer. A partir daquele dia passou a dizer que não tinha certeza se existiam, nem sequer se havia “programas de armas” como alegara antes. A nova desculpa: Saddam tinha “a capacidade” e “a habilidade” para fazê-las. Veio a ginástica mental para justificar a guerra preventiva, “Fui à ONU, mostrei provas. Foi aprovada resolução unânime prometendo consequências graves”, afirmou o presidente.

Bush esquecera os detalhes: as provas dele eram fraudadas, por isso a ONU optou por continuar as inspeções. E ante a resistência, os EUA deixaram a ONU de lado. Num desafio ao mundo, optaram pela guerra – a pretexto das armas inexistentes. Já que elas eram só fantasia e invencionice, Bush recorreu ao seu arsenal de palavras: repetiu 23 vezes os adjetivos madman (louco) e dangerous (perigoso), referindo-se a Saddam; e 18 vezes falou da threat (ameaça) que ele representava. A retórica substituia os fatos. E a salada era temperada depois com promessa de democracia e liberdade no Iraque (mas o que viria era mais banho de sangue).

Russert voltava às perguntas. E se o Iraque escolher um regime islâmico radical, fundamentalista? Resposta de Bush: “Não vão fazer isso, conversei com os membros do Conselho de Governo, vão dar direitos às minorias”. O tal Conselho fora criado pelas autoridades de ocupação dos EUA, os membros eram escolhidos a dedo pelos invasores. E o regime já inventava uma votação indireta para não prevalecer a vontade da maioria.

Estava claro que nem o rotundo fracasso no pos-guerra convencera Bush a dar um papel central à ONU no processo, mesmo tendo implorado a Kofi Annan para voltar ao Iraque depois do atentado que matara o brasileiro Sérgio Vieira de Mello (foto) e mais 22 integrantes da missão das Nações Unidas em Bagdá. Quando o entrevistador perguntou se a organização mundial teria “papel central” a resposta enganosa falou em “papel vital”. Russert insistiu: “Papel central?” Bush afinal admitiu haver uma diferença. E alegou ser importante o “papel vital” (já que “central” era o controle da tropa invasora).

Chamado de Deus ou da História

Pouco ou nada mudara. Bush não recuou um milímetro. Estava errado sobre as armas proibidas, estava errado ao dizer que as tropas seriam recebidas como “libertadoras” e não “invasoras”, estava errado ao declarar pomposamente o fim das grandes operações militares, estava errado no Conselho de Segurança, estava errado ao considerar a ONU irrelevante. Mas persistia gloriosamente nos erros.

Russert lembrou que em 2000 Bush prometera unir e não dividir o país. E cada  vez era maior o ódio a ele nos EUA. Respondeu com uma lenga-lenga, culpando os adversários e alegando que o mundo agradecia sua liderança. “Não é o que mostram pesquisas na Europa, em especial França e Alemanha. Nossa imagem nunca esteve tão mal”, lembrou Russert. E Bush: “Não sei porque. E não acredito em pesquisa”. Dois dias depois de transmitida, a entrevista motivaria uma dura crítica a Bush no editorial do New York Times (leia AQUI).

O entrevistador (foto) também lembrou Bush que no Iraque ele estava fazendo exatamente aquilo que tinha repudiado na campanha eleitoral de 2000 – nation building, reconstrução de país. O presidente alegou ser diferente porque levaria liberdade e democracia, para mudar o Oriente Médio. “Um Iraque livre vai mudar o mundo”. Faltou declarar que a invasão fora feita por convocação divina. Mas Bush ficou perto disso: “Recebi um chamado da História e aceitei”.

Published in: on outubro 30, 2008 at 11:28 pm  Comments (2)  

O exemplo de Truman que encanta McCain

Uma reportagem do Washington Post especulou ontem sobre perguntas que atormentam os dois candidatos presidenciais dos EUA, o eleitorado do país e muita gente mais pelo mundo afora (leia a íntegra AQUI). Os dados apurados nas numerosas pesquisas (nunca houve tantas, para uma eleição, como agora) estarão realmente corretos? Ou elas podem estar erradas?

Como todas as pesquisas são desfavoráveis ao candidato republicano, parece natural a campanha de John McCain e seus aliados acharem que estão erradas. “Nós acreditamos que é uma disputa muito apertada e, com franqueza, achamos que podemos vencer”, disse ao Post a diretora de estratégia da campanha republicana, Sarah Simmons.

McCain e sua gente sugerem até que o país está a caminho de uma nova versão da reviravolta de 1948, só que com o candidato republicano no papel desempenhado naquele ano pelo presidente democrata Harry Truman. Dado como sem chance na véspera da eleição daquele ano, Truman festejou a vitória no dia seguinte rindo do Chicago Daily Tribune, que noticiava em manchete a derrota dele (veja a foto do alto).

O presidente que nada sabia

Mas 60 anos fazem muita diferença. As técnicas de pesquisa evoluiram e o quadro político é outro, completamente distinto. Como vice de Franklin Roosevelt, Truman assumiu em seguida à sua morte, em abril de 1945, a dias do final da guerra na Europa. Obscuro, discreto, quieto, sequer tinha sido informado pelo presidente sobre a bomba atômica que estava sendo construída e seria testada em julho. Quando decidiu candidatar-se à reeleição, Truman ainda viu seu Partido Democrata ser despedaçado.

À esquerda, Henry Wallace (veja abaixo a capa de uma biografia dele lançada recentemente – e saiba mais sobre o livro AQUI), que fora vice de Roosevelt antes dele, lançou-se pelo pequeno Partido Progressista, como herdeiro legítimo do New Deal. E à direita o segregacionista Strom Thurmond criou o Partido dos Direitos dos Estados para tirar votos de Truman no sul racista. Tudo aquilo ajudava Tom Dewey, o pupular governador republicano de Nova York. A eleição dele parecia mera formalidade.

Mas Truman cresceu à sombra da guerra fria. O endurecimento na política externa, com sua doutrina Truman e o plano Marshall, depois de ter usado a bomba atômica contra Hiroshima e Nagasaki, deu a ele estatura presidencial. A campanha de Wallace tinha começado forte, mas acabou prejudicada pelo apoio comunista. O agravamento da situação internacional envenenou a imagem rooseveltiana. As técnicas de pesquisa podem ter sido insuficientes na época para acompanhar tantas mudanças.

A incrível vantagem que encolheu

Este ano, num curto espaço de semanas, foram feitas mais de 170 pesquisas. E desde a primeira quinzena de setembro, praticamente nenhuma aponta vantagem real para o republicano McCain. Obama passou a ganhar em todas elas. Só que a vantagem tem sido irregular. Atualmente varia entre dois (como medido pela Gallup ontem, para votantes prováveis) e 15 pontos percentuais.

A última pesquisa do Washington Post com a rede ABC de televisão registrou sete pontos percentuais de vantagem para o democrata, 52% a 45%. Mas a campanha de McCain, segundo o Post, alega que as pesquisas com vantagens maiores para Obama presumem que o comparecimento dos eleitores jovens e dos negros será desproporcionalmente elevado – e não contam com um grande comparecimento dos republicanos.

Se isso for verdade, as pesquisas de fato poderão ser atropeladas. Mas é difícil acreditar na hipótese, já que há tantas organizações especializadas envolvidas. E existe ainda outro lado nesse trabalho. O Post citou a pergunta que o ex-secretário da Defesa Donald Rumsfeld costuma fazer em contexto diferente: “quais os ‘desconhecidos não conhecidos’ sobre a pesquisa este ano?”

Por exemplo, as pessoas este ano que não respondem aos entrevistadores inclinam-se mais para os republicanos? Talvez elas queiram esconder do entrevistador que não votarão em Obama, nome da moda. Assim, a pesquisa estaria subestimando votos favoráveis a McCain. Ao falar disso, Steven Schier, cientista político do Carleton College de Minnesota, disse ao jornal haver 25% de chance de ser a eleição apertada e poder ser vencida por McCain.

A decisão no Colégio Eleitoral

Outros especialistas também vêem a possibilidade de uma grande surpresa à última hora. E embora o chamado “efeito Bradley” não esteja sendo muito  discutido publicamente (para alguns, há explicações mais sofisticadas, que o aceitam sem lhe dar o peso antribuído antes) ele nunca chega a ser totalmente desprezado, nem na campanha de Obama.

Em meio a tudo isso, analistas ainda têm de considerar que as pesquisas de âmbito nacional são prejudicadas pelo fato de não ser a eleição decidida pela votação popular e sim pelo Colégio Eleitoral. O que as pesquisas avaliam diariamente, a não ser quando limitadas a estados, é uma votação que não apontará o vencedor.

Nas estimativas sobre o Colégio Eleitoral, expostas todo dia em vários websites (entre eles os da CNN, do Los Angeles Times e do Politico.com), a vantagem de Obama parece maior do que nas pesquisas da votação popular. Ontem, o Los Angeles Times dava 318 votos para Obama, 174 para McCain e 46 ainda não definidos; a CNN, 286 Obama, 163 McCain e 89 não definidos. E o Politico.com, 375 Obama, 163 McCain e 141 indecisos.

Em dois dos três mapas dos estados Obama ultrapassa 270 votos – número mágico da vitória. Mas McCain precisa ganhar todos os estados indefinidos e ainda tomar alguns “inclinados para Obama”. Parece vitória certa de Obama no Colégio Eleitoral. A menos que venha uma onda – ou tsunami – nos próximos dias, capaz de mudar tudo. Não que seja impossível. Mas haveria mais fatores a considerar, inclusive o detalhe de que 18% dos eleitores já votaram.

(Veja a reprodução, abaixo, da histórica primeira página do Chicago Tribune, em 1948, com a qual McCain sonha).

Published in: on outubro 29, 2008 at 10:40 pm  Deixe um comentário  

Obama e os extremistas dos “talk shows”

Um dos problemas da política nos EUA é que o extremismo de direita continua a ser encarado como parte do pensamento de centro. Ninguém se horroriza com isso, da mesma forma como o resto do país não se horrorizava quando o racismo sulista, no século seguinte à derrota da Confederação na Guerra Civil, mantinha a segregação e enviava cartões postais ao norte mostrando os linchamentos de negros.

Participantes das turbas linchadoras fotografavam aqueles assassinatos públicos de negros e freqüentemente faziam fotos dos eventos macabros. Depois, davam-se ao luxo de disseminar suas fotografias com orgulho. Boa parte delas sobrevive e muitas foram reunidas pelo escritor James Allen (com a colaboração do deputado John Lewis e outros) no livro Without Sanctuary: Photographs and Postcards of Lynching in America (Sem Santuário: Fotografias e Cartões Postais de Linchamentos na América).

Como o título indica, é uma coleção reveladora neste ano de eleição presidencial em que um negro pode chegar à Casa Branca (veja uma das fotos ao lado e saiba mais AQUI, onde há ainda uma galeria de mais cartões e fotos). Funciona como um retrato de corpo inteiro do racismo americano depois de uma guerra que, suposta e oficialmente, tinha acabado com o racismo e libertado os negros da escravidão. No norte dos EUA havia os que se indignavam com os cartões mas nem por isso políticos do sul deixavam de legislar no Capitólio, governar nos gabinetes executivos e fazer justiça nos tribunais.

A voz dos radicais no rádio

Minha impressão é de que o estado de espírito daquelas pessoas que faziam e distribuíam fotos e cartões postais, usando o Correio nacional, não era diferente daqueles que insistem hoje na pregação do ódio racial, frequentemente através de talk shows celebrizados pelo baixo nível e transmitidos a todo o país por cadeias radiofônicas – como é o caso dos notórios Rush Limbaugh, Bob Grant, Michael Savage, Sean Hannity, C. Gordon Liddy e outros.

Alguém pode até pensar que essa gente, por causa do extremismo, é ignorada. Mas John McCain, herói deles, aplaude os programas, às vezes dá entrevista exclusiva a tais personagens – o que já fez, por exemplo, com Liddy, criminoso condenado no escândalo de Watergate (“ele já cumpriu sua pena na prisão”, justificou o candidato). Todos exaltam as virtudes superiores de McCain e difamam o democrata Barack Obama – como mentiroso, terrorista, comunista, etc.

Obcecado em derrotar Obama, Limbaugh (foto ao lado – e conheça sua página na Internet AQUI) já tinha feito o máximo para levantar nas primárias a campanha de Hillary Clinton. Chegou ao extremo de conclamar republicanos a deixarem de lado as primárias do próprio partido e votarem na dos democratas naqueles estados onde isso era permitido (alguns estados proibem que o eleitor de um partido vote na primária do outro). Depois vangloriou-se de ter criado o caos no partido adversário.

Considerado o rei dos talk shows de rádio, Limbaugh agora acusa o candidato democrata de ser antipatriota por ter, em 2001, rejeitado frontalmente, durante um debate na televisão, a Constituição dos EUA. “Ele não gosta da Constituição, por isso acha que é cheia de falhas. Agora entendo porque reluta tanto em usar a bandeira americana na lapela”, afirmou o apresentador em seu programa de 27 de outubro.

A Constituição e suas falhas

A certa altura, Limbaugh fez esta afirmação: “Não entendo como Obama fará o juramento (presidencial) já que é contra a Constituição”. Só que a tal rejeição nunca aconteceu, conforme explicou a organização Media Matters for America, que monitora a mídia (saiba mais AQUI). Obama observara, como estudioso da carta, que ela “refletia uma falha fundamental neste país que perdura até hoje”. Mas dissera também ser a Constituição “um extraordinário documento político que pavimentou o caminho para o que somos hoje”.

As declarações de Obama foram num programa da TV pública de Chicago, há sete anos, sobre “a escravidão e a Constituição” (tema tratado num post recente deste blog). O Media Matters destacou que a “falha fundamental” da carta em relação ao tema, citada por Obama, é admitida até por republicanos como o presidente George W. Bush, a secretária de Estado Condoleezza Rice e o antecessor dela Colin Powell e até o atual presidente da Suprema Corte, o conservador John Roberts.

Rice disse recentemente: “Na nossa primeira Constituição, meus ancestrais eram três quintos de um homem. O que diz isso sobre a democracia americana em seu começo? Tenho dito que é um grave defeito de nascença. E temos de derrotar tal falha, pois continua a ter impacto sobre nós. É por isso que temos tanta dificuldade em falar sobre raça e tratar do tema racial”.

Em 2003 Powell declarou a Larry King na CNN: “Levou um tempo para reconhecermos que não poderíamos viver plenamente nossa Constituição a menos que eliminássemos a escravidão. Centenas de milhares de jovens lutaram uma guerra civil para pôr fim à escravidão. Depois, ainda levamos muito tempo para nos livrarmos dos vestígios da escravidão. E até hoje continuamos a trabalhar nesse sentido”.

A amargura de outros tempos

Também em 2003, Bush (veja-o abaixo com Roberts, nomeado por ele) disse no Senegal que a “visão moral” dos abolicionistas “levou os americanos a examinarem seus corações para corrigir nossa Constituição e ensinar nossos filhos a dignidade e a igualdade de todas as pessoas e de todas as raças. (…) Muitas das questões que ainda perturbam a América têm suas raízes na experiência amarga de outros tempos”.

Em 2006, foi a vez de Roberts: em entrevista à C-SPAN, canal público, o atual presidente da Suprema Corte falou da Constituição e de seus autores. “Eles nunca souberam o que fazer em relação à escravidão e deixaram isso de lado. Decidiram que não se devia falar do assunto. Isso manchou a Constituição. E foi preciso uma guerra civil para remover aquela mancha”, afirmou. (Saiba mais sobre a escravidão e a Constituição AQUI

Limbaugh, como outros colegas extremistas dos talk shows, fala diretamente a pessoas simples das regiões que Sarah Palin chama de “patrióticas”. Gente que acredita no que ele diz. Os donos de programas, aliás, nunca reconhecem qualquer erro, por maior que seja o disparate. Os democratas querem a volta à fairness doctrine – a doutrina que parte da mídia adotava antes, sem muito entusiasmo – e que dava a outros o direito de resposta, ou opiniões diferentes ou correção de erros factuais cometidos pelos veículos.

Agora, ao contrário, um movimento liderado pela Fox News, do império Murdoch de mídia, vê a doutrina como violação à liberdade de imprensa. “O ouvinte de Limbaugh ou Hannity quer ouvir os dois e não a opinião de quem discorda deles”, argumenta-se. A Fox, especializada em falsificar a informação – e até a realidade – define paradoxalmente seu jornalismo como fair and balanced (justo e equilibrado). E agora obstina-se em impedir o Congresso, sob maioria democrata, de aprovar qualquer lei sobre o assunto.

Published in: on outubro 29, 2008 at 10:18 am  Deixe um comentário  

O milagre que McCain ainda espera

O senador John McCain garante que continua competitivo nos estados-chaves, mas a situação dele sugere que precisa de um milagre. Segundo a organização Gallup de pesquisa, tal milagre – o candidato inverter a tendência da votação popular a apenas uma semana da eleição – ocorreu duas vezes nas últimas 14 eleições presidenciais. Ou seja, duas vezes em 56 anos, desde 1952 (leia AQUI).

Uma delas foi em 1980, quando o presidente Jimmy Carter, candidato à reeleição, estava na frente e acabou perdendo para Ronald Reagan. A outra foi em 2000, quando George W. Bush liderava e Al Gore ganhou – mas não levou, pois perdeu no Colégio Eleitoral, o resultado que realmente vale, passando por cima da votação popular em todo o país.

Os dois resultados foram, de certa forma, insólitos. Carter enfrentava o drama da tomada dos reféns americanos na embaixada dos EUA em Teerã. A falta de solução para a crise beneficiava Reagan – houve até a suspeita de que a campanha republicana tinha negociado secretamente com os aiatolás do Irã para que os reféns não fossem libertados antes da eleição. Reagan ganhou tanto na votação popular como no Colégio Eleitoral.

Improvável, mas não impossível

A eleição de 2000 também foi atípica, com as denúncias de fraude na apuração da Flórida. O democrata Al Gore, vice do então presidente Bill Clinton, ganhou na votação popular no país, enquanto a campanha democrata passava a contestar na Suprema Corte estadual o resultado oficial proclamado pela Flórida, governada então por Jeb Bush, irmão do candidato republicano.

Pelos números apresentados pela secretária de Estado Katherine Harris (que era ao mesmo tempo co-presidente da campanha de Bush), havia uma vantagem de 537 votos a favor do republicano. Como o tribunal estadual tinha mandado recontar os votos, a campanha republicana recorreu à Suprema Corte federal, que mandou parar aquela recontagem.

A anulação do que fora decidido pela Justiça estadual equivalia a dar a Bush a vitória no Colégio Eleitoral, graças aos 27 votos da Flórida. Assim, as duas situações, em 1980 e 2000, eram anormais. Claro que algo assim ainda pode acontecer de novo, mas é uma hipótese pouco provável. E não se pode perder de vista que o país já vive um momento excepcional. Tornou-se real, pela primeira vez na história, a chance de um negro chegar à Casa Branca.

Ampliando mais a vantagem

Na pesquisa Gallup de acompanhamento diário, Obama voltou a crescer 1 ponto percentual ontem, tanto na que abrange os eleitores registrados (ele subiu para 52%, contra 42%) como na ampliada que considera apenas os eleitores prováveis (passou para 53%, contra 43%). No modelo tradicional dos eleitores prováveis, os números são mais apertados mas a tendência prevalece: 50% contra 45%.

Tanto o modelo tradicional dos prováveis como o modelo ampliado foram desenvolvidos pela Gallup. O tradicional baseia-se nas intenções de voto do momento e considera o comportamento passado de votação. O ampliado considera apenas as intenções de voto do momento. Em alguns casos, o eleitor pretende votar mas acaba não votando, o que gerou os dois modelos.

Nas três hipóteses do acompanhamento diário da Gallup Obama está à frente todo o tempo, de 6 a 26 de outubro. A diferença é sempre maior quando são considerados apenas “eleitores registrados”. E sempre menor no modelo “eleitores prováveis (tradicional)”. Também nesse caso Obama está à frente no mesmo período, só que a vantagem diminui. Ela ficou mais estreita (49% a 47%) nos dias 15, 16 e 17. Depois disso, cresceu de novo e está entre 4 e 7 pontos percentuais. (Veja os gráficos AQUI, AQUI e AQUI)

Hora das últimas definições 

A CNN, por sua vez, tem publicado uma pesquisa que é a média das outras. Ontem estava em 51% a 43% para Obama. O importante no mapa atual são os swing states, ora de um lado, ora do outro (veja o mapa AQUI). Nele a Flórida aparece definida (vantagem de 7 pontos percentuais para Obama, 48% a 42%). Também definidos para Obama: Novo México (45% a 40%) e Colorado (52% a 42%). E não definidos, mas favorecendo Obama: Missouri (48% a 47%), Carolina do Norte (51% a 47%) e Dakota do Norte (45% a 43%).

Para a vice-governadora do Alasca, Sarah Palin, um novo desapontamento foi a decisão do maior jornal de seu estado, o Daily News de Anchorage, de apoiar a chapa liderada por Barack Obama (leia mais AQUI). A mais recente onda de apoios para Obama incluiu ainda os três maiores e mais influentes jornais liberais do país, New York Times, Washington Post e o Los Angeles Times.

Segundo a revista Editor & Publisher, dedicada à cobertura da imprensa escrita, a nove dias da eleição Obama conta com o apoio de 194 jornais do país – contra apenas 82, que preferiram McCain (saiba mais AQUI). Tradicionalmente a maioria dos jornais americanos apoiava candidatos presidenciais republicanos. E há muito tempo não se via onda tão significativa como a atual em favor do candidato democrata (veja acima a ilustração publicada pela revista).

Published in: on outubro 28, 2008 at 6:45 am  Comments (1)  

Colégio Eleitoral, encerrando o capítulo

Para encerrar nossa discussão sobre o Colégio Eleitoral, é relevante trazer mais informações históricas. Elas permitem que cada um chegue às próprias conclusões – avaliando se a instituição está obsoleta e se, pior ainda, pode até ser acusada de antidemocrática, como foi afirmado no post anterior. Em primeiro lugar, convém esquecer a idéia de uma Constituição dos EUA como algo perfeito.

Ela não é e nem poderia ser perfeita – tanto que, no desdobramento, teve de receber muitas correções relevantes, na forma de emendas constitucionais. E mais: o texto original resultou de confrontos, negociações e compromisso. Por exemplo, havia 3,8 milhões de pessoas no país e 18% delas (700 mil) eram escravos. Só não havia escravos em Massachusetts, Vermont e Maine.

Na Carolina do Norte, 43% eram escravos. Na Virgínia, os escravos eram ainda mais numerosos, embora a percentagem deles na população fosse um pouco menor, 39%. Se Massachusetts insistisse no fim da escravidão, talvez não houvesse Constituição. O texto referia-se aos escravos como “outras pessoas”. Até previa a devolução aos estados de origem daqueles escravos que fugissem em busca da liberdade (na foto abaixo, um grupo de escravos em 1862).

Escravos e direitos dos estados

O Colégio Eleitoral nasceu com a Constituição mas não tinha esse ou qualquer outro nome. O artigo II, seção 1, descrevia o processo: cada estado escolhe eleitores em número igual ao de seus deputados e senadores. Cada eleitor votava em dois candidatos – e pelo menos um dos votados tinha de ser de outro estado. Quem recebesse maior número de votos seria presidente; o segundo, vice-presidente.

A preocupação central era em torno dos direitos dos estados (temia-se que os maiores impussem sua vontade aos menores). Continuou a ser assim nos anos seguintes (para o sul racista, teria sido essa a causa real da guerra civil na década de 1860).  O impasse na eleição de 1800, com o empate de votos eleitorais entre Thomas Jefferson e Aaron Burr, acabou por detonar o processo eleitoral imaginado inicialmente, forçando a 12ª Emenda, mas isso não neutralizou os complicadores.

Eles reapareceram em 1824, 1876, 1888 e 2000. A exceção de George W. Bush, os outros que se tornaram presidentes nesses anos, a começar por John Quincy Adams (1825-29), não tiveram novo mandato. Quincy Adams (veja acima) é especialmente sugestivo: foi o único caso, além de Bush, em que o filho de um presidente também se tornou presidente (John Adams, pai, fora o 2º presidente, 1797-1801).

Na eleição de 1824 Andrew Jackson teve mais votos populares (152.901, 42,34%) do que Quincy Adams (114.023, 31,57%). Jackson teve mais votos também no Colégio Eleitoral (99, contra 84 de Adams), mas nenhum obteve maioria absoluta e a disputa foi para a Câmara – cujo presidente, Henry Clay, fez conchavo com Adams, em troca do cargo de secretário de Estado.

A segregação racial prorrogada

Adams ficou tão marcado como beneficiário de uma eleição ilegítima que quatro anos depois sofreu derrota esmagadora frente ao mesmo Jackson – tanto na votação popular do país (647.292, 56%, contra 507.730, 44%) como no próprio Colégio Eleitoral, que em 1828 consagrou a escolha de Jackson, reeleito ainda para o segundo mandato (em 1832, contra Clay).

Rutherford B. Hayes (1877-81) foi o segundo na história a se tornar presidente sem ganhar a votação popular. Em 1876 esse republicano de Ohio (veja ao lado) teve 48% dos votos (4.036.572) e seu rival democrata Samuel J. Tilden, de Nova York, 51% (4.284.020). No Colégio Eleitoral, vieram resultados duplos de três estados do sul (Carolina do Sul, Flórida e Lousiana) – um a favor de cada partido.

Tilden só precisava de mais um dos 20 votos eleitorais (dos três estados) em disputa, Hayes precisava de todos. O Congresso resolveu confiar a solução do impasse a uma comissão de 15 membros (10 parlamentares e cinco juízes da Suprema Corte). Em teoria, a comissão era apartidária, mas na verdade tinha oito republicanos e um democrata – e apontou Hayes.

Apesar da rejeição do resultado pela Câmara dos Deputados, Hayes foi confirmado no Senado. Prevaleceu graças ao contexto da época. Em troca de sua concordância, o Sul derrotado na Guerra Civil, até então sob o regime da chamada Reconstrução, obteve o fim da “ocupação” nortista. E os democratas voltaram ao poder ali, impondo mais um século de segregação racial.

O fantasma da ilegitimidade

Ao fim de quatro anos, certo de que não se reelegeria, Hayes sequer candidatou-se a novo mandato. Doze anos depois, em 1888, outro republicano, Benjamin Harrison (veja-o ao lado), tornou-se o terceiro a virar presidente (1889-93) sem ganhar a votação popular no país. Obteve 5.444.337 votos contra 5.540.050 dados ao presidente democrata Grover Cleveland. Ganhou só no Colégio Eleitoral, por 233 contra 168.

Como nos exemplos anteriores, não houve reeleição. Harrison tentou um segundo mandato em 1892, mas estava tão impopular ao fim do primeiro que não escapou da revanche do ex-presidente Cleveland, que ganhou por maioria esmagadora, tanto na votação popular (5.554.414 contra 5.190.801) como no Colégio Eleitoral (277 contra 145). De novo o fantasma da ilegitimidade.

O confronto Bush-Gore ocorreu mais de um século (111 anos) depois da eleição de Harrison. Na votação popular Bush (foto à esquerda) perdeu por mais de meio milhão de votos: Gore, 50.999.897, 48,38%;  Bush, 50.456.002, 47,87%. Tornou-se o 43º presidente porque a Suprema Corte validou a contagem duvidosa da Flórida, governada por seu irmão Jeb, que deu a ele 537 votos populares mais. Isso permitiu somar a favor de Bush todos os 25 votos da Flórida no Colégio Eleitoral, totalizando nacionalmente 271 – contra 266 do rival Gore. O resultado serviu para escancarar a inconveniência, para dizer o mínimo, da manutenção de um processo eleitoral obsoleto e antidemocrático. Além disso, levou a decisão, pela primeira vez na história, para o tapetão judicial. 

Published in: on outubro 26, 2008 at 3:36 pm  Comments (1)  

Colégio Eleitoral: obsoleto e antidemocrático

No primeiro discurso como um duvidoso “presidente eleito” – em dezembro de 2000, depois que a Suprema Corte mandou parar a recontagem de votos da Flórida e fez prevalecer aquele resultado suspeito proclamado antes pela secretária de Estado Katherine Harris – George W. Bush tentou fazer um paralelo entre a situação que então vivia, à sombra da ilegitimidade, e o resultado da eleição presidencial de 1800, que deu a vitória a Thomas Jefferson (1743-1826) sobre Aaron Burr (1756-1836).

Com isso sugeria que também Jefferson, intelectual, estadista e 3º presidente dos EUA, fora empossado sob suspeita, tornando-se depois um grande presidente. Na verdade, nada havia na eleição que pudesse justificar tal comparação – ou, ao menos, nada além do potencial destrutivo da rivalidade entre os federalistas de Alexander Hamilton e os democratas-republicanos de Jefferson.

A mecânica do processo eleitoral, previsto na Constituição (de 1787, parcialmente reproduzida acima – leia o texto na íntegra AQUI) já era então uma receita de crise. Houve empate nos votos do Colégio Eleitoral e a decisão, transferida para a Câmara, só deu a Casa Branca a Jefferson depois de uma semana de impasse e incerteza, 36 escrutínios, 19 empates e, afinal, a abstenção de dois estados. Mas Jefferson, ao contrário de Bush, além de ser um estadista tinha vencido também na votação popular.

Contraste entre dois presidentes

Apesar de outros republicanos bushistas terem feito antes o mesmo paralelo, em claro esforço para aproximar a imagem de um Bush insignificante à de um dos pais fundadores da república (que fora antes secretário de Estado e vice-presidente), os críticos do suposto presidente eleito preferiam compará-lo em 2000 aos três que, como ele, viraram presidente sem vencer a votação popular no país.

Jefferson, afinal, era um pensador e líder no Congresso Continental, além de autor da Declaracão da Independência em 1776 (veja a reprodução abaixo e leia o texto AQUI), governador da Virgínia e embaixador na França. Só perdera a presidência para John Adams, quatro anos antes, por três votos no Colégio Eleitoral – tornando-se vice, conforme outra regra equivocada da época, que destinava o cargo número dois ao segundo mais votado.

Os acanhados dotes intelectuais de Bush – cuja experiência antes do governo do Texas limitara-se a negócios duvidosos (e fracassados) na área de petróleo, além da propriedade, com sócios amigos do pai, de um clube de baseball – nada tinha a ver com a biografia de Jefferson. Como Ronald Reagan, seu ídolo, Bush abominava leitura séria (à espera da decisão da Flórida, disse estar lendo a biografia de um jogador de baseball).

Os federalistas e os republicanos

Deixo para depois paralelos possíveis entre a eleição de 2000 e as de John Quincy Adams (1825-29), Rutherford B. Hayes (1877-81) e Benjamin Harrison (1889-93), que também perderam a votação popular e ganharam a presidência no Colégio Eleitoral. A relevância de 1800 é principalmente por ter sido a primeira transferência pacífica – do federalista John Adams para o republicano Jefferson.

Alguns destacam que isso ocorreu apesar do colapso do sistema eleitoral. Simpático à Revolução Francesa, Jefferson era alvo de acusações sórdidas, por defender relações mais fortes com a França (outros apegavam-se mais à herança anglófila) e intepretação rigorosa da Constituição, limitando o poder federal. Hamilton (abaixo, na nota de US$10) discordou dele sobre a jurisdição federal e a França.

Jefferson fora vice de Adams (outro federalista), de 1797 a 1801, apenas porque se opusera a ele na eleição de 1796, ano do confronto radical republicanos-federalistas. Já a crise de 1800 resultou de conchavos e espertezas no Colégio Eleitoral. Para dividir os republicanos, Hamilton foi ambíguo sobre Aaron Burr. Depois do empate no Colégio (73 votos) e do impasse, Jefferson venceu na Câmara. Burr tornou-se vice e anos depois, ressentido, mataria Hamilton em duelo.

A sobrevivência do Colégio parece até tributo a uma persistente falta de confiança no eleitor comum (saiba mais sobre essa instituição AQUI). Pois na reforma sofrida pelo processo eleitoral em 1804, com a 12ª Emenda à Constituição, eliminou-se um problema real, ao se estabelecer votos separados para o presidente e o vice, e ficou decidido ainda que em caso de empate caberia à Câmara escolher o presidente e ao Senado, o vice-presidente. Só que era pouco.

A insuficiência daqueles remendos

Sobreviveram complicadores, com falhas potencialmente perigosas no sistema. A maior é a possibilidade de discrepância entre o resultado da votação popular e o do colégio – como ocorreu em 1824, 1876, 1888 e 2000. É inacreditável que um legado histórico equivocado, que só se explicaria por razões práticas como a dimensão do país, a deficiência de transporte e a dificuldade de comunicação, ainda prevaleça na era do jato, da Internet e do telefone celular.

Podia-se entender a desconfiança do julgamento popular por parte da elite de sábios e iluminados (que de fato existiram e fizeram diferença). Mas hoje a instituição é apenas obsoleta e antidemocrática, até pela falta de critério na escolha, pelos partidos, dos membros do Colégio Eleitoral. Igualmente antidemocrático é atribuir ao vencedor num estado todos os votos eleitorais desse estado, ao invés de distribuí-los na proporção de cada um dos votados.

Acho sintomático que os escolhidos pelo Colégio em 1824, 1876 e 1888, sem vitória na votação popular, tenham sido rejeitados quatro anos depois. Bush, uma exceção, sai agora em meio ao caos que seu governo criou, com o mais baixo índice de aprovação já medido para um presidente. É lícito supor que ele só teve mais quatro anos graças ao 11/9 e à histeria patrioteira que conseguiu manipular com o respaldo de uma mídia submissa e atemorizada.

Published in: on outubro 25, 2008 at 1:32 pm  Comments (1)  

Ataques de McCain ajudam Obama?

Uma foto como essa sugere vitória gigantesca na Virgínia, onde John McCain poderá tornar-se o primeiro republicano em 40 anos a ser derrotado ali. A nova pesquisa da agência Reuters com a rede C-Span de televisão, feita pela organização Zogby, confirma a suspeita de que a agressividade ampliada da campanha dele tem efeito contrário ao pretendido por seus estrategistas. A vantagem nacional de Barack Obama deu um salto de 12 pontos percentuais, para 52%. McCain recuou a 40%.

Vale acrescentar que a campanha republicana pula de um tema para outro, meio perdida, sem saber qual deles pode dar resultado: o “bombeiro Joe” (em tese justificaria a acusação a Obama de “socialista”), a previsão de crise internacional para “testar” o democrata (a partir de declaração do vice Joe Biden), o “envolvimento com terroristas” (caso Ayers), etc. (leia AQUIAQUI as análises completas)

Por que a campanha insiste se o efeito é negativo? A resposta pode ser esta: a menos de duas semanas da votação, não há alternativa. Outro detalhe: a novidade Sarah Palin, que tinha energizado a base do candidatato de 72 anos, deu o empurrão do primeiro momento, mas agora puxa para baixo. Até republicanos fogem dela. E vieram fatos embraçosos, gafes e o rídiculo no humorismo da TV.

O crescimento em todos os ítens

McCain também passou a insistir, com muito mais empenho, no distanciamento do presidente George W. Bush. Aparentemente, antes do desastre econômico, ele não achava que o efeito desse apoio pudesse ser tão desastroso, até tentava faturar a estratégia bushista no Iraque. Mas a economia só fez piorar – e leva junto a campanha de McCain, cujas desculpas soam insuficientes.

O analista John Zogby explicou que o avanço de Obama é geral, visível em quase todos os grupos demográficos. Entre as mulheres, a vantagem dele é de 18 pontos percentuais. Entre os independentes a diferença é de 30 pontos (59% a 29%) e pode consolidar a frente de Obama nas disputas críticas dos swing states, antes sujeitos a oscilação no dia-a-dia.

Sem as mulheres e sem os independentes, McCain ainda tem uma dificuldade. Atrai menos os próprios republicanos (só 81% deles o apoiam) do que Obama atrai os democratas (86%). Ora, se não é sequer acreditado pela totalidade dos fiéis do próprio partido, a quem a campanha McCain-Palin pode recorrer nesse momento difícil – quando Obama já integrou até o eleitorado da ex-rival Hillary?

Para Bill Schneider (foto abaixo), analista de números da CNN, o entusiasmo na campanha de Obama ajuda muito. “Os eleitores dele são muito entusiásticos”, diz. “Nesse ítem a vantagem de Obama sobre McCain é de 64% a 40%”. Outros dados: à pergunta “qual deles será melhor numa crise?”, Obama supera McCain por 49% a 45%; em impostos, ganha por 52% contra 42%.

O apoio dos eleitores estreantes

Há muitas novidades na eleição presidencial deste ano. Acreditava-se que uma delas fosse a proporção de eleitores que votam pela primeira vez. Mas a pesquisa Gallup mostrou que não é o caso: eles são 13%, o que – disse ainda – iguala a proporção de 2004. No gráfico oferecido, 83% votarão agora (85% votaram em 2004) e 4% não planejam votar (eram 2% em 2004).

Cada eleição presidencial, diz a organização de pesquisa, acrescenta uma nova onda de votantes ao processo eleitoral. Embora desta vez tenha havido especulações segundo as quais a candidatura de Obama, devido ao seu apelo aos jovens e minorias, pudesse trazer um largo número de eleitores que votarão pela primeira vez, o total não é superior ao de 2004. Outros dados sugestivos:

  1. 48% dos que votarão pela primeira vez dizem que são estudantes em tempo integral;
  2. Quase metade deles (47%) pertencem a um grupo de minoria racial ou étnica, percentagem mais elevada do que a de 2004 (33%), o que pode ser reflexo da natureza histórica da candidatura Obama;
  3. 40% identificam-se como democratas, 37% independentes e só 23% republicanos;
  4. 32% dos que votarão pela primeira vez descrevem suas opiniões políticas como conservadoras e 28% como liberais;
  5. O apoio desses eleitores estreantes a Obama é sólido: 65% contra 31%.
E a ameaça do efeito Bradley?

Nesse conjunto de dados, deixei propositadamente para o fim um tema crucial: pode-se mesmo confiar nas pesquisas quando um dos candidatos presidencias é negro? O veterano analista e autor Michael Barone procurou encarar a questão num artigo ontem para o Wall Street Journal (leia AQUI). Referiu-se ainda a outros pontos que hoje complicam as pesquisas – celulares, eleitores que não aceitam falar, etc.

Sobre o efeito Bradley, que teria derrotado em 1982, na Califórnia, o candidato negro a governador Tom Bradley, vencedor das pesquisas na véspera, Barone lembrou ter havido outra explicação: os votos dos republicanos ausentes, não considerados no estudo. E citou depoimentos recentes de Lance Tarrance e Sal Russo, que trabalharam para o oponente de Bradley, George Deukmejian.

Barone refere-se ainda a detalhes que podem ter induzido pesquisadores a erro não adequadamente analisado depois. Citou também o pesquisador Daniel Hopkins, da Universidade de Harvard. Depois de examinar dezenas de disputas envolvendo candidatos negros, Hopkins explicou este ano, numa reunião da Sociedade de Política Metodológica (SPM) que de 1996 em diante não conseguiu encontrar qualquer novo exemplo de Bradley Effect.

Supostamente haveria a vitória de Hillary Clinton contra Obama em New Hampshire, no início de 2008, já que a pesquisa dava a ele vantagem de 10%. Mas para isso há a explicação emocional – o choro da candidata, na véspera, diante da TV. A recomendação de Barone é para que se espere agora até a última pesquisa, mesmo com unanimidade nos resultados de dias e semanas anteriores – como é o caso atual.

Published in: on outubro 23, 2008 at 10:06 am  Deixe um comentário  

A votação popular e o colégio eleitoral

Na atual campanha presidencial dos EUA, a 12 dias da eleição, o candidato democrata Barack Obama está numa situação privilegiada. Desde a primeira quinzena de setembro mantém a dianteira praticamente em todas as pesquisas sobre a votação popular e também nos cálculos destinados a prever a tendência do Colégio Eleitoral integrado pelos eleitores de cada estado – o que de fato decide.

Como se sabe, a eleição americana não é direta. A função da votação popular de 4 de novembro é a de selecionar em cada estado – cada um com direito a representação proporcional à sua população – os 538 eleitores de um ou do outro partido que vão integrar o Colégio Eleitoral com a missão de escolher, a 15 de dezembro, o novo presidente. Para ganhar, o candidato terá de totalizar no mínimo 270 votos (metade mais um).

A pesquisa Gallup de acompanhamento diário mostra Obama hoje, na votação popular, com a preferência de 52% contra 41%, vantagem de 11 pontos percentuais. No cálculo dos votos do Colégio Eleitoral, somando-se os votos eleitorais dos estados onde é sólida a tendência favorável com os daqueles que também se inclinam para ele (ainda sem vantagem definitiva), Obama tem 277, mais do que o necessário para vencer.

As previsões invertidas de 2000

Fazendo, em relação a John McCain, a mesma conta do Colégio Eleitoral – os votos dos estados onde tem preferência sólida mais os que se inclinam para ele (ainda sem vantagem definitiva – o republicano totaliza apenas 174 votos eleitorais. Ou seja, faltariam 96 votos para McCain ganhar. Os estados onde ainda há empate técnico, fora do cálculo por estarem indefinidos entre os dois, são 87, menos do que ele precisa.

Isso sugere que a vitória de Obama no Colégio Eleitoral, o que realmente decide,  pode ser até mais fácil, a esta altura, do que a da votação popular. A situação sugere uma comparação com a de George W. Bush dias antes da votação de novembro de 2000. A campanha republicana estava certa naqueles dias de que ele ganharia a votação popular; mas via um risco de Bush ser derrotado no Colégio Eleitoral.

Do lado democrata, a campanha de Al Gore analisava os dados de forma parecida. Achava que Gore seguramente ganharia no Colégio Eleitoral, como temia Bush. E considerava a hipótese de derrota na votação popular. A 1º de novembro de 2000, em artigo enviado de Nova York, escrevi que “a campanha de Bush preparava estratégia para reagir caso o republicano ganhasse na votação popular e perdesse no Colégio Eleitoral”.

Como Gore apostava no Colégio

Na mesma época o democrata Gore chegou a fazer uma declaração, na qual dizia inequivocamente que teria de prevalecer o Colégio Eleitoral, como mandava a Constituição. Por ironia, iria acontecer exatamente o contrário (caso aceitemos, apenas para efeito de raciocínio, que Bush de fato venceu na votação popular da Flórida por 537 votos). Oficialmente, Gore ganhou a votação popular no país e perdeu no Colégio Eleitoral.

Entre outras coisas, o artigo que enviei de Nova York transcrevia uma pergunta feita no jornal novaiorquino Daily News pelo jornalista Michael Kramer: “E se Al Gore ganhar estados cruciais que estão em disputa atualmente, como Flórida, Michigan e Pensilvânia, obtendo o total mágico de 270 votos eleitorais, enquanto George Bush consegue a maioria da votação popular do país?”

A pergunta, claro, refletia a incerteza nos dois lados da campanha presidencial. A discrepância entre a votação popular e o Colégio Eleitoral tinha ocorrido duas vezes ha história: 1. Rutherford Hayes tornou-se presidente em 1876, em meio a outros complicadores, já que os republicanos faziam fraude para compensar no Sul a intimidação dos democratas racistas contra o voto dos negros; 2. Em 1888 foi a vez de Benjamin Harrison, que tinha sido derrotado na votação popular por diferença inferior a 90 mil.

Receita potencial de crise

Naqueles dois casos, como manda a Constituição com mais de dois séculos de existência, prevaleceu o resultado do Colégio Eleitoral (leia AQUI análise da CNN antes do resultado de 2000). Teria prevalecido ainda, da mesma forma, em 1976, contra Jimmy Carter, que teve 1,7 milhão de votos mais do que o rival republicano, caso o presidente Gerald Ford, candidato à reeleição, tivesse conseguido mudar apenas 5.500 votos no Ohio e 6.500 em Mississippi.

O risco de acontecer a discrepância agora parece remoto, pelo menos com base nas tendências atuais para a votação popular e o Colégio. Em 2000 os republicanos preparam-se para contestar o resultado do Colégio Eleitoral como basicamente injusto – que afinal os beneficiou. E Gore, que antes contava certo com a vitória no Colégio, sequer tinha como contestar as regras, já que as defendera publicamente antes.

Fica claro o potencial de crise que o Colégio Eleitoral ainda representa (saiba mais sobre ele AQUI). Em 2000 a campanha de Bush planejava operação maciça junto à opinião pública, envolvendo a mídia, em defesa da votação popular. Seria questionado o caráter obsoleto do sistema – criado porque não existia um eleitorado nacional e os fundadores da república desconfiavam do julgamento do povo. Algum dia a crise virá, caso não se faça alguma coisa antes. Vale a pena voltar ao assunto depois – e a outros antecedentes históricos.

Published in: on outubro 22, 2008 at 8:07 am  Comments (1)  

A chave do dinheiro na campanha de Obama

A 14 dias da votação, a campanha democrata parece convencida de que nem baixando ainda mais o nível os republicanos conseguirão melhorar a situação de John McCain. É que os republicanos estão com pouco dinheiro, por ter o candidato optado no estágio inicial da campanha pelo financiamento público. Barack Obama pensava fazer o mesmo no ano passado, para reduzir o papel dos grandes contribuintes e lobbies. Só mudou de idéia ante o sucesso das doações menores, via Internet.

A primeira experiência com uso mais intenso da Internet foi na campanha do governador Howard Dean em 2004, ainda na fase das primárias. O sucesso surpreendeu o próprio Dean, que só saiu do páreo devido aos erros insólitos cometidos. John Kerry e John Edwards firmaram-se, enquanto Dean, com a Internet, ficava para trás. Mas a revista Wired chegou a contar a história de como Dean fora “inventado” pela Internet (leia AQUI).

O responsável por aquela revolução, que chegou a colocar o então desconhecido Dean à frente entre os democratas (hoje ele preside o Partido Democrata) foi Joe Trippi (foto à esquerda; saiba mais sobre ele AQUI), depois afastado da direção da campanha. Só quatro anos mais tarde – na campanha presidencial de Obama, mas ainda em 2007 – a experiência foi adequadamente retomada. E de novo o sucesso surpreendeu, a ponto de ter o candidato decidido rever sua preferência anterior pelo financiamento público.

US$150 milhões só em setembro

No último mês de setembro, a campanha democrata de Obama conseguiu totalizar nada menos de US$150 milhões. Segundo a Fox News (leia AQUI), o total geral da campanha vai além de US$600 milhões. Mas a maior parte chega em pequenas contribuições via Internet – algo que inevitavelmente afetará todas as campanhas no futuro. O lado positivo é que, vindo o dinheiro em contribuições pequenas, o candidato não fica amarrado a compromissos com grandes contribuintes. Eventualmente as regras poderão ser mais rigorosas, assegurando a lisura e o caráter democrático do processo.

Em entrevista a Chris Wallace ontem, no programa “Fox News Sunday” (leia AQUI), o candidato republicano queixou-se da abundância de recursos na campanha de Obama. Sugeriu até que o rival repetia Nixon. “Desde Watergate não ocorre isso”, afirmou com malícia. O caso que envolveu Nixon, na verdade foi um escândalo: doações vultosas, às escondidas, como a soma (em dinheiro vivo) de US$100 mil, canalizada por Howard Hughes através de Charles (Bebe) Rebozo, amigo de Nixon (saiba mais AQUI).

Em princípio o sistema de arrecadação pela Internet pode revelar-se tão eficaz como legítimo e democrático. Tanto que já é usado, também, por candidatos alternativos como Ralph Nader (ex-democrata) e Bob Barr (ex-republicano). A inovação de Nader tem toques pitorescos. Ele promete enviar como brinde receitas da mãe (ou de hummus, ou de bolo de maçã) a quem faça doações a partir de US$2 (isso mesmo: dois dólares). E explica: o limite legal é US$2.300 (saiba mais AQUI).

O rumo perigoso do baixo nível

Obviamente, o enfoque do senador McCain, que já tinha tentado trapacear e driblar a lei depois de ter optado pelo financiamento público, parece duvidoso. O financiamento das campanhas sempre foi problema grave. Mas regras rigorosas e pulverização das contribuições via Internet é saudável, até por reduzir a relevância das doações elevadas. Além disso, encoraja o envolvimento de pessoas comuns, tornando as campanhas mais democráticas.

Antes de sua atual tentativa rumo à Casa Branca, McCain aparentava mais zelo em relação a regras democráticas. Da mesma forma que seus comerciais de campanha com ataques pessoais nada têm a ver com a lisura que buscava aparentar antes, agora abraça um vale-tudo. O ex-secretário de Estado Colin Powell estranhou a mudança, citando os comerciais sobre Bill Ayers (veja a imagem abaixo), com as acusações de terrorismo e até de socialismo – fora de moda desde o fim da guerra fria.

Ataques assim têm efeitos perigosos. Hoje, num restaurante da Carolina do Norte, uma mulher viu Obama entrar e berrou: “Socialista, socialista, saia daqui!”. A acusação de “socialista” é a mais recente nos comerciais republicanos. Obama tem respondido com elegância e sem perder a serenidade. Mas o boato é de que McCain, desmentindo o que prometera, está disposto ainda a ressuscitar o reverendo Jeremiah Wright, ex-pastor do qual o democrata afastou-se há meses.

A diferença no apoio dos jornais

Parece difícil McCain reverter o quadro atual devido aos recursos de que a campanha de Obama dispõe, suficientes para responder à altura. Além disso, na última pesquisa Gallup de acompanhento diário, a vantagem de Obama subiu de novo para 10 pontos percentuais: 52% contra 42%. E mais 15 jornais do país declararam apoio a Obama, contra mais 3 a favor de McCain. Antes a revista Editor & Publisher estimara em 103 os jornais que declararam apoio a Obama – e apenas em 32 os que estão com McCain (leia AQUI).

Essa proporção de 3 por 1 a favor do democrata é sem precedentes. Até a eleição passada a maioria  dos jornais apoiava o candidato republicano. Este ano a maior supresa foi o apoio do Chicago Tribune a Obama. Desde que foi fundado, há 161 anos, esse jornal nunca apoiara um democrata (saiba mais AQUI). Também surpreendeu o apoio da revista Esquire a Obama. Fundada há 75 anos, ela nunca manifestara preferência antes por qualquer candidato presidencial.

Enquanto isso o império Murdoch de mídia – que inclui o New York Post, o Wall Street Journal, a Fox News Channel (FNC) e outros veículos – mantém o esforço obsessivo e sórdido para derrotar o candidato presidencial democrata. A novidade da FNC hoje, insistindo na fantasia da “conexão terrorista”, foi a reprodução de anúncio antigo de um livro de Bill Ayers, sobre o qual o então senador estadual Obama disse ser “um relato oportuno sobre o sistema judicial juvenil” (veja acima).

Published in: on outubro 20, 2008 at 5:23 pm  Deixe um comentário