A matança de Bush e Uribe

Sob a pressão de chefes militares colombianos, freqüentemente acusados de agir em articulação com milícias e grupos militares de extrema direita ligados ao narcotráfico, o exército da Colômbia ampliou sua ação nos últimos anos, passando a matar cada vez mais camponeses e agricultores pobres, caracterizados depois como “rebeldes mortos em combate pelas forças legais”.

O relato nesse sentido foi feito domingo, no Washington Post, pelo jornalista Juan Forero, que há um ano e meio está baseado em Bogotá e cobre a Colômbia e a Venezuela para o jornal da capital americana (veja o texto original no POST). Ele contou a história ouvida de Cruz Elena González numa aldeia do Noroeste colombiano. Soldados passaram e entregaram o cadáver do que disseram ser um rebelde morto ao enfrentá-los.

Depois, o ombudsman de direitos humanos da administração municipal fez uma investigação sobre a morte do suposto guerrilheiro e refutou a versão dos militares. Ele descobriu que o corpo era de Robeiro Valencia, de 16 anos, filho de Cruz Elena. “Imagine o meu drama, quando meu outro filho veio me contar que era Robeiro. O cadáver era do meu filho”, contou ela, entre lágrimas, ao Post.

De cadáver em cadáver

O que a Colômbia está vivendo no atual governo de Álvaro Uribe é mais uma das guerras de Bush – talvez a menos conhecida como tal. O Congresso dos EUA começou afinal a tomar consciência dessa tragédia. No ano passado a oposição democrata conseguiu reduzir a injeção anual de verbas para o regime de Bogotá. Mas a situação na selva colombiana está cada vez mais dramática, segundo Forero.

Mais de US$ 8,4 bilhões já foram enviados pelos EUA para sustentar a guerra. E nos últimos seis anos Bush não só exigiu uma ofensiva – a ampliação do esforço militar contra os rebeldes – como passou a cobrar resultados. Com isso os chefes militares estão impondo aos subordinados uma nova tática, herdada da experiência dos EUA na guerra do Vietnã. A da contagem de cadáveres como medida do sucesso.

Como acontecia no Vietnã, os soldados matam indiscriminadamente na obsessão de adicionar mais um número à lista macabra – ainda que o cadáver seja de um civil inofensivo, como no caso de Robeiro Valencia. Os grupos de direitos humanos redobraram o monitoramento, mas a mídia bushista teima em absolver a priori o regime colombiano apadrinhado pela Casa Branca.

Uma disputa entre generais

Nessa escalada militar de Uribe, encorajada pelos EUA, as forças armadas da Colômbia quase duplicaram. Eles totalizam agora 270 mil militares. Já estão no segundo lugar na América Latina. E no campo de batalha os comandantes exigem cadáveres. Os mais fáceis de serem conseguidos, obviamente, são os de camponeses miseráveis, que sequer têm armas – ou como resistir.

Segundo o Washington Post, essa tática duvidosa já cria um debate acalorado, no ministério da Defesa da Colômbia, entre os generais da velha guarda, favoráveis à campanha agressiva centralizada na contagem de cadáveres, e os reformistas, para os quais o Exército tem de desenvolver uma medida mais sensata e confiável para avaliar o sucesso no campo de batalha.

A matança promovida por unidades de combate sob as ordens de comandantes regionais, diz Forero, sempre foi um problema grave nos 44 anos do conflito da Colômbia. E com a recente desmobilização de milhares de paramilitares, muitos dos quais operavam esquadrões da morte para exterminar os rebeldes, o número de civis mortos pelo exército multiplicou-se, segundo grupos de direitos humanos.

Os civis “mortos em combate”

Há informações diversificadas sobre “matanças extrajudiciais” – expressão usada em relação à morte de civis. Relatório feito por uma coalizão de 187 organizações de direitos humanos declarou haver alegações de que entre meados de 2002 e meados de 2007, 955 civis foram mortos e classificados como “guerrilheiros mortos em combate”. É um aumento de 65% em relação aos cinco anos anteriores.

Tal elevação pode ser claramente reivindicada pela política belicista do governo Bush. A Judicial Freedom Corp, grupo de advogados de Medellin que representa famílias de 110 pessoas assassinadas em circunstâncias não explicadas, disse ao jornalista do Post: “Costumávamos ver isso como fatos isolados, como unidades militares escapando ao controle. Mas o que vemos agora é sistemático”.

No Vietnã a obsessão da contagem de cadáveres subvertia o raciocínio lógico. Isso porque civis acabavam entrando na conta, inflando-a. Também há denúncias de volta à contagem de cadáveres no Iraque (leia AQUI artigo da CounterPunch, uma newsletter de esquerda). Na época surgiu uma piada mórbida. Exageravam-se de tal forma os números que se somássemos as diferentes contagens de cadáveres chegaríamos à conclusão de que a população total do país já tinha sido exterminada duas vezes. E nem assim os EUA ganharam a guerra.

 

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Published in: on março 31, 2008 at 4:16 pm  Deixe um comentário  

Privatização também causa danos na guerra

Fiz referência aqui, algumas vezes, à terceirização da tortura pelo governo Bush – inclusive aos vôos de companhias privadas que a CIA usou para levar suas vítimas, secretamente, a países que se prontificaram a torturar, a pedido dos EUA. Também citei os “contractors” americanos que tinham sido militares e se converteram em mercenários de guerras privatizadas, alugando o “know how” macabro.

Depois o economista Paul Krugman, que ao ser contratado pelo New York Times em 2000 ampliou seu horizonte para tornar-se um dos colunistas mais lidos do país, analisou o problema da privatização-via-terceirização nos EUA, tendo como gancho um desabafo do próprio Bush – sua queixa, revelada pela revista U.S. News & World Report, de que não admitia terceirizar seu papel de comandante-chefe.

Para os brasileiros, é um tema sempre oportuno graças à obsessão privatista legada pelo desgoverno FHC. Esse presidente generalizou a prática nociva de usar empresas (como as agências de propaganda de Marcos Valério) até para disfarçar pagamentos duvidosos a gente que exige remuneração fora dos padrões habituais do serviço público – prática que não resiste a exame sério de um Tribunal de Contas.

Responsabilidades transferidas

No caso de Bush, a terceirização virou escândalo ainda mais chocante por envolver transferência de responsabilidades do Estado em guerras e, além disso, por favorecer corporações com convenientes conexões no governo e no partido oficial. Krugman citou o exemplo de um programa de US$ 17 bilhões para modernizar a Guarda Costeira, que para tanto contratou a Lockheed Martin e a Northrop Grumman (veja sua coluna AQUI).

Essas duas transnacionais gigantes são beneficiárias regulares da orgia de gastos do Pentágono – celebrizada tanto pelo descontrole das contas como pela pela confraternização promíscua com os fornecedores (leia o texto sobre os escândalos que o professor J. Ronald Fox, de Harvard, publicou em 1988 no TIMES). No caso específico, como a Guarda Costeira transferira a supervisão, as firmas forneciam unidades navais e helicópteros que seus próprios engenheiros consideravam malprojetados, inseguros e caros.

Krugman contou ainda que no Afeganistão a tarefa de treinar uma nova força policial fora terceirizada para a DynCorp International, sob supervisão desleixada. Numa inspeção, os auditores sequer conseguiram encontrar uma cópia do contrato – e após gastos de US$ 1,1 bilhão (no Pentágono a conversa é só em bilhões), o Afeganistão continuava sem programa de treinamento de sua polícia.

A ilusão das terceirizações

Sobre o Iraque, o colunista do Times relatou como as autoridades da ocupação transferiram a responsabilidade pela reconstrução a empresas privadas, praticamente sem qualquer supervisão. “Parece que o único plano foi deixar o setor privado ocupar-se da construção da nação, fazendo o que bem entende”. O mundo inteiro, claro, sabe em que lambança o Iraque foi transformado.

Dentro dos EUA há o exemplo da terceirização das responsabilidades da FEMA – a agência federal encarregada de socorro em emergências, desastres, furacões etc. A FEMA terceirizou para a firma Landstar Express America o encargo, entre outras coisas, de evacuar pessoas. Mas depois do Katrina a firma sequer sabia como arranjar ônibus. “Nos acharam pela Internet”, contou a Carey Limousine

Para Krugman, está bem claro o erro fundamental da ideologia antigoverno abraçada pelo conservadorismo bushista. A desculpa é a busca das “virtudes do mercado”, da livre concorrência. Como se a propriedade privada, em si, fosse uma espécie de elixir mágico. Só que nada justifica a suposição de que a empresa privada trabalha melhor do que pessoas contratadas diretamente pelo governo.

A devassa para mudar o rumo

Segundo o raciocínio do colunista, o trabalho privatizado é pior ainda nos casos de conexões políticas que deixam a terceirizada livre, sem prestar contas a ninguém – exatamente o que costuma acontecer no governo Bush. No Afeganistão ninguém fiscalizava a conduta da DynCorp. Auditores do governo nada viam de mal na desastrosa Landstar, elogiada até pelo Departamento de Transportes.

A recomendação de Krugman, no momento em que a oposição passava a controlar as duas casas do Congresso, foi uma investigação rigorosa. Afinal, não é só o desperdício, o dinheiro jogado fora. As falhas da terceirização no Iraque foram um fator que contribuiu para o desastre da ocupação. Falhas iguais no Afeganistão tiveram efeito semelhante. E os erros da Fema condenaram Nova Orleans.

A desenfreada privatização-via-terceirização-e-sem-fiscalização é um desastre. Por coincidência, companhias beneficiárias sempre dão dinheiro para campanhas republicanas – ou são dirigidas por executivos com conexões no poder. Mas o atual fracasso de Bush pode ajudar no futuro a pôr fim ao desatino das privatizações – e do preconceito antigoverno criado por décadas de propaganda da direita.

Published in: on março 29, 2008 at 12:08 pm  Deixe um comentário  

A mídia e os civis mortos na guerra de Bush

As redes públicas americanas de rádio (NPR) e TV (PBS), cujo jornalismo tinha credibilidade pelo padrão elevado, foram golpeadas no governo Bush. Novo exemplo disso é o noticiário sobre o Iraque na NPR. Programas em rede nacional sempre estiveram entre os destaques dessa rede. Mas são exatamente eles o alvo agora de um estudo da FAIR (iniciais em inglês de “Honestidade e Precisão na Reportagem”).

Essa organização privada faz estudos assim desde 1986, monitorando a mídia a partir de um enfoque progressista, de esquerda. Já publicou vários livros e edita uma revista mensal, Extra!, que reflete o trabalho desenvolvido. Por isso costuma ser citada pelos principais jornais do país, inclusive o Washington Post, New York Times, Wall Street Journal e o Los Angeles Times.

A propósito do 5° aniversário da guerra, a FAIR manifestou seu desapontamento com a NPR. (leia o artigo AQUI.) No dia 15 de março, por exemplo, o âncora da emissora ocupou-se dos mortos no Iraque. É geralmente aceito que já são 4 mil os soldados americanos mortos. Agora a NPR citou as estimativas sobre os civis iraquianos, dizendo que o total de mortos “varia entre 47 mil e 151 mil, dependendo da fonte”.

Como manipular os dados

E que fontes eram aquelas? Uma pode ter sido o NEJM (New England Journal of Medicine), que a 31 de janeiro publicou avaliação conduzida pelo governo do Iraque para a OMS – Organização Mundial da Saúde. Esta calculava que 151 mil civis iraquianos tinham sido mortos pela violência entre março de 2003, quando houve a invasão, e junho de 2006. Aparentemente veio daí o número 151 mil.

Mas o texto do NEJM começava assim: “Estimativas do balanço de mortos no Iraque desde a invasão liderada pelos EUA até junho de 2006 têm variado de 47.688 (do website Iraq Body Count – IBC) a 601.027 (de uma avaliação nacional)”. Aparentemente, o dado 47 mil da NPR veio daí, do IBC, que tem sido fonte freqüente dos veículos ocidentais.

Só que esse último dado do IBC é claramente descrito como sendo de junho de 2006 – antes do maior pico da violência, que foi no final de 2006 e início de 2007. Atualmente o IBC já tabulou pelo menos 82.249 mortes de civis. A NPR, no entanto, optou pela estimativa mais baixa do relatório da NEJM, sem sequer explicar por que o fez, e ignorando o cálculo mais alto – 601 mil, citado no mesmo documento.

Um milhão e 200 mil mortos

Já o número 601 mil foi uma estimativa feita pela escola de saúde pública da Universidade Johns Hopkins, publicada em outubro de 2006 pela revista britânica The Lancet, a principal publicação médica independente do mundo (visite seu WEBSITE). Trata-se de estudo muito conhecido, de acadêmicos de alto nível. Outro programa da NPR até já tinha entrevistado um daqueles autores, mas entre janeiro e março o estudo desapareceu misteriosamente da memória coletiva da rede radiofônica.

A FAIR ressalta ainda que tanto os 601 mil do estudo da Johns Hopkins como os 151 mil da OMS referiam-se apenas até junho de 2006, o que deixa de lado o pior período da violência no Iraque. A mais recente avaliação do número de civis iraquianos mortos foi a conduzida em agosto de 2007 por uma firma especializada britânica, Opinion Research Business (ORB). Ela elevou o total a 1 milhão e 200 mil (saiba mais sobre o ORB e seu trabalho na WIKIPEDIA).

Se a NPR pretendesse realmente informar os ouvintes com estimativas dignas de crédito sobre as mortes resultantes da invasão e da violência posterior causada pela guerra, argumenta a FAIR, teria de incluir esses dados mais recentes. Em vez disso, deixou nos ouvintes a impressão de que o maior cálculo plausível é aquele que, na verdade, só representa um oitavo da estimativa real.

Rádio e TV em declínio

A partir da análise da FAIR, fica claro, mais uma vez, que a manipulação dos dados sobre as vítimas do conflito continua a ser feita, apesar da oposição vigorosa da opinião pública do país à guerra de Bush. A imagem da NPR, mesmo com os estragos causados a ela pelo governo atual, ainda é boa, mas apenas devido à seriedade do trabalho passado de seus profissionais.

Nesse caso, destaca a FAIR, ou a questão dos mortos da guerra foi tratada com extremo desleixo ou, pior ainda, com deliberada desonestidade. Os números frios sugerem a suspeita de que houve a intenção de desinformar – e enganar os americanos. As emissoras, que tinham uma tradição de independência, foram golpeadas no governo Bush por denúncias de ingerência política.

Na rede pública de TV, cuja imagem também foi prejudicada nos últimos oito anos, ocorreu coisa parecida. A FAIR citou a referência a “pelo menos 90 mil civis mortos” no programa “NewsHour”, de Jim Lehrer, que simplesmente deixou de mencionar as estimativas 14 vezes maiores do que isso. Nem o principal noticiário nacional da rede NBC (“Nightly News”) ousou tanta manipulação, já que falou “entre 85 mil e 600 mil”.

 

Published in: on março 28, 2008 at 3:50 pm  Comments (2)  

Ainda o “direito divino” de Hillary

Em princípio o retorno à violência no Iraque – com os confrontos em Basra, Bagdá e outras cidades, entre as milícias leais a Moqtada al-Sadr e as forças de segurança – faz prever mais complicadores para o republicano John McCain até a eleição de novembro. Ele paga o preço por ter atrelado sua candidatura à guerra de Bush no Iraque, praticamente a única bandeira de sua campanha.

Coube ao próprio McCain, aliás, chamar a atenção do eleitorado para o fato de seu sucesso eleitoral depender do que acontecerá nos próximos meses no Iraque. Mas antes ele não tinha a ajuda da adversária Hillary Clinton: ainda obcecada pelo suposto “direito divino” dela própria à Casa Branca, a ex-primeira dama está numa escalada crescente de truques sujos contra Barack Obama, que ganhou mais delegados, mais votos e mais estados.

Na última façanha, esta semana, Hillary encantou o rival republicano ao ressuscitar na mídia a histeria em torno do ex-pastor da igreja freqüentada por Obama, Jeremiah Wright. A senadora o fez, no novo desdobramento, também para desviar a atenção da mais recente trapalhada dela – a bravata mentirosa de que em 1996 teria desembarcado na Bósnia em meio ao fogo de franco-atiradores. (clique no YouTube para ver o que ela disse e a montagem-sátira do website BarelyPolitical.com).

O momento Lincoln de Obama

Exibidas na TV as imagens gravadas do desembarque – mostrando uma Hillary lépida e fagueira, bem protegida e festejada ao lado da sorridente filhota Chelsea, sem nenhum tiro disparado, apenas muitas homenagens -, restou a ela reconhecer que nada do que dissera tinha acontecido. Depois, fez seus próprios disparos de franco-atiradora, mas contra Obama, e por causa do pastor Wright.

Ele não é mais pastor. Aposentou-se. A mídia afinal fizera uma trégua, deixando de lado o assunto, que antes motivara a rede republicana Fox News a repetir à exaustão os sermões mais incendiários de Wright. Hillary então julgou oportuno enfiar sua colher de pau. “Se fosse eu, teria examinado melhor quem era o pastor, jamais eu me ligaria a alguém radical como ele”, disse.

Isso bastou para desatar a nova onda contra Obama na mídia, ainda que na semana anterior ele tivesse feito, a propósito do assunto, um pronunciamento comparado por alguns, como peça oratória, a históricos discursos políticos – como o de John Kennedy sobre a separação entre estado e igreja, e o da “casa dividida”, de Abraham Lincoln. “Foi um momento de Lincoln”, escreveu Tim Rutten no Los Angeles Times (leia a coluna de RUTTEN).

Vice para ela é “déjà-vu”

Maureen Dowd, a colunista do New York Times a quem o presidente Bush deu o apelido de “Cobra”, vinha batendo ao mesmo tempo em Hillary e Obama. Agora parece mais irritada e feroz com a política de terra arrasada da ex-primeira dama contra o rival democrata. A jornalista considera duas hipóteses a partir do princípio clintoniano de que “ou será Hillary ou não será nenhum democrata” (leia a coluna AQUI).

Na primeira, Hillary estaria convencida de que não deve voltar ao Senado, onde alguns figurões do partido preferiram Obama a ela. Assim, se conseguir enfiar o pé na porta, ainda ganharia o segundo lugar da chapa. Mas apenas se for para reeditar Dick Cheney, que foi capaz de dirigir a Casa Branca e o mundo a partir da residência do vice-presidente, passando por cima de um Bush verde e despreparado.

Difícil seria imaginar – como escreveu Dowd – que depois de ter sido segundo violino para uma superestrela política como Bill Clinton, Hillary concordasse em voltar àquele papel. Não, em condições normais esse cargo não interessa a ela, que “já foi vice-presidente”. Mas na estratégia atribuída a Hillary e Bill Clinton, de ganhar a qualquer custo, ainda há a segunda hipótese.

A “opção Tonya Harding”

A alternativa, assim, seria fazer um estrago tão grande a ponto de deixar o partido rachado de forma devastadora, para levar Obama à derrota em novembro. Nesse caso, se o vencedor republicano só cumprisse um único mandato (o que parece natural, devido à idade dele), bastaria Hillary esperar sua oportunidade final – em 2012, quando terá 65 anos.

“Haveria alguma outra razão para ela sugerir que McCain seria um comandante-chefe melhor do que Obama. Haveria outra razão para Bill insinuar que Obama é menos patriota do que McCain?” – perguntou a colunista. Além disso, Dowd nota a suspeita de democratas da alta hierarquia de que a estratégia dos Clinton, de dividir-e-conquistar, equivale a “ou Hillary ou nenhum democrata”.

Ela cita ainda o que o jornalista Jake Tapper, da ABC, ouviu de um democrata: a campanha dela pode estar considerando uma “opção Tonya Harding” – alusão à patinadora que, ante a certeza de ser incapaz de derrotar a rival Nancy Kerrigan na disputa de uma vaga olímpica, contratou um capanga para quebrar-lhe a perna.

O problema maior, ironiza Dowd, é os Clinton considerarem-se “O Partido Democrata”.

 

Published in: on março 28, 2008 at 2:51 pm  Deixe um comentário  

Iraque, terrorismo e a armadilha do 11/9

Não apenas a guerra de Bush no Iraque, mas também sua fantasia da “guerra ao terrorismo” está há muito em xeque. A resposta habitual dele é questionar o patriotismo da oposição e acusar seus críticos democratas de serem fracos diante das ameaças e até de se aliarem ao inimigo. Vale lembrar o que já disse Robert Pape, professor da Universidade de Chicago e autor do livro Dying to Win – The Strategic Logic of Suicide Terrorism (Morrendo para vencer – a lógica estratégica do terrorismo suicida).

Esse cientista político ousa questionar o próprio fundamento da opção antiterrorista de Washington. Como explicou há tempos numa entrevista à Folha de S. Paulo, Bush foi buscar em Israel sua suposta lógica de que o terrorismo suicida resulta de desvio extremista religioso (islâmico), que só pode ser combatido por uma força militar devastadora. O presidente, claro, tinha seus motivos: transferir ao antecessor a culpa pela “fraqueza” que permitiu o 11/9 e assumir a imagem de forte na defesa do país.

Bush insistia, sempre que se aproximava uma eleição, em que só ele é capaz de proteger os americanos contra ataques terroristas. Em meio à histeria patrioteira do 11/9, a grande mídia do país (inclusive o New York Times, jornal mais influente dos EUA) e até a oposição caíram na armadilha. O que faz o professor Pape é remar contra a maré, expondo a lógica estratégica que destrói o raciocínio enganoso que o presidente ainda teima em vender ao país.

Fazendo o país morrer de medo

De um americano culto que acompanha os fatos do país e do mundo, ouvi uma pergunta que costuma neutralizar o bom senso: “Você quer o quê? Que a gente seja atacado e ainda converse com os malucos? Aí atacariam de novo? Temos é de arrasá-los”. É essa, precisamente, a linha bushista imposta nos últimos sete anos e que Pape reduz a pó em seu livro Dying to Win.

De fato o raciocínio extremista de Bush e do Estado de Israel, que ajuda a igualar os que pensam assim aos mesmos que eles chamam de “malucos”, disseminou o medo e o pânico na meia década que se seguiu ao 11/9. Para Bush, que sequer fora o mais votado na eleição de 2000, isso ajudou na campanha de 2004 – graças a uma histeria associada à falsa imagem dele próprio, fujão do Vietnã, como “herói de guerra”.

Mas terá aumentado a segurança do país e dos americanos? Dificilmente, como fica claro a cada nova revelação de complô extremista (como aquele em Londres, cujo alvo principal era, outra vez, o território dos EUA). Mas antes tanto a mídia como o Partido Democrata estavam imobilizados pela armadilha pós-9/11 de Bush, agora conseguem encarar as verdades expostas pelo professor Pape em seu livro.

O autor reafirmou à Folha – com base no estudo das ações terroristas e do perfil de 460 terroristas – que 95% dos ataques tiveram motivação nacionalista ou secular. Apenas 5% foram de cunho religioso, o que pode ocorrer em qualquer tipo de ataque, não só suicida. E o grupo que mais praticou atentados suicidas no mundo foi o dos Tigres Tâmeis do Sri Lanka – marxistas-leninistas e não muçulmanos.

Os casos al-Qaeda e Hezbollah

Todos os líderes da rede terrorista al-Qaeda, segundo Pape, já deixaram claro que querem liberar territórios ocupados por forças ocidentais e regimes locais aliados delas. “Não se trata de motivação religiosa, mas territorial ou política. No 11 de setembro, os EUA tinham tropas na Arábia Saudita. Líderes dos ataques terroristas de Londres também deixaram claro que queriam o fim da ocupação do Iraque”.

Pape referiu-se ainda aos militantes do Hezbollah: nos anos 1990, quando Israel ocupava o Sul do Líbano, eles mataram 700 israelenses. Entre 2000 e julho de 2006 (época em que ele deu a entrevista), Israel tinha estado fora do Líbano e apenas 11 israelenses foram mortos – todos soldados – e mesmo assim, nas fazendas de Shebaa, área ainda sob ocupação israelense.

“O ataque contra os militares israelenses, que serviu de detonador do conflito, é algo comum onde há tensão fronteiriça, em várias partes do mundo”, disse na ocasião. “Com a nova ocupação, mais de 100 israelenses já foram mortos. Então, é óbvio que o melhor para os israelenses é não ocupar o Líbano. E o mesmo se aplica aos territórios palestinos”.

Além dessa verdade de que terrorismo suicida não é primariamente um produto do fudamentalismo islâmico, Pape expôs mais fatos no livro: ataques suicidas ocorrem como parte de campanhas coerentes organizadas por grandes organizações com significativo apoio público; toda campanha de terrorismo suicida costuma ter objetivo claro, secular e político – o de forçar uma democracia moderna a retirar forças militares de territórios encarados como pátria pelos terroristas.

Como restaurar o bom senso

O cientista político americano também observa que, apesar da retórica das democracias, inclusive os EUA, elas em geral fazem concessões aos terroristas suicidas. Se o terrorismo suicida é uma forma de luta em ascensão no mundo, isso se deve justamete ao fato de que os terroristas aprenderam que costuma ser eficaz.

Para Pape, a rede al-Qaeda enquadra-se no padrão estudado por ele. Embora a Arábia Saudita não esteja sob aberta ocupação militar americana, o grande objetivo da rede ali é a expulsão das tropas dos EUA da região do Golfo Pérsico. Assim, os ataques de adeptos de Osama bin Laden nesse país e na região como um todo têm sido contra militares americanos.

A conclusão, para mim, é óbvia. Está errado o rumo do governo Bush em relação ao terrorismo, mas não será mudado enquanto continuar o atual grupo detentor do poder, já que serve a ele política e eleitoralmente. Ao contrário de Israel, que a cada dia vê a situação ficar pior, os americanos comuns tendem a tomar consciência dessa realidade. Assim, quando o bom senso prevalecer, a arma do terrorismo suicida deixará de ser necessária.

 

Published in: on março 26, 2008 at 11:06 am  Deixe um comentário  

Ted Turner e os pecados da mídia

“Se essas regras estivessem em vigor em 1970 eu não teria podido iniciar a Turner Broadcasting ou, 10 anos depois, lançar a CNN.” Essa afirmação, feita há quatro anos pelo ex-magnata de mídia Ted Turner, num artigo para o Washington Post, ratificou sua frontal oposição às reformas discutidas no governo Bush para beneficiar os cinco impérios de mídia que controlam o que os americanos vêem, lêem e ouvem.

Turner ainda era então o maior acionista da Time Warner (maior dos cinco impérios), por isso ressalvou que falava em seu próprio nome e não pela corporação. Na época estava demissionário da vice-presidência e vendia parte de suas ações. Os cinco impérios de mídia dominantes no mercado estavam unidos num lobby devastador para aprovar o relaxamento das regulamentações ainda em vigor.

Integravam a Comissão Federal de Comunicações (FCC), que discutia e fazia cumprir as regras, três republicanos – todos a favor do relaxamento que favorecia as grandes corporações, entre eles o próprio presidente Michael Powell (cujo pai, Colin Powell, era secretário de Estado depois de ter integrado o conselho da Time Warner) e dois democratas, ambos contrários a boa parte das mudanças propostas.

O debate que nunca houve

Críticos da reforma, dentro e fora da FCC, queriam estender o prazo da decisão além da data fixada antes (2 de junho de 2003), para que o público pudesse tomar conhecimento da questão e se envolver no debate – exatamente o que temiam os grandes impérios e seus aliados, majoritários na comissão. Sob a pressão do governo Bush o prazo foi mantido, mas depois o Senado acabaria por rejeitar parte das propostas.

Entre os piores efeitos estavam o aumento do número de emissoras de TV que uma companhia pode ter e também as restrições que impediam uma corporação de ser dona, no mesmo mercado, de canais de televisão e jornais. Para os críticos da mudança, as restrições da regulamentação ajudavam a garantir tanto a liberdade de expressão como a diversidade cultural e de opiniões.

Turner explicou: “Sob as regras propostas, um jovem empresário de mídia que tente começar não conseguirá comprar uma estação UHF, como fiz. Estarão todas vendidas. E mesmo se o conseguisse, não bastaria. Pois ainda teria de ter boa programação e boa distribuição – ambas controladas pelos conglomerados, que ficam com o melhor e deixam o pior para outros, se é que deixam alguma coisa.”

Com base na sua experiência pessoal, Turner observou ser difícil competir quando seus fornecedores são subsidiárias de seus concorrentes. “Nós compramos a MGM e mais tarde vendemos a Turner Broadcasting à Time Warner, pois ficamos praticamente sem opções. Os grandes estavam ficando maiores. E os pequenos estavam desaparecendo. Tínhamos de ter acesso à programação para sobreviver.”

Coporações não criam, só copiam

Muitas outras companhias independentes de mídia, segundo o fundador da CNN, foram engolidas pela mesma razão – porque não tinham tudo o que precisavam, enquanto seus competidores tinham. O novo clima tende a encorajar ainda mais fusões e será ainda mais hostil às empresas menores, segundo advertiu o criador da CNN.

“Sem as pequenas companhias, perdem-se grandes idéias”, argumentou, lembrando o início de sua empresa. Nenhuma grande corporação ousara antes de Turner, fora do eixo dominante Nova York-Los Angeles, criar uma rede de TV dedicada 24 horas por dia ao jornalismo, hoje uma idéia copiada em toda parte e explorada nos EUA por três impérios gigantes (Time Warner, Fox e GE-NBC).

Ele também destacou que grandes corporações evitam riscos e confundem lucro a curto prazo com valor a longo prazo. Além disso, matam a programação local, por ser onerosa, e impingem a nacional, barata, ainda que vá contra os interesses locais e os valores da comunidade. E em vez de idéias novas, arriscadas, seus executivos preferem esperar e depois copiar e imitar a pequena que ousou e teve êxito.

Cobertura da guerra, o exemplo

“E se pequenas empresas desaparecem, de onde virão idéias novas?” Mesmo “idéias novas para a nossa democracia”, disse Turner, só podem vir da diversidade noticiosa e reportagens vigorosas. E sob as regras anunciadas, haverá mais fusões e notícias compartilhadas – demissão de repórteres ou, em outras palavras, “redução da força de trabalho que nos ajuda a ver os problemas e a pensar nas soluções”.

Turner citou o exemplo da uniformidade da mídia no noticiário do Iraque e a exclusão deliberada em algumas redes das opiniões contrárias à guerra – “como se apenas marginais criticassem a guerra, embora até João Paulo II o tenha feito”. As novas regras da FCC, segundo ele, davam mais poder aos que suprimem idéias e forçavam notícias positivas para ganhar amigos no governo.

Para ele, democracia pressupõe diálogo amplo e, como escreveu Hugo Black na Suprema Corte, “a Primeira Emenda apóia-se na suposição de que a disseminação mais ampla da informação, de fontes diversas e antagônicas, é essencial ao bem estar do público”. Corporações cuja única meta é o lucro – disse Turner – têm de ser forçadas por regras corretas a também servir ao interesse público mesmo quando busca o lucro.

Turner continua ousado mas mudou de vida. Hoje é grande proprietário de terras (em seis estados do país). Numa entrevista à Reuters em setembro de 2006, ele estranhou a obsessão dos EUA contra a pretensão do Irã de ter arma nuclear. “Eles são um país soberano. Nós temos 28 mil bombas. Por que não podem ter 10? Israel tem cerca de 100. A Índia e o Paquistão têm. A Rússia também”.

 

Published in: on março 25, 2008 at 2:40 pm  Comments (1)  

Bush, Blair e a grande farsa

Ainda a propósito do 5° aniversário da guerra de Bush no Iraque, vale lembrar que mesmo depois de confirmada pelas equipes de inspetores da CIA (lideradas por David Kay e Charles Duelfer) a inexistência das ADM (armas de destruição em massa) invocadas como pretexto para o “ataque preventivo”, a grande mídia dos EUA – submissa desde o início, por omissão ou cumplicidade – continuou a acobertar a mentira.

Manteve tal posição depois do relatório de Kay, que ainda deixava alguma dúvida (leia aqui a análise inicial do The New York Times), e em seguida aos dois relatórios minuciosos de Duelfer, já então conclusivos, pois confirmaram as suspeitas negativas sem nada acrescentar em contrário (leia a cobertura posterior do mesmo Times). Isso ajudou Bush a enganar os americanos na eleição de 2004. A mesma mídia não quis acordar para a fraude nem após ser revelado na Grã-Bretanha o memorando secreto sobre o encontro Bush-Blair de janeiro de 2003.

Só três anos depois, a 27 de março de 2006, quando mais de 2.400 soldados americanos já tinham morrido na guerra de Bush (hoje os mortos são 4.000, fora os 30 mil aleijados, sem pernas ou braços, transformados em deficientes físicos ou mentais), o New York Times achou afinal que já era tempo de reconhecer o memorando britânico que escancarou a fraude das ADM como pretexto fabricado pelo governo Bush.

Entre a fantasia e a realidade

Enquanto fingia que o memorando não existia, a imprensa americana abraçava a fantasia bushista de que o presidente “acreditava sinceramente” nas ADM – e que, além dele, também o antecessor Clinton e outros países, até a ONU, estavam convencidos disso. Na verdade, nenhum país acreditou de fato na lorota. Eles e a ONU prontificavam-se a apurar as denúncias dos EUA, sem conseguir confirmá-las.

O governo Bush, que exorcizava quase toda ação do antecessor, repetiu com insólita insistência ter sido Bill Clinton e não Bush o presidente que assinou a lei na qual foi declarada a política pela “mudança do regime” do Iraque. De fato, Clinton caíra na armadilha neoconservadora. Os neocons, usando o Congresso de maioria republicana, aprovaram a lei; e o enfraquecido Clinton, sem maioria no Congresso, não ousou vetá-la.

Em outros países, a maioria das agências de inteligência questionava a fantasia das ADM, mas aqui e ali houve relatórios que consideraram a hipótese – em geral após o recebimento de documentos disseminados pelos EUA. Na ONU, o inspetor-chefe Hans Blix levava a sério cada informação do governo Bush; mas enviava a equipe de inspeção aos locais citados sem comprovar a autenticade de qualquer denúncia.

O Times e o memorando

Estranho mesmo foi a submissão da grande mídia das corporações ao optar pela fantasia bushista – usando gente leviana como Judith Miller como receptadora de vazamentos (hoje é sabido terem sido falsificações dos neocons do Pentágono). Iam para as primeiras páginas como furos de reportagem. O furo de verdade viria em 2006, na imprensa londrina: o memorando secreto de Downing Street.

Diante do documento, até o Times nova-iorquino hesitou nos EUA. Só o reconheceu com meses de atraso (leia a queixa do colunista Paul Krugman, no mesmo Times). A reportagem do dia 27 de março de 2006, assinada pelo correspondente Dan Van Natta Jr. (leia AQUI), foi enviada precisamente de Londres. Estava em linguagem sóbria e contida, mas deixava claro que ao se reunir a 31 de janeiro de 2003 com Blair na Casa Branca, Bush já tinha decidido invadir o Iraque.

O memorando continha as anotações feitas por David Manning, conselheiro de política externa de Blair, sobre uma reunião de duas horas na Casa Branca. Como já tinha decidido invadir, com ou sem ADM, Bush já rejeitava até a hipótese de se propor uma segunda resolução no Conselho de Segurança da ONU. Alegava que o Iraque já estava avisado, “ou se desarma, ou será invadido”.

Conforme o memorando, a arrogante demonstração de força imperial batizada de “Choque e Horror” já tinha data e hora. Mas Blair ainda insistiria na segunda resolução – com o que apenas forçou Bush a adiar a guerra, de 10 para 19 de março. Ele o fez para a Grã-Bretanha poder engolir a coisa sem mais resistência; paralelamente, continuou o jogo em fevereiro, fingindo que a decisão ainda seria tomada.

Como fabricar provocações

Van Natta contou no “Times” ter analisado, palavra por palavra, as cinco páginas do texto do memorando britânico, que até então a grande mídia dos EUA ainda fingia não existir. Em janeiro de 2003, ao ser redigido, o documento só circulara entre os mais altos assessores de Blair. E a julgar pelo que dizia, ambos – Bush e Blair – estavam certos de que a guerra ia ser um “passeio”.

Mas os dois tinham medo de não serem encontradas as armas inventadas. Tanto que chegaram a pensar em várias provocações. Uma delas consistiria em pintar um avião-espião americano com as cores da ONU na esperança de que fosse atacado pelo Iraque – o que “justificaria” a ação bélica Outra idéia era o assassinato de Saddam Hussein (no texto não fica claro de quem eram as propostas).

Em nenhum momento daquela reunião Bush-Blair um dos dois falou em achar as tais armas de Saddam. Não manifestavam qualquer preocupação com o que seria a suposta ameaça, capaz de justificar a invasão e ocupação de um país. Depois da reunião, diante dos jornalistas, os dois diriam que Saddam era “um perigo” para o mundo e tinha de ser “desarmado”. Só que as armas dele não existiam.

 

Published in: on março 25, 2008 at 2:17 pm  Comments (1)  

Antes de Saddam virar bicho-papão

Grã-Bretanha e Israel a favor de intervenção dos EUA no Iraque; França e Alemanha contra. O presidente dos EUA pressiona e acusa o presidente do Iraque de ser um ditador sanguinário. Agentes da CIA no Cairo, Damasco, Teerã e Bagdá orientam opositores ao regime do Iraque, instalam base de operações no Kuwait, interceptam as comunicações do governo e despacham ordens aos rebeldes.

Política para mudar o regime do Iraque há cinco anos, em março de 2003? Não. Política para mudar o regime 40 anos antes, em 1963. O presidente dos EUA era John Kennedy. Tinha herdado a lambança do antecessor Dwight Eisenhower. O presidente do Iraque, Abdel Karim Kassem, general que derrubara a monarquia cinco anos antes e ameaçava interesses petrolíferos anglo-americanos, além de brigar com o Kuwait e comprar armas, de olho no crescente poderio militar de Israel.

O paralelo foi feito às vésperas da guerra de 2003, em artigo no New York Times, pelo escritor Roger Morris, autor de biografia do presidente Richard Nixon e então dedicado a um livro sobre a política clandestina dos EUA no Centro e Sul da Ásia. (Veja o texto do TIMES). O detalhe significativo é que entre os conspiradores apoiados pela CIA estava Saddam Hussein, cujo Partido Baath tomaria o poder em 1968 e o faria presidente mais tarde.

Para Kennedy, foi “um ganho”

Entre 1958 e 1960 o governo Eisenhower tinha apoiado o regime repressivo de Kassem na esperança de contrapo-lo ao egípcio Gamal Abdel Nasser, então o bicho-papão encarado como ameaça maior aos interesses anglo-americanos na região. Kassem passara a ser visto em Washington como líder perigoso que tinha de ser derrubado porque desafiava abertamente a posição dominadora dos EUA no Oriente Médio.

O papel dos EUA no golpe de 1963, segundo Morris, foi pouco notado à época, mas ficou claro em investigação posterior do Senado americano e em trabalhos de jornalistas e historiadores como David Wise, autoridade em CIA. Depois de Kassem ser deposto e executado, em seguida a julgamento sumário, um assessor do Conselho de Segurança Nacional, Robert Komer, escreveu a Kennedy: “Um ganho para o nosso lado”.

Morris integrava o mesmo Conselho de Segurança Nacional (nos governos Johnson e Nixon) e ali ouviu autoridades da CIA gabarem-se das relações estreitas com o Partido Baath, facção política relativamente pequena, mas influente no Exército. Talvez por isso a CIA tenha apoiado o golpe baathista de 1968, que deixou Saddam – que estivera exilado no Egito por participar de atentado contra Kassem – às portas do poder.

A visita de Rumsfeld em 1983

À frente do Pentágono, como secretário da Defesa pela segunda vez, veterano de batalhas políticas e burocráticas, Donald Rumsfeld aos 71 anos era em 2003 o mais importante falcão-residente do governo Bush. Tão experiente que coubera a ele 20 anos antes (1983) apertar a mão de Saddam Hussein (já ditador e já usando armas químicas e biológicas) em Bagdá, para reatar as relações diplomáticas dos EUA com ele. (A foto histórica do aperto de mão pode ser vista AQUI no website do National Security Archive). 

Antes, Rumsfeld tinha atuado na política (assistente parlamentar a partir de 1957, depois deputado oito anos por Illinois, até 1969) e servido a dois governos, dos presidentes Richard Nixon (como assessor na Casa Branca) e Gerald Ford (assessor e depois secretário da Defesa), acumulando experiência ainda na área empresarial – como alto executivo de grandes corporações.

Falcão impenitente e ambicioso, vivera na cúpula do governo a transição da guerra fria para o tempo do que os EUA chamaram de “estados delinqüentes” (rogue), sem jamais se desviar da meta de aumentar os orçamentos militares, criar e modernizar os sistemas de armas. Rumsfeld dedicava-se à “nova estratégia militar para o século 21” quando veio o 11 de setembro de 2001.

Apesar de ter liderado a aproximação com Saddam (o Irã era o inimigo comum de Washington e Bagdá), a figura do ditador tornou-se depois quase uma obsessão. E em seguida ao 11/9, mesmo depois de receber os dados de inteligência (a informação de que os ataques terroristas eram obra de Osama Bin Laden) mandou um assessor colocar Saddam como próximo alvo, ao lado de Bin Laden.

O pior chefão do Pentágono

Nos dias e semanas seguintes o vice Dick Cheney declarou não haver ligação entre o fundamentalista fanático e o governo secular de Bagdá, mas Rumsfeld insistiu – e deu força no Pentágono ao adjunto Paul Wolfowitz, partidário da tese, e ao conselheiro Richard Perle, diretor do escritório de política de defesa, entregando-se à campanha pública de ataques ao Iraque e demonização de Saddam.

A primeira paixão de Rumsfeld ao voltar ao Pentágono pelas mãos do presidente George W. Bush fora a reativação do sistema de defesa antimísseis – abandonado pelo governo Clinton devido ao fim da URSS. Conseguiu o objetivo mesmo depois que o terrorismo – e não uma potência com foguetes sofisticados e ogivas nucleares – revelou-se a ameaça imediata.

Rumsfeld era coerente com seu pensamento estratégico: em 1998, no segundo mandato de Clinton, a comissão independente Painel sobre Sistemas Estratégicos, para a qual Reagan nomeara Rumsfeld ainda na década de 1980, publicou seu relatório sobre o futuro dos mísseis balísticos e considerou mais grave do que se pensava a “ameaça crescente de países como Coréia do Norte e Irã.

Na carreira empresarial, ele integrou a cúpula de corporações como Aerospace, G. C. Searle, Tribune Co., General Instruments, Gilead Sciences, Amylin, Allstate, Sears, Kellogg, Asea Brown Boven. Após a demissão no Pentágono (2006), foi para a Hoover Institution, em Stanford (2007). Além de ter sido o mais novo (em 1974) e o mais velho (2006) secretário da Defesa, foi ainda o mais controvertido na história do país.

Published in: on março 22, 2008 at 6:37 pm  Comments (1)  

O escândalo A-12 e o aviso de Eisenhower

A decisão do Pentágono de cancelar o contrato para a construção do controvertido bombardeiro A-12, o Stealth, surpreendeu os americanos em janeiro de 1991, mas era apenas mais um episódio no permanente escândalo de corrupção produzido pelo chamado complexo industrial-militar – para o qual o presidente Dwight Eisenhower chamara a atenção do país ao deixar a Casa Branca 30 anos antes.

O A-12 era construído por dois gigantes da indústria bélica – a McDonnell Douglas e a General Dynamics. Ao ser cancelada a encomenda (iniciativa do então secretário da Defesa Richard Cheney) as duas já tinham consumido mais de US$ 1 bilhão além do orçamento original do contrato. A Douglas e a General Dynamics descumpriram todos os prazos e preços mas até então o governo vinha tolerando a situação, provavelmente porque já investira dinheiro demais.

A decisão significou enorme prejuízo ao contribuinte. E ficou a dúvida se seria o fim de escândalos assim (não foi). O caso era típico: os fornecedores do Pentágono apresentavam orçamento deliberadamente baixo para aprovar o projeto no Congresso e ajustavam os custos nos meses e anos seguintes, quando gastos exorbitantes já tinham sido feitos, tornando impossível um recuo.

Sinistra aliança de interesses

No seu discurso de despedida da presidência, em 1961, o general Eisenhower – um dos mais ilustres chefes militares da história do país, ex-comandante supremo das forças aliadas na II Guerra Mundial e ex-chefe do Estado Maior Conjunto – tinha alertado os americanos para a ameaça da conjugação de interesses entre o Pentágono e as grandes corporações. (Segundo historiadores, o texto original incluía ainda o Congresso, através de parlamentares ligados à indústria armamentista.)

Conhecedor profundo da atividade militar e dos bastidores do Pentágono, Eisenhower acostumara-se relutantemente – a julgar por aquele discurso – à promiscuidade nas relações entre civis e militares dos escalões superiores do Pentágono, os altos executivos da indústria armamentista e certas personalidades do Congresso. Passou a ver nessa conjugação de interesses também uma ameaça à paz mundial.

Ironicamente, Eisenhower era republicano, fora eleito pelo partido do “big business”. Vinte anos depois, outra dupla de republicanos, Ronald Reagan e George Bush (o pai), iniciaram uma era de desregulamentação que contribuiria ainda mais para agravar a ameaça que tinha assustado o general vitorioso do desembarque na Normandia.

Às vésperas das eleições de 1988, por isso mesmo, um dos temores do candidato Bush era precisamente que os adversários democratas explorassem a sucessão de escândalos de suborno, fraude e corrupção que abalou o Pentágono durante os oito anos do mandato de Reagan. Mas a oposição democrata foi incompetente nesse campo. Escândalos daquele tipo continuariam a freqüentar as manchetes.

A conspiração dos poderosos

Altas autoridades, empreiteiras, fornecedores, consultores, parlamentares etc. Na generalizada promiscuidade, destacavam-se em papel relevante chefes militares que ajudam determinadas corporações para, nos anos seguintes, assumirem nelas funções no nível mais elevado. Os exemplos são sempre numerosos.

As corporações buscam militares do Pentágono não apenas pelos conhecimentos especializados, mas também pelos contatos muito convenientes que eles conservam na burocracia do departamento, garantindo concorrências, revisão de preços e prazos, pagamentos etc. E, freqüentemente, de forma pouco ortodoxa.

Um personagem exemplar foi o general Alexander Haig. Após ocupar postos importantes na Casa Branca (chefia de gabinete do presidente, Conselho de Segurança Nacional), no Pentágono (chefe do Estado-Maior Conjunto) e outros, ele ganhou a presidência da General Dynamics (a mesma do A-12), de onde sairia para se tornar secretário de Estado de Reagan. A porta de vai-e-vem entre cargos oficiais e a cúpula das corporações traz graves prejuízos para o contribuinte, sugerindo promiscuidade alimentada por suborno.

O maior comprador do mundo

Dos 100 maiores conglomerados americanos em 1991, pelo menos 50 estavam entre as empresas que mais recebiam recursos do Pentágono – considerado nos meios empresariais o maior comprador de produtos e serviços do mundo. Em 1986, sexto ano do mandato de Reagan, 45 das 100 maiores fornecedoras de armas foram investigadas criminalmente nos EUA.

Entre elas estavam tanto a General Dynamics como a Douglas. E mais: Boeing, Rockwell, General Electric, Lockheed, Grumman, United Technologies, Hughes, Martin Marietta, Electric Boat etc. (obviamente, depois houve muitas compras e fusões entre elas). Mas o pior naquilo que Eisenhower chamou de complexo militar-industrial é que as onerosas e sofisticadas equipes de pesquisa, como os importantes parques industriais dependem da continuidade dos contratos com o Pentágono.

Com o cancelamento do contrato do A-12 as ações da Douglas despencaram e a General Dynamics demitiu em massa. As duas, como as demais que negociam com o Pentágono, trabalhavam em regime frenético: terminado um sistema de armas, passavam a outro. Elas sobrevivem graças ao desenvolvimento contínuo dos arsenais. O fim da guerra fria não tirou o sono delas. Socorridas por Bush I (hoje na cúpula do grupo Carlyle, que controla várias), já faturam bilhões com a retomada (com Bush II) da Guerra nas Estrelas de Reagan (a pretexto de deter a “ameaça” do Irã).

Published in: on março 21, 2008 at 1:27 pm  Comments (2)  

Ainda os espiões de Bush na ONU

No artigo de terça-feira, 18 (“Os espiões de Bush na ONU”), faltou dizer que houve investigação de alto nível (mas inócua) na ONU para apurar a espionagem dos EUA (sobre diplomatas de países do Conselho de Segurança) às vésperas da invasão do Iraque, em março de 2003. Com a ação dos espiões, noticiada no exterior e omitida na mídia americana, o propósito do governo Bush era ganhar a votação no Conselho – o que não aconteceu.

A FAIR (iniciais em inglês de “Honestidade e Precisão na Reportagem”), organização que monitora a mídia pela esquerda, criticou na época a omissão dos jornais e redes de TV dos EUA. A informação saíra domingo, 2 de março de 2003, no Observer de Londres, que reproduziu documento interno no qual a secretíssima NSA (Agência de Segurança Nacional dos EUA) ordenava a intensificação da espionagem.

O Washington Post e o Los Angeles Times foram os únicos a se referirem ao assunto nos EUA – assim mesmo, apenas dois dias depois, a 4 de março, e por ter sido feita uma pergunta sobre o tema na sala de imprensa da Casa Branca. O então porta-voz, Ari Fleisher, limitou-se a alegar que a política oficial do governo era não comentar – nem negar, nem confirmar – fatos que envolvam operações de inteligência.

Búlgaro gosta de ser espionado

O New York Times sequer publicou a resposta de Fleisher, enquanto os dois jornais de Washington e Los Angeles a citavam em textos nos quais consideravam o assunto sem relevância, já que “é sabido” serem os diplomatas da ONU alvo da espionagem dos EUA. Havia nos artigos frases como “é rotina”, “vem com o território”, “seria ingenuidade alguém achar isso novidade”.

A reação mais insólita registrada pelo Los Angeles Times foi a do embaixador Stefan Tavrov, da Bulgária, favorável ao governo Bush e à invasão do Iraque. “Eu me sentiria até ofendido se não me grampeassem”, disse o idiota. Outros países não acharam divertida a revelação do Observer. O embaixador chileno Cristian Maquieira, por exemplo, considerou o caso “grave” e até “ultrajante”.

Segundo a FAIR, o então presidente do Chile, Ricardo Lagos, exigiu explicação ao primeiro-ministro britânico Tony Blair, pois o memorando interno da NSA também se referia a uma agência de espionagem “amiga” – obviamente, da Grã-Bretanha – que participara da operação dos EUA. Os alvos principais da interceptação de comunicações eram os diplomatas do Chile, Angola, Camarões, Guiné, Paquistão e México.

“Não vem com o território”

O paradoxo, disse a FAIR, é que a Casa Branca pedira a mais de 60 países para expulsar centenas de diplomatas do Iraque considerados pela CIA (central de inteligência dos EUA) suspeitos de espionagem. E menos de duas semanas antes, a missão americana na ONU expulsara Mohammad Hassan Allawi, correspondente na ONU da agência iraquiana INA. Essas duas notícias saíram no New York Times, que omitiu a outra.

Também vale a pena lembrar que, como país anfitrião da ONU, os EUA não têm o direito de espionar (sugestão contida na frase “vem com o território”, usada por um diplomata). Ao contrário, obrigaram-se no acordo de sede – assinado com a ONU, para a organização funcionar no seu território, em Nova York – a cumprir obrigações e deveres ali especificados.

Pelo artigo IV, Seção 11 (c) desse acordo, conforme lembrou o então presidente da UNCA (Associação dos Correspondentes da ONU), Tony Jenkins, em carta ao secretário de Estado Colin Powell, os EUA não podem criar obstáculos ao livre trânsito, indo ou voltando da sede da organização, de qualquer representante da imprensa acreditado junto à ONU.

A volta da “caça às bruxas”

Para a UNCA, esse dispositivo do acordo de sede foi violado pelos EUA com a carta da missão americana que deu ultimato ao correspondente Mohammad Allawi, da agência iraquiana de notícias, para abandonar o país. Se achavam que havia abuso da parte dele, com “atividades fora de sua capacidade oficial”, teriam de cumprir as formalidades previstas no acordo.

É o que dispõe o Artigo IV, Seção 13 (b), conforme a carta de Jenkins. O secretário-geral da ONU, Kofi Annan, teria de ser avisado e, nesse caso, estar presente aos procedimentos, em nome da pessoa que era alvo da ação do país anfitrião (Allawi). Ao contrário disso, sequer foi dado ao jornalista o direito de conhecer as acusações, muito menos o de ver as provas existentes ou confrontar seus acusadores.

A conduta adotada fora a do tempo da caça às bruxas. Só pelos jornais – “em notícias sem citação de fonte, material de terceira mão”, como escreveu Jenkins a Powell – Allawi soube que era acusado de “espionar para o governo do Iraque” (o que foi dito no Washington Post, citando fonte anônima). É óbvio que o jornalista poderia até criar incidente internacional, pois a ONU manteve seu credenciamento como correspondente.

 

Published in: on março 20, 2008 at 1:30 pm  Deixe um comentário