O mau jornalismo de Hearst e Pulitzer

A primeira coisa difícil de entender em relação aos primeiros tempos do que se batizou nos EUA de “yellow journalism” (jornalismo amarelo) é por que, se nasceu nos dois lados da briga entre os jornais de William Randolph Hearst, o cidadão Kane, e os concorrentes de seu rival Joseph Pulitzer, um dos magnatas acabaria condenado à execração pública e o outro celebrizado como prêmio de excelência no ofício.

Dificilmente alguém ousaria contestar que, se praticado hoje, o jornalismo de Pulitzer (1847-1911) dificilmente ganharia um prêmio Pulitzer, cuja concessão é de responsabilidade da Escola de Jornalismo da Universidade de Columbia, criada por ele. O jornalismo do “New York World” de Pulitzer, de fato, não era diferente do praticado pelo rival “New York Journal”, de William Randolph Hearst (1863-1951).

Os excessos de Hearst são conhecidos em especial graças ao talento do cineasta Orson Welles, ainda que seu filme – “Cidadão Kane”, de 1942, um marco na história do cinema – não tenha sido declarado explicitamente uma biografia dele. Na guerra da circulação entre Hearst e Pulitzer, os dois lados não hesitavam sequer em contratar quadrilhas de gangsters para explodir os caminhões de distribuição do rival.

Quadrinhos entram na disputa

Na questão específica da cor amarela, a iniciativa ironicamente foi de Pulitzer, ainda no século 19, e não de Hearst. Inventadas as máquinas de quatro cores na década de 1890, desenhos e cartuns de humor tornaram-se muito populares – “The funny pages”, ou simplesmente “The funnies”. Hearst passou a superar o rival nesse campo, com presença forte da sátira política.

O desenhista Richard Felton Outcault (1863-1928), inicialmente um artista técnico, atraíra a atenção de Thomas Edison, que em 1889 o contratara para integrar o grupo dedicado a exposição itinerante sobre a luz elétrica. Quando a viagem de Edison se estendeu a Paris, Outcault passou alguns meses no Quartier Latin, alimentando o sonho de tornar-se pintor profissional e somar-se à explosão criativa do período.

De volta aos EUA, no entanto, contentou-se inicialmente com um emprego na revista “Electrical World”. Atento aos “Funnies”, começou a enviar desenhos aos jornais. O “World” de Pulitzer publicou sua primeira colaboração em 1894. No ano seguinte, o jornal o contratou para desenhar tira regular, para a qual a inspiração dele eram os imigrantes estrangeiros que transformavam o panorama da cidade.

Dos personagens criados então, o que conquistou o público foi um garoto que “falava” não na forma de balões como os quadrinhos de hoje, mas em textos (linguagem popular, deliberados erros de ortografia) colocados em sua camisola larga e comprida. Antes, era em preto e branco. Depois, a camisola mudava de cor – do marrom claro ao azul, tons desbotados, pouco definidos.

Nasce um herói diferente…

Quem controlava as cores na impressora do “World” era um certo Charles Saalberg. Descontente com o que estava sendo feito, ele resolveu tentar uma cor amarela bem viva na camisola do menino. Foi um sucesso. O personagem – que, apesar de quase bebê tinha nome, Mickey Dugan – virou então o “yellow kid” (garoto amarelo), tornando-se a atração maior do jornal de Pulitzer.

Passou ainda a simbolizar os extremos a que chegavam Pulitzer e Hearst na guerra de circulação. E a cor usada na tira tornou-se emblemática do jornalismo que os dois praticavam na obsessão de vender jornal e fazer dinheiro, inclusive pela ferocidade com que brigaram pelo personagem.

O garoto seria até personagem de um espetáculo da Broadway. Restou a Hearst roubar Outcault do rival, com proposta irrecusável. “Porque o suplemento colorido do ‘Journal’ de domingo é a melhor coisa que existe na terra?”, dizia uma legenda depois da troca. O desenhista só pediria registro do copyright em 1896. Até lá, ia de um lado para o outro. E afinal Pulitzer decidiu publicar o garoto sem Outcault, a pretexto de que era o dono, pois o publicara primeiro.

A história do “yellow kid” não pára aí. Na esteira de Outcault vieram os “Katzenjammer Kids” de Rudolph Dirks – rebatizados de “The Captain and the Kids” (no Brasil, “Sobrinhos do Capitão”). Os personagens chegaram aos nossos dias – e a revolução dos quadrinhos foi exportada dos EUA para o mundo. A cor amarela continuou a ser a cor que definia o jornalismo de escândalo, na linha de Hearst e Pulitzer.

… e a mídia fabrica uma guerra

Nada impede que alguém, como eu, tenha simpatia tanto pela trajetória de Outcault como pelo amarelo. Ambos me fascinam. Mas os abusos de Hearst e Pulitzer foram longe demais. O feito maior deles seria fabricar em 1898 a guerra com a Espanha, que a ficção de Orson Welles, pouco interessada nos detalhes, só atribui a Charles Foster Kane – ou seja, Hearst.

A verdade histórica, no caso, está menos com Hollywood do que com um desenhista menos conhecido que à época perpetuou para gerações futuras um cartum eloquente. Esse artista anônimo desenhou dois garotos com camisolas amarelas idênticas – um com a cara de Pulitzer, o outro com a de Hearst. Os dois, a brincar com cubos de letras, formam juntos a palavra W-A-R (guerra).

Esse cartum retratou a realidade daqueles dias. A guerra dos EUA contra a Espanha foi fabricada pelos dois magnatas de mídia. Eles se somaram na obsessão de motivar os americanos a apoiar aquela guerra. Transformaram o coronel Ted Roosevelt em herói nacional – e, mais tarde, um presidente obcecado em criar um império a partir da tomada de Cuba, Porto Rico e Filipinas.

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Published in: on fevereiro 29, 2008 at 1:28 pm  Comments (2)  

A eleição nos EUA e as agressões da TV

As atuais agressões na guerra dos “talk shows” do rádio e da TV nos EUA fazem lembrar um episódio ocorrido no ano passado no programa “Fox News Sunday”, da rede do império Murdoch de mídia. O senador democrata Jim Webb, ante a pressão do apresentador Chris Wallace, que esqueceu o passado liberal e converteu-se ao estilo da casa, protegeu-se recordando observação da colunista Peggy Noonan, conservadora republicana doce e equilibrada.

Noonan e Webb tinham servido a um mesmo governo – o do presidente Ronald Reagan. Mas anos depois ele tornou-se democrata. E ela, pouco confortável com os excessos bushistas. Referindo-se a um diálogo áspero de Webb com o presidente Bush numa festa de Natal na Casa Branca, ela lamentou, mesmo sendo republicana, não haver mais cortesia no governo.

Noonan escrevera sobre isso em dezembro de 2006 no “Wall Street Journal”, onde ainda publica uma coluna. Fiquei surpreso na época por ter sido tão precisa e rigorosa no puxão de orelha público dado no presidente dos EUA. Mais surpreso ainda pelo fato de ter condenado, por tabela, a conduta pouco civilizada de celebridades da TV a cabo – como o prepotente Bill O’Reilly – que envenenam o clima da política americana.

“Não foi isso que perguntei”

Curiosamente, Noonan encarou a cena do rápido diálogo Bush-Webb no Natal de maneira oposta à interpretação da maioria dos jornais. No evento, Webb negou-se a posar para uma foto junto com Bush e outros. Ficou de fora. Ex-fuzileiro naval e ex-secretário Assistente da Defesa, cargos ocupados no governo Reagan, ele tinha antes recebido várias condecorações na guerra do Vietnã, onde servira.

Bush, fujão da mesma guerra do Vietnã, sabia (como o resto do país) que o filho de Webb era fuzileiro e naqueles dias lutava no Iraque. Depois da foto, aproximou-se do senador e perguntou como estava o filho. Webb respondeu que gostaria que estivesse de volta, em casa. Mas Bush rebateu: “Não foi isso o que perguntei. Perguntei como vai ele”. Webb respondeu que isso era entre ele próprio e o filho.

Donos de “talk shows” de rádio e TV, dominados pela direita republicana, festejaram aquilo como um triunfo bushista. Mas a conservadora Noonan, ao contrário, horrorizou-se. “Soou como as habituais agressões no dia-a-dia da TV, e não da parte de Webb”, escreveu ela. “Imaginem se um Abraham Lincoln, nas mesmas circunstâncias, diria a alguém ‘não foi isso o que perguntei’. Ou um JFK, ou um Gerald Ford”.

Quem está no comando

A frase “não foi o que perguntei”, acrescentou ela, vem direto das TVs a cabo, onde muitos americanos estão aprendendo a se apresentar em público e até na vida privada. Âncoras e entrevistadores são ensinados e aprendem que têm de mostrar quem está no controle, quem exige as respostas, quem é implacável na busca da verdade. “Só que não buscam a verdade nenhuma. Buscam dominar”, acrescentou.

Nos novos tempos, disse Noonan, o entrevistador sistematicamente interrompe o entrevistado, tentando deixar claro quem controla a conversa – e ainda prepara armadilhas, esperando flagrar algum escorregão do convidado para fabricar uma notícia. Também interrompe para continuar em foco, prevalecendo sobre os políticos treinados e experimentados que leva ao programa.

Se a câmera não fica no próprio jornalista, praticamente o tempo todo, ele não sobe na carreira. Cada um conhece bem o patrão, sabe que nunca ouvirá dele elogio a uma entrevista esclarecedora, com informações relevantes. O elogio que costuma ouvir é do tipo “Você estava ótimo, engoliu aquele cara, acabou com ele”. Essa é a nova linha das redes “all news” – notícia e “talk show” 24 horas por dia.

Ninguém termina uma frase

Peggy Noonan deu um exemplo de diálogo de “talk show”: “Por que você votou ‘não’?”. “Eu achei que…” “Mas por que você fez isso?” “Bem, as implicações do problema e os méritos dos argumentos pareciam…” “Não foi isso o que eu perguntei”. Qualquer um que tenha visto o “O’Reilly Factor”, da Fox News, conhece a situação. E O’Reilly é imitado porque tem a maior audiência das redes de jornalismo no cabo.

A colunista do “Journal” está convencida de que, por causa desse estilo de jornalismo televisivo, nos últimos 10 anos nos EUA as pessoas não conseguem mais concluir uma frase. “Não é só na TV a cabo, isso estendeu-se às redes abertas, ao governo e começa a afetar as pessoas comuns, encorajadas a um estilo de conversa que não é amistosa nem cortês, parece mais depoimento no tribunal”.

De certa forma, o formato começou a nascer no “Crossfire” da CNN, onde dois âncoras se agrediam (e aos convidados). Tornou-se bem mais agressivo com os O’Reilly, Sean Hannity e Neil Cavuto (da Fox News), Chris Matthews (da MSNBC) e outros. Todos recebem convidados diariamente – chamados não para trazer informações ou dizer coisas relevantes, mas para serem agredidos.

 

Published in: on fevereiro 29, 2008 at 12:50 pm  Deixe um comentário  

Golpes sujos e medidas incendiárias nos EUA

As pesquisas que colocam Hillary Clinton num empate com Barack Obama no Texas e com pequena vantagem sobre ele no Ohio, estados que ela tem de ganhar para continuar com chance, deixam a ex-primeira-dama apavorada. No debate de terça-feira ela fez ataques destemperados, depois de sua campanha baixar o nível veiculando a foto de Obama, em visita à Somália, com turbante e traje típico.

As outras más notícias para Hillary são as pesquisas nacionais: 1. na disputa com Obama, a vantagem é dele; 2. nos confrontos diretos entre cada democrata e o republicano John McCain, Obama seria vencedor mas ela não. O destempero de Hillary tinha começado quando atacou o adversário, em pose de ultrajada, por causa de um folheto distribuído no Ohio, expondo o apoio dela ao Nafta.

No Ohio, NAFTA (Acordo de Livre Comércio da América do Norte) é palavrão – já que exportou para o México boa parte de empregos que companhias dos EUA ofereciam naquele estado. Nos debates Obama destacou esse ponto, já que o acordo de livre comércio foi assinado pelo presidente Clinton. O folheto circulava há semanas, sem qualquer protesto; e subitamente Hillary passou a vê-lo como “golpe sujo”.

Risco de “medidas incendiárias”

Golpes sujos, no entanto, têm vindo da campanha dela. Depois de Hillary ser derrotada na Super Terça-Feira, 5 de fevereiro, e nas 11 disputas seguintes, deve ter concluído que sua candidatura está em situação desesperadora. Observei antes aqui, citando o Sunday Telegraph, que a campanha dela, em estado de pânico, dispunha-se a adotar “medidas incendiárias” (como virar a mesa com superdelegados e inverter a decisão sobre Flórida e Michigan).

No debate anterior Hillary partira para a ofensiva, centralizando as alegações no confronto “palavras x ações” (ele oferecia conversa fiada; e ela, supostas ações passadas). Os tais panfletos, que já então circulavam, diziam o óbvio: o governo Clinton era responsável pelo NAFTA, tema que não a preocupou no debate. Como a posição dela não melhorou nas pesquisas, dois dias depois sentiu-se “ultrajada”.

O grande problema é que a candidata não se conforma em ficar para trás. Parece julgar direito divino sua indicação presidencial pelo Partido Democrata. Não percebe, por exemplo, que se continuar baixando o nível, correrá o risco de não ter o apoio do eleitorado negro, que pode ficar ressentido com a conduta dela e negar-lhe os votos no caso de acabar sendo indicada para a decisão final.

O chumbo grosso da direita

Nem Obama e nem Hillary têm a eleição garantida em novembro. Qualquer que seja o candidato democrata, terá de enfrentar a habitual campanha difamatória dos republicanos – com truques sujos como os comerciais “Willie Horton” (do velho Bush contra Mike Dukakis) em 1988 e os dos barcos “Swift Boat” (de Bush filho contra John Kerry) em 2004.

Em relação a Hillary, os republicanos já passaram anos vendendo ao país uma imagem falsa dela – como mulher calculista e ambiciosa, capaz de qualquer coisa. Já Obama, apesar da chance aferida nas pesquisas, sabe que vai valer tudo. Ele será chamado de “antipatriota”, “terrorista islâmico”, “candidato da Manchúria”. Alguns já começaram esse tipo de ataque, como denunciam vozes progressistas.

O website Media Matters for America observou esta semana que a rede CNN referiu-se a “rumores” sobre o patriotismo do senador negro, mas deixou de dizer que são disseminados pelos republicanos Uma crítica a Obama que se repete nos talk shows de direita é precisamente por ter deixado de usar na lapela, há algum tempo, a bandeira americana (como o patriota Bush).

Vale tudo em truques sujos

No canal Headline News, também do grupo CNN, o comentarista Jonah Goldberg (ultraconservador e filho da infame Lucianne Goldberg, que se orgulha de ter armado a trama Lewinsky do impeachment contra Clinton) aproveitou as acusações de Hillary aos discursos apaixonados de Obama para comparar o senador com Hitler, que supostamente convencia os alemães com belos discursos.

Goldberg também disse, com a intenção de atingir a imagem de Obama, que no QG da campanha dele em Houston há uma bandeira de Cuba com um desenho de Che Guevara. Além disso, cada vez mais repetem-se no rádio e na TV escorregões propositais trocando o nome “Obama” por “Osama” (de Bin Laden) e chamando o candidato, insistentemente, pelo seu nome do meio, “Hussein”.

O elogio há dias do controvertido líder negro Louis Farrakhan (acusado de anti-semita pelo lobby israelense) a Obama gerou uma onda de ataques a ele, feitos por comentaristas e convidados de talk shows – entre eles o mais extremista da Fox News, Sean Hannity. Isso sem falar nos ataques paralelos a Michelle Obama, sua mulher, por ter dito que “pela primeira vez” em sua vida adulta orgulha-se da América.

Published in: on fevereiro 28, 2008 at 8:21 pm  Deixe um comentário