McCain, o fim da farra e o legado de Reagan

O aparente desespero do presidente Bush ao se dirigir ontem ao país devia servir ao menos para refrescar a memória dos EUA para a fúria dos governos republicanos, desde Ronald Reagan (1981 a 1989), contra as regulamentações. Mas não convém alimentar ilusões, já que John McCain (na foto com Reagan em 1987) é o candidato do partido e só neste ano de 2008 já repetiu 18 vezes sua frase predileta: “Os fundamentos de nossa economia são sólidos”.

Quem tomou a iniciativa de lembrar o papel de Reagan foi a colunista Arianna Huffington. Disse ela: “Já no discurso de posse ele fez a declaração célebre de que ‘o governo não é a solução do nosso problema; o governo é o problema’. Vinte e sete anos depois, no meio da pior crise econômica desde a Grande Depressão, (…) aquele grito de guerra anti-governo devia estar sendo julgado. Mas, por incrível que pareça, não está”. (Leia AQUI o artigo no original)

Felizmente a ênfase e a eloquência da presidente da Câmara, Nancy Pelosi, deu o recado no dia 29: “A farra acabou. Acabou o tempo dos ‘paraquedas dourados’ e gordas compensações para executivos de Wall Street, da disparidade dos salários obcenos de CEOs, das instituições financeiras privatizando e ampliando ganhos, depois nacionalizando os riscos e mandando a conta para os contribuintes.”

O fracasso da política de Bush

A democrata Pelosi, da Califórnia, é a primeira mulher na história a ocupar a presidência da Câmara – segunda na linha de sucessão, em seguida ao vice-presidente. Ela teve o mérito de marcar posição e, no mesmo pronunciamento, declarar fracassada a política econômica de Bush. “Não é mais necessária qualquer outra prova”, afirmou.

Mas ontem alguns republicanos da Câmara, onde mais da metade da bancada do partido negou os votos ao pacote de Bush e contribuiu para a derrota de seu próprio governo, alegaram ter sido essa decisão uma reação ao discurso de Pelosi e sua ênfase na condenação da atual política. Pelo menos um dos republicanos que votaram “sim” rejeitou a alegação. “É uma desculpa idiota”, afirmou. (Clique na imagem abaixo para ver e ouvir Pelosi)

Pelosi, na verdade, conseguiu reunir mais votos para aprovar o pacote de Bush do que a liderança da bancada governista na Câmara. Naturalmente os adversários republicanos dela não esperavam que, além de dar o apoio solicitado pelo governo adversário em meio à crise, Pelosi ainda fizesse uma declaração e amor aos desmandos econômicos do bushismo durante os últimos sete anos e meio.

O guru da desregulamentação

Já o candidato John McCain orgulhava-se, até agora, de sua dedicação em toda a carreira política à causa da desregulamentação. Daí ter escolhido para seu guru em economia o ex-senador Phil Gramm, que era co-presidente da campanha até julho, quando teve de ser defenestrado por ter desmentido a ameaça de recessão (subestimada por ele como mera “recessão mental”) e ter dito “esta é uma nação de choramingões” (a nation of whiners).

Ainda apontado como o preferido de McCain para secretário do Tesouro, no caso de vitória republicana, Gramm é encarado agora como o gênio do mal que mais trabalhou para a economia do país ter chegado à atual situação desastrosa. Curiosamente, o papel de Gramm, citado com frequência nesta coluna, acaba de ser descoberto em Nova York pelo colunista Merval Pereira, de O Globo.

Mas ele misturou as bolas: referiu-se ao penduricalho enfiado na lei orçamentária (como “Commodity Futures Modernization Act”) por Gramm em 2000, dizendo ter sido já no governo Bush. Na verdade, a posse de Bush foi a 20 de janeiro de 2001 e Gramm botou seu “contrabando” de 262 páginas, como escrevi antes, alguns dias depois da decisão da Suprema Corte que “elegeu” o presidente.

A pretexto de “modernização”, o pacote revogou leis do governo Roosevelt baixadas para prevenir crises iguais à de 1929 – como a que proibia promiscuidade de bancos comerciais e de investimentos. A lambança de Gramm passou ainda a impedir agências reguladoras de fiscalizar novos instrumentos financeiros (instituições como fundos  hedge, derivativos) para garantir que seus ativos eram suficientes para cobrir perdas eventuais do que estavam garantindo.

Fidelidade ao santo padroeiro

O mercado para aqueles instrumentos financeiros sofisticados a que se referia o “pacote Gramm” é estimado em US$ 60 trilhões por ano, quase quatro vezes todo o mercado de ações dos EUA. Ele queria tudo desregulamentado. E não criou tal mundo de conto de fadas só para a Wall Street. Um dispositivo impedia ainda a regulamentação dos mercados de venda de energia, abrindo caminho às fraudes da Enron – onde sua mulher ganhava US$2 milhões por ano.

Concluir, como Merval, que McCain teve uma epifania, “está menos convicto da necessidade de aplicar na prática a teoria do livre mercado”, é só para quem acredita em Papai Noel. Já passou da idade e seu santo padroeiro é Reagan. Além disso, não podemos esquecer que sua carreira política quase terminou ao tentar influir junto aos reguladores, a favor do banqueiro corrupto e corruptor Charles Keating, da Lincoln Banking, no escândalo S&Ls.

Com o teatro da “suspensão da campanha”, McCain buscou criar factóide capaz de mudar o quadro eleitoral desfavorável. Ao tropeçar em Washington nos deputados republicanos em desespero para salvar as próprias cadeiras, percebeu que nada tinha a negociar – e se omitiu na reunião convocada por Bush. Como disse Paul Krugman, vai de um extremo a outro, sem rumo certo – e já admitiu não ter apetite por economia. Ainda deve achar que os fundamentos continuam sólidos.

(Clique abaixo para ver o vídeo do cineasta Robert Greenwald sobre McCain e o desastre econômico)
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Published in: on setembro 30, 2008 at 9:29 pm  Comments (3)  

A chapa republicana e a rejeição de Bush

Em meio ao medo generalizado, depois da rejeição na Câmara, sob a influência da bancada republicana, do pacote de US$700 bilhões do governo Bush para enfrentar a crise financeira, vale a pena reler o que escreveu domingo o colunista Paul Krugman, um economista que não perde de vista os fatores político e partidário nas suas análises econômicas (leia a coluna AQUI).

Ele escreveu antes da decisão, mas já ofereceu a avaliação adequada do reflexo da decisão da Câmara na campanha presidencial. Krugman não é um profeta do caos. Prefere o bom senso. Ele acha que a proposta apresentada domingo pelo secretário do Tesouro Henry Paulson, era muito melhor do que a original. Os remendos profundos, disse, eram suficientes para justificar a aprovação.

Não considerou o plano ideal e nem disse que poria fim à crise. O mais provável, para o colunista do New York Times, é que o próximo presidente tenha de tratar da questão depois com algumas grandes emergências financeiras. Quem, então, estaria bem equipado para o desdobramento seguinte? Barack Obama, bem informado e sensato em temas financeiros? Ou John McCain, que evitava o assunto, dizia-se não familiarizado com a economia, e escolhe mal os assessores?

O fantasma do guru Gramm

McCain assusta o economista Krugman. O principal mentor do candidato em economia – conforme lembrei em post anterior (leia AQUI) – era o ex-senador texano Phil Gramm (foto abaixo), que patrocinava folias desregulamentadoras no Senado e depois decidiu tornar-se lobista. Gramm só não está mais na campanha de McCain porque foi longe demais em suas manifestações públicas.

Em julho último, ao fazer um de seus retratos róseos da economia americana, ele jurou que só havia risco de recessão na cabeça de alguns, “recessão mental”. Não contente com isso, ainda chamou os EUA de “uma nação de choramingões” (leia AQUI). Também acrescentou depois que McCain tinha um plano (feito pelo próprio Gramm) “para reviver o crescimento dinâmico com dramáticas reformas fiscais e redução de gastos”.

Obama ironizou as declarações de Gramm, comparando-o a uma personalidade da TV: “Ele é Dr. Phil da economia”. McCain percebeu então a conveniência de afastar da cena o conselheiro trapalhão, que é também vice-presidente do banco de investimentos UBS. Mas isso não impediu o candidato republicano de continuar convencido de que Gramm é o nome ideal para ser seu secretário do Tesouro, caso chegue à Casa Branca.

Até há menos de duas semanas McCain, na mesma linha de Gramm, continuava garantindo que “os fundamentos da economia são sólidos”. Disse a frase 18 vezes este ano, como um refrão monótono. Seguia o guru arquidesregulamentador: deve-se a Gramm o esforço contra a supervisão dos derivativos financeiros, os instrumentos que afundaram o Lehman Brothers e a AIG, deixando os mercados de crédito à beira do colapso.

O rumo desastroso do candidato

A adesão de McCain à fúria desregulamentadora também levou sua campanha no ano passado, como agora lembrou Krugman, a reunir “impressionante coleção de economistas, professores e líderes proeminentes do conservadorismo” para discutir idéias para sua política econômica. Em destaque especial, no grupo, estava Kevin Hassett, autor (com James Glassman) do livro Dow 36,000: The New Strategy for Profiting From the Coming Rise in the Stock Market (veja a capa ao lado; e saiba mais AQUI sobre o livro). Essa profecia na qual o índice Dow Jones salta para 36.000 pontos e essa “nova estratégia para fazer dinheiro com a próxima ascensão no mercado de ações” soa hoje apenas como fantasia delirante.

Qualquer um que lê jornal sabe hoje o que está acontecendo com as ações: elas estão despencando. Só ontem o Dow afundou quase 800 pontos, caindo para 10.365, cada vez mais distante dos 36.000 de Hassett. A pobreza na qualidade dos assessores econômicos de McCain, segundo Krugman, reflete o estado intelectual despedaçado de próprio Partido Republicano. O colunista acha patética, por exemplo, a proposta econômica dos republicanos da Câmara para resolver a crise financeira.

Refere-se exatamente ao grupo à frente da rebelião na Câmara contra o plano remendado – e melhorado sob pressão – do secretário Paulson. A sugestão do grupo era tentar resolver o problema através da eliminação de impostos sobre os ganhos de capital. Só que instituições financeiras em desordem, conturbadas, por definição não têm ganhos de capital para serem taxados, assinalou Krugman.

Os fundamentos duvidosos

Segundo o colunista, até o presidente Bush, no crepúsculo de seu governo, voltou-se para pessoas relativamente mais sensatas para tomar decisões econômicas. Krugman não é fã de Paulson, mas acha que ele representa um avanço, para melhor, em relação ao antecessor. A esta altura o colunista começa a suspeitar que um governo McCain pode levar as pessoas até a ter saudade da incompetência de Bush.

O estranho, para Krugman, é que nas últimas semanas McCain chegou a ter algumas opiniões sobre economia – mas pouco depois partia para uma direção inteiramente oposta. A 15 de setembro disse, pela  18ª vez este ano, que “os fundamentos da economia são sólidos”. Foi esse o dia do colapso da Lehman e da tomada da Merrill Lynch, quando a crise financeira entrou num palco novo e muito mais perigoso.

Mas três dias depois McCain acusava os mercados financeiros do país de terem virado um “cassino”, exigindo a demissão do diretor da Securities and Exchange Commission (SEC – conheça AQUI o website da reguladora do mercado). A economia moderna, diz o colunista, é perigosa e não pode ser enfrentada com conversa de intimidação e denúncia de malfeitorias. “Terá o sr. McCain a capacidade de avaliação e o temperamento para tratar dessa parte do emprego para o qual se candidata?” – pergunta Krugman.  

Published in: on setembro 29, 2008 at 10:33 pm  Deixe um comentário  

McCain não sabe como livrar-se de Sarah Palin

Ao invés de diminuir, o esforço da campanha republicana para “proteger” Sarah Palin da mídia torna-se mais rigoroso e sofisticado. A esta altura, as dúvidas já parecem a ponto de forçar a revisão da chapa. Se  ficar claro que o desempenho de Palin até agora reflete as qualificações dela, escreveu ontem Bob Herbert no New York Times, McCain e seu partido têm de pensar no país e substituí-la (leia AQUI).

A oposição à permanência na chapa da governadora do Alasca passou a vir também de colunistas conservadores – como Kathleen Parker, que antes refutava as críticas à escolha de Palin mas agora, escrevendo no website da também conservadora National Review, foi contundente ao explicar que as circunstâncias mudaram, com a crise financeira e o surgimento “de um quadro mais complicado”.

“Do que vimos e ouvimos depois da companheira de chapa de John McCain, está cada vez mais claro que Palin é um problema. Tenha ela feito seus estudos de forma apressada ou não (leia AQUI sobre a rapidez dos cursos dela), o fato é que não sabe o suficiente sobre economia e política externa para deixar os americanos despreocupados com uma Presidente Palin, caso venha a ocorrer a eventualidade da promoção dela”, escreveu Parker (leia AQUI).

A saída? So mesmo a renúncia

A colunista Parker lembrou que antes tinha ficado encantada com a escolha de Palin, elogiado seu bom senso, a graciosidade, o charme e até algumas ações no curto período em que foi prefeita e governadora. “Ela era a antítese e a nêmesis da presunção e da grosseria (…), uma feminista diferente, que personalizava a mãe trabalhadora moderna e bem sucedida”.

Foi engraçado enquanto durou, disse Parker, mas as entrevistas recentes de Palin a Charles Gibson, Sean Hannity e Katie Couric revelaram uma candidata sóbria, atraente, confiante – mas simplesmente não é do ramo, está fora de sintonia. “Ninguém odeia mais do que eu dizer essas coisas. Como tantas mulheres, eu estava torcendo por ela, queria o melhor para ela, ansiando por um desempenho brilhante”, destacou.

Parker chegou à conclusão de que “se BS fosse moeda”, Palin teria o suficiente para cobrir as perdas da Wall Street – sendo BS (bullshit) o equivalente, em português, de “bobagem”, se quisermos evitar o chulo. “Como ela é mulher – e a primeira a entrar para uma chapa presidencial republicana – ficamos relutantes em dizer o que sabemos, penosamente, ser a verdade”, assinalou.

Para Parker, McCain a esta altura não pode voltar atrás na escolha. Correria o risco de atrair a indignação fatal da base republicana – e ficaria parecendo ser incapaz de tomar decisões como presidente. Mas Palin pode salvá-lo – e renunciar, invocando razões pessoais, para dedicar mais tempo ao bebê recém-nascido. Quem criticará a mãe que põe a família em primeiro lugar? “Faça-o pelo país”, recomendou Parker a ela.

Que diabo ela anda falando?

No domingo a polêmica sobre Sarah Palin dividiu até o painel de jornalistas do programa Fox News Sunday, no qual o âncora Chris Wallace e Juan Williams divergiram dos demais. “Que diabo ela está falando (ao alegar que conhece política externa porque o Alasca é vizinho da Rússia)?” – perguntou Wallace a um senador republicano. Pouco depois, Williams encurralava Brit Hume e o neoconservador Bill Kristol.

Enquanto eles falavam na Fox, McCain na rede ABC via-se forçado a corrigir o que Palin tinha afirmado na véspera. Apesar de protegida contra a mídia, ela ouvira a pergunta de um estudante na Pensilvânia e respondera que os EUA deviam atravessar a fronteira do Afeganistão e atacar o Paquistão – o que McCain rejeita, como disse no debate com Obama e repetiu agora, jurando ser também a posição de sua vice (leia o desmentido AQUI, na CNN).

Será que tais desmentidos bastarão? Há um que a campanha de McCain ainda não sabe como fazer: o vídeo gravado em 2005 de um exorcismo de Sarah Palin. Foi na igreja pentecostal Assembléia de Deus de sua cidade. Um pastor queniano a purifica, declarando-a protegida por Jesus contra Satã e todas as formas de feitiçaria. As imagens continuam a circular, a mil por hora, no YouTube (clique na imagem abaixo para ver e ouvir; e leia mais AQUI sobre a proteção a Pali contra a feitiçaria.)

Judith Warner, autora de um best-seller recente, Perfect Madness: Motherhood in the Age of Anxiety, faz um blog no site do New York Times e analisou ali a foto (da agência AFP) na qual Palin aparece com Henry Kissinger – um encontro promovido pela campanha de McCain (veja a foto no inicio deste post). O ex-secretário de Estado tinha uma cara indulgente. Warner vê Pali na foto como uma versão Elle Woods, a heroína meio debilóide do filme Legally Blonde (veja abaixo a capa do DVD).

Um insulto e uma crueldade

No filme, o charme da caloura abre caminho para ela na escola de Direito da Universidade de Harvard. A tese, pouco convincente, é esta: apenas com a inteligência nativa qualquer moça decente supera colegas elitistas e arrogantes de Harvard. Assim, Elle Woods tornou-se, para muitas jovens, modelo a ser copiado. Para se impor, basta ser bonitinha, sabidinha – e bobinha. A escritora discorda. “O que é preciso é trabalho, estudo. Muito trabalho, muito estudo.”

Warner analisou a foto de Palin/Woods sentada no sofá azul, Kissinger ao lado. A vice de McCain – disse – implora clemência à câmera. Todos percebem algo de errado ali. No filme a heroína pode tudo porque acredita em si mesma. Mas a vida real é bem diferente da fantasia de Hollywood. “A incompetência tem suas consequências políticas e pessoais”, advertiu Warner (leia AQUI a íntegra do texto, sob o título Poor Sarah – Pobre Sarah).

A partir daí, Judith Warner tirou uma conclusão inevitável: “Francamente, passei a pensar, neste momento pos-Kissinger, pos-Katie-Couric, que a indicação de Palin (para candidata republicana à vice-presidência) não é apenas um insulto às mulheres (e aos homens) dos Estados Unidos da América. É também um ato de crueldade para com ela própria”.

(E divirta-se com o quadro de Palin e Hillary Clinton no Saturday Nigh Live. Basta clicar na imagem abaixo)
Published in: on setembro 28, 2008 at 6:36 pm  Comments (2)  

McCain e a deficiência de julgamento

O colunista David Brooks, da facção conservadora do New York Times, andou meio embaraçado com atitudes recentes de seu candidato, John McCain, em especial devido a comerciais de sua campanha – alguns tão sórdidos que custou a acreditar ter o senador autorizado a veiculação. Assim, na quinta-feira Brooks pareceu inclinado a dar explicações aos que o têm na conta de pessoa sensata.

Paradoxalmente, a frase oferecida como base do raciocínio de Brooks acaba por comprometer todo o restante. Ele escreveu que McCain “não chega a ser um pensador conceitual sofisticado, mas é um bom juiz de caráter” (leia AQUI a coluna). Ora, por coincidência, já houve até uma manifestação coletiva da comissão de ética do Senado que disse o contrário: sem condenar McCain, ela o considerou um mau juiz de caráter (leia AQUI a declaração da comissão e veja acima o cartum do site Political Humor).

A expressão usada, em inglês, era poor judgment – literalmente, deficiência de julgamento. O erro de avaliação que ele cometeu, juntamente com quatro colegas senadores (Alan Cranston, John Glenn, Dennis DeConcini e Donald Riegle), foi em conexão com o escândalo S&Ls (Savings & Loan), quando se deixou iludir pelo financista corrupto Charles Keating Jr, da Lincoln Savings – o “colarinho branco” em favor do qual os cinco intercederam. Essa incapacidade dele em avaliar caráter contrasta com a insistência no debate em desqualificar o adversário Barack Obama com reações como: “o senador é ingênuo”, “Obama não entende”, “não sabe distinguir estratégia de tática”.

Falso herói no cavalo branco?

Pode ser até que a memória de Brooks e dos americanos tenha deixado de registrar que naquele episódio McCain passou à história como um dos “cinco de Keating” – ou Keating Five. Faltou bom senso a ele ao julgar o caráter de Keating, em cujo jato particular fizera várias viagens para passar férias em hotel de propriedade do banqueiro. O bom senso e a sabedoria que fingiu ter agora, ao se apresentar – como um cavaleiro medieval montado num corcel branco – para salvar o país da crise financeira.

Até as cifras são parecidas. Aquele escândalo que Keating e sua Lincoln Savings passaram a simbolizar (houve ainda, claro, muitos outros executivos e bancos envolvidos), causou ao contribuinte prejuízo estimado hoje em US$1,4 trilhão, total que poderá ser igualado e até superado na crise financeira atual. E, para variar, já havia pelo menos um Bush naquele escândalo.

O país vivia então a obsessão desregulamentadora da era republicana Reagan-Bush (1981-1993). E entre os bancos que faliram estava o Silverado Banking, de Denver, que tinha como um de seus executivos Neil Bush – filho de Bush I e irmão de Bush II (veja ao lado a capa do livro que relata o caso: Silverado: Neil Bush and the Savings & Loan Scandal). A revelação da falência fraudulenta do Silverado, com seus empréstimos garantidos pelo governo federal, foi retardada até depois da eleição de 1988, para não cortar a marcha do primeiro Bush para a Casa Branca.

Os cinco aliados do banqueiro

Mas voltemos aos Keating Five. A acusação de corrupção a McCain e aos outros quatro foi feita por volta de 1989, na mesma ocasião da lambança de Neil (que acabaria apenas multado em algumas migalhas – saiba AQUI sobre sua vida aventurosa e charmosa depois do escândalo). A comissão de ética do Senado isentou de culpa apenas dois – o republicano McCain, que passara cinco anos como prisioneiro no Vietnã, e o democrata John Glenn, herói astronauta, primeiro a dar uma volta em órbita da terra.

Os dois foram criticados, mas apenas por erros de julgamento (poor judgment), enquanto Cranston era repreendido formalmente, por “ação imprópria” (tentara interferir na investigação dos reguladores). Riegle e DeConcini foram criticados, também por “ação imprópria”, ao tentar interferir. Mas DeConcini, depois, acusou McCain de outro pecado: vazara informação sensível à mídia, o que seria confirmado por um investigador.

Enfim, não é episódio capaz de abrilhantar a biografia de ninguém, muito menos um senador e candidato presidencial. De fato alguns – em especial o senador Cranston – foram muito mais longe, mas todos os cinco procuraram ajudar Keating quando o banqueiro corrupto e corruptor era investigado pela comissão reguladora, FHLBB (Federal Home Loan Bank Board), em meio à montanha de irregularidades. Keating, depois, cumpriu pena de prisão.

Bombardeando civis no Vietnã

A tendência da mídia nos EUA é esquecer tudo isso e santificar McCain. No ano 2000 ele de fato ganhou status de Quixote, pois derrotou George W. Bush na primária de New Hampshire, tornando-se uma ameaça e sofrendo campanha sórdida do marqueteiro Karl Rove. Questionou-se até certos detalhes da versão divulgada sobre sua prisão no Vietnã. McCain nunca negou que ali, sob tortura, assinara uma confissão, o que em geral não é perdoado nos EUA.

Filho e neto de almirantes, altos chefes da Marinha (o pai foi comandante de operações navais à época em que o filho bombardeava o Vietnã do Norte), McCain na “confissão” declarou-se “criminoso de guerra” por ter “matado mulheres e crianças”. Por menos do que isso o piloto Francis Gary Powers, do avião-espião U-2 derrubado em 1960 sobre a Rússia, seria hostilizado até pela família ao voltar em 1962, trocado por um espião russo (saiba mais sobre o caso AQUI, no site da CIA). Só teve emprego como piloto de helicóptero para informar na TV as condições do tráfego em Los Angeles – o que o levaria à morte, num acidente. 

McCain (veja-o na foto em 1973, ao voltar do Vietnã) não costuma lamentar a participação no bombardeio de populações civis, parece achar que foi patriótico. Ele só não morreu afogado, no entanto, porque alguns dos civis da área do Vietnã do Norte bombardeada pelos aviões americanos o resgataram no rio, gravemente ferido. Três meses antes tinha visto no porta-aviões de onde decolava um disparo acidental matar 132 marinheiros. Disse depois ao New York Times: “Agora que vi o que bombas e napalm fazem às pessoas, não sei se concordo em lançar essas bombas no Vietnã do Norte”. Mas concordou. E lançou.

Published in: on setembro 27, 2008 at 12:39 am  Comments (2)  

O brilho fugaz da estrela Sarah Palin

O último truque eleitoral dos estrategistas do candidato republicano Joe McCain foi a suspensão abrupta da campanha – e do debate – a pretexto de viajar à capital para um “esforço patriótico” destinado a socorrer a economia americana. Ainda é cedo para saber se conseguirá socorrer não a economia, mas a própria chapa republicana, que despencou nas várias pesquisas divulgadas quarta-feira à noite.

As mágicas anteriores – a escolha da governadora Sarah Palin para vice da chapa e o adiamento por dois dias da convenção nacional republicana – deram resultado apenas momentâneo. O impacto das duas injeções de ânimo desfez-se logo, sem que surgisse algum truque novo. Ao mesmo tempo, a campanha parece sem saber o que fazer para reabilitar a imagem em declínio da vice Palin.

Até agora ela não foi capaz de submeter-se a uma única entrevista coletiva, ainda que tenha falado de forma limitada e não ortodoxa a dois âncoras, Charlie Gibson da ABC e Katie Couric da CBS, e a um talk show da Fox News cujo apresentador, Sean Hannity, parece mais cheerleader de causas republicanas e conselheiro da campanha McCain-Palin do que jornalista.

Quando responderá a perguntas?

Mesmo jornalistas de veículos simpáticos à chapa republicana, como é o caso do New York Post (que já proclamou o apoio a McCain) e da Fox News, queixam-se do esforço ostensivo para impedir o acesso da mídia a Palin. Foi o caso, por exemplo, de Chris Wallace, que há dois domingos perguntou a Rick Davis, chefe da campanha de McCain, por que nem seu programa “Fox News Sunday” pode entrevistá-la.

Wallace encurralou Davis com sucessivas perguntas. “Até hoje Palin não respondeu a uma única pergunta da mídia nacional. Quando vai concordar em dar uma entrevista normal?” “Ela está com medo de responder a perguntas?” “Há perguntas legítimas sobre as qualificações dela para ser comandante em chefe. Se não respondeu na semana passada, por que não esta semana?”

Quando Davis disse que ela “terá oportunidade de falar ao povo americano” e que tinha falado a 40 milhões na convenção, Wallace observou: “Na convenção o que fez foi ler um texto ensaiado, não estava respondendo a perguntas”. O chefe da campanha ficou irritado: “Não cabe à mídia fazer a agenda dela. (…) Palin estará à disposição da mídia quando e se decidirmos que deve ser esse o caso”. (Clique na imagem abaixo para outro confronto de Wallace com Davis, na mesma entrevista)

Ficou claro naquele domingo, 7 de setembro, que a campanha republicana busca uma maneira singular de usar a candidata, “quando e se decidirmos que deve ser o caso”. Ou seja, ela só fala em condições especiais para pessoas especiais, amigas e aliadas. Fora disso, fica limitada aos factóides produzidos pela campanha. Como os encontros com governantes estrangeiros submissos ao governo Bush, no período da Assembléia Geral da ONU.

Perdendo o fio da meada

Em Nova York, ela ficou sob rigorosa proteção contra jornalistas, levada a reuniões com chefes de governos dependentes dos EUA como se fossem colônias – Hamid Karzai do Afeganistão, Ávaro Uribe da Colômbia, líderes do Iraque, Georgia, Ucrânia. Tudo para parecer que está familiarizada com política externa, embora só tenha saído dos EUA uma vez – para visitar tropas americanas no Iraque.

A mídia tem sido discreta, mas no Washington Post o colunista Howard Kurtz já ridicularizou a situação: ela disse a Couric, da CBS, que McCain vai reformar Wall Street “para nos salvar de outra Grande Depressão”; e ao ser pressionada a citar exemplos do que McCain pode fazer para reformar o setor dos bancos, perdeu o fio da meada. “Vou tentar descobrir, depois volto a falar com você”, disse (leia AQUI, na íntegra, a coluna de Kurtz).

Desde que Palin foi escolhida para vice da chapa, explicou Kurtz, o vice do democrata Barack Obama, Joe Biden, já deu quatro grandes entrevistas coletivas, além de nada menos de 89 exclusivas a redes como NBC e CBS e jornais como o Washington Post. Daí porque a jornalista Campbell Brown, da CNN, está considerando “sem precedentes” a atual situação atual de Palin.

Segundo Kurtz, Brown disse ainda numa entrevista: “como jornalista, meu trabalho é buscar a verdade, entender quem é essa mulher, o que ela pensa, se é qualificada para ser vice-presidente (…). Se ela fosse homem, deixariam que fizesse isso o que está fazendo? A campanha a trataria dessa forma, com tanta indulgência e superproteção, sempre buscando o meio de driblar a imprensa?”

Mais restrições do que Bush

Uma desculpa esfarrapada da campanha é de que Palin tem sido maltrada na mídia. Terça-feira, na hora da reunião com Hamid Karzai, jornalistas foram avisados de que só cinegrafistas entrariam, para fazer um minuto de imagens; não seria permitido gritar perguntas. Isso levou a rede CBS a concluir que “as regras de acesso a Palin são mais restritivas do que as de Bush para reuniões na Casa Branca”.

No reunião com Karzai, o pessoal da campanha recuou quando a CNN – que passaria imagens às outras – ameaçou tirar a equipe: o produtor pôde então ficar 29 segundos, sem conseguir ouvir a voz de Palin. Com os líderes da Georgia e Ucrânia, ela estava ao lado de McCain, mas um repórter fez a pergunta a Palin: “O que aprendeu nessa reuniões?” Foi quando um assessor entrou e retirou todos os jornalistas da sala.

Sempre haverá capas de revista para receber Palin – como Vogue (a do alto é montagem de um site de humor, mas leia AQUI a reportagem de Vogue quando ela ainda era apenas governadora) e a US Weekly (abaixo, verdadeira). Será que isso basta? A julgar pelo comportamento das autoridades maiores da campanha de McCain, ela continua despreparada para responder perguntas. Michael Goldfarb, porta-voz de McCain, disse que Palin dará mais entrevistas “e pelo menos uma coletiva antes do dia da eleição”. Mas parece mais provável que prevaleça o dito antes pelo chefe dele, Davis: “Ela estará à disposição da mídia quando e se decidirmos que deve ser esse o caso”.

Published in: on setembro 25, 2008 at 5:04 pm  Comments (2)  

Einstein, Roosevelt, o FBI e a bomba-A

A referência de Helio Fernandes, em sua coluna da Tribuna ontem, ao cientista Albert Einstein (na foto, com o amigo Leo Szilard, que teve papel-chave no episódio) e à construção da bomba atômica sugere revisitar uma questão histórica paradoxal. Einstein não participou da construção da bomba e envolveu-se apaixonadamente mais tarde – em 1945, de novo junto com Szilard – num movimento dos cientistas para impedir que ela fosse usada contra o Japão.

O paradoxo é que a bomba foi construída, em parte, devido à intervenção pessoal dele junto ao presidente Franklin Roosevelt. Ainda na Alemanha, Einstein tornara-se celebridade internacional em 1919. Sua teoria geral da relatividade fora validada então, durante um eclipse solar. Libertário, meio anarquista, próximo a grupos comunistas e muito corajoso, ele também era definitivamente pacifista e duro crítico das guerras.

Ao perceber o rumo que a Alemanha tomava, Einstein – como outros cientistas – decidiu emigrar para os EUA, onde o Departamento de Estado já tinha recebido, em 1932, uma carta de 16 páginas, de um grupo de “mulheres patriotas”, recomendando não ser autorizada a entrada dele no país. “Nem o próprio Stalin”, dizia a carta, era filiado a tantas “organizações anarco-comunistas”.

O temor à superarma nazista

A carta “patriótica” tornou-se o primeiro documento da pasta aberta pelo Bureau Federal de Investigações (FBI) sobre Einstein, vigiado nos 22 anos seguintes – até morrer, em 1955, com 76 anos (veja AQUI como o FBI relata uma entrevista feita com Einstein em 1940; e tente ver AQUI, em PDF, os documentos da pasta do FBI). Em 1933, quando Hitler chegou ao poder, ele viajou para os EUA e se integrou ao Institute of Advanced Studies, da Universidade de Princeton, Nova Jersey. Tambem o húngaro Szilard resolvera fugir da Alemanha em 1933, mas preferiu inicialmente ir para a Grã Bretanha.

Preocupado com o avanço das pesquisas sobre fissão nuclear (e reação em cadeia), Szilard, que era muito ligado a Einstein e tinha boa capacidade de mobilização, alertou os britânicos para o risco de cientistas serem usados na Alemanha para fazer a bomba. Em 1938, acreditando não haver receptividade na Inglaterra para a idéia de se antecipar aos alemães, Szilard aceitou convite para trabalhar na Universidade de Columbia, em Nova York, com Enrico Fermi (leia AQUI uma cronologia biográfica de Szilard e saiba mais AQUI sobre o que foi o Projeto Manhattan).

Como ele e Fermi, outros cientistas familiarizados com o assunto achavam que era preciso levar aquela preocupação sobre o risco de uma bomba atômica alemã ao próprio presidente Franklin Roosevelt. Szilard conseguiu então convencer Einstein a assinar uma carta, cujo teor discutiu com Alexander Sachs, financista fascinado pelos físicos atômicos, além de amigo e conselheiro econômico de Roosevelt.

A carta de duas páginas, reproduzida acima, foi redigida com a ajuda de Sachs, que antes tinha passado algum tempo buscando familiarizar Roosevelt com o tema, para convencê-lo sobre a hipótese de se desenvolver a arma nuclear (leia a transcrição AQUI e saiba mais sobre o papel desempenhado por Szilard). Quando a carta, com data de 2 de agosto de 1939, foi finalmente entregue a Roosevelt por Sachs no dia 11 de outubro, o presidente já sabia muito sobre a fissão do urânio e estava consciente do grave perigo de uma bomba alemã.

O veto do FBI ao cientista

A carta era bem objetiva. Começava com uma referência ao trabalho de Fermi e Szilard, depois relacionava o que devia ser feito na prática para desenvolver a arma e, no último parágrafo, especulava sobre o que poderia estar sendo feito na Alemanha (fora suspensa a venda de urânio das minas tchecas, ocupadas), em especial o trabalho em andamento no Instituto Kaiser-Wilhelm de Berlim.

Na curta resposta a Einstein, datada de 19 de outubro, Roosevelt disse considerar de tal importância aqueles dados que reunira equipe integrada pelo diretor do Bureau of Standards e representantes do Exército e Marinha para uma discussão ampla sobre as possibilidades da sugestão relacionada ao urânio. “Tenho o prazer de informar que o dr. Sachs vai cooperar e trabalhará com a comissão. Essa é a maneira mais prática e eficaz de enfrentar o problema. Por favor, aceite meus sinceros agradecimentos”, concluía.

Cópias das duas cartas estão expostas hoje no museu do Laboratório Nacional de Los Alamos, perto de Santa Fé, Novo México, onde estive em 1995, no 50° aniversário da explosão da primeira bomba atômica. Mas nada ali conta outra parte da história: em 1940 o Exército incluiu Einstein na lista de cientistas que trabalhariam no projeto e o nome dele acabaria praticamente vetado pelo FBI.

O diretor J. Edgar Hoover, na resposta ao Exército, relacionou as atividades esquerdistas ou pacifistas dele e anexou uma síntese biográfica facciosa, sem data nem assinatura, talvez redigida por agentes direitistas do FBI que agiam na Alemanha. Entre outras coisas, dizia que em Berlim o apartamento de Einstein no início da década de 1930 era “um covil comunista” e sua casa de campo um “esconderijo de enviados de Moscou”.

A campanha contra a bomba

Pouco depois, numa carta de julho de 1940, o Exército negou a autorização para ele trabalhar no projeto. Quando o cientista soube que o trabalho começara, ficou desapontado por ter sido excluído; mas aceitaria com entusiasmo, em 1943, convite da Marinha para ser consultor sobre “grandes explosivos”. Também Helen Dukas, secretária dele, era então vigiada pelo FBI como “altamente suspeita”.

Capítulo fascinante dessa história foi o envolvimento posterior de Einstein – com cientistas que trabalhavam ou tinham trabalhado no projeto da bomba-A, até o próprio Leo Szilard – no esforço contra o uso da bomba. Einstein chegou a escrever outra carta, pouco antes da morte de Roosevelt, aparentemente não lida por ele (conheça AQUI todas as quatro cartas de Einstein a Roosevelt). Àquela altura a pasta do cientista no FBI já era alentada. Ficaria ainda pior depois da prisão em 1950 do físico Klaus Fuchs, acusado de passar segredos atômicos aos russos.

Nesse ano o FBI ampliou a vigilância sobre Einstein depois da participação dele no primeiro programa de TV da ex-primeira dama Eleanor Roosevelt, para discutir os perigos da corrida armamentista. Hoover ordenou ampla investigação, até com a inclusão de boatos infamantes – como a história mentirosa de que em Berlim seu escritório nos anos 1930 passava mensagens em código para espiões russos (na época ele sequer tinha escritório, trabalhava em casa).

Esses e outros detalhes sórdidos da ação do FBI são conhecidos desde 1983, graças ao professor Richard Alan Schwartz: com base na Lei de Liberdade de Informação, ele conseguiu liberar 1.427 páginas da pasta de Einstein, ainda parcialmente censurada. E em 2002 o escritor Fred Jerome lançou The Einstein File: J. Edgar Hoover’s Secret War Against the World’s Most Famous Scientist, o livro (veja a capa ao lado) que afinal devassou “a guerra secreta de Hoover contra o mais famoso cientista do mundo” (saiba mais AQUI sobre o livro; e leia AQUI uma reportagem publicada em 2002 pelo New York Times).

Published in: on setembro 24, 2008 at 11:05 pm  Comments (4)  

Bush, direitos humanos e a tortura terceirizada

Num dos capítulos do livro O Império Contra-Ataca – As guerras de George W. Bush, antes e depois do 11/9, lançado há quase quatro anos pela editora Paz e Terra, contei a história do cidadão canadense Maher Arar, sírio de nascimento, e de outras vítimas do assalto às liberdades civis nos EUA durante o governo Bush – e em especial no período do Procurador Geral e ministro da Justiça John Ashcroft.

Ironicamente, o caso de Arar reapareceu na mídia internacional no mesmo momento em que o presidente George W. Bush era contestado por quatro senadores de seu próprio partido – entre eles John McCain, atual candidato presidencial e ex-prisioneiro de guerra no Vietnã, e John Warner, então presidente da comissão das Forças Armadas – por tentar “reinterpretar”, com uma lei americana, o real significado da convenção de Genebra sobre o tratamento de presos.

Depois, Bush e os senadores chegaram ao que parece ter sido um acordo de cavalheiros, dando luz verde à CIA e aos militares para continuarem a prática de torturas como o waterboarding, proibidas pela convenção de Genebra (veja uma reconstituição na foto acima e saiba mais AQUI sobre essa técnica, que vem da Inquisição espanhola). A alegação foi de que tais torturas são “suaves”, não exatamente torturas mas apenas “interrogatórios rigorosos” – indispensáveis, segundo Bush, para arrancar informações preciosas de presos e “salvar vidas americanas”.

A mesma desculpa de sempre

Na sessão de abertura dos debates da Assembléia Geral da ONU, ontem, Bush dedicou boa parte de seu discurso a atacar outros países como violadores dos direitos humanos (leia AQUI o texto na íntegra). O problema é que a versão dele de direitos humanos é subjetiva e singular, pois justifica as torturas se o pretexto é “salvar vidas americanas”. O presidente Harry Truman,  que mereceu breve citação no discurso, justificara da mesma forma o uso de bombas atômicas em Hiroshima e Nagasáki – não contra militares japoneses e sim populações civis.

Segundo Truman, as bombas reduziram o número de baixas americanas no esforço final para forçar a rendição japonesa – o que não foi o caso. O comandante supremo das forças aliadas na Europa, Dwight Eisenhower, considerou desnecessário “ameaçar com aquela coisa pavorosa o Japão”, que só buscava uma forma de render-se com um mínimo de dignidade. O general Douglas MacArthur, comandante no Pacífico, considerou mais tarde que, do ponto de vista militar, aquelas bombas foram totalmente desnecessárias.

“Os japoneses já estavam derrotados e prontos para a rendição”, escreveu em suas memórias o almirante William Daniel Leahy. “O uso da arma bárbara em Hiroshima e Nagasaki não foi qualquer ajuda material em nossa guerra com o Japão”. George Marshall, general que tinha chefiado o Estado Maior, afirmou que a entrada dos soviéticos na guerra do Pacífico contra japoneses já desesperados é que fora a ação decisiva.

A terceirização da tortura

Depois do 11/9, Bush abraçou a política do medo como uma maneira de ocultar as falhas das agências de inteligência em seu governo e continuou a fazê-lo, em especial na campanha da reeleição em 2004. Até hoje ainda se agarra a isso, como ficou claro no discurso. Insiste em repetir – ao mundo, como ontem, e também aos americanos – que é preciso torturar presos a fim de arrancar informações. E até aqueles senadores republicanos que resistiam acabaram por aceitar o jogo.

Enquanto se desdobrava há dois anos o debate sobre a lei bushista que “reinterpretava” dispositivos da convenção de Genebra, chegou uma notícia do Canadá, onde a Justiça analisava então a queixa do sírio-canadense Maher Arar: a Polícia Montada do país tinha dito aos EUA que Arar era “extremista islâmico” – o que levara à sua prisão no aeroporto de Nova York e posterior entrega à Síria, para a “tortura terceirizada”.

Arar fora preso em meio a protestos desesperados. De nada adiantou jurar às autoridades dos EUA que só podia ser erro de identidade, pois nunca tinha sido extremista, era apenas um pacato pai de família. Os investigadores optaram por não se dar ao trabalho de checar de novo a informação no Canadá: ele passou 12 dias sob interrogatório no Centro de Detenção do Brooklyn, em Nova York, e depois foi enviado à Síria, com escala (e mais tortura) na Jordânia.

Certamente é para continuar esse tipo de tratamento de suspeitos detidos que o governo Bush insistiu depois em inventar a lei americana destinada a reinterpretar a convenção de Genebra. Arar, engenheiro de telecomunicações e empresário, pai de duas crianças pequenas, tinha 31 anos quando viveu esse drama – apenas duas semanas depois do 11/9. Seu avião tinha feito escala em Nova York, num vôo de volta da Suiça.

Uma temporada no inferno

Ao ser levado para o Brooklyn como suspeito de terrorismo, Arar não teve sequer permissão para falar (nem por telefone) com a família, representante consular ou advogado. Semanas depois foi “passageiro” de um dos vôos secretos da CIA para a Síria – que sequer tinha boas relações com os EUA (ontem mesmo foi citada por Bush como “estado terrorista”). Só depois de passar mais de um ano na prisão ele afinal pôde voltar ao Canadá, assim mesmo graças a uma indignada campanha popular.

“Nunca tive qualquer problema com a Polícia, fui sempre um bom cidadão. Simplesmente não posso acreditar que isso tenha acontecido comigo. Destruíram minha vida e minha carreira”, disse Arar, ao iniciar processos contra os governos dos EUA, Síria e Jordânia pela sua temporada de 12 meses no inferno. Esse foi um dos episódios que devassaram a nova política Bush de “terceirização da tortura”.

Há sete anos, logo depois do 11/9, o governo Bush iniciou essa política de exportação de suspeitos para serem torturados em outras países (Egito, Arábia Saudita, Marrocos, Jordânia, Paquistão, Síria, Uzbequistão e Indonésia, entre outros), com os quais os EUA trocavam informações de inteligência. A prática foi batizada oficialmente de extraordinary rendition (entrega extraordinária). Seus críticos preferem chamá-la de outsourcing torture (terceirização da tortura).

Quanto ao caso Arar (na foto ao lado ele aparece com a filha), o Canadá fez acordo para por fim ao processo, declarou oficialmente que ele nada tem a ver com terrorismo e pagou indenização superior a US$10 milhões (leia AQUI a conclusão da investigação no Canadá). Mas nos EUA, onde o caso Arar v. Ashcroft ainda continua (conduzido, em nome da vítima, por advogados do Centro de Direitos Constitucionais), é pleiteada uma indenização e a declaração formal de que as atos do governo Bush contra Arar foram ilegais e violaram seus direitos civis, constitucionais e a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Ele ainda é mantido cinicamente nas listas de pessoas proibidas de entrar no país. (Leia AQUI editorial do New York Times em 2007 sobre o caso, expondo a hipocrisia do governo Bush, que teima em se dizer defensor dos direitos humanos).

Published in: on setembro 23, 2008 at 10:12 pm  Deixe um comentário  

Maioria nos EUA quer diálogo até com Cuba e Irã

Embora sejam poucas – ou insuficientemente divulgadas – as pesquisas nos EUA sobre política externa, quando elas são feitas costumam desmentir o propalado desinteresse dos americanos pela questão. Agora, por exemplo, foi surpreendente o resultado de pesquisa feita pelo Chicago Council on Global Affairs, que expôs um apoio significativo a substancial correção de curso.

Depois dos oito anos de belicismo e agressividade do governo Bush no mundo (veja o presidente na foto ao lado, fingindo que é piloto de guerra), nada menos de 88% dos democratas e 81% dos próprios republicanos estão convencidos de que chegou a hora de mudar. Os EUA, segundo respondeu segmento esmagador dos que se inclinam pelos dois partidos, deviam melhorar a postura e fazer mudanças na política externa, mesmo em relação a certos temas sensíveis.

A marcha-a-ré positiva foi defendida como “muito importante”, devendo incluir até conversas com líderes de governos hoje rotulados de “inamistosos”, como os de Cuba (70% apoiam tal retomada do diálogo), Coréia do Norte (68%), Irã (65%), Birmânia (63%) e Zimbabwe (61%). Ao mesmo tempo, foi expressiva a maioria (67%) contrária a um compromisso por tempo indeterminado no Iraque.

Melhorar a imagem no mundo

Segundo Marshall M. Bouton, presidente do Chicago Council (fundado em 1922 e chamado antes de Chicago Council on Foreign Relations), os americanos continuam comprometidos com um engajamento internacional do país e querem ainda “que os esforços internacionais sejam mais concentrados e seletivos”, com ênfase no “arsenal diplomático para a solução de conflitos”.

Na pesquisa, as pessoas foram solicitadas a qualificar o nível de importância de 14 metas relacionadas para a política externa. Para 83% a meta “melhorar a postura dos EUA no mundo” foi considerada “muito importante”. Foi a que recebeu mais apoio nesse primeiro nível, ficando até acima do ítem “proteger os empregos dos trabalhadores americanos”, que teve o respaldo de 80%.

Segundo o Chicago Council (leia AQUI, em documento PDF, a íntegra da pesquisa) os americanos estão preocupados com a perda de influência dos EUA no mundo nos últimos anos. Para 53% das pessoas ouvidas, houve queda na capacidade do país de alcançar suas metas de política externa. Apenas 10% disseram que essa capacidade aumentou. Os americanos, afinal, parecem conscientes do efeito negativo das políticas e das guerras de Bush.

A pesquisa foi feita antes de ser anunciada a repentina mudança do governo, que passou a admitir um cronograma para a retirada de tropas do Iraque. Mas já então a grande maioria dos entrevistados manifestou-se a favor de um cronograma de retirada em período não superior a dois anos: 24% defenderam uma retirada “imediata”; e 43% preferiram uma retirada no prazo máximo de dois anos.

Adesão a tratados internacionais

Somente 32% das pessoas ouvidas declararam-se a favor da permanência das tropas de combate “por tanto tempo quanto seja necessário para estabelecer um Iraque mais estável e seguro”. Sobre o Iraque, a divisão dos entrevistados em linhas partidárias ficou clara: 58% dos republicanos (e apenas 9% dos democratas) apoiaram uma permanência indefinida das tropas – aparentemente, na linha do candidato Joe McCain, que falou em ficar “até 100 anos, se necessário” (veja AQUI quadros oficiais das baixas de soldados americanos e civis iraquianos na guerra).

A maioria dos americanos ouvidos na pesquisa do Chicago Council considerou ainda que a guerra foi um erro lamentável. Para 59%, a ameaça do terrorismo não diminuiu em consequência da guerra. E nada menos de 76% concordaram em que o conflito “custou centenas de bilhões de dólares que poderiam ter sido usados em programas nos EUA, resolvendo graves problemas internos.

Apesar da grande procupação dos americanos com o envolvimento de suas forças no Iraque, a pesquisa mostrou também que maioria substancial apóia vigorosamente a participação em tratados e acordos internacionais aos quais o governo Bush deixou de aderir nos últimos anos. E 88% disseram que os EUA deviam assinar o tratado de proibição ampla dos testes nucleares.

A presença das bases militares

Mais dois tratados tiveram o apoio da grande maioria dos americanos: 76% declararam-se favoráveis a um novo tratado sobre as mudanças climáticas (os EUA estão fora do Protocolo de Kyoto) e 68% gostariam que o país aderisse ainda ao acordo de Roma, que criou o Tribunal Penal Internacional para julgar acusados de crimes de guerra, genocídio e crimes contra a humanidade (veja AQUI a lista dos 108 países que aderiram ao estatuto de Roma, boicotado pelo governo Bush).

Uma maioria de 56%, também bipartidária, é favorável a um acordo com Teerã sobre o programa nuclear iraniano, caso o governo daquele país concorde com inspeções da ONU e acesso permanente dos inspetores às instalações. Segundo os entrevistados, sob essa condição o Irã devia ser autorizado a continuar produzindo combustível nuclear para a geração de eletricidade.

Apesar de tanto apoio a mudanças na política externa, os entrevistados não dispensaram uma “presença robusta dos EUA no mundo”: 63% apoiam um papel ativo nos assuntos mundiais e a manutenção de poderio militar superior; e 57% consideraram ser essa uma meta “muito importante” na política externa. Também a manutenção de bases militares pelo mundo teve largo apoio.

Published in: on setembro 22, 2008 at 10:37 pm  Comments (1)  

O “milagre econômico” do presidente Bush

Claro que no passado tivemos o privilégio de ver coisa bem parecida em outro país. Nosso “milagre econômico” – lembram-se? – foi festejado no Brasil com a ajuda voluntária de veículos da mídia empenhados em agradar os generais da ditadura, implacáveis na repressão e na censura? O Globo, um deles, até proclamou em manchete a frase, forjada na redação e atribuída ao ditador de plantão Garrastazu Médici, depois elevada à condição de slogan patriótico: “Ninguém segura este país!”

Na histeria patrioteira que se seguiu ao 11/9, os EUA viveram um clima semelhante. Disso aproveitaram-se dois personagens conspícuos da economia e do fundamentalismo cristão para formar em 2003 a parceira que resultou no livro (ver capa acima) The Bush Boom – How a “Misunderestimated” President Fixed Our Broken Economy (O boom de Bush – Como um presidente subestimado e incompreendido consertou nossa economia abalada). Jerry Bowyer assinou como autor, Larry Kudlow como prefaciador.

O primeiro teve (ainda tem) firmas de investimentos, mas o detalhe é que faz programas de rádio e TV, escreve colunas na Internet (inclusive sobre religião). Antes, na década de 1990, pregava uma teocracia – “Cristocracia, a regra de Cristo para toda a nação”, conforme as palavras dele citadas pelo Washington Post em 1999 (leia AQUI). O outro é, além de colunista sindicalizado de jornais, apresentador de programas (TV personality, conforme conforme expressão da moda nos EUA. Seu show, “Kudlow & Company”, é apresentado pela rede de cabo novaiorquina CNBC, do império de mídia NBC-Universal, especializada em negócios e Bolsa (clique no final deste post para ver e ouvir os dois juntos).

Um belo trabalho de ficção

Ouvi falar desse livro pela primeira vez depois do atual furacão que está virando a economia americana pelo avesso. Apesar de seu reduzido número de páginas, é relevante por serem Bowyer e Kudlow quem são e continuarem a repetir as mesmas coisas em colunas e talk shows de rádio e TV. Um é convidado frequente do outro na CNBC, ambos adeptos ortodoxos da escola de Chicago de Milton Friedman, além de pregadores impenitentes da economia do supply-side, com a promessa aos destituídos das migalhas que caiam da mesa farta dos privilegiados.

website da livraria virtual Amazon.com está repleto de manifestações de leitores e internautas. Um chamou o livro de “trabalho de ficção”; outro o definiu como “último suspiro do movimento conservador”. Não é para menos. Kudlow, por exemplo, opõe-se a impostos sobre propriedades, dividendos e ganhos de capital. Para ele, empregados deviam ser obrigados a pagar contribuições maiores por sua aposentadoria e custos médicos, o que encara como carga indevida que se transfere a empresas. Executivos, diz ele, têm de ganhar mais – suposta manifestação dos forças do mercado, contrárias a regulamentações.

Antes de pontificar no “Kudlow & Company” (veja ao lado seu logo na CNBC), Kudlow ao menos tinha alguma bagagem. Fora economista da equipe do Federal Reserve de Nova York e diretor associado de Economia e Planejamento do OMB (Escritório de Administração e Orçamento) no gabinete do presidente Ronald Reagan, na Casa Branca. A experiência de Bowyer, limitada, confunde-se com o ativismo religioso.

O terrorismo contra o seguro-saúde

O argumento dele contra um sistema de saúde com cobertura universal chega a ser grotesco. Alega que um sistema administrado pelo Estado tende a pagar menos aos médicos. Com isso, haveria falta de profissionais, forçando a importação de estrangeiros – o que tornaria o sistema vulnerável, pois viriam médicos terroristas infiltrados por células islâmicas. Ao dar a explicação a Neil Canuto na Fox News (veja-o acima) a rede colocou sobre a imagem de Bowyer este título: “Healthcare nacional: aduba o terreno para o terrorismo?”

Ironicamente, o editor econômico da Fox, Canuto, reza pela mesma cartilha de Bowyer, embora concorrente de Kudlow. Os dois costumam disputar o horário, um na Fox Business e o outro na CNBC. A competição está feroz depois que o magnata Rupert Murdoch, do império News Corp, dono da Fox, comprou a Dow Jones (com o Wall Street Journal, propriedade dela), que tinha um acordo operacional com a CNBC.

Entre Kudlow, Cavuto e Bowyer, difícil é saber qual está mais fora de sintonia com a realidade. Os três parecem muito próximos, aparentemente afinados tanto com o fundamentalismo religioso como com a rejeição do papel regulador do Estado. Em compensação, aplaudem a socialização do prejuízo – uma conta para o contribuinte que tende a chegar a US$ 1 trilhão se limitada ao Bear Stearns, AIG, Freddie Mac e Fannie Mae, mas corre o risco de ser ainda mais abrangente.

Total desconexão com a realidade

E o boom de Bush na economia, tema do livro de 2003? Pela desimportância, dificilmente tenha sido alvo de alguma resenha com seriedade (leia AQUI a dura crítica de um analista respeitado a Bush, por se omitir na mais grave crise financeira do país desde a Grande Depressão). Mas no site da Amazon há uma centena de comentários de leitores, feitos ao longo de quase cinco anos. Boa parte deles por causa do quadro dramático resultante dos oito anos de Bush. Já em 2003 um leitor tinha observado (sob o título “2+2=5”) que, “como estudo sério de economia política é uma piada, mas como exemplo da total desconexão dos conservadores com a realidade humana básica, é um tour de force“.

O livro, escreveu ainda, “tem uma premissa muito interessante, de que o bom senso e a realidade vivida são, ambos, falsos. Muitos, muitos americanos, dos trabalhadores pobres à classe média, vivem graves dificuldades econômicas, salários menores, custos de educação mais altos e perspectivas de emprego difíceis. (…) Bowyer e Kudlow, no entanto, querem que ignoremos isso para nos convencermos de que as políticas de Bush, fracassadas sob qualquer critério de avaliação econômica, na verdade já produziram um boom. (…) Tentam até convencer o leitor de que Bush é um gênio da economia”.

A maioria dos leitores ofereceu humor corrosivo – como a leitora “Alice”, de “Wonderland”, que viu o livro “através dos espelhos”. Alguns reconheceram que pode até ter ocorrido um boom, mas em benefício de grupo muito pequeno – os privilegiados próximos ao poder e executivos beneficiários de escândalos. Cabe a expressão crony capitalism (capitalismo dos apaniguados). Entre os exemplos, a ex-executiva-chefe da Hewlett-Packard, Carly Fiorina (saiba mais AQUI sobre ela). Ao perder o emprego, quando as ações da HP despencaram e houve 20 mil demissões, embolsou US$ 44 milhões de compensação. Hoje é a mais alta conselheira econômica do candidato Joe McCain.

(Clique abaixo para ver Kudlow e Bowyer na CNBC em janeiro de 2008) 

Published in: on setembro 21, 2008 at 8:45 pm  Comments (1)  

Que diabo de “choque de civilizações” é esse?

Desde o 11/9, em 2001, a mídia dos EUA e de outras partes do mundo dissemina com extrema leviandade a teoria do “choque de civilizações”. A expressão virou lugar-comum depois de ser usada pelo cientista político Samuel P. Huntington, autor em 1996 do livro The Clash of Civilizations and the Remaking of World Order (O choque de civilizaçõs e a reformulação da ordem mundial).

O livro é encarado às vezes como tão influente na estratégia do governo Bush como tinha sido, na década de 1940, o estudo de George Kennan sobre o Containment, a proposta da contenção do comunismo,  justificativa intelectual da doutrina Truman em 1947. Resultou, segundo o próprio Huntington, da controvérsia gerada pelo artigo que publicou em 1993 na revista Foreign Affairs, sobre o mesmo tema (leia AQUI uma entrevista dele sobre o assunto, dada em 2007 à revista New Perspectives Quarterly).

Editores da Foreign Affairs compararam a repercussão à do ensaio de Kennan em 1947, sob o título The Sources of Soviet Conduct (As fontes da conduta soviética), assinado então com o pseudônimo “X” (leia-o na íntegra AQUI, no original inglês). Walter Lippman, à época o mais influente analista de política externa na mídia, fez depois uma crítica corrosiva e minuciosa ao trabalho – ambos republicados 25 anos depois, com preciosa apresentação de Ronald Steel, no livro The Cold War (A Guerra Fria).

O Ocidente contra o resto?

A tese de Huntington é de que “choques de civilizações” (em vez de conflitos entre nações) passarão a dominar a política mundial, tornando-se a maior ameaça à paz no mundo. Como melhor salvaguarda contra a guerra, sugeriu sua própria receita de nova ordem internacional. Vivemos hoje, alegou, a transição do antigo sistema mundial apoiado em três blocos de poder (EUA, URSS, Terceiro Mundo) para outro.

O novo seria integrado por oito grandes civilizações – ocidental, japonesa, confuciana (chinesa), hindu, islâmica, eslava-ortodoxa, latino-americana e possivelmente africana. Ele fez certas concessões (diferenças não significam necessariamente conflito, conflito não é necessariamente violência), mas observou:

  1. O mundo está ficando menor, aumenta a interação entre pessoas de diferentes civilizações;
  2. A modernização econômica e a mudança social afastam as pessoas da antiga identidade local e enfraquecem estados, permitindo que religiões fundamentalistas preencham a lacuna;
  3. Certas nações não ocidentais, com mais recursos, ficam mais tentadas a impor ao mundo hábitos e opções não ocidentais;
  4. Diferenças culturais são mais difíceis de superar do que as políticas e econômicas;
  5. Mais regionalismo econômico reforça a consciência de civilização.

Levando em conta diferenças de séculos, que não desaparecerão logo, e a pouca ressonância das idéias ocidentais de individualismo, liberalismo, direitos humanos, constitucionalismo, igualdade, liberdade, democracia e separação Estado-Igreja nas culturas islâmica, confuciana, japonesa, hindu, budista ou ortodoxa, ele concluiu ser provável que o eixo central da política mundial no futuro venha a ser o conflito entre “o Ocidente e o resto” (expressão de Kishore Mahbubani em 1992).

O fundamentalismo dos dois lados

Huntington (foto ao lado) culpa as respostas das civilizações não ocidentais aos valores e poderio do Ocidente. E arremata citando uma ameaça terrível da “conexão islâmica-confuciana” contra o Ocidente (deixa de explicar por que não, por exemplo, um choque entre a islâmica e a confuciana). A política ocidental teria necessariamente de ser conduzida no sentido de manter a hegemonia mundial, desestabilizando as civilizações hostis por meios militares e diplomáticos. Lançadas umas contra outras, no estilo “equilíbrio do poder”, elas aprenderiam a conviver com a diversidade global.

Surgiram contestações vigorosas (leia AQUI a resposta de Huntington a seus críticos na Foreign Affairs), mas a expressão “choque de civilizações” entrou na moda. Críticos apontam muitos furos, entre eles o fato de serem comuns os conflitos dentro das próprias civilizações – e entre elas. É destacado ainda que a busca de mais eqüidade em termos globais, atendendo às necessidades humanas, contribuiria para evitar choques entre civilizações.

Mas Huntington insiste: os choques virão, causados pela incompatibilidade de valores políticos e morais. Não explica por que têm de gerar confrontação política e militar (leia mais AQUI sobre esta e outras polêmicas envolvendo Huntington). No governo Bush a teoria foi abraçada com fervor por neoconservadores (neocons) e pelos teocratas da direita religiosa (theocons). No Pentágono, foi consagrada dias depois do 11/9, quando o neocon Paul Wolfowitz, secretário adjunto da Defesa, advogou uma “resposta ao Iraque” – embora a inteligência só culpasse a al-Qaeda de Osama bin Laden.

Pouco adiantou o perplexo secretário de Estado Colin Powell alertar que tal coisa afastaria os aliados. O próprio Bush diria ao neocon Richard Perle que tão logo fosse resolvido o problema do Afeganistão seria a vez do Iraque. Na terça-feira, 18/9, Perle reuniu os 30 membros do Defense Policy Board (Comitê de Política de Defesa), então presidido por ele no Pentágono, na própria sala de conferências do secretário da Defesa, Donald Rumsfeld.

O intelectual e o banqueiro falido

Dois convidados especiais falaram naquela reunião. O primeiro foi Bernard Lewis (foto ao lado), da Universidade de Princeton, ligado há anos a Wolfowitz e Dick Cheney e cujo trabalho acadêmico foi duramente criticado por professores e autores como Noam Chomsky (que o chamou de “propagandista vulgar e não um acadêmico”), Edward Said e Israel Charney. Decano dos estudiosos das relações Ocidente-Islã, Lewis fora o primeiro a usar a expressão “choque de civilizações”. O próprio Huntington contou só ter recorrido a ela depois de ler um polêmico ensaio dele, The Roots of Muslim Rage (As raízes da fúria islâmica – leia AQUI o original inglês), no qual Lewis escrevera o seguinte:

“(…) Enfrentamos um estado de espírito e um movimento que transcende o nível de temas e políticas, como dos governos que as perseguem. É um choque de civilizações – reação talvez irracional mas certamente histórica de um antigo rival contra nossa herança judaico-cristã, nossa atual secularidade, e a expansão em âmbito mundial de ambos.”

No Pentágono, Lewis disse que os EUA tinham de responder com demonstração de força ao 11/9, para dar uma lição ao mundo islâmico. E ao defender um apoio aos “reformistas democratas” do Oriente Médio, voltou-se para o lado onde estava outro convidado de Perle para falar na reunião: “… como o meu amigo aqui, dr. Chalabi”. Referia-se a Ahmed Chalabi, iraquiano de nascimento e banqueiro falido além de lobista em Washington, procurado por fraude na Jordânia e Inglaterra mas favorito do Pentágono para tomar o lugar de Saddam Hussein.

A presença no coração do Pentágono do criador da expressão “choque de civilizações”, junto com o banqueiro vigarista que falsificara “razões” para o governo Bush invadir o Iraque, era indício eloqüente das opções da Casa Branca. Três dias antes o presidente Bush, “cristão renascido” e muito próximo de evangélicos fundamentalistas, prometera responder com uma “cruzada” à jihad de Bin Laden. Assim começou a nascer a nova estratégia bushista para substituir a doutrina Truman da guerra fria.

Published in: on setembro 19, 2008 at 9:47 pm  Deixe um comentário