Sérgio Ferreira ou Celso Amorim?

Em atenção ao comentário do leitor Roberto de Barros Benévolo, que identificou o personagem entre Obama e Lula, na primeira foto do último post, como o ministro Celso Amorim e não o sociólogo Sérgio Ferreira, reproduzo abaixo fotos dos dois, lado a lado. Fica claro que Ferreira, sim,  “é o cara”. E os dois nem se parecem.

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Published in: on abril 30, 2009 at 11:56 pm  Comments (1)  

Lula & Obama, segundo Moniz Bandeira

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Obama e Lula ficaram muito à vontade na Casa Branca, em março, com a ajuda do sociólogo e intérprete Sérgio Ferreira (foto AFP)

Na edição de domingo do Estado de S.Paulo, uma nova entrevista do professor Luiz Alberto Moniz Bandeira, cientista político e historiador, concedida ao jornalista Wilson Tosta (leia a íntegra AQUI). Moniz Bandeira (foto abaixo, à esquerda) é autor de alguns estudos fundamentais para quem se interessa pela América Latina e, em especial, pelo relacionamento dos países da região com os EUA.

580px-mb1Ainda em 1973 escreveu Presença dos Estados Unidos no Brasil – Dois Séculos de História, hoje um clássico. Nos anos seguintes, publicou Brasil-Estados Unidos: A Rivalidade Emergente, 1950-1988 (1989), Brasil, Argentina e Estados Unidos – Conflito e Integração na América do Sul, da Tríplice Aliança ao Mercosul (1993), As Relações Perigosas: Brasil-Estados Unidos, de Collor a Lula (2004) e, mais recentemente, Formação do Império Americano: Da Guerra Contra a Espanha à Guerra no Iraque (2005), entre outros livros sobre questões internacionais (saiba mais AQUI).

Na entrevista do Estadão, ao ser perguntado por Tosta sobre o sucesso da relação do governo Obama com os países da América Latina, Moniz Bandeira explicou que dependerá do papel do Brasil como liderança regional. Encarando Obama como “muito inteligente e perspicaz”, reconheceu que “Lula preside uma superpotência astuta como nenhum outro gigante emergente, conforme já escrevera a revista Newsweek esta semana. Ele sabe que Lula, de forma não declarada, se contrapõe à influência dos EUA sem o radicalismo de Hugo Chávez”.

Elite de olhos azuis ainda no poder

obama_al_noturnbackNa sua análise, o cientista político brasileiro também observou que há algum tempo os EUA já estavam perdendo o domínio sobre a América do Sul, que o Brasil sempre considerou como sua área de influência. Perguntado sobre os objetivos dos EUA em relação ao Brasil, disse que Obama (a foto o mostra na Cúpula das Américas) demonstra que deseja melhorar as relações com os países da América Latina e, “dentro desse contexto, um entendimento mais estreito com o Brasil reveste-se de fundamental importância para a política exterior americana.

Os dois países constituem as duas maiores massas geográficas, demográficas e, apesar da assimetria, econômicas do hemisfério. Nenhum pode prescindir do outro”.

O entrevistador quis saber ainda sobr a mudança dos EUA, que tinham até agora uma política externa marcada pelo unilateralismo. “A eleição de Obama, um negro, representa mais um sintoma do declínio político do império americano, até então governado por uma elite branca, anglo-saxônica e protestante – a elite ‘loira, de olhos azuis’, que controla o sistema financeiro e à qual o presidente Lula se referiu como responsável pela crise econômica mundial. Essa elite fracassou. Mas não significa que tenha perdido o poder”, afirmou Bandeira.

Brasil não é polo da esquerda moderada?

De acordo com a análise, “os EUA têm de prestigiar o Brasil, mas não tentam criar nenhum ‘polo da esquerda moderada’ em contraposição ao presidente venezuelano e ao bolivarianismo. Lula mantém um relacionamento muito bom com Chávez e quer que a Venezuela se integre como sócia plena do Mercosul”.

lula_newsweek_coverPara Bandeira, tem razão a revista Newsweek ao ressaltar que a eventual aprovação da entrada da Venezuela no Mercosul não significa endosso das políticas de Chávez, mas uma forma de contê-lo por meio das obrigações do bloco comercial, como o respeito à democracia e a proteção à propriedade. É isso que certos setores políticos no Senado não entenderam”.lula_qa-fareedzakaria-090330

O atual prestígio internacional de Lula ficou claro no destaque dado a ele nas últimas semanas por Newsweek. Na edição com data de 30 de março foi publicada entrevista (ilustrada pela foto à direita, de Kue Bhui) dada por ele ao jornalista Fareed Zakaria (leia AQUI), colunista da revista e muito atuante também na TV. E na edição com data de 27 de abril, que teve Lula na capa, o perfil do presidente coube ao competente Marc Magolis (leia AQUI), um dos melhores correspondentes estrangeiros que atuam no Brasil (a foto na página interna foi a que aparece abaixo, à esquerda, feita por Joedson Alves para a Getty Images).

O esforço contra o embargo de Cuba

O Brasil e todos os demais países da América Latina, como também destacou, “já demonstraram de forma assertiva que não aceitam a continuidade do estado de beligerância que persiste nas relações entre EUA e Cuba, submetida a um embargo desumano, injusto e inútil há quase meio século. Mas não depende do Brasil. A questão é muito complexa”.

Para Obama, conforme o cientista político deixou claro, “não é simples terminar o embargo imediatamente, sobretudo por causa das implicações de política interna, como a força eleitoral da comunidade cubana. Da mesma forma e, em larga medida pela mesma razão, não é simples para o presidente cubano, Raul Castro, deixar o poder e convocar eleições em Cuba nos moldes pretendidos pelos EUA.

lula_newsweek1O entrevistador Wilson Tosta do Estado de S. Paulo quis saber se o Brasil pode tirar proveito da mudança na política dos EUA. Na avaliação de Moniz Bandeira, “a mudança na política externa americana resultou do enfraquecimento econômico, moral e político dos EUA, cuja hegemonia na América Latina desaparece em decorrência do fracasso das ditaduras militares e do insucesso das políticas neoliberais”. Moniz Bandeira assinalou que não foi o crescimento da esquerda e sim o enfraquecimento da influência americana na região que possibilitou o surgimento de governos como o de Chávez.

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Diante de tanta badalação internacional, nem Chico Caruso hesitou, na primeira página de O Globo, em esquecer momentanemente o guardião da doutrina da fé e até retratar a previsível reação do mais notório pavão deste e outros continentes 
Published in: on abril 26, 2009 at 2:36 pm  Comments (5)  

Nos 100 dias no poder, um Obama sob pressão

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(Na montagem fotográfica do site Huffingtonpost.com, o tema central do debate)

Depois das viagens à Europa e à América Latina, o presidente Barack Obama é cobrado pela oposição interna à direita (onde o ex-vice Dick Cheney e outros, na tela da Fox News, só faltaram expô-lo ao país como anti-americano e até ameaça à segurança nacional) e à esquerda (por críticos aliados do Partido Democrata, impacientes ante a aparente timidez da mudança de rumo na política externa).

A contradição resulta do próprio jogo de cintura que permitiu a Obama chegar à Casa Branca. Na campanha ele teve de temperar a pregação de mudança (o seu Change era proclamado em toda parte) e às vezes distanciar-se dos mais firmes na exigência de compromisso maior com ela. Equilibrava-se, por exemplo, na corda bamba policiada pelos lobbies de Israel e da máfia cubana de Miami.

Claro que não são os únicos lobbies. Com ginástica idêntica sua campanha teve de conter ainda o das armas, da poderosa NRF (Asssociação Nacional do Rifle) e outros. Mas no campo da política externa aqueles são emblemáticos.obama_chavez O exercício da presidência exclui naturalmente a ambiguidade de candidato, pois exige decisões. Mas por causa delas Obama é agora um alvo permanente.

Um refém das políticas de Bush?

A preocupação maior para o processo de tomada de decisões no novo governo é o próprio legado do antecessor. Como libertar-se da camisa de força deixada pela dupla Bush-Cheney, que ameaça manter Obama como refém? Se antes o repúdio à aventura neoconservadora era quase unânime, devido ao acúmulo de desastres dos últimos oito anos, porque seria tão difícil mudar o rumo agora?

A desintegração econômica, outro legado desastroso do governo Bush, exigiu a atenção imediata e prioritária do presidente para o esforço de recuperação. Decisões críticas em outras áreas têm sido retardadas mas terão de ser enfrentadas. Ao mesmo tempo a oposição conservadora reorganiza-se. Até já produziu o espetáculo nacional das tea parties, cortesia do império Murdoch de mídia sob o disfarce de “evento popular expontâneo”.

Obama avança a duras penas (leia AQUI e AQUI balanços positivos dele ao final da V Cúpula das Américas). Para aliados à esquerda, seu ritmo é lento. Para a oposição conservadora – como Cheney deixou claro esta semana na entrevista a Sean Hannity, da Fox News (leia AQUI) – o que está sendo feito já representa ameaça ao país. Sem tortura e criticada pelo que faz, sugeriu ele, a CIA será incapaz de prevenir ataques como o 11/9. E mais: acenos a Cuba e troca de sorrisos com a Venezuela (foto do alto, à direita) expoem uma fraqueza intolerável.

galeano_openveinsÉ repulsivo ver a dupla Bush-Cheney queixar-se de Obama por não fazer cara feia para Hugo Chávez. Em Trinidad e Tobago, durante a V Cúpula das Américas, o presidente venezuelano apenas ousou festejá-lo e oferecer de presente a tradução inglesa de As Veias Abertas da América Latina (capa ao lado – e saiba mais AQUI), o livro de Eduardo Galeano que toda uma geração de latino-americanos, em diferentes países, leu principalmente em espanhol e português, na tentativa de entender melhor a história e a tragédia do que o autor chama de “cinco séculos de pilhagem de um continente”.

O meio século de contradições

O pouco que Obama já fez, na ótica da oposição republicana, ultrapassou todos os limites. Não só na América Latina. Ele é cobrado ainda pelo excesso de gentileza no G-20 e na Europa, onde cometeu o impatriotismo de prometer uma reversão da arrogância de Bush, que afrontara aliados tradicionais como França e Alemanha. Note-se que nada, por enquanto, foi além de simbolismo e promessas implícitas.duvalier_francois

Em relação à América Latina, horroriza os conservadores o conjunto crescente de países determinados a superar a equação obsoleta da guerra fria. Quanto a Cuba (saiba mais AQUI), que sobrevive ao embargo americano de quase 50 anos e continua fora da OEA (Organização dos Estados Americanos) por imposição dos EUA, Obama corre até o risco, se nada fizer, de um repúdio público e unânime de todos os outros 33 países.

De qualquer forma, foram significativas tanto as medidas já decididas em relação a Cuba (fim das restrições mantidas pelo governo Bush sobre viagens e remessas de dinheiro de cubano-americanos), como a disposição de conversar e negociar. E ainda o elogio às declarações de Raul Castro de que está preparado para diálogo substantivo, sem veto a qualquer questão.

somoza_luisÉ bom não esquecer que o pretexto dos EUA para isolar Cuba no continente por tanto tempo foi a suposta falta de democracia e violação de direitos humanos. Mas à época da decretação do embargo, a expulsão de Cuba da OEA só tinha sido possível porque o governo de Washington comprara, com suborno, alguns votos de ditadores notórios – como Papa Doc (foto acima, à direita) do Haiti e um Somoza da Nicarágua (Luis, o do selo à esquerda).

Entre o sonho e a realidade

Da mesma forma, os EUA impuseram condições para realizar (em Miami, 1994) a I Cúpula das Américas. Excluiram Cuba a pretexto de não ser uma democracia. O fato de ter sido o Peru governado 10 anos (até 2000) pela ditadura de Alberto Fujimori e seu homem-forte Vladimiro Montesinos, torturador formado na School of the Americas do Exército americano (saiba mais AQUI sobre ela, rebatizada como WHINSEC) nunca foi obstáculo.

Fujimori responde hoje por crimes contra a Humanidade. O facínora Montesinos (foto ao lado), ex-espião da CIA, foi mais tarde julgado por corrupção, roubo, narcotráfico e tráfico de armas (saiba mais sobre ele AQUIAQUI).montesinos_vladimiro E enquanto Cuba era punida com embargo, sucessivos governos dos EUA mantiveram relações promíscuas com um punhado de ditaduras (Argentina, Brasil, Chile, Uruguai, etc, etc), algumas delas instaladas graças à ingerência americana.

Compreende-se a impaciência dos aliados mais à esquerda do Partido Democrata. Não sonhavam ajudar um governo suspeito de ser refém das políticas desastrosas do passado recente. Mas sabiam, desde a campanha, do risco de se apoiar candidato com agenda capaz de abrigar tendências múltiplas. Apostaram na promessa de mudança e terão o fim da era Bush, mínimo esperado. Quanto ao resto, vão precisar de mais realismo.

Published in: on abril 22, 2009 at 1:05 am  Comments (2)  

Vitória do humor vira piada em eleição dos EUA

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Primeiro foi a Flórida. Agora é a vez de Minnesota fazer a eleição nos EUA virar motivo de chacota. E não porque o democrata Al Franken (foto acima), que acaba de ser declarado de novo – agora por um painel de três juízes – o vencedor da cadeira para o Senado, é um comediante da TV. Mas por causa da obsessão do republicano Norm Coleman, com amplo apoio de seu partido, de recorrer ao tapetão dos tribunais para rejeitar o resultado adverso (saiba mais AQUI).

Coleman (foto abaixo, à esquerda, ao lado de seu ídolo Bush), ex-prefeito de St. Paul, cargo para o qual fora eleito da primeira vez como democrata e progressista (bandeou-se depois para a direita mais extremista dos republicanos), coleman_normcumpriu um mandato no Senado (de 2003 a 2009) como beneficiário da morte em acidente aéreo (durante a campanha) do senador democrata Paul Wellstone, alvo da difamação adversária. Agora a lambança foi ainda maior.

Na medida em que as pesquisas, durante a campanha, expunham sua sistemática queda na preferência do eleitorado e a ascensão de Franken, Coleman veiculava mais comerciais sórdidos, de baixo nível, preparados pelo estrategista de Bush, Karl Rove (veja um deles ao fim deste post). Nos ataques Franken era acusado de planejar o “assassinato de empregos” no estado – e ainda de atrasar o pagamento da pensão da ex-mulher.

A Fox News e os talk shows em cena

A direção republicana, consciente da ameaça de perda de cadeiras no Senado, injetou milhões em Minnesota para salvar ao menos a reeleição de Coleman. E quando veio um resultado duvidoso a 5 de novembro,  o republicano tinha vantagem de 215 votos (num eleitorado de 3 milhões) e “festejou” às pressas, mesmo sabendo que em casos assim tinha de esperar a recontagem automática.

Ao mesmo tempo, entrou em cena o exército da extrema direita republicana na mídia nacional. Nos papéis centrais, o rei do talk show de rádio Rush Limbaugh, franken_book2alvo da sátira devastadora de Franken num livro (capa ao lado); e o campeão de audiência no horário nobre da Fox News, Bill O’Reilly, atingido pelo humor corrosivo de Franken em outro livro. Segundo eles, o comediante estava “roubando votos”.

Mas know how de roubo de votos quem tem são os republicanos – em especial votos fraudados de eleitores ausentes, uma das técnicas usadas pelo partido para inverter o resultado da eleição de 2000 na Flórida, que deu a Casa Branca a Bush. Eles insistem na repetição obsessiva do expediente, mas todas as recontagens mostraram o contrário: a vitória fora de Al Franken, com vantagem ligeiramente maior: 312 votos.

Aparentemente Coleman já percebia que era impossível mudar o resultado final, pois até arranjou outro emprego – o de conselheiro, regiamente remunerado, da Republican Jewish Coalition (Coalizão Judaica Republicana), parte do milionário lobby israelense nos EUA. Mas a ordem do partido foi retardar ao máximo a declaração do resultado, privando os democratas de uma cadeira (leia AQUI o apelo de Franken ao adversário para sustar os recursos inúteis e conformar-se com o resultado).

A vingança da direita republicana

A comissão apuradora deu a vitória a Franken a 5 de janeiro, ratificada depois no tribunal. E agora veio a confirmação de um painel de três juízes. Mas Coleman contesta de novo. Como em 2000, houve milhares de votos irregulares de supostos eleitores ausentes (sem os requisitos legais, como carimbo de Correio e testemunhas). Democratas monitoraram tudo, já que tinha sido assim o roubo da Flórida para Bush.

A alegação republicana de que 4400 deixaram de ser contados foi rejeitada pelo painel de três juízes. Eles declararam unanimemente que a apuração foi “honesta, precisa e imparcial”. Os juízes rejeitaram duas tentativas de Coleman de subtrair votos de Franken a pretexto de terem sido contados a mais.frankenlincoln1 “Não acho que ataques a tribunais e ao processo eleitoral seja argumento válido”, disse Franken (no colo de Lincoln na foto ao lado).

Uma decisão do mais alto tribunal do estado só ocorreria no final de maio – ou depois. E se houver recurso à Suprema Corte federal, não se sabe quando a decisão virá. Enquanto isso, Minnesota já está há quatro meses sem uma das duas cadeiras que tem no Senado. Coleman parece menos confiante nos próprios advogados, dada a impossibilidade jurídica, do que no barulho dos destemperados talk shows.

O rei do talk show de rádio, hoje encarado por alguns como o real líder republicano, não perdoa o best seller que Franken dedicou a ele em 1996: Rush Limbaugh is Big Fat Idiot / Limbaugh é um Gordão Idiota (veja a capa no alto, à direita). Cinco anos depois, Franken enfeitou a capa de outro livro com O’Reilly, Ann Coulter, Bush, Cheney e a rede Fox. Título: Lies – And the Lying Liars Who Tell Them / Mentiras – e os mentirosos que as dizem (capa abaixo, à esquerda).

A “conduta imprópria” do partido

franken_book1Ultrajantemente engraçado, Franken foi popularizado no passado pelo “Saturday Night Live” da NBC. Ao contrário de outros comediantes, investiu cada vez mais na política e numa sátira devastadora de políticos e pregadores hipócritas e corruptos, especialmente personalidades da direita religiosa – como os tele-evangelistas Pat Robertson e Jerry Falwell, então donos de programas de TV.

A rede Fox News, ofendida pela maneira corrosiva como era tratada por Franken no livro Lies, cuja capa ridicularizava o slogan tão repetido por ela como marca do jornalismo duvidoso que pratica (fair and balanced: honesto e equilibrado), lançou oneroso processo judicial contra o comediante, acusando-o de uso indevido da marca. O o desfecho foi uma derrota embaraçosa para o império Murdoch.

Agora o Partido Republicano insiste em gastar dinheiro na esperança de que os democratas fiquem o maior tempo possível sem aquela cadeira no Senado. Até um importante senador republicano – Orrin Hatch, vice-presidente do Comitê Senatorial Nacional do partido – discordou dessa linha. Declarou que “esse tipo de conduta imprópria não devia ser adotada pelo partido”. Mas Coleman pode estar contando com outra coisa na Suprema Corte estadual: o voto do juiz Christopher Dietzen, que no passado deu dinheiro para duas campanhas dele (leia AQUI). 

No seu tempo de senador, Coleman estava sempre na tela Fox News. Adotava as causas da mídia de Murdoch, como a campanha em tom macarthista que culpava Kofi Annan, secretário geral da ONU, pelas irregularidades do programa Petróleo por Comida. Mas uma investigação presidida por Paul Volcker, ex-presidentre do Fed (banco central dos EUA), isentou Annan de qualquer responsabilidade nas irregularidades.

(Clique abaixo para ver um dos comerciais de ataque de Norm Coleman contra Al Franken durante a campanha)
Published in: on abril 14, 2009 at 1:46 pm  Deixe um comentário  

Nos anos 60s – com Kennedy, Guevara e Johnson

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Alguém já o viu como um Zelig político da década de 1960. Richard N. Goodwin (na foto com John Kennedy) trabalhou para dois presidentes (JFK e Lyndon Johnson), tentou eleger mais três (Eugene McCarthy, Robert Kennedy e Edmund Muskie) e ajudou o vice Al Gore a dizer ao país que reconhecia a derrota (duvidosa) de 2000 e não prolongaria o impasse sobre um resultado que deixava os americanos em suspense.goodwin_doriskearns

Aos 77 anos de idade, casado há mais de 30 com a historiadora que o sucedeu como celebridade da família, Doris Kearns Goodwin (foto ao lado – e saiba mais AQUI sobre seu último livro, analisando o gênio político de Lincoln), ele sobreviveu ao fim de Camelot, com a morte dos dois Kennedys, com quem trabalhara intimamente – e mais tarde a de Jacqueline, de quem foi amigo próximo. Com o papel político reduzido, passou a escreveu mais – livros, ensaios, artigos. E tem contado o que viveu no poder e fora dele.goodwin_bymarkostow

Em março e abril foi encenada na área de Boston, onde nasceu, peça que publicara em 1998 (originalmente sob o título The Hinge of the World, mas rebatizada em 2003, ao ser encenada na Inglaterra, como Two Men of Florence). Nela retomou o tema de Bertolt Brecht em Galileo Galilei no distante 1939, à sombra do nazismo e em contexto mais ideológico – dogmatismo e ciência, razão e obscurantismo, poder e arbítrio.

O caminho para a Casa Branca

Nos diálogos do físico e astrônomo Galileo com o papa Urbano VIII (que fora mentor dele quando era cardeal Francesco Barberini), Goodwin (foto acima, à direita) expôs de novo, graças à sua intimidade passada com o poder, o confronto entre a ciência e a fé (saiba mais sobre a peça AQUI). Sem nunca ter deixado de ser escritor (o talento para redigir discursos é que o aproximou de presidentes e candidatos), influiu ainda como diplomata no debate da política para a América Latina.

rememberingamericaDedicado no Departamento de Estado ao continente, Goodwin ajudou a criar a Aliança para o Progresso e foi em 1961 à conferência de Punta del Este, onde teve reunião secreta com “Che” Guevara. Seu memorando a Kennedy relatando o fato permaneceu secreto 22 anos (leia-o AQUI clicando no documento 1). E em 1988 ele contou a história em 20 páginas de Remembering America (saiba mais sobre o livro AQUI), no qual revelou, como “uma voz dos anos 1960”, que Guevara queria o diálogo entre Cuba e EUA.

Como Kennedy, Goodwin era de Brookline, Massachusetts. Mas os dois só foram apresentados – no apartamento de Kennedy em Boston – quando um já era senador e o outro concluia o 3° ano de Direito em Harvard. O senador sabia que Goodwin ia trabalhar na Suprema Corte com o juiz Feliz Frankfurter e pediu que o procurasse no Senado. “Foi meu primeiro contato com a política nacional”, escreveu no livro.

Goodwin optara pela advocacia “porque tinha de ganhar a vida”. Formou-se como primeiro de sua turma de 500 alunos – a de 1958. E como Barack Obama 30 anos mais tarde, tornou-se presidente da Harvard Law Review. Na capital iria deixar o juiz Frankfurter após ser escolhido, por sugestão de um professor de Harvard, para advogado-investigador da sub-comissão de Supervisão Legislativa da Câmara.quizshow

Os escândalos da TV e as tragédias

A comissão era temida desde que o poderoso chefe de gabinete do presidente Eisenhower, Sherman Adams, renunciara em consequência de uma investigação. Sua jurisdição abrangia todas as agências do governo. Como a Comissão Federal de Comunicações (FCC) era uma delas, Goodwin sugeriu uma investigação sobre o escândalo dos programas de prêmios da TV – como “Twenty-One” e “The $64,000 Question”.

O resto é História. Está contado num dos capítulos de Remembering America, transformado em 1994 por Robert Redford no filme Quiz Show (veja acima a capa do DVD e saiba mais AQUI), com Rob Morrow no papel de Goodwin. O desfecho do episódio permitiu mais um twist – para usar uma expressão de Hollywood. Colocou-o finalmente no rumo que há três anos esperava tomar, por insistência de Kennedy e seu influente assessor Ted Sorensen.

goodwin_rfk“Este é o momento. Você tem tido muita sorte. Até agora estava de fora mas ainda chega à bordo a tempo de participar da vitória”, disse Sorensen a Goodwin. A equipe de Camelot já estava quase totalmente formada, com a coleção daqueles que David Halberston chamaria no título de seu livro, The Best and the Brightest (Os melhores e mais brilhantes). Mas os triunfos políticos chegaram junto com tragédias.

Vieram a mudança de rumo (com a vitória eleitoral), a revolução dos direitos civis, os primeiros passos para a conquista do espaço. Mas também o fracasso desastroso da invasão de Cuba, as guerras de Kennedy (Berlim, Laos, Vietnã), os protestos antiguerra e os assassinatos do próprio Kennedy, do irmão Bob a caminho da indicação presidencial democrata (veja Goodwin acima, sentado, ao lado de RFK na campanha) e do líder negro Martin Luther King.

Johnson, da manipulação à paranóia

Houve opções difíceis. Goodwin foi dos poucos no círculo mais próximo de Kennedy a ficar e ajudar Johnson algum tempo. Contribuiu para o sucesso da lei de direito de voto dos negros do sul e para programas sociais como o Medicare e a Grande Sociedade – ambiciosa mas prejudicada pela guerra do Vietnã. Ao sair, foi fazer a campanha de McCarthy, que abandonaria ao se bandear para a de Bob Kennedy.

Em Remembering America elogiou o esforço do governo Kennedy pela justiça social e pela reforma agrária na América Latina. E atribuiu à ingenuidade do presidente no episódio da baía dos Porcos (onde esteve em 2001, no 40° aniversário da invasão) tanto o agravamento das relações com Cuba como o excesso de sigilo no governo, em meio às ações e atentados na obsessão de derrubar – ou matar – Fidel Castro.johnson_swearingin-w

O livro contou ainda como Johnson (na foto à direita ao prestar juramento no avião, entre Lady Bird e Jacqueline, após a tragédia de Dallas) o esperou para convidá-lo a trabalhar na Casa Branca: estava sentado na privada do banheiro do quarto e fez questão de vê-lo à sua frente, perto e de pé. Disse que gostava de ver os olhos das pessoas com quem falava. De outra vez, o secretário de imprensa Bill Moyers o chamou para nadar na piscina com Johnson. “Não tenho calção aqui”, respondeu. “Não vai precisar”, disse Moyers.

Os três estavam nus na piscina quando Goodwin soube do projeto ambicioso da Grande Sociedade de Johnson (o nome foi dado pelo assessor). As cenas insólitas do banheiro e da piscina refletiam a tendência de um presidente dado à manipulação – o que em parte Johnson, que às vezes parecia a Goodwin paranóico e fora da realidade, pode ter herdado de seu ídolo e protetor, Franklin Roosevelt.

Published in: on abril 11, 2009 at 12:43 am  Deixe um comentário  

Krugman & Stiglitz contra Obama & Geithner

obama_summers_geithner_x(Obama conduz a economia entre o conselheiro Larry Summers e o secretário do Tesouro Tim Geithner)

Parece bem claro a esta altura que o desafio maior à agenda econômica do presidente Obama não parte do conservadorismo republicano, que se entrega ao ridículo de identificar uma marcha do governo rumo ao regime comunista de estilo soviético. O desafio de fato relevante vem dos próprios aliados de Obama, entre eles economistas implacáveis antes na crítica à lambança de Bush.

dionne_ejUm veterano colunista do Washington Post, E. J. Dionne Jr (foto), ajuda a entender o quadro. Foi didático e oportuno, há dias, ao expor os dois lados desse confronto: o de Tim Gheitner, secretário do Tesouro, com larga experiência em Wall Street; e o dos ganhadores do Nobel de economia Paul Krugman, colunista do New York Times, e Joseph Stiglitz, professor de Columbia e ex-economista-chefe do FMI.

Tento passar aqui a análise dele (leia a íntegra AQUI). O grande mistério da agenda do governo, para Dionne, é se o casamento simbólico da ousadia com a cautela será uma receita realmente maravilhosa, com as coisas em seus lugares perfeitos, ou se no final vai se revelar um produto comparável àqueles da imaginação do cartunista Rube Goldberg, que criava engenhos complicadíssimos para propósitos insólitos e incertos (como o “guardanapo automático” reproduzido abaixo – e conheça mais AQUI).

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As contradições, ponto por ponto…

Os propósitos fiscais e orçamentários de Obama, diz Dionne, são ousados. Seu compromisso firme de fazer este ano a reforma da assistência à saúde é digno e corajoso. Mas o plano de socorro aos bancos expõe reverência pelo sistema financeiro, temor de distúrbios adicionais num mercado já abalado e esperança devota de que a situação econômica não seja tão má como temem certos economistas (como Stiglitz e Krugman).

gm_logoAgressivo frente à indústria automobilística, o governo assumiu o controle efetivo da GM, ao forçar a demissão do executivo-chefe Rick Wagoner. O ultimato à Chrysler foi para fundir-se com a Fiat ou morrer. Tudo no contexto da cautela em torno do propósito último do governo. Limites estritos foram impostos, sobre prazos e recursos disponíveis no socorro a empresas. Ficou claro o objetivo final de reconstruí-las para competir no mercado.chrysler_logo

Autoridades tiveram medo de faltar apoio a tal enfoque duplo. Motivo: dava-se à indústria interna menos ajuda do que ela esperava – e a ação envolvia muito mais intervenção do que a maioria dos advogados do livre mercado pareciam capazes de digerir. As avaliações iniciais ficaram acima do esperado, sugerindo que a curto prazo o espetáculo da corda bamba do governo tinha funcionado.

Para Dionne, análises daquilo que Obama estaria pretendendo levam rapidamente a frases carregadas de contradições. Ele quer uma regulamentação mais rigorosa do mercado – a fim de salvá-lo. Acha que neste momento é necessário aumentar o tamanho do governo, caso se queira voltar mais tarde a um sistema econômico menos restrito. Pode-se dizer que usa meios coletivistas para fins capitalistas.krugman_newsweek

…E a combinação de idéias opostas

A análise de Dionne citou uma afirmação feita por Obama na quarta-feira, durante a entrevista coletiva (com Gordon Brown) em Londres: “Não podemos cair de novo nos debates estéreis e nas antigas divisões”. A alternativa para ele seria então uma combinação nova de idéias opostas. E o socorro aos bancos é a questão onde os desafios enfrentados por esse método aparecem mais dramaticamente.

O debate sobre o plano tem suas raízes em três desacordos. O mais importante é se os grandes bancos são solventes ou insolventes. Para Geithner, os ativos tóxicos nos potfolios deles estão temporariamente subvalorizados numa economia má. Ou seja, vão supostamente valer mais quando a economia melhorar – o que, por sua vez, significaria que os bancos, na verdade, não estão quebrados.

Krugman (acima na capa de Newsweek – leia a reportagem de Evan Thomas AQUI), que Dionne encara como o mais proeminente crítico de Geithner, julga os bancos insolventes. Acha que a economia vai melhorar mais lentamente do que imagina o secretário do Tesouro. Muitos dos ativos tóxicos, para ele, são apenas “lixo”. Além disso, Krugman considera inevitável a tomada temporária de alguns bancos pelo governo, o que fará a economia mover-se mais rapidamente.

Na visão de Geithner, a tomada do controle dos bancos será mais difícil do que acham os partidários da medida – e pode tornar a recuperação econômica mais lenta. Por isso ele prefere enfoque mais cauteloso: governo e investidores privados comprariam os ativos tóxicos antes de serem decididas medidas mais radicais.

Entre o coração e a cabeça

Quanto aos outros dois desacordos, os críticos do plano do governo, em especial Stiglitz (foto abaixo, à direita), acreditam que ele envolve subsídios oficiais para investidores privados – e que serão muito mais elevados, deixando os contribuintes muito mais expostos. E há ainda uma divergência de sensibilidade. Geithner simplesmente demonstra muito mais confiança do que Krugman no trabalho do sistema financeiro.stiglitz_joseph

Krugman criticou o governo recentemente por se deixar fascinar pela “mística do mercado”. E ainda por sobrevalorizar as supostas competência e know how dos “feiticeiros” duvidosos de Wall Street, que adoram “tirar coelhos de cartolas” e já acumularam no arsenal mais “truques” e “mágicas” do mercado. Krugman parece ter tanta razão de temer a proximidade do governo com a visão de Wall Street como Stiglitz de se preocupar com os subsídios no plano oficial (leia artigo recente de Stiglitz AQUI).

A questão central, se os bancos estão insolventes, é enlouquecedoramente difícil de resolver, diz Dionne. “Se Geithner estiver certo, ele nos levará à recuperação com menos perturbações. Se estiver errado, vai gastar uma montanha de dinheiro do contribuinte antes de, afinal, voltar-se para a solução de Krugman. Meu coração está com os críticos, ganhadores do Nobel. Mas minha cabeça espera que Geithner esteja fazendo a opção certa”.

É o enigma de Obama, segundo o veterano analista político (e não econômico) do Washington Post: ousadia embrulhada na cautela enraizada na relação ambivalente com o status quo. É por isso, acredita ele, que Obama vai desafiar, um depois do outro, não apenas os seus adversários entricheirados mas também seus aliados naturais.

Published in: on abril 5, 2009 at 10:31 pm  Comments (2)  

Nasce uma estrela na rede Fox News

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O nome é Glenn Beck (foto de Nicholas Roberts para o New York Times). Chamei atenção para ele antes, duas vezes, neste blog. Primeiro, em setembro, quando estava no canal Headline News, da CNN, e entrevistou Sarah Palin. Depois, a 25 de fevereiro, citei a contratação dele pela Fox News, onde criou em seu programa um quadro fixo, diário, sobre o governo Obama: The Road to Socialism (A Rota para o Socialismo).

nyt_090330Nos dias, semanas, meses e anos que se seguiram ao 11 de setembro de 2001, a Fox News – do império de mídia do magnata australiano Rupert Murdoch – funcionou como uma espécie de fonte irradiadora de um terrorismo oficial patrioteiro, que ao mesmo tempo glorificava a figura do presidente George W. Bush como herói combatente de três guerras, uma delas meramente metafórica.

A guerra de mentirinha – ou marca de fantasia – consagrada na expressão bushista global war on terror (guerra global ao terrorismo), ou na sigla GWOT (leia mais AQUI), conviveu com as duas de verdade – a do Afeganistão, hoje agravada e deteriorada, e a do Iraque, resultante da invasão ilegal seguida de ocupação, em desafio aberto à Carta das Nações Unidas, onde o Conselho de Segurança negara apoio à aventura.

Para desespero do presidente Bush e seu onipresente gênio do mal, o vice Dick Cheney, uma das primeiras decisões do presidente Barack Obama, primeiro negro na história a chegar à Casa Branca, consistiu em “desencantar” a guerra da fantasia bushista – enquanto, paralelamente, reforçava as tropas no Afeganistão e abreviava o prazo para a retirada dos soldados que ainda permanecem no Iraque.

O rumo “socialista” de Obama

Um problema incômodo para o novo governo, no entanto, é a sobrevivência nos EUA da barulhenta máquina de informação – ou desinformação – manipulada antes pelo governo Bush para “defender o país do terrorismo”. Nela atua, incansável, o grupo neoconservador que produzira a ficção bélica e comandara a campanha contra o Iraque. Pois agora esses neocons reciclam o terrorismo – mas contra o governo.

A Fox News de Murdoch mantém esse terrorismo no ar, das primeiras horas do dia até o final da noite. Da mesma forma como nos anos Bush aterrorizava as pessoas contra as poucas vozes da oposição que ousavam expor violações das liberdades civis nos EUA, prática e terceirização da tortura em Guantánamo e nas prisões secretas da CIA espalhadas pelo mundo, agora vê comunismo no governo.

foxnation_040109Na nova fase, reciclada, do terrorismo pos-11/9, patrioteiro, cujo alvo central passou a ser o próprio governo, estão alguns dos mesmos combatentes retóricos inflamados do período bushista, do campeão de audiência Bill O’Reilly, que nega ser ideológico, ao vorazmente ideológico Sean Hannity, que se livrou do incômodo penduricalho liberal Alan Colmes. E eles ganharam um reforço de peso: Glenn Beck.

Beck não assusta por ser louríssimo e de olhos azuis. Apavora pela aparência de charlatão sem escrúpulos, capaz de qualquer excesso exibicionista. Se necessário, chora. Derrama lágrimas abundantes, verdadeiras. Enquanto a Fox News criou uma Fox Nation (Nação Fox – conheça AQUI a webpage e veja acima a foice e o martelo que ontem ilustrava entrevista na qual um deputado republicano dizia que os EUA estão virando uma noa URSS), ele lançou seu próprio “Projeto 12 de Setembro” – esforço explícito para reviver a histeria que se seguiu ao terrorismo de 11/9 (saiba mais sobre o projeto AQUI).

O terrorismo e a raiva conservadora

É difícil adivinhar aonde isso tudo vai parar. Os indícios são de que se pretende, tirando partido da incerteza trazida pela crise econômica, legado da dupla Bush-Cheney, produzir certo populismo, apoiado nos setores pos-11/9 mais histéricos, para um desafio nacional maciço ao governo Obama – retratado como “ameaça comunista” às liberdades, atribuídas ao capitalismo.beck_nyt_090330

Ver tudo isso como mero entretenimento da mídia seria subestimar os resultados já obtidos pela Fox News. O próprio New York Times registrou a 30 de março, na primeira página (veja no alto a primeira página, e ao lado o detalhe da matéria; e leia o texto na íntegra AQUI), que Beck, mesmo na periferia do horário nobre – de 6 às 10 da noite pontificam jornais em rede nacional e talk shows de mais sucesso, como O’Reilly e Hannity – já é uma das vozes poderosas a refletir “a raiva populista conservadora da nação”.

Em período pouco superior a dois meses, o programa de Glenn Beck, no horário ingrato de 5 da tarde, é um fenômeno: atrai 2,3 milhões de telespectadores e supera todos os demais das redes de notícias na TV a cabo, excetuados os de O’Reilly e Hannity no horário nobre (8 e 9 da noite). Segundo o Times, significa uma façanha para a Fox News, que sofrera uma queda na campanha eleitoral.

Beck, como outros donos de talk shows, nega ser jornalista (a profissão parece em baixa junto ao público). Diz que começou como “palhaço de rodeios” e compara-se a Howard Beale, aquele âncora de noticiário de TV no filme Network (Rede de Intrigas). Esse personagem anunciou no ar a intenção de matar-se diante das câmeras, numa reação à queda de audiência de seu programa.

Muitas tea parties como a de Boston

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Como a ameaça de suicídio causa impacto, Beale (interpretado por Peter Finch) ganha um horário para falar de sua revolta (“I’m mad as hell” é o grito de guerra dele) contra o que está errado no país e em sua vida. O “Projeto 12/9”, de Beck, pretende efeito igual. Com ele Beck encoraja pessoas em todo o país a reeditar em sua cidade a tea party de Boston (veja a reprodução acima e saiba mais AQUI), o evento que marcou em 1773 o início da revolução dos colonos contra a Coroa.

O populismo de Beck e Rush Limbaugh, rei do talk show de rádio desde os anos 1990, lembra o do padre católico Charles Coughlin (foto abaixo, à direita), cujo sucesso começou com pregações pelo rádio em 1927. coughlin_fathercharlesContratado pela CBS em 1930, atraia 40 milhões de ouvintes para suas palestras semanais, que no início exaltavam o New Deal de Roosevelt e depois voltaram-se contra o presidente, aderindo ao anti-semitismo e apoiando Hitler e Mussolini (saiba mais AQUI).

O Times definiu Beck no título de sua reportagem como “a louca, apocalíptica e lacrimosa estrela em ascensão da Fox News”. Segundo o texto de Brian Stelter e Bill Carter, ele faz uma salada de ultraje, lições baratas de moralismo e visão apocalíptica do futuro. Não por acaso, gente como Beck e Coughlin costuma chegar ao centro do palco em meio a crises como a de 1929 e a de agora.

Haverá casamento de interesses mais perfeito? De um lado o potencial do império Murdoch, com o poder (testado depois do 11/9) de aterrorizar o páis. Do outro, o populismo moralista, ultrapatriota, religioso, hipócrita e capaz de atrair a preconceituosa massa conservadora, frustrada com a derrota do Partido Republicano e pronta a acreditar que o complô subterrâneo liderado, da Casa Branca, por Obama vai comunizar o país.

Published in: on abril 1, 2009 at 7:27 pm  Comments (2)