Guantánamo, uma indecência de 110 anos

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A foto acima é do momento em que o presidente Barack Obama assinou a ordem de fechamento da prisão de Guantánamo. Por enquanto, só o que o governo dele ousou dizer a respeito da extensa área de território cubano sob controle indecente dos EUA há 110 anos, foi essa referência à mudança do status dado pelo antecessor George W. Bush, ao transformá-la em infame centro de tortura, chamado há três anos pela Anistia Internacional de “Gulag do nosso tempo” (veja abaixo a cartaz do filme The Road to Guantanamo, premiado no festival de Berlim).

road_to_guantanamoEm cumprimento a promessas de campanha, o governo Obama decidiu pela proibição da tortura e pelo fechamento da prisão – como também das demais prisões secretas da CIA (Agência Central de Espionagem) espalhadas pelo mundo, nas quais se terceirizava a prática da tortura. Mas Guantánamo é uma indecência jurídica e uma relíquia colonial do império sonhado pelos EUA no século 19.

Ocupada pela força das armas, Guantánamo já então era intolerável. Ainda o é hoje. Os próprios americanos, por uma questão de dignidade e bom senso, há muito deviam tê-la devolvido como excrescência ofensiva não só ao povo cubano, cuja liberdade os EUA alegam defender, mas a toda a América Latina – já que  impingida a partir de lei americana abusiva que tratava de destinação de verbas do Exército.

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De olho em Cuba, desde 1824

A ocupação de Guantánamo data de 1898. Resultou de pacote intervencionista em meio à luta dos cubanos pela independência da Espanha, então potência colonial. Concebida em 1823, a Doutrina Monroe (“a América para os Americanos”, na formulação duvidosa do presidente James Monroe, o do retrato ao lado) pareceu a alguns oferecer uma face “virtuosa” dos EUA, por advertir nações de fora do hemisfério de que não deviam se imiscuir nas questões do continente.

Os latino-americanos logo perceberiam que se buscava apenas atender às próprias ambições dos EUA, cuja atenção voltava-se para Cuba e Porto Rico já em 1824. O então secretário de Estado John Quincy Adams, depois presidente (1825-1829), avisou Simón Bolívar de que a doutrina não autorizava “os fracos a serem insolentes com os fortes”, motivo pelo qual devia ficar longe de Cuba e Porto Rico.

bolivar_simon1Ao preparar a I Conferência Pan-Americana, boicotada por Washington, Bolívar já não tinha ilusões: “Os EUA parecem destinados pela Providência a espalhar a miséria em nome da liberdade”, disse em 1829. De fato, a truculência britânica nas Malvinas, Honduras, Guatemala foi ignorada, enquanto os EUA tomavam o Texas e a Califórnia do México, depois invadido, e separavam o Panamá da Colômbia, além de mais intervenções.

Cobiçada desde 1824, quase comprada por US$100 milhões em 1848, Cuba entrava ainda no contexto dos 10 anos de oposição dos EUA à federação centro-americana. Ante a iminente vitória de Cuba sobre a Espanha (e a esperada conquista da independência), as cadeias de jornais Hearst e Pulitzer inventaram a “esplêndida guerrinha” de Ted Roosevelt e seus Rough Riders, retratados como heróis.

A fala macia e o porrete de Ted

Porto Rico foi anexada como o Texas. Cuba resistiu. Acabou sob controle, com a alegação dos EUA de que tinham ajudado a guerra da independência. De 1898 em diante o Caribe virou mar territorial americano. Nascia o império colonial, que tinha ainda Filipinas e Guam, do outro lado do mundo. Festejado como herói, Ted Roosevelt elegeu-se vice do presidente William McKinley no ano seguinte, 1900.

platt_orvilleA Emenda Teller, de 1898, negava expressamente qualquer intenção dos EUA de anexar Cuba. E em 1901 o senador Orville H. Platt (foto ao lado), a pretexto de prevenir desejos imperiais da Alemanha sobre a ilha, apresentou a emenda (originalmente redigida pelo secretário da Guerra Elihu Root) à lei de verbas do Exército: proibia Cuba de assinar tratado dando poderes a outro país sobre seus negócios internos, endividar-se ou impedir ali um programa sanitário americano. E mais.

Na emenda (saiba mais sobre ela AQUI) os EUA arrogavam-se o direito de intervir nos assuntos internos de Cuba, a pretexto de “manter a ordem e a independência”, podendo comprar ou arrendar áreas para instalar estações navais ou carboníferas. A principal delas era a baía de Guantánamo. No mesmo ano, Cuba foi forçada a incluir a emenda na sua Constituição e a assinar tratado assegurando o poder dos EUA sobre a área (leia o tratado AQUI).

Obviamente os EUA – já sob Roosevelt, presidente a partir de 1901 devido ao assassinato de McKinley – deitaram e rolaram. Em 1906, mandaram-se tropas, “a convite”, para sufocar revolta e “restaurar a ordem”. Enviavam navios de guerra, negavam reconhecimento de regimes, instalavam e tiravam governos. Só em 1934 revogou-se a Emenda Platt, graças à política da Boa Vizinhança. Mas não o arrendamento de Guantánamo.

Caloteiro e péssimo inquilino

A manutenção de Guantánamo, antes de virar prisão, já se elevava, por ano, a US$ 36 milhões. Servia para provocar Cuba, que repudia a transação ilegítima e imoral. O aluguel é o sonho de todo inquilino: fixado pelo próprio, em 90 anos (de 1903 a 1993) subiu de US$ 2 mil para US$ 4.085. Nessa proporção, deve estar hoje nuns US$ 4.200, o que mal paga aluguel mensal de apartamento de dois quartos em Manhattan.

Arrogante e prepotente, o inquilino sempre impôs sua vontade como valentão de rua. Caloteiro, já que só paga o que quer, ainda controla a área e hostiliza o dono légitimo da propriedade. Cuba, ao contrário, comporta-se como o senhorio ideal: desde que Fidel Castro chegou ao poder, sequer desconta os cheques do aluguel. Teme que isso possa legitimar a indecência histórica imposta pelos EUA.

cubaHá 16 anos, quando Bill Clinton chegou à Casa Branca, o escritor Tom Miller, autor do livro Trading With the Enemy: A Yankee Travels through Castro’s Cuba (capa ao lado), recordou no New York Times a história vergonhosa de Guantánamo – rebatizada no Pentágono, adepto das sopas de letras, como Gitmo (leia o texto na íntegra AQUI e saiba mais AQUI sobre Guantánamo como símbolo da gunboat diplomacy). Não se imaginava então a vergonha maior que viria – o centro de torturas, obra de Bush II em 2001.

Antes de Fidel, a área pode ter sido a base ideal para o lazer de militares amantes de prostíbulos, cassinos e consumo de drogas – cortesia de gangsters como Meyer Lansky, à sombra de ditadores apadrinhados em Washington. Talvez haja em Miami quem sonhe com a volta aos velhos tempos. Mas Obama, mesmo vencedor da Flórida, pode fazer a coisa certa. Acabar com essa indecência de 110 anos.

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(Foto de Guantánamo em 2006: um pedaço de Cuba sob ocupação ilegal dos EUA, transformado em prisão e centro de tortura pelo governo Bush) 
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Published in: on janeiro 29, 2009 at 5:19 pm  Comments (16)  

A missão impossível de Mitchell em Israel

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“Ele não é pro-Israel e nem pro-Palestinos. É neutro”, disse ao New York Times o ex-embaixador dos EUA em Israel, Martin S. Indyk, sobre o emissário especial do presidente Barack Obama ao Oriente Médio, ex-senador George J. Mitchell (saiba mais AQUI). Depois de ser líder democrata no Senado, Mitchell teve a seu favor o difícil êxito na mediação Grã-Bretanha-Irlanda do Norte e a trégua na II Intifada.

carter_sadat_begin_78Já é uma diferença entre Obama e Bush. Mas neutralidade parece desagradar Israel. O presidente Jimmy Carter, por exemplo, mediou os acordos de Camp David (foto), entre Israel (à época, Menahem Begin) e Egito (então, Anwar Sadat). Hoje é sabido o horror dos israelenses a ele, difamado até como anti-semita. A reação israelense costuma ser ambígua: primeiro, o governo é discreto: deixa para outras vozes o início da sabotagem.

Vale a pena observar o que já está acontecendo em relação à missão de Mitchell, que antes de ser iniciada o New York Times chamou de “não invejável” (leia AQUI). Ele se tornou alvo em Israel horas depois de ter seu nome anunciado no Departamento de Estado, em evento ao qual compareceram Obama, a secretária Hillary Clinton, o próprio Mitchell (foto do alto) e o embaixador Richard Holbrooke, nomeado na ocasião para emissário no Paquistão e no Afeganistão.

“Tendencioso”, “ascendência árabe”mitchell_george

A escolha de Mitchell (foto ao lado) só se tornara pública após consultas prévias com Israel e a facção Fatah dos palestinos (não o Hamas, que controla Gaza). No ministério do Exterior de Israel, o porta-voz Yigal Palmor, em declaração oficial, considerou “excelente” a decisão. “Saudamos a escolha, pois tivemos relações de trabalho com ele no passado. Estamos certos de que continuará assim no futuro”, disse.

Mas vieram de Jerusalém mais avaliações, contrárias – como a do “Myths and Facts” (Mitos e Fatos), web site radical de Eli E. Hertz, que proclama em artigo disseminado por email (e assinado por David Bedein) o “legado tendencioso” de Mitchell, “de ascendência árabe”. O crime maior que se atribui ali ao ex-senador é o relatório da comissão que presidiu sobre os distúrbios de 2000 em seguida à visita de Ariel Sharon ao Monte do Templo, local sagrado dos muçulmanos (leia AQUI o texto do relatório citado).

Após investigar o episódio, segundo Bedein & Hertz, a comissão Mitchell (co-presidida por Warren Rudman, ex-senador de ascendência judaica, e integrada ainda por 3 respeitados diplomatas europeus) admitiu que na base dos distúrbios estava um movimento por “independência e genuína autodeterminação”, caracterizando os participantes como “manifestantes palestinos desarmados”.

É oportuno lembrar o caso, pois Israel vivia clima eleitoral, como hoje. Sharon, líder do direitista Likud (oposição), fazia provocação ao exibir-se como durão à frente de bando armado no Monte do Templo. Cinco anos antes Yitzhak Rabin fora assassinado pelo radical direitista Yigal Amir por ter assinado os Acordos de Oslo. Com a provocação (e a II Intifada) Sharon elegeu-se em fevereiro de 2001.

De Arafat à tragédia de Gaza

rabin_arafat_clintonParalelamente, teve início o período de oito anos de apoio automático e explícito dos EUA, no governo Bush, às posições israelenses. Nos oito anos anteriores Bill Clinton reunira em Washington líderes de Israel (Rabin, à esquerda na foto ao lado), Shimon Peres, Ehud Barak) e o palestino Yasser Arafat. Bush não admitiu receber Arafat. Ao invés disso, encorajaria o cerco a ele em Ramallah – até sua morte em novembro de 2004.

Com as bênçãos do padrinho Bush, Israel dedicou-se a desgastar o Fatah de Arafat, na obsessão de destruir sua liderança. Quando veio a eleição palestina que exigia, percebeu o erro: a vitória do radical Hamas foi pior para Israel (Governo ou grupo terrorista? Leia AQUI um debate sobre o Hamas em 2006). Hoje, Israel e EUA obstinam-se, paradoxalmente, em reabilitar os sucessores de Arafat no Fatah – Mahmoud Abbas (líder da OLP) e Farouk Kaddoumi (do Fatah).

É essa a armadilha complexa deixada por Bush – e agravada ainda pelo banho de sangue promovido por Israel em Gaza, com mais de 1300 civis palestinos mortos por ataques de terra, mar e ar, às vésperas da votação israelense e entre a eleição de Obama (4 de novembro) e a posse (20 de janeiro). Uma tragédia previsível, um retrato dos efeitos da política de apoio sistemático à insanidade israelense.

A rigor, só se sabe de uma discordância entre Bush e Israel nesse período. Os EUA negaram apoio a um bombardeio israelense de instalações nucleares do Irã (saiba mais AQUI). Nos primeiros dias de governo, Obama passou a desmontar, ponto por ponto, a política externa de Bush. Guantánamo, as prisões secretas da CIA, a obsessão do sigilo, a hostilidade à ONU, a sabotagem das ações contra mudanças climáticas.

Mesmo papel, mesmo cenário

E a política israelense de Bush? Publicamente, Obama e Hillary na campanha fizeram visitas conspícuas ao poderoso lobby AIPAC (American Israel Public Affairs Committee), que tem dois figurões à espera de julgamento, acusados de espionagem a favor de Israel. A nomeação de Mitchell como emissário de Obama ao Oriente Médio pode ser um dado positivo, mas ainda tímido.

livni_tzipi_08Há outros, negativos. O mundo inteiro, talvez até os EUA, está chocado com o massacre de Gaza e a desproporção perversa do número de vítimas. Tzipi Livni (foto), ministra israelense de Relações Exteriores e líder do partido governista Kadima, tenta provar ao eleitor que, apesar de atraente, pode ser implacável como Sharon – ou a trabalhista Golda Meir, que negava até a existência de um povo palestino.

Com seu bando armado no Monte do Templo, Sharon – ainda no Likud – produziu a II Intifada e ganhou a eleição de 2001, atrelando-se a Bush. Livni, uma das herdeiras do Kadima criado por ele, já tem sua força eleitoral no banho de sangue de Gaza. O presidente Obama estará disposto a por em risco a atual lua de mel com o povo americano e o mundo para repetir, no mesmo cenário, o papel que foi de Bush?

(Pela foto abaixo, tomada na Casa Branca, a gente pode até concluir que Dick Cheney e Livni já estavam preparados para uma relação sólida e duradoura) 

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Published in: on janeiro 25, 2009 at 10:17 am  Deixe um comentário  

Bush e Obama, do medo à esperança

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É pena que tenha crescido tanto a suspeita, especialmente à esquerda, de um suposto cinismo de Barack Obama, já como presidente eleito, em relação às promessas e compromissos do candidato. Mas isso permitiu ao próprio presidente, já empossado (e a pequena distância do antecessor George W. Bush), anunciar “uma nova era” e declarar o repúdio explícito e enfático às políticas desastrosas dos últimos oito anos.

Bush e seu vice Dick Cheney tiveram então de ouvir calados este trecho substantivo e veemente: “Quanto à nossa defesa comum, rejeitamos como falsa a escolha entre nossa segurança e nossos ideais. Os pais fundadores, ante perigos graves e difíceis de avaliar hoje, redigiram uma carta que garante o governo da lei e os direitos do homem (…). Aqueles ideais ainda iluminam o mundo. Não abriremos mão deles a pretexto de expedientes”.

Com isso, Obama destruiu o laborioso edifício de falsidades com que Bush e Cheney, nas semanas derradeiras no poder, tentaram construir junto à audiência cativa do império Murdoch de mídia (a Globo de lá) e outros veículos da direita sob a influência do neoconservadorismo, tão inconformados como a dupla ante o consenso em torno da avaliação dos dois últimos mandatos como o pior governo da história dos EUA.

O terrorismo como pretextoBush

Nas suas sucessivas despedidas, em entrevistas e discursos, Bush (foto ao lado, na última entrevista na Casa Branca) e Cheney martelaram, como se fosse explicação suficiente para a herança calamitosa que deixaram ao novo presidente, a alegação de que, graças à vigilância do governo depois do 11/9 os EUA não mais sofreram ataque terrorista. Ainda que tivesse sido esse o caso (na verdade, cartas com Anthrax mataram cinco pessoas e feriram 17), sequer seria mais do que desculpa esfarrapada.

Esqueceram que eles e seus ideológos neocons foram espectadores omissos na tragédia do 11/9 porque, advertidos pelo governo anterior na transição seguinte à ordem da Suprema Corte contra a recontagem de votos que mudaria o resultado fraudulento da Flórida, ignoraram as advertências do governo anterior, do democrata Bill Clinton, sobre a gravidade da ameaça terrorista.

A negligência dos auto-suficientes especialistas neocons em segurança nacional e defesa levou as autoridades a darem prioridade no início do governo à reativação do projeto reaganista “Guerra nas Estrelas”.againstall_enemies E a subestimar a ameaça do extremista religioso Osama Bin Laden, treinado em ações terroristas pela própria CIA, que o financiara e armara no esforço para expulsar os russos do Afeganistão.

Em dois livros, o assessor de contra-terrorismo do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca no início da administração Bush-Cheney, Richard Clarke (saiba mais AQUI sobre seu Against All Enemies, o livro da capa acima), e o primeiro secretário do Tesouro, Paul O’Neill (que falou a Ron Suskind, autor de The Price of Loyalty, capa abaixo), testemunharam que dentro do governo optou-se pela invasão do Iraque, mesmo sabendo-se que Saddam Hussein nada tinha a ver com as ações da al-Qaeda e Bin Laden (leia AQUI a entrevista de O’Neill ao “60 Minutes” da CBS).suskind_thepriceofloyalty

O atalho perigoso de Bush

Também exemplo eloquente, no inicío do governo Bush, da pouca atenção dada ao terrorismo, foi o secretário de Justiça (procurador geral) John Ashcroft. Diretor interino do FBI em 2001, Thomas Pickard revelou na comissão do 11/9 ter alertado Ashcroft duas vezes sobre a gravidade da ameaça terrorista e em especial Bin Laden. E que na terceira, apenas três meses antes do ataque, foi interrompido no meio. “Não quero ouvir nada mais sobre isso!”, disse o secretário (saiba mais AQUI, na transcrição parcial do depoimento de Pickard).

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O caso Ashcroft é revelador. Depois da tragédia do World Trade Center houve outro choque entre ele e o diretor do FBI – já então Robert Mueller, preocupado em agir dentro da lei para identificar e prender os terroristas, a fim de assegurar a validade das provas num eventual julgamento. Segundo Bob Woodward (em Bush at War), Ashcrof discordou e mandou Mueller ser “não convencional” – e ignorar os cuidados legais. Nas suas memórias, Never Again, (capa ao lado) o ex-procurador geral gaba-se de ser durão.

Aquele procedimento indicava o novo rumo do governo. Ignorando as leis do país, as liberdades e garantias individuais, os direitos humanos e até as convenções internacionais contra a tortura, Bush e Cheney tentam hoje convencer o país de que com tortura, espionagem interna, Guantánamo e Abu Ghrabi preveniram outras ações terroristas. Alegam que estavam certos ao impor a política do medo e da histeria patrioteira, sacrificando os ideais legados pelos pais fundadores.

Unidade em vez de conflito

obama_michelle_at-lincoln-memorialAo proclamar sua discordância saudável, convencido de que tais ideais ainda iluminam o mundo e de que não se pode trocá-los por expedientes enganosos, Obama deixou claro ainda que no resultado da eleição deste ano – como na do Brasil em 2002 – a esperança venceu o medo. “Estamos reunidos aqui hoje porque escolhemos a esperança em vez do medo, a unidade de propósito em vez do conflito e da discórdia” (leia AQUI a íntegra do discurso).

Sem individualizar, referiu-se aos erros “da parte de alguns mas também ao nosso fracasso coletivo ao fazer opções difíceis”. Como observou um jornalista, o que ele disse deve ter soado chocante para Bush, que sabia estarem sendo amplamente arrasadas as suas políticas – e que raramente nos últimos oito anos ficara sentado, em silêncio, tendo de ouvir um discurso expor a trágica mudança de rumo do país.

Imagens e símbolos marcaram o discurso, rico ainda em breves referências históricas e factuais, com elegância e sem excessos retóricos. Seus inspiradores eram óbvios – de Abraham Lincoln, sobre cuja Bíblia jurou, ao Luther King do feriado da véspera, passando ainda pelo Roosevelt do New Deal na Grande Depressão e John Kennedy, representado pela presença do único sobrevivente dos irmãos.

Nenhum desses nomes estava no discurso. Ironicamente, Obama citou um único nome, o do presidente Bush, responsável maior pelo desastre. Foi logo no início, ao agradecê-lo “pelo serviço ao nosso país, como também pela generosidade e cooperação ao longo da transição”.

Published in: on janeiro 21, 2009 at 5:38 pm  Comments (2)  

O momento de Obama, à sombra de Lincoln

thetalltarget-1O título The Tall Target de um filme de 1951 (veja o cartaz acima e outro abaixo, à direita) referia-se à estatura elevada e à altivez do possível alvo de um atentado em 1861 – o presidente eleito Abraham Lincoln. Aquela produção diferente de Hollywood, dirigida por Anthony Mann (um mestre do film noir), baseou-se em história de Daniel Mainwaring (Geoffrey Homes) adaptada por George Worthing Yates e Art Cohn.

Mainwaring foi uma das vítimas da lista negra de Hollywood, como também Will Geer, excelente ator que fez o papel do condutor do trem. O ator Adolphe Menjou, um dos conspiradores na trama do atentado, foi um dedo duro notório, além de instigador da caça às bruxas de Hollywood na organização de extrema direita Motion Picture Alliance for the Preservation of American Ideals (MPAPAI).

the_tall_targetMas a história do filme, ainda que atribuída à imaginação de Mainwaring, teve como base a especulação de que houve de fato a trama assassina. Lincoln seria alvejado durante sua viagem pela ferrovia The Baltimore & Ohio Railroad, atravessando Indiana, Ohio, Nova York, Pensilvânia, Delaware e Maryland até à capital – para a posse do 16º presidente. Viagem repetida agora pelo 44º, Barack Obama.

Otimismo hoje, tensão ontem

Em The Tall Target o detetive que desarticula a trama chama-se, por coincidência, John Kennedy – o presidente assassinado em 1963. Foi interpretado por Dick Powell. O diretor Anthony Mann, muito bem sucedido em filmes anteriores (como Raw Deal, T-Men e Railroaded), recriou o mesmo clima noir, conseguindo manter a atenção até o desenlace, em Baltimore, de onde Lincoln seguiu para a capital (mais sobre o filme AQUI).

Na reconstituição de agora, Obama viajou em meio à euforia, festejado em escalas sucessivas, inclusive Baltimore (leia AQUI o relato da viagem no web site da CBS). Pesquisa do New York Times com a rede CBS de televisão refletiu a onda de otimismo em relação à mudança de governo (saiba mais AQUI) – um clima que contrasta com a atmosfera tensa na viagem de Lincoln. Sete estados já estavam em rebelião aberta contra a União, para criar a Confederação sulista.

E terá havido mesmo a trama para assassiná-lo? Ela é dada como fato numa Enciclopédia de Abraham Lincoln (The Abraham Lincoln Encyclopedia), que tem entre seus autores Mark Neely Jr, historiador que ganhou o prêmio Pulitzer. Mas o relato que parece ser a fonte mais citada para dar credibilidade ao episódio é o da revista Harper’s em junho de 1868 (leia o texto AQUI).

O alerta do “Baltimore Sun”

Aparentemente, o texto foi feito para tirar partido da comoção no país depois do assassinato em 1865, com o ator John Wilkes Booth no papel central – e de ter sido a trama de 1861 citada no julgamento do assassino e seus cúmplices. Todos os dados da Harper’s são atribuídos às anotações do próprio Allan Pinkerton (reprodução abaixo), dono da célebre agência de detetives que fora contratada para desarticular a trama de Baltimore.

pinkerton_allan1O personagem-chave do complô relatado em 1868 era um cabelereiro corso que emigrara para os EUA e se instalara em Baltimore: Cipriano Ferrandini (citado ainda como Siprono Fernandini e outras variantes) chegou a ser acusado mas nunca indiciado por conspirar contra Lincoln em 1861. Mas será Pinkerton confiável? Ou será suspeito, por seu interesse em superestimar feitos de sua agência?

O fato concreto era a hostilidade dos escravocratas de Maryland às vésperas da posse. O próprio Baltimore Sun, principal jornal do estado, referiu-se a isso a 27 de dezembro de 2008, a propósito da viagem de Obama (leia a íntegra AQUI). Citou então seu editorial de 23 de fevereiro de 1861, no qual tinha advertido os leitores contra o clima hostil, conclamando-os a “não permitir desrespeito pessoal”.

A fuga e a morte em 1865

Apesar do papel conspícuo de Pinkerton, à frente da agência encarregada da proteção do presidente contra possível atentado, a suposta trama nunca chegou a ser suficientemente investigada por ele.lincoln_fuga O Sun, no editorial de agora, observou que ao ser advertido para a ameaça ainda em Harrisburg, Pensilvânia, Lincoln resolveu mudar para um trem mais cedo e, assim, passar por Baltimore sem ser notado.

Em todo o estado de Marylnd era forte a simpatia pelo Sul escravocrata. Devido a isso, explicou o Sun, aquela passagem silenciosa por Baltimore foi ridicularizada mais tarde pela imprensa hostil como “covardia”. Um exemplo desse tipo de exploração, claramente alimentada pelos adversários, foi a charge de Harper’s a 9 de março de 1861 (veja acima), sob o título “Flight of Abraham” (A fuga de Abraão).

Seria essa, então, a razão principal de nunca ter sido suficientmente investigada toda a trama do atentado – e os supostos conspiradores nunca terem sido acusados? Devido a isso, disse ainda o jornal, Lincoln nunca mais tentou esconder-se do público. “E quatro anos depois, sem qualquer proteção no balcão do Ford’s Theatre, ele foi assassinado devido a conspiração bem sucedida”.

(Veja abaixo a foto histórica da posse de Lincoln em 1861, depois das peripécias da viagem no trem da Baltimore & Ohio Railroad)

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Published in: on janeiro 19, 2009 at 10:33 am  Comments (2)  

O terrorismo de Bush contra o Pentágono

ricksfiasco1No livro Fiasco: The American Military Adventure in Iraq (veja-o  ao lado, na mão de seu autor), o jornalista Thomas E. Ricks, encarregado da cobertura militar no Washington Post, fez o que o New York Times considerou um retrato devastador da guerra do Iraque como “um exercício desgovernado de arrogância, loucura e incompetência”, da decisão unilateral do governo Bush de invadir o país sob falso pretexto à ocupação desastrada, passando pelos erros na condução da guerra (leia AQUI a resenha na íntegra).

Lançado em 2006, o livro foi imediatamente para a lista dos mais vendidos. Agora o autor estreou um blog (“The Best Defense”) no web site da revista Foreign Policy, que acaba de ser reformulada (leia o blog AQUI e saiba mais sobre a revista AQUI). Nele contou ter tido acesso – há poucos dias, graças a um amigo – ao texto de um email de 2005 no qual um diretor de departamento do Army War College (AWC, a Escola Superior de Guerra deles) conclamou os colegas a fugirem do jornalista Ricks.

metz_book“Todos nós temos de evitar o Tom (Ricks) como uma praga”, dizia o email assinado por Steven Metz. O jornalista explicou: “Fiquei especialmente surpreso pelo texto porque a última vez que tinha falado com o professor Metz, em 2008, ele me pedira para escrever algo que a editora pudesse usar para promover o livro que acabara de fazer, também sobre a guerra do Iraque. Eu escrevi e a frase foi usada”. (Veja acima a capa o livro de Metz, Iraq & the Evolution of American Strategy)

Liberdade acadêmica em xeque

Ricks reconhece que cada um tem direito de ter opiniões próprias, mas achou estranho Metz, integrante do corpo docente do Strategic Studies Institute (SSI) da AWC, recomendar que os colegas o evitassem, negando-lhe informações (saiba mais sobre o SSI AQUI, sobre Metz AQUI e o livro AQUI). E depois ainda buscar sua ajuda para vender seu próprio livro. É uma história reveladora neste momento em que George W. Bush dá seu adeus melancólico à Casa Branca.

Na sua entrevista coletiva desta semana, Bush a rigor não se arrependeu de nada de seus oito anos. Citou duas ou três coisas, mas atribuia a outros: as armas de destruição em massa que não existiam (culpa da inteligência), a faixa Mission Accomplished no porta-aviões Abraham Lincoln (“alguém” a colocou lá para sua visita exibicionista), imagens das torturas de Abu Ghraib (culpa de poucas “maçãs podres” de escalão inferior) e omissão no Katrina (um bode expiatório foi demitido na FEMA).

metz_stevenO episódio do professor do SSI, revelado agora por Ricks, ajuda a avaliar melhor a extensão dos estragos causados pelo governo Bush em diferentes áreas – e o caso específico da liberdade acadêmica no Army War College. De posse do email, o jornalista do Post perguntou ao professor porque tinha conclamado colegas a fugir dele. Metz (foto ao lado) alegou que aquilo teve a ver com o clima político que a instituição vivia na época.

O clima de medo, marca bushista

Metz culpou explicitamente a perturbação nas relações entre o Exército e as autoridades civis do escalão mais alto, sob ordens diretas do então secretário da Defesa, Donald Rumsfeld. Por ter dito, antes da invasão, que seriam necessárias mais centenas de milhares de soldados, o general Eric Shinseki (foto abaixo, à direita) vira-se forçado a deixar a chefia do Estado Maior do Exército – o que levou o Exército a um esforço para melhorar as relações com Rumsfeld.

shinseki_eric“Gente do SSI tinha sido verbalmente castigada depois de entrevistas dadas a você.  Eles viram as reportagens e nelas havia mais críticas ao governo do que esperavam. Nós nos preocupávamos com o que podia vir a acontecer ao SSI. Estávamos amedrontados por causa da instituição. Muitos de nós, inclusive eu, simplesmente paramos de dar entrevistas”, desculpou-se o professor.

Curiosamente isso sugere um paralelo com a conduta corajosa dos militares em outro episódio histórico – o da caça às bruxas. mccarthyLançada na Comissão de Atividades Americanas da Câmara (HUAC), no início da guerra fria, ela disseminou o medo no país e celebrou o falso patriotismo do senador Joe McCarthy (foto ao lado, numa sessão de seu comitê). O governo Truman aproveitou a histeria para aprovar a ajuda externa à Grécia e Turquia e na política interna para criar “juramentos de lealdade”.

Dwight Eisenhower, beneficiário dela na campanha de 1952, distanciou-se depois dos excessos do próprio partido (o Republicano) – e os militares, ao invés de se sujeitarem como no governo Bush, reagiram quando o alvo de McCarthy passou a ser o Exército. Na resistência, bancaram (e ganharam) o confronto com o caçador de bruxas, cujo poder desfez-se logo depois, com o voto de censura no Senado em 1954 (veja AQUI como o Times relatou o momento crítico do confronto).

Um terrorismo no bom sentido?

Claro que há a diferença fundamental – de que na caça às bruxas o terrorismo obscurantista foi iniciativa do Legislativo e não do Executivo, onde o presidente é também o comandante-chefe das Forças Armadas. Mas deve ser levado em conta que por trás de tudo esteve, em 2001-09, o grupelho neoconservador (Cheney-Rumsfeld-Wolfowitz à frente), particularmente zeloso na defesa da submissão dos militares aos líderes civis do Departamento da Defesa.

Golpes e ditaduras na América Latina nos ensinaram a ver militares com suspeita – até como inimigos da democracia. Mesmo nos EUA livros e filmes exploraram a imagem, que se ajustaria ainda a um Douglas MacArthur, Curtis LeMay, George Patton e outros. Mas é preciso cuidado com o zelo civilista dos neocons – esses apóstolos da guerra rotulados de chicken hawks (falcões galinhas) pelo detalhe de ter a maioria deles fugido do serviço militar.

bush_090112Desde o fim da guerra fria eles pregam um mundo unipolar – os EUA como superpotência única. No final da guerra do Golfo de 1991, tentaram forçar a marcha sobre Bagdá, barrada pelo apoio de Bush I a James Baker (secretário de Estado) e Colin Powell (chefe do estado-maior conjunto). Atropelados pelo 11/9, usaram o pretexto para impingir a Bush II a guerra do Iraque e ítens de seu Projeto do Novo Século Americano, incorporados à Estratégia de Segurança Nacional (NSS).

Os neocons influem desde o governo Reagan mas só com Bush II assaltaram o poder. Para Leo Strauss, filósofo que admiram, e Irving Kristol, criador da expressão neoconservative, o governante pode mentir ao povo, pois sabe o que é melhor para o povo; e assessores sábios podem mentir ao governante. O despreparado Bush aprendeu a lição, a julgar pela entrevista desta semana (foto). Acha que só é impopular porque as pessoas não entendem: tinha de aterrorizá-las – para salvá-las. Ou seja, para o bem delas.

Published in: on janeiro 14, 2009 at 8:19 am  Comments (1)  

A paixão perdulária dos EUA por Israel

obama_aipac_3Como o presidente eleito Barack Obama (na foto, em visita ao AIPAC, o lobby de Israel) vai receber, com a herança desastrosa de George W. Bush, déficit orçamentário acima de US$1,3 trilhão, e como seu pacote de estímulo maciço à economia eleva-se a quase US$ 800 bilhões (para criar empregos e tirar o pais da recessão), supõe-se que gastos perdulários no atual quadro de dificuldades do país terão de ser revistos – ou repensados.

Nesse caso, pode ter chegado a hora de, digamos, pensar o impensável – e reexaminar a generosidade insólita (ou leviana) com que, nos últimos 60 anos, transferiu-se à responsabilidade do contribuinte americano o ônus de sustentar o estado de Israel e sua devastadora máquina de guerra. Dados conservadores da Washington Report On Middle East Affairs (WRMEA – saiba mais sobre ela AQUI) sobre o período 1949-1997 são assustadores.

É a seguinte a lista dos benefícios em ajuda recebidos por Israel: em concessões e empréstimos, US$74,1 bilhões; outras, US$9,05 bi; juros para Israel de pagamentos adiantados, US$1,65 bi. Total: US$84,9 bi (US$14,6 mil por israelense). E eis aqui o custo para o contribuinte: Grande Total, US$84,9 bi; custo para os americanos dos juros, US$49,9 bi (custo de cada israelense para o contribuinte nos EUA: US$23,2 mil). (Confira os números AQUI)

Não se faz paz indo à guerra

Fiquei intrigado e saí à procura desses dados depois de ler o comentário de um leitor à última coluna (“Why Israel Fights”) do neoconservador bushista Bill Kristol no New York Times (leia a coluna AQUI e a reação dos leitores AQUI). Na sua carta (na verdade, email) o leitor acha absurdo Israel ser na prática subsidiado com dinheiro do contribuinte em percentagem desproporcional do programa de ajuda externa. Até porque Israel é um aliado estranho, que usa seus agentes para espionar os EUA.

“Por que rotulamos de ‘terrorista’ a resistência palestina a uma ocupação opressiva, ao mesmo tempo em que perdoamos os abusos de Israel?” – pergunta. “Afinal, aqueles que alguns rotulam de ‘terroristas’, outros consideram ‘combatentes da liberdade’. E a melhor maneira de melhorar a situação no Oriente Médio e nossa própria segurança nacional é ficarmos neutros entre os dois lados, nunca dar apoio automático a Israel”.

O que escreveu aquele leitor (Patrick, da cidade novaiorquina de Ithaca), é sensato. Daí seu email ter ficado entre os cinco selecionados pelos editores e recebido o voto de 371 leitores (até a hora de meu acesso). A edição online do Times faz isso: publica todas as cartas, faz sua própria seleção (dos editores) e mostra as mais votadas pelos próprios leitores. É transparência imposta pela nova mídia, a que me referi no último post.

Dois comentários de leitores na seleção dos editores entre os mais votados foram de Jeannie (603 votos), da cidade de Nova York, e Dan B. (398), de Washington. “Não importa como você separe as coisas, não importa as maneiras usadas para justificar e explicar as ‘virtudes’ ou a aparente necessidade, a guerra é a rota fácil e estreita. Mas para ter paz, é preciso buscar a paz. Não se tem paz indo à guerra”, escreveu Jeannie.

As inúteis vitórias militares

“Se os EUA tivessem apoiado lideres moderados e ajudassem a estabelecer a paz, a dar moradia a pessoas, a alimentá-las e vesti-las, garantindo direitos humanos e educação para as crianças, muita violência seria evitada. Ódio pode ser ensinado mas em toda parte as pessoas querem a mesma coisa: atendidas as necessidades básicas do dia a dia, liberdade, dignidade e educação, os problemas são superados”.

E se agora Israel tiver sucesso e “ganhar”, o que vai acontecer? – perguntou Jeannie. “Vai ser melhor de alguma forma, ou simplesmente voltará tudo para outro, e depois mais outro status quo de animosidade mútua e ódio entre árabes e judeus, até que se chegue a mais uma guerra?”

Para Dan, “vitórias militares não favorecem a longo prazo os interesses de Israel. O povo palestino paga pelas ações de uma minoria. Gaza, até no cessar-fogo, estava sob sitio econômico. Mas Israel, como nação-estado, não paga pelas políticas oficiais, de governo, que levam à morte de civis”.

Dan conclamou seus amigos que gritam “Israel quer paz, o Hamas quer guerra” a pensar se aceitariam a situação dos palestinos, muitos cercados e além da muralha israelense, muitos mais sob ocupação desde 1948. “É fácil querer paz quando se tem tudo menos segurança. Aos palestinos falta, no dia a dia, muito mais que segurança, ainda que neste momento esta esteja em primeiro plano”.

israel_lobbyPor trás de tudo, o lobby de Israel

São emails moderados, daí a escolha dos editores. No preferido pelos leitores (748 votos), o conservador Thomas (de Nova York) revolta-se por terem os americanos de pagar mais impostos para dar “apoio cego e incondicional a Israel”, que “não é uma democracia liberal e sim um apartheid religioso – democracia para os judeus mas não para os palestinos ali nascidos, hoje controlados militarmente e economicamente”.

Layout 1Minha conclusão é de que a opção do apoio a Israel, adotada pelos governantes do país desde Harry Truman, resulta menos da tendência geral da população do que do trabalho liderado pelo milionário lobby israelense – o American Israel Public Affairs Committee (AIPAC – saiba mais sobre ele AQUI e veja acima a capa do livro que devassou toda a operação lobista, The Israel Lobby and U.S. Foreign Policy). De quatro em quatro anos todo candidato presidencial submete-se no AIPAC a ritual de purificação e declara seu apoio formal a Israel.

Quem ousa depois rever a posição – caso de Jimmy Carter, cujo livro Palestine: Peace Not Apartheid (capa acima) foi recebido em Israel com indignação – passa a ser rotulado publicamente como anti-semita. rosen_steveMas Steven J. Rosen (foto ao lado), que em 23 anos transformou o AIPAC no que é hoje, uma organização dedicada a corromper políticos para servir aos interesses de Israel, está indiciado na justiça por espionagem, junto com Keith Weissman, outro operador lobista. E a testemunha é Larry Franklin, aliciado no Pentágono para espionar.

Rosen, afastado do AIPAC em 2005 para defender-se da acusação de espionagem, não perde a pose. Agora criou o blog “Obama Mideast Monitor” (veja-o AQUI) para monitorar nomeações do presidente eleito. Ali já vetou John Brennan, encarado por muita gente como a melhor opção para diretor da CIA (como Israel o acha  contrário à guerra com o Irã, o cargo vai para Leon Panetta)  e tenta emplacar o general James Jones para assessor de Segurança Nacional, por ser “amigo de Israel”.

(Clique abaixo para ver no YouTube reportagem do “Democracy Now”, de Amy Goodman, que  inclui entrevista sobre o livro The Israel Lobby and U.S. Foreign Policy)

Published in: on janeiro 8, 2009 at 5:34 pm  Comments (2)  

Ainda a Internet e os impérios de mídia

daily_kos_logoChamo atenção para os que não o notaram: no post anterior, sobre a tragédia criada por Israel em Gaza, acrescentei um remendo para dar crédito (omitido na versão original) a uma história e à foto que a ilustrava. Em comentário, um leitor cobrou a informação e respondi. Não fiz a mesma coisa em relação a outra foto excelente (espero fazer ainda, com a ajuda de alguém), limitando-me a explicar como a recebi.

A veiculação na internet de fotos e ilustrações em geral (para não falar na reprodução dos próprios textos, informações e opiniões) tornou-se rotina e traz um complicador. Envolve questões de autoria e copyright insuficientemente definidos. Na prática parece prevalecer o consenso de que portais e sites comerciais, que faturam com anúncios, têm de remunerar tal uso; os outros apenas divulgam e promovem.

drudgereportA característica principal da nova mídia é que a maioria esmagadora dos dedicados a ela não tem sequer fonte mínima de recursos para garantir a sobrevivência do esforço, muito menos para obter algum lucro (o Daily Kos e o Drudge Report, exceções à esquerda e à direita, cujos logos estão ao alto e no início deste  parágrafo, são exceções que celebrizaram Markos Moulitsas e Matt Drudge). Isso cria uma área cinzenta que tende a ser alvo de regulamentação. Hoje já existem acordos especiais na mídia corporativa, com pacotes que incluem os diferentes veículos – o que é apenas um ponto de partida.

De certa forma, estou dos dois lados. Antes da experiência na internet já via textos meus reproduzidos na íntegra. Cheguei a ler páginas de um de meus livros transcritas – sem qualquer crédito ou até atribuídas a outro. Quem o faz deve levar em conta o custo e a dificuldade de ações judiciais nessa área, já que até algumas editoras maiores deixam de prestar contas, sonegando o pagamento aos autores.

Os critérios errados e seus efeitos

Com a drástica redução de empregos no campo da mídia, mesmo profissionais de alto nível são frequentemente prejudicados pelo critério em vigor de usar estagiários e nivelar salários por baixo. Ficam os que aceitam fazer mais (trabalho), em troca de menos (remuneração). Claro que há exceções para as estrelas, mas elas não são numerosas. Resta aos profissionais a opção de virar free lancer.

Eles mudam o status voluntariamente ou por decisão de empresas determinadas a não assumir os encargos trabalhistas. Tudo isso, bem ou mal, afeta o trabalho de quem decide aderir à internet, ainda que em caráter experimental, como uma espécie de teste. Os blogs são o melhor exemplo disso, já que permitem a qualquer pessoa tentar trabalho fascinante e criativo, defender uma causa ou montar um negócio.

Entre os problemas estão as regras fluidas. Às vezes elas surgem no próprio desdobramento da atividade. Se uma grande empresa de mídia acolhe você no portal dela, é diferente. Você passa a relacionar-se com ela de forma não muito distante das relações entre empresa e empregado contratado (ou free lancer). Muitas vezes há um contrato.

Aliás, tornou-se frequente agora o trabalho com a empresa incluir, mesmo em caráter informal ou não explícito, também um blog no portal do veículo. Com isso o profissional fatura a imagem de blog independente (status cobiçado mais pela experiência insólita dos que se tornaram celebridades em vários países), apesar de ter plena consciência de estar sujeito, até na própria opinião, a autoridade superior.

noblat1A variante disso é algo como o blog de Ricardo Noblat (a foto ao lado saiu no DesabafoBrasil). Teve sucesso ao nascer independente, depois de Noblat deixar o Correio Braziliense (dos Diários Associados) e ser cooptado pelo portal do Estadão e, depois, por O Globo. Hoje o vínculo explícito (coluna no jornal e tudo) nega a independência – como escancararam sua adesão à campanha anti-Lula em 2006 e a análise de Gilson Caroni Filho no caso “Gilmar Dantas”.

Os ombudsmen e a transparência

Comecei com uma questão prática dos blogs (crédito, uso de trabalhos alheios) e saí da rota com dois ou três atalhos e digressões. É que o surpreendente aumento das visitas a este blog me obriga a dar explicações aos que o distinguem. Considero-me, de certa forma, pioneiro na defesa de uma mídia mais transparente – desde que entrevistei um Ombudsman na redação do Washington Post.

Foi em 1978. A entrevista saiu no ano seguinte em número especial do jornal do Sindicato dos Jornalistas do Rio, do qual eu então era vice-presiente. Num texto paralelo, defendi o exercício da autocrítica pela mídia e a criação de Ombudsmen nas redações – o que se tornaria realidade em muitas redações. Mas de lá para cá, deixei de alimentar ilusões sobre transparência na mídia corporativa.

Enquanto tinha ilusões, escrevia cartas à redação – como ainda faz Roldão Simas. Escrevi ao Jornal do Brasil, onde tinha trabalhado duas vezes, Veja, Folha de S.Paulo, O Globo, onde trabalhei em três ocasiões diferentes. Eram jornais que lia (nem sempre por prazer). O JB da melhor fase publicava todas. Já decadente, passou a censurá-las. A Folha, pilhada num escorregão, vetou uma. Não escrevi mais.

O Globo foi caso à parte. Só publicava cartas com elogios. Quando o diretor Roberto Marinho fazia aniversário, enchia páginas com cartas laudatórias. Com Evandro Carlos de Andrade à frente, a redação melhorou, mas o jornal continuou avesso a crítica – ou autocrítica. E quando o Ombudsman da Folha ousava alguma crítica, a fúria de O Globo era infalível, manifestada até na coluna social.

Sem dr. Roberto e Evandro, o império passou aos irmãos Marinho. Há uns três anos um amigo jurou que o jornal mudara, já fazia correções e autocrítica. Acreditei. Fiz uma carta citando erro que me pareceu grave. Não saiu. Mais tarde, outra sobre tema diferente também foi vetada. Meu amigo entendera mal. Referia-se a coluna que, na página 2, corrigia irrelevância (“faltou vírgula aqui, acento ali”), substância nao.

Quando há muito a esconder

el_mercurio_capaPara mim, é um o equívoco brutal de O Globo, mas há razão forte. O império dos Marinho nunca reconhecerá que se fez à sombra da ditadura, aplaudindo seus crimes – como El Mercurio no Chile, cujo Roberto Marinho era Agustín Edwards, que se reuniu pessoalmente com o diretor da CIA e recebeu dinheiro (cash) para escapar da falência. Edwards apoiou o golpe contra Allende, virou porta-voz da ditadura e hoje a família Edwards é dona de um império – jornal, rádio, TV, etc. Soa familiar?

Nesses dois jornais, claro, jamais haverá transparência, o que exigiria mea culpa e reconhecimento de erros passados. No caso dos Marinho, apoio à ditadura e à tortura, boicote das Diretas-Já, fraude contra Brizola (ProConsult), falsificação do debate Collor-Lula, etc. Basta observar o cuidado com que O Globo omitiu o próprio papel nas recentes reportagens a propósito do aniversário do AI-5.

Observe-se ainda a conduta recente do império dos Marinho ao transformar em campanha torpe o noticiário e a seleção de cartas sobre a anistia de Jaguar e Ziraldo, do Pasquim, cujo papel na ditadura fora oposto ao de O Globo. A ponto de ser cinicamente sonegada aos leitores a carta contundente do jornalista Arthur Poerner, que resistira no Correio da Manhã, outro jornal destruído pela ditadura.

O fenômeno dos blogs ultrajantemente independentes é um desafio ao jornalismo do império Globo. A transparência chega com tal força ao centro do palco da nova mídia que já se estende a portais gigantes – não aqui, mas em Nova York, Washington, Londres. New York Times, Washington Post e outros grandes mudam o rumo para sobreviver. Os emails ali já são bem mais duros do que a carta de Poerner – ou as minhas.

Published in: on janeiro 7, 2009 at 6:18 pm  Comments (4)  

Imagens de Gaza, à espera de Obama

pedra_contra-tanque

São imagens iguais a outras. Uma delas parece mera repetição de foto velha. Mas antiga é a cena, não a foto. Durante o novo ataque da máquina de guerra israelense contra a população civil palestina, voltou a cena do adolescente (Davi?), de pedra na mão, a desafiar o tanque israelense (Golias?). Entre 1948 e 2008 ela já apareceu tantas vezes que deixou de sensibilizar editores de jornais.

eichmann_in_jerusalemA “banalização do mal”, sobre a qual escreveu Hanna Arendt no estudo sugerido pela presença dela em 1961 ao julgamento do carrasco nazista Adolf Eichman (Eichman in Jerusalem: A Report on the Banality of Evil – veja a capa ao lado e saiba mais sobre Arendt AQUI), talvez ajude a explicar a redução do interesse daquela mesma mídia que se emocionara em junho de 1989 com o jovem chinês diante dos tanques no protesto de Tiananmen, a praça da Paz Celestial em Pequim.

A do palestino à frente do tanque mal foi vista desta vez. Mas há outras – em fotos e filmes, sempre dramáticos. Pais, mães, filhos, avós. Como Samera Baalusha, mãe de 34 anos: antes do assalto israelense, tinha sete filhos. Agora traz no colo Mohamad, 15 meses, e leva pela mão Eman, 15 anos – os que restam depois da invasão de Gaza. Na foto (veja abaixo) – de Abid Katib (Getty Images), conforme registrou o blog Diário Gauche (conheça-o AQUI) – os três , mãe, filha e filho, esperam na fila o corpo de Jawaher, de 4 anos.

maepalestinaIsrael festeja tudo isso como “golpe imposto ao terrorismo do Hamas”. Confia na força de suas armas – e no arsenal nuclear, acobertado pelos EUA, padrinho e protetor obcecado antes pelas armas atômicas inexistentes do Iraque e agora pelas do Irã e Coréia do Norte. A máquina da propaganda busca esconder essas coisas: espalha sua própria informação falsa e impede a mídia estrangeira de entrar em Gaza.

A fraude dos “ataques cirúrgicos”

Foi assim que, imitando o exemplo do governo Bush, Israel “plantou” sua própria versão de “ataques cirúrgicos”. Mostrou imagens feitas por um dos jatos atacantes do que seria um grupo de milicianos do Hamas carregando um veículo com foguetes a serem usados contra israelenses. O caça, segundo o relato, disparou um míssel, destruiu os foguetes e matou os milicianos.

A BBC de Londres investigou o caso e virou pelo avesso a história do “ataque cirúrgico”, cujas imagens já corriam o mundo pela internet, via YouTube. Em Gaza, Ahmed Sanur contou: o carro destruído era dele. O míssil israelense na verdade atacara no momento em que parentes e amigos colocavam cilindros de oxigênio no veículo, depois de ser sua loja atingida por estilhaços de bomba.

De acordo com o relato da rede britânica de televisão – baseado em informações do B’Tselem, grupo israelense de direitos humanos – o próprio Sanur revelou ainda que oito pessoas, inclusive um filho dele, tinham morrido no tal “ataque cirúrgico”. Ao mesmo tempo, exibiu também fotos dos cilindros chamuscados – conseqüência do ataque aéreo.

Como explicou dia 4 a organização de direitos humanos Human Rights Watch (leia AQUI), desde o início de novembro, ao começar a deterioração do cessar-fogo entre Israel e o Hamas, o governo israelense passou a restringir drasticamente o acesso a Gaza de jornalistas estrangeiros e monitores de direitos humanos. E a partir de 27 de dezembro, devido à atual campanha militar, nenhum pode mais entrar em Gaza.

Luz verde para o banho de sangue

A HRW conclamou o governo israelense a cumprir decisão do mais alto tribunal do país a 31 de dezembro para ser permitida a entrada em Gaza de representantes da mídia internacional – o que geralmente contribui, em áreas de conflito, para desencorajar abusos de direitos humanos e violações das leis de guerra. A entrada de jornalistas israelenses em Gaza já estava proibida há mais de dois anos.

A ausência de jornalistas e monitores de direitos humanos sempre encoraja os excessos. Paralelamente, no plano diplomático – e em especial na ONU e no seu Conselho de Segurança – o papel dos EUA, ao bloquear em princípio qualquer possibilidade de trégua, deu luz verde a Israel para fazer o que bem entende, exatamente como na invasão do Líbano em 2006.

Esse quadro favoreceu os números escandalosos do balanço na manhã de segunda-feira, em seguida à sabotagem americana da paz na ONU: mais de 500 palestinos mortos, cerca de quatro mil feridos. O que é chocantemente desproporcional ao pretexto israelense para o banho de sangue: só é atribuído a diabólicos foguetes lançados de Gaza três ou quatro mortes do outro lado.

murphy_richard_wNo passado, nem o governo conservador de Ronald Reagan adotou posição tão a reboque de Israel como faz a atual administração Bush-Cheney. Richard Murphy (foto ao lado – saiba mais sobre ele AQUI), ex-embaixador que serviu seis anos sob Reagan como secretário de Estado assistente para assuntos do Oriente Médio, ridicularizou em entrevista à CNN a desculpa dos EUA para bloquear a trégua no Conselho de Segurança.

Como sair da armadilha?

Na ONU, o chefe efetivo da missão americana, Zalmay Khalilzad, deixou para o adjunto Alejandro Wolff o encargo de expor à mídia internacional as razões de Washington para, sob ameaça de veto, sequer discutir uma trégua. Os EUA optaram, ao contrário, por dar todo o apoio à alegação israelense de que só é aceitável “um cessar-fogo efetivo e sustentável” (saiba mais AQUI e AQUI).

Murphy espantou-se: “Cessar fogo efetivo e sustentável é fantasia. Para chegar a algo assim teria de haver mudança fundamental dos dois lados da disputa”. Como qualquer diplomata com um mínimo de bom senso, Murphy sabe bem que o governo Bush apenas reedita o que fez em julho-agosto de 2006: dar mais tempo a Israel para fazer o que quer, quando e como quiser.

kristol_billApesar das previsões de que o espetáculo de morte e destruição não trará vitória estratégica para Israel sobre o Hamas, como não trouxe sobre o Hizbollah em 2006 no Líbano, um sacerdote do neoconservadorismo nos EUA, William Kristol (foto acima), prometeu em sua coluna do New York Times que desta vez será diferente. Para ele, Israel vai acabar com o Hamas – “fará um favor aos EUA”.

Em que, exatamente, estarão apostando Israel e Kristol? Os dois parecem certos de que com o fato consumado – no momento delicado que antecede a posse do novo presidente dos EUA – Barack Obama vai cair numa armadilha, tornar-se refém da mesma política ditada pelos neocons a Bush. Resta saber até que ponto o governo Obama estará comprometido com a mudança que o candidato pregou na campanha. (Este texto foi publicado originalmente em CARTA MAIOR)

Published in: on janeiro 5, 2009 at 11:23 pm  Comments (3)