A volta de Árias e o recuo dos golpistas

Americas Conference

Profundamente preocupado, o secretário geral Ban Ki-moon voltou à carga, em entrevista terça-feira na ONU, contra o estado de emergência decretado pelo regime golpista que agravou a tensão em Honduras. Ele exaltou ainda a decisão do Congresso de rejeitar a suspensão das liberdades civis e defendeu o “respeito pleno às garantias constitucionais, inclusive a liberdade de associação e de expressão”.

Suas palavras podem ter contribuído para a decisão do presidente Oscar Árias (foto do alto) de voltar à mediação. “As ameaças à embaixada do Brasil em Honduras são inaceitáveis”, repetiu.UN_LaTRibuna_090930 “O direito internacional é claro: a imunidade soberana não pode ser violada. As ameaças ao pessoal da embaixada e suas dependências são intoleráveis. O Conselho de Segurança condenou tais atos de intimidação. Eu o faço também – e nos termos mais vigorosos”.

O secretário geral reafirmou, ao mesmo tempo, a disposição das Nações Unidas de dar assistência de todas as formas e voltou a fazer apelo em favor da segurança do presidente constitucional hondurenho, Manuel Zelaya. E conclamou “todos os atores políticos a se comprometerem seriamente com o diálogo e o esforço de mediação regional” – a cargo de Árias, antes repudiado pelos golpistas (leia AQUI como o embaixador dos EUA em Honduras, Hugo Llorens, afinal condenou o golpe, com três meses de atraso).

Aquele guardião da doutrina da fé

Não poderia ser mais eloquente o respaldo à sensatez do Brasil, que tem o respeito de todos mas não de nossa mídia corporativa, obcecada em abandonar o raciocínio simples e linear para assumir a insanidade golpista de Roberto Micheletti, agora forçado a recuar no desafio à ONU, à OEA e à comunidade internacional. Até porque golpe é golpe – mesmo se um presidente não tivesse sido, como foi, arrancado da cama de pijama.

O batalhão de jornalistas enviado a Honduras pela mídia brasileira após o refúgio de Zelaya na embaixada parecia menos motivado pela gravidade da situação do que pela obsessão de provar que o Brasil errou ao abrigar o presidente e garantir-lhe a vida.HN_Zelaya_FalsaRenuncia A obsessão dela, do primeiro dia até este momento, tem sido condenar o governo Lula e defender os golpistas. Pior: defendê-los como “democratas”.

Juristas do golpe foram chamados a desfilar diante das câmaras e dos repórteres para dizer que pau é pedra – e golpe não é golpe. Missão impossível – e cômica, já que os golpistas fabricaram até carta falsa de renúncia de Zelaya (veja ao lado). Era comovente, em especial, o esforço do império Globo de mídia – jornal, TV & penduricalhos, juntos e em coro, na tentativa de cumprir uma pauta unificada do ideólogo da casa, Ali Kamel, no seu papel de guardião zeloso da doutrina da fé.

De posse previamente das respostas golpistas coincidentes de Kamel-Micheletti, a Rede Globo investiu contra o ministro Celso Amorim enquanto o Brasil e o governo Lula ganhavam o apoio da comunidade internacional – da ONU, da OEA, do presidente Árias, mediador costarriquenho na crise, e do resto do mundo. Isso permitiu à repórter Heloisa Villela, sem o viés da Globo, impor a cobertura da concorrente, a Rede Record.

Depois de uma diplomacia covarde

lampA partir das declarações feitas no Brasil à mídia golpista por diplomatas aposentados que serviram ao governo FHC, ficou claro que a crise de Honduras, na qual o Brasil foi empurrado para um papel que teria preferido evitar mas do qual não podia fugir, expôs o contraste entre a diplomacia covarde do passado (da omissão e da submissão) e a mudança de qualidade do Itamaraty no atual governo.

O Globo recolheu até o palpite infeliz do governador José Serra (ele achou “tremenda trapalhada” o Brasil fazer o possível para salvar a vida do presidente legítimo de Honduras. reconhecido por nós e pelo mundo). Mas o feito maior do jornal foi a sessão nostalgia com o ex-ministro Luiz Felipe Lampreia (foto à direita). Alguém terá saudade do tempo dele à frente do Itamaraty, quase todo o período de dois mandatos de FHC?

Acho difícil. Mas Lampreia disse, em entrevista, que considera inédito o caso de agora em Honduras e não acredita que a posição brasileira contribuirá para solucionar a crise. “Ela traz um problema para o Brasil, que não estava envolvido no conflito”, opinou. Opinião judiciosa, ao menos na avaliação de O Globo. Me fez lembrar entrevista com Lampreia de que participei uma vez no hotel Waldorf Astoria.

Lafer_CelsoDe um grupo de jornalistas, só uns quatro tivemos paciência de esperar a saída dele de uma reunião com a então secretária de Estado Madeleine Albright. O da Rede Globo pediu-nos que o deixasse ser o primeiro a perguntar, devido a horário de transmissão de satélite. Concordamos. Lampreia chegou, ouviu e respondeu à pergunta dele. Mas fechou a boca e foi embora ao ver apagar-se a luz da Globo.

Alguém poderia achar grosseria e despreparo, preferi julgar aquilo um caso extremo de fidelidade aos refletores. No fundo Lampreia nunca teve nada relevante a dizer mas adorava dizê-lo sob a luz da Globo. Junto com o sucessor Celso Lafer (foto à esquerda), aquele que achava uma honra tirar os sapatos para os policiais nos aeroportos dos EUA, ele conduziu uma política externa de submissão.

De joelhos diante de Bolton

O Itamaraty de FHC, com os Lampreia e Lafer, ainda chegaria ao servilismo extremo. Tentaria cumprir estranha ordem do extremista neoconservador John Bolton (foto ao lado, com o padrinho Bush – e saiba mais sobre ele AQUI),Bolton_Bush então no terceiro escalão do Departamento de Estado. Sub-secretário para controle de armas, ele viajou em 2002 à Europa e exigiu a renúncia do brasileiro José Bustani, diretor da Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ).

Bustani, embaixador de carreira no Brasil, licenciara-se no Itamaraty para ser candidato na OPAQ – cargo para o qual se reelegeria por unanimidade, com o voto dos EUA (o próprio secretário de Estado Colin Powell, chefe de Bolton, elogiara a gestão e a liderança dele em 2001). Mas Bolton indignou-se com o brasileiro por ter atraído o Iraque, que se dispunha a submeter-se a inspeções regulares de armas químicas (saiba mais sobre todo o caso AQUI).

FHC e o ministro Lafer entraram em pânico – sabe-se lá porque. Disseram então a Bustani para fazer a vontade do império e sair. O embaixador explicou o óbvio: não devia obediência ao Itamaraty e sim aos que o elegeram na OPAQ. Restou a Bolton intimidar e subornar outros até forçar a saída de Bustani – que, encostado no Itamaraty, só seria reabilitado no governo Lula, que o fez embaixador em Londres. (Saiba AQUI como o mais alto tribunal administrativo da ONU condenou em 2005 a orquestração de Bolton para demitir Bustani ilegalmente e impôs penalidade e pagamento de indenização ao brasileiro).

Published in: on setembro 30, 2009 at 12:35 pm  Comments (9)  

A palavra de Lula na ONU

Quando entrou no ar o último post, “Veemência de Lula forçou a ação da ONU”, ainda não estava disponível no YouTube o vídeo com o discurso do presidente brasileiro. Agora, está. Mesmo sabendo que circula em toda parte e que talvez a maioria das pessoas que acompanham o desdobramento da situação em Honduras já o viu, acho que este blog não poderia deixar de incluí-lo aqui, como complemento indispensável ao que foi dito antes.

Pouco importa que a gravação apresente alguns problemas de sincronia – o que tem sido frequente nesses pequenos vídeos postados no YouTube. Bem mais relevante é o fato de ter Lula colocado tão bem todo o quadro da situação mundial, a começar pela lembrança de seu discurso do ano passado, quando advertira que de seria grave erro e omissão histórica imperdoável, cuidar apenas das consequências da crise econômica mundial sem enfrentar as suas causas.

Essa era parte do discurso que antecedera o agravamento do quadro em Honduras, consequência do golpe militar que depôs o presidente legítimo, Manuel Zelaya. No desdobramento, veio aquela veemência que acabou por se tornar o tema central e mais candente do discurso. Aos que não ouviram antes a palavra do presidente e aos que querem ouví-la de novo, recomendo clicar a imagem acima.

Published in: on setembro 29, 2009 at 7:30 am  Comments (2)  

Veemência de Lula forçou a ação da ONU

Lula_na_ONU_09_AFP

Poucas horas depois de seu veemente discurso (leia AQUI) na Assembléia Geral da ONU, o presidente Lula (foto AFP acima) já poderia fazer ontem um balanço surpreendentemente favorável do episódio do “abrigo” dado pela embaixada do Brasil em Tegucigalpa ao presidente constitucional de Honduras, Manuel Zelaya – expulso há três meses do palácio presidencial e do país pelo golpe que instalou Roberto Micheletti no poder.

A volta a Honduras do presidente legítimo criou um fato novo. O governo Obama – devido à diplomacia sinuosa conduzida pela secretária de Estado Hillary Clinton, antes ambígua e apoiada em personagens duvidosos herdados do governo Bush, como Hugo Llorens e Thomas Shannon – parecia disposto a fazer corpo mole até ser consumido todo o restante do mandato de Zelaya (leia AQUI, AQUI e AQUI) numa tática destinada a favorecer os objetivos golpistas.

Bankimoon_ONUO regime do golpe não conseguiu ser reconhecido por qualquer país, mas sabotou e fez fracassar a mediação do presidente costarriquenho Oscar Árias – uma idéia infeliz de Washington, marginalizando a OEA. Agora, ao contrário, o Brasil revigorou o processo, forçou compromisso do governo Obama com a democracia e mobilizou a OEA e em especial a ONU, que afinal tomou suas primeiras medidas concretas (o debate no Conselho de Segurança é previsto para amanhã).

O secretário geral Ban Ki-moon (foto ao lado) suspendeu temporariamente a assistência técnica atualmente dada pela ONU ao Supremo Tribunal Eleitoral de Honduras, por não acreditar que haja condições neste momento de se fazer eleições com um mínimo de credibilidade e capazes de devolver a paz e a estabilidade ao país. O regime do golpe tentava impingir a votação com os adversários acuados e a imprensa sob controle.

O fato novo que mudou tudo

O secretário geral citou a preocupação da ONU com as denúncias de violações dos direitos humanos (o regime também reprime a mídia contrária ao golpe, como acusou o grupo Repórteres Sem Fronteiras). Ao mesmo tempo, conclamou os golpistas a respeitarem os tratados e convenções internacionais ratificados por Honduras, inclusive – e principalmente – a inviolabilidade da missão diplomática do Brasil.

Convencido de que o fim da crise hondurenha exige acordo consensual, Ban Ki-moon apoiou as tentativas regionais de mediação e conclamou todos os atores políticos a redobrarem esforços nessa direção. Uniu-se ainda à OEA e aos líderes regionais e fez apelo em favor de um acordo, conclamando à busca ao diálogo – para o qual a ONU está pronta a colaborar (leia a cobertura da Reuters no New York Times AQUI).CelsoAmorim

Nada disso aconteceria sem a cobrança enfática de Lula, ante o cerco dramático à embaixada brasileira, ao abrir a Assembléia Geral. Mas no Brasil isso é pretexto para a nova campanha da mídia golpista – para variar, contra o país mais do que contra o presidente. Às explícações claras e lúcidas do ministro do Exterior Celso Amorim sobre a chegada de Zelaya à embaixada de Tegucigalpa, ela prefere imaginar seus próprios complôs fantasiosos.

O que o ministro relatou na entrevista – em Nova York, duas horas e meia após a chegada de Zelaya à embaixada – a jornalistas brasileiros e estrangeiros desmente a versão intrigante da mídia golpista, que apóia o golpe de Honduras como em 1964 apoiava o do Brasil e, depois, os 20 anos de ditadura. Na visão distorcida dela, o governo Lula foi parte de uma trama da Venezuela de Hugo Chávez com Zelaya.

O alarme falso e a verdade

A embaixada soube da presença de Zelaya em Honduras, segundo Amorim, meia hora antes da chegada dele ao prédio. A primeira dama Xiomara Castro – que não deixara o país com o marido, preferindo manter-se ativa nos protestos de rua e na articulação contra os golpistas – pediu para ser recebida pelo encarregado de negócios do Brasil, ministro Francisco Catunda Resende, a quem informou que Zelaya estava nas cercanias e viria procurá-lo.

Antes tinha circulado a informação de que o presidente deposto estava em Honduras, mas na representação da ONU em Tegucigalpa – o que provocara ação repressiva contra manifestantes em frente ao prédio. Comprovada a falsidade de tal informação, o chefe do regime golpista, Roberto Micheletti, apareceu triunfante na TV para garantir que Zelaya, ao contrário, “continua desfrutar de sua suíte num hotel na Nicarágua”.

O ministro Catunda Resende, após ouvir Xiomara, comunicou a situação a seus superiores no Itamaraty e foi autorizado a receber Zelaya – informação passada depois a Amorim e ao presidente Lula.Zelaya_090922 Nenhum contato foi feito com o governo golpista de Honduras porque o Brasil só reconhece como presidente o próprio Zelaya, eleito pelo voto nos termos da Constituição e derrubado pelo golpe militar.

Amorim explicitou ainda que Zelaya (foto ao lado), segundo a informação transmitida por ele próprio à embaixada, chegara “por meios próprios e pacíficos”. E não está ali na condição de asilado, já que o Brasil, como a comunidade internacional, a ONU, a OEA e demais governos, inclusive o dos EUA, continua a reconhecê-lo como presidente constitucional. Assim, é hóspede no prédio como “abrigado” – ou “refugiado”, palavra usada por Lula ao discursar na ONU.

Que governo cometeria a temeridade de negar “abrigo” – ou “refúgio” – em sua embaixada ao presidente que reconhece como constitucional e legítimo? Afinal, se o fizesse haveria o risco até de provocar sua captura – ou assassinato – pelo regime instalado no golpe de 28 de junho. Pelo relato de Amorim ficou claro que o Brasil se vira diante de um fato consumado, enquanto os golpistas passavam a exigir a entrega de Zelaya – para ser preso.

A irresponsabilidade sem limite

O quadro exposto por Amorim na primeira entrevista sobre o caso em Nova York (clique no YouTube ao fim deste post para ouví-lo) não deixava margem a dúvida. Mas a mídia golpista, habituada a fabricar estratégia para a oposição demo-tucana de virgílios, agripinos, maias & freires, anunciou nas horas seguintes outra de suas desastradas e pândegas investigações parlamentares – do tipo mensalão, dossiê fajuto, apagão aéreo, marolinha, Sarney, Petrobrás, etc.

Nada resultou de nenhuma, já que elas tinham em comum seu caráter destrutivo. Sistematicamente contra o Brasil e os brasileiros, só buscam prejudicar os interesses do país e comprometer sua imagem no mundo. Como o esforço (que ainda persiste) contra a Petrobrás no momento mesmo em que essa empresa, orgulho nacionl, faz sua maior e mais consagradora descoberta.

Estadão_090924Comparem o relato de Amorim com as manchetes irresponsáveis de O Globo na terça-feira (“Brasil abre embaixada para Zelaya tentar retomar o poder em Honduras”) e na quarta (“Ação do Brasil acirra crise e tensão cresce em Honduras”). A “Folha”, ao menos, limitou as manchetes ao factual: terça, “Zelaya volta e se refugia na embaixada brasileira”; quarta, “Honduras sitia a Embaixada do Brasil”. De certa forma é também o caso do Estado de S.Paulo hoje, ao sugerir o que parece fazer sentido: Zelaya, por sugestão de Chávez, teria percebido ser a embaixada brasileira a que melhor serviria a seus propósitos (leia o texto na íntegra AQUI).

A obsessão golpista do império Globo gera jornalismo de esgoto. No jornal, TV e penduricalhos. Não há limite para a leviandade. Bom exemplo é a gravação de áudio ridículo no qual uma brasileira, Eliza Resende Vieira, vocifera contra Zelaya – e contra o Brasil, por defender a democracia e a vida dele, o que cria embaraços para gente como ela. Parecia comercial, repetido à exaustão pelos irmãos Marinho em diferentes programas, veículos e horários.

(Clique abaixo para ouvir a explicação e as respostas de Celso Amorim)
Published in: on setembro 24, 2009 at 2:43 pm  Comments (7)  

Os votos do STF no caso Battisti

STF_CesarPelusoSegundo análise disseminada na grande mídia os votos já declarados pelos ministros do Supremo sugerem que ao ser revelado o do ministro Marco Aurélio de Mello haverá empate de 4 a 4 e, em seguida, virá a decisão final pela extradição de Cesare Battisti – devido ao voto-desempate do presidente Gilmar Mendes.

Mas fonte familiarizada com as sutilezas desse debate jurídico recomenda uma análise diferente – e, talvez, mais realista. Em primeiro lugar, ainda não se deve dar como certo o voto do ministro Marco Aurélio contra a extradição. Se, ao contrário, for favorável a ela, obviamente o final do julgamento estará definido – o ex-militante comunista voltará à Itália para cumprir a pena.

STF_Battisti_APphotoEncarado como extremamente técnico, ele ainda pode vir a confirmar a previsão geral e votar pelo asilo a Battisti (contra o voto do relator César Peluso – o da foto acima, à direita). Ocorreria então o anunciado empate de 4 a 4. Menos certo seria, no entanto, o voto-desempate de Gilmar Mendes a favor da extradição. Na análise da fonte, na atual situação o regimento do tribunal não o permite.

O próprio relator Peluso, ao se exceder na defesa vigorosa da extradição, criou a impossibilidade – ao desqualificar para crime comum, no seu voto, os supostos crimes políticos de Battisti. Isso porque o regimento do STF não prevê desempate em caso de crime comum. Assim, em caso de empate de 4 a 4 prevaleceria o princípio “in dúbio pro reo” – na dúvida, a favor do réu. E ele ficaria no Brasil.

Conforme o raciocínio, o ministro Peluso foi longe demais no voto. A desqualificação para crime comum, um esforço exagerado dele na busca de apoio de ministros sensíveis à condição de perseguido político de Battisti (foto acima, à esquerda), acabou por prejudicar tecnicamente a chance de ver vitoriosa sua posição favorável à extradição, aparentemente apoiada ainda por Gilmar Mendes.

Assim, a vitória final seria de Eros Grau, Joaquim Barbosa e Cármen Lúcia – com o reforço (por enquanto hipotético) de Marco Aurélio.  Os perdedores, seguindo o voto de Peluso, seriam os ministros Ricardo Lewandowski, Ellen Gracie e Carlos Ayres Britto – além do presidente Mendes, a partir da tendência (pela extradição) que evidenciou nas manifestações ao longo do julgamento.

O lado derrotado, em parte por causa do voto condutor de Peluso, morreria então pelo próprio veneno. (Até este ponto, com uma ou outra correção,  este foi o post  que publiquei originalmente ontem no Blog do Luis Nassif – confira o texto e, em seguida, os 52 comentários,  AQUI)

Retomando o debate, à espera da decisãoSTF_MarcoAurelioDeMello_AP

Mas o debate está longe de terminar, apenas esquentou, enquanto se espera o voto do ministro Marco Aurélio de Mello (foto ao lado). Às 11 horas da manhã de hoje veio um novo texto, bem fundamentado, assinado por “Professor”, seguido 35 minutos depois pela contestação de Jeová Barros de Almeida, o que tornou ainda mais viva a discussão. Ambos ganharam destaque especial no blog do Nassif, enriquecido ainda com outras colaborações (conheça todas elas AQUI). Vale a pena acompanhar o desdobramento, pelo nível elevado, que inclui comentários de Marco Antônio, Marco Aurélio, Monier, Marcelo de Matos e José Robson, entre outros. Parabéns ao Nassif por mais esse feito.

Published in: on setembro 22, 2009 at 7:24 pm  Comments (2)  

O cientista, o padre e a fúria de “O Globo”

Borlaug_Norman

A página de obituários do jornal O Globo registrou segunda-feira, no alto, a morte no sábado, 12, do cientista Norman Borlaug (foto acima), aos 95 anos (leia o obituário AQUI). Destaque obviamente merecido, dada a importância do personagem, a quem se atribui responsabilidade parcial pela chamada revolução verde, que provavelmente salvou milhões de pessoas da fome na segunda metade do século passado.

Mas os leitores só encontraram no jornal um resuminho anêmico. Tiveram de recorrer à internet para completá-lo. Era de se supor que O Globo – que já poderia ter dado a notícia no domingo, como fizeram os jornais de Londres (leia a do Guardian AQUI), cujo horário quatro horas à frente do nosso – soubesse bem mais sobre o tema. Pois em 1970 ninguém festejou tanto como esse jornal o Nobel da Paz dado a Borlaug.

As razões de O Globo na época não eram os méritos de Borlaug – que os tinha. Naquele ano recorde de atrocidades praticadas pela ditadura militar no Brasil as organizações da família Marinho estavam ocupadíssimas na defesa dos torturadores e assassinos do regime, denunciados no mundo inteiro. Era o tempo do “Pra Frente Brasil” na Copa do México, da euforia da Bolsa, do “Brasil Grande” do ditador Médici.

A Noruega contra o padre Hélder

Camara_HelderOutro slogan patrioteiro do regime, o “ninguém segura este país”, nascera como manchete desse jornal na época. Como o Estadão, ele servia aos poderosos do dia e aos interesses corporativos de fora. E amplificava a campanha torpe da ditadura para vilanizar o arcebispo de Olinda e Recife, padre (como pedia para ser chamado) Hélder Câmara. A história foi muito bem contada no livro da capa ao lado, de Nelson Piletti e Walter Praxedes, Dom Hélder Câmara, o profeta da paz, publicado pela editora Contexto (saiba mais detalhes na introdução e no sumário, AQUI e AQUI). A obsessão do regime era impedir sua premiação com o Nobel da Paz – afinal dado a Borlaug, americano de pais noruegueses.

O Itamaraty da ditadura mobilizara uma operação internacional, com respaldo explícito na mídia aliada do regime (em especial O Globo, mas com papel de destaque para Ruy Mesquita, do Estadão), além de voluntários sinistros como o empresário norueguês Henning Boilesen, radicado no Brasil (à frente do grupo Ultra) e freqüentador dos porões da tortura na OBAN de São Paulo.

Como os jornais lembraram agora, nos obituários do cientista, o próprio Borlaug custou a acreditar na notícia, ao recebê-la de sua mulher Margaret, no México. Foi tal a surpresa que chegou a suspeitar que não passava de brincadeira. Não achava que seria o escolhido em 1970 pelo comitê norueguês – que cabe ao Parlamento desse país selecionar, procedimento distinto dos demais prêmios Nobel, decididos na Suécia.

Ciência, agricultura e paz mundial

Borlaug diria depois ter sido escolhido para “simbolizar o papel vital da agricultura e da produção de alimentos num mundo faminto tanto de pão como de paz”. No copy desk de O Globo, eu tinha acompanhado naqueles dias, com interesse especial, as notícias vindas da Europa sobre a tendência esmagadoramente favorável a dom Hélder e o papel indecente do jornal, que negava as torturas e proclamava haver democracia e liberdade de imprensa no país.Stern_Marilyn_1992

Numa campanha obsessiva, sonegando e manipulando notícias, O Globo acusava dom Hélder de difamar o Brasil no exterior. Quando a revista alemã Stern publicou entrevista dele após uma extensa reportagem sobre as torturas, a manchete do jornal foi: “Dom Hélder usa revista pornográfica para caluniar o Brasil”. Stern era uma boa revista – e continua a ser, creio, mesmo depois de atropelada em 1983 pelo escândalo dos diários falsos de Hitler (saiba mais sobre o caso AQUI – e veja uma capa de 1992, acima, e outra de 1995, abaixo, à esquerda).

Pouco tempo depois da entrevista de dom Hélder, numa visita em 1976 à redação de Stern em Hamburgo, posso ter dado uma idéia errada ao editor. Ainda incomodado pela Stern_cover_1995campanha suja de O Globo (não muito diferente das atuais), escorreguei em observação impertinente, que talvez tenha soado como insólita cobrança puritana.

Ao ouvir-me estranhar o contraste entre o tom das matérias e a ilustração das capas, ele contra-atacou: “O que você tem contra mulher bonita na capa?” Mereci a patada. Stern pertence à Bertelsmann, um dos maiores impérios de mídia do mundo. Suas capas ajudam a explicar a circulação atual superior a 1 milhão de exemplares, que alcançam em média 7,8 milhões de leitores.

O papel dos lobbies e da mídia

A queixa no segundo parágrafo deste post, de que prefiro encontrar nos jornais histórias completas, sem ter de ir atrás de mais dados na internet, é por causa dos textos-pílulas que nossa mídia aprendeu com o USA Today. Para mim as pílulas deviam ficar para os mervais e leitoas, reservando-se espaço maior para reportagens – desde que bem apuradas, sem o ranço das campanhas suspeitas.

BorlaugNormanA morte de Borlaug (foto ao lado) seria um momento oportuno para reflexões sobre a revolução verde – benefícios e efeitos negativos. À época do Nobel da Paz houve oba-oba em O Globo e no resto de nossa mídia pelas razões erradas. Nélson Rodrigues, criativo como ficcionista e teatrólogo, ignorava o tema mas adotou Borlaug prontamente como seu novo herói. Além de achar dom Hélder subversivo, nunca o perdoou por se negar a abençoar seu segundo casamento.

O crescimento fantástico da produção agrícola era a resposta maior do cientista às críticas e preocupações ambientais e sócio-econômicas (dependência da monocultura, práticas agrícolas não sustentáveis, efeitos na agricultura de subsistência, produtos químicos suspeitos de causar câncer) mas Borlaug tinha amplo apoio nas corporações interessadas, da Dupont à Monsanto.

Os lucros extraordinários do agronegócio e corporações de agroquímica, da indústria de fertilizantes e pesticidas, fizeram proliferar lobbies cada vez mais poderosos e influentes. Mesmo descartando a maior parte das críticas, o cientista reconhecia que as transformações da revolução verde não tornaram o mundo uma Utopia. Ele respeitava alguns ambientalistas, mas criticava outros como elitistas.

Published in: on setembro 16, 2009 at 12:19 am  Comments (9)  

Nasce um herói latino-americano

O hondurenho Oscar David Montesinos, que aparece no You Tube acima, tem apenas 10 anos de idade, mas já é um herói da América Latina. A coragem e a veemência com que denuncia o golpe militar e clama pela volta de seu país à democracia, enquanto a OEA e outros países sob a influência dos EUA parecem fazer corpo mole, emociona muita gente no continente.

Para vê-lo, clique a imagem do You Tube. Montesinos nesse vídeo de pouco mais de dois minutos, foi visto em 15 dias (até o momento em que escrevo) por 10.441 pessoas. Ele fala sem ler, com o coração. É um orador apaixonado – e convincente. Converteu-se num símbolo da resistência ao golpe que há dois meses derrubou o presidente legítimo, Manuel Zelaya, eleito pelo voto popular.

Certamente os hondurenhos e os latino-americanos em geral não esperavam que o presidente Barack Obama tolerasse por tanto tempo, sem nenhuma palavra mais vigorosa, sem nenhuma ação mais concreta e conseqüente, a permanência dos golpistas no poder. Em compensação, sabemos também que sua secretária de Estado, Hillary Clinton, demonstra pouco apreço pela América Latina em geral e pelo presidente constitucional hondurenho em particular.

O Plan Colômbia, ao contrário do que alguns pensam, não foi criado no governo Bush e sim no do antecessor Bill Clinton, marido da secretária de Estado. E Álvaro Uribe, o presidente colombiano que tentará eleger-se pela terceira vez e se propõe tornar-se, com a ajuda militar americana de US$1 bilhão por mês, uma espécie de Ariel Sharon – e Israel – da América do Sul, também teve o apoio de Clinton antes de receber o de Bush.

O menino Montesinos fez seu discurso numa concentração que reuniu milhares de pessoas na capital hondurenha, Tegucigalpa. O carisma e a capacidade oratória são surpreendentes. Seu alvo principal é o usurpador Roberto Micheletti, principal beneficiário do golpe, também chamado de “Goriletti”. “Que te vás, que te vás, Goriletti”, diz Montesinos.

Vários blogs no Brasil, entre eles os de Eduardo Guimarães / Cidadania (AQUI), Brizola Neto (AQUI), Tato de Macedo (AQUI), e Paulo Henrique Amorim (AQUI), já chamaram atenção para o vídeo.

Published in: on setembro 16, 2009 at 12:01 am  Comments (8)  

O primeiro 11/9 sem Bush e Cheney

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Apesar de marcar o 8º aniversário das ações terroristas de 2001, o 11/9 de 2009 baixou a bola. Pela 1ª vez a data foi lembrada sem as presenças nefastas, na Casa Branca, de George Bush e Dick Cheney – notórios beneficiários políticos dela, obstinados em manipular o episódio para extremar sua agenda neoconservadora exorcizada atualmente dentro e fora dos EUA.

Duas guerras sem final à vista e milhões de cadáveres depois (entre eles os de mais de 5 mil soldados americanos mortos, 4343 no Iraque e 824 no Afeganistão), os EUA de Barack Obama tentam distanciar-se ao menos da histeria belicista disseminada pela dupla Bush-Cheney. Neste ano 8 do 11/9 conformaram-se com menos exagero nas homenagens às vítimas das ações terroristas.

Obama_Pentagon_911De Nova York o jornalista Sérgio Dávila enviou para a Folha de S.Paulo um texto que refletia bem o novo clima, mais civilizado, mesmo com a repetição do ritual cumprido a cada setembro desde 2001. Oito anos depois, explicou ele, “ninguém sabe o que fazer com o evento histórico, tanto de maneira literal como figurada” (leia a íntegra AQUI).

O presidente Barack Obama, depois de avisar que não iria ao World Trade Center de Nova York, ficou na capital e participou do ato em homenagem às vítimas do avião lançado sobre o Pentágono (foto acima). Como desta vez o ritual anual na área do WTC foi bem comportado, pode-se ainda fingir que não persistem as teimosas especulações paranóicas sobre suposta cumplicidade do governo anterior.

Os equívocos da guerra ao terror

De tal forma Bush e Cheney exploraram em benefício próprio – e da agenda deles – o episódio traumático de 2001 que ficou difícil convencer críticos mais radicais (do governo, das guerras e da arrogância militar) de que eles nada tiveram a ver com as ações terroristas – simplesmente as abraçaram como pretexto para impor aquilo que em condições normais o país teria rejeitado.

Outra acusação, relacionada ao 11/9, poderia sim – e ainda pode – ser feita ao governo Bush e à facção neoconservadora nele empoleirada graças ao papel preponderante do vice Cheney. Ou por negligência, ou ainda por arrogância, não terá deixado o país vulnerável ao subestimar o aviso grave do governo Clinton sobre a ameaça representada por Osama Bin Laden?

abc_assad_090910_mainJá havia indícios disso antes mas na véspera deste último 11/9 surgiu mais um depoimento capaz de reforçar a suspeita: a entrevista à rede ABC de televisão de Elie Assaad (foto ao lado), libanês de nascimento e informante durante 13 anos do FBI, Bureau Federal de Investigações (veja um vídeo da entrevista, seguido de outro sobre o 11/9, no final deste post). Sua história de sucesso foi a infiltração em pequena mesquita na periferia de Miami, que em 2006 levou à prisão de sete supostos terroristas.

Assaad relatou o episódio, tido como meritório, ao repórter Brian Ross da ABC (leia o texto de Ross AQUI). Oficialmente, uma operação sting contra “célula terrorista”. Mas contou ainda que o FBI, cultor de tais operações (armadilhas para apanhar muçulmanos ingênuos) o impedira no início de 2001, em Miami, de ir atrás da estrela maior do terrorismo – Mohammed Atta, o saudita que meses depois coordenaria o ataque de 11/9.

“Podíamos ter impedido os ataques”

Assaad queixou-se agora de que teve a chance de desbaratar o complô para seqüestrar quatro aviões e lançá-los contra o World Trade Center de Nova York e o Pentágono na capital, sendo impedido pela política equivocada do FBI, que preferia concentrar-se em operações encobertas (sting) nas quais seus agentes empurravam gente despreparada para o extremismo.

No princípio de 2001 Assaad queria aceitar um convite para ir à casa de Adnan Shukrujumah, cujo pai dirigia a mesquita de Miami. Ali teria conhecido o plano do 11/9. Mas a idéia foi vetada peo FBI, que o mandou evitar a visita e se limitar aos alvos menores, meros terroristas potenciais (ironicamente, hoje o bureau oferece recompensa de US$5 milhões pela captura de Shukrujuman).ClarkeRichardA_book

Durante a reportagem da ABC o repórter Brian Ross ouviu ainda Richard Clarke, que à época era o especialista em contra-terrorismo do Conselho de Segurança Nacional,  na Casa Branca. “Aquilo foi mais um exemplo da maneira como o sistema, antes do 11/9, tinha entrado em colapso”, observou Clarke, autor de Against All Enemies (capa ao lado), o livro que expôs o colapso (e conheça as denúncias dele sobre a desastrosa política anti-terrorista de Bush AQUI, em sua entrevista de 2004 ao “60 Minutes” da CBS).

Se o sistema tivesse funcionado, disse o especialista em contra-terrorismo, “teríamos sido capazes de identificar aquelas pessoas antes dos ataques”. Mas o FBI preferia que Assaad, usando o nome “Mohammed”, atraisse gente simples e oferecesse dinheiro, dizendo-se representante pessoal de Bin Laden, para tarefas específicas em favor da causa islâmica – como explodir bomba na própria sede do bureau em Miami.

Os terroristas que o FBI produz

Mohamed_AttaAssaad contou que ao ser solicitado, logo após o 11/9, a examinar fotos dos 19 sequestradores do avião, reconheceu o líder, Mohammed Atta (foto à direita). “Era a prova de que eu estava 100% certo, tinha de ter ido atrás de Shukrujumah e Atta, como queria. E não dos outros, menores, como mandou o FBI. Fiquei tão enlouquecido que, num acesso, destruí os móveis em minha casa”, contou.

Na queixa de agora o espião disse que o FBI insistia no seu modelo sting. A partir de 1996 Assaad operou em 10 estados do país e no exterior. Os alvos, apanhados em armadilhas, eram sem importância, mas com aquilo o bureau de investigações acreditava que podia mostrar serviços – êxitos aparentes. Só que nos julgamentos os advogados às vezes provavam que os réus eram na verdade vítimas do FBI.

Gonzales InterviewPara a defesa, os réus, desinformados e ingênuos, tinham sido convencidos pelo próprio governo (o FBI), em troca de dinheiro, a cometer crimes. No caso célebre de Assaad, em 2006, os julgamentos de dois réus deram em nada (mistrial) enquanto cinco foram condenados por terrorismo nos demais. Mas Alberto González (foto à esquerda), Procurador Geral no governo Bush (e defensor da tortura), fez elogio público a Assaad pelas sete prisões.

Refere-se a esse caso conspícuo um vídeo obtido pela ABC e mostrado na entrevista do espião do FBI. Ali aparecem os sete fazendo juramentos de lealdade a Bin Laden e recebendo as boas vindas de Assaad à al-Qaeda. Em outro vídeo Assaad conta o dinheiro e o entrega a um do grupo. Obcecado em prolongar a histeria pos-11/9 o governo Bush festejava coisas assim, que prolongavam o estado de medo no país.

E hoje o ex-vice Cheney ainda defende a insanidade das políticas do governo Bush, como se coisas assim, juntamente com as torturas, fossem receita infalível contra o terrorismo.

(Clique abaixo para ver o vídeo da entrevista de Elie Assaad a Brian Ross, da rede ABC, e depois, para ver um vídeo especial sobre o que foi o ataque terrorista ao World Trade Center há oito anos)
Published in: on setembro 13, 2009 at 12:46 am  Comments (3)  

O dia em que Jango prendeu o cabo Anselmo

Jango_MariaTeresa_JuarezA veemência com que, na entrevista ao Canal Livre da Rede Bandeirantes, o notório cabo Anselmo (José Anselmo dos Santos), de olho numa indenização como “perseguido político”, tentou negar que já era agente infiltrado (e provocador) da direita ANTES do golpe de 1964, não consegue contestar o depoimento enfático do delegado Cecil Borer em 2001 – conforme o texto (talvez definitivo) assinado por Mário Magalhães na Folha de S.Paulo, a 31 de agosto de 2009 (leia AQUI).

Estou me metendo nessa discussão por ser assunto que me apaixona desde que participei, há pouco mais de três décadas, de uma reportagem de investigação da revista Playboy, conduzida pelo jornalista Marco Aurélio Borba, meu amigo (e editor nacional de Opinião no período em que dirigi sua redação, 1975-76), que morreria poucos anos depois, num acidente em Brasília. Ouvi depoimentos para a revista no Rio, enquanto mais jornalistas faziam o mesmo em outros estados (não tenho aquele número da revista, mas seria bom se alguém pudesse informar ao menos o mês e o ano, entre 1977 e 1979, pois ainda acho que existem ali dados relevantes).

Na época entrevistei vários militantes de partidos clandestinos e ex-presos políticos que tiveram contato com Anselmo (alguns insistem ainda hoje no detalhe de que seria apenas marinheiro de 1ª classe e não cabo). Eles relataram fatos e dúvidas. Ouvi ainda pessoas que tinham servido no coração do governo João Goulart. A começar por meu amigo pessoal Raul Ryff, ex-colega de trabalho no Departamento de Pesquisa do Jornal do Brasil, que tinha sido secretário de imprensa de Jango.

Com a ajuda de Ryff, cheguei a outros nomes de pessoas que tinham servido no Palácio durante o governo Jango. Eduardo Chuahy, amigo dele, capitão do Exército até ser cassado em 1964, servira como ajudante de ordens no gabinete militar da presidência, então chefiado pelo general Assis Brasil, reconstituiu com riqueza de detalhes o clima existente no setor militar do Palácio e as muitas trapalhadas de Assis Brasil, que garantia existir o célebre – e ilusório – “dispositivo militar” capaz de impedir um golpe.

O aviso de Corseuil: “ele é espião”

CaboAnselmo_1964Eu estava particularmente interessado em falar com o comandante Ivo Acioly Corseuil, o que foi possível na época graças ao aval de Ryff e Chuahy, que o conheciam bem. De fato, Corseuil contou muita coisa, aprofundando relatos já conhecidos. Mas o núcleo central do depoimento dele a mim foi a ratificação do que já dissera a Moniz Bandeira e estava no livro (publicado em 1977) O Governo João Goulart – as lutas sociais no Brasil, 1961-1964 (capa na parte inferior deste texto), sobre o qual escrevi minuciosa resenha para IstoÉ, infelizmente publicada na época com alguns cortes.

Ele explicou que no governo de Jango o chefe da Casa Militar (Assis Brasil) era também secretário do Conselho de Segurança Nacional. Segundo a entrevista que Corseuil me deu, em 1962 ele era chefe de gabinete do CSN e em 1963 passou a sub-chefe da Casa Militar. Entendi então que era de 1962, no tempo em que estava no CSN, o informe (ele não lembrava a data precisa) avisando que Anselmo era agente infiltrado, provocador e trabalhava para a CIA.

Corseuil me disse que tinha informações de várias fontes, segundo as quais havia gente infiltrada entre os marinheiros. Até pessoas vestidas de marinheiros que, na verdade, não eram marinheiros. Uma das fontes que lhe passaram tais informações era “um rapaz da turma de Carlos Lacerda”, então governador da Guanabara. Julgou confiável o dado porque o rapaz, que conhecia há algum tempo, ex-funcionário do ministério da Marinha, trabalhava para Lacerda junto aos marinheiros (lacerdista, tinha saído do emprego para trabalhar no Palácio Guanabara).

CaboAnselmo_hojeA informação de que Anselmo (que aparece acima, à direita, numa foto de 1964, e aqui ao lado, à esquerda, em foto recente, de óculos escuros e sob o logotipo da Globo) era agente da CIA não viera desse agente (identificado apenas como “Tanahy”) e sim de um correspondente de jornal norte-americano – “pessoa com muitos contatos, que falava com muita gente”. Ele sempre telefonava para dar informações. Por exemplo, tinha passado imediatamente a informação sobre uma reunião de Lacerda com correspondentes norte-americanos para conclamar os EUA a derrubar Jango.

Para a CIA, “útil por liderar”

Para Corseuil, Anselmo não era o único agente infiltrado, mas pode ter sido escolhido pela CIA onde era visto como capaz de liderar. Perguntado por que nada foi feito pelo governo de Jango, apesar das muitas informações e avisos feitos, respondeu que as providências não cabiam ao CSN. A Marinha é que teria de se aprofundar no caso, por estar na sua área. A tarefa teria de ser especificamente do Cenimar, que era sempre avisado. Corseuil enfatizou que também tomara a iniciativa de avisar pessoalmente o Cenimar. “Aquela gente do Cenimar era toda do Lacerda. E o Lacerda fomentava a rebelião”, disse-me ele.

Corseuil também explicou que nenhuma providência foi tomada desde 1962, apesar de tantos avisos e informes, em parte por causa do próprio temperamento de Jango, que “tinha um coração grande demais”. Lembrou o episódio da revolta dos marinheiros, no Sindicato dos Metalúrgicos, quando o presidente foi especificamente alertado para o papel de Anselmo e nada fez – embora outras pessoas do governo também tenham alertado na época para a necessidade de ação vigorosa para deter a conspiração.

Mas pelo menos dois oficiais que serviam no Palácio recordam ainda hoje um episódio no qual Jango, pessoalmente, agiu com firmeza, mostrando estar consciente do papel de Anselmo como provocador e agente infiltrado. Chuahy, então capitão, pediu que Ryff alertasse Jango e mostrasse ao presidente como a mídia, desde que começara o problema dos sargentos, superdimensionava a questão (em busca de reações contra a indisciplina), apostando ainda numa ação potencial de Anselmo que agravasse o quadro e empurrasse até os moderados das Forças Armadas para o lado do complô golpista em marcha.

O episódio citado foi o da prisão de Anselmo em março de 1964, quando tentava penetrar – e falar – na reunião do Automóvel Clube. Tem sido praticamente ignorado até hoje, pois nunca interessou à mídia, cúmplice do processo golpista desde o início. Quem me reviveu o episódio agora, com detalhes preciosos que expõem o repúdio de Jango à indisiciplina que enfraquecia o governo na área militar e encantava os golpistas e a mídia, foi o coronel Juarez Mota – à época capitão e ajudante de ordens (além de amigo) do presidente, hoje aposentado, com 75 anos, e vivendo em Porto Alegre.

“Preso por ordem do presidente”

Estava em andamento, claro, a operação destinada a desestabilizar o governo, como parte do esforço para superdimensionar os movimentos dos sargentos e dos marinheiros (ainda que muitos, obviamente, tenham deles participado por desinformação ou ingenuidade). Conforme o relato do coronel Juarez, o presidente não sabia que Anselmo planejava falar no Automóvel Clube, mas tinha consciência de que ele era agente infiltrado na esquerda.

“Quem o viu chegar foi o coronel Carlos Vilela, da Casa Militar”, conta o militar aposentado. “Como eu estava mais à frente, acompanhando o presidente, ele me chamou: ‘Está chegando o cabo Anselmo, o que faço?’ O próprio Jango antecipou-se e deu a ordem: ‘Prende!’ Quando Anselmo começava a entrar, voltei com Vilela, que o segurou pelo ombro, enquanto eu punha a mão no pescoço. Os dois desviamos o cabo à força para outra sala, onde havia um sofá de dois lugares. Vilela mandou que ele sentasse e comunicou: ‘Por ordem do presidente, o senhor está preso’. Em seguida Vilela foi chamar o coronel (Domingos) Ventura, comandante da Polícia do Exército. Ventura veio com a escolta e levou Anselmo preso para o quartel da PE.”

Moniz_GoulartPara Juarez, aquela ordem firme de Jango deixou claro que não tinha dúvida sobre quem era Anselmo. Podemos concluir que a avaliação coincidia com a descrição de Cecil Borer, delegado e torturador que o usava no DOPS como informante (conforme contou à Folha em 2001) juntamente com “a Marinha e os americanos”. O relato de Juarez é reforçado por Chuahy, que à época já era veemente também na crítica aos movimentos de sargentos e marinheiros, devido á manipulação oculta da oposição direitista com apoio da mídia. Vilela morreu no ano passado (2008). Tinha sido ajudante de ordens do general Zenóbio da Costa na II Guerra Mundial.

Juarez Mota continuou no Exército (aposentou-se como tenente-coronel) e nunca deixou de ser amigo de Jango, que conhecia praticamente desde criança. Natural de São Borja, também era parente do presidente Getúlio Vargas: seu avô era primo-irmão de Getúlio e a bisavó Zulmira Dorneles Mota era irmã de dona Cândida Dorneles Mota, mãe do presidente que se matou em 1954.

No papel de ajudante de ordens do presidente, o capitão Juarez aparece na capa do livro de Moniz Bandeira, do lado direito da foto. É o militar uniformizado, em destaque logo atrás de Jango. Ele próprio me confirmou essa identificação. E creio que é também o que aparece na primeira foto, na abertura deste post, entre o presidente e a primeira dama Maria Tereza Goulart.

Published in: on setembro 4, 2009 at 6:13 pm  Comments (5)