Neocons, realistas e a visão de Bush

 

 Depois da eleição de 2006, escrevi na minha coluna da Tribuna da Imprensa  que o diálogo do presidente Bush com a oposição vitoriosa e a busca  de  auxiliares (como Robert Gates, à frene do Pentágono) entre os chamados    “realistas” de James Baker, que serviram ao pai dele, não combinava com o    esforço para aprovar – com a maioria republicana de um Congresso em fim de    mandato – a lei de vigilância interna (escuta telefônica) e a permanência de    John Bolton na ONU.

O diálogo levou a nada porque Bush estava na verdade tentando dar sobrevida aos neoconservadores (os neocons) de Dick Cheney, que controlavam a política externa com sua fantasia sobre a existência de um império americano “benevolente”, “magnânimo”. No fundo, era mais uma fuga ao realismo. Como observara o jornalista e professor Mark Danner, “a América, a despeito de seu grande poderio, ‘não devia sair em busca de monstros para destruir'” (leia AQUI seu artigo publicado pelo New York Times em 2002).

Tal imagem, lugar-comum da política externa, viera de John Quincy Adams. Danner, seis meses antes do ataque ao Iraque, tinha identificado no governo Bush a visão definitiva – ampla, profética, evangélica – de “refazer o mundo” e enfrentar “o mal do terrorismo”, cruzada como não se via nos EUA desde a catastrófica decisão do general MacArthur, com apoio republicano, de expulsar os comunistas da Coréia.

O sonho do mundo unipolar

Numa crítica ampla e bem fundamentada, na mesma linha, o professor da Universidade de Harvard Stanley Hoffman lembrou o documento que Dick Cheney, então à frente do Pentágono, encomendara em 1992 – um esboço de estratégia para substituir a do confronto Leste-Oeste da guerra fria. Era uma doutrina de política externa radicalmente nova, partindo do pressuposto de que a dominação militar é que constituia a excepcionalidade mais relevante dos EUA (conheça AQUI a análise de Hoffman).

Na forma original, aquele esboço de DPG (Orientação de Política de Defesa) de Cheney introduzira a idéia da ação militar unilateral, uso preventivo da força e manutenção de um arsenal nuclear suficientemente vigoroso para dissuadir outros (até os aliados) de rivalizar com a potência americana. Tal projeto abandonava qualquer coisa que a tal “excepcionalidade” pudesse ter significado antes.

O país não é convocado “a cultivar o próprio jardim” (a proposta isolacionista) e nem a perseguir missão mundial via organizações multilaterais que definam e legitimem objetivos comuns. Desejava-se uma América como superpotência única a ditar regras no mundo unipolar, sem explicar como compatibilizar unilateralismo com acordos e compromissos firmados durante décadas na esfera internacional.

Não veio em 1992, com Bush I, mas veio em janeiro de 2001, com Bush II e os neocons de Cheney, desconfiados do resto do mundo. Repúdio ao Protocolo de Kyoto, denúncia do tratado de mísseis antibalísticos, oposição à eliminação de todas as minas terrestres, sabotagem da proibição ampla dos testes nucleares (CTBT), marcha-a-ré no tratado de Roma (que criou o TPI, Tribunal Penal Internacional), etc.

Theocons” na salada ideológica

Esteve nesse contexto até mesmo a vingança extraordinária de Bolton, quando subsecretário de Estado, contra países signatários do TPI que não aceitavam os acordos bilaterais para isentar os americanos das ações do tribunal. A “nova excepcionalidade” definia o estado de espírito do governo Bush, no qual somavam-se quatro tendências na pressão para levar a doutrina adiante:

1. a dos xerifes (Cheney, Rumsfeld), ainda frustrados com o recuo de Reagan ao abraçar Gorbachev e amortecer o fim da URSS;

2. os novos imperialistas, que vêem tudo em preto-e-branco (atores e eventos internacionais), considerando os EUA força pelo bem (e que os fins justificando os meios);

3. os fundamentalistas religiosos, com sua visão no contexto da guerra cultural pelos valores tradicionais, políticos e religiosos;

4. a fauna vaga e variada “dos amigos de Israel” (Paul Wolfowitz, Richard Perle, Douglas Feith, etc), que vê os EUA e Israel como democracias cercadas de inimigos e obrigadas a usar força militar para sobreviver.

Hoffman juntou “neocons” e “theocons” (conservadores teocráticos) na salada ideológica de Bush. E foi sugestivo o comentário sobre a quarta tendência – gente que só define a posição depois de se perguntar se é bom para Israel.

Essa linha, mal vista durante anos no Departamento de Estado, ganhou afinal o poder no Pentágono (outro motivo para a rivalidade entre “neocons” e “realistas”. Tão íntimas eram as relações de Wolfowitz, Perle e Feith com o Likud israelense que em 1996 eles produziram o projeto para Benjamin Netanyahu, linha-dura do Likud, romper com o processo de paz de Oslo (saiba mais detalhes AQUI, na análise do Observer de Londres)

Ditando as leis, contra todos

O fato é que a “nova excepcionalidade” de Bush fez diferença. O extremismo e o triunfalismo de neocons e theocons contrastaram com o realismo de teóricos e diplomatas tradicionais, como Reinhold Niebuhr, Hans Morgenthau, George Kennan, até Henry Kissinger, que preferiam avaliação serena baseada na prudência e na moderação.

Para livrar os EUA de supostas amarras de tratados e alianças, alegava-se que a Constituição americana não permite submissão a lei mais alta, mesmo instrumento jurídico internacional, e nem transferência, conchavo ou delegação de soberania a organismos mundiais. (Hoffman prefere ver nisso “imperialismo benevolente”).

Obcecados pelo poder militar, neocons atacam os europeus por dar ênfase a “desafios” como “conflito étnico, imigração, crime organizado, pobreza e degradação ambiental”, ao invés das “ameaças” destacadas pelos EUA. Invoca-se a força bruta: “Nós a temos em abundância, os outros não. Daí Rumsfeld e Bolton quererem ignorar organizações e leis internacionais. Se os aliados não se dobram à nossa vontade, tornam-se inoportunos e desnecessários.” De fato Rumsfeld e Bolton acabaram saindo. Mas Cheney continua lá – até o fim do mandato de Bush.

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Published in: on maio 8, 2008 at 12:22 pm  Deixe um comentário  

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