A “bola curva” que fabricou uma guerra

 Curve Ball no \Graças ao programa “60 minutes” da CBS, principal revista jornalística da TV nos EUA, desde o ano passado já existe uma identidade e uma imagem para este homem, “Curve Ball” (Bola Curva), codinome do informante da espionagem americana que fabricou a versão fantasiosa das armas biológicas que serviu de pretexto para o governo Bush invadir o Iraque em março de 2003.

Além de identificá-lo como Rafiq Ahmed Alwan, a CBS foi mais longe: obteve e mostrou no programa a imagem do bigodudo Alwan/Curve Ball em 1963, quando dançava alegremente, de terno e gravata, numa festa de casamento em Bagdá. Nos meios de inteligência soube-se que não passava de um estudante vigarista e mentiroso, nunca o “engenheiro-químico altamente qualificado” que alegava ser.

Alwan abandonou o Iraque depois, apresentando-se em 1999 num centro de refugiados localizado na Alemanha. Na ânsia de elevar a própria importância e obter asilo no Ocidente, jurou às autoridades não só que era um grande engenheiro-químico, como que fora o encarregado pelas instalações de Djerf al Nadaf, onde “eram produzidas armas biológicas móveis” – os célebres “laboratórios móveis” citados no Conselho de Segurança da ONU pelo então secretário de Estado Colin Powell (veja AQUI as provas falsas das armas de destruição em massa, com diagramas e tudo, além da íntegra da apresentação de Powell).

A trama montada nos EUA

Apesar das informações de Alwan, a CBS descobriu que os registros dele na universidade indicam que, mesmo tendo estudado engenharia química, suas notas eram quase sempre muito ruins. Segundo a reportagem de investigação apresentada por Bob Simon, do “60 Minutes”, havia um mandado de prisão contra ele por roubar equipamento da Babel, uma produtora de TV na qual tinha trabalhado em Bagdá.

Judith Miller, receptadora de vazamentos“Curve Ball” foi citado em reportagem publicada na primeira página do jornal New York Times, pela hoje desacreditada repórter Judith Miller (foto), como prova definitiva de que o  Iraque tinha armas químicas. Miller circulava nos corredores do poder, especialmente no  Pentágono, recebendo vazamentos de autoridades do governo Bush empenhadas em alarmar o país com a suposta ameaça das armas proibidas.

Para confirmar as mentiras, eles ainda instruiam a jornalista a procurar certas fontes duvidosas – entre elas exilados do Iraque como Ahmed Chalabi, ex-banqueiro procurado por fraude na Jordânia e outros países. Aparentemente, coube a Chalabi, candidato predileto do Pentágono a assumir o governo do Iraque depois da invasão, a tarefa de colocar Miller em contato com “Curve Ball” ou ter acesso às informações forjadas que fornecia.

Como Powell entrou no jogo

A identidade de “Curve Ball” era protegida nos EUA. Fingia-se que era fonte preciosíssima. O primeiro serviço de espionagem a ouvi-lo foi o da Alemanha, cujas autoridades ouviram credulamente suas versões fantasiosas. Nos EUA, os neoconservadores de Bush – Paul Wolfowitz, Douglas Feith e o resto da turma no Pentágono – amplificavam as versões manipulando jornalistas como Miller.

Segundo Tyler Drumheller, ex-alta autoridade da CIA que falou à CBS, “se não tivessem Curve Ball, eles (as altas autoridades do governo Bush) certamente teriam arranjado outro para dizer a mesma coisa, pois estavam obcecados em levar avante o projeto da invasão do Iraque. Para ir à guerra, nas circunstâncias em que fomos, Curve Ball foi sem dúvida o núcleo do caso”, disse.

Em fevereiro de 2003, o secretário de Estado Colin Powell disse no Conselho de Segurança da ONU, tentando convencer outros países a apoiar a guerra: “Vamos dar a vocês fatos e conclusões baseados em inteligência sólida”. E acrescentou que Saddam tinha “armas biológicas móveis”. A fonte sobre isso “é testemunha ocular, um engenheiro-químico que supervisionou uma dessas instalações” (em entrevista AQUI, à BBC, ele reconheceria, menos de um ano depois, que estava errado).

A guerra a todo custo

Ladeando Powell, os fiadores do que dizia: o diretor nacional de Inteligência (e da CIA), George Tenet, e o chefe da missão dos EUA na ONU, John Negroponte, futuro ocupante do cargo de Tenet. Mas a suposta “fonte” e “testemunha ocular” era apenas o larápio Curve Ball, no qual o governo Bush declarou acreditar – contra os dados bem fundamentados da comissão de inspetores de armas da ONU.

Seis semanas depois o Iraque era invadido a pretexto de ter “armas de destruição em massa”, o que os especialistas da comissão da ONU, liderada pelo sueco Hans Blix, que tinham vasculhado o Iraque, negaram, considerando a versão fantasiosa. Mas a verdade da ONU não interessava a Bush e nem ao seu vice Dick Cheney, obstinados em forçar a guerra a qualquer custo. (Leia AQUI sobre a suspeita do repórter Seymour Hersh de que trama igual pode estar em andamento, agora para criar a ameaça iraniana).

Depois da invasão, com o Iraque ocupado pelas tropas invasoras dos EUA, duas equipes de centenas de especialistas da CIA comprovou o que Hans Blix e seus inspetores tinham dito. A mentira grosseira produziu a guerra que já matou mais de 4 mil americanos e aleijou 30 mil (além de 1 milhão de civis iraquianos mortos e 4 milhões de refugiados). E até hoje Bush repete outra mentira: que o mundo concordava com ele sobre a existência de armas proibidas.

Published in: on maio 14, 2008 at 10:09 pm  Comments (2)  

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2 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Caro Argemiro, primeiramente parabéns pelo trabalho. Sempre o acompanhei pela GloboNews, aqui no Brasil.
    Sou estudante de jornalismo da PUCRS e estou fazendo uma reportagem sobre curiosidades que envolvam as eleições americanas. Gostaria muito de te encaminhar algumas perguntas.
    Você pode me mandar um email? Te respondo enviando as perguntas.
    rocky_rfn@hotmail.com
    Desde já, agradeço a atenção. Muito obrigado, abraços.

  2. [...] Mentia tanto que se tornou motivo de chacota entre os próprios colegas de trabalho na Alemanha. (AQUI, um post anterior deste blog, quando o programa “60 Minutes” revelou pela primeira vez [...]


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