Honduras, a OEA e o papel dos EUA

Honduras_fotoAP

Quando o recém-empossado ditador de Honduras, Roberto Micheletti, principal beneficiário até agora do golpe militar que depôs o presidente legítimo Manuel Zelaya (foto abaixo, à esquerda), eleito pelo voto popular, decidiu mandar às favas a OEA (Organização dos Estados Americanos), pode ter dito algo que muitos gostariam de ter ouvido, no passado, de presidentes latino-americanos: “Vá para o inferno. Não precisamos de vocês”. (Mais sobre o golpe AQUIAQUI)

ZelayaNo quadro continental, seria um avanço se tivesse ocorrido há algum tempo, pois nenhum país abaixo da fronteira EUA-México precisava de uma organização cujo papel consistia em subordinar a América Latina e o Caribe aos interesses políticos e econômicos de Washington. A diferença é a OEA, que em 1965 legitimou com tropas a invasão da República Dominicana pelos EUA, ter passado a rejeitar os golpes e invasões (mais sobre a invasão AQUI).

Cúmplice da prepotência dos EUA em 1965, ela foi omissa ou apoiou a derrubada de governantes escolhidos pelo povo e tirados por militares golpistas – mau hábito iniciado com a Guatemala em 1954 e que ainda incluiria o cone sul, Brasil (64), Uruguai (72), Chile (73) e Argentina (76), sem falar nos banhos de sangue da política ensandecida de Ronald Reagan na América Central. A conversão da OEA à democracia exigiu décadas.

Doutrina Monroe e outras torpezas

Antes a organização era instrumento conveniente a que recorriam sucessivos governos dos EUA na tentativa de legitimar suas invasões e intervenções militares. Servia tanto para consolidar os golpes como para levantar o ego dos ditadores amigos – os Somoza, Duvalier, Trujillo, Batista, Perez Jimenez, Stroessner, etc, para não falar nos muitos regimes submissos, das bananas da América Central ao petróleo da Venezuela.

No passado mais remoto o temor à independência das colônias espanholas já tinha levado os EUA a ignorar o sonho de Simon Bolivar e inventar a infame doutrina Monroe – outro pretexto para intervenções.Rogers_WilliamD Nascida em 1948, a OEA tornou-se ainda executora do igualmente infame TIAR (Tratado Inter-Americano de Assistência Recíproca), filhote da guerra fria, que a ela atrelou o continente em 1947.

Pelo menos um diplomata americano – William D. Rogers (foto à direita – e saiba mais sobre ele AQUI), então respeitado como especialista em problemas latino-americanos – teve certa vez o bom senso de recomendar a saída dos EUA da OEA, por achar que isso a fortaleceria ao permitir que se concentrasse nas questões regionais legítimas, “os interesses comuns das nações da América Latina”. Rogers explicou ainda:

“A medida poria fim à acusação de que a OEA é dominada pelos EUA. Permitiria ainda aos EUA terem na organização o mesmo status atual de observador mantido pelos países europeus. Além disso, seria como um exemplo aos soviéticos e à Europa Oriental. E nós abriríamos mão de nossos esforços penosos e às vezes até ridículos para manter ali um ‘perfil baixo’ para o nosso país enorme”.

Uma escola para formar golpistas

Aquela opinião de Rogers, que morreu em setembro de 2007, foi manifestada em 1973. Ele poderia ter feito alguma coisa em relação à OEA, pois em seguida à renúncia do presidente Nixon (1974) foi chamado (no governo Ford) pelo secretário Kissinger_1970Henry Kissinger (ao lado, numa foto da época) para o Departamento de Estado, onde se tornou secretário Assistente para Assuntos Interamericanos e sub-secretário para assuntos econômicos.

Kissinger e Gerald Ford não deviam simpatizar com a idéia de Rogers – e este, por sua vez, aproximou-se demais do ex-secretário de Estado nos anos seguintes, como sócio e vice-presidente no rendoso escritório de consultoria Kissinger Associates. A ponto de defendê-lo na controvérsia em torno de um dos crimes nefandos dele, a ingerência americana a favor do golpe de setembro de 1973 no Chile, único país que defendera antes a saída dos EUA da OEA (mais AQUI, AQUI e AQUI sobre a controvérsia e a crítica devastadora do historiador Kenneth Maxwell a Kissinger e Rogers).

O empenho de sucessivos governos dos EUA para manter o controle da OEA, cuja sede fica a poucas quadras da Casa Branca, foi outro obstáculo à idéia. Embora a dominação escandalosa faça ainda menos sentido depois da guerra fria, vale citar mais ações e instrumentos usados pelos EUA para impor a dominação – WHINSEC_logocomo a infame Escola das Américas (School of the Américas, SOA) do Exército dos EUA.

Ao invés de fechá-la depois de sucessivos escândalos envolvendo militares da América Latina formados ali (muitos viraram ditadores, torturadores ou chefes da espionagem), o Pentágono optou apenas por trocar o nome dela. Rebatizou-a como Instituto do Hemisfério Ocidental para Cooperação de Segurança – ou, em inglês, Western Hemisphere Institution for Security Cooperation (WHINSEC – veja seu logo acima).

Galtieri_Leopoldo

O embaixador, o general e os ditadores

Com nome tão extenso e sigla tão difícil de decifrar, o Pentágono achou que mal seria notada. Mas opositores que monitoram a atividade dela (como o “School of the Americas Watch”, SOAW – conheça seu website AQUI) mantêm vivos o nome, a vigilância e o passado sinistro da SOA, por onde passaram ditadores conspícuos (Leopoldo Galtieri, o da foto ao lado; Efraín Rios Montt, Hugo Banzer, Manuel Noriega) e até terroristas (como Posada Carrilles, cubano de Miami).

Dentro dos EUA, grupos religiosos e outros não esquecem as vítimas torturadas ou mortas em vários países por alunos da escola. Desde 1990 renovam protestos a cada ano em Ft. Benning, Georgia, onde a escola continua a funcionar sob o atual disfarce de WHINSEC. Os protestos são em novembro, mês no qual 27 militares de El Salvador (19 formados na SOA) assassinaram seis padres jesuítas em 1989.

Negroponte_JohnEm Honduras, de onde o governo Reagan – ali representado pelo embaixador John Dimitri Negroponte, o da foto à esquerda (mais sobre ele AQUIAQUI) – lançou sua guerra secreta, dos “contras”, na década de 1980, contra a Nicarágua, o homem-forte era o general Gustavo Álvarez Martínez, um ex-aluno da SOA que criou o 316° Batalhão de Inteligência Militar, responsável por assassinatos políticos, torturas, cadeias secretas e outras atrocidades (mais sobre os crimes de Álvarez e dos militares hondurenhos AQUIAQUI).

Assassinado em 1989, o general Álvarez – símbolo do momento em que o país era uma espécie de porta-aviões para as agressões dos EUA a vizinhos da região – ainda parece, com sua carreira sinistra, o exemplo para os atuais militares hondurenhos. Formado na SOA, ligou-se ainda à Argentina dos generais e frequentava as folhas de pagamento da CIA e da United Fruit (hoje Chiquita Brands). E obedecia a Negroponte.

Publicado em: on Julho 7, 2009 at 1:10 am Deixe um comentário

O persistente racismo no sul dos EUA

AmericanPresidents2_&_Obama(Em recente manifestação de racismo na política do sul, uma assessora da senadora estadual Diane Black, republicana do Tennessee, enviou por email a outros senadores o quadro acima com os 43 presidentes brancos, de Washington a Bush II, seguidos por quadrado negro com dois olhos esbugalhados – Barack Obama. Pouco antes Rusty DePass, autoridade republicana da Carolina do Sul, tinha feito por escrito o seguinte comentário sobre a fuga de um gorila do zoológico: “Tenho certeza de que é um ancestral de Michelle Obama, provavelmente inofensivo”)

Numa decisão quase unânime (8×1) na última semana a Suprema Corte dos EUA manteve intacta a Lei de Direito de Voto que em 1965 estendeu esse direito à população negra do sul (saiba mais AQUI). A lei foi aprovada um século depois do assassinato do presidente Lincoln e da vitória da União na guerra civil gerada pela obsessão da elite branca sulista de não abrir mão da escravidão negra (como, depois, da segregação racial).

Johnson_JackieKennedy1963Na composição atual da Suprema Corte o bloco conservador tem leve vantagem (5×4). Mas mesmo depois de tantos prefeitos e governadores negros, inclusive no sul, e de já ter o país um presidente negro na Casa Branca, até juízes conservadores do tribunal mais alto ainda vêem racismo, ao contrário de ideólogos do jornalismo da elite branca brasileira, como Ali (“não somos racistas”) Kamel, que negam a realidade.

A nova decisão da Suprema Corte americana foi no caso de um distrito de Austin, Texas, que desafiou a constitucionalidade daquela lei, buscando colocar-se fora de seu alcance – e dos organismos do governo federal. Ao assiná-la há 44 anos, o presidente democrata e texano Lyndon Johnson (na foto acima, fazendo juramento de posse, ao lado de Jacqueline Kennedy, no vôo de volta após a tragédia de Dallas) profetizara que por causa da lei seu partido perderia o sul, até o Texas (mais sobre a lei AQUI).

A vergonhosa herança confederada

Durante os 100 anos seguintes à guerra civil o Partido Democrata, sob o controle da elite branca no sul, tornou-se partido único nos 11 estados que antes formavam a Confederação – situação semelhante à da URSS stalinista. Na prática tirava-se o direito de voto dos negros (com exigências absurdas mas legais naqueles estados, como testes de capacidade inventados para tal fim específico), preservando-se os valores pre-guerra civil (cultuava-se até a bandeira, hoje um símbolo racista).

confederate_flagO que mudou o quadro, em meio ao trauma criado pelo assassinato do presidente Kennedy em Dallas (no Texas, um daqueles 11 estados) foi a aprovação em 1965 da Lei de Direito de Voto. Ela criou, após 100 anos, um novo quadro político nos estados do sul: o Partido Democrata passou a acolher os negros e o Republicano a receber a elite branca (e racista) descontente e inconformada com a nova lei.

Após um período de acomodação os republicanos começaram a superar os rivais democratas nas eleições para presidente, governador, legislativos estaduais e Congresso nos estados que tinham integrado a Confederação escravocrata. Entre 2000 e 2006 praticamente cumpriu-se a profecia de Johnson de que depois da lei os democratas perderiam o sul, mesmo passando a eleger novos políticos negros.

O legislador esperava que certos dispositivos da lei se tornassem desnecessários ao se consumar a correção da anomalia. Seria esse o caso da seção 5, que previa supervisão federal (aprovação prévia do Departamento de Justiça) em quaisquer mudanças legais em oito estados e muitos condados de outros. Com o voto das minorias garantido, seriam restabelecidos os direitos plenos dos estados nesse campo.

A cisão no bloco conservador

Pelo menos dois analistas respeitados – um colunista político do Washington Post, E. J. Dionne, e a professora da Escola de Direito de Stanford, Pamela Karlan, especialista em eleições – acham que Roberts_oathJohn Roberts (na foto com Bush, que o nomeou), o atual presidente da Suprema Corte, inclinava-se agora a acolher a pretensão de Austin. E o teria feito se o juiz Anthony Kennedy e talvez Samuel Alito, conservadores como ele, não discordassem.

Antes da decisão, segundo Dionne, militantes de direitos civis temiam que a atual maioria conservadora estivesse disposta a usar sua vantagem de um voto na corte para golpear o coração da lei (leia a íntegra de sua análise AQUI). E apesar do recuo ante a discordância, Roberts – a quem coube redigir o voto,  cuja íntegra pode ser lida AQUI, com o recurso e o voto contrário de Clarence Thomas – teve o cuidado de deixar em aberto a questão maior, ao “evitar a resolução desnecessária das questões constitucionais” (a frase é dele).

Mesmo reconhecendo os avanços garantidos pela lei de 1965, esse presidente que Bush nomeou com o objetivo de consolidar a virada à direita do tribunal afirmou que aqueles progressos “não constituem justificativa adequada” para manter as atuais exigências de supervisão federal. Para ele, há “evidência considerável” de que “o estatuto deixa de atender às condições políticas atuais”.

Parece implícita a insinuação de que o remédio daquela lei tornou-se obsoleto por inexistirem as condições que levaram o legislador a aprová-la (conheça a opinião de uma republicana sulista ainda mais conservadora AQUI). Mas fatos recentes – dos episódios de racismo explícito na campanha presidencial de 1998, com o próprio candidato republicano repreendendo excessos em seu palanque, a casos de ações ofensivas de políticos do sul – mostram o contrário. E no mesmo sul racista.

O bom exemplo de Earl Warren

EarlWarrenPara a professora Karlan, Roberts primeiro tentou, sem conseguir, forjar uma maioria capaz de destruir inteiramente a seção 5 da lei. O que a decisão indica, conforme ela observou em entrevista (citada por Dionne), é que o bloco conservador do mais alto tribunal do país foi incapaz de garantir os cinco votos necessários. Assim, teve de se contentar com uma solução de compromisso.

Essa lei, como ressaltou Karlan, ganhou status emblemático no direito americano como uma das poucas na história a resultar de verdadeira mobilização de massa (aquilo que na certa horrorizaria o atual presidente do STF no Brasil). Golpear-lhe o coração, disse ainda, teria trazido um claro custo político para a Corte Suprema dos EUA. Mas ficou claro que o alto tribunal presta atenção à política (saiba mais AQUI e AQUI sobre a importância que Karlan e outros atribuem a essa lei) .

Dionne observou: “Somos um governo de leis, não de homens. Mas homens e mulheres têm opiniões e orientações filosóficas que não evaporam no dia em que se tornam juízes da Suprema Corte. Pretender o contrário em nada ajudará a preservar nossas liberdades”. Pode ser. Mas se os conservadores impuseram-se tantas vezes, alguns deles, como Earl Warren (foto acima – mais sobre ele AQUI), com período marcante na presidência, tornaram-se liberais na Corte.

Publicado em: on Junho 28, 2009 at 7:54 pm Deixe um comentário

O Brasil, a mídia e a proliferação nuclear

ElBaradei_CelsoAmorim(Apesar do “desacordo momentâneo” entre Brasil e AIEA, o diretor geral dessa agência – Mohammed El Baradei, em fim de mandato – conviveu bem com Celso Amorim, citado em boatos no Brasil como atraído pelo cargo dele na ONU)

Depois de estranhar em dezembro de 2008 o destaque dado ao desenvolvimento da energia nuclear na Estratégia Nacional de Defesa anunciada pelo governo Lula (leia AQUI), nossa mídia prestou-se na primeira quinzena de janeiro de 2009 ao papel de veículo da pressão de um governo Bush enfraquecido e em fim de mandato – mero “pato manco” agonizante, golpeado ainda por uma derrota eleitoral humilhante.

Terá o episódio exagerado a proximidade entre os meios de comunicação do país e os interesses da superpotência estrangeira em conflito com os do Brasil? Vale a pena encarar a situação no momento em que os mesmos veículos ansiosos para anistiar os crimes da ditadura (de que foram cúmplices) vêem com suspeita o atual compromisso dos militares com a democracia e a defesa dos interesses nacionais.

Ou será legítimo, nesse contexto, o faroeste midiático atribuir papel de guardiã da paz e do desarmamento à superpotência invasora do Iraque? Tenho dúvidas; a mídia não. Ela condena a resistência do Brasil em aderir ao Protocolo Adicional ao Acordo de Salvaguardas do TNP, o tratado de não proliferação nuclear (mais AQUI sobre os três). Ignora os interesses do país e insinua culpa de militares obcecados em ter a bomba-A.

A disputa em torno do desenvolvimento da energia nuclear é menos simplista do que sugere o cacoete desse jornalismo de aliar-se a interesses de fora. Os países sem armas nucleares sofrem restrições em suas pesquisas – punidos por terem aceitado firmar o TNP. Índia, Paquistão e Israel ignoraram o TNP e construiram bombas atômicas. Começam a ser paparicados e privilegiados com acordos especiais (leia AQUI e AQUI).

A bomba e os interesses comerciais

Em 1998 essa mesma mídia aplaudiu o governo FHC por submeter-se à pressão e assinar o TNP (leia sua íntegra AQUI). Já então, a pretexto de que o Iraque de Saddam Hussein tinha violado o tratado ao criar um programa nuclear oculto, os EUA ensaiavam exigir que os “sem bomba-A” (ou have nots, não detentores de armas nucleares, em oposição aos haves, que as tem) aderissem ainda ao Protocolo Adicional criado para estender as restrições, controles e inspeções.

Inexistente antes, o protocolo tem de ser negociado agora com cada signatário do TNP – e não imposto. Os países “sem bomba-A” sofrem limitações nas pesquisas, que a AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica) faz cumprir com inspeções. E os donos de arsenais nucleares, que deviam reduzí-los até a total eliminação, ao invés de cumprir sua parte, sofisticam suas armas, o que agrava o problema por tornar mais viável seu uso no futuro.SWITZERLAND UN DISARMAMENT (Apesar disso, o secretário geral da ONU, Ban Ki-moon, acredita ser este um bom momento para EUA e Rússia reduzirem suas ogivas nucleares – leia AQUI e AQUI).

O compromisso do Brasil, pelo TNP e por sua Constituição, é com o uso pacífico da energia atômica. Além de atuar como poucos em favor da causa do desarmamento nuclear, sua tradição pacífica é reconhecida. Mas não pode abrir mão da tecnologia nuclear. E afirma a necessidade estratégica de desenvolvê-la e dominá-la, o que inclui hoje o projeto do submarino de propulsão nuclear (leia AQUI).

Em 2004 um editorial da Folha de S.Paulo propôs rendição singular, a pretexto de ser “transitória” a existência de duas categorias de países (com e sem bomba-A): o governo brasileiro devia aderir, “como decisão soberana”, ao Protocolo Adicional, e ao mesmo tempo “pedir” avanços pelo desarmamento. Dos 190 que assinaram o TNP só 82 aderiram ao protocolo. Muitos temem que os EUA eternizem seu arsenal “transitório”.

E há os interesses comerciais: o crescente mercado mundial de urânio enriquecido movimentou US$18 bilhões em 2001. Além de dono da 5a maior reserva natural de urânio, o Brasil tem tecnologia própria de centrifugação, desenvolvida por seus cientistas ao longo de 27 anos. Para preservá-la a sala das centrífugas na Fábrica de Combustível Nuclear (FCN) da INB em Resende é protegida com painéis durante as inspeções da Agência Internacional de Energia Atômica, AIEA (mais sobre o debate de 2004 AQUI).

A cruzada pelo Protocolo Adicional

Os interesses dos países donos de arsenais nucleares são obviamente diferentes dos países “sem bomba-A”. A hipótese de espionagem industrial em inspeções da AIEA sobre a tecnologia inovadora do Brasil foi descartada assim pela Folha: os “EUA ou qualquer outra grande potência” não precisam disso porque podem recorrer à espionagem “clássica”. Ou seja, o editorial subestimou a hipótese como remota.

Ritter_ScottQuem acompanha as páginas internacionais sabe que no Iraque, antes da invasão de Bush, a CIA usava a UNSCOM, equipe de inspeção da ONU – primeiro chefiada pelo sueco Rolf Ekeus (até 1997), depois pelo australiano Richard Butler (1998) para espionar. O inspetor Scott Ritter (foto ao lado), ex-fuzileiro dos EUA e veterano da guerra do Golfo, criticou os dois, acusando-os de aceitarem o jogo da CIA (leia mais AQUI sobre a espionagem pelos EUA nas inspeções).

Na mesma linha do editorial da Folha, o do Estado de S.Paulo quatro dias depois negou haver razão que justifique a não adesão ao Protocolo Adicional. Alegou ser do interesse do Brasil ratificar o compromisso com o desenvolvimento pacífico da energia atômica, evitando ao mesmo tempo atritos com as grandes potências empenhadas em impedir a proliferação nuclear. Esqueceu a FCN e o mercado de urânio.

Alguns meses depois dos editoriais, o secretário de Estado de Bush, Colin Powell, veio ao Brasil e ouviu explicação do ministro Celso Amorim, de que o país tinha o dever de proteger sua tecnologia, desenvolvida por cientistas brasileiros. Depois, em entrevista à Veja, Powell minimizou o que Folha e Estadão maximizaram. O Brasil, disse, não preocupava os EUA, e não devia ser comparado a Irã e Coréia, apesar do “desacordo momentâneo” com a AIEA (Larry Rohter dizia o contrário, AQUI).

Uma entrevista muito estranha

Mas a Folha voltou ao ataque a 9 de janeiro de 2009, em matéria assinada pelo chefe da surcusal de Brasília, Igor Gielow. “Os EUA cobraram ontem a adesão do Brasil ao chamado Protocolo Adicional”, dizia o texto (leia a íntegra AQUI e saiba mais AQUI). Não ficou claro se a “cobrança” era iniciativa americana, usando a Folha como intermediária, ou se viera por acaso, premiando uma solicitação de entrevista feita pelo jornal.

Schulte_Greg_ViennaQuem dava a entrevista era o embaixador Gregory Schulte (foto à esquerda), que representava os EUA não no Brasil mas na AIEA e outros organismos com sede em Viena (leia entrevista dele AQUI sobre o Irã e a proliferação nuclear). Gielow omitiu (de propósito?) se o diplomata respondera a perguntas, se falara em Brasília (estaria ali por alguma razão?), se a entrevista fora por telefone ou se mandara respostas por email a perguntas enviadas a Viena.

Como o próprio jornalista caracterizou a entrevista como “cobrança” dos EUA, seria no mínimo oportuno informar como ela ocorrera – cara-a-cara, por telefone, troca de emails ou qualquer que tenha sido a situação. Seria uma tentativa de intimidação do governo brasileiro? A dupla Bush-Cheney, afinal, sofrera derrota eleitoral e vivia seus últimos momentos na Casa Branca (restavam aos dois apenas 12 dias).

Pelo relato da Folha, Schulte “cobra” a adesão do Brasil porque os EUA aderiram. Mas o protocolo é adicional ao Acordo de Salvaguardas (artigo III do TNP), só aplicável (impondo obrigações) aos “sem bomba-A”. Os EUA têm a faculdade de escolher (ou não) instalações suas a serem inspecionadas. Os “sem bomba-A” não; só têm obrigações. E rígidas. A AIEA é que decide o que vai inspecionar – e como.

Publicado em: on Junho 17, 2009 at 8:44 pm Comentários (2)

A direita terrorista e o “big brother” Obama

RightWingCard(O anúncio acima,  no website Liberty Counsel, convida quem se orgulha de ser extremista de direita a enviar doações pela internet)

Em abril a secretária de Segurança Interna dos EUA, Janet Napolitano (foto abaixo, à esquerda), divulgou o extenso relatório de seu departamento (DHS, Homeland Security) sobre a ameaça do extremismo de direita no país. Foi ridicularizada pelo império Murdoch de mídia, Fox News à frente. Apesar da reação inicial, a advertência é afinal levada a sério depois de dois ataques extremistas – que podem ainda dividir o jornalismo da Fox.

Napolitano_JanetAparentemente os excessos dos talk shows de Murdoch preocupam também alguns jornalistas da casa. A vítima do primeiro dos ataques terroristas, em maio, foi o médico de uma clínica de aborto do Kansas, George Tiller, assassinado por um fanático da direita religiosa (saiba mais AQUI). No segundo, a 10 de junho, um extremista defensor da supremacia branca, James W. von Brunn, atacou o museu do Holocausto, na capital dos EUA, e matou um segurança a tiros (leia AQUI).

O extremismo de direita tem facções múltiplas. É religioso, patriótico e racista. Teme a invasão dos EUA por tropas da ONU e raças múltiplas, que chegariam em helicópteros negros. Em The Turner Diaries (capa abaixo, à direita), ficção racista e anti-semita, lida nas milícias que infestam o país, o autor (William Luther Pierce, sob o pseudônimo de Andrew Macdonald) retrata uma revolução violenta, guerra nuclear, tomada do poder e extermínio dos judeus e não-brancos.TurnerDiaries_

A vítima do atentado do Kansas, George Tiller, era chamada pelo campeão de audiência do horário nobre na Fox News, Bill O’Reilly, de “assassino de bebês” – o que pode ter encorajado o extremismo de direita a matar Tiller. Depois do crime, O’Reilly jurou que fazia apenas “análises baseadas em fatos” e às vezes citava grupos cristãos contrários ao aborto, que chamavam Tiller de “baby’s Killer”.

“Um lugar no inferno para ele”

Jornalistas e blogs mais à esquerda acusam a Fox. “Qual o próximo alvo da ira de O’Reilly e (Glen) Beck a ser abatido a tiros por terroristas conservadores?” – perguntou a 31 de maio o blogueiro Markos Moulitsas, do Daily Kos. No mesmo dia Mike Hendricks escreveu no jornal Kansas City Star que são cúmplices todos os que se referiam à vítima, na TV, como “baby’s Killer” e “Tiller, the Killer”.

OReilly_TillerPara O’Reilly, seus críticos são “odiadores da Fox”: defendem a vítima, indiferentes à sorte de 60 mil fetos supostamente destruídos por Tiller. Ele jurou, ao mesmo tempo, nunca ter usado as expressões ofensivas ao médico. Mas o site Media Matters for America, ativo no monitoramento da mídia, relacionou as datas (foram dezenas) nas quais o dr. Tiller foi acusado daquela forma (confira AQUI).

A 27 de março, depois de Tiller ter sido absolvido em processo movido contra ele pelo fanático antiaborto, O’Reilly disse: “Tiller, o assassino de bebês, foi absolvido no Kansas. (…) Deve haver um lugar especial no inferno para esse cara”. A 3 de abril o herói do horário nobre da Fox atacou de novo: “Tiller foi absolvido no Kansas. Tiller, o assassino de bebês”. Eram afirmações dele e não citações.

Ao abordar, a 27 de abril, o veto a um projeto de lei antiaborto, ele se referiu de novo ao “caso de Tiller, assassino de bebês”. A 11 de maio, falando da secretária de Saúde Kathleen Sebelius, ex-governadora do Kansas, também observou ser aquele “o estado do dr. Tiller, o assassino de bebês”. Consumado o assassinato, não retirou o que disse: alegou cinicamente só ter usado a expressão ao citar grupos religiosos.

Fundamentalismo cristão, a ameaçaSmith_Shepard

Na verdade, O’Reilly não informava. Estava numa cruzada, havia quatro anos, contra o dr. Tiller, que se tornara personagem fixo de seu talk show - até ser morto. O crime, a 31 de maio, levou mais jornalistas – Helen Kennedy no Daily News de Nova York, Keith Olbermann na MSNBC e a ex-produtora do “60 Minutes” da CBS, Mary Mapes, em artigo no Huffington Post – a culpar a pregação de ódio de O’Reilly.

Em razão disso veio ainda a reação inesperada dentro da própria Fox de Murdoch. O jornalista Shepard Smith (foto acima, à direita – saiba mais AQUI), que apresenta de Nova York o noticiário Studio B, e a correspondente Catherine Harridge, que cobre o Pentágono e assuntos de segurança nacional, disseram que a morte do dr. Tiller e o ataque de James W. von Brunn ao museu do Holocausto davam relevância maior ao relatório do DHS.

Antes, ao ser divulgado o relatório, O’Reilly e Beck o repudiaram e Sean Hannity (foto abaixo, à esquerda) retratou o presidente Obama como o “Big Brother” de George Orwell que vigia os americanos. Smith e Harridge ousaram adotar posição oposta.Obama_BigBrother O objetivo maior do DHS fora alertar os departamentos de polícia – e demais órgãos encarregados de fazer cumprir a lei – para a ameaça real do extremismo de direita.

A preocupação das autoridades do DHS, a começar pela secretária Napolitano, é compreensível. A partir do 11/9 a obsessão do país tinha passado a ser o extremismo muçulmano mas antes disso os terroristas mais ativos estavam na direita – entre eles milicianos brancos motivados pela supremacia racial e o fundamentalismo cristão obscurantista, na linha de Osama Bin Laden.

Ideais e obsessões de Oklahoma CityMcVeigh_Timothy

Na década de 1990, os federais (FBI, ATF) acompanhavam a proliferação de milícias e seitas no país, com confrontos como o que levou ao incêndio no complexo davidiano de David Koresh em Waco, Texas. Ali morreram 54 adultos e 21 crianças em 1993. Dois anos depois, em 1995, veio o atentado de Oklahoma City – o maior ocorrido no país antes do 11/9. Matou 168 pessoas e deixou mais de 800 feridas (saiba mais AQUI).

Veterano da guerra de 1991 no Iraque, o terrorista Timothy McVeigh (foto à direita e, abaixo, capa da biografia dele – leia também AQUI), simpático às milícias de direita, pagou com a pena de morte pelo crime. O relatório do DHS, não por acaso, alertava para a necessidade de preparar o país para o retorno dos veteranos da atual guerra do Iraque. Mas a Fox e a oposição republicana indignaram-se à mera menção desse grave problema, como se não fosse de fato preocupante.

American_Terrorist.gifTratar com leviandade a morte de dr. Tiller e o ataque ao museu em Washington é um risco, como perceberam Smith e Herridge. Os bandos de direita talvez prefiram ser tratados como piada, mas são reais. Mais sensato é não subestimá-los. Até porque, com base naquele alerta do DHS, o grupo Liberty Counsel (conheça-o AQUI)  já pede doações pela internet e oferece carteiras especiais aos que se orgulham de ser “extremista de direita” – para enfrentar o DHS.

Procurados pela mídia, responsáveis pelo site alegaram ser ele inofensivo, apenas humorístico – o que é duvidoso. Pregam-se ali os ideais e as obsessões das milícias: interpretação literal da Bíblia, santidade da vida (a cruzada antiaborto), valores tradicionais da família, porte de armas, redução do poder do governo federal, apoio “às nossas tropas” e aos veteranos. Timothy Weigh assinaria embaixo. Murdoch também.

(Abaixo, os efeitos da bomba de McVeigh em Oklahoma City. Ela destruiu ou danificou 324 prédios e 86 carros, totalizando prejuízos de US$652 milhões)

OklahomaCity2

Publicado em: on Junho 12, 2009 at 4:57 pm Deixe um comentário

Festival Obama nas pirâmides do Egito

Obama&Kar_Egito

Pode ser apenas mais um capítulo na disputa pela audiência nas redes de cabo dedicadas ao jornalismo. E a CNN talvez tenha exagerado, de olho na rival Fox News (que ignorou o factóide). Primeiro colocou a imagem no ar. Depois repetiu no blog de seu programa nobre, Anderson Cooper 360°. Foi na visita às pirâmides. Lá estava a suposta imagem de um antepassado de Obama.

Como caricatura, nada mal. A imagem de fato é parecida com as caricaturas que se fazem hoje do presidente americano. O retrato, encontrado numa tumba de 4.600 anos atrás, foi identificado pelo guia, um erudito conhecedor do Egito Antigo, como um sacerdote, professor e juiz cujo nome naqueles hieróglifos parece ser Kar.

“Parece comigo. Olhe só as orelhas dele”, disse Obama. De fato, quem vê as orelhas lembra das caricaturas. Para o jornalismo das redes de cabo vale tudo. Pelo menos um leitor de blog na internet criticou a CNN por ter rebaixado a mero “guia turístico”, como se fosse um qualquer, o professor que acompanhava Obama – o dr. Zahi Hawass, arqueólogo e secretário-geral do Conselho Supremo das Antiguidades do Egito.

“No Egito Antigo o senhor era rei”

Transcrevo abaixo o relato e o diálogo, tal como foi reproduzido no blog AC360° da CNN (leia no original AQUI):

GUIA – Esta é uma tumba datada de quatro mil e seiscentos anos atrás. E a pessoa que está ali atrás é Kar. Seu nome está escrito em hieróglifos e parece ser Kar.
OBAMA – Parece comigo! Veja aquelas orelhas.
Obama_Gibbs_AxelrodO presidente até chamou seu secretário de imprensa Robert Gibbs e o alto conselheiro David Axelrod para mostrar a semelhança (veja foto ao lado).
OBAMA, dirigindo-se a Gibbs e Axelrod – Quero mostrar uma coisa a vocês.
GUIA – Senhor Presidente, o senhor parece com o rei Tut. É verdade. Tenho dito isso sempre, há dois anos que digo isso. No Egito Antigo o senhor era um rei.

Até aí, a transcrição. Alguns internautas que mandaram comentários foram engraçados – e generosos. Um deles disse que o presidente sempre faz piada e é bem humorado. “Hilariante. Adorei”, escreveu outro. De San Diego veio avaliação ainda mais generosa: “Muito bom, fico feliz que o senhor esteja fazendo tudo isso para o mundo e nosso país se unirem. De fato o rei Tut parece muito com o senhor. Aproveite a viagem e obrigado por dividir conosco…”

Mas em matéria de Obama a Fox News, que tem superado a audiência da CNN, é mal humorada – lá o clima continua bem diferente. Ela prefere ignorar os factóides da viagem, se acha que podem soar favoráveis a ele. Assim, intensifica a campanha contra o governo que supostamente empurra o país para o socialismo. E chama personalidades da oposição republicana, como Newt Gingrich (leia e veja AQUI), para repetir os ataques habituais.

(E clique no YouTube abaixo para ver as imagens da CNN no túmulo de Kar – aqui em edição posterior bem humorada, que cita e entrevista o guia-arqueólogo)

Publicado em: on Junho 7, 2009 at 12:04 pm Comentários (5)

Guardiões do sigilo no governo invisível dos EUA

ISCAP_CIA

Os 12 cidadãos acima são uma espécie de tribunal superior, instância última na guarda dos segredos do governo invisível dos EUA. É o Conselho de Inteligência dos EUA (USIB), que à época desta foto, no governo do presidente Richard Nixon, era presidido por William Colby, então Diretor Central de Inteligência (e da CIA) – o terceiro, a partir da esquerda. Para críticos do excesso de sigilo – como o National Security Archive (NSArchive), grupo privado que funciona na Universidade George Washington – o governo Obama tem de buscar transparência na prometida revisão dos exageros, que a dupla Bush-Cheney levou ao extremo.

ISCAP_CIA_01Quem está à direita de Colby na foto é seu então adjunto e vice-diretor da CIA, general Vernon Walters, em parte premiado com esse cargo pelos bons serviços prestados em favor do sucesso em 1964 do golpe militar que pôs fim à democracia no Brasil (ele conseguiu também instalar como primeiro  dos cinco presidentes dos 20 anos de ditadura, o amigo Humberto de Alencar Castello Branco).  Os demais são (não nesta ordem) o secretário-executivo do USIB, representantes dos departamentos de Estado, do Tesouro, do FBI (Justiça), da AEC (Comissão de Energia Atômica), da DIA, da NSA e da Inteligência do Exército, Marinha e Força Aérea.

Hoje os integrantes do painel são outros, mas com igual representação. Formalmente cabe a esse “tribunal”, também chamado de ISCAP (iniciais em inglês de Painel Interministerial de Apelações de Classificação de Segurança), levantar ou não o sigilo sobre ações secretíssimas da espionagem, além de antigos estudos, análises e papéis ultra-secretos envolvendo a segurança nacional. Mas o NSArchive criticou na última sexta-feira o fato de decisões do ISCAP, mais arejado por incluir tantas agências e apoiar-se na equipe de um Escritório de Supervisão de Informações de Segurança (ISOO), serem às vezes revogadas depois, pela própria  espionagem.

Ainda ocultando a história da guerra fria

ISCAP_CIA_02A coisa funciona mais ou menos assim: alguém (pessoa ou entidade privada, como a o NSArchive) solicita a liberação de papéis e informações (no jargão da espionagem, “desclassificação”), às vezes de décadas atrás, sobre ações ou operações ainda sob a proteção do sigilo. A tendência das agências de espionagem (CIA, DIA, NSA, etc) é sempre dizer um sonoro “não”. Ou porque coisas feitas no passado, mesmo remoto, acabam por gerar questionamentos fundamentados em critérios novos, a partir do que veio depois, ou mesmo porque entre os segredos há ações equivocadas e erros graves de avaliação das próprias agências, que elas preferem esconder do público.

Estão nessa situação um conjunto de documentos que o ISCAP liberou (ou “desclassificou”) recentemente e uma história da CIA que o mesmo painel acabou não podendo distribuir, conforme explicou o NSArchive. Isso ilustra, segundo a organização não governamental, os problemas gerados “pelos atuais padrões e pelas interpretações abertamente rígidas de tais padrões, alem de obstáculos jurídicos, que bloqueiam a liberação de informações históricas no campo da inteligência”. Ou seja, em princípio o ISCAP tem poderes para revogar, modificar ou ratificar decisões das agências de espionagem nos termos solicitados pelos interessados (como o NSArchive) em grau de recurso ou apelação. Mas na prática não é tão simples.ISCAP_CIA_03

De acordo com o mesmo relato, recentemente o painel decidiu – em resposta a recurso da entidade privada – revogar várias negativas da CIA relacionadas a documentos das décadas de 1960 e 1970. Apesar do ISCAP ter mantido o sigilo para certo material que encarou como segredos mais sensíveis, também concluiu que muitas das informações negadas pela CIA poderiam perfeitamente ser liberadas sem quaisquer danos para a segurança nacional. Para o NSArchive, a tendência  das  agências de espionagem, em especial a CIA, é de se exceder no sigilo, insistindo em manter sob controle ainda rigoroso a história da fase inicial da  guerra fria.

Seguindo Israel na busca da bomba-A

O lado ainda saudável, obviamente, é que diante da cobrança da sociedade – neste caso, a pressão permanente de organizações como a NSArchive – a muralha do sigilo às vezes é vazada. Assim, entre os resultados trazidos pela vitória mais recente daquele grupo privado, agora anunciados em seu website (leia a íntegra e veja os documentos AQUI), estão os seguintes:

  1. A primeira avaliação de inteligência do governo (SNIE), datada de dezembro de 1960, sobre os propósitos das atividades nucleares de Israel num complexo reator nuclear perto de Beersheba: “Acreditamos que a produção de plutônio para armas nucleares é pelo menos um objetivo maior deste esforço”.
  2. Resumos biográficos de membros da delegação soviética às Conversações para a Limitação das Armas Estratégicas (SALT).
  3. Um relatório ultra-secreto de novembro de 1973 sobre a possibilidade de Moscou enviar armas nucleares para as bases soviéticas no Egito durante a guerra do Oriente Médio daquele ano.
  4. O relatório post-mortem da comunidade de inteligência sobre o fracasso da espionagem ao não antecipar o ataque egípcio-sírio a Israel em dezembro de 1973. Ao ser publicado, esse relatório fascinante teve o efeito de um best-seller, só que circunscrito ao establishment de inteligência.
  5. Uma estimativa nacional de inteligência (NIE), de abril de 1986, sobre “A Probabilidade de Ações Nucleares por Grupos Terroristas”, concluindo que “a possibilidade de terroristas tentarem um terrorismo nuclear de alto nível” era “baixa ou muito baixa”. Analistas da CIA especulavam que os grupos terroristas nos anos 1980 podiam sentir-se inibidos em recorrer a ações com baixas civis em massa, mas que inibições poderiam desaparecer com o surgimento de grupos “com outro estado de espírito”.
A espionagem contra a transparência

Apesar da larga autoridade do ISCAP para tomar suas decisões e de seu papel ser elogiável, destacou o NSArchive, a posição inicial da CIA contrária a liberações sugere que persiste a velha tendência da central de espionagem, fiel aos padrões restritivos rígidos do passado recente. O NSArchive também considerou perturbador a agência recorrer à Lei de Informação da CIA para impedir uma decisão do ISCAP destinada a liberar uma história das operações clandestinas do passado, sob o título  ”Office of Policy Coordenation, 1948-1952″.

ISCAP_CIA_04Tais exemplos da CIA, para o NSArchive, indicam que as regras e regulamentos que sustentam o sistema de sigilo permitem às agências de inteligência, em especial a CIA, continuar impondo os padrões estreitos de uma forma irracional. A aparência é de que a comunidade dos espiões ainda mantém, graças às leis  em vigor, o poder de impor o véu do sigilo sobre partes relevantes de sua própria história. A promessa de transparência do governo Obama vai esbarrar ainda numa ordem executiva recente, assinada pelo presidente George W. Bush, que praticamente deu poder de veto à CIA sobre as próprias decisões do ISCAP.

O sistema criado para permitir recurso para uma revisão na classificação de informações data dos anos 1970, ainda no governo Nixon – a mesma época da tempestuosa investigação no Senado, presidida por Frank Church, que revelou excessos escandalosos da CIA, entre eles os planos de atentados contra líderes e governantes estrangeiros (saiba mais sobre ele e a investigação AQUI). A discussão levantada agora pelo NSArchive, com experiência relevante na utilização da Lei de Liberdade de Informação (FOIA), certamente é uma contribuição que ajudará o atual governo a cumprir as promessas sobre transparência.

Publicado em: on Junho 6, 2009 at 9:42 pm Comentários (2)

Alzheimer ainda esconde os crimes de Reagan

Reagan_Flynn

Há cinco anos acompanhei por dever de ofício (em meio à campanha presidencial que reelegeria George W. Bush) as homenagens a Ronald Reagan, que morrera depois daquilo que ele próprio, já paciente de Alzheimer, chamara de seu “longo adeus”. Foram sete dias de eventos solenes, menos relevantes pelo que se disse do personagem do que pelo que revelaram sobre os EUA e sua sociedade.SantaFeTrail

Na foto do alto, Reagan aparece – no papel de um ainda jovem George Armstrong Custer, o general celebrizado como matador de índios na ânsia de chegar à Casa Branca – no filme Santa Fe Trail, de 1940, ao lado do galã Errol Flynn como Jeb Stuart, companheiro de Custer em West Point e rival do amigo na disputa pelo coração de Olivia de Havilland (veja-os ao lado, na capa do DVD). Os dois são mandados ao território do Kansas para derrotar o abolicionista John Brown, retratado como vilão sedento de sangue (saiba mais sobre o filme AQUI).

No crepúsculo da vida, ao longo de sua última década, Reagan perdera gradativamente a memória e até a consciência da própria identidade – numa redoma, imune a críticas. Bem antes disso já havia suspeita de que confundia a realidade com seus filmes e a ficção de Hollywood.custer Os excessos derramados na semana de despedida me levaram na ocasião a recordá-lo não como a figura heróica e íntegra, mas como o Reagan real, diferente daquilo que ele próprio achava e, claro, do que seus adeptos ideológicos diziam dele.

Agora, como naqueles dias, talvez só concordemos todos num ponto: de fato, ele era um bom comunicador. Admito que estava certo ao dar esta resposta aos que uma vez acharam absurda a pretensão de um ator de tornar-se presidente: “Absurdo é alguém ser presidente sem ser ator”. Ironicamente, Reagan chegou à Casa Branca sem ter de matar índios: bastou-lhe viver na tela o papel de quem o fazia na esperança de chegar lá (o verdadeiro Custer é o da foto acima, à direita – saiba mais sobre ele AQUI).

Aquele galãzinho de segunda?

Ao contrário do que disseram dele há cinco anos e vão dizer de novo sexta-feira, data do aniversário da morte, não foi herói. Nem íntegro. Foi ator e sempre teve um script. Em Hollywood era galã do segundo time – abaixo de Errol Flynn, mocinho de Santa Fe Trail, que no final fica com Olivia de Havilland; ou de Robert Cummings, galã de Kings Row. Foi coadjuvante nesses dois filmes, como ainda no marcante Knute Rockne, All American.

Esses foram três filmes importantes na carreira dele. Num era o Custer jovem, antes da guerra civil e das matanças de índios. No segundo tinha a perna amputada por um médico sádico; e ao acordar da anestesia, fazia a pergunta que se tornaria o título de sua autobiografia: “Onde está o resto de mim?”Killers No terceiro, como o astro de futebol americano George Gipp (The Gipper), da equipe de Notre Dame, disse na cama, segundos antes da morte, a frase repetida à exaustão, anos depois, nas campanhas dele: “Ganhe uma para o Gipper”.

Num dos discursos eleitorais das homenagens de 2004, George W. Bush o elogiou por só interpretar good guys, bons sujeitos. Com isso Bush arriscou-se a perder os votos de atores de talento mais versátil, que também adoram viver bad boys na tela. Reagan de fato preferia ser bonzinho e galã, mas em seu último papel no cinema - The Killers, de 1964 (veja o cartaz à direita, onde o nome dele aparece atrás de três outros), foi bandido e mau caráter. Segundo Kirk Douglas contou em sua autobiografia The Ragman’s Son, Reagan nunca se conformou em ter de esbofetear Angie Dickinson numa cena. Mas depois desse filme, estava pronto para a carreira política.

O caráter e o desmemoriado

No dia-a-dia Reagan podia ser alegre e bem humorado. Uma ex-funcionária da Casa Branca contou na ocasião que sempre se sabia quando ele chegava – pelas risadas das pessoas nos corredores por onde caminhavaReagan_MCA. Mas é dificil acreditar na sacrossanta integridade dele, de que fala com ênfase sua ex-redatora de discursos Peggy Noolan no livro When Character Was King.

Em Caça às Bruxas – macartismo, uma tragédia americana, tentei resumir a história contada por Dan E. Moldea no livro Dark Victory – Ronald Reagan, MCA and the Mob (capa ao lado). Usando seu cargo de presidente do Screen Actors Guild, o sindicato dos atores de cinema, ele abriu uma exceção para permitir à MCA, então apenas agência de artistas, entrar no negócio da produção de filmes, claro conflito de interesses. Tal negociata marca o início da fortuna de Reagan, pois graças ao privilégio a firma acabaria tornando-se dona da Universal e um dos quatro grandes impérios de Holywood (saiba mais AQUI).

Chegaram a ficar depois sob controle da MCA (que ao nascer era ligada à Máfia) 60% de toda a indústria de entretenimento. O escândalo do favorzinho especial de Reagan, traindo a confiança dos filiados do sindicato, foi largamente recompensado nos anos seguintes. As relações promíscuas de Reagan com a MCA chegaram a ser investigadas depois, mas já então era muito tarde. E no Grande Júri que conduziu o inquérito ele se safou jurando que já não se lembrava de nada.

Foi também a falta de memória que o salvou na investigação do escândalo Irã-Contras. Ao depor, depois de deixar a presidência, a resposta de Reagan a quase 200 perguntas foi simplesmente a mesma: “Não me lembro”.FireWall_ Em Firewall, seu livro sobre a investigação do caso (capa ao lado), o promotor especial Lawrence Walsh disse que acreditou nele, pois Reagan de fato parecia esforçava-se para lembrar. Mas era impossível pois já estava com Alzheimer (saiba mais AQUI sobre o escândalo).

O dedo-duro T-10 no FBI

Também Colin Powell, que tinha trabalhado no Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca e há cinco anos ainda era secretário de Estado, sugeriu que Reagan já tinha a doença. “Começava a contar suas famosas histórias, que todos conhecíamos bem. De repente, não se lembrava do final. A gente ajudava e dava os detalhes que ele tinha esquecido”, disse Powell. Esse o presidente celebrado durante sete dias em 2004.

Santa_Fe_Trail_000960Mas outras coisas Reagan pode ter tentado convenientemente esquecer durante quatro décadas. Por exemplo, o detalhe de ter sido “dedo duro” do FBI, sob o codinome T-10 (Olivia de Havilland, a amiga que aparece ao lado com ele num fotograma de Santa Fe Trail, fazia a mesma coisa: era a T-9). Entregava nomes de atores que suspeitava de esquerdismo, numa época em que os delatados perdiam o emprego. Em certos casos isso podia gerar tragédias familiares e até suicídios. Só em 1988, numa entrevista à BBC, Reagan finalmente reconheceu ter tido esse papel indecente.

Como escondeu o fato durante tanto tempo (mais de 40 anos), supõe-se que não se orgulhava do que fez, ao Reagan_Cowboy_From_Brooklyn_trailerdelatar colegas de profissão. Mas se afinal admitiu a verdade também pode ter sido simplesmente porque já tinham sido revelados alguns documentos secretos do FBI, em processos com base na Lei de Liberdade de Informação, sugerindo que de fato ele fora alcaguete. Esse era o verdadeiro Reagan. (À direita, o ator em Cowboy from the Brooklyn)

Nas homenagens de cinco anos atrás, outros fatos esquecidos foram o apoio dele a ditaduras militares da América Latina, os banhos de sangue na América Central e a omissão ante o apartheid sul-africano. Faltou lembrar ainda o envio de fuzileiros em 1983 ao Líbano (241 foram mortos em atentado), a invasão dois dias depois da minúscula ilha de Granada (100 mil habitantes) no Caribe pela máquina de guerra do Pentágono, o ataque aéreo que matou a filha de 5 anos de Kadafi na Líbia, etc.

(clique abaixo para ouví-lo pedir, na cena dramática da sua morte no filme Knute Rockne, “mais uma vitória para o Gipper” – e depois, clicando em outras imagens, uma seleção de discursos e outros momentos de Reagan)

Publicado em: on Junho 4, 2009 at 12:22 am Comentários (4)

Cigarro & mídia: as relações perigosas

WorldNoTobaccoDay

Desculpem a desagradável imagem acima, alusiva à data de ontem, 31 de maio, declarada em 1987, pela Organização Mundial de Saúde (saiba mais sobre a ação dela AQUI), o Dia Mundial Sem Tabaco. A ilustração tem sua razão. Pesquisas mostraram que imagens como essa, já tornadas obrigatórias em alguns países nos próprios maços de cigarro, são eficazes para desencorajar o fumo e pressionar fumantes a abandonar o vício.

Há outras, menos agressivas, como a do cinzeiro com uma rosa vermelha (veja abaixo, à direita) mas sem a mesma força dissuasiva. Daí a indústria de cigarro, ao negociar acordos extra-judiciais (já firmados nos EUA com Procuradores Gerais de 46 estados), ter concordado com o pagamento de bilhões em indenização pelo custo das doenças causadas pelo fumo mas ir a extremos contra imagens nos maços que expoem o efeito letal de seu produto.Bluete_in_Aschenbecher

As imagens são a verdade que a indústria obstina-se em esconder. No passado – graças à cumplicidade das agências de propaganda e, em especial, da mídia – elas eram substituídas na tela da TV e nas páginas dos jornais e revistas pelos anúncios mentirosos segundo os quais cigarro é a receita do sucesso – e traz iates, mulheres, carros de luxo, etc.

A mídia não mudou mas agora parece cúmplice envergonhada. Nem por isso deu ao menos um mínimo de atenção à data mundial de alerta contra o cigarro – o que levou o New York Times, nos EUA, a publicar editorial vigoroso (leia AQUI) sobre como a indústria do fumo continua sua atividade fraudulenta, obcecada em contornar as proibições legais. A exceção no Brasil foi um texto do Valor Econômico dia 29 de abril, traduzido de Business Week, mostrando como a Philip Morris amplia a venda de cigarros em outros países, buscando compensar a perda nos EUA (leia AQUI).

Quando a saúde está em questão

Muita gente costuma recordar até a data em que decidiu abandonar o cigarro. Para uns, claro, é bem mais difícil do que para outros. Comigo aconteceu há 40 anos, quando era editor internacional da revista Fatos e Fotos, na editora Bloch. Éramos uma equipe pequena na cozinha da redação: Cláudio Mello e Souza (diretor), Leo Schlafman, Sérgio Augusto, Paulo Perdigão, Luis Lara Resende.

Na outra sala ficava a reportagem, chefiada por Ney Bianchi. Difícil lembrar todos os nomes, mas Carlos Castilho, Hedyl Valle Júnior, José Paulo Kupfer e Margarida Autran estavam entre eles. Na redação talvez todos fossem fumantes. A exceção podia ser Evaldo, contínuo com tamanha competência e tão elevado QI que Sérgio, cultor de Lee Falk e seu Fantasma, preferia chamá-lo de Lothar.Hollywood_1

Parei de fumar depois de ver uma reportagem na TV Tupi. Entrevistado, um médico pesquisador tinha sido convincente sobre os efeitos do cigarro. Talvez não passasse de um “recado” da emissora, então em declínio, à indústria, na busca de cota maior de anúncios. “Hollywood, o sucesso” era uma das campanhas na mídia – TV, rádio, jornais, outdoors, contra-capas de revistas (como Fatos e Fotos), etc.

Como estudioso da mídia, sempre me indignou suas relações promíscuas com os anunciantes. Às vezes, como no episódio da vacina obrigatória no Brasil, a mídia é leviana também por motivação política (de baixo nível), indiferente à saúde das pessoas. Naquela cobertura aliara-se ao obscurantismo, insuflando uma revolta popular, quando devia no mínimo ser informativa, esclarecedora – e responsável.

A Nestlé e a ameaça aos bebês

IBFANNo caso do cigarro as transnacionais do fumo devem largamente à mídia a façanha inacreditável de ocultar a verdade durante décadas – desde os anos 1940, quando já havia nos laboratórios da indústria provas conclusivas sobre os efeitos devastadores de seu produto. Assim, toda a culpa da indústria tem de ser estendida à mídia, sua cúmplice (com as agências de propaganda), por se vender a ela.

É semelhante, na história recente, o caso da cumplicidade da mídia com a Nestlé e outras corporações do mesmo ramo, empenhadas durante décadas – e para tanto, investindo fortunas incalculáveis – em campanhas enganosas de propaganda para forçar mães no mundo inteiro a trocar a amamentação dos filhos por seus produtos duvidosos e prejudiciais à saúde dos bebês, já que enfraqueciam as defesas deles.

A vitória da OMS (Organização Mundial da Saúde) e do Unicef (Fundo das Nações Unidas para as Crianças) contra a Nestlé e o lobby mundial do leite em pó também foi dificultada por causa das relações promíscuas da mídia com as corporações afetadas – em troca de propaganda. Só a duras penas a Nestlé, alvo principal, recuou e admitiu mudar ao menos o caráter de seus anúncios nocivos.

Como as duas organizações do sistema da ONU são de governos (sensíveis a pressão), foi necessário ainda um grande esforço de grupos não governamentais, como “Save the Children” e “International Baby Food Action Network” (IBFAN – saiba mais AQUI), alertando para o risco da troca da amamentação pela infant formula da Nestlé,IBFAN_2 que prejudicava os bebês, ampliando a mortalidade infantil nos países mais pobres.

Do boicote à liberdade individual

A idéia de um boicote mundial contra produtos da Nestlé foi lançada primeiro em 1974, com um panfleto na Inglaterra (título: “The Baby Killer”, o assassino de bebês). A Nestlé ganhou, após dois anos, o processo de injúria e difamação contra os responsáveis. Mas a vitória moral foi dos réus: tanto pela pena, uma multa irrisória, como pela afirmação do juiz de que a Nestlé devia, sim, mudar sua propaganda.

Depois do processo veio um grande boicote, iniciado em cinco países. Em 1978 o Senado dos EUA abriu investigação e no ano seguinte Unicef e OMS iniciaram o debate de um código com restrições à comercialização e à propaganda do leite em pó. Suspenso em 1988, quando a Nestlé aceitou o código, o boicote foi reativado depois, devido a violações da empresa. Até hoje persiste em alguns países. (Saiba mais sobre o boicote AQUI)

NoSmoking_signTanto em relação à Nestlé como ao cigarro, a cumplicidade da mídia é garantida pelas relações promíscuas da indústria com veículos. Além de embolsar milhões com a propaganda, os veículos ainda suprimem notícias contrárias aos interesses da indústria. E esta, ao se estender a outra área, de alimentos, não deixa de “premiar” com anúncios destes a mídia “compreensiva” com o cigarro, proibido de anunciar.

Provado em definitivo que o cigarro causa doenças graves e às vezes leva à morte, advogados da indústria tiraram outro coelho da cartola. Criaram grupos de defesa da “liberdade individual”: nasceu assim a imagem do fumante como “libertário” (ei-lo no cruel cartum abaixo) em luta contra o Estado opressor que reprime seu direito de fumar, mesmo para morrer – sem se dar conta, claro, de estar servindo aos que faturam com seu vício, não à liberdade.

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Publicado em: on Junho 2, 2009 at 12:37 am Comentários (4)

Os militares contra Cheney e a tortura

Petraeus_PhotoMichaelRuhl

Enquanto começa a perder gás a atual operação do conservadorismo republicano bancada pelo império de mídia de Rupert Murdoch (Fox News, etc), agora na obsessão de impedir a aprovação de Sonia Sotomayor para a Suprema Corte, vale voltar à operação anterior, na qual a mesma gente (Dick Cheney, Rush Limbaugh & o resto da turma) acusava o governo Obama de “enfraquecer” o país por repudiar a tortura.

Ironicamente, o golpe de misericórdia contra a conspícua ofensiva extremista liderada pelo vice de George W. Bush veio de personalidades respeitadas da própria área militar. Entre elas, a estrela maior, general David Petraeus (foto acima), o mais alto chefe do Comando Central dos EUA, exaltado pela direita republicana como herói desde que propôs – e liderou – o plano do reforço de tropas (surge) no Iraque.

Cheney_on_Fox_090421Quando destaco o império Murdoch não quero dizer que está sozinho em mais essa operação anti-Obama, pois outros veículos da mídia o acompanham. A FAIR (Fairness & Accuracy in Media), uma organização competente no monitoramento da mídia pela esquerda, citou frase do repórter Jonathan Karl, da rede ABC: “Dick Cheney parece estar em toda parte”. Como vice-presidente fora recluso, fugia da mídia, agora tornou-se “o mais visível dos republicanos”. (Leia AQUI)

Mesmo bancado ostensivamente pela mídia Murdoch, Cheney estava em tantos lugares ao mesmo tempo que ficava difícil deixar de vê-lo. A 15 de março na CNN (”State of the Union”), 20 e 21 de abril na Fox News (”Hannity”, foto acima, à esquerda), 10 de maio na CBS (”Face the Nation”), 12 de maio novamente na Fox News (”Your World” – foto abaixo, à direita). Tornara-se inescapável para quem ligasse a TV.Cheney_on_YourWorld_090512 E o tema central dele é sempre a tortura, que rebatizou com um eufemismo enganoso – enhanced interrogation.

Virar a página e voltar aos valores

Outra ironia sugestiva é o general Petraeus ter escolhido exatamente a Fox News de Murdoch para veicular suas declarações contrárias à tortura e favoráveis ao fechamento da infame prisão de Guantánamo. O chefe militar, mesmo tendo dito com todas as letras que os EUA violaram as convenções de Genebra, preferiu não ser explícito sobre qual fora a violação – o que não exigia maior imaginação dos que o ouviram. (Leia ainda AQUI sobre estupro e sodomia entre as vítimas da prisão de Abu Ghrabi)

Escrevendo sobre o assunto no Huffingtonpost.com, popular website político, o ex-capitão Jon Soltz, veterano da operação Iraqi Freedom (nome oficial da invasão do Iraque em março de 2003) reproduziu parte da entrevista de Petraeus a uma das múltiplas louras da Fox News (saiba mais AQUI e AQUI). Ela perguntou (repetindo o eufemismo de Cheney), como o inimigo reagiria se os EUA dissessem que não mais usariam tortura para arrancar confissões. Eis a resposta dele:

“Bem, eu faria outra pergunta. Perguntaria se isso não vai tirar de nossos inimigos um instrumento que já nos derrotou de novo aos olhos da opinião pública. Depois de termos adotado ações que violaram as convenções de Genebra, fomos criticados e com razão. Assim, o importante agora é virar a página e retomar nossos valores, voltar a cumprir e praticar os acordos internacionais que assinamos”.

Petraeus disse mais ou menos a mesma coisa que o presidente Obama afirmara em seu discurso sobre Guantánamo – ou seja, que os EUA têm de voltar a se conduzir conforme os princípios e valores que pregam. Vale a pena ouvir não só a palavra do chefe militar, mas ainda a ginástica posterior (spin, no jargão da Fox News) da loura obstinada em adaptar a palavra de Petraeus à ideologia do império Murdoch (clique abaixo para ouvir parte da entrevista).

“Os nossos erros, desde o 11/9”

A mesma coisa acontece ainda em relação ao fechamento de Guantánamo (Gitmo, codinome produzido pela burocracia do Pentágono, célebre por suas sopas de letras). O general Petraeus defendeu o fim da prisão, com o que até o presidente Bush já tinha concordado. Lembrou ainda que as práticas dessa prisão “foram usadas por nossos inimigos contra nós”. E reconheceu também que os EUA, a partir do 11/9, “cometeram tropeços e erros”.

Guantánamo, para ele, funciona como “uma lembrança persistente” de tais erros. Quando a loura de Murdoch invocou a hipótese com que a Fox tenta obsessivamente aterrorizar os americanos, de que ex-detidos da prisão infame saiam e circulem livremente nos EUA, Petraeus (foto abaixo) respondeu: “Em primeiro lugar, não acho que deviamos ter medo de praticar nossos valores. É por eles que lutamos, são eles que defendemos”.Petraeus_071231

A solução então, conforme recomendou, é ter confiança no sistema jurídico do país. “Precisamos ter certo grau de confiança de que os indivíduos que conduziram atividades extremas sejam de fato considerados culpados em nossos tribunais e não sejam libertados”. O militar deixou clara sua discordância dos que teimam (como Cheney, que aposta no medo – acrescento eu, AF) em bater nessa tecla ao invés de virar a página.

O retorno à retórica macarthista

Antes mesmo da entrevista de Petraeus a posição de outros militares e ex-militares – dos generais Wesley Clark (foto abaixo, à esquerda) e Paul Eaton a John Shalikashvili, Joseph Hoar e Hugh Shelton, já era essa, inequivocamente. Sem esquecer a resposta contundente dada por Colin Powell a Cheney e Rush Limbaugh. Todos eles tinham deixado claro que o conservadorismo republicano, que há anos se diz porta-voz dos militares, não fala por eles.

Clark_WesleyPara o colunista Jon Soltz, do Huffingtonpost.com, os republicanos abandonaram “os ideais que tornaram nossos militares fortes”. Nos dias atuais gente como Cheney, que tenta tomar o controle das mensagens, idéias, práticas e políticas do Partido Republicano, deixou de lado os antigos princípios e aliados, não mais opera a partir de posições morais elevadas.

Os excessos patrióticos de Cheney, falcão-galinha (chickenhawk) que fugiu do serviço militar e hoje torce por ação terrorista capaz de provar a “fraqueza” dos rivais democratas na defesa do país, dificilmente ajudarão os republicanos. Ao contrário, correm o risco de derrotar o partido que já foi de Joe McCarthy, zeloso caçador de bruxas que acusava os críticos de traidores e cúmplices do comunismo.

O ex-capitão Soltz concluiu com o testemunho de um veterano da contra-inteligência americana no Afeganistão, Jay Bagwell. Ao condenar a tortura, Bagwell contou ter visto detidos com panfletos que retratavam o que ocorria em Guantánamo, causa da adesão deles ao terrorismo. “Os EUA não podem ser um farol da liberdade, dos direitos humanos e respeito à lei se ignoram a lei internacional”, afirmou (clique na imagem abaixo para ouvir Bagwell). 

Publicado em: on Maio 30, 2009 at 7:50 pm Comentários (2)

Do Bronx para a Suprema Corte dos EUA

Sotomayor_Obama

Qualquer que seja o resultado final da votação no Senado, onde a atual maioria democrta é folgada, a juíza Sonia Sotomayor, de 54 anos (foto), indicada pelo presidente Obama para a Suprema Corte, já é uma vencedora, dona de carreira brilhante. Se aprovada, essa filha de portorriquenhos, criada num projeto público de habitação do Bronx de Nova York, será a primeira hispana a integrar o mais alto tribunal do país (saiba mais sobre ela AQUI).

O rigor intelectual e a formação jurídica dela foram citados pelo presidente Obama entre as razões da escolha. De certa forma, a própria oposição republicana tende a reconhecer tais qualidades. Pois foi isso o que fez o primeiro presidente George Bush, o pai, que a indicou em 1991 para juíza de um tribunal federal de Nova York, por sugestão do senador Daniel Moynihan.

Seis anos depois o presidente democrata Bill Clinton indicou-a para um Tribunal de Apelações em distrito de Nova York, onde a juíza Sotomayor ainda serve. Os antecedentes dela são exemplares, como observou o senador Patrick Leahy. Formada na Escola de Direito da Universidade de Yale, foi editora do Yale Law Journal, depois trabalhou no escritório do promotor Robert Morgenthau e exerceu a advocacia.

Uma rica experiência de vida

A confirmação de Sotomayor para a vaga de David Souter não significaria, em princípio, uma mudança no atual perfil ideológico do tribunal. Apesar de ter sido nomeado por um presidente republicano (o primeiro George Bush), Souter integrou-se na Suprema Corte à bancada liberal – da qual tem sido uma das mais vozes liberais mais atuantes (saiba mais sobre Souter AQUI). E há exemplos de outros juízes que mudaram o rumo como ele. 

Sotomayor_SoniaApesar da leve vantagem atual para os conservadores, ainda existe certo equilíbrio na Suprema Corte. Mas a juíza Sotomayor (foto ao lado) levaria para o tribunal, além de seus largos conhecimentos jurídicos, uma rica e singular experiência de vida. “É exatamente essa a combinação que o tribunal está precisando encontrar em seu próximo integrante”, declarou o senador novaiorquino Chuck Schumer.

Depois de ter seu nome anunciado por Obama ontem, no salão leste da Casa Branca – onde a mãe da juíza, Celina Sotomayor, não escondia a emoção e as lágrimas – a indicada declarou publicamente sua gratidão à pessoa a quem acha que mais deve, pois a criou sozinha depois da morte do pai. “Tudo o que sou devo a ela. E sou apenas a metade da mulher que ela é”.

Sem previsão de confrontos

Roberts_Sotomayor_GWUA juíza Sotomayor, na verdade, até já funcionou ao lado do atual presidente da Suprema Corte, John Roberts (como mostra a foto à esquerda). Foi num julgamento constitucional simulado – o Supreme Moot Court – na Universidade George Washington, no verão de 2006. A competição, que atraiu mais de 1500 alunos e membros da faculdade (a maior platéia em 50 anos de história do evento), teve Roberts e Sotomayor como julgadores dos concorrentes (saiba mais AQUI).

A vantagem dos democratas, que têm 60 dos 100 votos do Senado, seria suficiente para impedir até uma tentativa de obstrução pela bancada republicana, que promete por enquanto ser justa na avaliação de Sotomayor. A moderada Olympia Snowe declarou-se satisfeita pela indicação de uma mulher altamente qualificada e disse que avaliará cuidadosamente os antecedentes da escolhida.

Embora tenham sido tranquilas as aprovações de John Roberts (atual presidente) e Samuel Alito, ambos indicados pelo presidente George W. Bush, no passado recente as audiências sobre Abe Fortas para a presidência do tribunal (governo Johnson), Robert Bork (governo Reagan) e Clarence Thomas (governo Bush I) tornaram-se episódios conturbados que dividiram o país. Desses três, só Thomas foi aprovado.

Publicado em: on Maio 26, 2009 at 8:02 pm Deixe um comentário