O blog do Nassif tem seu Ubaldo paranóico, inspirado no personagem do Henfil. Poderia esconder-se debaixo da cama mas ao invés disso prefere desautorizar teorias conspiratórias. E, com razão, não se conforma com o boato selvagem na internet de que o excelente livro Quem pagou a conta? – A CIA e a guerra fria da cultura, de Frances Stonor Saunders, prova que o Cebrap de FHC foi financiado pela CIA usando a Fundação Ford (FF).
O que me surpreendeu ao ser lançada a tradução brasileira desse livro, bem pesquisado, bem escrito e bem editado, foi o atraso de quase 10 anos no lançamento (minha edição em inglês é de 1999). Na ocasião, 2008, escrevi sobre o assunto, na Tribuna da Imprensa. Mesmo sem qualquer simpatia pelo PSDB ou pelo governo FHC, para mim estava claro que a FF, largamente citada, não era apontada ali como tendo canalizado dinheiro da CIA para grupos ou instituições no Brasil. O livro sequer levanta suspeita de que o Cebrap recebeu verbas da espionagem via FF.
A denúncia veio de alguém que fez a seguinte ilação: 1. o livro diz que a Fundação Ford era uma das instituições que canalizavam secretamente dinheiro da CIA para a área cultural, sem deixar impressões digitais da agência (o que é verdade);
2. o Cebrap tinha recebido recursos da Fundação em 1969 (o que é verdade); 3. logo, o Cebrap recebera dinheiro da CIA.
Ora, o Brasil e o Cebrap (ou FHC) não entraram na pesquisa de Saunders. O que a autora devassou pacientemente, com base em documentos até então protegidos pelo sigilo, foi o amplo esquema de corrupção – com verbas secretas via fundações legítimas ou entidades fantasmas – de intelectuais e instituições culturais. A CIA montou o esquema principalmente a partir do CCF (Congresso pela Liberdade Cultural), notório instrumento anticomunista da agência na guerra fria.
A ameaça vermelha e a caça às bruxas
Saunders documentou sistematicamente o que afirma. Antes já se sabia alguma coisa. Em 1989 fiz muitas referências, no livro Caça às Bruxas – Macartismo, uma tragédia americana,
à ação secreta da CIA na área cultural e a intelectuais que se somaram à histeria da “ameaça vermelha”, como Irving Kristol, Gertrude Himmelfarb, Norman Podhoretz, Midge Decter, Sidney Hook, Stephen Spender, etc.
Famílias até então respeitadas no meio cultural faturavam bom dinheiro, sabendo ou não que vinha da CIA. Muita gente jurou depois que ignorava a origem – já que às vezes a fonte real não era identificada. O escândalo estourou em 1967, graças a denúncia da revista Ramparts (mais sobre ela AQUI, AQUI e AQUI), da nova esquerda, então perseguida de forma implacável pela CIA. O mérito de Saunders foi mergulhar posteriormente nos papéis secretos liberados e apurar toda a trama.
O título original do livro é quase o mesmo do Brasil, Who paid the piper? – The cultural cold war: the CIA and the world of arts and letters. Mas a autora concentrou-se nos nomes da cultura norte-americana e européia cooptados pela espionagem na guerra fria cultural – por sinal,
muitos sobrenomes reapareceram no movimento neoconservador infiltrado no governo de George W. Bush.
Bill Kristol, filho do casal Irving Kristol-Gertrude Himmelfarb é um deles: foi o primeiro, na capa da revista política Weekly Standard (do império Murdoch de mídia), da qual é editor, a exigir a invasão do Iraque depois do 11/9. O pai dele, Irving, que criou o “neoconservadorismo”, dirigia a principal revista de cultura inventada às escondidas pela CIA, a internacional Encounter, de confecção esmerada – e muito respeitada, até se descobrir quem a financiava (mais sobre ele AQUI).
O dinheiro fácil da “OTAN cultural”
Claro que não excluo a hipótese de ter a Fundação Ford repassado verbas da CIA ao Cebrap em 1969, como alguns alegam. Mas o período coberto pelo livro só vai de 1950 a 1967 – ano da denúncia de Ramparts (veja abaixo uma de suas capas mais vigorosas e conheça outras AQUI), que provocou mudanças nos projetos “culturais”. Assim, a suposta conexão CIA-FF-Cebrap nunca foi objeto do estudo de Saunders, por estar fora tanto daquele período como da área geográfica coberta (EUA-Europa).
Chamou-se a isso “OTAN cultural” (e “contenção cultural”). Só incluía EUA e os aliados do Tratado do Atlântico Norte na guerra fria. América Latina não. Saunders devassou em especial a “família mundial das revistas” do CCF: a nobre Encounter, sediada em Londres, Partisan Review, Kenyon Review, Hudson Review, Sewanee Review, Poetry, The Journal of the History of Ideas, Daedalus.
Esse supermercado de compra e venda de idéias, cultura e intelectuais foi criado pela CIA mediante uma teia de organizações, algumas criadas especificamente para esse fim por espiões como o mefistofélico C. D. Jackson, especialista em guerra psicológica que reinou um tempo no grupo Time-Life e foi assistente especial do presidente Eisenhower (fazia a ligação entre Eisenhower e a CIA).
Saunders mergulhou nesse submundo com competência e talento, daí minha estranheza quando alguém alega ter desistido de ler o livro ao verificar que não se referia ao Cebrap de FHC. Ora, a história é fascinante: expõe a receita para corromper intelectuais. Até ideológicos de esquerda, como certos trotskistas, que adoraram a chance de atacar Stalin e ainda serem bem pagos para isso.
A América Latina, fora da jurisdição, passou a interessar só depois de Fidel Castro chegar ao poder. De qualquer forma, Saunders fala brevemente do hemisfério sul no capítulo 21, “Caesar of Argentina”, com informações tímidas. O poeta Robert Lowell ganhara do CCF passagem (de navio) para vir à América do Sul (sua amiga Elizabeth Bishop estava no Rio, certamente na casa de Lotta Macedo Soares).
A controvérsia da revista Mundo Nuevo
Cabia a Keith Botsford, que por três anos representou o CCF na América Latina, com base no Rio, uma mal-disfarçada tarefa de espionagem. Ele avisou seu superior John Hunt que para os intelectuais brasileiros a entidade era “instrumento ianque”, por isso seria melhor o CCF tornar-se mais discreto, modesto e até “invisível”, só dando apoio a projetos que tivessem forte respaldo local.
Hunt discordou. Advertiu Botsford de que nenhuma área do mundo devia ser negligenciada na heróica luta contra o comunismo ateu. O CCF estava em plena campanha para impedir que se desse o prêmio Nobel a Pablo Neruda. Depois, em meio às intrigas da guerra cultural em 1963-64, aconteceu o pior:
o Nobel não foi para o poeta chileno mas para Jean Paul Sartre, alvo prioritário do CCF – e Sartre o recusou.
Estranho, para mim, foi Saunders não ter citado no livro a Mundo Nuevo, revista de cultura latino-americana editada em Paris com dinheiro da CIA – via CCF e outras fundações, para ocultar a fonte real dos recursos. Na década de 1960 comprei alguns números em livraria do Rio. Num deles li Gabriel Garcia Márquez (foto ao lado) pela primeira vez – um trecho extraído do até então inédito Cem Anos de Solidão.
Sempre quis saber mais sobre Mundo Nuevo. Só recentemente encontrei afinal uma dissertação acadêmica (Universidade do Texas, Austin, 2007, 260 páginas) do americano Russell St. Clair Cobb. Título: “Mundo Nuevo”, a revolução cubana e a política da liberdade cultural (leia em inglês AQUI e saiba mais AQUI). O autor cita o patrocínio da CIA (via CCF), exalta a qualidade da revista e discorda dos que subestimam o papel da espionagem.
Mundo Nuevo, segundo Cobb, “publicou ensaios, entrevistas e ficção de autores como Garcia Márquez, Carlos Fuentes e Guillermo Cabrera Infante. Tornou-se motivo de controvérsia ao ser descoberta a ação oculta da CIA”. Atacada pelos intelectuais cubanos como “propaganda imperialista” dos EUA, foi defendida por seu diretor, Emir Rodríguez Monegal. Alegou ele tratar-se de “uma revista de diálogo”.
“O bastião contra a revolução cubana”
Ficou difícil, para Monegal (foto ao lado), convencer outros de que a revista era “desinteressada e sem compromisso político”. Como fica claro hoje no material dos arquivos do CCF, afirmou Cobb, Mundo Nuevo foi criada na guerra fria cultural “para ser um bastião contra a revolução cubana. Usava a retórica da literatura descomprometida e cosmopolita para se contrapor ao modelo revolucionário da literatura engajada”.
Não se deve perder de vista que ao esconder obsessivamente seu papel mediante artifícios e canais de lavagem de dinheiro a CIA implicitamente reconhecia a imoralidade de sua intromissão para “dirigir” o debate cultural. Já o caso Cebrap-FHC é outra coisa, pois em 1969 o escândalo já tinha forçado a espionagem, que antes usava a FF como canal, a no mínimo mudar os truques na área cultural.
Se alguém acha que dinheiro canalizado pela FF para o Cebrap vinha mesmo da CIA, terá de fazer sua própria pesquisa para provar. A fundação foi criada de certa forma para melhorar a imagem da família (e da indústria), prejudicada pelo anti-semitismo do primeiro Henry Ford.
Ultimamente é alvo à esquerda e à direita. Se não me engano, até Henry Ford II a criticou uma vez por desvio anticapitalista.
A FF de fato prestava-se à espionagem, num papel sujo, legitimando o que se fazia num período vergonhoso da sociedade americana – o da caça às bruxas. Mas teve também outro papel. Financiou o grupo Fund for the Republic, no projeto da primeira grande pesquisa a expor a caça às bruxas e as listas negras no cinema e no rádio – o que resultou, em 1956, nos dois volumes de Report on Blacklisting, de John Cogley (capa ao lado).




























O objetivo maior da comunidade internacional era deixar claro na América Latina com seu passado marcado por golpes militares (em geral teleguiados dos EUA e quase sempre acompanhados pelo respaldo americano, com desembarque de tropas ou a ameaça de fazê-lo) que tais práticas não serão mais toleradas no continente – e que o golpismo será sistematicamente repudiado.
Será que diante da pressão internacional a tal maioria, tão golpista como Micheletti, teve uma epifania?
Mas na crise de Honduras, apesar do papel conspícuo de Shanon e Llorens nas últimas semanas, os EUA optaram por dar mais espaço à OEA. E cabe neste momento à uma Comissão de Verificação, criada no acordo assinado pelas partes, acompanhar através da americana Hilda Solis e do chileno Ricardo Lagos (foto à esquerda) o cumprimento de cada uma das cláusulas.
de revelar num prolixo livro de memórias (Fidel y Raúl, Mis Hermanos – La Historia Secreta, 432 páginas – capa ao lado), ter sido agente da CIA, central de espionagem dos EUA, graças à diplomacia brasileira.
Mas voltemos à diplomacia. Como chefe da missão do Brasil, o embaixador Leitão da Cunha (foto à esquerda) recebera Juanita como asilada em 1958, ainda no governo JK. Ela alegara correr risco por ser irmã de Fidel, então líder dos guerrilheiros que lutavam contra o ditador Fulgencio Batista. Vitoriosa a revolução no primeiro dia de 1959, ela deixou a embaixada. E em 1961, depois do fracasso (em abril) da invasão da CIA (na baía dos Porcos) a embaixatriz Virginia Leitão, ciente da atividade dela contra o governo revolucionário do irmão, chamou-a para uma conversa. E sugeriu que passasse a colaborar “com uns amigos que conhecem seu trabalho (contra o governo) e querem ajudá-la”.
O mesmo livro que fizera (em 1975) a primeira referência à relação de Juanita com a CIA também registrara que no Uruguai, na década de 1960, o embaixador brasileiro Pio Corrêa atuara como espião da CIA.
Mas os segredos do Itamaraty, ao contrário, parecem intocáveis. No seu livro de memórias, O mundo em que vivi (capa ao lado) o próprio Pio Corrêa (foto abaixo, à direita), ao negar perseguição a Vinícius de Moraes (que se desligou, alega ele, num acordo amistoso) vangloriou-se de ter demitido “pederastas”, “vagabundos” e “bêbados”. Houaiss e João Cabral já eram perseguidos antes da ditadura, como alvos de campanha macarthista liderada, ainda no início da guerra fria, pela Tribuna da Imprensa ao tempo de Carlos Lacerda, que os denunciava como subversivos em manchetes de primeira página (mais sobre esse período
Seria no mínimo saudável arejar esse passado recente e não perpetuar o sigilo. O Itamaraty foi suspeito antes de ocultar seus erros e ainda os gastos elevados, como se fosse uma caixa preta. O fato de alguém como Virginia Leitão da Cunha – cujo marido ocupou altos cargos, foi até ministro do Exterior da ditadura – ter atuado como espiã a serviço de potência estrangeira, dentro da embaixada brasileira, e recrutado agente para serviço de espionagem de outro país, é vergonha que tem de ser exposta à execração pública, para o exemplo nunca ser seguido. E se deixar de ser feita coisa parecida em relação aos Pio Corrêa da vida, a impunidade funcionará como estímulo no futuro ao mesmo comportamento deprimente – que revela subserviência e rebaixa a qualidade de nossa diplomacia.
Pergunto, em primeiro lugar, se jornalisticamente aquela reuniãozinha de adolescentes bem nascidos merece tal espaço na mídia nacional (veja-os na foto do alto e observe ao lado, na reprodução da página, o destaque que ganharam). Que diabo, como filhos do privilégio representam muito menos do que, por exemplo, um grupo de adolescentes sofridos do Nordeste, tão afetados como eles pelo adiamento da prova do Enem – o pretexto invocado em O Globo.
Para o jornalista Ali Kamel (foto ao lado), guardião zeloso da doutrina da fé empenhado em uniformizar o discurso ideológico nos veículos do império Globo, “não somos racistas” no Brasil. A partir dessa tese nossa elite rejeita em nome da igualdade racial quotas destinadas a favorecer o ingresso na universidade de não brancos – talvez para perpetuar os privilégios atuais até o final dos tempos.
(veja-o à direita, clamando na manchete contra a lei em debate e que poderá criar punição para a irresponsabilidade e abusos da mídia), submisso aos generais do banho de sangue na Argentina – de estar entre as maiores corporações de mídia do continente, todas premiadas pelos algozes da democracia e pelos interesses externos porque sempre ficaram contra as causas nacionais dos respectivos países. Ditadores sanguinários como Videla e Pinochet (foto abaixo, à esquerda), foram heróis do Clarín e El Mercurio, como Castello, Costa e Silva, Médici, Geisel e Figueiredo eram os de O Globo (saiba mais
Como Chagas, também o presidente da União Brasileira de Estudantes Secundaristas (UBES), Ismael Cardoso, tentou informar ao império Globo de mídia (jornalões, TVs, rádios, revistas & penduricalhos) que as entidades realmente representativas dos estudantes há muito debatem a questão do Enem e até fizeram críticas à pressa das autoridades na implantação da nova prova – pressa que pode ter contribuído para o vazamento.
“O direito internacional é claro: a imunidade soberana não pode ser violada. As ameaças ao pessoal da embaixada e suas dependências são intoleráveis. O Conselho de Segurança condenou tais atos de intimidação. Eu o faço também – e nos termos mais vigorosos”.
A obsessão dela, do primeiro dia até este momento, tem sido condenar o governo Lula e defender os golpistas. Pior: defendê-los como “democratas”.
A partir das declarações feitas no Brasil à mídia golpista por diplomatas aposentados que serviram ao governo FHC, ficou claro que a crise de Honduras, na qual o Brasil foi empurrado para um papel que teria preferido evitar mas do qual não podia fugir, expôs o contraste entre a diplomacia covarde do passado (da omissão e da submissão) e a mudança de qualidade do Itamaraty no atual governo.
De um grupo de jornalistas, só uns quatro tivemos paciência de esperar a saída dele de uma reunião com a então secretária de Estado Madeleine Albright. O da Rede Globo pediu-nos que o deixasse ser o primeiro a perguntar, devido a horário de transmissão de satélite. Concordamos. Lampreia chegou, ouviu e respondeu à pergunta dele. Mas fechou a boca e foi embora ao ver apagar-se a luz da Globo.
então no terceiro escalão do Departamento de Estado. Sub-secretário para controle de armas, ele viajou em 2002 à Europa e exigiu a renúncia do brasileiro José Bustani, diretor da Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ).