
Quando o recém-empossado ditador de Honduras, Roberto Micheletti, principal beneficiário até agora do golpe militar que depôs o presidente legítimo Manuel Zelaya (foto abaixo, à esquerda), eleito pelo voto popular, decidiu mandar às favas a OEA (Organização dos Estados Americanos), pode ter dito algo que muitos gostariam de ter ouvido, no passado, de presidentes latino-americanos: “Vá para o inferno. Não precisamos de vocês”. (Mais sobre o golpe AQUI e AQUI)
No quadro continental, seria um avanço se tivesse ocorrido há algum tempo, pois nenhum país abaixo da fronteira EUA-México precisava de uma organização cujo papel consistia em subordinar a América Latina e o Caribe aos interesses políticos e econômicos de Washington. A diferença é a OEA, que em 1965 legitimou com tropas a invasão da República Dominicana pelos EUA, ter passado a rejeitar os golpes e invasões (mais sobre a invasão AQUI).
Cúmplice da prepotência dos EUA em 1965, ela foi omissa ou apoiou a derrubada de governantes escolhidos pelo povo e tirados por militares golpistas – mau hábito iniciado com a Guatemala em 1954 e que ainda incluiria o cone sul, Brasil (64), Uruguai (72), Chile (73) e Argentina (76), sem falar nos banhos de sangue da política ensandecida de Ronald Reagan na América Central. A conversão da OEA à democracia exigiu décadas.
Doutrina Monroe e outras torpezas
Antes a organização era instrumento conveniente a que recorriam sucessivos governos dos EUA na tentativa de legitimar suas invasões e intervenções militares. Servia tanto para consolidar os golpes como para levantar o ego dos ditadores amigos – os Somoza, Duvalier, Trujillo, Batista, Perez Jimenez, Stroessner, etc, para não falar nos muitos regimes submissos, das bananas da América Central ao petróleo da Venezuela.
No passado mais remoto o temor à independência das colônias espanholas já tinha levado os EUA a ignorar o sonho de Simon Bolivar e inventar a infame doutrina Monroe – outro pretexto para intervenções.
Nascida em 1948, a OEA tornou-se ainda executora do igualmente infame TIAR (Tratado Inter-Americano de Assistência Recíproca), filhote da guerra fria, que a ela atrelou o continente em 1947.
Pelo menos um diplomata americano – William D. Rogers (foto à direita – e saiba mais sobre ele AQUI), então respeitado como especialista em problemas latino-americanos – teve certa vez o bom senso de recomendar a saída dos EUA da OEA, por achar que isso a fortaleceria ao permitir que se concentrasse nas questões regionais legítimas, “os interesses comuns das nações da América Latina”. Rogers explicou ainda:
“A medida poria fim à acusação de que a OEA é dominada pelos EUA. Permitiria ainda aos EUA terem na organização o mesmo status atual de observador mantido pelos países europeus. Além disso, seria como um exemplo aos soviéticos e à Europa Oriental. E nós abriríamos mão de nossos esforços penosos e às vezes até ridículos para manter ali um ‘perfil baixo’ para o nosso país enorme”.
Uma escola para formar golpistas
Aquela opinião de Rogers, que morreu em setembro de 2007, foi manifestada em 1973. Ele poderia ter feito alguma coisa em relação à OEA, pois em seguida à renúncia do presidente Nixon (1974) foi chamado (no governo Ford) pelo secretário
Henry Kissinger (ao lado, numa foto da época) para o Departamento de Estado, onde se tornou secretário Assistente para Assuntos Interamericanos e sub-secretário para assuntos econômicos.
Kissinger e Gerald Ford não deviam simpatizar com a idéia de Rogers – e este, por sua vez, aproximou-se demais do ex-secretário de Estado nos anos seguintes, como sócio e vice-presidente no rendoso escritório de consultoria Kissinger Associates. A ponto de defendê-lo na controvérsia em torno de um dos crimes nefandos dele, a ingerência americana a favor do golpe de setembro de 1973 no Chile, único país que defendera antes a saída dos EUA da OEA (mais AQUI, AQUI e AQUI sobre a controvérsia e a crítica devastadora do historiador Kenneth Maxwell a Kissinger e Rogers).
O empenho de sucessivos governos dos EUA para manter o controle da OEA, cuja sede fica a poucas quadras da Casa Branca, foi outro obstáculo à idéia. Embora a dominação escandalosa faça ainda menos sentido depois da guerra fria, vale citar mais ações e instrumentos usados pelos EUA para impor a dominação –
como a infame Escola das Américas (School of the Américas, SOA) do Exército dos EUA.
Ao invés de fechá-la depois de sucessivos escândalos envolvendo militares da América Latina formados ali (muitos viraram ditadores, torturadores ou chefes da espionagem), o Pentágono optou apenas por trocar o nome dela. Rebatizou-a como Instituto do Hemisfério Ocidental para Cooperação de Segurança – ou, em inglês, Western Hemisphere Institution for Security Cooperation (WHINSEC – veja seu logo acima).

O embaixador, o general e os ditadores
Com nome tão extenso e sigla tão difícil de decifrar, o Pentágono achou que mal seria notada. Mas opositores que monitoram a atividade dela (como o “School of the Americas Watch”, SOAW – conheça seu website AQUI) mantêm vivos o nome, a vigilância e o passado sinistro da SOA, por onde passaram ditadores conspícuos (Leopoldo Galtieri, o da foto ao lado; Efraín Rios Montt, Hugo Banzer, Manuel Noriega) e até terroristas (como Posada Carrilles, cubano de Miami).
Dentro dos EUA, grupos religiosos e outros não esquecem as vítimas torturadas ou mortas em vários países por alunos da escola. Desde 1990 renovam protestos a cada ano em Ft. Benning, Georgia, onde a escola continua a funcionar sob o atual disfarce de WHINSEC. Os protestos são em novembro, mês no qual 27 militares de El Salvador (19 formados na SOA) assassinaram seis padres jesuítas em 1989.
Em Honduras, de onde o governo Reagan – ali representado pelo embaixador John Dimitri Negroponte, o da foto à esquerda (mais sobre ele AQUI e AQUI) – lançou sua guerra secreta, dos “contras”, na década de 1980, contra a Nicarágua, o homem-forte era o general Gustavo Álvarez Martínez, um ex-aluno da SOA que criou o 316° Batalhão de Inteligência Militar, responsável por assassinatos políticos, torturas, cadeias secretas e outras atrocidades (mais sobre os crimes de Álvarez e dos militares hondurenhos AQUI e AQUI).
Assassinado em 1989, o general Álvarez – símbolo do momento em que o país era uma espécie de porta-aviões para as agressões dos EUA a vizinhos da região – ainda parece, com sua carreira sinistra, o exemplo para os atuais militares hondurenhos. Formado na SOA, ligou-se ainda à Argentina dos generais e frequentava as folhas de pagamento da CIA e da United Fruit (hoje Chiquita Brands). E obedecia a Negroponte.
(Em recente manifestação de racismo na política do sul, uma assessora da senadora estadual Diane Black, republicana do Tennessee, enviou por email a outros senadores o quadro acima com os 43 presidentes brancos, de Washington a Bush II, seguidos por quadrado negro com dois olhos esbugalhados – Barack Obama. Pouco antes Rusty DePass, autoridade republicana da Carolina do Sul, tinha feito por escrito o seguinte comentário sobre a fuga de um gorila do zoológico: “Tenho certeza de que é um ancestral de Michelle Obama, provavelmente inofensivo”)
Na composição atual da Suprema Corte o bloco conservador tem leve vantagem (5×4). Mas mesmo depois de tantos prefeitos e governadores negros, inclusive no sul, e de já ter o país um presidente negro na Casa Branca, até juízes conservadores do tribunal mais alto ainda vêem racismo, ao contrário de ideólogos do jornalismo da elite branca brasileira, como Ali (“não somos racistas”) Kamel, que negam a realidade.
O que mudou o quadro, em meio ao trauma criado pelo assassinato do presidente Kennedy em Dallas (no Texas, um daqueles 11 estados) foi a aprovação em 1965 da Lei de Direito de Voto. Ela criou, após 100 anos, um novo quadro político nos estados do sul: o Partido Democrata passou a acolher os negros e o Republicano a receber a elite branca (e racista) descontente e inconformada com a nova lei.
John Roberts (na foto com Bush, que o nomeou), o atual presidente da Suprema Corte, inclinava-se agora a acolher a pretensão de Austin. E o teria feito se o juiz Anthony Kennedy e talvez Samuel Alito, conservadores como ele, não discordassem.
Para a professora Karlan, Roberts primeiro tentou, sem conseguir, forjar uma maioria capaz de destruir inteiramente a seção 5 da lei. O que a decisão indica, conforme ela observou em entrevista (citada por Dionne), é que o bloco conservador do mais alto tribunal do país foi incapaz de garantir os cinco votos necessários. Assim, teve de se contentar com uma solução de compromisso.
(Apesar do “desacordo momentâneo” entre Brasil e AIEA, o diretor geral dessa agência – Mohammed El Baradei, em fim de mandato – conviveu bem com Celso Amorim, citado em boatos no Brasil como atraído pelo cargo dele na ONU)
(Apesar disso, o secretário geral da ONU, Ban Ki-moon, acredita ser este um bom momento para EUA e Rússia reduzirem suas ogivas nucleares – leia
Quem acompanha as páginas internacionais sabe que no Iraque, antes da invasão de Bush, a CIA usava a UNSCOM, equipe de inspeção da ONU – primeiro chefiada pelo sueco Rolf Ekeus (até 1997), depois pelo australiano Richard Butler (1998) para espionar. O inspetor Scott Ritter (foto ao lado), ex-fuzileiro dos EUA e veterano da guerra do Golfo, criticou os dois, acusando-os de aceitarem o jogo da CIA (leia mais
Quem dava a entrevista era o embaixador Gregory Schulte (foto à esquerda), que representava os EUA não no Brasil mas na AIEA e outros organismos com sede em Viena (leia entrevista dele
(O anúncio acima, no website Liberty Counsel, convida quem se orgulha de ser extremista de direita a enviar doações pela internet)
Aparentemente os excessos dos talk shows de Murdoch preocupam também alguns jornalistas da casa. A vítima do primeiro dos ataques terroristas, em maio, foi o médico de uma clínica de aborto do Kansas, George Tiller, assassinado por um fanático da direita religiosa (saiba mais 
Para O’Reilly, seus críticos são “odiadores da Fox”: defendem a vítima, indiferentes à sorte de 60 mil fetos supostamente destruídos por Tiller. Ele jurou, ao mesmo tempo, nunca ter usado as expressões ofensivas ao médico. Mas o site Media Matters for America, ativo no monitoramento da mídia, relacionou as datas (foram dezenas) nas quais o dr. Tiller foi acusado daquela forma (confira 
O objetivo maior do DHS fora alertar os departamentos de polícia – e demais órgãos encarregados de fazer cumprir a lei – para a ameaça real do extremismo de direita.
Tratar com leviandade a morte de dr. Tiller e o ataque ao museu em Washington é um risco, como perceberam Smith e Herridge. Os bandos de direita talvez prefiram ser tratados como piada, mas são reais. Mais sensato é não subestimá-los. Até porque, com base naquele alerta do DHS, o grupo Liberty Counsel (conheça-o 

O presidente até chamou seu secretário de imprensa Robert Gibbs e o alto conselheiro David Axelrod para mostrar a semelhança 
Quem está à direita de Colby na foto é seu então adjunto e vice-diretor da CIA, general Vernon Walters, em parte premiado com esse cargo pelos bons serviços prestados em favor do sucesso em 1964 do golpe militar que pôs fim à democracia no Brasil (ele conseguiu também instalar como primeiro dos cinco presidentes dos 20 anos de ditadura, o amigo Humberto de Alencar Castello Branco). Os demais são (não nesta ordem) o secretário-executivo do USIB, representantes dos departamentos de Estado, do Tesouro, do FBI (Justiça), da AEC (Comissão de Energia Atômica), da DIA, da NSA e da Inteligência do Exército, Marinha e Força Aérea.
A coisa funciona mais ou menos assim: alguém (pessoa ou entidade privada, como a o NSArchive) solicita a liberação de papéis e informações (no jargão da espionagem, “desclassificação”), às vezes de décadas atrás, sobre ações ou operações ainda sob a proteção do sigilo. A tendência das agências de espionagem (CIA, DIA, NSA, etc) é sempre dizer um sonoro “não”. Ou porque coisas feitas no passado, mesmo remoto, acabam por gerar questionamentos fundamentados em critérios novos, a partir do que veio depois, ou mesmo porque entre os segredos há ações equivocadas e erros graves de avaliação das próprias agências, que elas preferem esconder do público.
Tais exemplos da CIA, para o NSArchive, indicam que as regras e regulamentos que sustentam o sistema de sigilo permitem às agências de inteligência, em especial a CIA, continuar impondo os padrões estreitos de uma forma irracional. A aparência é de que a comunidade dos espiões ainda mantém, graças às leis em vigor, o poder de impor o véu do sigilo sobre partes relevantes de sua própria história. A promessa de transparência do governo Obama vai esbarrar ainda numa ordem executiva recente, assinada pelo presidente George W. Bush, que praticamente deu poder de veto à CIA sobre as próprias decisões do ISCAP.

Os excessos derramados na semana de despedida me levaram na ocasião a recordá-lo não como a figura heróica e íntegra, mas como o Reagan real, diferente daquilo que ele próprio achava e, claro, do que seus adeptos ideológicos diziam dele.
No terceiro, como o astro de futebol americano George Gipp (The Gipper), da equipe de Notre Dame, disse na cama, segundos antes da morte, a frase repetida à exaustão, anos depois, nas campanhas dele: “Ganhe uma para o Gipper”.
. Mas é dificil acreditar na sacrossanta integridade dele, de que fala com ênfase sua ex-redatora de discursos Peggy Noolan no livro When Character Was King.
Em Firewall, seu livro sobre a investigação do caso (capa ao lado), o promotor especial Lawrence Walsh disse que acreditou nele, pois Reagan de fato parecia esforçava-se para lembrar. Mas era impossível pois já estava com Alzheimer (saiba mais
Mas outras coisas Reagan pode ter tentado convenientemente esquecer durante quatro décadas. Por exemplo, o detalhe de ter sido “dedo duro” do FBI, sob o codinome T-10 (Olivia de Havilland, a amiga que aparece ao lado com ele num fotograma de Santa Fe Trail, fazia a mesma coisa: era a T-9). Entregava nomes de atores que suspeitava de esquerdismo, numa época em que os delatados perdiam o emprego. Em certos casos isso podia gerar tragédias familiares e até suicídios. Só em 1988, numa entrevista à BBC, Reagan finalmente reconheceu ter tido esse papel indecente.
delatar colegas de profissão. Mas se afinal admitiu a verdade também pode ter sido simplesmente porque já tinham sido revelados alguns documentos secretos do FBI, em processos com base na Lei de Liberdade de Informação, sugerindo que de fato ele fora alcaguete. Esse era o verdadeiro Reagan. (À direita, o ator em Cowboy from the Brooklyn)


No caso do cigarro as transnacionais do fumo devem largamente à mídia a façanha inacreditável de ocultar a verdade durante décadas – desde os anos 1940, quando já havia nos laboratórios da indústria provas conclusivas sobre os efeitos devastadores de seu produto. Assim, toda a culpa da indústria tem de ser estendida à mídia, sua cúmplice (com as agências de propaganda), por se vender a ela.
que prejudicava os bebês, ampliando a mortalidade infantil nos países mais pobres.
Tanto em relação à Nestlé como ao cigarro, a cumplicidade da mídia é garantida pelas relações promíscuas da indústria com veículos. Além de embolsar milhões com a propaganda, os veículos ainda suprimem notícias contrárias aos interesses da indústria. E esta, ao se estender a outra área, de alimentos, não deixa de “premiar” com anúncios destes a mídia “compreensiva” com o cigarro, proibido de anunciar.

Quando destaco o império Murdoch não quero dizer que está sozinho em mais essa operação anti-Obama, pois outros veículos da mídia o acompanham. A FAIR (Fairness & Accuracy in Media), uma organização competente no monitoramento da mídia pela esquerda, citou frase do repórter Jonathan Karl, da rede ABC: “Dick Cheney parece estar em toda parte”. Como vice-presidente fora recluso, fugia da mídia, agora tornou-se “o mais visível dos republicanos”. (Leia
E o tema central dele é sempre a tortura, que rebatizou com um eufemismo enganoso – enhanced interrogation.
Para o colunista Jon Soltz, do Huffingtonpost.com, os republicanos abandonaram “os ideais que tornaram nossos militares fortes”. Nos dias atuais gente como Cheney, que tenta tomar o controle das mensagens, idéias, práticas e políticas do Partido Republicano, deixou de lado os antigos princípios e aliados, não mais opera a partir de posições morais elevadas.
Apesar da leve vantagem atual para os conservadores, ainda existe certo equilíbrio na Suprema Corte. Mas a juíza Sotomayor (foto ao lado) levaria para o tribunal, além de seus largos conhecimentos jurídicos, uma rica e singular experiência de vida. “É exatamente essa a combinação que o tribunal está precisando encontrar em seu próximo integrante”, declarou o senador novaiorquino Chuck Schumer.
A juíza Sotomayor, na verdade, até já funcionou ao lado do atual presidente da Suprema Corte, John Roberts (como mostra a foto à esquerda). Foi num julgamento constitucional simulado – o Supreme Moot Court – na Universidade George Washington, no verão de 2006. A competição, que atraiu mais de 1500 alunos e membros da faculdade (a maior platéia em 50 anos de história do evento), teve Roberts e Sotomayor como julgadores dos concorrentes (saiba mais