Os jornalões, a energia nuclear e os interesses de fora

A primeira reação de muitos leitores que viram as manchetes idênticas (ao lado, à esquerda, e abaixo, à direita) no dia 14 de abril, na Folha de S.Paulo e no Estadão (a primeira página de O Globo, mesmo sem a manchete, coincidiu no enfoque e na foto) foi recordar a peça de propaganda do tucano Geraldo Alckmin na campanha eleitoral de 2006 – o pacote de dinheiro nas primeiras páginas, exposto de norte a sul do Brasil, na obsessão de derrotar Lula.

Daquela vez o truque sujo conseguiu apenas adiar a decisão do eleitorado para o 2˚ turno – no qual Alckmin acabaria com menos votos do que tivera no 1˚. Agora a “coincidência” funciona como alerta para truques futuros. Mas a aliança dos jornalões não é só com os tucanos. É também contra o país: no debate nuclear, como em outros, o governo Lula defende nossos interesses (do Brasil), enquanto a mídia se atrela aos de fora.

Jornalões, revistonas e penduricalhos (Rede Globo à frente) apoiam-se no estereótipo iraniano fabricado por eles próprios. O presidente Ahmadinejad é baixo, magrelo e feio. Não está em questão a aparência dele e nem o holocausto – que reconheceu ter ocorrido, mesmo lembrando que os mortos na II Guerra foram 60 milhões e não apenas os 6 milhões de judeus.

O expediente de produzir o vilão e a partir dele demonizar um país inteiro para invadi-lo e tomar-lhe o petróleo – como foi em 1953 no próprio Irã (de Mossadegh) e em 2003 no Iraque (de Saddam) – começa com difamação e sanções. Armas de destruição em massa foram o pretexto dos EUA para invadir o Iraque. Armas que sequer existiam, como não existe a bomba-A do Irã.

Negociação em vez de sanções

Ao invés de sanções a política externa do Brasil prefere o apelo sensato à negociação. Afinal, o Iraque foi arrasado pelas bombas dos EUA e viu um milhão de civis (segundo estimativas) serem mortos. E lá as sanções, que puniram mais as crianças do que o governo, foram o capítulo inicial. Hoje a acusação dos EUA é que o Irã pode vir a ter uma bomba – em cinco anos.

Seria situação menos ameaçadora do que o arsenal nuclear de 100 bombas que o estado de Israel já tem, sem nunca ter assinado o TNP (Tratado de Não Proliferação Nuclear). A exemplo dos israelenses, Índia e Paquistão negaram-se a aderir ao TNP e já têm armas nucleares – não tantas como Israel, mas prontas para serem usadas numa guerra entre os dois.

E onde entra o Brasil nesse quadro? Assinou e cumpre o TNP, não tenta desenvolver a bomba (mesmo tendo condições para isso), proclama em sua Constituição que não o fará e ainda assinou pactos nesse sentido (um bilateral, com a Argentina; e outro regional, com a América Latina). Mas sofre cobrança dos EUA, que descumprem o TNP e se arvoram em xerife nuclear.

O TNP não lhe confere tal autoridade. Ao contrário: manda os detentores de armas atômicas reduzirem os arsenais até sua eliminação completa. Os acordos EUA-Rússia só aposentam armas obsoletas, logo substituídas pelas modernas, sofisticadas e portáteis, que tornam mais provável o uso. (Até hoje um único país usou a bomba-A – duas, em Hiroshima e Nagasaki, contra populações civis e não instalações militares).

O vilão sem bomba e os amigos com bombas

Nas primeiras páginas da Folha, Estadão e O Globo a foto de ministro brasileiro presenteando o vilão Ahmadinejad com a camisa da seleção encantou os editorialistas. Como desprezam os interesses nacionais, eles festejam as leis extraterritoriais criadas nos EUA para intimidar e punir países que divergem de suas posições, como Cuba e Irã.

Em janeiro do ano passado a mídia corporativa já criticava o destaque dado na Estratégia Nacional de Defesa (leia o documento AQUI), anunciada então pelo governo Lula, ao desenvolvimento da energia nuclear. Os jornalões prestavam-se claramente ao papel de veículo da pressão do governo Bush em fim de mandato – um “pato manco” agonizante, golpeado ainda pela derrota eleitoral humilhante.

Os mesmos veículos ansiosos para anistiar os crimes da ditadura (de que foram cúmplices e beneficiários) viam – e ainda vêem – com suspeita o compromisso dos militares brasileiros com a democracia e a defesa dos interesses nacionais. O faroeste midiático na época ainda buscava legitimar a superpotência invasora do Iraque no papel insólito de guardiã da paz e do desarmamento.

Essa mídia não costuma ter dúvidas, só certezas. Condena a resistência do Brasil em assinar o protocolo adicional ao Acordo de Salvaguardas do TNP (mais sobre os dois AQUI) e atribui a culpa a militares brasileiros supostamente obcecados em ter a bomba-A. Não leva em conta que a questão do desenvolvimento nuclear está longe de ser simplista como sugere o cacoete desse jornalismo aliado a interesses externos.

Países sem armas nucleares sofrem restrições nas pesquisas – punidos por terem aderido ao TNP. Índia, Paquistão e Israel, como ignoraram o TNP, têm suas bombas-A e são paparicados e privilegiados com acordos especiais até pelo presidente Bush (mais AQUI, AQUI e AQUI), que na Índia firmou acordo nuclear com o premier Manmohan Singh (foto acima). Em 1997-98 essa mesma mídia aplaudiu FHC por sujeitar-se à pressão dos EUA e abraçar o TNP (leia-o AQUI), enquanto o Iraque sob sanções era acusado de ter a bomba – sem tê-la – e depois ainda foi invadido e arrasado, sem armas para se defender (comparem a tragédia do Iraque, sem bomba, com o garbo de Bush na foto abaixo, passando em revista as tropas da Índia, detentora de arsenal nuclear por negar-se a assinar o TNP).

Receita da mídia é rendição humilhante

Depois do TNP os EUA passaram ainda a exigir que nós, os “sem bomba-A” (ou have nots, em oposição aos haves) assinássemos o tal protocolo adicional, que amplia as restrições, os controles e as inspeções. Inexistente antes, o protocolo teria de ser negociado com cada signatário do TNP, nunca imposto pelos EUA.

Os “sem bomba” sofrem limitações nas pesquisas, que a AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica) faz cumprir com inspeções. O compromisso do Brasil é com o uso pacífico da energia atômica. Defende o desarmamento nuclear e é reconhecida sua tradição pacífica. Mas não pode abrir mão da tecnologia nuclear e da necessidade estratégica de desenvolvê-la e dominá-la, o que inclui ainda, para horror dos jornalões, o projeto de um submarino de propulsão nuclear para atuar rapidamente nas águas do extenso e rico litoral do país (saiba sobre o acordo com a França  AQUI).

Em 2004 a Folha não hesitou em propor rendição singular e humilhante, a pretexto de ser “transitória” a existência de países com e sem a bomba: o Brasil, argumentou, devia aderir ao protocolo adicional, “como uma decisão soberana”, e ao mesmo tempo “pedir” avanços pelo desarmamento. Ora, os que apóiam o protocolo são pouco mais de 80 dos quase 190 que assinaram o TNP. A maioria, assim, tem consciência da ameaça dos EUA de eternizar seu arsenal “transitório”.

Há ainda os interesses comerciais: em 2001 o crescente mercado mundial de urânio enriquecido já movimentava US$18 bilhões. Dono da 5ª maior reserva natural de urânio, o Brasil tem tecnologia própria de centrifugação, desenvolvida por seus cientistas ao longo de 30 anos. Para preservá-la protege com painéis, nas inspeções da AIEA, a sala das centrífugas na Fábrica de Combustível Nuclear da INB, em Resende.

O Brasil e a manipulação dos EUA na AIEA

Apesar de “desacordo momentâneo” entre o Brasil e a AIEA, o ministro Celso Amorim conviveu bem com Mohammed ElBaradei, que dirigiu durante mais de um mandato a agência da ONU (os dois aparecem na foto ao lado). Os interesses dos detentores de arsenais nucleares, claro, são diferentes daqueles dos “sem bomba”. A hipótese de espionagem industrial nas inspeções da AIEA não pode ser subestimada mas a proteção da tecnologia inovadora do Brasil foi descartada pela Folha com a alegação de que os EUA não precisam disso porque dispõem de sua “espionagem clássica”.

Antes da invasão do Iraque, no entanto, a CIA usava a equipe de inspeção da ONU (UNSCOM) – chefiada pelo sueco Rolf Ekeus até 1997 e depois pelo australiano Richard Butler (1998) – para espionar. O inspetor Scott Ritter, ex-fuzileiro dos EUA e veterano da guerra do Golfo, acusou os dois de tolerarem o jogo da CIA, permitindo a espionagem nas inspeções.

Na mesma linha do editorial da Folha, o do Estadão, dias depois, negou haver razão que justifique a não adesão ao protocolo adicional. Alegou ser do interesse do Brasil ratificar o compromisso com o desenvolvimento pacífico da energia atômica e “evitar atritos” com as potências empenhadas em impedir a proliferação nuclear. (E a FCN? E o mercado de urânio? E os interesses maiores da nação?)

Meses depois dos editoriais, o secretário de Estado de Bush, Colin Powell (na capa do Time, ao lado), ouviu no Brasil a explicação do ministro Celso Amorim sobre a proteção da tecnologia desenvolvida por nossos cientistas. E minimizou, ao falar à Veja, o que Folha e Estadão maximizaram: o Brasil – disse – não preocupava os EUA e nem devia ser comparado a Irã e Coréia, apesar dos “desacordos momentâneos” na AIEA.

Os recados que chegam pela “Folha”

Ao voltar ao ataque a 9 de janeiro de 2009, a Folha publicou matéria do chefe da surcusal de Brasília, Igor Gielow. “Os EUA cobraram ontem a adesão do Brasil ao chamado protocolo adicional”, dizia o texto. Não ficou claro se a “cobrança” era iniciativa americana, usando a Folha, ou se viera por acaso, premiando alguma solicitação de entrevista do jornal.

O entrevistado era o embaixador Gregory Schulte (o sorridente senhor da foto abaixo), que representava os EUA não no Brasil mas na AIEA e outros organismos sediados em Viena. Gielow omitiu (de propósito?) se o diplomata respondera a perguntas, se falara em Brasília (estaria ali por alguma razão?), se a entrevista fora por telefone ou se mandara respostas por email a perguntas enviadas a Viena.

Como o próprio jornalista caracterizara a entrevista como “cobrança” dos EUA, seria oportuno informar como tinha ocorrido – por telefone, cara-a-cara, troca de emails ou qualquer que tenha sido a situação. Teria sido uma tentativa de intimidação? Afinal, a dupla Bush-Cheney, derrotada, vivia seus últimos momentos – a apenas 12 dias do final do mandato.

No relato insólito da Folha, Schulte cobrava a adesão do Brasil a pretexto de que “os EUA aderiram”. Mas o protocolo adicional ao Acordo de Salvaguardas (artigo III do TNP) só é aplicável (e impõe obrigações) aos “sem bomba”. Para os EUA a adesão nada significa, sequer inspeções inócuas. Para os “sem bomba”, ao contrário, elas são compulsórias. E mais: cabe à AIEA decidir o que inspecionar, como e onde. (Publicado originalmente em Carta Maior, a 17/04/2010)

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Published in: on maio 4, 2010 at 9:32 pm  Comments (3)  

Moniz Bandeira e as fantasias sobre a morte de Jango

Para o historiador Luiz Alberto Moniz Bandeira (ao lado de Brizola em Paris na foto acima, feita em 1978), é preciso um mínimo de cautela antes de se veicular versões sem base, como as que circulam atualmente, atribuindo a assassinato a morte de João Goulart, o presidente deposto pelo golpe militar de 1964. “Não é admissível apresentar como verdade uma versão que não pode ser comprovada por documentos ou outros depoimentos. É charlatanice”, disse ele enfaticamente, na entrevista exclusiva que me concedeu para Carta Maior.

Baiano de nascimento, Moniz Bandeira está com 74 anos e atuou durante vários anos como jornalista e militante político, principalmente no Partido Socialista, antes de formar-se em Direito e depois doutorar-se em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Posteriormente lecionou em Universidades no Brasil e no exterior, especializando-se em política internacional – especialmente as relações do Brasil com os EUA e a Argentina.

Um de seus principais livros, O governo João Goulart – As lutas sociais no Brasil, 1961-1964 (ver a capa de uma edição anterior abaixo, à direita) foi publicado em 1977, quando morava na Europa, depois de ter cumprido pena no Brasil durante o regime militar e passar algum tempo exilado no Uruguai – onde conviveu com outros brasileiros cassados e perseguidos pela ditadura, entre eles Jango e o ex-governador Leonel Brizola. A 8ª edição desse livro, revista e ampliada, será lançado em maio. Ela se refere ainda ao papel desempenhado pela diplomacia dos EUA no episódio da fuga de Brizola do Uruguai, sob a ameaça da operação Condor.

Moniz Bandeira escreveu também, entre outros, os livros Presença dos EUA no Brasil (Dois Séculos de História); Cartéis e Desnacionalização; Brizola e o trabalhismo; O Eixo Argentina-Brasil – O processo de integração da América Latina, Brasil-Estados Unidos; A rivalidade emergente (1955-1980); Brasil, Argentina e EUA – Da tríplice aliança ao Mercosul; As relações perigosas: Brasil-Estados Unidos (De Collor a Lula), Fórmula para o caos – A derrubada de Salvador Allende, 1970-1973; Formação do Império Americano (Da guerra contra a Espanha à guerra do Iraque).

Anos após seu retorno ao Brasil, Moniz Bandeira passou seis anos (de 1996 a 2002) como adido cultural no Consulado Geral do Brasil em Frankfurt. Em seguida, já aposentado, continuou a morar na Alemanha, país sobre o qual também escreveu (três livros: A Reunificação da Alemanha – do Ideal Socialista ao Socialismo Real; O ‘milagre alemão’ e o desenvolvimento do Brasil; Brasil e Alemanha, a construção do futuro). Abaixo, minhas perguntas e as respostas do historiador.

Argemiro FerreiraProfessor Moniz Bandeira, o senhor viveu no Brasil as crises de 1954, 1961 e 1964 e escreveu – com o apoio do presidente deposto no golpe militar – o livro O governo João Goulart, agora em 8ª edição. Depois do golpe, cumpriu dois anos de prisão, exilou-se no Uruguai, conviveu ali com o ex-presidente e voltou a ter muito contato com ele entre 1974 e 1976, quando pesquisava para o livro, com a colaboração do próprio Jango. A última vez que o viu foi um mês antes de sua morte, ocorrida em dezembro de 1976 no Uruguai. Como vê as especulações atuais sobre a hipótese de que foi assassinado?

Moniz BandeiraAs especulações sobre a hipótese de que Goulart foi assassinado não são atuais. Datam desde, pelo menos, o dia imediato ao seu falecimento. E o que ocorre agora é uma exploração do depoimento de um delinqüente uruguaio, preso no Rio Grande do Sul, Mario Barreiros Neira, um megalomaníaco. O deputado Miro Teixeira (PDT-RJ) nem quis convocá-lo para depor na comissão que investigou a morte de Goulart por considerá-lo sem credibilidade.

AFA primeira versão de assassinato, que começou a circular logo depois da morte do ex-presidente, sugeria envenenamento e levantava suspeitas contra a própria viúva, Maria Tereza Goulart, que teria negado autorização para uma autópsia. Mais tarde, ao voltar, a hipótese veio com roupagem nova e ganhou espaço mais amplo na mídia. Já então tratava-se de uma “confissão” – do uruguaio Mario Ronald Barreiros Neira, que cumpre pena no Brasil como criminoso comum e cuja extradição é reclamada pelo Uruguai. Porque questiona a credibilidade dele e da versão que sustenta?

MB – A hipótese do assassinato que circulou logo após o enterro de Goulart sugeria uma troca de medicamentos, para acusar, injustamente, a viúva. Maria Tereza Goulart na verdade não negou autorização para uma autópsia. Simplesmente ninguém pediu que fosse feita a autópsia. Como a própria Maria Tereza declarou, esse fato era “absolutamente normal”, pois “a autópsia só é feita quando existem dúvidas sobre a causa da morte. Não foi este o caso”. Ela disse: “Vi meu marido sofrendo o infarto”. Em 1982, ela e os filhos recusaram-se a autorizar a exumação, por considerá-la desnecessária.

AFUm confronto entre as duas versões expõe contradições entre elas? A primeira, de Enrique Foch Diaz, chegou a ser apoiada na época por Danilo Groff, militante do PDT próximo a Leonel Brizola. Foi repudiada publicamente por Maria Tereza e os filhos de Jango, João Vicente e Denise. Está no livro João Goulart – El Crimen Perfecto. Busca comprometer a viúva. Já a de Barreiros Neira, exposta em depoimento dele na TV Senado em 2006, foi defendida nos originais do livro dele, ainda inédito. Depois de se referir ao livro em 2004 com o título de Morte Premeditada, ele passou depois a chamá-lo de Entrevista com um réu confesso – Todas as respostas sobre o assassinato de João Goulart. Pode expor as diferenças entre as alegações de Barreiros Neiva e as de Foch Diaz?

MB – Nenhuma das versões é consistente com a lógica e com os fatos. Nem Enrique Foch Díaz, que apresentou a denúncia de “morte duvidosa” duas vezes à Justiça, uma em Corrientes, na Argentina (1982), a outra em Maldonaldo, no Uruguai (2000), nem Danilo Groff, no Rio Grande do Sul, puderam confirmar suas acusações e foram condenados à pena de prisão, em decorrência de processo movido, com o apoio de Maria Tereza Goulart e de sua filha Denize, por Cláudio Braga, ex- secretário particular de Goulart. Quanto às diferenças, eu demonstro claramente no apêndice que escrevi para a 8ª edição revista e ampliada de meu livro O Governo João Goulart, a ser lançado em maio pela Editora UNESP. O que caracteriza todas as versões é a falta de consistência. Não existe nenhum só documento, nenhuma prova, de que houve uma tal Operação Escorpião, referida por Mario Barreiros. O fato de que as atividades de Goulart eram monitoradas pelos serviços de inteligência do Brasil, Uruguai e Estados Unidos, não constitui novidade e muito menos serve para dar qualquer fundamento à versão de que foi assassinado.
Quando solicitei ao professor Oswaldo Munteal (defensor da versão de Barreiros) que apresentasse uma prova documental para confirmar a existência da Operação Escorpião, cuja única fonte é a cabeça do próprio Barreiros), João Vicente retransmitiu para mim e-mails de três amigos que trabalham para o Instituto Presidente João Goulart em defesa da pesquisa sobre a morte de Goulart. Estranhei essa atitude. Nunca fui contra qualquer pesquisa. Quem quiser, tem todo o direito de pesquisar sobre tudo que julgar necessário. O professor Oswaldo Munteal e os que estão a trabalhar com João Vicente podem até pesquisar se há chifres na cabeça de burros. Mas o que não é admissível é apresentar como verdade uma versão que não pode ser comprovada por documentos ou outros depoimentos. É charlatanice.

AFSuas críticas às duas versões têm sido contundentes. Na mais recente mostrou que Barreiros Neiva mudado e adapta sua história desde o primeiro depoimento, quando alegava que Morte Premeditada seria publicado pela editora Menz de Porto Alegre, o que na realidade não aconteceu. Como avalia agora a atual versão sustentada por ele? Acha que a inventou apenas na obsessão de escapar à Justiça comum, fingindo-se ex-agente arrependido da repressão na ditadura uruguaia?

MB – Realmente, existem diferenças entre os diversos depoimentos prestados por Mario Barreiros, desde que, em 2001, pretendeu evitar que sua extradição para o Uruguai, por crimes comuns, fosse aprovada no Brasil pelo STF. Alegou então que seu único crime foi escrever um livro onde relata o assassinato de João Goulart, que “foi morto a pedido do DOPS” na Argentina, “com a participação de agentes uruguaios e argentinos […]”. Não falou de sua participação, nem mencionou os nomes do delegado Sérgio Fleury e do presidente Geisel. Aliás, não foi comprovada a existência dos personagens por ele citados como participantes da suposta Operação Escorpião, salvo a do médico Carlos Milles, que nada podia dizer, pois já havia morrido. Em realidade, Mario Barreiros, homem bem informado, mesmo preso em Porto Alegre sabia sobre o livro de Foch Díaz e, inicialmente, atribuiu a si a autoria de um livro igual, para evitar que o STF aprovasse sua extradição. Não conseguiu. O STF não encontrou fundamento nas suas alegações e aprovou o parecer do ministro José Neri da Silveira, em favor da extradição, que somente ainda não foi efetuada porque Mario Barreiros tem de cumprir uma pena de mais de 19 anos no Brasil. Depois, Mario Barreiros desenvolveu sua estória, mesclando fatos do seu conhecimento com outros de sua imaginação, para ganhar notoriedade como eventual criminoso político. Percebe-se nele uma clara tendência para a megalomania.
Em novembro de 2009, Mario Barreiro, diante de testemunhas, deu uma entrevista ao Canal Brasil de televisão, monitorada e analisada pelo módulo de Tempo Real do Programa de Análise de Voz Multicamadas – AVM 6.50, um polígrafo (detector de mentiras), da empresa TRUSTERBRASIL. Com base no arquivo de voz obtido, o perito Mauro Nadvorny, da TRUSTERBRASIL, analisou a entrevista e o módulo de análise de gravações do mesmo programa. O sumário da detecção apontou 60 amostras de verdade, contra 229 amostras de que estava provavelmente mentindo, 266 amostras de fraude e 720 imprecisões, das quais uma grande parte com indicação de fraude pelo perito. A análise concluiu que Mário Barreiros Neira “não está sendo verdadeiro quando relata que pertenceu ao serviço secreto uruguaio”. Trata-se de afirmação falsa, uma fraude. O mesmo ocorre quando relata em que consistia a Operação Escorpião, que seria centralizado principalmente em João Goulart. Em suma, a conclusão da análise foi a de que Mario Barreiros Neira “não foi verdadeiro na maior parte da entrevista e de sua participação nos fatos narrados”. Entretanto, fontes do Instituto João Goulart difundiram, através dos jornais Correio do Povo, de Porto Alegre, e La República, de Montevidéu, bem como de sites e blogs, a notícia segundo qual Mario Barreiros, por cerca de duas horas, detalhou episódios envolvendo a morte do líder político, e “durante boa parte do depoimento, o detector de mentiras apontou serem verdadeiras as informações relatadas por ele”. É uma informação falsa, irresponsável, que afeta a credibilidade da instituição e de qualquer investigação.

AFUm dado novo da controvérsia sobre as versões opostas é a entrada em cena, como historiador, do personagem a que o senhor se referiu, Oswaldo Munteal. Em 2006 ele lançou um livro, O Brasil de João Goulart: um projeto de nação. Com o patrocínio do filho de Jango, João Vicente, à frente do Instituto Presidente João Goulart, responsável na internet pelo website Página 64. Munteal endossa ali e em livro a ser lançado a versão-“confissão” de Barreiros Neira. Não só Jango teria sido envenenado, como coubera a ele próprio fazer a troca do veneno. Isso seria parte dessa suposta Operação Escorpião, que teria sido ordenada pelo presidente Geisel ao delegado Sérgio Fleury, usando ainda o ministro Armando Falcão.Não soa fantasiosa uma ordem do próprio presidente (e seu ministro da Justiça) ao mais notório delegado torturador?

MB – Não conheço – nem mesmo de nome conhecia – o professor Oswaldo Munteal. Soube de sua existência porque me foi enviada uma entrevista sua, reproduzida no website Página 64, do Instituto João Goulart, o que me levou a solicitar a João Vicente que retirasse meu nome do Conselho Editorial. Não me parece sério, honesto, endossar e apresentar como verdadeira uma estória, contada por um delinqüente, sem credibilidade, sem qualquer comprovação documental. Nada tenho, é certo, contra o professor Munteal, mas o fato foi que lhe pedi para apresentar um documento sobre a denominada Operação Escorpião, o que não foi feito. Não o fez, simplesmente, porque não existe. Como eu disse, a única fonte é a cabeça de Mario Barreiros Neira.

AFNa fase atual do debate, que ainda parece restrito a um setor da esquerda brasileira, o papel de Munteal, em razão de seus vínculos acadêmicos (formação, mestrado, doutorado, envolvendo a PUC, UFRJ, Fundação Getúlio Vargas), pode dar um peso indevido à versão mesmo sem respaldo na realidade? E como deve ser visto o apoio da família de Jango, em especial o filho João Vicente, que preside a Fundação que tem o nome do ex-presidente? Como historiador respeitado o senhor teve ligações próximas com Jango e a família Goulart. Apesar de morar hoje na Alemanha, mantém contatos com João Vicente e Munteal. Isso permite avaliar adequadamente esses atuais desdobramentos?

MB – O professor Munteal, antes de mais nada, tem de apresentar provas contundentes, inegáveis, de que existiu a Operação Escorpião. Conheço os documentos que João Vicente obteve na Coordenação Regional do Arquivo Nacional, no Distrito Federal. Apenas comprovam que as atividades de Goulart eram acompanhadas pelos serviços de inteligência do Brasil. Isto nunca foi segredo para ninguém e não constitui prova de que ele foi assassinado. Estive exilado no Uruguai e todos sabíamos que desde 1964, quando lá chegamos, os passos de Goulart e de Brizola, bem como de todos nós, eram monitorados. Surpreendente seria se não fossem. João Vicente, como presidente do Instituto João Goulart, tem, entretanto, motivos particulares para tentar viabilizar a versão de Mario Barreiros, o que é um erro grave, no meu entendimento. Não vou entrar em detalhes. Gosto de João Vicente e entendo que ele tem todo o direito de investigar o que quiser e puder sobre a morte do pai. Só não julgo certo endossar e tentar impingir à opinião pública uma versão com evidentes aspectos fantasiosos, colorindo algum conhecimento de fatos reais, conhecidos por Mario Barreiros. Isto afeta a credibilidade de todo o seu trabalho e também pode induzir à crença de que a versão caluniosa e infamante de “morte duvidosa”, formulada por Foch Díaz, também possa conter elementos de verdade. Não aceito nem endosso nenhuma das duas versões. Mas se for admitida como séria a versão de Mario Barreiros, qualquer outra hipótese, como a de Foch Díaz, também é válida, como ponto de partida para uma investigação. João Vicente ainda não pensou sobre isto.

AFAo expor suas reservas em relação à versão-“confissão” de Barreiros Neira, parece inclinar-se a minimizar ou até desqualificar o depoimento dele, entre outras coisas por ser um criminoso comum, envolvido até em narcotráfico. De fato seria difícil imaginar tal epifania. Mas ele alega que atuava na repressão uruguaia. Não poderia ser mero “bagrinho” daquelas operações paralelas da ditadura? Seria necessária uma investigação séria e ampla a partir de cada detalhe?

MB – Mario Barreiros não era agente do serviço de inteligência. Foi apenas um rádiotécnico da polícia de Montevidéu. Participou de um grupo paramilitar de ultra-direita denominado Garra 33 e do movimento Juventud Uruguyaia de Pié (JUP). Em realidade, era um criminoso comum, recrutado no lumpesinato para executar as mais sujas tarefas na repressão política. Nos anos 1990 integrou a Superbanda (quadrilha de policiais criminosos), que atuou no Uruguai. Seus antecedentes criminais são muitos e os mais diversos. Esteve envolvido com o tráfico de armas pesadas e diversos outros crimes, tanto no Uruguai como no Brasil, onde foi preso pela primeira em 1996, em Bagé, Rio Grande do Sul. Libertado dois depois, voltou ao Uruguai e, em 1998, cometeu vários assaltos. Detido em Rocha, no Uruguai, entrou no Rio Grande do Sul e, pela segunda vez, foi capturado. Evadiu-se. Mas em 1999 voltou a ser preso, em flagrante, pela Polícia Federal, em Gravataí, Rio Grande do Sul, por porte de arma e roubo de automóvel, juntamente com outro uruguaio, Ricardo Anacleto Ruiz Mendieta. Com eles, havia um arsenal de armas, munições, equipamentos de comunicação e anotações das frequências de rádio da polícia estadual. Ambos estavam vinculados a assaltos a caminhões blindados da empresa Proforte S.A. Transporte de Valores, em Canoas e Sapucaia de Sul, a um frustrado roubo de um avião no aeroporto de Rivera-Livramento e ao tráfico de automóveis dentro do Mercosul. Em 2003, Mario Barreiros fugiu do Instituto Penal de Mariante, onde cumpria pena em regime semi-aberto, mas foi outra vez capturado pela Polícia Federal e encarcerado na Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas para cumprir uma pena de mais de 19 anos de prisão. Atualmente voltou a cumprir a pena em regime semi-aberto.

AFComo cientista político e historiador sua norma tem sido afirmar apenas o que está apto a provar. Em nome da credibilidade prefere deixar explícito quando se trata de mera hipótese, conjectura, ilação ou interpretação a partir de indícios. No caso de Munteal, põe em dúvida, além da Operação Escorpião, uma frase que ele atribuiu a Vargas, e que estaria numa carta daquele presidente a Jango: “Agora eles me pegaram, o próximo será você”. Na crise final de Vargas, de fato, Jango estava fora do governo, deixara o ministério do Trabalho. O PTB tinha então outros líderes, como Oswaldo Aranha (Jango até perdeu a eleição gaúcha para o Senado). O suicídio de Getúlio e a morte de Aranha é que criariam condições para Jango eleger-se vice com JK. Seria aquela frase, sem prova, o escorregão definitivo, a luz vermelha final para a credibilidade de Munteal?

MB – Numa entrevista a um site da internet, Munteal declarou que “Vargas deixou uma Carta Testamento assinada e endereçada a João Goulart”, na qual está escrito: “Jango, agora eles me pegaram. O próximo será você” . Solicitei ao professor Munteal que apresentasse o original dessa carta que ele atribuiu a Vargas. Ele não o fez. E não o fez, simplesmente porque Vargas nunca escreveu tal carta. A único hipótese, se é que se pode acreditar, é que o professor Munteal seja discípulo de Chico Xavier, o médium, autor de 451 livros psicografados, e o espírito de Vargas ditou-lhe aquela frase, que não conseguiu escrever para Goulart, antes de suicidar-se. A frase “Jango, agora eles me pegaram. O próximo será você” só pode ser de alguém que já morreu, i. e., de Vargas, no outro mundo (“agora eles me pegaram”), prevendo que Goulart seria presidente, deposto dez anos depois e assassinado (“o próximo será você”). Que maravilha poder reconstituir a história conversando com os mortos e psicografando suas entrevistas. É o fenômeno da mediunidade que pode beneficiar alguns historiadores capazes de receber espíritos do além túmulo. Quem sabe, um dia, o próprio Goulart pode contar ao professor Munteal ou a algum historiador vinculado ao Instituto Presidente João Goulart o que realmente lhe passou antes de morrer. A história psicografada é um grande contributo que enriquecerá a historiografia brasileira.

AFComo Munteal tem sido vago nas entrevistas, como a gravada há algumas semanas por Paulo Henrique Amorim e a disseminada na internet através do website “Fazendo Media”, são compreensíveis as reservas e o ceticismo que têm surgido – da frase duvidosa de Vargas à suposta Operação Escorpião. Mas e os vínculos acadêmicos dele e sua presença atual na Fundação Getúlio Vargas? Tais instituições não deveriam ser uma espécie de selo de garantia?

MB – Solicitei ao professor Munteal que também apresentasse um documento, indicando a respectiva fonte, para comprovar inequivocamente a existência da suposta Operação Escorpião. Ele não o fez. E não o fez, repito, simplesmente porque nada existe, além do depoimento do delinqüente preso no Rio Grande do Sul. Como já disse, não conheço – nem o nome conhecia – o professor Munteal. Nada posso dizer sobre ele. Pode ser um docente sério, mas inexperiente, desorientado e influenciado por interesses não muito claros. Devia ter o devido cuidado com respeito às fontes, pois está comprometendo sua credibilidade acadêmica, escrevendo sobre o que não pode provar, o que também pode refletir-se sobre as instituições às quais está vinculado. De qualquer modo, as instituições, sejam elas quais forem, não são uma espécie de selo de garantia. Nas universidades e fundações como na imprensa ou em qualquer instituição, pública ou privada, há profissionais muito bons, bons, sérios, outros medíocres, ruins etc.

AFA nova edição de seu livro O Governo João Goulart, ampliada e atualizada, deverá conter fatos ou análises novas em torno das versões surgidas nos últimos anos para a morte de Jango?

MB – Essa 8ª edição, ampliada e atualizada, contém muitas informações novas, sobretudo quanto ao período do exílio. Sobre os últimos anos de Goulart, acrescentei muitas informações, em mais um capítulo que incorporei ao livro. E, sobre sua morte, escrevi um apêndice, no qual analiso, detalhadamente, não somente as versões como as circunstâncias do seu falecimento.

AF – E quanto ao episódio da expulsão de Leonel Brizola do Uruguai e o papel dos EUA? Há informações recentes mais concretas relacionadas a alvos da Operação Condor, com base em documentos secretos liberados nos EUA, no Brasil, Paraguai ou outros países? O seu livro deve voltar de alguma forma a esses assuntos?

MB – Com respeito à expulsão de Brizola do Uruguai consegui novas e surpreendentes informações, que podem esclarecer o que realmente ocorreu. Em resumo, entendo que esse fato não se relaciona com a Operação Condor, mas com a luta interna, dentro do regime militar, no Brasil. Os indícios apontam no sentido de que o setor do Exército, liderado pelo ministro, o general Sílvio Frota, em oposição às diretrizes de política econômica e política externa do presidente Ernesto Geisel, pressionou o governo do Uruguai para que expulsasse Brizola e este, sem opção de asilo, retornasse ao Brasil e, aí, preso ou morto, serviria como pretexto para um golpe militar contra o governo, acusando-o de estar “traindo os ideais revolucionários”. Não contaram que Brizola pudesse jogar a carta americana. Esse é um acontecimento que ainda carece de uma pesquisa mais ampla e profunda em arquivos do Uruguai e, também, dos Estados Unidos. Mas, infelizmente, não tenho condições de realizá-la. Cabe a outros acadêmicos empreender essa tarefa.

AFQuando fala em “jogar a carta americana”, significa também um envolvimento mais direto dos EUA, usando a diplomacia e até a CIA, para garantir a saída em segurança de Brizola do Uruguai sob proteção dos EUA, até sua chegada a Nova York?

MB – É óbvio que Brizola, para entrar na Argentina e pernoitar, em segurança, em Buenos Aires, a fim de tomar o avião para Nova York, no aeroporto de Ezeiza, contou com discreta cobertura de agentes da embaixada americana. Ele era exilado político no Uruguai e a ditadura militar da Argentina, segundo se soube, negou-lhe o visto de passagem. Em tais circunstâncias, ele não teria conseguido entrar em Buenos Aires, onde corria maior risco, se não fosse protegido por agentes da embaixada americana. Essa questão eu examino no prefácio à 8ª edição de O Governo João Goulart, porém ela ainda deve ser pesquisada mais profundamente, com base na documentação existente nos Estados Unidos e ainda não desclassificada.

(Na foto abaixo, a primeira página do Jornal do Brasil no dia seguinte ao comício de 13 de março de 1964, com Jango ao lado da primeira dama Maria Tereza no palanque. Entre as outras fotos que ilustram a entrevista, ele aparece com o presidente Kennedy à saída da Casa Branca em sua visita oficial aos EUA)

Published in: on abril 13, 2010 at 1:18 am  Comments (9)  

A Globo e a ditadura militar, segundo Walter Clark

Ainda que não tivesse sido esse o objetivo de sua autobiografia, na qual relatou há 19 anos a incrível trajetória que o transformara no todo-poderoso senhor, por mais de uma década, da quarta rede comercial de televisão do mundo, Walter Clark acabou por oferecer no livro – O Campeão de Audiência (veja a capa abaixo), que teve o jornalista Gabriel Priolli como co-autor, Editora Best Seller, 1991 – uma contribuição importante para a compreensão das relações muito especiais entre a TV Globo e o regime militar à sombra do qual floresceu. Além de rejeitar a conhecida imagem da emissora como uma espécie de porta-voz do “Brasil Grande” do ditador Médici, ele garantia nunca ter visto Roberto Marinho (foto no alto, da capa do livro promocional assinado por seu empregado Pedro Bial), “se humilhar diante de quem quer que fosse, milico ou não, presidente da República ou não. Ao contrário, é uma altivez que fica sempre no limite da arrogância.”

Clark referia-se à suposta independência do dono da Globo por “manter em torno de si homens de esquerda em cargos importantes” (citava Franklin de Oliveira, Evandro Carlos de Andrade e Henrique Caban) – inclusive depois que o SNI ampliou a pressão contra os dois últimos, com acusações contidas numa fita de vídeo que o dono da Globo fora convocado a assistir em companhia de Clark e Armando Nogueira. Explicitamente, admitia apenas que o regime “incomodava” a Globo, que enfrentou “o mesmo gosto amargo da censura, das intimidações, das impossibilidades que todo mundo sentiu: imprensa, rádio, televisão, as artes, a universidade, a cultura”. Claramente na defensiva, o autor mostrava-se ressentido com os que o culpavam – na própria Globo, e mais até do que Marinho – pela submissão ao regime militar. Mas ao passar das opiniões subjetivas aos fatos concretos, acabava por confirmar o que pretendia desmentir: a docilidade das TVs (em particular a sua), em parte resultante do caráter precário das concessões de canais pelo governo, tinha uma longa história e já o atropelara antes, na TV Rio.

Essa emissora, na qual também foi autoridade máxima (com o título nominal de “diretor comercial”), Clark submeteu-se, sem reação, ao assalto dos lacerdistas – liderados pelo empresário Abrahão Medina, fazendo valer a condição de patrocinador de programas – no episódio da tomada do Forte de Copacabana, em 1964. Posteriormente, conseguiu o prodígio de entregar-se tanto ao governo estadual como ao federal, até mesmo depois do desafio do governador Carlos Lacerda (foto à esquerda) ao presidente Castello Branco. Clark confessou ter retirado do ar programas de Carlos Heitor Cony e Roberto Campos para satisfazer o coronel Gustavo Borges, chefe de Polícia do Rio, que o chantageava com a ameaça de mudar o horário da novela O Direito de Nascer, líder de audiência.

Da promiscuidade à cumplicidade

Não por acaso, a experiência da Globo acabaria por extremar a tendência à  acomodação, a ponto de Clark contratar um ex-diretor da Censura (“o Otati”) para “ler tudo que ia para o ar” e, pior ainda, uma “assessoria especial” para cortejar o poder, formada pelo general Paiva Chaves, pelo civil linha dura Edgardo Manoel Erickson (“pelego dos milicos”, conforme disse) e mais “uns cinco ou seis funcionários”. O episódio que aparentemente o convenceu a ir tão longe chegava a ser cômico: um certo coronel Lourenço, do Dentel, tinha tirado a estação do ar em 1969, convocando Clark ao ministério da Guerra, porque Ibrahim Sued, na esperança de agradar ao Planalto, divulgara uma intriga plantada pelo grupo do general Jaime Portela, então na conspiração do “governo paralelo” juntamente com d. Yolanda Costa e Silva. Ibrahim foi preso e Clark (ao lado, numa capa da Veja em 1971) aprendeu a lição depois de levar um pito do coronel Athos, “homem de Sílvio Frota”.

Além da pretensa altivez de Marinho, impressionaram Clark a “integridade”, a “honestidade” e o “patriotismo” do general Garrastazu Médici, que depois de 1974 passara a frequentar seu gabinete na Globo para ver futebol aos domingos. Muita gente apanhava e morria nos cárceres da ditadura, mas para ele isso não podia, de forma alguma, ser coisa do ditador Médici: “Tenho a impressão de que ele não se envolveu com nenhum excesso, nenhuma violência do regime”. De quem era, então, a responsabilidade? “Foi coisa dos caras da Segunda Seção do Exército, do SNI, do Cenimar, do Cisa, a turma da segurança. E era tudo na faixa de major, tenente-coronel”. Pronto a absolver os poderosos, frequentadores de seu gabinete (até mesmo o general Ednardo D’Ávila‚ chamado no livro de “figura agradável”), e a condenar apenas o guarda da esquina, obscuro, Clark comete o disparate de afirmar que “a censura e as pressões não eram feitas pelos generais”, mas por “gente como o Augusto”, beque do Vasco que virou agente do DOPS. Mas se era assim, por que submeter-se a eles?

O autor recorreu ainda a outra desculpa para justificar o adesismo e o ufanismo tão escancarados na ocasião pela rede dos Marinho: “A Globo não fazia diferente dos outros”. E mais: “Se o Estadão não conseguia enfrentar o regime, se a Veja não conseguia, como é que a Globo, sendo uma concessão do Estado, conseguiria resistir à censura, às pressões?” O problema, para os críticos de Clark dentro da própria emissora, é que ela, como ele, parecia preferir aquela filosofia de que se o estupro é inevitável só resta relaxar e aproveitar. Daí os comerciais da AERP (Clark alega que foram feitos para evitar uma “Voz do Brasil” na TV, projeto de um certo coronel Aguiar), as coberturas patrióticas de eventos militares (Olimpíadas do Exército e o resto), as baboseiras ufanistas de Amaral Neto (foto à esquerda). “Era o preço que pagávamos para fazer outras coisas”, alegou. Não se deu ao trabalho de explicar que coisas eram essas. E ele mesmo admitiu na autobiografia que o apregoado Padrão Globo de Qualidade “acabou passando por vitrine de um regime com o qual os profissionais da TV Globo jamais concordaram”?

A Globo devia ao regime, como ficou claro no relato de Clark, até mesmo a introdução da TV a cores – imposta pelo ministro das Comunicações, coronel Higino Corsetti, sabe Deus para atender a que lobby multinacional. Mas a intimidade promíscua com o regime foi mais longe, a ponto de compartilhar com o SNI os serviços clandestinos do “despachante” encarregado de liberar contrabandos na Alfândega: para a empresa, equipamentos de TV; para os militares da espionagem oficial, sofisticados aparelhos de escuta ilegal. Graças a isso, Clark podia desfrutar estranhas sessões de lazer como a conversa com um tal general Antônio Marques, pressuroso em exibir foto tirada no escuro de um cinema (com equipamento infravermelho) e identificar o personagem em cena comprometedora como Dom Ivo Lorsheiter, progressista odiado pela linha dura militar.

Para Armando, “uma questão de realismo”

O autor defendeu no livro tudo o que fez para “afagar o regime” (expressão dele) e investiu contra os que o acusavam de “puxar o saco dos militares” (também expressão dele). Para fazer autocensura, revelou, tinha importantes aliados internos, com destaque especial para o papel do diretor de jornalismo, Armando Nogueira. Por “questão de realismo”, por exemplo, Armando e ele tomavam “muito cuidado” para não trombar “com o regime e nem com Roberto Marinho”. Mas o leitor tropeça nas contradições da narrativa, entre elas a ambiguidade em relação ao ex-amigo J. B. (Boni) de Oliveira Sobrinho – acusado de fazer vista grossa quando Dias Gomes e outros enfiavam “coisas nos textos que certamente iam dar problemas”, mas também de cumplicidade com os militares para destruir o próprio Clark (“lá por 1976, Laís, a mulher do Boni, foi me denunciar para o pessoal do SNI, que ela conhecia, dizendo que eu era um toxicômano perigoso”).

Não é preciso inteligência privilegiada para perceber que o jogo de cumplicidade com o regime confundia-se com a luta interna pelo poder dentro da Globo, arbitrada por Marinho e envolvendo não apenas Clark e Boni, mas também o segundo escalão – Joe Wallach (que representou o grupo Time-Life – mais sobre ele AQUI), José Ulisses Alvarez Arce e, em especial, o diretor de jornalismo Armando Nogueira (todos eles estão na sugestiva foto acima). Esse último é pintado no livro como incompetente, preguiçoso e traiçoeiro. Em meio à guerra, as reuniões do conselho de direção nas manhãs de segunda-feira tornaram-se um inferno, em generalizado clima de intriga e discórdia, com todo mundo brigando com todo mundo. O dinheiro farto que todos ganhavam, contou Clark, “era como veneno, especialmente nas mãos das mulheres”. Munidas de talões de cheque, elas estrelavam “um festival de nouveau-richismo, pretensão e falta de educação”. Acusado de consumir drogas, Clark defendeu-se ao encarar a prática como generalizada: “a cocaína era chique nas festas intelecto-sociais, e o seu consumo, bastante disseminado”, mas “resolveram me transformar em drogado”.

Quando Marinho decidiu tomar “o brinquedo de volta” – ou seja, recuperar o controle da Globo, que “tinha emprestado para uns garotos mais moços brincarem” – uma das mãos firmemente agarradas ao tapete de Clark, segundo o livro, foi a do ministro da Justiça, Armando Falcão (na foto abaixo, ao lado do ditador Ernesto Geisel), “tipo deletério, que adorava fazer intrigas, dizer que éramos todos comunistas, drogados, os piores elementos”. No relato aparece um Roberto Marinho bem mais coerente na conspícua (e promíscua) aliança com o regime do que o autor chega a reconhecer explicitamente – tanto que o episódio no qual Clark é afinal defenestrado mistura, de forma reveladora, a disputa pelo poder no regime militar com aquela que se processava na Globo, escancarando as relações perigosas entre o governo e a rede de TV consolidada à sombra do autoritarismo.

O autor nega que o motivo de sua saída tenha sido, como se propalou na época, seu comportamento pessoal pouco ortodoxo (em razão de excessos alcoólicos) numa festinha com poderosos de Brasília. O livro atribuiu a demissão a queda de braço com o regime, que exigia o expurgo na Rede Globo da afiliada paranaense de Paulo Pimentel, político que rompera com o antigo protetor, ministro Ney Braga, e ainda era desafeto do chefe do SNI, general João Baptista Figueiredo, então a caminho da presidência (na foto à esquerda, já ditador, de braço dado com Marinho). Se assim foi, faltou a Clark reconhecer ter sido demitido na primeira vez em que de fato ousava contrariar os donos do poder. “Eu argumentava – escreveu ele – que o governo tinha o poder concedente dos canais de rádio e TV e, se quisesse atingir o Paulo (Pimentel), que cassasse a sua concessão e enfrentasse o desgaste político”. Mas Marinho, pragmático, pensava diferente – talvez sintonizado, naquele sombrio ano de 1977, com o clima incerto gerado por mais uma demonstração de força do regime, o Pacote de Abril.

Até veto de música no festival da canção

Clark nem sequer notou a semelhança desse episódio com tantos outros que marcaram a aliança promíscua da Globo com o poder – e nos quais ela se limitara a acatar a vontade do regime. Alguns de tais episódios, envolvendo a TV e autoridades militares, desfilaram ao longo de Campeão de Audiência: o ataque do general Muricy a um documentário da CBS (para ele, “subversivo”) sobre o Vietnã, comprado ironicamente pelo americano Wallach, do Time-Life (na foto, cochichando no ouvido de Roberto Marinho); o Jornal Nacional, no terceiro dia de sua existência, proibido por um coronel (Manoel Tavares) do gabinete do general Lira Tavares (membro da Junta que tomara o poder) de noticiar o sequestro do embaixador dos EUA e a doença de Costa e Silva, os dois principais assuntos; o aviso do general Sizeno Sarmento de que as músicas “Caminhando” e “América, América” estavam proibidas de ganhar o Festival Internacional da Canção; a ordem do general Orlando Geisel para as patriotadas de Amaral Neto serem incluídas no horário nobre; a prisão do próprio Clark pelo DOPS no dia do Ato 5, por ordem do coronel Luís França (em represália por ter ele discutido com o motorista do militar num incidente de trânsito).

Enfim, a especialidade da Globo era acomodar-se a cada situação. A acomodação prevaleceu ainda no dia da queda de Clark. Ele aceitou sem discutir o prêmio de consolação (US$ 2 milhões) oferecido por Marinho. E limitou-se a encomendar o texto da carta de demissão (“em alto  estilo… literário”) ao amigo Otto Lara Resende, suficientemente versátil para também escrever em seguida a resposta na qual o dono da Globo agradeceu os serviços prestados pelo demissionário (quatro anos depois Otto aceitaria também a missão de fazer o prefácio de Campeão de Audiência).

A demissão é uma espécie de anticlímax da autobiografia, na qual o autor assumiu compulsivamente a responsabilidade pelas iniciativas bem sucedidas da Globo, declarou-se adepto de programas de qualidade (mas o salto de audiência veio com os popularescos de baixo nível, de Raul Longras, Chacrinha [foto abaixo], Dercy Gonçalves, etc, bem na linha da atual pornografia BBB) e atribuiu o mal feito a outros – como os que mantiveram elevado o faturamento e a liderança absoluta de audiência nos anos seguintes, enquanto o próprio Clark, que na Globo tinha o maior salário do mundo (compre AQUI, por US$3,95, a notícia no New York Times sobre a demissão do brasileiro com o maior salário do mundo) e frequentava presidentes e ministros, descia ao fundo do poço, de fracasso em fracasso (como diretor de duas TVs, logo demitido, e produtor de dois filmes nos quais sequer se reconheceu sua contribuição, mais um espetáculo teatral altamente deficitário).

“Em 14 anos, depois de minha saída, o que houve de realmente novo?” – perguntou o autor naquele ano de 1991, referindo-se à Globo. Pouca coisa, talvez. Hoje, com a perda crescente de audiência para os concorrentes e sem os privilégios garantidos nos 20 anos de ditadura militar, ela está condenada a conformar-se com as regras da democracia e da competição. E passa a valer para a Globo a amarga reflexão pessoal de Clark no livro: “Não se deve cultivar excessivamente o poder, pendurar-se emocionalmente nele, porque um belo dia o poder acaba, e o dia seguinte é terrível”.

Published in: on abril 3, 2010 at 12:36 pm  Comments (12)  

O legado da CIA no Irã, Afeganistão e Paquistão

A imagem do herói no cavalo branco a salvar a mocinha das garras do vilão, seja este assaltante de banco ou índio em defesa de suas terras invadidas, é recorrente na ficção de Hollywood. O deputado Charlie Wilson (o da foto acima, entre os radicais afegãos em 1987) morreu, aos 76 anos, no dia 10 de fevereiro, certo de que era herói na vida real (mais sobre ele AQUI). Motivo: no Congresso injetou bilhões de dólares para financiar os que lutavam contra os russos no Afeganistão.

Ao morrer do coração Wilson já estava aposentado. Mas ele representou o Texas por 14 mandatos sucessivos na Câmara. Um livro (Charlie Wilson’s War – The Extraordinary Story of the Largest Covert Operation in History, de George Crile) e um filme (Charlie Wilson’s War, de Mike Nichols, com Tom Hanks no papel-título) o retrataram como herói.

A semana marcou ainda o 31° aniversário da revolução dos aiatolás do Irã, ocorrida apenas alguns meses antes da invasão do Afeganistão. Os iranianos derrubaram o regime do xá Reza Pahlevi, instalado em 1953 graças a golpe planejado pela mesma CIA que usou as verbas secretas do deputado Wilson para recrutar e armar os radicais islâmicos do lado paquistanês da fronteira com o Afeganistão.

O mínimo que se pode dizer é que no Irã, Afeganistão e Paquistão os EUA colhem hoje o que a CIA plantou com a colaboração de gente como o deputado Wilson (na foto, exibindo uma arma em seu gabinete – e, ao lado, a capa do livro que celebrou a “guerra de Charlie Wilson”). Osama Bin Laden foi treinado pela CIA para atacar os russos; gostou e atacou depois o World Trade Center em Nova York. E as bombas atômicas do Paquistão (real) e do Irã (hipotética) devem-se, ao menos em parte, a igual cortesia da CIA.

Um quarto de século para os donos do petróleo

A lambança atual no Afeganistão (largamente nas mãos dos radicais islâmicos usados pela CIA a partir de 1979), no Paquistão (onde a CIA instalou acampamentos para os ataques aos russos no país vizinho e encorajou o sonho paquistanês da bomba nuclear islâmica) e no Irã (que se nega hoje a abandonar o enriquecimento de urânio) reflete o passado irresponsável da espionagem dos EUA.

No Irã o golpe da CIA instalou o xá (foto ao lado – e mais sobre a trajetória dele AQUI) no lugar do premier nacionalista Mohamed Mossadegh, anulou a nacionalização do petróleo e com faustosa coroação em 1967 impôs a ficção do “trono de 2.500 anos”. As corporações anglo-americanas ganharam mais um quarto de século para explorar o petróleo do Irã, já que para isso a CIA também concebeu a tenebrosa Savak, serviço secreto celebrizado pelas câmaras de tortura.

Ainda naquela década de 1950 o Irã foi premiado pelo governo do presidente Eisenhower com relações muito especiais – que incluiram “acordo de cooperação nuclear para fins pacíficos”, deixando o país com alguma base para, em seguida à revolução dos aiatolás, assustar os EUA com a disposição de ampliar o programa nuclear e rumar para o enriquecimento de urânio.

Para o Irã submisso de Reza Pahlevi, nada era bom demais: além de favorecer o desenvolvimento nuclear, Washington ainda dotou o país de armas sofisticadas e modernizou a máquina da repressão – tudo pago com a receita do petróleo, que regalou nos EUA as indústrias de armas, aeronáutica, nuclear e de segurança. Só que hoje, tomado pelos rebeldes radicalizados nas câmaras de tortura, o Irã é outro.

Helms & Pahlevi: a intimidade promíscua

De tal forma o Irã do xá era criatura da CIA que no final de 1973 o presidente Nixon concluiu que ninguém melhor para ser embaixador em Teerá do que o próprio diretor da central de espionagem, Richard Helms – “dada a intimidade dele com o xá”, explicou (veja-o ao lado na capa da revista Time em 1967). Como se fosse o posto final de uma carreira de sucesso na CIA, dirigida por Helms durante quase sete anos, antes dos três que passou no Irã.

Com a contribuição do deputado Charlie Wilson, anticomunista meio fanático, o capítulo Afeganistão-Paquistão foi ainda mais vivo, excitante e insólito – ou colorful, para usar adjetivo talvez mais apropriado à conduta do parlamentar, um playboy excêntrico que quando não estava “salvando o mundo” da “ameaça vermelha” dedicava-se ao consumo de álcool e drogas com prostitutas de luxo.

Ele ficou obviamente encantado com os relatos do livro e do filme (no cartaz, ao lado, o trio central: Wilson, a namorada e o homem da CIA) que o tornaram celebridade. Seu papel pode ter sido singular pelo conhecimento de sutilezas do processo legislativo na Câmara, onde integrava a comissão de verbas (appropriations) e sua subcomissão sobre operações no exterior – além de cultivar contatos na comissão que supervisiona a espionagem.

Não só estava familiarizado com mecanismos e artifícios para ocultar a destinação de recursos. Também revelara-se mestre na troca de favores com colegas interessados em abocanhar verbas para projetos de seus distritos eleitorais. Certos especialistas acham que hoje teria mais dificuldades: o processo legislativo sofreu reformas depois, reduzindo – em nome da transparência – a prática do sigilo (saiba mais AQUI).

Forçando a URSS a invadir o Afeganistão

O fato é que Wilson começou por canalizar uma verba de US$ 5 milhões para os radicais afegãos. E no fim da década de 1980 aqueles recursos elevavam-se a nada menos de US$ 750 milhões por ano. Pode ter sido ajudado por pertencer ao partido da oposição (democrata) numa década dominada por governos republicanos (Reagan e Bush I) obstinados em estender ainda mais as ações militares dos EUA pelo mundo.

No Afeganistão e Paquistão, sabe-se hoje, a lambança foi bipartidária – devido a armadilha do governo do presidente democrata Jimmy Carter. Seu assessor de segurança nacional na Casa Branca, Zbigniew Brzezinski (a foto ao lado é dos dois), confessaria 20 anos depois ter atraído a URSS para a idéia de invadir o Afeganistão. A invasão veio a 24 de dezembro de 1979, após seis meses de ajuda crescente da CIA aos rebeldes radicais.

Em entrevista à Nouvel Observateur de Paris em 1998 (leia AQUI), Brzezinski vangloriou-se de seu papel: “Carter assinou a 3 de julho de 1979 a primeira diretiva (à CIA) para a ajuda secreta aos opositores do regime pro-soviético de Kabul. Naquele dia eu tinha enviado nota ao presidente na qual expliquei que, na minha opinião, tal ajuda americana iria levar a uma intervenção militar soviética”.

Quando o jornalista perguntou se a ação clandestina dos EUA tivera a intenção de provocar a invasão russa, Brzezinski amenizou: “Não provocamos os russos para que invadissem, mas ampliamos conscientemente a probabilidade de que isso viesse a ocorrer”. No dia em que os russos cruzaram a fronteira, disse, escreveu de novo a Carter: “Agora temos a oportunidade de dar aos soviéticos o Vietnã deles”.

Brzezinski contestou, assim, a tese republicana que atribui a Reagan a glória pelo fim da URSS. “Durante quase 10 anos a URSS amargou guerra insuportável – um conflito que trouxe a desmoralização e, afinal, a dissolução do império soviético”, alegou. Mas o exagero é comparável ao do mérito republicano. O desfecho, após meio século, deveu-se aos dois partidos e muita gente mais – inclusive os que erraram tanto na URSS.

De “combatentes da liberdade” a “terroristas”

As avaliações atuais tentam ignorar os efeitos negativos das ações da espionagem. Ao financiar, treinar e armar (até com mísseis Stinger, capazes de destruir aviões em vôo) os radicais que batizou de “combatentes da liberdade” a CIA extremou as ambições deles. Hoje ela os repudia como “terroristas”, indiferente ao fato de que são os mesmos – e aprenderam o que sabem na CIA, em especial a pensar o impensável, como atacar o coração do império americano.

Com os russos fora do Afeganistão os EUA deixaram o país para os radicais que a CIA diplomou em terrorismo. Com armas como o Stinger, os talibãs tomaram o poder e ficaram até 2001 (hoje lutam contra tropas da OTAN). Bin Laden, saudita de nascimento, ainda dirige de lá a al-Qaeda, que opera no mundo a partir do território afegão. A CIA ainda tenta “recomprar” Stinger mas nem sabe quantos distribuiu – a estimativa vai de 500 a 2.000.

O deputado Wilson, ao invés de herói, foi cúmplice das trapalhadas. Livro e filme dizem que agia com assistência da CIA. A culpa dos EUA e sua agência ia mais longe na relação promíscua com o general-ditador paquistanês Zia-ul-Haq, que em troca do apoio à operação na fronteira afegã obteve luz verde e deu carta branca ao construtor da bomba atômica islâmica, o cientista Abdul Qadeer Khan.

No desdobramento, a receita da bomba-A do Paquistão (saiba mais sobre ela AQUI) foi parar no Irã, Coréia do Norte, Líbia e talvez outros. Assim, além de fazer a “guerra (sem fronteiras) ao terrorismo” e lutar no Afeganistão contra os que antes chamava de “combatentes da liberdade”, os EUA hoje têm de vigiar o Dr. Khan, o serviço secreto (ISI) do Paquistão, os progressos nucleares do Irã e da Coréia do Norte e sabe-se-lá-mais-o-que.

A própria CIA adotou a expressão blowback para designar os efeitos opostos ao que pretendia em cada uma de suas operações clandestinas. A palavra (usada no título do livro da capa ao lado, no qual Chalmers Johnson analisou os custos e consequências do império americano) apareceu pela primeira vez em relatório secreto de 1954 sobre o golpe da CIA no Irã (leia explicação do autor AQUI). O blowback da derrubada de Mossadegh foi a tirania de 25 anos e a revolução (antiamericana) dos aiatolás. Já em relação ao Afeganistão, os ataques do 11/9 nos EUA tendem a ficar na história como o efeito mais devastador.

(Clique abaixo para saber mais sobre o Irã desde o golpe de 1953)
Published in: on fevereiro 16, 2010 at 1:54 pm  Comments (10)  

FHC e a guerra fria cultural da CIA

O blog do Nassif tem seu Ubaldo paranóico, inspirado no personagem do Henfil. Poderia esconder-se debaixo da cama mas ao invés disso prefere desautorizar teorias conspiratórias. E, com razão, não se conforma com o boato selvagem na internet de que o excelente livro Quem pagou a conta? – A CIA e a guerra fria da cultura, de Frances Stonor Saunders, prova que o Cebrap de FHC foi financiado pela CIA usando a Fundação Ford (FF).

O que me surpreendeu ao ser lançada a tradução brasileira desse livro, bem pesquisado, bem escrito e bem editado, foi o atraso de quase 10 anos no lançamento (minha edição em inglês é de 1999). Na ocasião, 2008, escrevi sobre o assunto, na Tribuna da Imprensa. Mesmo sem qualquer simpatia pelo PSDB ou pelo governo FHC, para mim estava claro que a FF, largamente citada, não era apontada ali como tendo canalizado dinheiro da CIA para grupos ou instituições no Brasil. O livro sequer levanta suspeita de que o Cebrap recebeu verbas da espionagem via FF.

A denúncia veio de alguém que fez a seguinte ilação: 1. o livro diz que a Fundação Ford era uma das instituições que canalizavam secretamente dinheiro da CIA para a área cultural, sem deixar impressões digitais da agência (o que é verdade); 2. o Cebrap tinha recebido recursos da Fundação em 1969 (o que é verdade); 3. logo, o Cebrap recebera dinheiro da CIA.

Ora, o Brasil e o Cebrap (ou FHC) não entraram na pesquisa de Saunders. O que a autora devassou pacientemente, com base em documentos até então protegidos pelo sigilo, foi o amplo esquema de corrupção – com verbas secretas via fundações legítimas ou entidades fantasmas – de intelectuais e instituições culturais. A CIA montou o esquema principalmente a partir do CCF (Congresso pela Liberdade Cultural), notório instrumento anticomunista da agência na guerra fria.

A ameaça vermelha e a caça às bruxas

Saunders documentou sistematicamente o que afirma. Antes já se sabia alguma coisa. Em 1989 fiz muitas referências, no livro Caça às Bruxas – Macartismo, uma tragédia americana, à ação secreta da CIA na área cultural e a intelectuais que se somaram à histeria da “ameaça vermelha”, como Irving Kristol, Gertrude Himmelfarb, Norman Podhoretz, Midge Decter, Sidney Hook, Stephen Spender, etc.

Famílias até então respeitadas no meio cultural faturavam bom dinheiro, sabendo ou não que vinha da CIA. Muita gente jurou depois que ignorava a origem – já que às vezes a fonte real não era identificada. O escândalo estourou em 1967, graças a denúncia da revista Ramparts (mais sobre ela AQUI, AQUI e AQUI), da nova esquerda, então perseguida de forma implacável pela CIA. O mérito de Saunders foi mergulhar posteriormente nos papéis secretos liberados e apurar toda a trama.

O título original do livro é quase o mesmo do Brasil, Who paid the piper? – The cultural cold war: the CIA and the world of arts and letters. Mas a autora concentrou-se nos nomes da cultura norte-americana e européia cooptados pela espionagem na guerra fria cultural – por sinal, muitos sobrenomes reapareceram no movimento neoconservador infiltrado no governo de George W. Bush.

Bill Kristol, filho do casal Irving Kristol-Gertrude Himmelfarb é um deles: foi o primeiro, na capa da revista política Weekly Standard (do império Murdoch de mídia), da qual é editor, a exigir a invasão do Iraque depois do 11/9. O pai dele, Irving, que criou o “neoconservadorismo”, dirigia a principal revista de cultura inventada às escondidas pela CIA, a internacional Encounter, de confecção esmerada – e muito respeitada, até se descobrir quem a financiava (mais sobre ele AQUI).

O dinheiro fácil da “OTAN cultural”

Claro que não excluo a hipótese de ter a Fundação Ford repassado verbas da CIA ao Cebrap em 1969, como alguns alegam. Mas o período coberto pelo livro só vai de 1950 a 1967 – ano da denúncia de Ramparts (veja abaixo uma de suas capas mais vigorosas e conheça outras AQUI), que provocou mudanças nos projetos “culturais”. Assim, a suposta conexão CIA-FF-Cebrap nunca foi objeto do estudo de Saunders, por estar fora tanto daquele período como da área geográfica coberta (EUA-Europa).

Chamou-se a isso “OTAN cultural” (e “contenção cultural”). Só incluía EUA e os aliados do Tratado do Atlântico Norte na guerra fria. América Latina não. Saunders devassou em especial a “família mundial das revistas” do CCF: a nobre Encounter, sediada em Londres, Partisan Review, Kenyon Review, Hudson Review, Sewanee Review, Poetry, The Journal of the History of Ideas, Daedalus.

Esse supermercado de compra e venda de idéias, cultura e intelectuais foi criado pela CIA mediante uma teia de organizações, algumas criadas especificamente para esse fim por espiões como o mefistofélico C. D. Jackson, especialista em guerra psicológica que reinou um tempo no grupo Time-Life e foi assistente especial do presidente Eisenhower (fazia a ligação entre Eisenhower e a CIA).

Saunders mergulhou nesse submundo com competência e talento, daí minha estranheza quando alguém alega ter desistido de ler o livro ao verificar que não se referia ao Cebrap de FHC. Ora, a história é fascinante: expõe a receita para corromper intelectuais. Até ideológicos de esquerda, como certos trotskistas, que adoraram a chance de atacar Stalin e ainda serem bem pagos para isso.

A América Latina, fora da jurisdição, passou a interessar só depois de Fidel Castro chegar ao poder. De qualquer forma, Saunders fala brevemente do hemisfério sul no capítulo 21, “Caesar of Argentina”, com informações tímidas. O poeta Robert Lowell ganhara do CCF passagem (de navio) para vir à América do Sul (sua amiga Elizabeth Bishop estava no Rio, certamente na casa de Lotta Macedo Soares).

A controvérsia da revista Mundo Nuevo

Cabia a Keith Botsford, que por três anos representou o CCF na América Latina, com base no Rio, uma mal-disfarçada tarefa de espionagem. Ele avisou seu superior John Hunt que para os intelectuais brasileiros a entidade era “instrumento ianque”, por isso seria melhor o CCF tornar-se mais discreto, modesto e até “invisível”, só dando apoio a projetos que tivessem forte respaldo local.

Hunt discordou. Advertiu Botsford de que nenhuma área do mundo devia ser negligenciada na heróica luta contra o comunismo ateu. O CCF estava em plena campanha para impedir que se desse o prêmio Nobel a Pablo Neruda. Depois, em meio às intrigas da guerra cultural em 1963-64, aconteceu o pior: o Nobel não foi para o poeta chileno mas para Jean Paul Sartre, alvo prioritário do CCF – e Sartre o recusou.

Estranho, para mim, foi Saunders não ter citado no livro a Mundo Nuevo, revista de cultura latino-americana editada em Paris com dinheiro da CIA – via CCF e outras fundações, para ocultar a fonte real dos recursos. Na década de 1960 comprei alguns números em livraria do Rio. Num deles li Gabriel Garcia Márquez (foto ao lado) pela primeira vez – um trecho extraído do até então inédito Cem Anos de Solidão.

Sempre quis saber mais sobre Mundo Nuevo. Só recentemente encontrei afinal uma dissertação acadêmica (Universidade do Texas, Austin, 2007, 260 páginas) do americano Russell St. Clair Cobb. Título: “Mundo Nuevo”, a revolução cubana e a política da liberdade cultural (leia em inglês AQUI e saiba mais AQUI). O autor cita o patrocínio da CIA (via CCF), exalta a qualidade da revista e discorda dos que subestimam o papel da espionagem.

Mundo Nuevo, segundo Cobb, “publicou ensaios, entrevistas e ficção de autores como Garcia Márquez, Carlos Fuentes e Guillermo Cabrera Infante. Tornou-se motivo de controvérsia ao ser descoberta a ação oculta da CIA”. Atacada pelos intelectuais cubanos como “propaganda imperialista” dos EUA, foi defendida por seu diretor, Emir Rodríguez Monegal. Alegou ele tratar-se de “uma revista de diálogo”.

“O bastião contra a revolução cubana”

Ficou difícil, para Monegal (foto ao lado), convencer outros de que a revista era “desinteressada e sem compromisso político”. Como fica claro hoje no material dos arquivos do CCF, afirmou Cobb, Mundo Nuevo foi criada na guerra fria cultural “para ser um bastião contra a revolução cubana. Usava a retórica da literatura descomprometida e cosmopolita para se contrapor ao modelo revolucionário da literatura engajada”.

Não se deve perder de vista que ao esconder obsessivamente seu papel mediante artifícios e canais de lavagem de dinheiro a CIA implicitamente reconhecia a imoralidade de sua intromissão para “dirigir” o debate cultural. Já o caso Cebrap-FHC é outra coisa, pois em 1969 o escândalo já tinha forçado a espionagem, que antes usava a FF como canal, a no mínimo mudar os truques na área cultural.

Se alguém acha que dinheiro canalizado pela FF para o Cebrap vinha mesmo da CIA, terá de fazer sua própria pesquisa para provar. A fundação foi criada de certa forma para melhorar a imagem da família (e da indústria), prejudicada pelo anti-semitismo do primeiro Henry Ford. Ultimamente é alvo à esquerda e à direita. Se não me engano, até Henry Ford II a criticou uma vez por desvio anticapitalista.

A FF de fato prestava-se à espionagem, num papel sujo, legitimando o que se fazia num período vergonhoso da sociedade americana – o da caça às bruxas. Mas teve também outro papel. Financiou o grupo Fund for the Republic, no projeto da primeira grande pesquisa a expor a caça às bruxas e as listas negras no cinema e no rádio – o que resultou, em 1956, nos dois volumes de Report on Blacklisting, de John Cogley (capa ao lado).

Published in: on janeiro 19, 2010 at 10:41 pm  Comments (16)  

O Haiti antes e depois da tragédia

Certas coisas que nos atormentam tornam-se menores, até insignificantes, diante de uma tragédia como a que golpeou o povo haitiano. Acompanhamos o quadro chocante também por estarmos mais próximos desse país graças ao papel relevante do Brasil na força de paz da ONU, onde são elevadas nossas baixas – ainda que seja bem mais dramático o custo em vidas humanas dos própros haitianos.

A morte da dra. Zilda Arns emocionou o Brasil por sua história de vida e pelo trabalho humanitário ao longo de muito tempo. Nas últimas horas o secretário geral Ban Ki-Moon confirmou as mortes do tunisino Hedi Annabi (foto abaixo), Representante Especial da ONU no Haiti, e de seu adjunto e número dois à frente da missão, Luiz Carlos da Costa (foto do alto, condecorando soldados de operação de paz), um dos brasileiros mais graduados e experientes nos quadros da ONU. (Leia AQUI a declaração do secretário geral)

Os dois estavam familiarizados com as missões em pontos conturbados do mundo. Antes cabia a Da Costa (como era chamado) na sede de Nova York planejar cada uma delas conforme a situação específica do país, criando os cargos e escolhendo, dentro ou fora da ONU, pessoas capazes para ocupá-los. O desaparecimento dele no dia do terremoto já levara o secretário geral a nomear, para o lugar de Annabi, Edmond Mulet, que o antecedera.

O nível dos três no quadro é de secretário geral assistente. Curiosamente, nos últimos dias emails estavam sendo disparados por um grupo político no Brasil com ataques levianos à missão de estabilização no Haiti, Minustah – criticada como ineficaz e inoperante. Na verdade, seus prédios tinham sido destruídos no terremoto e suas autoridades maiores, Annabi e Da Costa, já estavam mortos.

Como Peter Sellers em “Being There”

Convivi alguns anos no prédio da ONU com gente dedicada que serve em tais missões. A jornalista brasileira Sonia Nolasco, esteve em Timor Leste e depois no Haiti. Já não estava lá no dia do terremoto. Em resposta a um email, explicou: “Por acaso estou aqui em Nova York, rezando por meus colegas. Nosso prédio desabou”. Antiga colega de redação no Rio, foi para os EUA em 1973, onde casou com Paulo Francis, seu namorado na juventude.

Os dois sempre moraram a uma quadra da sede da ONU, frequentado por Sonia como correspondente de jornais do Brasil. Algum tempo depois da morte do marido, ela decidiu servir em missões que exigiam sacrifício pessoal. Outro brasileiro, Manoel de Almeida e Silva, foi porta-voz muito tempo do secretário geral Kofi Annan e depois serviu mais de três anos na também caótica missão do Afeganistão.

O departamento de operações de manutenção da paz (peacekeeping) é um dos mais ativos da ONU. O jornalista James Traub, especialista em política externa que escreve para o New York Times, sabia bem como atuava com Annabi e Da Costa. Em artigo para o website Daily Beast (leia AQUI) observou: “Num filme, George Clooney poderia interpretar Sérgio Vieira de Mello. Mas não Annabi, tunisino seco, às vezes obscuro e cético mas nunca cínico. Seria um papel mais para o Peter Sellers de Being There”.

Traub uma vez ouviu o relato de Annabi (mais sobre ele AQUI) sobre encontro com delegação dos EUA após o Conselho de Segurança decidir em 2000 despachar soldados contra os assassinos psicopatas que tentavam depor o governo de Sierra Leone. “O que o senhor fará naquela confusão?”, perguntou alguém. E Annadi: “Vocês vieram me dizer como consertar aquilo com tropas que não estão me dando ou vão me ajudar a encontrar um meio de resolver a coisa? Se for o primeiro caso, a reunião será curta”.

Aquela maldição de Pat Robertson

A visita da secretária de Estado Hillary Clinton ao Haiti neste fim de semana busca dar ênfase ao empenho do presidente Barack Obama, que tem falado ao país diariamente sobre a tragédia e chamou Bill Clinton e George W. Bush para um esforço extra. Mas nos EUA é notória e chega a ser constrangedora a insensibilidade de personalidades, políticos e profissionais da mídia em relação ao Haiti. Quatro nomes destacaram-se negativamente nos últimos dias.

O primeiro foi o conspícuo tele-evangelista Pat Robertson (foto ao lado). Criador da notória Coalizão Cristã, esse reverendo fundamentalista disputou em 1988 as primárias do Partido Republicano como candidato à Casa Branca. Não emplacou. Mas como ex-dono de um canal de cabo o pastor Robertson continua influente no partido graças a seu programa de TV “Clube dos 700”, financiado por milionários republicanos.

Apesar de se julgar teólogo, filósofo e sábio, Robertson é capaz de asneiras monumentais. No último dia 13 declarou que a causa da pobreza e das tragédias do Haiti é um pacto com o diabo feito há dois séculos pelos escravos negros: em troca da vitória deles na rebelião de 1804 contra a escravidão e o controle dos colonos franceses, segundo a versão, passaram a servir ao senhor das trevas – e por isso foram amaldiçoados (saiba mais AQUI e AQUI).

Tal idiotice virou tema de debates em talk shows das redes de TV a cabo dos EUA. No passado o mesmo Robertson vendeu milhares de fitas VHS acusando o casal Clinton de homicídio, conclamou ao assassinato de Hugo Chávez, chamou o profeta Maomé de terrorista, ganhou mina de ouro do ditador liberiano Charles Taylor (hoje acusado de crimes de guerra) e disse que o 11/9 foi castigo divino por causa das feministas, dos gays e do aborto.

Os ‘iluminados’ e uma velha receita

Há mais “iluminados”, além de Robertson, determinados a sabotar na mídia a campanha em favor de doações às vítimas do Haiti. Rush Limbaugh (ao lado), extremista de direita e rei dos talk shows de rádio, conclamou as pessoas a negarem doações. “Já doamos antes. (…) Chega de jogar dinheiro fora”. E dois conservadores – Bill O’Reilly, da Fox News, e David Brooks, do New York Times – apresentaram suas próprias receitas mágicas. (E eles frequentam capas de revistas, como as reproduzidas aqui).

A receita de O’Reilly (veja-o na capa de Parade, à direita) é risível, digna do mau jornalismo do império Murdoch. Para ele, a cura dos problemas econômicos e sociais do Haiti consiste em impor disciplina aos haitianos. “Metade da população é analfabeta, o desemprego é 50%, as pessoas vivem com menos de US$2 por dia. Nenhuma caridade será suficiente e boas intenções não resolvem. O Haiti continuará caótico até se impor disciplina a eles”.

Já a receita “civilizada” de Brooks é contra a “cultura resistente ao progresso”. Ele explicou: “É hora de promover ali o ‘paternalismo dirigido’. Tentamos primeiro o combate à pobreza espalhando dinheiro, tal como fizemos em outros países. Depois, os esforços microcomunitários, como também fizemos em outras partes. Mas os programas que realmente funcionam envolvem paternalismo intrusivo”.

Ao expor esses dados o crítico de mídia Steve Rendall apelou para um grupo de direitos humanos, que ofereceu esta conclusão: “a receita do ‘paternalismo intrusivo’ para ‘consertar a cultura’ foi a política dos EUA no Haiti nos últimos 100 anos: ocupação militar brutal (1915-34); apoio à ditadura (1957-86); e, recentemente, a imposição de políticas comerciais que empobreceram ainda mais o povo. É preciso consertar não a cultura haitiana mas as políticas dos que só ajudam a si próprios. Elas é que deixaram milhares de haitianos literalmente enterrados vivos” (leia o original AQUI).

Published in: on janeiro 17, 2010 at 11:34 am  Comments (5)  

Dalva, Herivelto e a polêmica da mini-série

Como expliquei no blog de Luis Nassif (leia AQUI e AQUI), infelizmente – por razões diversas – não pude ver a mini-série da Rede Globo sobre Dalva de Oliveira e Herivelto Martins (na foto acima, os atores Adriana Esteve e Fábio Assumpção; abaixo, os personagens da vida real). No passado, como milhões de brasileiros, também acompanhei aquela briga musical. Hoje acho saudável o empenho da Globo em investir na história de nossa música popular (mesmo com eventuais tropeços, às vezes inevitáveis) como também partirmos, na nossa análise, de uma visão cética ao examinar a veracidade ou não do que nos é contado na TV.

Um comentário no blog do Nassif alegou que Herivelto, apesar de “grande sambista, grande compositor e grande músico”, foi um “grande canalha”. De certa forma foi essa a imagem maniqueista e provavelmente injusta que ficou da briga do casal. Mas a conclusão do comentarista pareceu-me reveladora. Disse ter chegado a ela “com base nas informações da maior testemunha de toda essa história: o filho mais velho do casal, Pery Ribeiro”.

Ora, ele se referia às conclusões do livro assinado por Pery Ribeiro e sua ex-mulher Ana Duarte. Um livro publicado às pressas pela editora Globo, subsidiária da mesma corporação cuja rede de TV produziu a série, para a mesma jogada de marketing. Nada contra a sinergia dos impérios de mídia, sempre boa receita para fazer muito dinheiro. Mas terá mesmo o Pery Ribeiro escrito o livro? E se escreveu, será ele testemunha confiável?

À época da briga do casal Pery tinha uns cinco anos, creio, e morava com a mãe. Já adulto, passou a dar palpites até sobre a visita ao Brasil do cineasta Orson Welles, numa época em que era quase bebê. Num filme sobre a visita de Welles, Pery “testemunhou” como se lembrasse de tudo, embora a única relação dele com o fato fosse o detalhe de ser filho de Herivelto, que assessorava o cineasta em matéria de música, samba, carnaval, etc. Aliás, pelo que sei, não houve qualquer referência na mini-série àquele episódio.

Seria bom saber que tipo de pesquisa fez Pery ou Ana Duarte para produzir o livro bancado pela editora e pela mini-série. Jonas Vieira, jornalista e pesquisador de nossa música popular, fez juntamente com Natalício Norberto, o único livro em que o lado de Herivelto de fato apareceu. Se eu fosse o Jonas, a esta altura estaria procurando um advogado para processar eventuais plagiários que podem ter faturado muito surrupiando o que só ele e Norberto apuraram – e, pior, tomando o partido do outro lado.

Num programa de duas horas na Rádio Roquette Pinto do Rio de Janeiro o Jonas já ofereceu sua análise crítica da mini-série. Tem autoridade para isso: o último depoimento do compositor foi feito a ele, para o livro Herivelto Martins, uma escola de samba (capa ao lado), lançado em 1992, poucas semanas antes de sua morte naquele mesmo ano (uma reedição revista e ampliada está prevista para as próximas semanas).

A visão bem fundamentada de Jonas aparentemente entra em choque com o relato oportunista da Globo, que no fundo limitou-se a perpetuar a impressão dada na época pela cobertura leviana da mídia. Impressão que obviamente seria ainda a da testemunha não confiável (por ser criança e vítima da separação), que no máximo daria um bom estudo psicanalítico sobre os efeitos nocivos das brigas de casal e da má conduta da imprensa.

Jonas também foi minucioso e enfático ao analisar o assunto no seu programa da Roquette Pinto, “Rádio Memória”. Expôs um amontoado de erros grosseiros da mini-série – citando até personagens reais que eram negros e na Globo viraram brancos de olhos azuis (que diabo, Ali Kamel, somos ou não racistas?). Os interessados podem ouvir a gravação no website da rádio (AQUI), conferir a continuação no próximo domingo e talvez ainda no seguinte, com muita música, selecionada por Jonas com extremo cuidado.

Entre quase três dezenas de comentários (muitos deles interessantes e reveladores) sobre a mini-série Dalva-Herivelto no blog do Nassif, preferi incluir aqui apenas o de Lu Dias BH, que também me escreveu. É o que transcrevo abaixo, antes de incluir minha última intervenção, sugerindo que se deixe para a sensatez dela a palavra final.

ATÉ ONDE HERIVELTO É CULPADO?
Lu Dias BH

É fato, que os espectadores da minissérie, que trouxe à tona a vida turbulenta do casal artístico Dalva de Oliveira e Herivelto Martins, em sua maioria, tomaram o partido de Dalva. Isso acontece, porque somos muito mais, movidos pelos sentimentos, de que pela razão. Mas, até que ponto o outro é responsável por nossas atitudes, por nossa maneira de sentir o mundo e agir?

Não é fácil bloquear ou romper nossas relações, uma vez, que o relacionamento é a essência do existir. Por isso, o ato de cortar relações foge à natureza humana, tornando-se uma atitude hostil à realidade. Quando isso acontece, de certa forma, prejudica todos os envolvidos. Todo rompimento traz sangramento, assim como acontece com qualquer órgão de nosso corpo. É uma perda de energia, mesmo que, em longo prazo, ela possa nos fazer bem.

Não podemos negar que, na vida, todos os seres sofrem. Mas, a verdade é que uns sofrem bem mais de que outros. A indagação a ser feita é por que uns sofrem mais e outros menos. Suponhamos que Emilinha Borba ou Marlene estivesse no lugar de Dalva. O sofrimento teria sido o mesmo? E por quê?

Sinto que certas predisposições biológicas tornam-nos mais ou menos afeitos ao sofrimento. De forma que, cada um, reage diferentemente. E, ninguém pode nos tornar tal fardo mais leve, a não ser nós mesmos. Como fazer isso é uma tarefa que nos cabe, individualmente.

Não é possível negar que fazemos mal, uns aos outros. Assim como não podemos negar que as conseqüências do mal recebido, variam de conformidade com o receptor. Ele é o responsável por colocar sua dor ao sol e fazê-la secar, reduzindo-a ao pó. Ou colocá-la na água com fermento, alimentando-a para que cresça e frutifique. A opção é pessoal. E, por isso, diminui a capacidade de o observador fortuito analisar o responsável maior, por esse ou aquele sofrimento.

A cultura humana ensina que o mal maior é aquele, que recebemos, e não o que fazemos ao outro. A nossa avaliação é, portanto, muito mais exterior que interior. Por isso, eu me pergunto se, o nosso sofrimento, muitas vezes, não é uma forma inconsciente de punir o outro, que julgamos não ter o direito de nos ter feito sofrer? Vemos isso, principalmente, nas relações entre casais, ou entre familiares. Enquanto esquecem, com facilidade, o sofrimento a eles impingido, por estranhos, têm dificuldade em esquecer o que lhes é direcionado pelos que amam.

A paixão tem a capacidade de nos toldar a razão e de nos cobrir com o manto da ignorância. Não me refiro apenas à falta de conhecimento, mas, também, à incapacidade que adquirimos de ver, ouvir e sentir, de modo a negarmos a realidade, em que estamos inseridos.

Uma união em desequilíbrio não é só prejudicial aos atores principais, como a todos que estão à volta. Se, não é possível reformá-la, o melhor é desfazer-se dela. Sem falar que, nenhum dos cônjuges pode, em sã consciência, comprometer-se com a durabilidade dos sentimentos, que o levou a se unir ao outro.

Quando, um dos lados opta por deixar o relacionamento, seja lá qual for o motivo, o outro nada pode fazer, a não ser aceitar e continuar buscando a sua felicidade, em outra seara. Talvez, seja isso o que a nossa querida estrela devesse ter feito, uma vez que Herivelto sacrificara o amor que tinha por ela, em função do machismo que carregava. Postura que carregou até à morte da cantora.

Dalva era uma mulher vibrante, batalhadora e moderna demais para a época. Enquanto, Herivelto ainda se apegava à falsa moralidade de que o homem podia fazer tudo sem manchar o nome, mas, qualquer coisa maculava o “sexo frágil”. Ele era, apenas, fruto dos preconceitos de seu tempo. Sem falar, que o sucesso de Dalva pesava sobre o seu machismo. Ela era a grande diva do Trio de Ouro. Um casamento não poderia sobreviver a tamanho descompasso.

Ainda, com a emoção à flor da pele, podemos condenar Herivelto. Mas, não podemos lhe imputar a obrigação de ter continuado, num relacionamento que não mais lhe dava satisfação, quaisquer que sejam as suas causas pessoais. O fato de Dalva não ter aceitado a separação e sofrido em conseqüência dela, não o torna melhor ou pior.

O sofrimento de Dalva foi uma escolha pessoal. Herivelto não pode ser culpabilizado, por ela não ter superado o desenlace amoroso. Ele não queria mais continuar preso àquela união. E ninguém pode o julgar por isso. Podemos questionar a sua conduta, no acirramento da discórdia. Mas, jamais pelo fato de ter se separado da cantora.

Como observadores atentos e justos, não podemos simplificar ou intensificar a complexidade da relação do casal Oliveira Martins, sem que compreendamos, primeiro, o contexto em que, cada um, se encontrava inserido, levando em conta o modo diferente como viam a moralidade da época.

Ouso pensar, que a não aceitação de se separar de Herivelto, teve um complicador maior, no caso de Dalva: o sentimento de rejeição. Coloquem-se na posição de uma mulher rica, importante, famosa no país inteiro, desejada por muitos homens, sendo trocada por outra, aparentemente desconhecida. O sentimento de rejeição mexeu com a auto-estima da cantora, apesar de todas as batalhas vencidas. Ela tinha tudo, menos o amor “daquele homem”. E era ele, quem ela desejava, para sua infelicidade.

Todo drama é, no fundo, fruto de um amor mal dirigido, o desejo desordenado de um bem, que não mais se tem e, em que se perde a essência do amor, para se deter apenas na sua causa. Qualquer tipo de paixão extrema destrói e devora. É a anulação do sujeito em função do objeto de seu desejo. É o deixar-se engolir, por inteiro, por sentimentos e circunstâncias. É a incapacidade de elevar-se acima da própria dor. E, por mais que saibamos disso, sempre caímos na mesma armadilha.

Ainda que, inconscientemente, é possível deduzir, que Dalva optou pela postura de vítima, a ponto de se colocar na mão de um homem, que já se encontrava, definitivamente, com outra. Esquecendo-se de que era uma cantora deslumbrante, que arrebatava o país e outros cantos do mundo. Ela não conseguiu se fortalecer, diante dos obstáculos enfrentados, nessa união tumultuada, permitindo que Herivelto determinasse a qualidade de sua vida interior, como se houvesse lhe entregado as chaves de seu destino, quer pro bem, quer pro mal.

De Argemiro Ferreira a Luis Nassif

Caro Nassif,

A palavra final sobre esse debate Herivelto-Dalva bem que poderia ser essa análise sensível de Lu Dias BH. Sem tomar partido, ela soube entender os dois lados, como também medir com precisão os efeitos dos preconceitos da época, a conduta leviana da mídia, a manipulação, etc.

Esclareço aos que participaram da discussão e aos demais leitores que o título “Reabilitando Herivelto Martins” deve ser aplicado não a mim, mas a Jonas Vieira. O mérito, no esforço de reabilitação, é dele – com a reedição de seu livro (com Natalício Norberto) Herivelto Martins – uma escola de samba, ampliado e com capítulos novos. Apenas chamei atenção para o esforço dele. Coube a Jonas trazer contribuição fundamental, ao ouvir a palavra do próprio compositor em 1992, poucas semanas antes de sua morte.

É injusta a redução maniqueista que acabou prevalecendo por muitos anos, com o retrato da cantora como vítima e do compositor como vilão desalmado. Grande cantor mas canalha, escreveu alguém. Hoje há mais discernimento, não se justifica voltar aos clichês explorados na mídia da época – do marido “corneado” ou da mulher “pecadora”.

Respeitar e admirar o talento do compositor e da cantora, buscar entender os dois lados da briga e os sentimentos de cada um naquele tempo marcado pelo preconceito e pela misoginia – como tentou fazer lu dias bh – é a única coisa sensata a fazer. A música popular saiu ganhando com a briga do casal mas o compositor e a cantora foram igualmente golpeados e feridos.

Ao invés de ter sido a “pecadora” dos boleros (ou das letras de David Nasser), ela na verdade foi uma mulher corajosa e à frente de seu tempo. Sofreu com isso. Ele, ao invés de ter sido um “canalha”, ficou condenado a conviver com o preconceito que o diminuia num mundo machista. Resquícios dessas coisas apareceram no debate – e estou pronto a me penitenciar se contribuí para isso.

Também não tentei subestimar Pery Ribeiro, apenas manifestar a opinião de que um trabalho de pesquisa profissional seria mais confiável como base para a mini-série. Incomodou-me, ao mesmo tempo, o fato de Pery ter aparecido num filme sobre a visita de Orson Welles ao Brasil, pois ali nada dizia de minimamente relevante. O que poderia dizer se era só uma criança pequena à época do fato?

(Para encerrar, clique abaixo para ouvir a Dalva de verdade)
Published in: on janeiro 14, 2010 at 7:41 pm  Comments (7)  

O neoliberal anti-Lula da “Newsweek”

Mac Margolis, correspondente de Newsweek no Brasil há mais de 25 anos, é tido como competente mas seu trabalho talvez seja afetado por ligações próximas com a oposição do PSDB. Mesmo com o mérito de nunca ter descido ao nível de um Larry Rohter, deixou-se conquistar pela rendição do governo FHC ao neoliberalismo econômico, ainda hoje a referência maior do jornalismo dele.

Como profissional experiente da mídia corporativa, Margolis frequenta nossa elite branca e teve acesso privilegiado ao governo anterior e seus ministros. Um destes, Roberto Muylaert, à época em que deixou a secretaria de comunicação da presidência passou a tê-lo como colaborador fixo em publicação largamente contemplada pela publicidade oficial. Além dessas relações, identificava-se com a política de privatizações e seu patrocinador FHC.

Agora, no entanto, um ativo crítico de mídia dos EUA – Peter Hart, da revista Extra!, publicada pela organização FAIR (Fairness & Accuracy in Media, Honestidade e Precisão na Mídia) – submeteu o trabalho de Margolis, tão prodigamente premiado aqui pelo alinhamento ao neoliberalismo e até ao Consenso de Washington, a análise séria e rigorosa. E com uma visão de esquerda.

O resultado foi uma crítica demolidora – apesar de Hart, aparentemente, nada saber sobre a intimidade promíscua de Margolis com os ressentidos ex-detentores do poder no Brasil, alijados pelo voto popular depois da compra de votos no Congresso que permitiu a reeleição em 1998. A análise na Extra! (veja a capa acima, à esquerda) deu-se ao trabalho de cotejar os textos do correspondente nos últimos anos.

Consenso de Washington salvou o Brasil?

Se a crítica ao menos tornar o jornalista de Newsweek mais cuidadoso já terá valido a pena: ele estava acostumado demais aos encômios ouvidos dos tucanos. Ao contrário de Merval Pereira, que recebeu o prêmio Moors Cabot em 2009 (a pretexto de ter “combatido valentemente a ditadura militar”, coisa que seu jornal na verdade nunca fez), Margolis pode até ter merecido o mesmo prêmio em 2003 por razões mais sólidas.

O correspondente tiraria proveito das críticas se tentasse distanciar-se mais dos aduladores tucanos – sempre à procura de jornalistas estrangeiros para convencê-los (em inglês: odeiam falar português) sobre méritos do governo FHC, que encaram como injustiçado. Ao exaltarem, por exemplo, a onda de privatizações selvagens, só teriam um ponto: foi ruim para o país, mas as comissões eram polpudas.

Na reportagem de capa de Extra!, Hart (foto à direita) é minucioso na análise dos textos de Margolis no período dos dois mandatos do presidente Lula. Expõe seu caráter tendencioso e preconceituoso – sempre na linha neoliberal que certamente soava como música aos ouvidos dos editores em Nova York. Chega ao extremo de afirmar, com todas as letras, que o Brasil foi salvo pelo Consenso de Washington.

O antetítulo do texto (“Meet Mac Margolis, their man in Latin America”, Conheça Mac Margolis, o homem deles na América Latina), é seguído pelo título em corpo maior, “Newsweek’s Name-Calling Neoliberal”, O neoliberal desbocado da Newsweek. A ilustração principal é uma capa-paródia da revista com a caricatura de Hugo Chávez à frente dos três que seriam seus inspiradores: Hitler, Mussolini e Stalin. Título: “Difamando a esquerda da América Latina”.

Será Oliver Stone a Riefenstahl de Chávez?

Quem comparou Chávez (na foto acima com o cineasta Oliver Stone no Festival de Veneza) aos três ditadores de uma vez foi Margolis, induzido pela própria inclinação ideológica, numa reportagem leviana publicada a 2 de novembro (leia a íntegra AQUI). Ali fazia piadas sobre a criação na Venezuela de uma produtora pública de cinema, com estúdio e tudo: “Como Mussolini e Stalin antes, o presidente Chávez criou seu próprio estúdio de cinema”. O objetivo, sugeriu, é a propaganda deslavada.

Escreveu ainda o corresponente em novembro: “Como os autocratas do século 20 que procura imitar, Chávez é fascinado pelo poder do cinema. Desde que Hitler voltou-se para Leni Riefenstahl os ditadores têm sonhado em ganhar a força épica da tela grande para seu script político. Com a Villa del Cine, posicionou-se, conscientemente ou não, como herdeiro dos totalitários maiores do século 20”.

Para Hart, não há muitas evidências de que as instalações de edição e os estúdios da Villa del Cine são passos iniciais rumo ao fascismo. Se fossem, observou ainda, o National Film Board do Canadá já teria há muito tempo empurrado esse país vizinho dos EUA para o Gulag. Mas Margolis (foto ao lado) prefere carregar nas tintas contra Chávez, crítico feroz do neoliberalismo e da retórica submissa ao poder das corporações.

Em plena crise financeira que golpeou o mundo graças à irresponsabilidade de Wall Street e dos bancos que criaram a bolha imobiliária, Margolis continuava fiel, em julho de 2009, ao desastroso rumo neoliberal. Escreveu: “Apesar do Consenso de Washington ter salvado sua economia, o Brasil hoje tenta enterrar a agenda ‘neoliberal’ das reformas de mercado, que nos anos 1990 impulsionaram os países em desenvolvimento.”

A afirmação é ainda mais insólita se for levado em conta o sucesso do governo Lula naqueles dias, a ponto de tornar o Brasil o primeiro país a sair da crise. Mas Margolis reclama mais privatizações. E acrescenta: “Não é a América Latina que precisa ser resgatada nos destroços das reformas de mercado. São as reformas que precisam ser resgatadas na América Latina”.

“Esses latinos contra o livre comércio?”

Hart registra com sarcasmo a enorme arrogância do comentário, que beira a desfaçatez. E sugere o que passa pela cabeça de Margolis – “Esses latinos babacas acham que vão desacreditar o livre mercado?” Na tentativa de explicar que o Consenso de Washington funcionou, disse Hart, não eram as reformas de mercado que tinham precisado de socorro. Assim o próprio Margolis escrevera em junho:

“Uma das explicações (…) para a atual trapalhada na América Latina tem como alvo o evangelho das reformas de livre mercado pregadas na década de 1990 pelos ‘pundits’ em Washington e ‘magos’ em Wall Street. Críticos do chamado Consenso de Washington argumentam que os frutos da estabilidade deixaram de alcançar as massas. Ao arranharem a superfície, o quadro pareceu mais complexo.

Através da América Latina, a mortalidade infantil tinha caído drasticamente, enquanto a alfabetização e a expectativa de vida tinham chegado às alturas, até na empobrecida Bolívia. Matrículas em escolas primárias e acesso à água potável e à eletricidade estão subindo. Mais cidadãos envolvem-se na política agora do que em qualquer época: indígenas já constituem 30% do Congresso boliviano”.

Para Hart, Margolis não viu necessidade de explicar a relação de causa e efeito entre as políticas econômicas neoliberais que ele apóia e a melhoria das condições de vida. Isso por achar a conexão auto-explicativa. Um sociólogo que tinha trabalhado na Bolívia discordou e disse em carta à revista que muitos avanços resultaram de intervenções do governo – o oposto do que prega o “Consenso”, que exige austeridade nos orçamentos e mais privatizações. E a Bolívia de Evo Morales (na foto à direita, ao lado de Chávez), é outro alvo prioritário de Margolis, pelas razões óbvias.

Um populismo de talão de cheque?

No caso particular do Brasil, as avaliações equivocadas de Margolis parecem até tradução para o inglês daquilo que nossa grande mídia obstina-se em repetir em português. Às vezes Lula ganha elogio dele – mas só quando suas políticas parecem, por exemplo, favorecer os investidores de petróleo e o capitalismo global. “Lula não é Hugo Chávez”, chegou a dizer. Mas, de repente, ele volta ao ataque: “Lula dá guinada à esquerda”.

A grave suspeita de “populismo”, tão cara a FHC e seu Cebrap, sempre reaparece. “Com um olho na posteridade e outro na urna”, provocou. “Exatamente o tipo de armadilha populista que Lula tinha evitado até agora”, escreveu. O repúdio aos programas sociais que o neoliberalismo odeia também é recorrente. “Populismo de talão de cheque”, sentenciou. Hart estranha, lembrando como o Brasil saiu bem da crise.

Números e dados de Margolis nem sempre são confiáveis. “Quase 63% de jovens latinos dizem agora que o livre mercado beneficia todas as pessoas”, escreveu ele. Mas Hart explicou e corrigiu: “a pesquisa foi pela internet, a que só tinham acesso 31% da população; e mesmo assim Margolis não notou que nela sua tese fora contestada por 90% – favoráveis a que os governos façam mais para ajudar os pobres”.

E mais um escorregão de Margolis ficou exposto quando afirmou que o continente está às vésperas de uma virada à direita, devido às eleições dos 17 meses seguintes no Brasil, Uruguai e Chile: “Em nenhum dos três países o partido de esquerda no poder é cotado para ganhar”. A realidade já o desmentiu. A esquerda ganhou no Uruguai e foi para o segundo turno no Chile, enquanto no Brasil José Serra hesita em ser candidato, com medo de perder outra vez para a esquerda.

Restaria, enfim, lembrar que Newsweek incluiu Lula, há um ano, no 18° lugar da lista (encabeçada por Barack Obama) das 50 pessoas mais poderosas do mundo, o que chamou de “Elite Global” (leia AQUI). Só não entendo porque os editores encomendam a Margolis textos sobre Lula: ele sempre dá um jeito de enfiar FHC (veja os dois juntos acima, numa foto dos anos 1970), que quebrou o Brasil três vezes, como “o grande reformista” (bom exemplo AQUI).

Quanto à revista Extra!, esse número de janeiro está à venda há apenas dois dias. O website da FAIR (conheça-o AQUI) inclui algumas matérias, mas não a da capa, escrita por Peter Hart. Para ler a íntegra é preciso fazer a assinatura anual (12 números de 16 páginas) da edição eletrônica em pdf, ao custo de US$15.

Published in: on janeiro 8, 2010 at 6:14 pm  Comments (3)  

Krugman e o Ano Novo chinês

Como observei no Blog do Nassif (leia AQUI), justificaria um debate a lógica exposta pelo economista Paul Krugman (foto), em sua coluna do New York Times, sobre a política monetária da China, que chama de “mercantilista”. Ele argumenta que a China tornou-se uma grande potência financeira e comercial mas não age como outras grandes economias. E, ao invés disso, segue a política mercantilista que mantém artificialmente alto o seu superávit comercial (íntegra AQUI, no original inglês).

Para Krugman, no mundo de hoje, em depressão, tal política é predatória – para usar uma palavra dura. Explica como isso funciona: diferente do dólar, do ouro ou do yen, cujos valores flutuam livremente, a moeda da China está atrelada à política oficial de 6,8 yuan por dólar. A essa taxa de câmbio, o que exporta tem grande vantagem de custo sobre os produtos rivais, criando enormes superávits comerciais.

Em circunstâncias normais, o influxo dos dólares gerados pelos excedentes elevaria o valor da moeda chinesa, a menos que fosse compensado pelos investidores privados na direção oposta. E os investidores privados estão tentando entrar na China e não sair de lá. Mas o governo chinês restringe os influxos de capital, até ao comprar dólares e mantê-los no exterior, ampliando seus fundos superiores a US$ 2 trilhões em reservas estrangeiras. Sustenta Krugman que essa política é boa para o complexo industrial do estado chinês orientado para as exportações. Mas que não é boa para os consumidores chineses. E quanto ao resto de nós? – pergunta.

Uma resposta a Wen Jiabao

“No passado – escreve ainda – podia-se dizer que a acumulação pela China de reservas externas, muitas delas investidas em bônus dos EUA, nos fariam um favor, pois mantinham baixas as taxas de juros, embora o que fizemos com aquelas taxas de juros baixas foi principalmente inflar uma bolha imobiliária. Mas neste momento o mundo está inundado de dinheiro barato procurando um lugar para ir. As taxas de juros de curto prazo estão perto de zero; as taxas de juros a longo prazo são mais altas mas apenas porque os investidores esperam que um dia acabe a política de taxa zero. As compras de bônus pela China fazem pouca ou nenhuma diferença”.

Enquanto isso, argumenta Krugman, os superávits comerciais drenam a demanda, muito necessitada, de uma economia mundial deprimida: “Minhas contas sugerem que o mercantilismo chinês pode terminar reduzindo em cerca de 1,4 milhões os empregos nos EUA. Os chineses negam-se a reconhecer o problema. O primeiro-ministro Wen Jiabao descartou recentemente as queixas estrangeiras. Alegou que ‘por um lado vocês pedem que o yuan seja valorizado e por outro estão adotando todo tipo de medidas protecionistas’”.

O próprio Krugman respondeu: “De fato. Outros países estão adotando medidas protecionistas (modestas) precisamente porque a China se nega a deixar sua moeda subir. E muitas de tais medidas são apropriadas. Mas serão mesmo? Em geral ouço duas razões para se evitar o confronto com a China por causa de suas políticas. Nenhuma das duas se sustenta.

Primeiro, há a alegação de que não podemos confrontar os chineses porque eles tumultuariam a economia dos EUA desfazendo-se de suas reservas de dólares. É um raciocínio equivocado e não só porque se o fizessem infligiriam grandes perdas para eles próprios. O ponto maior é que as mesmas forças que tornam o mercantilismo chinês tão danoso neste momento também significam que a China tem pouca ou nenhuma alavancagem financeira.

Neste momento, repito, o mundo está repleto de dinheiro barato. Logo, se a China resolvesse começar a vender dólares, não há razão para pensar que isso iria elevar significativamente as taxas de juros. Provavelmente enfraqueceria o dólar frente a outras moedas – mas isso seria bom, e não ruim, para a competitividade americana e o emprego nos EUA. Assim, devíamos na verdade agradecer se os chineses se desfizessem dos dólares.

Segundo, há a alegação de que o protecionismo é sempre uma coisa ruim, em quaisquer circunstâncias. Se é o que você acha, no entanto, então você aprendeu os princípios básicos de economia com as pessoas erradas. Pois quando o desemprego está alto, e o governo não consegue restaurar o pleno emprego, não se aplicam as regras normais”.

A advertência de Paul Samuelson

Krugman prossegue: “Cito aqui um trabalho clássico do falecido Paul Samuelson (foto à esquerda), que de certa forma criou a economia moderna: ‘Com emprego abaixo do pleno (…) todos os argumentos mercantilísticos desacreditados’ – isto é, alegações de que as nações que subsidiam suas exportações na prática roubam empregos de outros países – ‘tornam-se válidos’. Ele argumentou em seguida que as taxas de câmbio persistentemente desalinhadas criam ‘problemas genuínos para os defensores do livre comércio’. A melhor resposta para tais problemas é a volta das taxas de câmbio ao ponto em que deviam estar – exatamente o que a China impede que aconteça”.

O resultado final, para Krugman, é que o mercantilismo chinês é um problema crescente, e as vítimas desse mercantilismo têm pouco a perder num confronto comercial. E conclui: “Assim, eu conclamaria o governo da China a reconsiderar sua teimosia. Do contrário, o próprio protecionismo brando de que se queixa atualmente será o início de algo muito maior”.

(Abaixo, um cartum a que recorreu Krugman em seu blog no passado para expor o efeito manada nas Bolsas)

Published in: on janeiro 2, 2010 at 10:12 am  Comments (5)  

O ano do Brasil – e do presidente Lula

O professor (da Universidade de Harvard) Kenneth Maxwell – britânico de nascimento, radicado há muitos anos nos EUA – explicou na véspera do Natal, em sua coluna da Folha de S.Paulo, que “os brasileiros deveriam comemorar o fato de que tenham avançado tanto e de que um futuro promissor esteja ao seu alcance”. Para ele, “o Brasil encerra a década bem posicionado para o futuro” (leia a íntegra AQUI – necessário senha).

Brasilianista e autor de pesquisa que devassou a Inconfidência Mineira (A Devassa da Devassa), Maxwell (foto ao lado) também publicou outros trabalhos relevantes sobre Brasil e Portugal (entre eles, Marquês de Pombal, o paradoxo do Iluminismo). Antes expusera o papel de Henry Kissinger no golpe de 1973 no Chile – ousadia que o levaria ainda a deixar a revista Foreign Affairs e o Council on Foreign Relations (saiba mais AQUI e AQUI).

Comprometido apenas com a seriedade do próprio trabalho, estava certo ainda ao contestar o medo das “reginasduartes” e o terrorismo desencadeado pelos tucanos na campanha eleitoral de 2002, o que reduziu o valor do real a 1/4 do dólar (leia o artigo dele em 2002 para o Financial Times AQUI). Agora Maxwell vê o respaldo de 80% dos brasileiros ao seu presidente, encarado no mundo como exemplo a ser seguido – e Personalidade do Ano, como proclamou Le Monde no dia 24 (AQUI).

Retrato do império em decadência

Na França da Sorbonne de FHC, coube a um blog do Libération, rival do Le Monde, contrastar a atuação positiva de Lula na reunião de Copenhague com a queda de Obama: “Os discursos de Obama e Lula foram mais do que discursos sobre os grandes desafios que nossos líderes deveriam discutir em Copenhague. Para mim, marcaram a longa e tortuosa história do declínio do império americano” (conheça a íntegra AQUI).

Anabella Rosemberg, que assinou dia 18 o texto sob o título (misturando inglês e português) “Exit USA, boa tarde Brasil!”, definiu o quadro geral da degringolada das negociações do clima, “com a demissão de uma superpotência (EUA) e a chegada com brio de uma nação (o Brasil) que há algum tempo esperava, com paciência, para dar os primeiros passos”.

A recusa em negociar, para ela, é o primeiro sinal de fraqueza dos poderosos. “Nas três propostas que colocou na mesa, Obama não mostrou flexibilidade. Teve ainda o cuidado de não assumir a responsabilidade dos EUA pelo acúmulo de emissões de gás de efeito estufa. Da parte de Lula tudo era liderança, vontade, ambição. Claro que não é perfeito. A questão não é essa. Mas mostrou aos olhos do mundo que seu país está preparado para jogar no primeiro time”.

Ainda na Europa, o maior jornal da Espanha, El País, já tinha considerado Lula, no dia 10, o personagem do ano de 2009, entre “Los Cien del Año”, os 100 homens e mulheres iberoamericanos que marcaram os últimos 12 meses. Coube ao próprio presidente do governo espanhol, José Luiz Rodrigues Zapatero, fazer o perfil do governante brasileiro, sob a manchete “El hombre que asombra el mundo” (AQUI).

O entusiasmo do conservador Chirac

Disse o espanhol sentir “profunda admiração” por esse homem que conheceu em setembro de 2004, na cúpula – organizada pela ONU em Nova York – da Aliança Contra a Fome, liderada pelo brasileiro. Como correspondente para a Tribuna da Imprensa, Globo News, Rádio França Internacional e Jornal de Notícias (de Portugal), tive o privilégio de cobrir aquele evento, presidido pelo francês Jacques Chirac.

A Assembléia Geral da ONU começaria dois dias depois, mas governantes do mundo inteiro anteciparam a chegada a Nova York por causa da reunião de Lula. O maior entusiasta da cúpula era Chirac, que também declarou admiração pelo brasileiro. Ele viajaria de volta à França ao final daquela reunião, deixando para o chanceler a missão de discursar pelo país na Assembléia Geral.

O esforço incansável da grande mídia brasileira para esconder, tentar esvaziar ou desmerecer o reconhecimento mundial pouco afeta a imagem de Lula, dada a frequência com que governantes, personalidades e veículos de mídia de vários países se pronunciam de forma positiva sobre ele. Nos EUA o próprio Obama manifestou explicitamente sua opinião, ao saudá-lo como “o cara”, o “político mais popular do mundo” (mais AQUI).

Por conduzir no Itamaraty a política externa brasileira, Celso Amorim tem sido alvo obsessivo do bombardeio de nossa mídia. Na ofensiva foi denunciado pelo papel antigolpista do Brasil em Honduras. Mas é encarado com grande respeito no exterior. David Rothkopf – da revista Foreign Policy, conservadora nas posições sobre América Latina – apontou-o como “o melhor ministro do Exterior do mundo” (leia AQUI e veja abaixo a foto que ilustrou o artigo).

Quem afinal ficou bem na foto?

Para desespero de nossa mídia as avaliações de Lula estão em toda parte – e nada têm a ver com o que ela própria e a oposição alegam nos ataques ao governo. É possível encontrá-las em diferentes línguas. Na maior revista alemã, Der Spiegel (AQUI), em Newsweek (AQUI e AQUI), no Washington Post (AQUI), New York Times (AQUI), Financial Times (que o incluiu entre as 50 personalidades mundiais que forjaram a década, AQUI), etc. Não é um amontoado de elogios vazios. Referem-se também a dificuldades e obstáculos a superar. Mas o tom é sempre positivo, sem as leviandades e irrelevâncias que inspiram a ofensiva destemperada daqui.

Dificilmente poderia ter havido ano mais auspicioso para o Brasil. Isso ficou claro ainda nos momentos finais da conferência de Copenhague. Obama chegou atrasado, perdeu o bonde da História e, esnobado pelo primeiro-ministro chinês Wen Jiabao (que se fez representar por gente de escalão inferior em reuniões de que Obama participava) invadiu como um penetra a sala onde se reuniam Brasil, África do Sul, Índia e China (o grupo BASIC).

Foto e relato do New York Times (AQUI), seguidos depois por texto também destacado no Washington Post (AQUI), retrataram o quadro insólito. Obama entrou sem ser convidado. Lá estavam Wen, Lula e os governantes indiano e sul-africano: “Vou sentar ao lado do meu amigo presidente Lula”, disse. Ali remendou num par de horas o acordo de três páginas que evitou o fracasso sem ir além de uma esperança vaga no futuro.

Para variar Lula ficou bem na foto – literal e simbolicamente. À direita de Obama, a quem socorrera, e com a ministra Dilma Roussef (à esquerda de Hillary Clinton). Essa imagem final do ano (veja a foto do alto, sob o título do post) refletiu o papel do Brasil e seu presidente. Mais uma vez contrariou a obsessão da mídia golpista aliada à oposição idem (PSDB-DEM-PPS). Por 12 meses mídia e oposição tentaram semear o pânico e afogar o país no tsunami da crise mundial – da qual o Brasil foi o primeiro a sair. (Atualizado com mais um link no dia 2 de janeiro e com a capa do Le Monde, à esquerda, no dia 4).

Published in: on dezembro 28, 2009 at 8:17 pm  Comments (13)