Dalva, Herivelto e a polêmica da mini-série

Como expliquei no blog de Luis Nassif (leia AQUI e AQUI), infelizmente – por razões diversas – não pude ver a mini-série da Rede Globo sobre Dalva de Oliveira e Herivelto Martins (na foto acima, os atores Adriana Esteve e Fábio Assumpção; abaixo, os personagens da vida real). No passado, como milhões de brasileiros, também acompanhei aquela briga musical. Hoje acho saudável o empenho da Globo em investir na história de nossa música popular (mesmo com eventuais tropeços, às vezes inevitáveis) como também partirmos, na nossa análise, de uma visão cética ao examinar a veracidade ou não do que nos é contado na TV.

Um comentário no blog do Nassif alegou que Herivelto, apesar de “grande sambista, grande compositor e grande músico”, foi um “grande canalha”. De certa forma foi essa a imagem maniqueista e provavelmente injusta que ficou da briga do casal. Mas a conclusão do comentarista pareceu-me reveladora. Disse ter chegado a ela “com base nas informações da maior testemunha de toda essa história: o filho mais velho do casal, Pery Ribeiro”.

Ora, ele se referia às conclusões do livro assinado por Pery Ribeiro e sua ex-mulher Ana Duarte. Um livro publicado às pressas pela editora Globo, subsidiária da mesma corporação cuja rede de TV produziu a série, para a mesma jogada de marketing. Nada contra a sinergia dos impérios de mídia, sempre boa receita para fazer muito dinheiro. Mas terá mesmo o Pery Ribeiro escrito o livro? E se escreveu, será ele testemunha confiável?

À época da briga do casal Pery tinha uns cinco anos, creio, e morava com a mãe. Já adulto, passou a dar palpites até sobre a visita ao Brasil do cineasta Orson Welles, numa época em que era quase bebê. Num filme sobre a visita de Welles, Pery “testemunhou” como se lembrasse de tudo, embora a única relação dele com o fato fosse o detalhe de ser filho de Herivelto, que assessorava o cineasta em matéria de música, samba, carnaval, etc. Aliás, pelo que sei, não houve qualquer referência na mini-série àquele episódio.

Seria bom saber que tipo de pesquisa fez Pery ou Ana Duarte para produzir o livro bancado pela editora e pela mini-série. Jonas Vieira, jornalista e pesquisador de nossa música popular, fez juntamente com Natalício Norberto, o único livro em que o lado de Herivelto de fato apareceu. Se eu fosse o Jonas, a esta altura estaria procurando um advogado para processar eventuais plagiários que podem ter faturado muito surrupiando o que só ele e Norberto apuraram – e, pior, tomando o partido do outro lado.

Num programa de duas horas na Rádio Roquette Pinto do Rio de Janeiro o Jonas já ofereceu sua análise crítica da mini-série. Tem autoridade para isso: o último depoimento do compositor foi feito a ele, para o livro Herivelto Martins, uma escola de samba (capa ao lado), lançado em 1992, poucas semanas antes de sua morte naquele mesmo ano (uma reedição revista e ampliada está prevista para as próximas semanas).

A visão bem fundamentada de Jonas aparentemente entra em choque com o relato oportunista da Globo, que no fundo limitou-se a perpetuar a impressão dada na época pela cobertura leviana da mídia. Impressão que obviamente seria ainda a da testemunha não confiável (por ser criança e vítima da separação), que no máximo daria um bom estudo psicanalítico sobre os efeitos nocivos das brigas de casal e da má conduta da imprensa.

Jonas também foi minucioso e enfático ao analisar o assunto no seu programa da Roquette Pinto, “Rádio Memória”. Expôs um amontoado de erros grosseiros da mini-série – citando até personagens reais que eram negros e na Globo viraram brancos de olhos azuis (que diabo, Ali Kamel, somos ou não racistas?). Os interessados podem ouvir a gravação no website da rádio (AQUI), conferir a continuação no próximo domingo e talvez ainda no seguinte, com muita música, selecionada por Jonas com extremo cuidado.

Entre quase três dezenas de comentários (muitos deles interessantes e reveladores) sobre a mini-série Dalva-Herivelto no blog do Nassif, preferi incluir aqui apenas o de Lu Dias BH, que também me escreveu. É o que transcrevo abaixo, antes de incluir minha última intervenção, sugerindo que se deixe para a sensatez dela a palavra final.

ATÉ ONDE HERIVELTO É CULPADO?
Lu Dias BH

É fato, que os espectadores da minissérie, que trouxe à tona a vida turbulenta do casal artístico Dalva de Oliveira e Herivelto Martins, em sua maioria, tomaram o partido de Dalva. Isso acontece, porque somos muito mais, movidos pelos sentimentos, de que pela razão. Mas, até que ponto o outro é responsável por nossas atitudes, por nossa maneira de sentir o mundo e agir?

Não é fácil bloquear ou romper nossas relações, uma vez, que o relacionamento é a essência do existir. Por isso, o ato de cortar relações foge à natureza humana, tornando-se uma atitude hostil à realidade. Quando isso acontece, de certa forma, prejudica todos os envolvidos. Todo rompimento traz sangramento, assim como acontece com qualquer órgão de nosso corpo. É uma perda de energia, mesmo que, em longo prazo, ela possa nos fazer bem.

Não podemos negar que, na vida, todos os seres sofrem. Mas, a verdade é que uns sofrem bem mais de que outros. A indagação a ser feita é por que uns sofrem mais e outros menos. Suponhamos que Emilinha Borba ou Marlene estivesse no lugar de Dalva. O sofrimento teria sido o mesmo? E por quê?

Sinto que certas predisposições biológicas tornam-nos mais ou menos afeitos ao sofrimento. De forma que, cada um, reage diferentemente. E, ninguém pode nos tornar tal fardo mais leve, a não ser nós mesmos. Como fazer isso é uma tarefa que nos cabe, individualmente.

Não é possível negar que fazemos mal, uns aos outros. Assim como não podemos negar que as conseqüências do mal recebido, variam de conformidade com o receptor. Ele é o responsável por colocar sua dor ao sol e fazê-la secar, reduzindo-a ao pó. Ou colocá-la na água com fermento, alimentando-a para que cresça e frutifique. A opção é pessoal. E, por isso, diminui a capacidade de o observador fortuito analisar o responsável maior, por esse ou aquele sofrimento.

A cultura humana ensina que o mal maior é aquele, que recebemos, e não o que fazemos ao outro. A nossa avaliação é, portanto, muito mais exterior que interior. Por isso, eu me pergunto se, o nosso sofrimento, muitas vezes, não é uma forma inconsciente de punir o outro, que julgamos não ter o direito de nos ter feito sofrer? Vemos isso, principalmente, nas relações entre casais, ou entre familiares. Enquanto esquecem, com facilidade, o sofrimento a eles impingido, por estranhos, têm dificuldade em esquecer o que lhes é direcionado pelos que amam.

A paixão tem a capacidade de nos toldar a razão e de nos cobrir com o manto da ignorância. Não me refiro apenas à falta de conhecimento, mas, também, à incapacidade que adquirimos de ver, ouvir e sentir, de modo a negarmos a realidade, em que estamos inseridos.

Uma união em desequilíbrio não é só prejudicial aos atores principais, como a todos que estão à volta. Se, não é possível reformá-la, o melhor é desfazer-se dela. Sem falar que, nenhum dos cônjuges pode, em sã consciência, comprometer-se com a durabilidade dos sentimentos, que o levou a se unir ao outro.

Quando, um dos lados opta por deixar o relacionamento, seja lá qual for o motivo, o outro nada pode fazer, a não ser aceitar e continuar buscando a sua felicidade, em outra seara. Talvez, seja isso o que a nossa querida estrela devesse ter feito, uma vez que Herivelto sacrificara o amor que tinha por ela, em função do machismo que carregava. Postura que carregou até à morte da cantora.

Dalva era uma mulher vibrante, batalhadora e moderna demais para a época. Enquanto, Herivelto ainda se apegava à falsa moralidade de que o homem podia fazer tudo sem manchar o nome, mas, qualquer coisa maculava o “sexo frágil”. Ele era, apenas, fruto dos preconceitos de seu tempo. Sem falar, que o sucesso de Dalva pesava sobre o seu machismo. Ela era a grande diva do Trio de Ouro. Um casamento não poderia sobreviver a tamanho descompasso.

Ainda, com a emoção à flor da pele, podemos condenar Herivelto. Mas, não podemos lhe imputar a obrigação de ter continuado, num relacionamento que não mais lhe dava satisfação, quaisquer que sejam as suas causas pessoais. O fato de Dalva não ter aceitado a separação e sofrido em conseqüência dela, não o torna melhor ou pior.

O sofrimento de Dalva foi uma escolha pessoal. Herivelto não pode ser culpabilizado, por ela não ter superado o desenlace amoroso. Ele não queria mais continuar preso àquela união. E ninguém pode o julgar por isso. Podemos questionar a sua conduta, no acirramento da discórdia. Mas, jamais pelo fato de ter se separado da cantora.

Como observadores atentos e justos, não podemos simplificar ou intensificar a complexidade da relação do casal Oliveira Martins, sem que compreendamos, primeiro, o contexto em que, cada um, se encontrava inserido, levando em conta o modo diferente como viam a moralidade da época.

Ouso pensar, que a não aceitação de se separar de Herivelto, teve um complicador maior, no caso de Dalva: o sentimento de rejeição. Coloquem-se na posição de uma mulher rica, importante, famosa no país inteiro, desejada por muitos homens, sendo trocada por outra, aparentemente desconhecida. O sentimento de rejeição mexeu com a auto-estima da cantora, apesar de todas as batalhas vencidas. Ela tinha tudo, menos o amor “daquele homem”. E era ele, quem ela desejava, para sua infelicidade.

Todo drama é, no fundo, fruto de um amor mal dirigido, o desejo desordenado de um bem, que não mais se tem e, em que se perde a essência do amor, para se deter apenas na sua causa. Qualquer tipo de paixão extrema destrói e devora. É a anulação do sujeito em função do objeto de seu desejo. É o deixar-se engolir, por inteiro, por sentimentos e circunstâncias. É a incapacidade de elevar-se acima da própria dor. E, por mais que saibamos disso, sempre caímos na mesma armadilha.

Ainda que, inconscientemente, é possível deduzir, que Dalva optou pela postura de vítima, a ponto de se colocar na mão de um homem, que já se encontrava, definitivamente, com outra. Esquecendo-se de que era uma cantora deslumbrante, que arrebatava o país e outros cantos do mundo. Ela não conseguiu se fortalecer, diante dos obstáculos enfrentados, nessa união tumultuada, permitindo que Herivelto determinasse a qualidade de sua vida interior, como se houvesse lhe entregado as chaves de seu destino, quer pro bem, quer pro mal.

De Argemiro Ferreira a Luis Nassif

Caro Nassif,

A palavra final sobre esse debate Herivelto-Dalva bem que poderia ser essa análise sensível de Lu Dias BH. Sem tomar partido, ela soube entender os dois lados, como também medir com precisão os efeitos dos preconceitos da época, a conduta leviana da mídia, a manipulação, etc.

Esclareço aos que participaram da discussão e aos demais leitores que o título “Reabilitando Herivelto Martins” deve ser aplicado não a mim, mas a Jonas Vieira. O mérito, no esforço de reabilitação, é dele – com a reedição de seu livro (com Natalício Norberto) Herivelto Martins – uma escola de samba, ampliado e com capítulos novos. Apenas chamei atenção para o esforço dele. Coube a Jonas trazer contribuição fundamental, ao ouvir a palavra do próprio compositor em 1992, poucas semanas antes de sua morte.

É injusta a redução maniqueista que acabou prevalecendo por muitos anos, com o retrato da cantora como vítima e do compositor como vilão desalmado. Grande cantor mas canalha, escreveu alguém. Hoje há mais discernimento, não se justifica voltar aos clichês explorados na mídia da época – do marido “corneado” ou da mulher “pecadora”.

Respeitar e admirar o talento do compositor e da cantora, buscar entender os dois lados da briga e os sentimentos de cada um naquele tempo marcado pelo preconceito e pela misoginia – como tentou fazer lu dias bh – é a única coisa sensata a fazer. A música popular saiu ganhando com a briga do casal mas o compositor e a cantora foram igualmente golpeados e feridos.

Ao invés de ter sido a “pecadora” dos boleros (ou das letras de David Nasser), ela na verdade foi uma mulher corajosa e à frente de seu tempo. Sofreu com isso. Ele, ao invés de ter sido um “canalha”, ficou condenado a conviver com o preconceito que o diminuia num mundo machista. Resquícios dessas coisas apareceram no debate – e estou pronto a me penitenciar se contribuí para isso.

Também não tentei subestimar Pery Ribeiro, apenas manifestar a opinião de que um trabalho de pesquisa profissional seria mais confiável como base para a mini-série. Incomodou-me, ao mesmo tempo, o fato de Pery ter aparecido num filme sobre a visita de Orson Welles ao Brasil, pois ali nada dizia de minimamente relevante. O que poderia dizer se era só uma criança pequena à época do fato?

(Para encerrar, clique abaixo para ouvir a Dalva de verdade)
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Published in: on janeiro 14, 2010 at 7:41 pm  Comments (7)