Krugman e o Ano Novo chinês

Como observei no Blog do Nassif (leia AQUI), justificaria um debate a lógica exposta pelo economista Paul Krugman (foto), em sua coluna do New York Times, sobre a política monetária da China, que chama de “mercantilista”. Ele argumenta que a China tornou-se uma grande potência financeira e comercial mas não age como outras grandes economias. E, ao invés disso, segue a política mercantilista que mantém artificialmente alto o seu superávit comercial (íntegra AQUI, no original inglês).

Para Krugman, no mundo de hoje, em depressão, tal política é predatória – para usar uma palavra dura. Explica como isso funciona: diferente do dólar, do ouro ou do yen, cujos valores flutuam livremente, a moeda da China está atrelada à política oficial de 6,8 yuan por dólar. A essa taxa de câmbio, o que exporta tem grande vantagem de custo sobre os produtos rivais, criando enormes superávits comerciais.

Em circunstâncias normais, o influxo dos dólares gerados pelos excedentes elevaria o valor da moeda chinesa, a menos que fosse compensado pelos investidores privados na direção oposta. E os investidores privados estão tentando entrar na China e não sair de lá. Mas o governo chinês restringe os influxos de capital, até ao comprar dólares e mantê-los no exterior, ampliando seus fundos superiores a US$ 2 trilhões em reservas estrangeiras. Sustenta Krugman que essa política é boa para o complexo industrial do estado chinês orientado para as exportações. Mas que não é boa para os consumidores chineses. E quanto ao resto de nós? – pergunta.

Uma resposta a Wen Jiabao

“No passado – escreve ainda – podia-se dizer que a acumulação pela China de reservas externas, muitas delas investidas em bônus dos EUA, nos fariam um favor, pois mantinham baixas as taxas de juros, embora o que fizemos com aquelas taxas de juros baixas foi principalmente inflar uma bolha imobiliária. Mas neste momento o mundo está inundado de dinheiro barato procurando um lugar para ir. As taxas de juros de curto prazo estão perto de zero; as taxas de juros a longo prazo são mais altas mas apenas porque os investidores esperam que um dia acabe a política de taxa zero. As compras de bônus pela China fazem pouca ou nenhuma diferença”.

Enquanto isso, argumenta Krugman, os superávits comerciais drenam a demanda, muito necessitada, de uma economia mundial deprimida: “Minhas contas sugerem que o mercantilismo chinês pode terminar reduzindo em cerca de 1,4 milhões os empregos nos EUA. Os chineses negam-se a reconhecer o problema. O primeiro-ministro Wen Jiabao descartou recentemente as queixas estrangeiras. Alegou que ‘por um lado vocês pedem que o yuan seja valorizado e por outro estão adotando todo tipo de medidas protecionistas’”.

O próprio Krugman respondeu: “De fato. Outros países estão adotando medidas protecionistas (modestas) precisamente porque a China se nega a deixar sua moeda subir. E muitas de tais medidas são apropriadas. Mas serão mesmo? Em geral ouço duas razões para se evitar o confronto com a China por causa de suas políticas. Nenhuma das duas se sustenta.

Primeiro, há a alegação de que não podemos confrontar os chineses porque eles tumultuariam a economia dos EUA desfazendo-se de suas reservas de dólares. É um raciocínio equivocado e não só porque se o fizessem infligiriam grandes perdas para eles próprios. O ponto maior é que as mesmas forças que tornam o mercantilismo chinês tão danoso neste momento também significam que a China tem pouca ou nenhuma alavancagem financeira.

Neste momento, repito, o mundo está repleto de dinheiro barato. Logo, se a China resolvesse começar a vender dólares, não há razão para pensar que isso iria elevar significativamente as taxas de juros. Provavelmente enfraqueceria o dólar frente a outras moedas – mas isso seria bom, e não ruim, para a competitividade americana e o emprego nos EUA. Assim, devíamos na verdade agradecer se os chineses se desfizessem dos dólares.

Segundo, há a alegação de que o protecionismo é sempre uma coisa ruim, em quaisquer circunstâncias. Se é o que você acha, no entanto, então você aprendeu os princípios básicos de economia com as pessoas erradas. Pois quando o desemprego está alto, e o governo não consegue restaurar o pleno emprego, não se aplicam as regras normais”.

A advertência de Paul Samuelson

Krugman prossegue: “Cito aqui um trabalho clássico do falecido Paul Samuelson (foto à esquerda), que de certa forma criou a economia moderna: ‘Com emprego abaixo do pleno (…) todos os argumentos mercantilísticos desacreditados’ – isto é, alegações de que as nações que subsidiam suas exportações na prática roubam empregos de outros países – ‘tornam-se válidos’. Ele argumentou em seguida que as taxas de câmbio persistentemente desalinhadas criam ‘problemas genuínos para os defensores do livre comércio’. A melhor resposta para tais problemas é a volta das taxas de câmbio ao ponto em que deviam estar – exatamente o que a China impede que aconteça”.

O resultado final, para Krugman, é que o mercantilismo chinês é um problema crescente, e as vítimas desse mercantilismo têm pouco a perder num confronto comercial. E conclui: “Assim, eu conclamaria o governo da China a reconsiderar sua teimosia. Do contrário, o próprio protecionismo brando de que se queixa atualmente será o início de algo muito maior”.

(Abaixo, um cartum a que recorreu Krugman em seu blog no passado para expor o efeito manada nas Bolsas)

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Published in: on janeiro 2, 2010 at 10:12 am  Comments (5)  

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5 ComentáriosDeixe um comentário

  1. O problema, diz pra esse aí que escreveu, é que os EUA perderam a credibilidade totalmente. O que a China faz é o que eles sempre fizeram: “Eu estando bem, o resto que se lasque”.

  2. […] E não vai adiantar a China se fingir de cega, surda e muda. These days are over.Krugman e o Ano Novo chinês « Blog do Argemiro Ferreira […]

  3. Ola Argemiro,
    Apesar de ser fã do Krugman, não tenho tanta certeza (aliás sou um dos raros economistas que têm mais dúvidas do que certezas…rs…) que a “desova” dos títulos da dívida americana pelos Chineses seria assim tão tranquila.
    Qdo o presidente (ou vice, não lembro) do Banco do Povo só citou essa possibilidade e preocupação é bom lembrar do pânico que se espalhou pelos mercados financeiros. O fato de sobrar dinheiro no mercado não significa grande coisa, os “mercados” não agem dessa forma coordenada e previsível. E o Krugman sabe bem disso.
    Mesmo assim, como disse no meu blog, muito pelo contrario, tanto o Krugman como o Martin Wolf do FT estão subindo o tom, isso é só o começo, não vai dar mais para esconder o problema e instabilidades que o câmbio desvalorizado da China causa na economia mundial.
    O ano do tigre pode ter começado com um novo consenso se formando a respeito disso.
    Abçs,

  4. Caro Argemiro,
    Será que não tem alguma relação essa “crise” militar a respeito da Comissão da Verdade e a “celeuma” pela compra dos aviões franceses ou suiços. Será que o Jobim e a cúpula militar estão atirando festim “prum” lado mirando de verdade um acordo com o governo Lula para serem considerados na escolha das aeronaves?
    Sei lá, as “crises” irromperam muito próximas uma da outra…dá prá desconfiar.
    Grande abraço,

  5. Adeptos do comunismo ortodoxo de tipo cubano ou norte-coreano devem ficar perplexos com esse hermafroditismo chinês.


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