O ano do Brasil – e do presidente Lula

O professor (da Universidade de Harvard) Kenneth Maxwell – britânico de nascimento, radicado há muitos anos nos EUA – explicou na véspera do Natal, em sua coluna da Folha de S.Paulo, que “os brasileiros deveriam comemorar o fato de que tenham avançado tanto e de que um futuro promissor esteja ao seu alcance”. Para ele, “o Brasil encerra a década bem posicionado para o futuro” (leia a íntegra AQUI – necessário senha).

Brasilianista e autor de pesquisa que devassou a Inconfidência Mineira (A Devassa da Devassa), Maxwell (foto ao lado) também publicou outros trabalhos relevantes sobre Brasil e Portugal (entre eles, Marquês de Pombal, o paradoxo do Iluminismo). Antes expusera o papel de Henry Kissinger no golpe de 1973 no Chile – ousadia que o levaria ainda a deixar a revista Foreign Affairs e o Council on Foreign Relations (saiba mais AQUI e AQUI).

Comprometido apenas com a seriedade do próprio trabalho, estava certo ainda ao contestar o medo das “reginasduartes” e o terrorismo desencadeado pelos tucanos na campanha eleitoral de 2002, o que reduziu o valor do real a 1/4 do dólar (leia o artigo dele em 2002 para o Financial Times AQUI). Agora Maxwell vê o respaldo de 80% dos brasileiros ao seu presidente, encarado no mundo como exemplo a ser seguido – e Personalidade do Ano, como proclamou Le Monde no dia 24 (AQUI).

Retrato do império em decadência

Na França da Sorbonne de FHC, coube a um blog do Libération, rival do Le Monde, contrastar a atuação positiva de Lula na reunião de Copenhague com a queda de Obama: “Os discursos de Obama e Lula foram mais do que discursos sobre os grandes desafios que nossos líderes deveriam discutir em Copenhague. Para mim, marcaram a longa e tortuosa história do declínio do império americano” (conheça a íntegra AQUI).

Anabella Rosemberg, que assinou dia 18 o texto sob o título (misturando inglês e português) “Exit USA, boa tarde Brasil!”, definiu o quadro geral da degringolada das negociações do clima, “com a demissão de uma superpotência (EUA) e a chegada com brio de uma nação (o Brasil) que há algum tempo esperava, com paciência, para dar os primeiros passos”.

A recusa em negociar, para ela, é o primeiro sinal de fraqueza dos poderosos. “Nas três propostas que colocou na mesa, Obama não mostrou flexibilidade. Teve ainda o cuidado de não assumir a responsabilidade dos EUA pelo acúmulo de emissões de gás de efeito estufa. Da parte de Lula tudo era liderança, vontade, ambição. Claro que não é perfeito. A questão não é essa. Mas mostrou aos olhos do mundo que seu país está preparado para jogar no primeiro time”.

Ainda na Europa, o maior jornal da Espanha, El País, já tinha considerado Lula, no dia 10, o personagem do ano de 2009, entre “Los Cien del Año”, os 100 homens e mulheres iberoamericanos que marcaram os últimos 12 meses. Coube ao próprio presidente do governo espanhol, José Luiz Rodrigues Zapatero, fazer o perfil do governante brasileiro, sob a manchete “El hombre que asombra el mundo” (AQUI).

O entusiasmo do conservador Chirac

Disse o espanhol sentir “profunda admiração” por esse homem que conheceu em setembro de 2004, na cúpula – organizada pela ONU em Nova York – da Aliança Contra a Fome, liderada pelo brasileiro. Como correspondente para a Tribuna da Imprensa, Globo News, Rádio França Internacional e Jornal de Notícias (de Portugal), tive o privilégio de cobrir aquele evento, presidido pelo francês Jacques Chirac.

A Assembléia Geral da ONU começaria dois dias depois, mas governantes do mundo inteiro anteciparam a chegada a Nova York por causa da reunião de Lula. O maior entusiasta da cúpula era Chirac, que também declarou admiração pelo brasileiro. Ele viajaria de volta à França ao final daquela reunião, deixando para o chanceler a missão de discursar pelo país na Assembléia Geral.

O esforço incansável da grande mídia brasileira para esconder, tentar esvaziar ou desmerecer o reconhecimento mundial pouco afeta a imagem de Lula, dada a frequência com que governantes, personalidades e veículos de mídia de vários países se pronunciam de forma positiva sobre ele. Nos EUA o próprio Obama manifestou explicitamente sua opinião, ao saudá-lo como “o cara”, o “político mais popular do mundo” (mais AQUI).

Por conduzir no Itamaraty a política externa brasileira, Celso Amorim tem sido alvo obsessivo do bombardeio de nossa mídia. Na ofensiva foi denunciado pelo papel antigolpista do Brasil em Honduras. Mas é encarado com grande respeito no exterior. David Rothkopf – da revista Foreign Policy, conservadora nas posições sobre América Latina – apontou-o como “o melhor ministro do Exterior do mundo” (leia AQUI e veja abaixo a foto que ilustrou o artigo).

Quem afinal ficou bem na foto?

Para desespero de nossa mídia as avaliações de Lula estão em toda parte – e nada têm a ver com o que ela própria e a oposição alegam nos ataques ao governo. É possível encontrá-las em diferentes línguas. Na maior revista alemã, Der Spiegel (AQUI), em Newsweek (AQUI e AQUI), no Washington Post (AQUI), New York Times (AQUI), Financial Times (que o incluiu entre as 50 personalidades mundiais que forjaram a década, AQUI), etc. Não é um amontoado de elogios vazios. Referem-se também a dificuldades e obstáculos a superar. Mas o tom é sempre positivo, sem as leviandades e irrelevâncias que inspiram a ofensiva destemperada daqui.

Dificilmente poderia ter havido ano mais auspicioso para o Brasil. Isso ficou claro ainda nos momentos finais da conferência de Copenhague. Obama chegou atrasado, perdeu o bonde da História e, esnobado pelo primeiro-ministro chinês Wen Jiabao (que se fez representar por gente de escalão inferior em reuniões de que Obama participava) invadiu como um penetra a sala onde se reuniam Brasil, África do Sul, Índia e China (o grupo BASIC).

Foto e relato do New York Times (AQUI), seguidos depois por texto também destacado no Washington Post (AQUI), retrataram o quadro insólito. Obama entrou sem ser convidado. Lá estavam Wen, Lula e os governantes indiano e sul-africano: “Vou sentar ao lado do meu amigo presidente Lula”, disse. Ali remendou num par de horas o acordo de três páginas que evitou o fracasso sem ir além de uma esperança vaga no futuro.

Para variar Lula ficou bem na foto – literal e simbolicamente. À direita de Obama, a quem socorrera, e com a ministra Dilma Roussef (à esquerda de Hillary Clinton). Essa imagem final do ano (veja a foto do alto, sob o título do post) refletiu o papel do Brasil e seu presidente. Mais uma vez contrariou a obsessão da mídia golpista aliada à oposição idem (PSDB-DEM-PPS). Por 12 meses mídia e oposição tentaram semear o pânico e afogar o país no tsunami da crise mundial – da qual o Brasil foi o primeiro a sair. (Atualizado com mais um link no dia 2 de janeiro e com a capa do Le Monde, à esquerda, no dia 4).

Published in: on dezembro 28, 2009 at 8:17 pm  Comments (13)  

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13 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Seria interessante se possivel você fazer um paralelo sobre o papel da midia dos governos de Vargas e Jango. Para, assim, podermos ter uma visão de como é possível o Lula ter sobrevivido a tanta perseguição e vencer até agora. Sua glória definitiva será a eleição de Dilma, feito mais ou meno igual a Vargas.

  2. Ufa, pensei que o blog iria acabar. Ainda bem que não.
    Prezado Argemiro, obrigado por compartilhar suas reflexões e um feliz 2010 (nem li o “post” ainda, este é um comentário sobre o blog, ou sobre a continuidade dele).

  3. Salve, Argemiro,
    Suas análises jornalísticas, as quais considero de extrema elegância, produto raro na imprensa atual, nos fazem falta devido a demora da postagem.
    Por gentileza, rogo que em 2010 o jornalista continue brindando os seus leitores com esses textos que nos fazem refletir sobre os acontecimentos políticos. Feliz Ano Novo.
    PS: O post, como sempre, foi da medida exata da imprensa nacional que “partidarizou-se” durante os dois governos do presidente Lula. Parabéns.

  4. É realmente lamentável o papel desempenhado pela chamada “grande imprensa” brasileira. O surpreendente é que suas, digamos, cabeças pensantes, não percebam que, agindo como têm agido, perdem credibilidade entre os segmentos mais informados e críticos, reduzindo sua própria influência e optando pela irrelevância. Parecem ter dificuldades em entender que no tempo atual, com as tecnologias de comunicação e informação de que dispomos, suas falácias têm a firmeza de gelatina exposta ao sol de meio-dia.

  5. Ainda bem que você voltou ao blog. En hora buena! Também gostaria que você comparasse a situação política de Lula em relação a Vargas e Jango. Ainda não consegui entender porque Lula conseguiu sobreviver politicamente, todas as análises que lí me pareceram insuficientes. Só você, com sua experiência e conhecimento histórico poderia fazer essa relação. Um grande abraço e um grande 2010.
    Malú Costa

  6. grande texto. chave de ouro.

  7. Prezado Argemiro,
    Possivelmente em razão da atualização deste post, os comentários do post mais recente foram movidos para cá.
    Abraço.

    • Grato por chamar minha atenção. Posteriormente a irregularidade foi sanada pelo Word Press.

  8. Caro Argemiro,
    Como sempre você coloca o dedo na ferida. Que em 2010 você mantenha essa clarividência que o coloca entre os mais respeitados jornalistas brasileiros.
    Grande abraço.

  9. Prezado Argemiro,
    O nome do presidente chinês é Hu Jintao. Wen Jiabao é o primeiro-ministro.
    Parabéns pela análise.
    Abraços

  10. […] excelente artigo: O ano do Brasil – e do presidente Lula, Argemiro Ferreira faz um relato histórico da evolução política do Brasil, passa pelo medo de […]

  11. Texto excelente! Meus parabéns, tocou no ponto exato.
    Abs!


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