Juanita e o passado sinistro do Itamaraty

Castros Sister

Há uma particularidade insólita sobre nosso ministério das Relações Exteriores, o velho Itamaraty. Sempre desfrutou de boa imagem, menos por merecê-la do que pela prática nefasta, talvez de muitos anos, de varrer sujeiras para debaixo do tapete. Atravessou, por exemplo, todo o período da ditadura militar como se vivéssemos no melhor dos mundos, enquanto perseguia diplomatas – intelectuais como Antonio Houaiss, Vinícius de Morais, João Cabral de Melo Neto entre eles. E prestou-se a papéis indignos mesmo antes do golpe  de 1964.

Vale a pena lembrar tais coisas embora neste momento o Itamaraty, com o ministro Celso Amorim à frente, conduza com sucesso uma política externa exemplar. O que sugere revisitar a questão é a iniciativa de uma cubana de Miami, 76 anos de idade, notória pelo detalhe de ser irmã de Fidel e Raul Castro,Castro_Juanita_MisHermanos_ de revelar num prolixo livro de memórias (Fidel y Raúl, Mis Hermanos – La Historia Secreta, 432 páginas – capa ao lado), ter sido agente da CIA, central de espionagem dos EUA, graças à diplomacia brasileira.

Juanita Castro (foto acima) não fez a revelação nesses termos, mas o que escreveu (ou o que escreveu para ela a co-autora mexicana Maria Antonieta Collins, especialista em livros de auto-ajuda que ensinam dietas, receitas, como lidar com ex-maridos, livrar-se do vício do cartão de crédito, etc) permite chegar a tal conclusão (saiba mais AQUIAQUI). Sem atribuir explicitiamente a carreira de espiã à nossa diplomacia, ela diz ter sido recrutada para a atividade pouco nobre através da mulher do embaixador Vasco Leitão da Cunha, que então servia em Havana.

O péssimo exemplo da embaixatriz

É conveniente esclarecer que, entre outras coisas, agora Juanita se diz traída duas vezes – uma pelo irmão Fidel, a outra pela CIA e os EUA. No primeiro caso, a gente entende: como governante Fidel optou por cuidar dos problemas do país, não dos interesses da família. Quanto ao país que a recebeu, queixou-se de que a CIA no governo do presidente Nixon, eleito em 1968, pediu a ela para mudar o discurso e sustar os ataques a Cuba e Fidel – ou seja, dizer o contrário do que dizia até então.

vasco_leitao_da_cunhaMas voltemos à diplomacia. Como chefe da missão do Brasil, o embaixador Leitão da Cunha (foto à esquerda) recebera Juanita como asilada em 1958, ainda no governo JK. Ela alegara correr risco por ser irmã de Fidel, então líder dos guerrilheiros que lutavam contra o ditador Fulgencio Batista. Vitoriosa a revolução no primeiro dia de 1959, ela deixou a embaixada. E em 1961, depois do fracasso (em abril) da invasão da CIA (na baía dos Porcos) a embaixatriz Virginia Leitão, ciente da atividade dela contra o governo revolucionário do irmão, chamou-a para uma conversa. E sugeriu que passasse a colaborar “com uns amigos que conhecem seu trabalho (contra o governo) e querem ajudá-la”.

De acordo com a versão, Virginia encarregou-se de promover o encontro de Juanita com um dos “amigos”, Tony Sforza, então usando o codinome “Enrique”, depois de ter atuado um tempo sob o disfarce de jogador e frequentador de cassinos, com o codinome “Frank Stevens”. Logo depois Juanita passava a operar como agente da CIA em território cubano, com o codinome “Donna”. A se acreditar no livro, durante quase três anos (até 1964, quando foi para os EUA), ela “protegia”, inclusive escondendo em sua casa, críticos e opositores da revolução.

Relações promíscuas de diplomatasInsidetheCompany_PhilipAgee

Daí em diante Juanita foi usada permanentemente pela CIA como arma de propaganda. A ligação dela com a espionagem americana não era segredo. Já em 1975, no seu livro Inside the Company – CIA Diary (capa ao lado), o ex-espião Philip Agee, citou-a como “agente de propaganda da CIA”. E num livro póstumo de 2005, Spymaster – My Life in the CIA, o célebre Ted Schackley, controvertido ex-chefe de operações da agência, revelou publicamente, pela primeira vez, que o contato da CIA com Juanita Castro tinha sido feito através da embaixatriz brasileira Virginia Leitão da Cunha (veja a capa abaixo, à esquerda).

Difícil é entender porque o fato ainda era ocultado no Brasil e porque não se tenta saber mais sobre as relações promíscuas de diplomatas e gente direta ou indiretamente ligada ao Itamaraty, dentro e fora do país?TedShackley_Spymaster O mesmo livro que fizera (em 1975) a primeira referência à relação de Juanita com a CIA também registrara que no Uruguai, na década de 1960, o embaixador brasileiro Pio Corrêa atuara como espião da CIA.

Mas só em julho de 2007, graças a série de reportagens do Correio Braziliense durante quatro dias seguidos, o país soube a extensão do papel de Corrêa (leia AQUI, na página do Itamaraty, parte da série). Depois de passar pelo Uruguai e pela Argentina ele foi premiado com a secretaria geral do Itamaraty e usou o cargo – e os superpoderes recebidos no governo Castello Branco – para criar insólita máquina de espionagem no ministério, com alcance mundial. Um certo Centro de Informações do Exterior (CIEX) dedicava-se a monitorar em toda parte, com a ajuda de nossos diplomatas, os exilados brasileiros e críticos do regime militar.

D. Hélder e a espionagem de Pio Corrêa

Por alguma razão desconhecida a grande mídia do resto do país, cúmplice do golpe de 1964 e beneficiária da ditadura durante 20 anos, preferiu praticamente ignorar o conteúdo daquelas reportagens. Mas um dos efeitos conspícuos da ação do CIEX pode ter sido a campanha mundial orquestrada pela diplomacia brasileira para impedir a concessão do prêmio Nobel da Paz ao arcebispo Hélder Câmara, que denunciava torturas e abusos contra os direitos humanos no Brasil (saiba mais AQUI). A maquinação torpe devia ser hoje motivo de estudo e repúdio na formação dos futuros diplomatas.

PioCorrea_2Mas os segredos do Itamaraty, ao contrário, parecem intocáveis. No seu livro de memórias, O mundo em que vivi (capa ao lado) o próprio Pio Corrêa (foto abaixo, à direita), ao negar perseguição a Vinícius de Moraes (que se desligou, alega ele, num acordo amistoso) vangloriou-se de ter demitido “pederastas”, “vagabundos” e “bêbados”. Houaiss e João Cabral já eram perseguidos antes da ditadura, como alvos de campanha macarthista liderada, ainda no início da guerra fria, pela Tribuna da Imprensa ao tempo de Carlos Lacerda, que os denunciava como subversivos em manchetes de primeira página (mais sobre esse período AQUI).

Corrêa_PioSeria no mínimo saudável arejar esse passado recente e não perpetuar o sigilo. O Itamaraty foi suspeito antes de ocultar seus erros e ainda os gastos elevados, como se fosse uma caixa preta. O fato de alguém como Virginia Leitão da Cunha – cujo marido ocupou altos cargos, foi até ministro do Exterior da ditadura – ter atuado como espiã a serviço de potência estrangeira, dentro da embaixada brasileira, e recrutado agente para serviço de espionagem de outro país, é vergonha que tem de ser exposta à execração pública, para o exemplo nunca ser seguido. E se deixar de ser feita coisa parecida em relação aos Pio Corrêa da vida, a impunidade funcionará como estímulo no futuro ao mesmo comportamento deprimente – que revela subserviência e rebaixa a qualidade de nossa diplomacia.

Anúncios
Published in: on outubro 29, 2009 at 12:23 am  Comments (7)  

The URI to TrackBack this entry is: https://argemiroferreira.wordpress.com/2009/10/29/juanita-e-o-passado-sinistro-do-itamaraty/trackback/

RSS feed for comments on this post.

7 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Caro Argemiro,
    Surpreendi-me com o conteúdo das revelações. Chocante. Obrigado mais uma vez pela lúcida reportagem. Estava sentindo falta dos teus textos. Um grande abraço.

  2. Seu post peca pela falta informações para as pessoas entenderem o contesto e ela ser uma traidora, alguém que impede a morte de muitas pessoas e a instalação de mísseis nucleares nas mãos de um louco pra mim é um herói.
    “Atualmente com 76 anos, Juanita apoiou inicialmente Fidel quando o grupo dele derrubou o ditador Fulgencio Batista. Rapidamente, porém, desiludiu-se pelo grande número de execuções e outros abusos da revolução, disse ela durante entrevista ao canal hispânico de Miami.”
    “A casa dela converteu-se em um refúgio para anticomunistas, antes que a própria Juanita decidisse deixar o país, em 1964, quando se exilou no México.”
    “Juanita disse que o primeiro contato da CIA ocorreu pouco após a fracassada invasão da Baía dos Porcos, quando ela viajou com o México para se reunir com o funcionário encarregado de seu recrutamento, em 21 de junho de 1961. Ela contou em detalhes que Leitão da Cunha e sua mulher haviam abrigado muitos revolucionários durante a ditadura de Batista, e simpatizarao inicialmente com o governo Fidel, mas posteriormente ficaram decepcionados.”
    “A CIA se comunicava com ela por mensagens cifradas em uma rádio de ondas curtas. Antes da crise dos mísseis, Juanita passou informações à CIA de que foguetes soviéticos eram instalados em Cuba, e também sobre visitas dos russos à ilha.”
    “A agência decidiu afastá-la de Cuba depois que Raúl foi dizer à irmã que havia acusações contra ela por supostas atividades contrarrevolucionárias. Aparentemente, não haviam descoberto sua ligação com a CIA. Juanita afirma que foi Raúl quem lhe conseguiu um visto para viajar ao México. Chegando ao país, ela escreveu um texto rompendo com a revolução.”
    “Comecei a me desencantar quando vi tanta injustiça”, afirmou Juanita na entrevista, referindo-se às prisões, aos fuzilamentos e aos confiscos do governo revolucionário. “Tínhamos a tendência de botar a culpa nos subalternos, mas as ordens vinham de cima, de Fidel, de Che (Guevara), de Raúl.”

  3. Prezado Argemiro,
    Máquina de propaganda. Esse é o termo exato. Mas não é só o Itamaraty. E não por um punhado de dólares, mas por exatos US$145 mil o professor-sabujo e pseudo intelectual Fernando Henrique Cardoso tornou-se um “CIA asset” de alta patente nessa mesma máquina de propaganda norte-americana numa noite de fevereiro de 1969. Corrija esse montante para dólares de hoje e verá a quantidade de grana que rolou pra ele vender seus serviços de propagandista. Na verdade a “companhia” esteve presente nos seus dois mandatos e no seu mais íntimo recanto do poder da sua presidência. Hoje ele tenta se metamorfosear em THC, mas não adianta pois já sabemos que é mais um factóide montado com a ajuda da máquina que o emprega. O diabo é que estou tentando comprar o livro “Quem pagou a conta?” da inglêsa Frances S. Saunders, mas, estranhamente, não consigo achá-lo em nenhum livraria – sobretudo as de shoppings. Só acho o chorume dos autores do PiG como imbecilidades do tipo “não somos racistas” (claro que são), “dicionário do lula”, etc.

  4. Mesmo que Fidel fosse um “louco”, como diz o amigo Wander, os mísseis não estavam sob seu controle e sim sob controle soviético. Serviram muito bem à diplomacia soviética para desarmar o governo iraniano, seu vizinho, de mísseis nucleares americanos. E ainda garantiram que os EUA não viessem a atacar Cuba.
    Quem se deixa levar pela ideologia cega, não pode perceber a História com isenção de paixões. Por outro lado, os mísseis foram exaustivamente fotografados e até mesmo os navios que os transportavam foram monitorados. Não é provável que a senhora Juanita tenha passado alguma informação sobre eles que os EUA já não soubessem.
    Quanto à irmã de Fidel, mulher de inteligencia e conhecimentos medianos, valendo-se das prerrogativas de seu parentesco, passou a frequentar a alta roda da diplomacia habanera. Foi vítima fácil das garras afiadas de experientes agentes da CIA, que ao fim e ao cabo, tudo indica que desejavam não informações secretas, mas sim apenas tirá-la da ilha e apresentá-la pelo mundo afora como um troféu capitalista contra o governo cubano.

  5. […] Do Blog do Argemiro Ferreira […]

  6. argemiro
    há cerca de um ano a Carta publicou que o João Cabral espionava o Jango.
    estranho, não?


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: