Veemência de Lula forçou a ação da ONU

Lula_na_ONU_09_AFP

Poucas horas depois de seu veemente discurso (leia AQUI) na Assembléia Geral da ONU, o presidente Lula (foto AFP acima) já poderia fazer ontem um balanço surpreendentemente favorável do episódio do “abrigo” dado pela embaixada do Brasil em Tegucigalpa ao presidente constitucional de Honduras, Manuel Zelaya – expulso há três meses do palácio presidencial e do país pelo golpe que instalou Roberto Micheletti no poder.

A volta a Honduras do presidente legítimo criou um fato novo. O governo Obama – devido à diplomacia sinuosa conduzida pela secretária de Estado Hillary Clinton, antes ambígua e apoiada em personagens duvidosos herdados do governo Bush, como Hugo Llorens e Thomas Shannon – parecia disposto a fazer corpo mole até ser consumido todo o restante do mandato de Zelaya (leia AQUI, AQUI e AQUI) numa tática destinada a favorecer os objetivos golpistas.

Bankimoon_ONUO regime do golpe não conseguiu ser reconhecido por qualquer país, mas sabotou e fez fracassar a mediação do presidente costarriquenho Oscar Árias – uma idéia infeliz de Washington, marginalizando a OEA. Agora, ao contrário, o Brasil revigorou o processo, forçou compromisso do governo Obama com a democracia e mobilizou a OEA e em especial a ONU, que afinal tomou suas primeiras medidas concretas (o debate no Conselho de Segurança é previsto para amanhã).

O secretário geral Ban Ki-moon (foto ao lado) suspendeu temporariamente a assistência técnica atualmente dada pela ONU ao Supremo Tribunal Eleitoral de Honduras, por não acreditar que haja condições neste momento de se fazer eleições com um mínimo de credibilidade e capazes de devolver a paz e a estabilidade ao país. O regime do golpe tentava impingir a votação com os adversários acuados e a imprensa sob controle.

O fato novo que mudou tudo

O secretário geral citou a preocupação da ONU com as denúncias de violações dos direitos humanos (o regime também reprime a mídia contrária ao golpe, como acusou o grupo Repórteres Sem Fronteiras). Ao mesmo tempo, conclamou os golpistas a respeitarem os tratados e convenções internacionais ratificados por Honduras, inclusive – e principalmente – a inviolabilidade da missão diplomática do Brasil.

Convencido de que o fim da crise hondurenha exige acordo consensual, Ban Ki-moon apoiou as tentativas regionais de mediação e conclamou todos os atores políticos a redobrarem esforços nessa direção. Uniu-se ainda à OEA e aos líderes regionais e fez apelo em favor de um acordo, conclamando à busca ao diálogo – para o qual a ONU está pronta a colaborar (leia a cobertura da Reuters no New York Times AQUI).CelsoAmorim

Nada disso aconteceria sem a cobrança enfática de Lula, ante o cerco dramático à embaixada brasileira, ao abrir a Assembléia Geral. Mas no Brasil isso é pretexto para a nova campanha da mídia golpista – para variar, contra o país mais do que contra o presidente. Às explícações claras e lúcidas do ministro do Exterior Celso Amorim sobre a chegada de Zelaya à embaixada de Tegucigalpa, ela prefere imaginar seus próprios complôs fantasiosos.

O que o ministro relatou na entrevista – em Nova York, duas horas e meia após a chegada de Zelaya à embaixada – a jornalistas brasileiros e estrangeiros desmente a versão intrigante da mídia golpista, que apóia o golpe de Honduras como em 1964 apoiava o do Brasil e, depois, os 20 anos de ditadura. Na visão distorcida dela, o governo Lula foi parte de uma trama da Venezuela de Hugo Chávez com Zelaya.

O alarme falso e a verdade

A embaixada soube da presença de Zelaya em Honduras, segundo Amorim, meia hora antes da chegada dele ao prédio. A primeira dama Xiomara Castro – que não deixara o país com o marido, preferindo manter-se ativa nos protestos de rua e na articulação contra os golpistas – pediu para ser recebida pelo encarregado de negócios do Brasil, ministro Francisco Catunda Resende, a quem informou que Zelaya estava nas cercanias e viria procurá-lo.

Antes tinha circulado a informação de que o presidente deposto estava em Honduras, mas na representação da ONU em Tegucigalpa – o que provocara ação repressiva contra manifestantes em frente ao prédio. Comprovada a falsidade de tal informação, o chefe do regime golpista, Roberto Micheletti, apareceu triunfante na TV para garantir que Zelaya, ao contrário, “continua desfrutar de sua suíte num hotel na Nicarágua”.

O ministro Catunda Resende, após ouvir Xiomara, comunicou a situação a seus superiores no Itamaraty e foi autorizado a receber Zelaya – informação passada depois a Amorim e ao presidente Lula.Zelaya_090922 Nenhum contato foi feito com o governo golpista de Honduras porque o Brasil só reconhece como presidente o próprio Zelaya, eleito pelo voto nos termos da Constituição e derrubado pelo golpe militar.

Amorim explicitou ainda que Zelaya (foto ao lado), segundo a informação transmitida por ele próprio à embaixada, chegara “por meios próprios e pacíficos”. E não está ali na condição de asilado, já que o Brasil, como a comunidade internacional, a ONU, a OEA e demais governos, inclusive o dos EUA, continua a reconhecê-lo como presidente constitucional. Assim, é hóspede no prédio como “abrigado” – ou “refugiado”, palavra usada por Lula ao discursar na ONU.

Que governo cometeria a temeridade de negar “abrigo” – ou “refúgio” – em sua embaixada ao presidente que reconhece como constitucional e legítimo? Afinal, se o fizesse haveria o risco até de provocar sua captura – ou assassinato – pelo regime instalado no golpe de 28 de junho. Pelo relato de Amorim ficou claro que o Brasil se vira diante de um fato consumado, enquanto os golpistas passavam a exigir a entrega de Zelaya – para ser preso.

A irresponsabilidade sem limite

O quadro exposto por Amorim na primeira entrevista sobre o caso em Nova York (clique no YouTube ao fim deste post para ouví-lo) não deixava margem a dúvida. Mas a mídia golpista, habituada a fabricar estratégia para a oposição demo-tucana de virgílios, agripinos, maias & freires, anunciou nas horas seguintes outra de suas desastradas e pândegas investigações parlamentares – do tipo mensalão, dossiê fajuto, apagão aéreo, marolinha, Sarney, Petrobrás, etc.

Nada resultou de nenhuma, já que elas tinham em comum seu caráter destrutivo. Sistematicamente contra o Brasil e os brasileiros, só buscam prejudicar os interesses do país e comprometer sua imagem no mundo. Como o esforço (que ainda persiste) contra a Petrobrás no momento mesmo em que essa empresa, orgulho nacionl, faz sua maior e mais consagradora descoberta.

Estadão_090924Comparem o relato de Amorim com as manchetes irresponsáveis de O Globo na terça-feira (“Brasil abre embaixada para Zelaya tentar retomar o poder em Honduras”) e na quarta (“Ação do Brasil acirra crise e tensão cresce em Honduras”). A “Folha”, ao menos, limitou as manchetes ao factual: terça, “Zelaya volta e se refugia na embaixada brasileira”; quarta, “Honduras sitia a Embaixada do Brasil”. De certa forma é também o caso do Estado de S.Paulo hoje, ao sugerir o que parece fazer sentido: Zelaya, por sugestão de Chávez, teria percebido ser a embaixada brasileira a que melhor serviria a seus propósitos (leia o texto na íntegra AQUI).

A obsessão golpista do império Globo gera jornalismo de esgoto. No jornal, TV e penduricalhos. Não há limite para a leviandade. Bom exemplo é a gravação de áudio ridículo no qual uma brasileira, Eliza Resende Vieira, vocifera contra Zelaya – e contra o Brasil, por defender a democracia e a vida dele, o que cria embaraços para gente como ela. Parecia comercial, repetido à exaustão pelos irmãos Marinho em diferentes programas, veículos e horários.

(Clique abaixo para ouvir a explicação e as respostas de Celso Amorim)
Published in: on setembro 24, 2009 at 2:43 pm  Comments (7)  

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7 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Excelente! Publiquei a parte final no Dialógico, mas dei notícia do artigo completo tb: http://dialogico.blogspot.com/2009/09/midia-apatrida-brasileira-e-seus.html Tb divulguei pelo Twitter. Abraço!

  2. Cada vez mais fica nítido que a imprensa golpista no Brasil busca um motivo para apoiar um governo de exceção no Brasil, estilo Micheletti, via Supremo . A dúvida é apenas quando …

  3. Um jornalismo sem escrúpulos, sem a menor ética. Esse é tipo de jornalismo que nós, brasileiros e brasileiras, estamos assistindo diáriamente. Pelo que o correpondente da Globo em Honduras está tentando colocar para nós em todos os jornais desta mesma emissora de TV, é que o Brasil se meteu onde nao é chamado. Dá a impressao de que, o Brasil está provocando um desmantelamento na economia hondurenha, coloca imagens como se tudo estivesse bem naquele pobre país, antes do presidente verdadeiro pedir abrigo na embaixada brasileira; é horrivél ter que ver esse jornalismo de quinta categoria apoiando abertamente os gorilas comedores de bananas dos EUA. Todos os dias eu fico a pensar: olho para meu filho e temo, porque ele vai crescer vendo e ouvindo mentiras como se fossem verdades.

  4. Meu caro, Argemiro, os golpistas ganharam. Isso é como prazo eleitoral: ou se age na hora, ou o agressor leva o lucro. Micheletti e seus apoios em Washington vão levar isso até as eleições marcadas. Reys diz que assim, com ditadura ela vai retirar a candidatura… agora. Passado o fecha-fecha do cerco à embaixada brasileira, ninguém mais fala no assunto. Desta forma, o golpe acabará vitorioso, mesmo que sem o brilho dos grande golpes. Mas golpes são assim mesmo. Já houve golpes dados no 1° de abril e registrados na história como de 31 de março…! Em 1988 um candidato a prefeito de Frei Paulo (SE), foi surrupiado na eleição onde até caneta de cor diferente das usadas pelo TRE-SE houve. O Juiz escondeu as urnas e quando elas apareceram vieram com várias estranhezas. O próprio Juiz negou qualquer recurso ao perdedor que recorreu ao TRE; dois anos depois o TRE deu o veredito: nova eleição. O ganhador, devidamente intrumentado, apresentou incontinenti o recurso ao TSE. Que julgou a eleição uma fraude. Faltando três semanas para o novo prefeito assumir e o reclamante, por seu partidário, já havia perdido de fato esta. Dizem as más línguas que por trás dessa “engenharia” esteve o então senador Albano Franco, ex-CNI. Dizem. Povo da língua grande!
    Madame Clinton – e o titubeante governo Obama – é o Albano de Zelaya.

  5. Você fala sobre “violação dos direitos humanos” em Honduras, mas não fala nada sobre CUBA. Esquerdista hipócrita.

    • São duas situações completamente diferentes, podemos comparar situações parecidas ou iguais, mas nunca situações diferentes.
      O comandante Fidel retirou o ditador do poder e criou uma Cuba socialista.
      Agora estamos falando de um presidente eleito democraticamente que desejaria fazer como o seu Idolo FHC fez aqui no Brasil (REELEIÇÃO), mas de uma maneira diferente, consultando a população.

  6. “Golpe não é Golpe”
    Os noticiários da mídia corporativa brasileira deixam transparecer uma clara simpatia pelo golpe de Honduras, assim fazem um grande esforço para mostrar que “golpe não é golpe”, além disto torcem o tempo todo contra o Brasil. Nessa apologia midiática do golpe atuam sem qualquer sutilidade. Esta simpatia transmitida assim ao vivo parece carregada de uma frustação e dai o desespero…
    Mas, para quem assiste fica a impressão de que estão sublimando, ou seja, queriam que o golpe fosse aqui, portanto, no lugar do presidente Zelaya, estivesse o presidente Lula. Mas diante da impetuosidade demonstrada talvez quizessem dois golpes, um com Zelaya lá, e outro com Lula cá.
    Francisco Solano de Lima [João Pessoa – PB]


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