O mea culpa do “guerreiro frio” George Kennan

KennanGeorge_NYT

Ao morrer em 2005, com 101 anos, o cientista político e diplomata George F. Kennan (sua foto acima é da década de 1940; abaixo, à direita, nos anos 1990) já tinha sido retratado por Walter Isaacson e Evan Thomas como um dos “seis sábios” que construiram o mundo pos-II Guerra Mundial (os outros eram Averell Harriman, Dean Acheson, John J. McCloy, Charles Bohlen e Robert Lovett). Foi clara a influência dele no rumo da política externa dos EUA e da guerra fria mas teve o mérito incomum de reconhecer os erros cometidos (mais sobre ele AQUI).

Com pouco mais de 40 anos de idade, em seguida à vitória aliada contra o eixo nazi-fascista e aos ataques atômicos ao Japão, ele concebeu a estratégia do containment – a contenção global do comunismo em qualquer parte do mundo, por meios políticos, diplomáticos e ações da espionagem (AQUI, um texto do Departamento de Estado sobre a teoria). Isso levaria à criação do setor de operações clandestinas da CIA, que derrubou governos e eliminou governantes e líderes pelo mundo.

Kennan julgava-se mais intelectual (amante da poesia e da ficção) do que homem de ação, mas entrou para a história como conspícuo guerreiro frio – um dos primeiros. Isso se deu em parte devido ao despacho diplomático secreto de 8.000 palavras (conheça-o AQUI) que enviou de Moscou, onde servia como embaixador adjunto, ao Departamento de Estado, transformado depois num artigo para a revista Foreign Affairs, assinado com o pseudônimo “X”.Kennan_050318

O containment contra a URSS

O despacho chegou a Washington em fevereiro de 1946. Foreign Affairs publicou o artigo, sob o título “As Fontes da Conduta Soviética”, em julho de 1947 (leia a íntegra AQUI). Kennan era então adjunto do embaixador Averell Harriman – que, como ele, achava estarem a diplomacia e o governo dos EUA iludidos sobre a cooperação da URSS, aliada na guerra. Para os dois, era preciso sacudir e alertar os americanos para uma possível ameaça.

O presidente Harry Truman tinha chegado ao poder em 1945, quando a morte de Franklin Roosevelt traumatizou o país. Parte da equipe herdada por ele defendia uma continuação da política rooseveltiana de cooperação com os russos. Outros reclamavam imediata mudança de rumo. Estes apressaram-se então em fazer dos argumentos de Kennan a justificativa intelectual do endurecimento que pregavam.

Walter Lippman, o mais influente analista de política externa na mídia daqueles dias, contestou Kennan (saiba porque AQUI). Interpretou seu containment como também fizera a linha dura – sob o ângulo militar. Mais tarde, em entrevistas e nas suas memórias, Kennan admitiria ter sido ambíguo na linguagem ao propor uma contenção firme, vigilante e a longo prazo do “expansionismo russo”. Reconheceu que o texto, ambíguo, de fato comportava aquela interpretação.

Em entrevista à rede pública de TV (PBS), Kennan reafirmou em 1996 (leia AQUI) que não encarava os soviéticos como primariamente uma ameaça militar. “Não eram como Hitler”, disse. Explicou ainda que o “mal entendido” deveu-se ao trecho do artigo no qual dizia que “onde quer que eles (a liderança russa) nos confrontem no mundo, temos de fazer todo o possível para contê-los, e não permitir que se expandam mais” (saiba outros detalhes na entrevista dada à CNN, AQUI).

Da doutrina Truman à OTAN

Ao falar a David Gergen, na PBS, Kennan admitiu que devia ter acrescentado “não suspeitar que eles (os russos) tinham qualquer desejo de nos atacar. Isso foi logo depois da guerra e era absurdo supor que iam se voltar contra nós, atacar os EUA. Naquele momento não achei que tinha de dar essa explicação. Obviamente eu devia, sim, ter explicado.” Lippman, que o criticou, como também a linha dura, interpretaram o texto da mesma forma.

Century_EndingGraças a isso, o artigo acabou usado para justificar a doutrina Truman (cujo passo inicial foi a ajuda à Grécia e à Turquia, para deter os comunistas), o Plano Marshall que viria em seguida e a criação da aliança atlântica (OTAN, Tratado do Atlântico Norte). E forneceu rationale aos duros. Mas não era a intenção de Kennan, que fez mea culpa em seus livros de memórias, desapontado com os efeitos do que escrevera antes (o da capa ao lado foi o último que publicou, At a Century’s Ending – Reflections, 1982-1995 – mais sobre ele AQUI).

Para ele, a coisa não devia ter sido tão simplista como quis a linha dura. Já na década de 1950 rejeitou a enorme escalada armamentista da guerra fria, tanto das armas convencionais como das nucleares. Era tarde demais, mas Kennan foi contrário à obsessão belicista a que se recorreu a pretexto da “ameaça vermelha”, montando o palco para os excessos anticomunistas (histeria, macarthismo, caça às bruxas, etc).

Depois do alerta para a conduta soviética, enquanto servia sob Harriman na embaixada dos EUA em Moscou, Kennan voltou aos EUA em 1946. Integrou a Escola Nacional de Guerra, a equipe de planejamento de políticas e, em seguida, tornou-se conselheiro do secretário de Estado Dean Acheson. Divergiu do papel militar na Coréia e outras questões, até deixar o governo e optar pela área acadêmica – em Princeton.

Conservador, independente, racional

Kennan_050317Ele ainda teve novo período na embaixada dos EUA em Moscou, em 1952, mas breve, de apenas cinco meses (na foto à esquerda, a entrega de credenciais, ao lado de Nikola Shvernik e A.F. Korkin, membros do Presidium do Soviet Supremo). Desta vez como embaixador pleno. Serviu apenas para aumentar seu desencanto com a diplomacia, pois não se entendia com o então secretário de Estado John Foster Dulles, no governo Eisenhower. Amigos e colegas, como o cientista Robert Oppenheimer e outros diplomatas, tornaram-se então alvos do senador Joe McCarthy, sem que Dulles e Eisenhower ousassem defendê-los.

Teve ainda passagem rápida pela embaixada dos EUA na Iugoslávia, no governo Kennedy. De volta à Princeton em 1963, Kennan não mais deixou a Universidade. Suas reflexões posteriores, especialmente em livros (escreveu quase duas dezenas, inclusive volumes de memórias), expuseram posições independentes e ousadas para sua postura conservadora – como a oposição ao envolvimento no Vietnã.

Na coragem e no bom senso esse conservador soube fugir aos padrões. Assumiu os próprios erros e até chamou atenção para eles. Em momento crítico da história soube perceber que suas advertências tinham sido ouvidas pelas razões erradas e sua percepção do perigo soviético fora levada a extremos. A franqueza usada então foi a mesma com que antes tinha criticado os que, para ele, confiavam demais na amizade russa. (Correções feitas às 23:20h)

Published in: on agosto 13, 2009 at 6:46 pm  Comments (2)  

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2 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Olá Argemiro,
    Realmente, o Kennan pode ser caracterizado como um dos opositores aos “falcões” de Washington, ele não preconizava um atrito direto com os soviéticos.
    Mas voce sabe o que Chomsky descobriu sobre ele? Em seu livro O que o Tio Sam realmente quer, Chomsky levanta documentos onde kennan mostrou as suas diretrizes para a América Latina. É de dar nojo.
    Kennand contrabalançou a sua postura “pomba” com uma agressividade enorme para a América Latina e todos os líderes que ousassem melhorar a vida de seus povos.
    Veja alguns pontos de vista de Kennan sobre nós:
    “A proteção das nossas (isto é, da América Latina) matérias-primas”. “Devemos, portanto, combater a perigosa heresia que, segundo informava a Inteligência americana, estava se espalhando pela América Latina: a idéia de que o ‘governo tem responsabilidade direta pelo bem do povo”
    “Os estrategistas americanos chamam essa idéia de comunismo, seja qual for a real opinião das pessoas que a defendem. Elas podem formar grupos de auto-ajuda, baseados na Igreja, ou quaisquer outros, mas se elas apóiam tal heresia, elas são comunistas(…)”.
    “Precisamos parar de falar de vagos e… irreais objetivos, tais como direitos humanos, elevação do padrão de vida e democratização. Não está longe o dia em que teremos de lidar com conceitos de poder direto. Então, quanto menos impedidos formos por slogans idealistas, melhor (…)”.
    Do ponto de vista latino-americano, o mea-culpa de Kennan está incompleto.
    Um grande abraço.

  2. Informo-me na net dividindo meus temas de interesse e procurando os sites/blogs que os apresentem da maneira mais isenta, completa e esclarecida. Política: Agência Carta Maior, PHA, Óleo do Diabo, Azenha, MSM, etc. Economia: Luis Nassif. E, sobre política externa, não há o que dizer: este é, na minha opinião, a melhor fonte de informações do nosso país.


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