O esforço de Árias e o golpismo da mídia

ElHeraldo-090720

Ainda não é fato consumado o fracasso da mediação de Oscar Árias (foto abaixo, à direita), presidente da Costa Rica, já que pediu mais 72 horas e sua equipe considera a mediação “bem encaminhada” (saiba mais AQUI). O deposto e exilado Manuel (Mel) Zelaya marcou para o dia 24 a volta a Honduras. E Roberto Micheletti, ditador instalado pelo golpe militar, rejeita enfaticamente o retorno do presidente legítimo, eleito pelo voto popular.

Arias_090720As figuras da foto do alto, publicada no jornal hondurenho El Heraldo (leia AQUI), feitas de fibra de vidro, parecem saídas de desfile de escola de samba. O regime do golpe diz que estavam num jardim da casa presidencial e representam o presidente deposto (Zelaya) ao lado de heróis da independência no século XIX. Um presidente não precisa necessariamente ter bom gosto, mas seria ridículo ver nisso “prova” de que era ditador – estapafúrdia alegação dos golpistas.

Com tais “provas” fica fácil entender porque nenhum país (nem Israel!) reconhece o regime. A diplomacia dos EUA continua ambígua (a secretária Hillary Clinton, da Índia, puxou ontem a orelha de Micheletti pelo telefone); OEA e ONU apoiam a democracia, com a volta do presidente eleito; BID e Banco Mundial suspendem programas (mais AQUI); e União Européia congela US$ 65,5 milhões da ajuda a Honduras.

Apesar desse quadro os golpistas conseguem protelar o fim da crise. Na proposta de Árias a volta de Zelaya ao cargo do qual foi retirado à força é o ítem 1 (leia a íntegra da proposta AQUI), mas os golpistas tentam ganhar tempo. Como na crise dominicana de 1965: ante a resistência popular, o chefe do golpe pediu socorro aos EUA e os fuzileiros vieram (45 mil) – tropa transformada depois em “força de paz da OEA”. A protelação impediu o presidente Juan Bosch de voltar. (Mais sobre o episódio AQUI; e uma interpretação de Noam Chomsky AQUI)

O exemplo de Wessin y Wessin

Há 45 anos, claro, a moda era outra: o pretexto da “ameaça comunista” justificava golpes militares e intervenções dos EUA. Na época o Brasil dos generais retribuiu a operação Brother Sam (de apoio ao golpe de 1° de abril no ano anterior, contra o “comunista” João Goulart). Enviou as tropas brasileiras comandadas pelo general Meira Mattos, que se somaram à falsa “força de paz”.

Wessin_y_Wessin_650507O cinismo do governo do presidente Lyndon Johnson e dos países que o apoiaram (nosso ditador de plantão, Castello Branco, entre eles) tornou aquele episódio página infame da história continental. Do outro lado lutavam pela democracia as forças constitucionalistas lideradas pelo coronel Francisco Caamaño Deño (mais sobre ele AQUI) e integradas por oficiais jovens e civis.

Com larga adesão popular, a “revolução constitucionalista” tentou sem sucesso restabelecer a Constituição. Bosch tinha sido o primeiro presidente eleito depois da ditadura Trujillo. O líder do golpe foi o general Elias Wessin y Wessin (mais sobre ele AQUI). Junto com outros chefes militares formados à sombra de Trujillo, tinha respaldo no Pentágono.

É oportuno lembrar Wessin y Wessin – retratado na capa da revista Time (foto acima) em seguida ao golpe, como herói da luta contra o comunismo. Ele morreu há apenas três meses, com 84 anos. Morte serena, na cama. Depois daquela crise o general viveu um tempo no luxo em Miami (como em geral ocorre com ditadores e golpistas) mas voltou para integrar vários governos dominicanos.

Zelaya, um novo Juan Bosch?

A intervenção americana de 1965 foi ainda uma das razões da sobrevivência política de outros filhotes da ditadura Trujillo – como Joaquín Balaguer, outra vocação autoritária, que acabaria ocupando três vezes a presidência dominicana, num total superior a 20 anos. Balaguer só morreria em 2002, com 95 anos (mais sobre ele AQUI).

O equívoco dos constitucionalistas de 1965 foi acreditar na promessa dos EUA, ainda no governo Kennedy, de apoiar reformas democráticas no continente. Como o presidente que prometera foi assassinado em 1963, o sucessor Johnson preferiu aderir aos golpistas. Hoje a situação é parecida.Tiempo_090720 Em Honduras e no resto do hemisfério não se sabe até que ponto é real o compromisso dos EUA com a democracia.

Para Zelaya, a protelação reduz o tempo na presidência e favorece a pregação golpista da mídia. E há mais complicadores: a proposta de Árias anula na prática os poderes do presidente; golpistas do legislativo e judiciário serão anistiados e participarão do governo; e a mídia golpista, impune, manterá seu papel nos complôs, atacando e difamando governantes que não se submetem aos interesses dela.

Vale a pena passar os olhos nas edições online dos diários hondurenhos (Tiempo, reproduzido acima, parece mais moderado). Repetem todo dia que Micheletti, instalado pelo golpe, é democrata; e Zelaya, que o povo elegeu, é ditador – “violava a Constituição não uma, mas muitas vezes”, dizem os golpistas. Favorável a estes e tão irresponsável como a do Brasil, a grande mídia de Honduras chama Zelaya de “corrupto”, “golpista”, “chavista”, “comunista”, etc.

Ou um novo Saddam Hussein?

As figuras em fibra de vidro no jardim foram feitas por artista popular em troca de uns trocados. São bregas mas Zelaya (foto abaixo) é presidente, não crítico de arte. O que elas provam é o baixo nível a que desce a mídia partidária dos golpes. O jornal El Heraldo achou gravíssimo as “estátuas” estarem na residência presidencial, mas um leitor contestou o relato.

Dominican Republic Honduras CoupDisse na edição online não ser hoje e nem ter sido antes empregado do governo. E explicou que visitara há algum tempo ateliê no qual são feitas imagens como aquelas. “Soube então que eram dadas de presente a Zelaya, para um evento. O veneno de vocês nesses artigos é incrível. Não sei quem é pior, vocês ou ele”, concluiu.

Os que invadiram a casa presidencial esperaram mais de 20 dias para falar das tais figuras do jardim. El Heraldo, como costuma fazer O Globo, Folha de S.Paulo, Estadão e Veja, ouviu “especialistas”. Um deles, psiquiatra, diagnosticou e definiu a “megalomania” de Zelaya: “É um exagero delirante da própria capacidade, um delírio de grandeza”.

Já um analista político viu naquilo “simbologia típica de ditadores”. Lembrou que “Saddam Hussein mandou erigir estátua gigantesca de si mesmo”. E proclamou com eloquência cívica: “Zelaya julga-se no direito de governar (…) pela eternidade”, precisa de “ajuda psiquiátrica”.

Published in: on julho 21, 2009 at 8:02 pm  Comments (4)  

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4 ComentáriosDeixe um comentário

  1. O jornalismo da TV Brasil é anti Hugo Chávez e anti ALBA. Tanto quanto a imprensa hegemônica é anti Lula e anti PT. Acho que o seu jornal Repórter Brasil só não é, já, também claramente anti Lula porque este é governo, independente de ser ele seu criador. Basta observar com um pouco de atenção e se verá que o enfoque sobre a política – e sobre Lula – é ‘quase igual’ ao da mídia hegemônica. Sobre já ser anti PT nem precisa de atenção.
    Parece que trabalham deliberadamente para desaparecer com a ALBA e com qualquer um ou coisa relacionada a ela.
    O jornalista que vinha fazendo os editoriais com fachada de reportagens, que sempre resultavam favoráveis aos golpistas de Honduras, finalmente foi substituído na “cobertura” que a TV Brasil faz sobre o assunto. “Cobertura” assim entre aspas, porque não faz cobertura nenhuma do golpe de Estado que ocorre na América Latina – e que parece envolver uma disputa direta e violenta contra a ALBA, só uns poucos segundos embalados em “drops”, uma vez por dia, também e exatamente como a imprensa hegemônica.
    Ele – o jornalista – agora trata da Colômbia, sobre a qual nos prestou o mesmo tipo de serviço, apresentando uma superficialidade sobre o fortíssimo reforço militar dos EUA naquele país. Superficialidade, leve e rapidíssima, mas sem deixar de ser anti Chávez. Eles conseguem. Inclusive não informou que se trata da criação de cinco bases militares dos EUA em solo colombiano, três agora e duas depois e, enorme contingente, segundo declarações do próprio presidente Hugo Chávez, da Venezuela. Ele já considera que é uma situação de ocupação militar da Colômbia por nação estrangeira. E tudo no contexto do Golpe militar de Estado em Honduras.
    Não deu tempo de ver nem mesmo se tinha legenda com o nome do referido jornalista da TV Brasil.
    Começa a me ocorrer que talvez não se trata de um “papagaio do império” e sim, de um peixe, de alguma estranha espécie, talvez das profundezas, porque de qualquer modo, anteontem, no dia da comemoração da vitória do movimento sandinista que tirou o preposto dos EUA e ditador Somoza do poder na Nicarágua, o espécime fez questão de ser anti Ortega.

  2. Meu caro Argemiro, em primeiro lugar, sinto-me alegre por lhe encontrar aqui na blogosfera. Em segundo, concordo sobre o alinhamento ideológico da TV Brasil com mídia a golpista brasileira, alegado no comentário do Thomaz Braga. Há momentos em que fico na dúvida se o jornalismo da TV Brasil é da Band, da RedeTV ou de alguma outra subsidiária da Globo.
    Quanto ao Zelaya, já era! Bush foi desmascarado ao patrocinar aquele absurdo no Iraque, especialmente por suas alegações mentirosas. Nunca mais foi respeitado, mesmo que continuasse temido. Obama, de forma mais lenta – já que a importância do tópico é menor – vai perdendo o ar de “diferente” de Bush ao permitir essa molecagem de Honduras. Repito, acaba sua imagem de lider e estadista ao permitir essa molecagem em Honduras. Fica estampado na cara que a cultura de golpismo patrocindo pelo Partido Democrata dos Estados Unidos no Terceiro Mundo voltou com toda a força. Tal qual como nos “bons tempos” da Guerra Fria. E se era pra reagir a mais essa molecagem de coroneizinhos de republiqueta de bananas que o fizesse tal qual Mrs. Thatcher contra os generalecos da Argentina. O que manteve a forte influência americana sobre a America latina não foi somente seus marines. Existem também qualidades invejadas pelas pessoas de bom senso na região que as tornam naturais aliadas dos Estados Unidos. Ganhos pelos corações, como diria Goebbels. Aliados que Bush perdeu. E Obama também pode perder.
    Infelizmente, tô achando que Obama “não é o cara”. Independentemente de ser Zelaya tão ruim quanto os golpistas que o apearam do poder, o que fica é que a virtude é coisa de otário; que a democracia é palavra pra domesticar otário.

  3. É triste ver que Obama ocupa a Presidência, reside na Casa Branca, tem maioria de votos democratas, mas não governa. O governo pra valer continua nas mãos de republicanos, militaristas, conservadores, racistas, neoliberais, empresários sem escrúpulos, economistas sem escrúpulos. A Hillary ameaçou o Irã com a militarização dos países do entorno por causa do programa nuclear. Cadê a diplomacia? E a guerra continua no Afeganistão? Cadê a mudança? E a dupla Cheney+McCain se reúne com golpistas hondurenhos. Enquanto isso, Obama e Hillary da boca pra fora se dizem ao lado do retorno de Zelaya. Cínicos e hipócritas, como foram os que os antecederam; só que estes últimos com menos elegância. Uma lástima para a AL esses primeiros meses do governo Obama. É possível que se os golpistas se assentarem no poder, o presidente norte-americano jamais refaça seu prestígio quando da eleição.

  4. […] Dias depois do golpe hondurenho escrevi neste espaço que Shannon e Llorens tinham vivido situação igual sete anos antes: “um tratava então de questões andinas (Venezuela entre elas) no Departamento de Estado, como adjunto do secretário assistente Reich, lobista anti-Cuba e padrinho do golpe (da Venezuela); o outro cuidava do mesmo assunto no Conselho de Segurança da Casa Branca, junto com Elliot Abrams (condenado no escândalo Irã-Contras).” (Saiba mais sobre o caso AQUI, AQUI, AQUI e AQUI). […]


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