Obama e os torturadores de Bush

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Não é difícil entender porque o presidente Barack Obama colocou-se contra a divulgação de mais fotos das torturas na infame prisão de Abu Ghraib (como a do alto, publicada dia 17 no Daily Telegraph de Londres – saiba mais e veja 16 delas AQUI). Julgando-se ainda na lua-de-mel dos primeiros meses de governo, apesar da hostilidade aberta da oposição, tem tentado atrair mais republicanos depois de nomear Robert Gates para o Pentágono. Parece nunca desistir da “aparência bipartidária”.

Consciente de que as fotos seriam publicadas de qualquer jeito (e já estão de novo nas primeiras páginas pelo mundo), preferia não ser o alvo da oposição no caso de serem elas responsabilizadas por ações contra soldados dos EUA. Antes suportara críticas duras por não ter recorrido contra a decisão judicial que mandara o governo divulgar os infames memorandos justificando juridicamente as torturas.

Também é fácil compreender as razões dos setores mais à esquerda do Partido Democrata – o que inclui, dada a elasticidade dos critérios da direita republicana, até o megainvestidor George Soros, já retratado na mídia neoconservadora como “extremista de esquerda” – contra o que encara como recuo, marcha-a-ré, ou flip flop, a expressão para os que dizem uma coisa hoje e o contrario amanhã. Na campanha ele fora pródigo nas promessas de transparência.

Não é hora de virar a página

Ironicamente, a expressão que dá nome a uma das organizações liberais rotuladas de “ultraesquerdistas” pelos talk shows da mídia republicana (e que tem Soros como um dos financiadores) é Move On – com o significado de “vire a página”, “vamos em frente” (saiba mais sobre ela AQUI). Isso porque ao nascer, para defender o presidente Clinton em meio à histeria republicana do impeachment em 1998, pedia que aquela página do escândalo de sexo fosse virada.

Seu website (moveon.org) não admite ser agora o momento de virar a página e deixar na impunidade os criminosos do governo Bush. Afinal eles fabricaram uma guerra sob falso pretexto (o das inexistentes armas de destruição em massa) e oficializaram a política ilegal da tortura e sua terceirização (com os vôos secretos da CIA, que também violaram leis dos EUA e tratados internacionais).

O colunista Frank Rich, Rich_Frankdo New York Times (foto ao lado – saiba mais sobre ele AQUI) foi enfático ao escrever domingo: “Ainda que o presidente Obama queira muito virar a página do governo passado, não pode fazê-lo. Enquanto não houver transparência real e os culpados não forem responsabilizados, as revelações sobre o pesadelo dos últimos oito anos podem continuar vindo, gota a gota, e perturbar os planos maiores do novo governo”. (Leia a íntegra AQUI

Para Rich, as novas imagens de torturas sequer serão as provas mais chocantes dos pecados da era Bush ainda a serem devassados. Já há muitos indícios – pontos que, conectados um a um, tomarão a forma de novos desenhos, não necessariamente sobre a tortura. O colunista citou artigo publicado no domingo anterior pelo website da revista GQ, assinado por personagem insuspeito, um biógrafo de Bush (leia AQUI).

A manipulação de Rumsfeld

Quando fazia, em 2007, seu livro Dead Certain: The Presidency of George W. Bush (capa à direta), o autor  – jornalista texano Robert Draper – conversou uma dezena de vezes com o Bush_DeadCertainentão presidente. Mas no artigo de agora acrescentou detalhes novos para um dossiê futuro “sobre como a fase corrupta e incompetente de Donald Rumsfeld no Pentágono custou vidas de americanos e comprometeu a segurança nacional”.

Por ter falado com Bush e mais de uma dúzia de seus auxiliares mais leais de nível elevado, ele retratou na GQ como a obsessão meio maníaca de Rumsfeld levou o então secretário da Defesa a antagonizar no Iraque aliados voluntários dos EUA na guerra, como a Grã Bretanha e a Austrália, e até a sabotar os próprios soldados americanos. A receita para ter o apoio de Bush, acha ele, foi no mínimo insólita.

Rumsfeld produzia informes diários ultra-secretos do Pentágono (os WIU, Worldwide Intelligence Update), de cuja coleção Draper obteve recentemente nada menos de 11. A cada dia as páginas do WIU eram entregues em mãos a grupo muito restrito de autoridades (entre elas, Bush), às vezes pelo próprio Rumsfeld. Na folha da capa, sempre fotos triunfais e coloridas da guerra, sob citações literais da Bíblia.

No de 3 de abril de 2003, duas semanas depois do início da invasão (com “choque e horror”), as tropas esbarravam nos tropeços iniciais. Em pânico, o Pentágono lançara dois dias antes a ficção mentirosa sobre a soldadinha Jessica Lynch, a fim de desviar a atenção dos problemas. E no dia 2 o general Joseph Hoar, ex-chefe do Comando Central dos EUA, afirmara que o número de soldados era insuficiente.

CIA tortura, culpa de Pelosi

US-RUMSFELD-BRIEFINGA citação bíblica da foto na capa do dia 3, com a clara intenção de apertar o botão vermelho da emoção religiosa de Bush, era de Josué (1:9). Esta: “Eu já não o ordenei antes? Seja forte e corajoso. Não se deixe intimidar. Não se deixe desencorajar, pois o Senhor seu Deus estará em sua companhia onde quer que vá”. (Inclusive, para atolar no pântano – ironizou o relato de Rich).

Indiferente à segurança nacional, segundo Draper e Rich, o então secretário da Defesa, que nunca se notabilizara pela fé ou religiosidade, buscava cinicamente manipular Bush, amante frequente de citações da Bíblia. Rumsfeld (foto à esquerda) incluia ao mesmo tempo, nos WIU, colagens diárias, com mensagens na linha das Cruzadas e imagens de guerra – um reforço ao temor apocalíptico islâmico à guerra religiosa.

Rich estendeu-se mais sobre o horror que revelações ainda tendem a documentar do pesadelo bushista. Mais corrupção, negociatas e relações promíscuas com fornecedores, entre elas. E outro detalhe já aflorado: a cúpula civil do Pentágono, em conluio com o vice Dick Cheney, forçava o uso da tortura principalmente pela obsessão de provar a tese, amplamente desmentida depois da invasão, da ligação fantasiosa de Saddam Hussein com Bin Laden.pelosi1

A oposição que antes bloqueava o debate parlamentar da tortura agora aceita falar – mas só sobre Nancy Pelosi, presidente da Câmara, criticada por acusar a CIA de enganar o Congresso. A mágica republicana consiste em culpar Pelosi, que integrou (sem poderes) a comissão de Inteligência, onde tinha acesso a relatórios e diz ter sido enganada. Já os vilões – a CIA e os que autorizaram, executaram e ocultaram a tortura – podem continuar na impunidade. (E leia AQUI a primeira reportagem, de Seymour Hersh para The New Yorker, que revelou ao mundo em 2004 a extensão do escândalo das torturas de Abu Ghrabi)

Published in: on maio 18, 2009 at 6:49 pm  Comments (2)  

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2 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Será Obama mais do mesmo?

  2. Olha a materia que estava sendo chamada na mesma peagina do Telegraph:
    http://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/southamerica/brazil/5325887/Brazilian-women-threaten-to-sue-government-over-police-violence.html


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