Aquele aperto de mão emblemático

G20/

A foto acima me foi enviada de Nova York pela jornalista (e amiga) Sonia Nolasco. Fiquei intrigado, pois não a vira antes em qualquer jornal, nem na internet. Descobri agora que, na verdade, alguns a publicaram, mas naqueles dias eram tantas as imagens da viagem de Obama à Europa e Oriente Médio que, dada a abundância, muitas deixaram de ser devidamente destacadas e apreciadas. (Veja um punhado delas, selecionadas pelo Washington Post, AQUI)

No caso desta, acabou ficando na categoria do que em geral foi apresentado como gaffe – e quebra do protocolo. Houve numerosas desse tipo, a julgar pela maneira como certos veículos, como a Fox News, divertiram-se com elas, em celebração ao contrário: a primeira dama com o braço nas costas da rainha Elizabeth foi um caso; o próprio Obama inclinando-se diante do rei da Arábia Saudita, outro.

Pelo menos o New York Times teve a idéia de convocar alguém diferente para dar toque original à cobertura, na forma de colaboração para a página Op Ed. O escocês A. A. Gill foi o escolhido. Escreve habitualmente para a revista Vanity Fair e o semanário londrino Sunday Times. Ele iniciou seu texto (sob o título “Larger than life in London” – leia AQUI), afirmando que sempre são as pequenas coisas, expontâneas, não ensaiadas, a revelarem coisas maiores.

Como um logotipo turístico

“No caso da primeira visita (como presidente) de Barack Obama a Londres (…), foi o aperto de mão com o bobby que pareceu emblemático. Na floresta de mãos acenando, o significado maior foi esse aperto de mão”, escreveu Gill. Ao entrar na residência oficial, o presidente “inclinou-se, fez contato visual, disse algo cortês e apertou a mão do policial que montava guarda”.

Lembrou o texto que há sempre um policial ali. Com o capacete ridículo, é um logotipo turístico. Informa que “você está em Londres, no final do século 19. Até então ninguém tinha apertado a mão do policial. E como qualquer outra pessoa que teve a palma da mão tocada por Barack Obama, ele foi visivelmente transportado. Por um momento esqueceu quem era.obama_20081 Ofereceu a mão também a Gordon Brown, o primeiro ministro, que a retirou prontamente “. (Na visita de 2008, como pode ser visto à direita, Obama era apenas candidato. E o guarda era branco. Veja AQUI e AQUI mais fotos do passeio na rua de Obama e Brown em 2008)

Fica claro que merecia mais destaque aquela foto do primeiro presidente negro dos EUA a apertar a mão do sorridente guarda negro, à porta do endereço célebre – o 10 Downing Street dos dias de tragédia e triunfo de Winston Churchill, da batalha da Inglaterra ao fim da II Guerra Mundial. Mas a foto foi quase ignorada. Gostei ainda, além de Gill, do que fez o bem humorado website europeu “This N That”.

“O protocolo que se dane!”

Primeiro ele descreveu a cena pelo ângulo do guarda. “Você vê o presidente dos EUA vindo em sua direção. Você é negro, ele é negro. À porta de 10 Downing Street, você de plantão, monta guarda, de pé, cumprindo o dever oficial, a serviço do primeiro ministro do Reino Unido. Como agir? Faz o contato visual, vê a mão estendida, sorri, aperta calorosamente. O protocolo que se dane. Até porque – que sorte! -alguém faz o registro fotógrafico. Para sempre.” (Veja o original AQUI)

“This N That” apresentou ainda o video de toda a cena, com mais imagens, gravado pela BBC. Nelas Obama, em seguida a um passeio na rua, volta  com Brown e se encaminha diretamente para o guarda. Faz o gesto para o aperto de mão. O primeiro ministro o segue. Limita-se a leve aceno com a cabeça – e deixa no ar a mão estendida do guarda. Como se evitasse o cumprimento.

Mas Brown, segundo “This N That”, pode não ter notado o gesto do bobby à porta da residência oficial. Obviamente embaraçado e nervoso depois do cumprimento do visitante ilustre, o guarda teria estendido a mão ao primeiro ministro, mais por precaução do que por afeição. De qualquer forma, clique abaixo para ver o vídeo com toda a cena da chegada dos dois governantes.

Anúncios
Published in: on maio 5, 2009 at 6:37 pm  Comments (3)  

The URI to TrackBack this entry is: https://argemiroferreira.wordpress.com/2009/05/05/aquele-aperto-de-mao-emblematico/trackback/

RSS feed for comments on this post.

3 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Obama parece ser bipolar. Seu aperto de mão emblemático contrapõe-se ao seu não-aperto de mão também emblemático, quando, em 02/04/2009, na reunião do G20, deixou Cristina Kirchner com a mão estendida e passou por ela, para cumprimentar o primeiro-ministro do Canadá, Stephen Harper. A atitude de Obama bastante constrangeu as autoridades argentinas, a ponto de o site da “Presidencia de La Nacion Argentina” maquiar uma foto, com a seguinte legenda: “El presidente de Estados Unidos, Barack Obama, se acerca a saludar a la presidenta Cristina Fernández momentos antes de tomar la foto oficial de la Cumbre.”

  2. Há algo de extremamente belo nesse aperto de mão, embora seja difícil precisar se vem da quebra momentânea da distância hierárquica/social entre Obama e o policial, da identificação racial, ou da alegria pela superação – eventual que seja – de um certo jeito de ser das autoridades anglosaxõnicas, que o gesto de Brown apenas emula, mas Bush simboliza como ninguém. E não há mais Bush, e sim Obama.

  3. Graças a Deus não há mais Bush. Pena que não se pode dizer que não haverá mais Bush.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: