Nos 100 dias no poder, um Obama sob pressão

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(Na montagem fotográfica do site Huffingtonpost.com, o tema central do debate)

Depois das viagens à Europa e à América Latina, o presidente Barack Obama é cobrado pela oposição interna à direita (onde o ex-vice Dick Cheney e outros, na tela da Fox News, só faltaram expô-lo ao país como anti-americano e até ameaça à segurança nacional) e à esquerda (por críticos aliados do Partido Democrata, impacientes ante a aparente timidez da mudança de rumo na política externa).

A contradição resulta do próprio jogo de cintura que permitiu a Obama chegar à Casa Branca. Na campanha ele teve de temperar a pregação de mudança (o seu Change era proclamado em toda parte) e às vezes distanciar-se dos mais firmes na exigência de compromisso maior com ela. Equilibrava-se, por exemplo, na corda bamba policiada pelos lobbies de Israel e da máfia cubana de Miami.

Claro que não são os únicos lobbies. Com ginástica idêntica sua campanha teve de conter ainda o das armas, da poderosa NRF (Asssociação Nacional do Rifle) e outros. Mas no campo da política externa aqueles são emblemáticos.obama_chavez O exercício da presidência exclui naturalmente a ambiguidade de candidato, pois exige decisões. Mas por causa delas Obama é agora um alvo permanente.

Um refém das políticas de Bush?

A preocupação maior para o processo de tomada de decisões no novo governo é o próprio legado do antecessor. Como libertar-se da camisa de força deixada pela dupla Bush-Cheney, que ameaça manter Obama como refém? Se antes o repúdio à aventura neoconservadora era quase unânime, devido ao acúmulo de desastres dos últimos oito anos, porque seria tão difícil mudar o rumo agora?

A desintegração econômica, outro legado desastroso do governo Bush, exigiu a atenção imediata e prioritária do presidente para o esforço de recuperação. Decisões críticas em outras áreas têm sido retardadas mas terão de ser enfrentadas. Ao mesmo tempo a oposição conservadora reorganiza-se. Até já produziu o espetáculo nacional das tea parties, cortesia do império Murdoch de mídia sob o disfarce de “evento popular expontâneo”.

Obama avança a duras penas (leia AQUI e AQUI balanços positivos dele ao final da V Cúpula das Américas). Para aliados à esquerda, seu ritmo é lento. Para a oposição conservadora – como Cheney deixou claro esta semana na entrevista a Sean Hannity, da Fox News (leia AQUI) – o que está sendo feito já representa ameaça ao país. Sem tortura e criticada pelo que faz, sugeriu ele, a CIA será incapaz de prevenir ataques como o 11/9. E mais: acenos a Cuba e troca de sorrisos com a Venezuela (foto do alto, à direita) expoem uma fraqueza intolerável.

galeano_openveinsÉ repulsivo ver a dupla Bush-Cheney queixar-se de Obama por não fazer cara feia para Hugo Chávez. Em Trinidad e Tobago, durante a V Cúpula das Américas, o presidente venezuelano apenas ousou festejá-lo e oferecer de presente a tradução inglesa de As Veias Abertas da América Latina (capa ao lado – e saiba mais AQUI), o livro de Eduardo Galeano que toda uma geração de latino-americanos, em diferentes países, leu principalmente em espanhol e português, na tentativa de entender melhor a história e a tragédia do que o autor chama de “cinco séculos de pilhagem de um continente”.

O meio século de contradições

O pouco que Obama já fez, na ótica da oposição republicana, ultrapassou todos os limites. Não só na América Latina. Ele é cobrado ainda pelo excesso de gentileza no G-20 e na Europa, onde cometeu o impatriotismo de prometer uma reversão da arrogância de Bush, que afrontara aliados tradicionais como França e Alemanha. Note-se que nada, por enquanto, foi além de simbolismo e promessas implícitas.duvalier_francois

Em relação à América Latina, horroriza os conservadores o conjunto crescente de países determinados a superar a equação obsoleta da guerra fria. Quanto a Cuba (saiba mais AQUI), que sobrevive ao embargo americano de quase 50 anos e continua fora da OEA (Organização dos Estados Americanos) por imposição dos EUA, Obama corre até o risco, se nada fizer, de um repúdio público e unânime de todos os outros 33 países.

De qualquer forma, foram significativas tanto as medidas já decididas em relação a Cuba (fim das restrições mantidas pelo governo Bush sobre viagens e remessas de dinheiro de cubano-americanos), como a disposição de conversar e negociar. E ainda o elogio às declarações de Raul Castro de que está preparado para diálogo substantivo, sem veto a qualquer questão.

somoza_luisÉ bom não esquecer que o pretexto dos EUA para isolar Cuba no continente por tanto tempo foi a suposta falta de democracia e violação de direitos humanos. Mas à época da decretação do embargo, a expulsão de Cuba da OEA só tinha sido possível porque o governo de Washington comprara, com suborno, alguns votos de ditadores notórios – como Papa Doc (foto acima, à direita) do Haiti e um Somoza da Nicarágua (Luis, o do selo à esquerda).

Entre o sonho e a realidade

Da mesma forma, os EUA impuseram condições para realizar (em Miami, 1994) a I Cúpula das Américas. Excluiram Cuba a pretexto de não ser uma democracia. O fato de ter sido o Peru governado 10 anos (até 2000) pela ditadura de Alberto Fujimori e seu homem-forte Vladimiro Montesinos, torturador formado na School of the Americas do Exército americano (saiba mais AQUI sobre ela, rebatizada como WHINSEC) nunca foi obstáculo.

Fujimori responde hoje por crimes contra a Humanidade. O facínora Montesinos (foto ao lado), ex-espião da CIA, foi mais tarde julgado por corrupção, roubo, narcotráfico e tráfico de armas (saiba mais sobre ele AQUIAQUI).montesinos_vladimiro E enquanto Cuba era punida com embargo, sucessivos governos dos EUA mantiveram relações promíscuas com um punhado de ditaduras (Argentina, Brasil, Chile, Uruguai, etc, etc), algumas delas instaladas graças à ingerência americana.

Compreende-se a impaciência dos aliados mais à esquerda do Partido Democrata. Não sonhavam ajudar um governo suspeito de ser refém das políticas desastrosas do passado recente. Mas sabiam, desde a campanha, do risco de se apoiar candidato com agenda capaz de abrigar tendências múltiplas. Apostaram na promessa de mudança e terão o fim da era Bush, mínimo esperado. Quanto ao resto, vão precisar de mais realismo.

Published in: on abril 22, 2009 at 1:05 am  Comments (2)  

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2 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Quando podia, eu acessava o tribunaonline…lá conheci seu blog. Agora, lendo os “100 dias de Obama”, lembrei do que Helio Fernandes escreveu na época da campanha dele…que na política americana não existe golpe de estado.

  2. Muito bom o apanhado de Argemiro das pressões da esquerda e da direita no governo Obama: “Nos 100 dias no poder, um Obama sob pressão”. O Argemiro sempre me espanta pela profundidade e historicidade das suas matérias. É um site que vale a pena adicionar ao seu blog roll.


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