Os soldados salvadorenhos do império

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É difícil de acreditar mas El Salvador, país governado até este ano pelo presidente Elias Antonio (Tony) Saca (da Arena, partido fundado pelo major de extrema direita Roberto D’Aubuisson, criador de esquadrões da morte e bandos milicianos), forneceu entre 2004 e 2009 o total de 3 mil soldados aos EUA. Era contribuição à agressão militar ao Iraque, invadido e ocupado pelas tropas americanas.

Supõe-se, obviamente, que esse capítulo melancólico de subserviência do pequeno país centro-americano à superpotência do norte esteja definitivamente encerrado. Os últimos soldados salvadorenhos voltaram em fevereiro (na foto acima, da AP, o presidente passa em revista a tropa), um par de semanas antes da eleição de seu sucessor  – o oposicionista Mauricio Tunes. Além disso, nos EUA o inventor da guerra, George W. Bush, também já fora varrido do poder pelos eleitores americanos.

Nos últimos anos o governo de El Salvador sentia-se ameaçado por propostas em debate no Congresso dos EUA, relacionadas à situação dos imigrantes ilegais da América Latina. Como parte da mídia americana omitia a manipulação do governo Bush, que tirava partido da situação, o Washington Post divulgou em 2006 certos dados pouco conhecidos do público, nos EUA ou no sul do continente.

Os US$ bilhões dos imigrantes

De fato, era uma situação reveladora. O major D’Aubuisson formara-se na célebre School of the Americas, conhecida na América Latina como “escola de ditadores” e “escola de assassinos”, mantida pelo Exército americano, que há poucos anos teve o cuidado de trocar o nome por causa da má fama (agora é Western Hemisphere Institute for Security Cooperation, WHINSEC – saiba mais AQUI e conheça AQUI o livro ao lado, sobre ela).soa_bookcover D’Aubuisson morreu de câncer em 1992, quando foram assinados, sob a mediação da ONU, os acordos de paz no país. Mas El Salvador continuou sob o controle da Arena – ou seja, da mesma gente que, no poder, perpetrara assassinatos e atrocidades impunes durante mais de uma década.

Quando o governo Bush decidiu invadir o Iraque, ignorando as Nações Unidas e a comunidade internacional, a tendência salvadorenha foi oposta à de Honduras, Nicarágua e República Dominicana. Esses três participaram no início da farsa da coalition of the willing (“coalizão de voluntários”), mas afinal acordaram para a realidade cruel daquela submissão e retiraram suas tropas do Iraque. Saca, fiel à herança macabra de D’Aubuisson, continuou de olho na recompensa na Casa Branca.

O raciocínio de Saca era simplista. Como a cada ano os imigrantes de El Salvador enviavam dos EUA US$2,8 bilhões, ele agradava Bush para que ainda mais imigrantes fossem aceitos e outros 220 mil, ilegais, tivessem seu status legalizado. Isso engrossaria o contingente e a remessa anual. O preço, no entanto, era ver compatriotas virarem bucha de canhão no Iraque – e Bush fingir que tinha uma “coalizão”.

Em fevereiro de 2006, segundo o Post, o governo dos EUA anunciou nova prorrogação de um programa controvertido sobre o status dos imigrantes salvadorenhos, beneficiados desde o terremoto de 2001. Mas o timing da decisão era sugestivo: apenas duas semanas depois de Saca ter concordado com o envio do sexto contingente de soldados salvadorenhos para o Iraque.

“Vendendo nossos soldados”

oscar_romero2A Arena de Saca, assim, manteve a tradição do tempo em que Reagan financiava a matança de civis – vitimando, entre outros, o arcebispo Oscar Romero (foto à esquerda), morto a tiros quando rezava missa na catedral; quatro religiosas americanas (sequestradas, torturadas, mortas e enterradas pelos soldados); e uma dezena de padres jesuítas, além do massacre da aldeia de El Mozote (saiba mai AQUI) e outros crimes contra a humanidade.

Não por acaso, quando a ONU conseguiu negociar o acordo de paz em El Salvador, alguns dos generais da cúpula do Exército (treinados pelos militares americanos) que tinham comandado a matança receberam asilo político nos EUA. Três deles moram em casas de luxo na Flórida, apesar dos processos movidos na Justiça dos EUA por parentes das quatro religiosas assassinadas.

O presidente Saca não pareceu envergonhado pelas atrocidades ou pela submissão e cumplicidade com os EUA. Mas até o diretor, em Washington, do grupo Diálogo Inter-Americano, Peter Hakim, admitiu para o Post que o programa atual de envio de tropas para o Iraque mostrava que a Arena, apesar de ter evoluído, ainda refletia “a continuidade” de um tempo que horrorizara o mundo.

Autoridades salvadorenhas filiadas à Arena achavam vantajoso o que se recebia dos EUA em troca do envio de soldados para a guerra. Mas gente simples como Herminia Ramos, cujo filho Natividad morreu no Iraque, pensa diferente. “Sei que o serviço militar é um dever dos soldados. Mas para proteger a pátria e não para cuidar de um país tão distante, que nada tem a ver conosco”, disse ela ao Post.

Lembranças amargas de Reagan

reaganbonzoPara aquela mulher sofrida, de 47 anos, era “como se o governo estivesse vendendo nossos soldados aos EUA”. O pior é que o filho dela tivera de sair da escola para o Exército aos 15 anos, quando o pai morreu. No Iraque, ele sequer sabia porque lutava. Acabou morrendo em Najaf, onde adeptos do líder xiita Moqtada al-Sadr atacaram instalações defendidas por tropas salvadorenhas.

Para encerrar, só mais uma ou duas lembranças amargas da política centro-americana de Reagan (veja-o na foto com o macaco Bonzo no colo, no filme Bedtime for Bonzo, treinando para ser presidente). Honduras, cujo território era usado para a força recrutada pela CIA (os “contras”) atacar a Nicarágua, numa guerra ilegal, foi transformada numa espécie de porta-aviões dos EUA. El Salvador centralizava as atenções, como o novo Vietnã da velha teoria dominó do Pentágono.

bonner_weakness_and_deceitO pretexto foi usado para justificar crimes como o massacre de El Mozote. As primeiras notícias sobre a atrocidade só apareceram no mês seguinte, janeiro de 1982. Reportagens de Raymond Bonner, do New York Times, e Alma Guillermoprieto, do Post, relataram o massacre. Havia o depoimento de uma mulher, Rufina Amaya, única testemunha que sobrevivera ao massacre. Os soldados empilharam cadáveres, incendiados e enterrados depois. O marido dela, um filho de nove anos, e três filhas, de cinco e três anos, além de um bebê de oito meses, estavam entre as vítimas. Bonner reuniu nomes de 733 mortos. Pouco depois ele deixaria El Salvador. E em 1984 contou tudo no livro Weakness and Deceit – U.S. Policy and El Salvador (capa acima) sobre a política selvagem de Reagan.

Ele no Times e Guillermoprieto (mexicana de nascimento) no Post, contaram toda a história poucas semanas depois do massacre. Mas o governo Reagan não apenas negou a veracidade das reportagens como pressionou os diretores dos dois jornais a chamar de volta os jornalistas – que retornaram aos EUA. Bonner, removido para a seção de Economia em Nova York, demitiu-se em seguida para escrever o livro. E só 10 anos depois, em 1992, o relato dos dois foi definitivamente comprovado (leia AQUI) graças a investigação das Nações Unidas (e conheça ainda, AQUI, uma análise do caso por Stanley Meister para o Projeto pela Excelência no Jornalismo).

(Clique acima no YouTube para ouvir o relato de Rufina Amaya, que tinha 41 anos quando testemunhou o massacre e nos 25 anos seguintes repetiu sua história e levou ao local onde estavam enterradas as vítimas)
Published in: on março 27, 2009 at 10:09 pm  Comments (1)  

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  1. Olá Argemiro…venho para parabenizá-lo pelo seu ótimo trabalho neste blog…como leitor de alguma de suas obras , fico muito feliz de poder acompanhar semanalmente seus artigos…


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