O Aerolula e a fraude de Nixon

aerolula_foto_igorbernardinosilvasorente_g1

(A foto acima do Aerolula, feita por Igor Bernardino da Silva Sorente, foi publicada há mais de um ano no portal da Rede Globo, G1. Abaixo, a comparação com o AF1 do presidente dos EUA, de três andares e 370 m2, no qual cabem dois Aerolulas)

Carlos Chagas, professor de jornalismo, é um profissional que prezo e respeito. Sua coluna convive com a minha há quase três décadas na edição impressa da Tribuna da Imprensa e, ultimamente, na edição online. Bem antes, integrando a equipe do Pasquim que o entrevistou na década de 1970, eu tinha perguntado a ele o que levava um jornalista a ser secretário de imprensa no regime que mais censurou a imprensa no Brasil.

Sua resposta foi séria e honesta. Hoje vivemos numa democracia plena e a grande mídia, inconformada, dedica-se em tempo integral a fazer campanha golpista em vez de jornalismo.lula_no_aviao1 Está em festa porque o nível de aprovação de Lula baixou para apenas 65% – ainda um percentual mais elevado do que o de qualquer presidente. Mas Chagas está muito preocupado com o uso do que a mídia batizou de “Aerolula”.

Entendo que deve ser difícil para tucanos e demo-pefelês aceitar que o operário nordestino que eles chamam de apedeuta, por não ter PhD em Harvard ou na Sorbonne, vôe por aí como se fosse o magnata Madoff ou algum executivo da AIG, do Bear Stearns ou da Merrill Lynch. Chagas nada tem a ver com eles. Como eu, poderia achar natural o Brasil ter seu avião presidencial, seja quem for o presidente.

Não só por causa da extensão territorial do país. Nosso papel na política internacional, a partir do atual governo, justifica tal necessidade, que Chagas parece ver como escândalo (leia AQUI a queixa dele na Tribuna de 23/03).af1__aerolula Há dias cobraram de Obama o luxo do helicóptero que o leva ao Air Force One/AF1 (Aerobama?) na Base Aérea Andrews (veja ao lado a comparação entre o AF1 dele e o Aerolula). Embaraçado, explicou: sequer sabia de sua existência, mas custou uma fortuna e foi comprado (pelo governo Bush) para esse fim específico.

Os fatos e uma versão deles

O caso do helicóptero pode ser diferente. Como encomenda do Pentágono à indústria, dificilmente deixou de envolver corrupção, velha tradição da casa. A queixa de Chagas é mais modesta. Ao criticar Lula, exaltou o exemplo de outro presidente. “Era o auge da crise do petróleo, todo mundo tinha que economizar e (Richard) Nixon cancelou os vôos do Air Force One. Durante algum tempo viajava em aviões de carreira (…), como um passageiro normal”, disse.

Ei, que diabo, fantasias da mídia não podem sobrepor-se à realidade. Estamos certamente diante de um caso assim, ainda que relativamente inofensivo. O presidente Nixon, de triste memória, nunca cancelou os vôos do AF1. E, ao contrário do que Chagas escreveu, em tempo algum “viajava em aviões de carreira como um passageiro normal”.

Uma única vez, a 23 de dezembro de 1973, o presidente viajou em vôo comercial (leia AQUI o relato do Time na época). Era só um truque demagógico, na ânsia de melhorar a imagem, então no fundo do poço por causa de Watergate. Acuado no poder, ainda via a crise do petróleo golpear o país. Dois meses antes, no “massacre de sábado à noite”, demitira o promotor Archibald Cox e forçara a saída do Procurador Geral e de seu adjunto.

Sob a pressão do impeachment

Pode ter sido a mais grave crise entre a invasão da sede do Partido Democrata em Watergate (17 de junho de 1972) e a renúncia (8 de agosto de 1974). O presidente comprometeu-se a não mais interferir na investigação do promotor (já então, Leon Jaworski) e foram introduzidas na Câmara oito resoluções de impeachment, apesar de Nixon prometer a entrega de todas as fitas gravadas e já sob intimação.

ford_nixon_leaves1Um mês antes da viagem dele pela United Air Lines, sua secretária Rose Mary Woods tinha apagado quase 20 minutos de uma gravação, atribuindo a malfeitoria a inexplicável “acidente”. O vice-presidente Spyro Agnew já renunciara (para escapar de um processo por corrupção). E Gerald Ford, aprovado pelo Congresso, tinha feito a 6 de dezembro seu juramento, tornando-se o novo ocupante do cargo.

O cenário estava pronto para o desfecho da crise: ou impeachment na Câmara, seguido de julgamento no Senado; ou a renúncia (na foto à direita, sua despedida de Ford depois de renunciar). Mesmo na Casa Branca muita gente já duvidava que Nixon pudesse manter-se no cargo. Foi com esse pano de fundo que o presidente, a 23 de dezembro, encenou a viagem de Washington à Califórnia, onde sua residência de San Clemente era a Casa Branca do Oeste.

A demagogia funcionou no primeiro momento. O DC-10 da United recebeu Nixon, sua mulher Pat, a filha Tricia, nove pessoas do gabinete e 13 agentes do Serviço Secreto. A passagem de primeira classe custava US$ 217,64 (equivalente hoje a uns US$1000). Na chegada a Los Angeles, ele confraternizou meia hora com os passageiros da classe turística, ouviu aplausos e a opinião (de uma jovem de 16 anos) de que se parecia com Bob Hope. “Ele é meu amigo”, respondeu.

A farsa que dobrou o gasto

Mas não houve economia alguma, ao contrário do que sugeriu Chagas. Tudo aquilo fora uma farsa. O AF1 voou, vazio, para a Califórnia, já que tinha de levar Nixon de volta a Washington. Ou seja, gastou-se a mesma quantidade de combustível e mais as passagens. Sem contar que também estava à bordo (espero que não na primeira classe) o cão presidencial, King Timahoe.

nixon-departA repercussão não foi imediata, por causa das festas de fim de ano. Mas depois veio a controvérsia. Naqueles dias eu visitava os EUA pela primeira vez. De um amigo americano, ouvi este desabafo: “Não entendo porque ele fez isso. É ridículo. Nunca se pediu que gastasse menos com o AF1. Há muita coisa que podia fazer para reabilitar a imagem. Essa não é uma delas”.

Era também esse o tom da controvérsia na mídia, impedindo a Casa Branca de faturar o evento e reabilitar a imagem presidencial. Isso devia ter sido tentado pelo zeloso secretário de imprensa Ron Ziegler, que fotografara Nixon no avião – abraçando pessoas comuns e beijando bebês, como se estivesse em campanha. Sete meses depois, no dia da última viagem dele no AF1, despediu-se do helicóptero nos jardins da Casa Branca (veja acima, à esquerda). Eu estava de novo em Washington: cobria a renúncia para o Jornal do Brasil.

Published in: on março 23, 2009 at 8:05 pm  Comments (8)  

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8 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Excelente, prezado Argemiro.

    Estou na expectativa de ler a resposta (ou as desculpas)do C.Chagas.

    Abs

  2. Carlos Chagas é um homem provecto para não saber História. Hoje se tem a internet para ter conhecimento sobre a realidade dos fatos, assim evitando dar informações erradas. A pergunta que não quer calar: C. Chagas agiu de má-fé?

  3. Carlos Chagas parece descolado da realidade. Tergiversa sobre os acontecimentos, mas não esconde a ideologia que lhe mantém atrelado à elite que sempre o manteve. Ao deturpar os fatos mostra sua fragilidade quando se deduz estar implicitamente aliado a interesses aos quais sempre serviu. As reportagens do Argemiro trazem uma nova e boa lição aos que o leem.

  4. Prezado jornalista, parabéns pelo texto esclarecedor, continue firme. Dito isto prossigo. Nada mais nefasto do que a desinformação no lugar da informação, a política transformada em politicagem e a mentira no lugar da verdade. O avião da Presidência da República, o “Aerolula”, foi exaustivamente criticado pelos meios de comunicação, antes do jornalista Carlos Chagas, que agora voltou ao antigo assunto. Na verdade, o fato relevante é que o referido avião representa em primeiro lugar o Brasil, a Nação, que deve e pode comprar um avião adequado para transportar com dignidade e segurança o presidente da República, em qualquer tempo e para qualquer lugar.

    Os defensores da “bolha” neoliberal que agora explodiu, ao “batizar” o avião, estavam empolgados com o malefício e nem examinaram a possibilidade do resultado ser outro. Foi o que aconteceu porque, salvo engano meu, no mundo inteiro, até a presente data, nenhum presidente viu seu nome “graciosamente” associado ao avião principal do seu país. Isto só aconteceu no Brasil.

    No vai-e-vem dos aviões, um deles aterrissa, manobra, estaciona. No alto aparece a bandeira brasileira, e uma frase em letras grandes, República Federativa do Brasil, mais em baixo a frase, Força Aérea Brasileira, e no alto da cauda, o emblema da República. Mas, o pessoal afirma com naturalidade, chegou o “Aerolula”.

    A maioria do povo brasileiro vive precariamente, mas gosta do que é bom, o “povão” sofrido não escolheu viver na dificuldade, isto quem diz são os fundamentalistas. Acontece que o atual presidente tem a cara e o jeito desse povo, e foi aqui que o “tiro” saiu pela culatra. Finalmente, alguém me explica que foi o tal inconsciente coletivo. Faz sentido.

  5. Prezado Argemiro
    Dá gosto ler um blog tão completo e sem sectarismos como o seu! Keep doing the good work!🙂

  6. Não entendeo muito de aviões, mas sou apaixonado por eles. E mesmo fazendo parte da classe desfavorecida nesse nosso amado Brasil, penso que nada há demais, em nosso presidente, seja ele Lula ou qualquer outro. Viaje de primeira classe, afinal de contas é o chefe da Nação. E ainda mais. Se o “povo” (os críticos invejosos) acha que o presidente não pode gastar essa merreca de 56,7 mi, em um aviãozinho, então é melhor fechar esse país! E tenho dito!!

  7. Já foi esquecida a demagogia do então candidato Alckmin, em 2006, de que venderia o Aerolula para construir hospitais?

  8. É sempre chato ver como pessoas abandonam o jornalismo depois de décadas de profissão para aderir ao lulo-petismo.


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