A crise na guerra das manchetes dos tablóides

madoff_031309Os dois tablóides de Nova York são sempre implacáveis. A briga nas manchetes dos últimos dias, em conexão com a crise e os remédios do governo, sugere reflexões sobre o jornalismo de cada um. O New York Post – do império Murdoch de mídia (News Corp), que inclui o grupo Fox de TV e a Dow Jones, com seu Wall Street Journal – ficou na posição incômoda dos republicanos. Seu alvo preferencial é Obama.

Assim, optou por bombardear o magnata-vilão Bernard (Bernie) Madoff, de implicações políticas menos visíveis – ainda que, sob qualquer visão racional, seu caso resulte da obsessão desregulamentadora dos últimos oito anos. Madoff é exposto fora de contexto, sem conexão com a orgia da era republicana. O Post o chama de “ladrão”, como antes chamava Saddam de “açougueiro de Bagdá”.

madoff_031409Houve duas primeiras páginas sintomáticas no Post. Numa delas (veja no alto), Madoff está ao lado da manchete “Como roubei US$65 bi”. E mais: “Na cadeia o ladrão ‘arrependido e envergonhado’”. No dia seguinte (veja ao lado, à direita), sobre foto-montagem de Madoff atrás das grades, a manchete é o balão: “Deixa eu sair”. E, menor: “Depois da primeira noite na cadeia, Madoff berra”.

A defesa dos excessos bushistas

Desde que veio o primeiro pacote de socorro às instituições financeiras nos EUA, ainda no governo Bush, o debate no Congresso e na mídia tomou rumo enganoso. Liberais e democratas, claro, sempre encararam a crise financeira, que levou à econômica, como mais um legado da obsessão desregulamentadora da linha Bush a partir de 2001, gerando à ganância desenfreada e a sucessão de escândalos.

post_03182A onda de fraudes e ladroagem desencadeada já no primeiro ano de mandato de Bush – Enron, WorldCom, Tyco, Arthur Andersen, Adelphia, Global Crossing, etc – não acordou o governo para o problema. A SEC (suposta reguladora do mercado) dormiu. Investigações tiveram de vir por iniciativa de outros, como o então Procurador Geral de Nova York, Eliot Spitzer, que tinha jurisdição sobre Wall Street (e fez trabalho tão eficaz que se elegeu governador).

Hoje os dois tablóides da cidade, temidos pelos políticos como “agressivos” e “populistas”, exploram com ferocidade os escândalos. Mas o Daily News leva vantagem, dada a ligação promíscua do Post com o governo Bush. Apesar da manchete acima, à esquerda (“Não exagerem, seus bastardos gananciosos”), o Post – como os republicanos – às vezes é ambíguo, como no caso de executivos que embolsam bônus.

Tanto o tablóide de Murdoch como sua Fox News e o Wall Street Journal optam por crítica cautelosa. Neles, três conspícuos neocons bushistas, Bill Kristol, Fred Barnes e Charles Krauthammer, consideram “hipócritas” os ataques a executivos. É a linha também dos talk shows de Rush Limbaugh no rádio.aig_dailynews_03172 E o comentarista senior Brit Hume já repetiu a tese infame de que, “no fundo, ganância é bom”.

Post contra Obama: “Não é piada”

O ex-juiz Andrew Napolitano, outro cruzado da Fox News na defesa dos ladrões endinheirados, já declarou inconstitucional taxar em 90% os bônus de executivos. Isso deixou o Daily News à vontade, muito confortável, na ofensiva contra os vilões da crise. Dia 17, a manchete foi: “A.I.G. é um P.I.G” (veja acima, à direita). PIG, “porco”, era o grito dos contestadores contra os policiais repressores nos anos 1960.

obama_dailynews_03_20Quando Obama se tornou o primeiro presidente na história a comparecer a um dos tradicionais programas de humor à noite na TV – o “Tonight” de Jay Leno na NBC – o fato foi festejado na manchete do Daily News (“Heeere’s the Prez”) na manhã seguinte. À tarde, o Post protestou com um “No Joke” (Não é piada), sugerindo que Obama fazia piada e ria enquanto o povo sofre com a grave crise (veja abaixo, à direita).

O New York Post está no 3° século de existência. É o mais antigo diário do país. Foi criado em 1801 por Alexander Hamilton, braço direito do general George Washington na guerra da Independência, seu secretário do Tesouro depois, força motora do movimento federalista. Elitista, era rival de Thomas Jefferson, atraído pelos ideais da Revolução Francesa. Morreu depois de um duelo com Aaron Burr.obama_post032009

O jornal era liberal – às vezes progressista – até 1976, quando foi comprado por Murdoch, que o vendeu em 1988 e voltou a comprá-lo em 1993. O magnata australiano ignorou o passado político do jornal, transformando-o em tablóide de crimes, escândalos e fuxico de celebridade. Depois, abraçou o ultraconservadorismo e adotou os neocons de Bush.

De Ford à cidade: “Caia Morta”

O Daily News, fundado em 1919, era inicialmente dos mesmos donos do Chicago Tribune. Sempre teve grande circulação (está entre os cinco de maior tiragem no país), com força no noticiário de polícia, crime, esporte e brigando por “furos”.dailynews_dropdead Mas algumas de suas manchetes políticas entraram para a história, como o “Drop Dead” do presidente Gerald Ford em 1975 à falida Nova York (veja ao lado).

A cidade já teve dezenas de diários. Hoje só os dois tablóides e o New York Times disputam o mercado. O News sai de manhã e pega o fluxo dos que vão (em geral, metrô e trens do subúrbio) para o trabalho em Manhattan. O Post sai à tarde, pega o fluxo da volta para casa. Há exemplares empilhados por jornaleiros nas calçadas e pontos estratégicos. E são vendidos ainda em bancas e saídas de supermercados.

No século 20 “furos” celebrizaram profissionais tão medíocres do jornalismo de Nova York como Walter Winchel, que inspirou o J. J. Hunsecker de Sweet Smell of Success (A Embriaguez do Sucesso), interpretado por Burt Lancaster (veja ao lado a capa do DVD).sweetsmell Houve gente muito mais talentosa – como Damon Runyon, criador de histórias e personagens da Broadway; Ring Lardner, lendário colunista de esportes, amigo de presidentes; e, mais recentemente, Jimmy Breslin, visto como um típico jornalista da cidade. Todos eles tornaram-se autores de livros.

Published in: on março 22, 2009 at 12:55 pm  Deixe um comentário  

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