Duro no diagnóstico, confiante no remédio

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O clima sombrio criado pela oposição antes da aprovação do pacote de US$ 787 bilhões para estimular a economia (que só teve três votos republicanos) e nos dias que antecederam a sessão conjunta de ontem no Congresso, acabou neutralizado por um discurso vigoroso, que o New York Times exaltou (AQUI) como “The Time of Reckoning” (A Hora do Acerto de Contas). O presidente Barack Obama voltou a ser duro e franco no diagnóstico da crise mas foi confiante e frequentemente convincente ao expor o remédio (leia a íntegra AQUI e ouça em video, AQUI, algumas das passagens memoráveis).

limbaugh_95-01-231A retórica do partido de George W. Bush, indiferente ao seu legado de guerras desastrosas, divisão interna, desprestígio internacional e a crise econômica cuja extensão ainda não está suficientemente avaliada, passou a pintar uma ameaçadora marcha do país “para o socialismo”. É o que repetem Rush Limbaugh (veja-o à esquerda, numa capa do Time em 1995), celebridade extremista do rádio, e o império Murdoch de mídia (Fox News, Wall Street Journal, etc).

Limbaugh (veja-o abaixo em outra capa, retratado ao lado do pornográfico Howard Stern em 1993 como a “Voz da América”) é o mesmo que na campanha das primárias, em programas diários retransmitidos por centenas de emissoras do país, tentara impor em diferentes estados o que chamava de “Operação Caos” – votos de republicanos nos adversários de Obama em primárias democratas (saiba mais AQUI). Consumada em novembro a vitória final do democrata, o esforço de Limbaugh passou a ser contra o pacote de estímulo econômico – para, ao menos, impedir que tivesse qualquer voto da oposição.limbaugh_93-11-011

Recessão é real, está em toda parte

A pretexto de que “o dinheiro é do povo e não de Washington”, ele intimidava parlamentares republicanos. E num espaço generoso dado por Murdoch na página de opinião do Wall Street Journal (veja e leia na íntegra AQUI) Limbaugh garantiu: recessões só duram cinco a 11 meses e a recuperação ocorre naturalmente em seis anos. “Não se deve fazer nada, só esperar que terminem por elas mesmas. O que pode torná-las pior é o tipo errado de intervenção do governo”.

limbaughObama, que antes elevara Limbaugh à condição de líder dos republicanos (saiba mais AQUI), rejeitou enfaticamente no discurso a tese de que não se deve fazer nada. Às vésperas da sessão conjunta do Congresso, até o ex-presidente Bill Clinton parecia assustado e deu um conselho público ao presidente, para que mostrasse otimismo – como Ronald Reagan. Mas ao começar, Obama ignorou o chavão de que “o Estado da União é forte”. Optou pela franqueza: “O estado da economia é uma preocupação que se sobrepõe a todas as outras”. (Reagan, entre outras coisas, é o santo padroeiro de Limbaugh: veja os dois na foto acima).

Afirmou ainda que “o impacto desta recessão é real, está em toda parte”. E logo destacou: “Apesar de nossa economia enfraquecida e nossa confiança abalada, (…) esta noite quero que cada americano saiba disso: Vamos reconstruir e recuperar. E  os Estados Unidos da América ficarão mais fortes do que antes”. Essas e outras frases soaram tão vigorosas que vieram aplausos, de pé, até do lado oposicionista do plenário.

A hora do acerto de contas

A mágica do discurso consistiu em expor os erros desastrosos, como as ações desregulamentadoras para permitir lucros fáceis ou bônus inescrupulosos para executivos, até o inevitável dia do acerto de contas. Os problemas econômicos do país, conforme deixou claro, “não começaram quando o mercado imobiliário entrou em colapso ou quando o mercado de ações afundou”.

bernanke_greenspanA oposição republicana, atormentada pela suspeita de que grandes bancos premiados com socorro do governo podem ser nacionalizados por algum tempo, talvez tenha ficado aliviada, horas antes, devido à palavra de Ben Bernanke, presidente do Federal Reserve, banco central americano (na foto, seguido por Alan Greenspan, à entrada do gabinete Oval da Casa Branca de Bush). Ele negou (saiba mais AQUI) que o governo pretenda nacionalizar o sistema financeiro do país – o que fez as ações do Citigroup e do Bank of America subirem 20% (logo depois da fala de Bernanke).

No domingo o colunista (e prêmio Nobel de Economia) Paul Krugman, do New York Times, citara com ironia a conclamação do antecessor de Bernanke no Fed, tratado como “camarada Alan Greenspan”, para que “tomemos as colinas de comando da economia”. Krugman o apoiou, embaraçado. O que aquele defensor do “livre mercado” tinha dito, explicou, é que “pode tornar-se necessário nacionalizar temporariamente alguns bancos para facilitar uma reestruturação rápida e ordenada” (leia a íntegra AQUI).

O futuro incerto dos bancos

Três observações de Krugman, ao concordar: “Primeiro, alguns dos grandes bancos estão perigosamente no limite – já teriam desmoronado se os investidores não esperassem a decisão do socorro. Segundo, os bancos têm de ser socorridos. O colapso do Lehman Brothers quase destruiu o sistema financeiro mundial e não podemos correr o risco de deixar que instituições muito maiores, como Citigroup ou Bank of America, implodam. Terceiro: embora bancos tenham de ser socorridos, o governo não pode se dar ao luxo, fiscal ou político, de dar presentes colossais aos acionistas de bancos”.

beck_glennApesar de sensato, Obama ainda parece distante de algo assim – ao menos por enquanto. É que a nacionalização dos bancos tem sido enfaticamente exorcizada a cada dia pelos republicanos e o presidente continua namorando o bipartidarismo. Mas Limbaugh e a Fox News – em especial a nova atração do império Murdoch, o destemperado Glenn Beck (foto ao lado) – redobram as denúncias veementes contra a “marcha para o socialismo” (saiba mais sobre “The Road to Socialism” na estapafúrdia explicação do próprio Beck AQUI).

Mesmo dedicando a maior parte do discurso à crise da economia, Obama deixou de responder com clareza a preocupações específicas sobre seu plano de socorro ao sistema bancário do país. Limitou-se a dizer que não tem a intenção de fornecer recursos sem impor condicionamentos. Deixou as opções em aberto, mas sua equipe tem sugerido que acredita em alguma forma de nacionalização.

(Abaixo, uma foto panorâmica do New York Times, onde o discurso pode ser acompanhado AQUI, com uma análise interativa)

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Published in: on fevereiro 25, 2009 at 1:39 pm  Comments (1)  

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  1. Gosto muito do jeito que voce escreve, direto, simples e sem ter a tolice da imparcialidade. É por voce que recebo as notícias do EUA sobre as mudanças e esforços de OBAMA, gosto muito. É muito bom voce mostrar a controvérsia entre os partidos, os discursos liberais e de extrema direita da oposição e, especialmente para mim, as discussões sobre o intervencionismo no Governo, aspectos sobre um possível keynesianismo. Sobre isso li um texto interessante de José Luis Fioro hoje no Jornal Valor Econômico. Parabéns, estou gostando muito de visitar seus escritos por aqui, embora seja calouro por aqui.


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