O momento de Obama, à sombra de Lincoln

thetalltarget-1O título The Tall Target de um filme de 1951 (veja o cartaz acima e outro abaixo, à direita) referia-se à estatura elevada e à altivez do possível alvo de um atentado em 1861 – o presidente eleito Abraham Lincoln. Aquela produção diferente de Hollywood, dirigida por Anthony Mann (um mestre do film noir), baseou-se em história de Daniel Mainwaring (Geoffrey Homes) adaptada por George Worthing Yates e Art Cohn.

Mainwaring foi uma das vítimas da lista negra de Hollywood, como também Will Geer, excelente ator que fez o papel do condutor do trem. O ator Adolphe Menjou, um dos conspiradores na trama do atentado, foi um dedo duro notório, além de instigador da caça às bruxas de Hollywood na organização de extrema direita Motion Picture Alliance for the Preservation of American Ideals (MPAPAI).

the_tall_targetMas a história do filme, ainda que atribuída à imaginação de Mainwaring, teve como base a especulação de que houve de fato a trama assassina. Lincoln seria alvejado durante sua viagem pela ferrovia The Baltimore & Ohio Railroad, atravessando Indiana, Ohio, Nova York, Pensilvânia, Delaware e Maryland até à capital – para a posse do 16º presidente. Viagem repetida agora pelo 44º, Barack Obama.

Otimismo hoje, tensão ontem

Em The Tall Target o detetive que desarticula a trama chama-se, por coincidência, John Kennedy – o presidente assassinado em 1963. Foi interpretado por Dick Powell. O diretor Anthony Mann, muito bem sucedido em filmes anteriores (como Raw Deal, T-Men e Railroaded), recriou o mesmo clima noir, conseguindo manter a atenção até o desenlace, em Baltimore, de onde Lincoln seguiu para a capital (mais sobre o filme AQUI).

Na reconstituição de agora, Obama viajou em meio à euforia, festejado em escalas sucessivas, inclusive Baltimore (leia AQUI o relato da viagem no web site da CBS). Pesquisa do New York Times com a rede CBS de televisão refletiu a onda de otimismo em relação à mudança de governo (saiba mais AQUI) – um clima que contrasta com a atmosfera tensa na viagem de Lincoln. Sete estados já estavam em rebelião aberta contra a União, para criar a Confederação sulista.

E terá havido mesmo a trama para assassiná-lo? Ela é dada como fato numa Enciclopédia de Abraham Lincoln (The Abraham Lincoln Encyclopedia), que tem entre seus autores Mark Neely Jr, historiador que ganhou o prêmio Pulitzer. Mas o relato que parece ser a fonte mais citada para dar credibilidade ao episódio é o da revista Harper’s em junho de 1868 (leia o texto AQUI).

O alerta do “Baltimore Sun”

Aparentemente, o texto foi feito para tirar partido da comoção no país depois do assassinato em 1865, com o ator John Wilkes Booth no papel central – e de ter sido a trama de 1861 citada no julgamento do assassino e seus cúmplices. Todos os dados da Harper’s são atribuídos às anotações do próprio Allan Pinkerton (reprodução abaixo), dono da célebre agência de detetives que fora contratada para desarticular a trama de Baltimore.

pinkerton_allan1O personagem-chave do complô relatado em 1868 era um cabelereiro corso que emigrara para os EUA e se instalara em Baltimore: Cipriano Ferrandini (citado ainda como Siprono Fernandini e outras variantes) chegou a ser acusado mas nunca indiciado por conspirar contra Lincoln em 1861. Mas será Pinkerton confiável? Ou será suspeito, por seu interesse em superestimar feitos de sua agência?

O fato concreto era a hostilidade dos escravocratas de Maryland às vésperas da posse. O próprio Baltimore Sun, principal jornal do estado, referiu-se a isso a 27 de dezembro de 2008, a propósito da viagem de Obama (leia a íntegra AQUI). Citou então seu editorial de 23 de fevereiro de 1861, no qual tinha advertido os leitores contra o clima hostil, conclamando-os a “não permitir desrespeito pessoal”.

A fuga e a morte em 1865

Apesar do papel conspícuo de Pinkerton, à frente da agência encarregada da proteção do presidente contra possível atentado, a suposta trama nunca chegou a ser suficientemente investigada por ele.lincoln_fuga O Sun, no editorial de agora, observou que ao ser advertido para a ameaça ainda em Harrisburg, Pensilvânia, Lincoln resolveu mudar para um trem mais cedo e, assim, passar por Baltimore sem ser notado.

Em todo o estado de Marylnd era forte a simpatia pelo Sul escravocrata. Devido a isso, explicou o Sun, aquela passagem silenciosa por Baltimore foi ridicularizada mais tarde pela imprensa hostil como “covardia”. Um exemplo desse tipo de exploração, claramente alimentada pelos adversários, foi a charge de Harper’s a 9 de março de 1861 (veja acima), sob o título “Flight of Abraham” (A fuga de Abraão).

Seria essa, então, a razão principal de nunca ter sido suficientmente investigada toda a trama do atentado – e os supostos conspiradores nunca terem sido acusados? Devido a isso, disse ainda o jornal, Lincoln nunca mais tentou esconder-se do público. “E quatro anos depois, sem qualquer proteção no balcão do Ford’s Theatre, ele foi assassinado devido a conspiração bem sucedida”.

(Veja abaixo a foto histórica da posse de Lincoln em 1861, depois das peripécias da viagem no trem da Baltimore & Ohio Railroad)

lincoln_inauguration_1861

Published in: on janeiro 19, 2009 at 10:33 am  Comments (2)  

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2 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Israel, por meio do lobby judeu nos EUA, tem conseguido apoio americano nos campos político, econômico e militar. Embora o viés religioso – judaísmo seria religião – possa parecer a princípio extemporâneo – afinal estamos no século XXI, e seríamos modernos e sofisticados intelectualmente – as muitas guerras mundo afora, até mesmo as provocadas por Bush, mostram que a religião ainda têm forte ligação com decisões extremas como a de guerrear.
    Barack Houssein Obama, embora protestante, é filho de muçulmano – que tem diferenças com judeus. Bush filho, segundo consta, é cristão radical. Permeando isto tudo, haveria grande quantidade de judeus no governo Obama – não sei se eram muitos no governo anterior.
    Talvez fosse interessante levantar a influência judia no governo americano que se inicia e compará-la com as acontecidas em governos anteriores (Bush e Clinton, por exemplo). Além disto, seria ilustrativo relacionar tais influências com os principais eventos no Oriente Médio e com as ações americanas relativas ao OM durante os governos anteriores.
    Uma análise destas, se a presença judia no governo de fato influi em decisões de guerra, pode antecipar movimentos no OM, incluindo recrudescimento das refregas, ou, ao contrário, pela relativa ausência de judeus no governo, o encaminhamento de solução pacífica para a região.
    Pode ser também que a quantidade de judeus no governo americano nada tenha a ver com as guerras no OM, o que parece improvável.

  2. Há uma presença física e espiritual em nossa história. Os mesmos que nos cerceiam de nossos valores são os mesmos que atacam os estadistas Hugo Chávez e Evo Morales Ayma,Rafael Correa, Fernando Lugo. Não admitem que esses lideres de origem nativa e afro-descendentes busquem e tomem a autonomia para seus iguais. São esses mesmos que no discriminam e que nos oprime de nossa liberdade de nossas expressões que não seculares, e sim milenares. quilombonnq@bol.com.br


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