O terrorismo de Bush contra o Pentágono

ricksfiasco1No livro Fiasco: The American Military Adventure in Iraq (veja-o  ao lado, na mão de seu autor), o jornalista Thomas E. Ricks, encarregado da cobertura militar no Washington Post, fez o que o New York Times considerou um retrato devastador da guerra do Iraque como “um exercício desgovernado de arrogância, loucura e incompetência”, da decisão unilateral do governo Bush de invadir o país sob falso pretexto à ocupação desastrada, passando pelos erros na condução da guerra (leia AQUI a resenha na íntegra).

Lançado em 2006, o livro foi imediatamente para a lista dos mais vendidos. Agora o autor estreou um blog (“The Best Defense”) no web site da revista Foreign Policy, que acaba de ser reformulada (leia o blog AQUI e saiba mais sobre a revista AQUI). Nele contou ter tido acesso – há poucos dias, graças a um amigo – ao texto de um email de 2005 no qual um diretor de departamento do Army War College (AWC, a Escola Superior de Guerra deles) conclamou os colegas a fugirem do jornalista Ricks.

metz_book“Todos nós temos de evitar o Tom (Ricks) como uma praga”, dizia o email assinado por Steven Metz. O jornalista explicou: “Fiquei especialmente surpreso pelo texto porque a última vez que tinha falado com o professor Metz, em 2008, ele me pedira para escrever algo que a editora pudesse usar para promover o livro que acabara de fazer, também sobre a guerra do Iraque. Eu escrevi e a frase foi usada”. (Veja acima a capa o livro de Metz, Iraq & the Evolution of American Strategy)

Liberdade acadêmica em xeque

Ricks reconhece que cada um tem direito de ter opiniões próprias, mas achou estranho Metz, integrante do corpo docente do Strategic Studies Institute (SSI) da AWC, recomendar que os colegas o evitassem, negando-lhe informações (saiba mais sobre o SSI AQUI, sobre Metz AQUI e o livro AQUI). E depois ainda buscar sua ajuda para vender seu próprio livro. É uma história reveladora neste momento em que George W. Bush dá seu adeus melancólico à Casa Branca.

Na sua entrevista coletiva desta semana, Bush a rigor não se arrependeu de nada de seus oito anos. Citou duas ou três coisas, mas atribuia a outros: as armas de destruição em massa que não existiam (culpa da inteligência), a faixa Mission Accomplished no porta-aviões Abraham Lincoln (“alguém” a colocou lá para sua visita exibicionista), imagens das torturas de Abu Ghraib (culpa de poucas “maçãs podres” de escalão inferior) e omissão no Katrina (um bode expiatório foi demitido na FEMA).

metz_stevenO episódio do professor do SSI, revelado agora por Ricks, ajuda a avaliar melhor a extensão dos estragos causados pelo governo Bush em diferentes áreas – e o caso específico da liberdade acadêmica no Army War College. De posse do email, o jornalista do Post perguntou ao professor porque tinha conclamado colegas a fugir dele. Metz (foto ao lado) alegou que aquilo teve a ver com o clima político que a instituição vivia na época.

O clima de medo, marca bushista

Metz culpou explicitamente a perturbação nas relações entre o Exército e as autoridades civis do escalão mais alto, sob ordens diretas do então secretário da Defesa, Donald Rumsfeld. Por ter dito, antes da invasão, que seriam necessárias mais centenas de milhares de soldados, o general Eric Shinseki (foto abaixo, à direita) vira-se forçado a deixar a chefia do Estado Maior do Exército – o que levou o Exército a um esforço para melhorar as relações com Rumsfeld.

shinseki_eric“Gente do SSI tinha sido verbalmente castigada depois de entrevistas dadas a você.  Eles viram as reportagens e nelas havia mais críticas ao governo do que esperavam. Nós nos preocupávamos com o que podia vir a acontecer ao SSI. Estávamos amedrontados por causa da instituição. Muitos de nós, inclusive eu, simplesmente paramos de dar entrevistas”, desculpou-se o professor.

Curiosamente isso sugere um paralelo com a conduta corajosa dos militares em outro episódio histórico – o da caça às bruxas. mccarthyLançada na Comissão de Atividades Americanas da Câmara (HUAC), no início da guerra fria, ela disseminou o medo no país e celebrou o falso patriotismo do senador Joe McCarthy (foto ao lado, numa sessão de seu comitê). O governo Truman aproveitou a histeria para aprovar a ajuda externa à Grécia e Turquia e na política interna para criar “juramentos de lealdade”.

Dwight Eisenhower, beneficiário dela na campanha de 1952, distanciou-se depois dos excessos do próprio partido (o Republicano) – e os militares, ao invés de se sujeitarem como no governo Bush, reagiram quando o alvo de McCarthy passou a ser o Exército. Na resistência, bancaram (e ganharam) o confronto com o caçador de bruxas, cujo poder desfez-se logo depois, com o voto de censura no Senado em 1954 (veja AQUI como o Times relatou o momento crítico do confronto).

Um terrorismo no bom sentido?

Claro que há a diferença fundamental – de que na caça às bruxas o terrorismo obscurantista foi iniciativa do Legislativo e não do Executivo, onde o presidente é também o comandante-chefe das Forças Armadas. Mas deve ser levado em conta que por trás de tudo esteve, em 2001-09, o grupelho neoconservador (Cheney-Rumsfeld-Wolfowitz à frente), particularmente zeloso na defesa da submissão dos militares aos líderes civis do Departamento da Defesa.

Golpes e ditaduras na América Latina nos ensinaram a ver militares com suspeita – até como inimigos da democracia. Mesmo nos EUA livros e filmes exploraram a imagem, que se ajustaria ainda a um Douglas MacArthur, Curtis LeMay, George Patton e outros. Mas é preciso cuidado com o zelo civilista dos neocons – esses apóstolos da guerra rotulados de chicken hawks (falcões galinhas) pelo detalhe de ter a maioria deles fugido do serviço militar.

bush_090112Desde o fim da guerra fria eles pregam um mundo unipolar – os EUA como superpotência única. No final da guerra do Golfo de 1991, tentaram forçar a marcha sobre Bagdá, barrada pelo apoio de Bush I a James Baker (secretário de Estado) e Colin Powell (chefe do estado-maior conjunto). Atropelados pelo 11/9, usaram o pretexto para impingir a Bush II a guerra do Iraque e ítens de seu Projeto do Novo Século Americano, incorporados à Estratégia de Segurança Nacional (NSS).

Os neocons influem desde o governo Reagan mas só com Bush II assaltaram o poder. Para Leo Strauss, filósofo que admiram, e Irving Kristol, criador da expressão neoconservative, o governante pode mentir ao povo, pois sabe o que é melhor para o povo; e assessores sábios podem mentir ao governante. O despreparado Bush aprendeu a lição, a julgar pela entrevista desta semana (foto). Acha que só é impopular porque as pessoas não entendem: tinha de aterrorizá-las – para salvá-las. Ou seja, para o bem delas.

Published in: on janeiro 14, 2009 at 8:19 am  Comments (1)  

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  1. Texto excepcional como sempre, Argemiro. Parabéns.


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