Mercadores da morte na família Bush

bushes_iraq1O cartum do Political Humor (ao lado) lembra como tudo começou: “Saddam tentou matar o papai de W. Agora o SEU papai vai matar aqueles jóqueis de camelo”. Mas em 2008 W sai de cena aos poucos, enquanto outros fazem a conta da guerra dele, de US$3 trilhões, no Iraque. Nos dados oficiais, 4.193 militares americanos mortos, 30.774 feridos (na estimativa extraoficial, mais de 100 mil), sem falar nos civis iraqueanos mortos (mais de 1 milhão). Mas a família Bush se deu bem. Até o tio Bucky (William H.T. Bush) já tinha lucrado US$450 mil em fevereiro de 2005.

Segundo texto enviado então, de Washington para o Los Angeles Times, pelo correspondente Walter F. Roche Jr. (leia AQUI), a guerra tinha ajudado a Engineered Support Systems Inc (ESSI), fornecedora do Pentágono sediado em St. Louis, a ter lucros recordes, que foram em parte para o bolso de Bucky, irmão mais novo do ex-presidente George H.W. Bush – este, por sua vez, estava na cúpula do grupo Carlyle, controlador de grandes corporações que faturavam na guerra.

Para o presidente, o tio Bucky deve ser um patriota: sua ESSI contribuia para “disseminar a democracia pelo mundo” – último dos pretextos do governo para justificar a invasão do Iraque, que ao ser desencadeada ainda invocava como razão a defesa do povo americano contra inexistentes armas de destruição em massa e fantasiosas ligações do Iraque com a al-Qaeda.

Uma velha tradição na dinastia

Na Casa Branca, naturalmente, Bush acha natural o tio fazer dinheiro com guerras. É tradição na família. Mesmo antes de se saber do meio milhão que tio Bucky lucrou, eu tinha feito referência num artigo a reportagem do jornal britânico The Guardian sobre o avô de Bush, Prescott Sheldon Bush (1895-1972). O título do jornal: “How Bush’s grandfather helped Hitler’s rise to power”: Como o avô de Bush ajudou a ascensão de Hitler ao poder (leia AQUI).

Leitores do meu livro O Império Contra-Ataca – As guerras de George W. Bush antes e depois do 11 de Setembro já tinham encontrado ali informações sobre o caso, que a grande mídia americana sempre preferiu omitir ou subestimar. Os Bush estão envolvidos há várias décadas em negócios e relações promíscuas com o poder. E faturam com guerras desde pelo menos a I Guerra Mundial.

Personagem notório nesse capítulo da construção da fortuna da família foi o bisavô do atual presidente, Samuel Prescott Bush (1863-1948). Ainda no governo de Woodrow Wilson, Samuel era dono da Buckeye Steel Castings Co., fabricante de peças para ferrovias do magnata E. H. Harriman (pai dos irmãos Averell e Roland Harriman). Como tal tornou-se diretor de armamentos menores e munições no Escritório das Indústrias de Guerra.

Mais tarde seria ainda conselheiro do presidente Herbert Hoover. A Buckeye não pertencia só a ele. Também era, em parte, de Frank Rockefeller, irmão mais jovem do então odiado John D. Rockefeller (o barão-ladrão da Standard Oil, mais tarde Esso, hoje Exxon/Mobil). Samuel Bush dobrou a fortuna na I Guerra Mundial. Seus produtos incluíam munição, canos de canhões e outras armas.

Sem espaço para a verdade

Samuel foi um dos “mercadores da morte” (banqueiros e industriais que ganhavam dinheiro com guerras) que se tornaram alvos da célebre investigação parlamentar presidida pelo senador Gerald Nye em 1933-36 (a comissão Nye), cobrindo o período a partir da I Guerra Mundial. Estranho, mas nem tanto, é terem sido destruídos (a pretexto de “economia de espaço”) os registros e a correspondência de S.P. Bush no Arquivo Nacional sobre armas e transações.

O assunto é examinado, como explico em O Império Contra-Ataca,merchants_of_death num livro publicado em 1997 por Matthew Ware Coulter, The Senate Munitions Inquiry of the 1930s: Beyond the Merchants of Death (veja a capa à direita e saiba mais AQUI). Os interessados podem analisar ainda as conexões do banqueiro de investimentos George Herbert Walker, outro bisavô do presidente. Seu envolvimento com finanças e contratos de guerra são notórios. E na década de 1920 ele se tornou protegido e sócio de Averell Harriman numa nova firma de Wall Street.

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Depois da guerra, Harriman e Walker entregaram-se a grandes investimentos e projetos na Rússia (produção de manganês e renovação dos campos petrolíferos de Baku, a uns 800 quilômetros do Iraque) e na Alemanha (em conexão com a Linha Hamburgo-América e os interesses metalúrgicos do grupo Thyssen), despertando as suspeitas do governo dos EUA.

Os negócios melhoraram mais com a união dos Bush com os Walker, pelo casamento da filha de George Walker, Dottie (Dorothy), com o filho de Samuel Bush, Prescott. Kevin Phillips, autor em 2004 de American Dynasty: Aristocracy, Fortune and the Politics of Deceit in the House of Bush (veja a capa acima e saiba mais AQUI sobre o livro) observou que a ascensão dos Bush à cena nacional refletia o surgimento do que, bem mais tarde (em 1961), Eisenhower chamou “complexo militar-industrial”.

Do banco nazista para o Senado

U1285423INPSamuel tivera aqueles vínculos com o governo durante a guerra, enquanto os Harriman, sócios dele, ligaram-se cada vez mais ao Partido Democrata. Ele nunca foi candidato a cargo eletivo. Isso ficou para seu filho Prescott Sheldon Bush (foto ao lado), pai do primeiro presidente Bush e avô do segundo. Prescott elegeu-se senador por Connecticut logo depois da II Guerra Mundial.

Foi insólito Prescott ir para o Senado, pois tinha sido diretor e acionista do UBC (United Banking Corporation), um banco acusado de transações com o inimigo (vendia armas e material crítico para a indústria armamentista alemã) após comprar do industrial nazista Fritz Thyssen, o “anjo de Hitler”, a Consolidated Silesian Steel Corporation, suspeita até de usar trabalho escravo de presos de Auschwitz.

Dois sobreviventes de Auschwitz tentam há anos, na Justiça, um processo bilionário contra os Bush, o que a mídia nos EUA tem preferido omitir. Em 1942, o caso chegara aos jornais porque o governo Roosevelt agiu: investigou o UBC, enquadrou-o na Lei de Transações com o Inimigo e fez intervenção branca no grupo. O banco ainda pôde operar, mas teve de desistir de lucrar nas transações com os nazistas.

Roosevelt evitou aprofundar-se porque queria os homens de negócios unidos no esforço de guerra e sabia do risco de saírem chamuscadas corporações gigantes como a Standard Oil (Rockefeller), Chase Bank e General Motors. Prescott distanciou-se em 1943 do UBC, que ajudara Hitler e os nazistas exatamente quando a máquina de guerra alemã invadia a Polônia e a França, bombardeava Londres e criava os campos de extermínio.

Published in: on novembro 10, 2008 at 7:27 pm  Deixe um comentário  

O FBI contra o jornalista David Halberstam

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Nunca agradeci suficientemente um presente que recebi há 34 anos do jornalista Elio Gaspari. Trabalhávamos no Jornal do Brasil, onde eu escrevia com frequência sobre os EUA. Naquele ano cobri em Washington, como enviado especial, o final da crise de Watergate, com a renúncia de Richard Nixon e a posse de Gerald Ford. O presente dele foi o livro The Best and the Brightest (Os melhores e mais brilhantes), de David Halberstam (o da foto acima, feita por Mark Hannihan em 1993 para a AP).

Desde então, embora tivéssemos nossas divergências, passei a admirá-lo também pela generosidade. Entusiasmado com o livro, ele tinha comprado vários exemplares para dar a amigos que, imaginava, também poderiam gostar. Noto que ainda faz coisa parecida. Quando gosta de um livro escreve notas sugestivas em sua coluna, para que outros possam desfrutar o mesmo prazer.

thebestDevo àquele ato de generosidade minha fidelidade posterior ao autor de The Best and the Brightest. Também ficaria encantado, 20 anos depois, com seu The Fifties, magnífico retrato da década de 1950. Eu o conhecia de nome desde os anos 1960, por causa da controvérsia em torno da cobertura da guerra do Vietnã, que envolveu o New York Times, onde ele trabalhava, e outros veículos acusados pelo Pentágono de torcer pela derrota dos EUA.

Contra as liberdades civis…

O mérito extraordinário de Halberstam em The Best and the Brightest foi ter contando muito bem – com pesquisa minuciosa e envolvente, somada a um texto primoroso – o papel dos EUA no conflito e a atuação de intelectuais brilhantes convocados pelo governo Kennedy. Uma elite intelectualmente privilegiada, formada nas melhores universidades do país, tinha empurrado o país para aquela marcha da insensatez rumo à tragédia americana no Sudeste Asiático.

Os jornalistas que irritavam o governo com sua cobertura da guerra eram relativamente jovens. Além de Halberstam (saiba mais sobre ele AQUI e AQUI), havia ainda Neil Sheeham, Peter Arnett, Malcolm Browne e outros. Viam os fatos de perto, testemunhavam ações no campo de batalha e ouviam relatos dramáticos de soldados. Para eles, era impossível ser otimista como os intelectuais e sábios da equipe de John Kennedy, herdada pelo sucessor Lyndon Johnson. Sob pressão do governo, Halberstam e outros acabariam afastados da cobertura, mas o futuro provou que estavam certos.hoover_je

A partir da era conservadora de Reagan-Bush passou a prevalecer nos EUA a imagem equivocada de que no Vietnã os EUA foram sabotados por uma imprensa impatriótica. Daí porque, na década de 1980, os jornalistas foram impedidos de cobrir a agressão covarde à minúscula ilha de Granada e o massacre do Panamá, ambos transformados em espetáculos triunfalistas na mídia.

Volto a tudo isso porque agora sabemos que Halberstam – morto em abril do ano passado, aos 73 anos de idade, num acidente de automóvel – passou a ser vigiado pelo Bureau Federal de Investigações (FBI) do infame J. Edgar Hoover (foto acima) exatamente na época da controvérsia sobre o Vietnã. Ele ganhou o prêmio Pulitzer pela cobertura do Times em 1964. E durante mais de duas décadas foi vigiado como se fosse espião.

…E travestido de democrata

Ordenado por Hoover, o monitoramento continuou depois da morte do diretor do FBI – em 1972, ano do lançamento de The Best and the Brightest. Oficialmente Halberstam não sabia, mas suspeitava. O esforço dos estudantes da Escola de Jornalismo da Universidade da Cidade de Nova York (CUNY), com base na Lei de Liberdade de Informação (FOIA), levou afinal o FBI a admitir agora o que fez – para variar, a pretexto de defesa da segurança nacional.

Certos documentos referem-se a 1965, quando Halberstam era correspondente do Times na Polônia, onde casou pela primeira vez – com a atriz Elzbieta Szyzewska. O casal acabaria expulso do país porque as matérias irritavam os líderes comunistas poloneses. Os documentos liberados incluem artigos publicados por Halberstam e registros da companhia telefônica de chamadas recebidas por ele.

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Sem guerra fria e sem URSS, é inexplicável que só 62 das 98 páginas do dossiê tenham sido liberadas. Ao mesmo tempo ainda se reverencia gente como J. Edgar Hoover – cujo nome foi dado ao edifício-sede do FBI em Washington, como se ele fosse herói nacional e não um travesti de patriota. Admirado pelo obscurantismo, violava as liberdades civis e caçava bruxas no período mais vergonhoso da história dos EUA.

Segundo documentos citados pela Associated Press, em 1971 os esbirros de Hoover ainda planejaram entrevistar Halberstam, na certa decididos a detonar sua reputação. Apesar de forçado a liberar os papéis agora, o FBI não se considera obrigado a dar explicações. Para Jean Halberstam, viúva do jornalista, ele nunca teve certeza de que era vigiado, mesmo achando que isso era bem possível.

O pior servidor público do país

Também espantoso é que durante sete dos oito anos do governo de Ronald Reagan a espionagem do FBI sobre ele tenha sido mantida. Afinal, começara como uma ação insana entre tantas outras de Hoover, violador contumaz das liberdades civis dos americanos e com base no COINTELPRO, programa ultra-secreto que suspeitava de ligações de Halberstam com socialistas e comunistas.

halverstam_03Definitivamente fechado em 1971, esse programa de espionagem interna já se ampliara para incluir, entre seus alvos, organizações de direitos civis, ativistas anti-guerra, parlamentares e jornalistas. Segundo Jean, o marido só se referia a Hoover como “o pior servidor público de nosso país”, até porque o contribuinte é que pagava a conta desses gastos abusivos e atividades criminosas.

Segundo Jean, a vida de Halberstam (em ação no Vietnã na foto acima), era um livro aberto. Além disso, ele não tomava conhecimento do que outros, de quem discordava, achavam do que escrevia. Depois de 1967, quando deixou o Times, passou a escrever artigos para publicações importantes de circulação nacional, como Harper’s, Atlantic Monthly e Esquire. Publicou também uma dúzia e meia de livros. Neles foi sempre um jornalista exemplar – e, ao contrário de J. Edgar Hoover, sem nada a esconder.

Published in: on novembro 9, 2008 at 7:11 pm  Comments (1)  

A simpatia do mundo nas primeiras páginas

Primeiras páginas de jornais dos quatro cantos do mundo escancararam simpatia pela vitória do democrata Barack Obama na eleição de terça-feira, conforme demonstra a seleção abaixo. Eles são, pela ordem, da Bélgica, Canadá e China, na 1ª fila; Colômbia, Croácia e Espanha, na 2ª; França, França e Alemanha, na 3ª; Guatemala, Índia e Índia, na 4ª; Irã, Itália e Itália, na 5ª; Jamaica, Líbano e México, na 6ª; Namíbia, Panamá e Panamá, na 7ª; Portugal, Suécia e Turquia, na 8ª; Venezuela, Grã Bretanha e o “americano em Paris” International Herald Tribune, na última.

A escolha é arbitrária, mas qualquer um pode enriquecê-la com muito mais – e verá que a tendência geral será a mesma – na coleção habitual de primeiras páginas do Newseum (AQUI), aquela instituição criticada em meu último post pela incompetência histórica na inversão do episódio do assassinato na Nicarágua, em 1979, do jornalista Bill Stewart e nas trapalhadas de sua lista de jornalistas mortos no exercício da profissão.

Vale acrescentar ainda sobre as diferentes primeiras páginas: 1. a chinesa incluída (3ª da 1ª fila) parece tão festiva como a de jornais dos EUA (mas, obviamente, não sei o que diz a manchete, pode até chamar Obama de Hussein, como O Globo; 2. a montagem na foto da página croata (2ª da 3ª fila) é criativa, com um Luther King, aquele que teve “um sonho” quando tudo ainda era em preto e branco, a apontar para a ascensão de um Obama a cores; 3. a 5ª fila é sugestiva pela ponta de hostilidade na primeira página iraniana (Obama de costas) e uma boa caricatura de Obama, talvez monstruosa demais, no Libero italiano (a 3ª).

Gosto muito da página jamaicana do Gleaner (1ª da 6ª fila), que teve o cuidado de ir buscar (e reproduzir na primeira página de agora) sua primeira da eleição de 2004, vencida por George W. Bush. É que já então destacara a eleição de Obama para o Senado, passo inicial para o sonho de chegar à Casa Branca. Além disso soube tirar partido do slogan “Yes, He Did” (como o sueco, 2ª da 8ª fila, com a manchete em inglês, “Yes, We Can”. O “Oh-Bama!” do Namibian (1ª da 7ª fila) também refletiu bem o entusiasmo de toda a África com a mudança nos EUA. Em Portugal, o Diário de Notícias (1ª da 8ª fila) saiu-se bem pelo que, imagino, foi manchete antes do resultado definitivo: “Obama Histórico”.

Algumas das páginas, se clicadas, poderão ser vistas em formato grande, que permite a leitura. Mas outras já eram, originalmente, em formato pequeno. O leitor pode tentar encontrá-las, como explicado antes, no site do Newseum, clicando AQUI

Published in: on novembro 8, 2008 at 11:24 am  Deixe um comentário  

O presidente eleito e o jornal “O Globo”

brazil_ogloboO jornal O Globo comemorou em sua página 2 do último dia 6 o fato de estar sua primeira página da véspera (veja ao lado), noticiando a vitória de Barack Obama, entre os jornais do mundo inteiro expostos pelo Newseum – palavra que é um trocadilho infame mas foi escolhida para batizar em Washington o que pretende ser uma espécie de museu (Museum) da notícia (news), dedicado ao jornalismo (saiba mais AQUI sobre ele).

Volto depois ao nome infeliz e à instituição ídem. Mas vale a pena comentar o que disse o jornal na coluna “Por dentro do Globo”, a mais recente versão do que, no tempo da velha Gazeta Esportiva chamava-se “Oba, oba! Isto sim é que é jornal” – bazófia provinciana publicada na primeira página, somando às façanhas de nossa seleção os feitos gloriosos do diário, como supostos recordes de tiragem.

No caso presente foi sintomático estender a bravata ao conjunto das organizações Globo, já que enfeitava a coluna a foto do guardião da doutrina da fé naquele império de mídia, Ali (“Não somos racistas”) Kamel, ao lado do Seu Boneco do “Jornal Nacional”, William Bonner, integrante supérfluo da laboriosa equipe que cobriu a eleição (só cabia a ele a missão simplória de passar a palavra, no ar, a um ou outro repórter de verdade).

Ali, Carter, Clinton. E “Hussein”?

Fiquei implicado com a celebração triunfalista de O Globo. Primeiro, por achar que o tributo era mais aos recursos técnicos da empresa, que se deu ao luxo de atualizar o resultado, divulgado tarde demais, em três primeiras páginas diferentes. As que circularam a tempo de pegar a distribuição normal certamente não tinham resultado definitivo da votação apontando vencedor – e para os demais, não se justificava o custo da espera.

Era então apenas uma primeira página para efeito de relações públicas, não um feito jornalístico. Mas houve ainda a decisão, insólita e de mau gosto, da manchete “Presidente Barack Hussein Obama”. ali3No tempo em que eu fazia título no copy desk de O Globo, o lutador de box que ganhou o título mundial dos pesos pesados, o bailarino que tinha sido Cassius Clay  ao nascer, adotou como adulto o nome Muhammad Ali – e assim era aceito na mídia (veja-o na foto à direita).

carterMesmo depois, quando os eleitores americanos elegeram um presidente chamado James Earl Carter Jr., o jornal da família Marinho só o chamava pelo nome adotado por ele, Jimmy Carter (veja a foto ao lado). E bem mais tarde, em 1992, ao ser eleito o candidato cujo nome original era William Jefferson Blythe III (Clinton veio depois, era do padrasto), nas páginas de O Globo sempre foi (e continua a ser, até hoje) apenas Bill Clinton (foto à direita).clinton

Que gênio do jornalismo teria decidido agora – e com que intenção – mandar o mancheteiro preferir aquele “Barack Hussein Obama”, que os jornais em geral não usam nem em textos, quanto mais como manchete, quando a opção normal é pela economia de batidas? Não sabia O Globo que aquele nome do meio, demonizado para preparar a invasão do Iraque, só é falado pelos odiadores do presidente eleito? E em especial os extremistas de talk shows do mais baixo nível?

Orgulho de ser único no mundo

Não afirmo que a intenção tenha sido ofensiva. Não vi antes textos ofensivos no jornal sobre Obama – nem na coluna pouco inspirada de Merval Pereira. Mas o “oba, oba!” da página 6 celebrou a opção como positiva. Relatou com orgulho ter sido aquela primeira página mostrada várias vezes na CNN, ao mesmo tempo em que um locutor explicava que foi a única no mundo a incluir “Hussein” no nome do presidente eleito.

Quanto à comemoração dos operosos Kamel & Bonner no Newseum (juraram ter sido a única primeira página de jornal brasileiro exposta), havia razão menos celebratória. Muitos diários retardaram o fechamento, à espera da confirmação, mas com a atual diferença de três horas entre os horários dos EUA e do Brasil ficara difícil – e, afinal, o novo clichê seria comprado por poucos (para um jornal pequeno, ironicamente, era mais fácil).

Volto, enfim, ao Newseum e à organizaçãounderfire_movie Freedom Forum, que o criou. Não morro de amores por eles. Em junho de 2001, em artigo para o Observatório da Imprensa, expliquei porque (leia a íntegra AQUI). O Newseum publicara então o livro Crusaders, Scoundrels, Journalists, organizado por Eric Newton, suposto “historiador” do tal Newseum. Num dos microtextos do livro falsificou-se a verdade histórica sobre a morte, em 1979, do repórter Bill Stewart, da rede ABC (recontada corretamente em 1983, como ficção, no filme Under Fire, de Roger Spottiswoode, sobre a revolução sandinista – veja acima a capa do DVD e saiba mais AQUI sobre ele).

A fraude histórica do Newseum

Um soldado da Guarda Nacional do ditador Anastasio Somoza mandara Stewart, desarmado numa barreira, deitar-se no chão. Um colega do jornalista, de longe, observava. Filmou então, horrorizado, um assassinato a sangue frio, que chocaria os americanos. Os EUA tinham apadrinhado a ditadura somozista, que passava de pai para filho desde 1933, mas a cena contribuiu para apressar a queda do regime, com o triunfo sandinista.

Quem clicar na imagem acima verá a realidade, não a versão mentirosa do livro do Newseum/Freedom Forum, que atribuiu a atrocidade somozista aos sandinistas que lutavam contra a ditadura. Era tão submissa a conduta da mídia na era Reagan-Bush que não se diz que a CIA dirigia uma guerra secreta contra a Nicarágua. Mercenários “contras”, recrutados e armados pela espionagem, eram usados a partir de Honduras para atacar a Nicarágua (um pouco como Bush faz na Colômbia uribista, transformada numa espécie de Israel, para provocações à Venezuela, Equador, Bolívia, etc).

“Historiadores” tipo Eric Newton ignoram o escândalo Irã-Contras, que expôs a venda de armas ao Irã e o desvio dos lucros para financiar a guerra dos mercenários “contras”, egressos da Guarda somozista. Aliás, é também uma piada o monumento do Newseum/Freedom Forum a jornalistas assassinados por ditaduras – como Stewart. Há uns 10 anos, li a lista em Nova York e tentei saber da organização porque o nome de Vladimir Herzog não aparecia. Não sabiam. Mas depois incluiram Herzog, só que na companhia do suposto mártir do jornalismo Alexandre von Baumgarten – agente do SNI morto em queima de arquivo da ditadura. (Saiba AQUI detalhes da investigação do caso Baumgarten, no New York Times de 3 de janeiro de 1988).

Published in: on novembro 7, 2008 at 5:47 pm  Comments (7)  

Da vitória histórica ao desafio da mudança

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Uma etapa está vencida. Barack Obama derrotou o republicano John McCain por maioria esmagadora no Colégio Eleitoral e vantagem também expressiva, na votação popular, de 7 milhões de votos. Sem falar no índice de comparecimento às urnas, o mais elevado em quase um século. Tudo isso depois do que pode ter sido a mais longa companha presidencial da história. Como Obama está eleito, o país já é outro. E o 44º presidente será diferente.

Pela primeira vez desde que as colônias se uniram para declarar a independência, há 232 anos, um negro chega à Casa Branca. Nada menos de 52% dos eleitores, mais de 62,4 milhões, quiseram assim. Foram convencidos pelo seu perfil, pela sua trajetória humana e política singular, pela sua eloquência, pelo seu carisma. Ele teve de superar eventuais imperfeições e também acusações duras, às vezes torpes e de má fé, algumas claramente motivadas pelo racismo.

Mas a votação de Obama no eleitorado branco, embora bem inferior à do adversário republicano, foi significativa para um candidato democrata. Na verdade, superior à de todos os democratas que se candidataram à Casa Branca nos últimos 32 anos, desde o sulista Jimmy Carter (1976), inclusive Bill Clinton, eleito duas vezes. O feito de Obama tem um significado especial e é motivo de orgulho para os negros do país, ou africano-americanos, como destacou o próprio senador McCain ao reconhecer a derrota.

Como desfazer o legado de Bush 

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Naquele parque de sua Chicago, ao falar à multidão entusiasmada, 150 mil a 200 mil pessoas, Obama deixou claro que tem um caminho longo e difícil a percorrer. “Mesmo agora, enquanto comemoramos, temos consciência de que os desafios a enfrentar são os maiores de nosso tempo – duas guerras, um planeta ameaçado e a pior crise financeira em um século”. Foi enfático ainda ao dizer que não recebe o mandato de um partido ou uma ideologia. Recebe a missão de mudar o país.

O cartunista do jornal britânico The Guardian (veja acima) sintetizou a missão de Obama ao desenhar a máquina de destruir papéis, com as listas e estrelas da bandeira, a devorar e desfazer a imagem de George W. Bush e seu legado desastroso da crise econômica, das guerras e do ressentimento antiamericano no mundo. Se é essa sua missão, o presidente eleito tem serenidade e elegância suficientes para cumprí-la, mesmo diante das provocações e acusações sórdidas de adversários.

murdoch_2007Há muito a fazer. É revelador, no entanto, que ante a aproximação do desfecho da campanha de 2008, passou a prevalecer um eforço insólito na Fox News do magnata Rupert Murdoch (foto) – reduto do jornalismo mais tendencioso dos EUA, no qual pontificam estrelas do neoconservadorismo bushista. Neocons notórios como Bill Kristol e Fred Barnes (que criaram para Murdoch a revista ideológica Weekly Standard), Charles Krauthammer e outros menos intelectuais advertem Obama ali contra “ir para a esquerda”.

Os neocons de novo no palco

É a mesma gente que, no passado recente, teve sucesso em empurrar o governo Clinton para a direita, até forjando no Congresso a lei do regime chance (mudança de regime) para o Iraque. A guerra contra o Iraque, para tomar o controle de petróleo, foi criada no Projeto do Novo Século Americano (PNAC) de Kristol, com a ajuda de Krauthammer, Barnes, Paul Wolfowitz e o resto dos guerreiros neocons. Clinton, em minoria no Congresso, acabou por assinar a lei.

Perdida a eleição de 2008, os neocons ainda acham que serão capazes de impor ao futuro governo, as mesmas posições extremistas e belicistas, que Clinton absorveu em parte porque os republicanos tomaram a Câmara e o Senado em 1994. O que a facção neoconservadora da mídia tenta agora é prolongar a aventura bushista dos últimos oito anos, mesmo depois da derrota eleitoral. E adverte Obama e sua equipe para fugir da esquerda porque “o país é conservador e centrista”.

Para os neocons, esquerda é quem defende qualquer regulamentação contra a livre roubalheira dos executivos larápios de Wall Street – aqueles das fraudes da Enron, WorldCom, Arthur Andersen, dos bancos de investimento que roubam clientes e acionistas. Em colapsos sucessivos desde 2001, eles levaram à lambança geral e ao tsunami financeiro. O próprio presidente da Bolsa de Valores de Nova York, Dick Grasso, foi um dos executivos conspícuos pilhados.

Punir lambões e fraudadores, para os neocons, é esquerdismo e comunismo. Afinal, foi um deles, Ken Lay, o maior financiador da carreira política de George W. Bush – até ir para a cadeia por causa do conjunto de fraudes da Enron. Tudo aquilo fora possível graças à era Reagan-Bush (1981-1992) e aos dois mandatos de Bush II (2001-2008). Exatamente o legado que cabe a Obama desfazer no shredder.

Receita para repudiar a marcha-a-ré

Usando o 11/9 como pretexto, o governo Bush II oficializou em setembro de 2002 como Estratégia de Segurança Nacional (NSS) um texto (conheça AQUI a nova versão, de 2006) baseado em documentos que o PNAC discutia desde o governo de Bush I (1988-92), inicialmente uma Orientação de Política de Defesa (DPG, Defense Planning Guidance), que ao ser revelada publicamente horrorizou todo o Establishment de política externa do país e os principais aliados dos EUA na Europa.

Quando surgiram, o DPG, o PNAC e um documento posterior dos neocons, conhecido pelas iniciais RAD (de Rebuilding America’s Defense: Strategy, Forces and Resources for a New Century) não tinha acontecido a ação terrorista de 11/9 (World Trade Center, etc) e não se prestava qualquer atenção a Osama Bin Laden ou ao terrorismo. Mas os neocons agarram-se ao terrorismo como pretexto – e o governo Bush II abraçou a insanidade e lançou a histeria patrioteira para justificá-la, incluindo a invasão do Iraque.

Agora, a causa deles é não deixar Obama “ir para a esquerda”: os mesmo neocons que no passado venderam a Clinton o regime change tentarão empurrar o futuro governo para o rumo que desejam – ainda que Bush tenha manchado para sempre a imagem dos EUA no mundo com suas aventuras bélicas e produzido a tragédia da desintegração financeira, justificando o repúdio atual de mais de 70% dos americanos e a mudança consagrada nas urnas.

A diferença entre Clinton e Obama é a extensão da vitória eleitoral de 2008. Pois além de esmagadora na votação popular e no Colégio Eleitoral (349 a 163, faltando ainda dois estados), ela ainda ampliou a vantagem no Senado (pelo menos 56 das 100 cadeiras) e na Câmara (pelo menos 252 contra 173). Esses números equivalem em princípio a uma garantia contra rendição ou intimidação.

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Published in: on novembro 5, 2008 at 1:46 pm  Comments (2)  

Até o mapa de Karl Rove dá vitória a Obama

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Ele é tido como “o cérebro de Bush” (conforme o título de um livro sobre seu papel nas campanhas de 2000 e 2004 – veja a capa abaixo, à direita); o mago que deu a Casa Branca duas vezes ao atual presidente; e o “gênio do mal” que arrasa reputações e destrói adversários com golpes sujos. Neste ano de 2008, como John McCain foi vítima em 2000 e não morre de amores por seus truques, limitou-se a ajudar de longe a campanha republicana.

Mas no dia da eleição Karl Rove, como analista da Fox News, do Wall Street Journal e da versão online do Times de Londres – todos do império Murdoch de mídia – não esconde o jogo. Ao contrário, reconhece publicamente que a vitória no Colégio Eleitoral, a única que vale no processo americano para eleger um presidente, será mesmo do democrata Barack Obama, talvez por 338 votos eleitorais contra 200 (confira no mapa de Rove acima).

Se confirmada esta noite, terá sido a diferença mais esmagadorabushs_brain nos últimos 12 anos – desde 1996. Ou seja, uma derrota republicana maior do que as duas vitórias (ambas com a ajuda de roubo de votos, na Flórida e em Ohio) supostamente dadas a Bush pelo próprio mago da estratégia eleitoral. E Rove mata a cobra e mostra o pau, ao expor o último de seus célebres mapas eleitorais dos estados (saiba mais no site dele, AQUI).

Cálculo que parece realista

Na tela da Fox News ele já tinha feito ontem uma análise pessimista, ao dizer que McCain ainda poderia ganhar, mas que tal hipótese àquela altura era “muito difícil”. Hoje, na versão derradeira de sua síntese gráfica dos estados nas cores azul (os de vitória democrata) e vermelha (os de tendência republicana), deu a Obama todos os da costa nordeste, da Virgínia para cima, e mais a Flórida.

Quanto aos estados críticos – os swing states, que poderiam ir tanto para um lado como para o outro, dada a incertza das tendências – o mapa de Rove deu ainda os seguintes estados a Obama, na sua previsão final: Pensilvânia, Ohio, Colorado e Novo México. Ficaram com McCain, Carolina do Norte, Indiana, Missouri, Dakota do Norte e Montana.

Como as margens que Rove apontou são às vezes mínimas (em Indiana, 1 ponto percentual; em Dakota do Norte, Missouri e Carolina do Sul, zero), ainda pode haver erros – o que ampliaria ou reduziria a diferença a favor de Obama, já que todos os votos eleitorais de um estado com estimativa errada passariam de um lado para o outro. Só a Carolina do Norte tiraria 15 de McCain e daria a Obama – o que resultaria na diferença de 30.

McCain perde desde setembro

mccain_bushNa explicação sobre seu mapa – na verdade, de sua empresa Karl Rove & Co – ele diz que, para não deixar nenhum estado sem definição, alocou aqueles nos quais há empate técnico ou pequena diferença para o candidato em favor do qual se inclinava a última pesquisa. No mais, seguiu a média das pesquisas recentes – o que faz sentido numa situação como a atual.

Em outro gráfico, com a tendência do Colégio Eleitoral a partir de setembro, fica claro ter sido entre 15 e 20 daquele mês a última vez que McCain liderou (confira AQUI, clicando depois a opção Polling Trend Line). Daí em diante Obama esteve à frente, numa linha sempre ascendente, enquanto a de McCain sofre leve queda, só subindo na alocação arbitrária às vésperas da eleição. O Obama ficou com mais 86 votos eleitorais do que John Kerry em 2004 e McCain com menos 86 do que Bush.

O quadro otimista para o democrata, favorecido até na estimativa final do mago bushista, não significa que já sabemos o resultado final – pois até o cálculo de Rove tem como base as pesquisas. Assim, restam as hipóteses negativas também formuladas antes, como o “efeito Bradley” e variantes – segundo o qual o eleitor racista mentia ao pesquisador que votaria no negro mas na cabine eleitoral não o fazia.

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Do fiasco de 1948 às fraudes

No cartum acima, de 1948, o republicano Tom Dewey pergunta a Harry Truman para que eleições se as pesquisas já selaram sua derrota. Aquele foi o ano do maior fiasco das pesquisas: o presidente democrata Truman foi dormir cedo, derrotado, e acordou na manhã seguinte como presidente reeleito. Festejou, claro, dando gargalhada diante da primeira página do Chicago Daily Tribune, cuja manchete dava a vitória a Dewey, governador de Nova York (veja a foto abaixo e saiba mais sobre o fato AQUI, na Biblioteca Truman).

A esperança final de McCain era repetir a façanha.truman_x Mas o problema dele é que, para vencer, não precisa apenas ganhar em todos os swing states onde há empate técnico, o que já parece hipótese pouco realista. Também tem de tomar de Obama estados nos quais a vantagem do candidato democrata é considerada segura. Até porque 30% dos votos – ou mais – já foram dados na votação antecipada. Não podem mais ser mudados.

Deve ser lembrado ainda, finalmente, o risco de supressão de votos e fraudes. Os mais pessimistas acham que os republicanos têm máquina capaz de alterar a tendência do eleitorado – com expurgo de eleitores e supressão de votos em áreas pobres, de negros e minorias. Foi para combater isso que a ACORN, hoje sob cerco republicano, passou a fazer registros novos – e é acusada pelo partido de Bush e McCain, com respaldo da Fox News do magnata Rupert Murdoch.

Published in: on novembro 4, 2008 at 10:53 am  Comments (1)  

Na bolsa de apostas, Obama 91%, McCain 10%

No website Huffington.post (de Arianna Huffington), Keith Thompson (leia AQUI no original) contou ontem a história de um certo Mike Maloney, um apostador de 52 anos entrevistado por ele. Maloney ganhou muito dinheiro com ações, mas preferiu concentrar-se, no dia a dia, em corridas de cavalos, onde acha maior o desafio. “Há muitos e muitos fatores a mais a se considerar nas corridas de cavalos”, disse ele.

Para Thompson, aquele apostador é um gênio matemático. Por isso perguntou a ele se apostadores são capazes de prever melhor do que as pesquisas de opinião pública o resultado de uma eleição presidencial. Maloney não hesitou: “As pesquisas erram porque as pessoas podem dizer o que é politicamente correto, a formulação das perguntas pode influir e os entrevistadores podem ser tendenciosos. Já os bookmakers, ou fazem a aposta certa ou perdem”.

Thompson buscou uma segunda opinião de pessoa do ramo. “Os jogadores têm mais experiência com gente que trapaceia”, respondeu o consultado. Eles levam em conta a fraude, a pesquisa não. Pesquisa também não leva em conta os fatores e sistemas que cada secretário de Estado supervisiona – por exemplo, para expurgar eleitores. A conclusão de Thompson é de que os apostadores estão certos.

Finalmente, o autor citou Michael Robb, especialista político no website Betfair.com (conheça-o AQUI) dos bookmakers ingleses. Os fatos, diz ele, falam por si: enquanto os EUA se encaminhavam para o dia da eleição de 2004, a pesquisa da CNN mostrava John Kerry na liderança mas a Betfair dava a George W. Bush 91% da chance de vencer. E mais: em 2004 a Betfair ainda acertou na margem de vitória de Bush e no resultado de cada um dos 50 estados.  

Não sei se isso conta toda a história. Mas aí vão os números da Betfair para quem quiser apostar na eleição presidencial dos EUA este ano: Barack Obama está com 91% de chance. John McCain tem apenas 10%. Ou, para ser mais preciso, a aposta no favorito Obama só paga 1 por 7 (você aposta US$7 e, se ganhar, recebe US$8). Mas se apostar em McCain, leva US$6,80 para cada dólar apostado. O gráfico a seguir, também da Betfair, expõe a situação desde 4 de agosto:

Published in: on novembro 3, 2008 at 5:33 pm  Comments (1)  

Para a Gallup, mudança vem aí – com Obama

A crise da Flórida em 2000 retardou por mais de um mês a definição do vencedor da eleição presidencial, afinal decidida a 12 de dezembro no tapetão da Suprema Corte federal, que mandou parar a recontagem de votos ordenada antes pela Suprema Corte estadual. Mas em 2008 a decisão do Colégio Eleitoral poderá ser conhecida pouco depois de 8 e meia da noite, ao se fecharem as urnas em estados críticos.

Pelo menos é o que sugerem as últimas pesquisas reveladas hoje. Bom exemplo é a estimativa final da respeitada organização Gallup para o jornal USA Today (dados apurados entre 31 de outubro e 2 de novembro), alargando a vantagem de Obama para 11 pontos percentuais (53% a 42%), tanto entre eleitores registrados como entre votantes prováveis (veja as explicações e os três gráficos da Gallup AQUI).

Ao serem incluídos os indecisos, alocando-se proporcionalmente seus votos de acordo com a tendência para melhor aproximar os dados da votação real, os números passam a ser estes: Obama, 55%; McCain, 44%, mesma vantagem de 11 pontos percentuais. A edição de hoje do USA Today expõe mapa dos estados e o gráfico das diferentes pesquisas desde 16 de setembro (amostragem, margem de erro e tudo – veja AQUI).

Só dois estados para definir

No mapa, apenas Indiana e Missouri ainda estão dados como indefinidos pelo jornal. Outros indefinidos antes, ou são colocados agora para Obama (Pensilvânia, Virginia, Ohio, Colorado, Novo México) ou dados como inclinados para Obama (Flórida, Carolina do Norte, Dakota do Norte e Nevada). O gráfico com números das pesquisas das diferentes organizações, desde 16 de setembro, deixa clara a linha ascendente do democrata, como a quase reta do republicano).

Várias empresas de pesquisa continuam a registrar vantagens menores para Obama, em movimento de mais equilíbrio – como a Zogby International, que tem trabalho em conjunto com a agência Reuters, e a rede pública C-SPAN de televisão (confira AQUI); e a Pew Research Center (AQUI); para não falar na pesquisa Fox, desacreditada por integrar o império Murdoch de mídia. Mas mesmo elas continuam a dar vantagem a Obama (a Fox, só 3 pontos percentuais)

Também na Zogby a diferença a favor do democrata subiu – de 5,7 pontos percentuais na pesquisa anterior para 7,1 pontos (50,9% a 43,8%) na divulgada hoje. O especialista John Zogby explicou: “Barack Obama está onde precisa estar, John McCain não. Numa pesquisa de candidatos múltiplos, presumindo que os menores podem crescer em torno de 2%, Obama mantém os grupos que precisa, e continua a ter grande vantagem entre os independentes e na sua base”.

Outros números ficam abaixo

Os dados da Gallup mostram uma tendência de última hora na direção de Obama, com o crescimento de 8 pontos percentuais para 11,  tanto entre eleitores registrados como entre votantes prováveis. Mas as outras pesquisas falam de uma redução da diferença – que seria um fenômeno também favorável a chapas presidenciais republicanas em outras eleições recentes.

John Zogby observou que McCain parece estar mantendo sua base, mas tem sido incapaz de ampliá-la e não consegue penetrar no território de Obama. A organização promete divulgar outra pesquisa amanhã, cobrindo o período até meia-noite de hoje. Já o Pew Research Center, na sua pesquisa final, disse que “Obama mantém uma liderança significativa sobre McCain nos dias finais da campanha”.

A vantagem “significativa” entre “votantes prováveis” é de 7 pontos percentuais, 49% a 42%, bem abaixo da vantagem apurada pela Gallup. E com o acréscimo proporcional dos indecisos ainda cai para 4 pontos, 52% a 46%. Segundo a pesquisa, há indícios de que o comparecimento de eleitores poderá ser  bem alto do que em 2004, quando foi o maior em quase quatro décadas.

O Pew Center projeta percentuais ampliados de votantes jovens e de negros, contingentes largamente favoráveis a Obama. Mas o comparecimento de eleitores aumentará em todas as faixas. Ao mesmo tempo, é assinalado que na semana final McCain recebe o impulso que republicanos costumam ter entre os “votantes prováveis”; no universo de todos os “registrados”, Obama teria 50% contra 39%. Na mesma linha, a pesquisa de acompanhamento diário Rasmussen Reports deu ontem 51% para Obama contra 46% de McCain, vantagem de 5 pontos (saiba mais AQUI). É o 38º dia seguido nessa pesquisa com Obama entre 50% e 52%.

A decisão dos estados indecisos

E por que o resultado já poderá ser conhecido às 20:30 horas de amanhã ou pouco depois? Em geral as grandes redes de TV, quando a votação não é apertada, projetam o vencedor de cada estado quase imediatamente depois do fechamento das urnas. Estados críticos – Pensilvânia, Flórida, Carolina do Norte, Virgínia, Ohio, Missouri e Indiana – estão entre os que fecham as urnas até aquele horário.

Depois do problema da Flórida em 2000, as redes de TV ficaram mais cautelosas e já não se apoiam nos dados de uma mesma organização para apontar ou não o vencedor do estado. Mas desta vez, conforme os números desses estados, podem ousar. Por exemplo, se McCain perder Flórida, Carolina do Norte, Ohio, Virgínia e Pensilvânia dificilmente deixarão de dar a vitória a Obama no Colégio Eleitoral.

São esses os estados mais visitados nas semanas finais da campanha pelos dois candidatos exatamente porque o resultado final virá daí. O que decide é o Colégio, não a votação popular. Já se sabe, por exemplo, quem vencerá nos três estados maiores: a Califórnia e Nova York darão seus votos eleitorais – 55 e 31, respectivamente – a Obama. O Texas dará os seus (34) a McCain.

Só restam os complicadores. A amplificação pela Fox News Channel de denúncias republicanas de fraude em registros de eleitores, atribuída à ACORN (Associação de Organizações Comunitárias para uma Reforma Já) sugere uma preparação, pela campanha de McCain, para um esforço posterior, no tapetão, a pretexto de fraudes. A ACORN (saiba mais sobre ela AQUI) foi criada para registrar mais eleitores negros e de minorias, cujos votos costumam sofrer expurgo, supressão ou simplesmente não serem contados, mediante artifícios. 

Published in: on novembro 3, 2008 at 1:28 pm  Deixe um comentário  

A Fox News e a liberdade de expressão

Provavelmente pouca gente no Brasil ouviu falar da pessoa simpática que aparece ao lado. Eu também não sabia da existência dela até há pouco tempo. Chama-se Heather Mallick. É uma escritora e jornalista canadense que sempre tem coisas a dizer e em geral o diz muito bem, com um toque de humor e irreverência. Por causa disso acabou punida no mês passado. Mas não é preciso ter pena dela. Está muito bem, continua a fazer livros e escrever artigos para o Guardian de Londres.

O episódio que a envolveu, levando a esse desfecho, encerra lições sobre a mídia em geral e a rede Fox News Channel (FNC), do império Murdoch, em particular. Acompanho a FNC desde que entrou no ar em Nova York, em 1996. Recrutou então o prefeito Rudy Giuliani para dar uma chave de galão em outro império de mídia, o da Time-Warner, cujo serviço de cabo em Nova York resistiu enquanto pôde à inclusão da FNC porque era dono da CNN, ameaçada pela concorrência.

Depois, como todo mundo sabe, a FNC passou a comer a CNN pelas beiradas, como um prato de mingau (a história do confronto é contada no livro da capa ao lado, publicado em 2004), e passou à liderança de audiência entre as redes de cabo dedicadas ao jornalismo. A opção inicial do magnata Rupert Murdoch foi aliar-se a governos conservadores (Margaret Thatcher na Grã Bretanha, Ronald Reagan nos EUA) e tirar partido disso. Nos oito anos de George W. Bush apostou tudo na histeria patrioteira pos-11/9 e se deu muito bem.

Um expurgo no avião de Obama

Como o quadro mudou depois dos dois mandatos desastrosos de Bush, a FNC está em baixa e a CNN em alta. E na última sexta-feira vi com supresa a rede de Murdoch investir contra Barack Obama em nome da liberdade de expressão. É que o avião do candidato democrata, lotado nesse fim de campanha, decidiu excluir três jornalistas – um do New York Post de Murdoch, um do Washington Times da seita Moon e um do bushista Dallas Morning News.

O expurgo saudável foi encarado pelo império Murdoch, principalmente a FNC, como grave atentado à liberdade de imprensa. Só que em geral essa questão não preocupa Rupert Murdoch quando é ele próprio a desrespeitar a liberdade de imprensa. Por exemplo, há alguns anos fez um acordo com o governo da China para cobrir esse vasto e populoso território fornecendo as imagens de seu sistema via satélite, Star TV, que incluia o canal de televisão da BBC internacional.

Algum tempo depois, o regime comunista de Pequim indignou-se com uma reportagem da BBC criticando violações dos direitos humanos na China. A BBC, como se sabe, é uma emissora pública, estatal, que faz jornalismo de alto nível. O conservador Murdoch, por sua vez, é mais pragmático do que ideológico. Avisado então pelo governo chinês para retirar o canal britânico de seu serviço sob pena de cancelamento de todo o sistema via satélite, expurgou a BBC (saiba mais AQUI).

Direito de dizer o que bem entende

Outro episódio que escancarou o zelo de Murdoch e sua FNC pela liberdade de imprensa aconteceu este ano, depois que o New York Times mostrou numa reportagem que, com a ajuda da campanha presidencial, a CNN dera um salto na audiência e estava praticamente empatada com a FNC. O império Murdoch reagiu com uma violenta matéria contra o Times, na qual incluiu fotos grosseiramante adulteradas (veja acima a foto de um deles, quase um lobisomem, rotulado de “cão de ataque”) para fazer parecer que os dois repórteres do jornal eram monstros de filme da Universal Pictures (saiba mais sobre o caso AQUI).

Fair & Balanced (honesto e equilibrado) é o slogan do jornalismo da FNC (para muitos, piada de mau gosto). Mas também a pretexto de defender a liberdade de imprensa, a FNC faz campanha agora contra a idéia de ser forçada, através de lei, a respeitar uma fairness doctrine – doutrina que a obrigue a conceder direito de resposta a alguém que tenha sido ofendido, corrigir uma informação errada ou permitir a apresentação de uma opinião diferente da defendida pela emissora. A lei, para todos os veículos, é discutida por democratas do Congresso, fartos da falta de honestidade e equilíbrio, além de outros excessos murdochianos.

É que tanto a FNC como a Fox News Radio têm talk shows ideológicos e extremistas, como os de Sean Hannity e Bill O’Reilly. Segundo o argumento apresentado por um dos apresentadores da emissora, os telespectadores que vêem ou ouvem programas de um Hannity, um O’Reilly ou um Rush Limbaugh, o rei dos talk shows de rádio, querem só a opinião deles e nunca a de alguém que discorde deles.

O jornalismo das listas negras

Isso nos leva de volta à doce Heather Mallick. Em coluna para o website da CBC, rede pública canadense de TV, ela foi irreverente sobre a candidata Sarah Palin, heroína da FNC, e insinuou, com humor, haver desajuste sexual entre os republicanos machos. A página da CBC a rigor não tem leitores nos EUA. Mas três programas da FNC orquestraram uma reação de telespectadores. E ante os ataques irracionais e raivosos, o ombudsman da CBC pediu explicações à colunista.

“Escrevo para certo tipo de leitor canadense. Minha visão de um canadense inteligente. Não escrevo para gente que vê a Fox News”, disse Mallick. O diretor geral da CBC News, solidário com o ombudsman, alegou que “se fosse sátira era diferente”. “Não era sátira”, respondeu ela. “Era comentário político franco. Não sei de ninguém que tenha levado ao pé da letra que republicanos são sexualmente desajustados”. Mas a coluna foi removida do site (veja AQUI como o New York Times contou toda a história e AQUI o relato dela própria, incluindo sua experiência, no passado, de uma entrevista dada a O’Reilly na FNC).

A reação orquestrada me fez lembrar o tempo do senador Joe McCarthy nos EUA. Os caçadores de bruxas mobilizavam pessoas para escrever cartas indignadas às emissoras de rádio e TV, cujos diretores decidiam demitir escritores, atores e diretores, engrossando as listas negras. O jornalismo da FNC, desde que nasceu, é herdeiro das listas negras. Faz campanhas de difamação, destrói reputações e representa exatamente o oposto da liberdade de expressão.

Published in: on novembro 1, 2008 at 4:37 pm  Comments (1)