A eleição de 1864 e o assassinato de Lincoln

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A litografia acima reconstitui o momento em que o ator John Wilkes Booth atira em Lincoln no camarote no teatro. Este blog tem citado com frequência o papel da escravidão negra no debate da Constituição americana, o efeito retardado (a guerra civil) do difícil compromisso entre o norte e o sul na questão e o legado do racismo. Mas faltou dar mais atenção aos graves problemas enfrentados por Abraham Lincoln e seu Partido Republicano no final do primeiro mandato e no esforço pela reeleição em 1864 (mais sobre Lincoln e a guerra AQUI).

Ao contrário do que alguns ainda supoem, o primeiro vice-presidente de Lincoln não foi Andrew Johnson, democrata do sul. Foi o esquecido Hannibal Hamlin, tão republicano e tão vigoroso na oposição à escravidão como o próprio Lincoln, tendo aderido ao partido por causa dessa posição. Ex-governador do Maine e senador (até tornar-se vice-presidente), ele foi no princípio muito influente junto ao presidente (mais sobre Hamlin AQUI).

Na fase final do primeiro mandato – com o rumo da guerra civil em dúvida e os distúrbios anti-recrutamento em Nova York assustando o governo – Hamlin inclinou-se para o lado dos “republicanos radicais”, que queriam trocar Lincoln, como cabeça de chapa, pelo secretário do Tesouro Salman Chase ou um dos generais descontentes com a situação. Isso pode ter sido a gota dágua para a decisão posterior do presidente de substituí-lo como vice.

1864_mcclellanA estratégia que virou o jogo

Os radicais achavam que Lincoln não se reelegeria. Houve um momento em que o próprio presidente julgou que corria o risco de sofrer derrota esmagadora. Mas ao invés de desistir, buscou reverter o quadro com estratégia ousada, nos campos militar e político, enquanto o Partido Democrata iniciava a aposta no candidato George B. McClellan (foto ao lado – saiba mais AQUI), general que Lincoln demitira pelos erros à frente do Exército do Potomac.

Se a facção republicana radical questionava os rumos de Lincoln na guerra, no partido da oposição havia o bloco favorável a negociar a paz, pondo fim à guerra. A plataforma democrata oficializaria essa posição. O mais notório democrata pro-guerra, Andrew Johnson, era então governador militar do Tennessee (já sob ocupação do norte, como a Louisiana). Lincoln, que o nomeara, achou que daria um bom vice, no lugar de Hamlin (mais sobre Johnson AQUI).unionnomination

O presidente foi mais longe: declarou essa chapa do Partido da União (Union Nomination, conforme explicavam os cartazes – veja ao lado) e não apenas republicana. Paralelamente, endureceu as operações na guerra. O efeito da estratégia, com a presença de Johnson na chapa, foi o de atrair o apoio de democratas contrários à plataforma pro-paz do partido, repudiada até pelo próprio candidato, McClellan, que limitava sua crítica à maneira como Lincoln conduzia a guerra.

Aquela noite no Ford’s Theatre

Amplamente vitorioso na guerra e no front político, Lincoln estava confiante no projeto. Sua chapa (com Johnson) tinha vencido, por larga margem, a votação popular (em meio à guerra), que de fato ele estivera gravemente ameaçado de perder. Obteve 55% dos votos contra 45% dados a McClellan e George Pendleton. No Colégio foram 212 votos eleitorais (22 estados) contra apenas 21 (três estados).

Eram previsíveis algumas dificuldades dentro de seu próprio partido, onde sua linha mais moderada para o pos-guerra entraria em choque com a dos radicais republicanos liderados por Thaddeus Stevens (na Câmara), Charles Sumner e Benjaminn Wade (no Senado), partidários de um duro acerto de contas com os rebeldes do sul. Republicano e vencedor da eleição, estava em condições de superar os obstáculos.

Lincoln tinha cumprido apenas umas poucas semanas do segundo mandato de quatro anos ao ser assassinado no Ford’s Theatre (conheça o teatro AQUI). Seu vice e sucessor era sulista e do partido da oposição. Os republicanos radicais sentiram-se então como se fossem vítimas de usurpação. Mas era o resultado – inesperado, claro – do remédio imaginado pelo próprio Lincoln para enfrentar e vencer os problemas criados pelos próprios radicais.

Mais 100 anos de racismo

johnson_andrewO problema maior foi que, no desdobramento, a própria conduta de Andrew Johnson (veja-o à esquerda) tornou-se um desafio ao Legislativo e ao partido do governo. Por ter preferido uma versão branda da Reconstrução no sul, abraçando o enfoque sulista dos “direitos dos estados” e a tese de que os negros eram inferiores, o presidente acabou por provocar resposta dura dos partidários de um acerto de contas radical.

Para ele, os estados do sul não tinham deixado a União. Seus direitos, achava ele, deviam ser restaurados, com anistia para todos (menos uns poucos confederados). No confronto inevitável, Johnson sobreviveu ao impeachment (saiba mais AQUI) mas a linha dura da Reconstrução, com seus carpetbaggers e aproveitadores, castigou todo o sul até 1877, quando Rutherford Hayes, feito presidente num conchavo com a elite sulista, retirou as tropas federais e devolveu o poder aos brancos.

Com isso os negros do sul passaram mais um século sem direito de voto ou quaisquer direitos, em estados de partido único – o Democrata, que ainda se dava ao luxo de manter a bandeira da Confederação (e do racismo) tremulando no alto dos prédios públicos, do Executivo, Legislativo e Judiciário. Esse quadro constrangedor, marcado ainda pela Ku Klux Klan e linchamentos, só mudou com a revolução dos direitos civis e leis aprovadas em 1964-65.

Published in: on novembro 26, 2008 at 6:22 pm  Comments (1)