Novos “think tanks” no centro do palco

cap_thinktankO que um progressista é? De visão ampla. Inovador. Otimista. Pragmático. Justo. Respeitoso. Patriota. E o que não é? De visão estreita. Temeroso de idéias novas. Ingênuo. De mente fechada. Egoista. Arrogante. Xenófobo.

O círculo ao lado, com o que ele é e não é, está no web site do Center for American Progress, CAP (saiba mais sobre ele AQUI). E de Nova York a jornalista Andrea Murta informou na Folha de S. Paulo: “o esquerdista Centro para o Progresso Americano” está emplacando membros na equipe do presidente eleito Barack Obama e poderá ter no novo governo “papel semelhante ao ocupado pela conservadora Heritage Foundation no governo Ronald Reagan” (leia a íntegra AQUI).

Certamente a informação faz sentido, até porque a primeira escolha de Barack Obama foi John D. Podesta, presidente e executivo-chefe do CAP (além de ex-chefe de gabinete do presidente Clinton  na Casa Branca e professor da escola de Direito da Universidade de Georgetown) para chefiar a equipe de transição. Mas é um exagero chamar o CAP de esquerdista (a própria escolha do nome “Centro” pode ser deliberada, para explicitar a posição centrista).

E dificilmente ele terá o papel relevante da Heritage Foundation. Há diferença razoável entre o pequeno CAP e aquela fundação que atuou com tanta desenvoltura no governo Reagan, mesmo dividindo o espaço com o AEI (American Enterprise Institute), também ativa e de direita. Fora do palco central nos oito anos de Clinton (quando davam assistência à maioria republicana do Congresso), as duas – abrigando vários dos neocons – ainda retornaram, com mais força, nos dois mandatos de George W. Bush (2001-2009).

Depois da guinada à direita

Parece natural o CAP – e seu parceiro CAP Action Fund, também presidido por Podesta – dividir o espaço com outras organizações igualmente inclinadas para o centro, como a Brookings Institution, antiga, tradicional e bem maior (é onde ainda serve o ex-embaixador Lincoln Gordon). Esquerdista seria o também atuante – e bem menos dotado de recursos – Institute for Policy Studies (IPS), muito ativo na Washington do presidente Jimmy Carter.

O que aconteceu entre a fase final dos protestos contra a guerra do Vietnã (dias agitados, que incluiram a cobertura de Watergate) e o início promissor do governo Carter foi uma espécie de reorganização da direita, que passou a cooptar quadros nas Universidades para combater a fantasiosa “ameaça vermelha”. Daí a proliferação em todo o país dos think tanks conservadores, hoje amplamente predominantes.stone-header1

Foram devastadores os efeitos disso no jornalismo e na área acadêmica. Ainda no início do governo Reagan, ouvi uma queixa amarga do jornalista I. F. Stone (visto ao lado, no traço de David Levine), o lendário criador do I. F. Stone’s Weekly. Ele contou como a direita tinha passado a recrutar – ou melhor, “comprar” – os mais promissores estudantes universitários com propostas irrecusáveis (saiba mais sobre Stone AQUI no magnífico web site criado para contar sua história e expor sua obra).

Apenas “idéias progressistas”

Além disso, institutos como o IPS – onde estava Orlando Letelier, ao ser morto em atentado terrorista no coração de Washington, em 1976 – tornaram-se alvos de campanhas difamatórias desencadeadas por organizações de extrema direita como a Accuracy in Midia (AIM) e sua parceira da área acadêmica, Accuracy in Academia (AIA), dedicadas então a ressuscitar, no estilo macarthista, a “ameaça comunista”.

Naquele clima institutos como o IPS – atacado até em anúncios de página inteira dos jornais pela direita enfurecida – tornaram-se “controvertidos” e perderam parte de suas fontes de financiamento. Atualmente esses grupos têm dificuldade para sobreviver, sempre caçados por impérios de mídia como os de Rupert Murdoch (Fox e outros veículos) e do reverendo Moon (Washington Times e outros).

Os mais novos – como o CAP, criado em 2003 – preferem ficar no centro e evitam ir para a esquerda, com medo do rótulo. No máximo, definem-se como “progressistas”. O presidente Podesta, extremamente leal a Clinton, até nos piores momentos, fica longe da definição ideológica. O lema no alto da página do CAP na Internet é “idéias progressistas para uma América forte, justa e livre”. Também em destaque na página da Internet estão as quatro prioridades progressistas:

  • Restauração da liderança global dos EUA;
  • Aproveitando a oportunidade, chegar à auto-suficiência energética;
  • Distribuição equitativa dos frutos do crescimento econômico progressivo;
  • Criação do sistema universal de assistência à saúde, para todos os americanos.
Moderados até certo pontoblueprint_feature1

Entre os especialistas do Center for American Progress estão alguns expoentes do liberalismo político americano. Morton Halperin, um deles, serviu a três governos (Johnson, Nixon e Clinton), inclusive no Pentágono e no Conselho de Segurança Nacional, onde foi grampeado pelo chefe, Henry Kissinger, depois condenado na Justiça a indenizá-lo pelo crime – com  um pagamento simbólico estipulado pelo próprio Halperin: US$ 5.

Mark Green (mais sobre ele AQUI), outra personalidade do CAP, foi protegido de Ralph Nader no início da carreira. Elegeu-se mais tarde Advogado Público de Nova York e acabou derrotado ao se candidatar a prefeito em 2001. Recentemente Green assumiu a direção da Air America, rede liberal radiofônica de talk shows. Autor de mais de 20 livros, lançou agora Change for America (veja a capa acima), manual progressista para ajudar as mudanças pretendidas por Obama.

Ruy Teixeira (mais sobre ele AQUI), cientista político de ascendência portuguesa, teve o mérito há seis anos de lançar (com John Judis) o ensaio The Emerging Democratic Majority, prevendo que os democratas estavam destinados, demograficamente, a se tornar o partido majoritário dos EUA (exatamente como a previsão correta de Kevin Phillips em favor dos republicanos em 1967). Respeitado por liberais e conservadores como especialista em opinião pública, Teixeira mostra-se centrista.

Não é esse o caso de Eric Alterman (mais sobre ele AQUI), professor de jornalismo, colunista da revista The Nation e autor de vários livros. Sem medo de ser rotulado de esquerdista, ele é duro nas críticas aos impérios de mídia (o de Murdoch em especial) e também colabora ativamente com o web site Media Matters for America, que expôs dia a dia as excessos da cobertura maliciosa contra Obama durante a última campanha presidencial.

Published in: on novembro 24, 2008 at 7:47 pm  Deixe um comentário  

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