Da “década da ganância” à “ganância infecciosa”

boesky_ivan

Talvez seja esta capa da revista Time, em dezembro de 1986, o melhor retrato da década da ganância – a dos oito anos de Ronald Reagan na Casa Branca (1981-89). O alegre personagem que a enfeita é Ivan (“O Terrível”) Boesky, tido como gênio das fusões e aquisições mas, na verdade, manipulador criminoso de insider information (informações privilegiadas), junto com o parceiro também infame Michael Milken, o rei das junk bonds. A frase Greed Is Good (Ganância é bom), de Boesky, foi perpetuada depois, pelo cineasta Oliver Stone, no filme Wall Street.

jackA dupla Boesky-Milken cumpriu pena de prisão – menos de dois anos cada um. Boesky pagou US$100 milhões de multas, Milken US$200 milhões. Os dois continuam ricos (Milken até criou uma fundação para fins filantrópicos) e são provas de que em Wall Street o crime, além de compensar, faz heróis. Eles se tornaram ídolos de executivos-chefes (CEOs) da geração seguinte – a da “ganância infecciosa”, como a definiu Alan Greenspan. Só que, depois da Enron, da bolha da Internet, da crise subprime e da desintegração financeira, CEO perdeu na mídia o antigo encanto. Em 2002 Jack Welch, da GE, tinha recebido mais do que o papa João Paulo II como adiantamento para um livro (veja a capa ao lado, à esquerda). E o título Jesus, CEO – Using Ancient Wisdom for Visionary Leadership, dado a um livro anterior (veja a capa abaixo, à direita) buscara aproximar os executivos-chefes de corporações da imagem do próprio Jesus Cristo. 

Deixou finalmente de ser assim. Nas reuniões de acionistas a reverência do passado cedeu lugar até a questionamentos. Às vezes são até ridicularizados. De Steve Case, glorificado nas primeiras páginas à época da fusão da AOL com a Time Warner, que se revelaria desastrosa, exigiram-se explicações para as perdas bilionárias. Na GE, Jeffrey Immelt foi encurralado como nunca se fizera antes com Welch, cujo passado passou também a ser revisto com olhos críticos, de forma implacável.jesus_ceo

O que aconteceu nos EUA para mudar tão radicalmente a cabeça do acionista, do contribuinte, do consumidor, do americano comum – e até da mídia leviana? Por que os CEOs, finalmente, são apenas vilões abjetos, criminosos de colarinho branco, ladrões de casaca? A reavaliação, aliás, alcançou até o presidente George W. Bush, que no início do mandato gabava-se de ser “um CEO na Casa Branca”.

A vigarice não é só da Enron 

Os novos vigaristas são herdeiros diretos dos escândalos da década de 1980, o primeiro período de ouro da ganância desenfreada. Mas o processo de desmitificação só começou com a Enron, a corporação da área de energia que antes era apontada como exemplo de “modernidade capitalista” – no governo, no mundo dos negócios e na mídia. A suposta modernidade dela resultava, claro, de receitas fradulentas produzidas pela desregulamentação e pela privatização, para as quais se buscara o apoio dos políticos em troca da generosidade duvidosa das contribuições de campanha.

Resultante de uma fusão em 1985 (ah, aquela década!), a Enron foi declarada pela revista Fortune em abril de 2001 como a   entre as 500 maiores corporações do mundo, com receita anual de US$100,8 bilhões. Era ainda a maior patrocinadora da carreira política de George W. Bush. Ganhou, por isso, papel privilegiado na formulação do programa de energia do governo. De repente o país descobriu, perplexo, a realidade sobre as práticas contábeis dela, as parcerias fraudulentas e a lambança generalizada. De nada mais adiantou a Enron ter investido nos políticos (e não só republicanos). Ficou impossível salvá-la.

letter_to_bush_3501Empregados e, em especial, acionistas que nada sabiam sobre a contabilidade “criativa” dos executivos, foram as vítimas maiores da Enron. Muitos ficaram sem emprego, sem as economias da vida inteira e até sem as pensões. Já executivos como o próprio Ken Lay (pessoalmente ligado à família Bush, como mostra a intimidade do bilhete acima, do então governador do Texas), Jeffrey Skilling, Andrew Fastow e mesmo Clifford Baxter, que se matou em meio ao escândalo, faturaram milhões de dólares vendendo ações ilegalmente, às escondidas.

No início de dezembro de 2001 já não era mais possível esconder a extensão dos estragos da Enron. Mas a cobertura da mídia – talvez para não ferir o ex-executivo Bush e seu papel na guerra imaginária, sem prazo e sem fronteiras, contra o terrorismo – ainda foi extremamente discreta, até meados de janeiro de 2002. Só então o país começou a tomar consciência de que aquelas práticas fraudulentas não estavam limitadas à Enron. Eram a norma de muitos executivos nas corporações.

Rota da ganância desenfreada

A generalizada suspeita sobre as corporações e os executivos passou a derrubar as ações em Wall Street. Os novos escândalos, escancarados, contribuiram para ampliar a crise de confiança. Vieram, um atrás do outro, os casos Global Crossing, Adelphia, Tyco International, ImClone, Dynergy, WorldCom, Qwest, Sunbeam, Xerox, etc, junto com mais suspeitas, que não poupavam nem algumas das mais conhecidas – e, antes, respeitadas – corporações do país.

A cada novo escândalo o público ficava sabendo de mais e mais abusos, excessos e fraudes de altos executivos – CEOs acostumados a jatos privados, helicópteros, iates e um inacreditável padrão de gastos, vivendo cercados de acólitos submissos. Como Gary Winnick, da Global Crossing, que tivera infância humilde mas passara a viver em Bel Air, na residência unifamiliar mais cara (US$60 milhões) já adquirida por qualquer pessoa no país.kozlowski

Dennis Kozlowski (foto ao lado), CEO da Tyco, filho de modesto detetive de Nova Jérsey, descobriu a maneira de sonegar impostos comprando milhões de dólares em quadros de artistas célebres, em especial impressionistas. Ele dizia aos jornalistas que pretendia ser o novo Jack Welch – e a Tyco, uma nova GE (leia AQUI a entrevista dele, já cumprindo pena de 25 anos de prisão, ao programa 60 Minutes da CBS). Bernie Ebbers, da WorldCom, prometia derrubar a AT&T e se tornar a maior operadora de telefonia interurbana no país. Os dois se arrebentaram.

A falácia das fusões e aquisições

Em vez de estranhar ou questionar a ganância de cada um e a audácia das fusões e aquisições, a mídia vinha dando a eles amplo espaço, saudando-os como gênios do capitalismo, ao invés de merosescroques determinados a roubar das empresas e dos acionistas. A revista Forbes, por exemplo, tinha enfeitado sua capa com Winnick (a 24 de dezembro de 2001), Kozlowski (16 de outubro de 2000) e Chuck Watson, da Dynergy (19 de abril de 1999). Três vigaristas.

Ao surgirem as primeiras dificuldades, decorrentes das fraudes contábeis e abusos internos, os executivos anunciavam medidas mirabolantes.ebbers_bernard1 Foi o caso de Ebbers (visto na foto, à esquerda, ao sair com a esposa do tribunal, depois da condenação a 25 anos de prisão – saiba mais clicando AQUI). A pretexto de reduzir gastos e salvar a WorldCom, ele imaginou um “plano de sete pontos” pelo qual subordinados de sua total confiança ficariam encarregados de cortar gastos – não os dele, mas o consumo pelos empregados de chá, café e outras migalhas – ou seja, tornando pessoas humildes suspeitas da ladroagem dos chefões.

Os escândalos de Wall Street escancaram, mesmo assim, que os ladrões eram os próprios executivos do escalão mais alto, beneficiários de esquemas que se generalizaram. Como determinados resultados lhes dariam ganhos na forma de bônus e opções de ações, eles os falsificavam. Na ânsia de embolsarem os ganhos, recorriam à “criatividade” contábil (fraudes para fabricar resultados fictícios). E depois, ante a iminência do escândalo, ainda vendiam suas ações às pressas, violando a lei.

Published in: on novembro 22, 2008 at 5:00 pm  Deixe um comentário  

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