O Natal dos executivos ladrões, há dois anos

ken_layEste anúncio ao lado é uma paródia. Mas Ken Lay e sua Enron são imagens emblemáticas dos escândalos de Wall Street. A desproporção entre o que faturam executivos corporativos, em especial de corretoras e bancos de investimento de Wall Street, e o que ganham os empregados nunca fora tão grande como naquele Natal de 2006, quando ele ainda estava vivo.

O detalhe escabroso era que de repente os executivos passaram a roubar mais. Precisamente por causa das manchetes de 2001-2002, sobre os escândalos deles, tomaram consciência de que podiam ser apanhados e pegar cadeia. Registrei o fato dia 28 de dezembro, há dois anos, em minha coluna da Tribuna da Imprensa devido a uma reportagem de três dias antes no New York Times (leia o original na íntegra AQUI).

Alguns notórios executivos-ladrões estavam cumprindo pena, como Ken Lay e Jeffrey Skilling, ex-presidentes da Enron (um morreu antes, no início da pena, o outro ainda está preso), Bernie Ebbers da WorldCom, Dennis Kozlowski da Tyco e alguns outros. Fraudes em corporações gigantes como Arthur Andersen, Tyco, Global Crossing, Adelphia, Halliburton, Qwest, Xerox e outras também tiveram conseqüências.

harvey_pitt1Mas era sabido que muitos se safaram, impunes. Entre as corretoras e bancos de investimento de Wall Street, um punhado enfrentou investigações, mas não dos organismos federais que deviam fazê-lo. Isso porque o governo Bush escolhera “raposas para cuidar do galinheiro”, como Harvey Pittt (foto à esquerda), advogado de defesa de alguns dos acusados dos escândalos da década de 1980, quando Ivan Boesky, mago das fusões e informação privilegiada (inside information), obteve redução da pena entregando outros, entre eles, Michael Milken, o rei das junk bonds.

Quem acabou fazendo o trabalho foi o então Procurador Geraleliot_spitzer de Nova York, Eliot Spitzer. Ele reuniu provas contundentes e obrigou grandes bancos e suas corretoras a pagar cerca de US$1,5 bilhão em multas e compensações pela ladroagem. Os executivos pilhados eram um quem-é-quem de Wall Street, à frente de bancos notórios: Bear Stearns, Credit Suisse First Boston, Deutsche Bank, Goldman Sachs, J. P. Morgan Chase, Lehman Brothers, Merrill Lynch, Morgan Stanley, Salomon Smith Barney (Citigroup), UBS Warburg. (Clique AQUI para ver ainda relação sintética dos escândalos corporativos, publicada pela edição online da revista Forbes, cobrindo o período entre o colapso da Enron em 2001 e setembro de 2002). 

Um ano de trabalho, US$ 54 milhões

Spitzer elegeu-se governador de Nova York em 2006 graças em parte à ação vigorosa contra os “colarinho-branco” da elite financeira – e acabaria por renunciar, devido a escândalo com prostitutas de luxo. Não por acaso, eram as mesmas corporações que escandalizaram o país (e o mundo) às vésperas daquele Natal de 2006 com as informações sobre bônus de fim de ano de executivos – entre eles, à frente do pelotão, o presidente e CEO da Goldman Sachs, Lloyd C. Blankfein, que se dera de presente nada menos de US$ 53,4 milhões, perfazendo (com o salário anual de US$ 600 mil) nada menos de US$ 54 milhões por um ano de trabalho.

No final do ano anterior Blankfein já se dera US$ 38 milhões. Claro que se pretende ter sido decisão “soberana” do “Comitê de Compensação”, mas a gente envolvida em tais tramóias sabe bem o que significa. O CEO manobra e, com o poder que tem, arranca o que quer e como quer, até porque outros tantos milhões de dólares são distribuídos a mais alguns cúmplices.

Vi na época uma explicação no programa de economia de Neil Cavuto, que se orgulha, na notória rede Fox News, de ser tendencioso – como o falecido Henry Luce, criador da revista Time – a favor de Deus, do capitalismo e do Partido Republicano (não necessariamente nessa ordem). Daquela vez Cavuto nem parecia muito faccioso a favor dos negócios. Botou a boca no trombone: disse que ao embolsar a grana aqueles executivos impediam que ela chegasse a acionistas e investidores, aos quais pertencia.

grasso_dickSpitzer conseguiu atropelar também um personagem emblemático – o próprio presidente da Bolsa de Nova York (NYSE – New York Stock Exchange), Dick Grasso, cujo contrato era um escândalo. Adotando a mesma linha dos altos executivos, ele tentava receber mais US$48 milhões, além dos US$140 millhões que já tinha abiscoitado. O caso na Justiça começou em 2004 e só terminou em 2008, pois Grasso respondeu com outro processo. Como manipulava o Conselho de Administração, cujos membros escolhera, saiu-se bem no final, mas também acabou exposto publicamente, inclusive num livro, King of the Club – Dick Grasso and the Survival of the New York Stock Exchange, de Charles Gasparino (veja a capa acima). 

Ferrari de US$ 250 mil: em falta

Os executivos deviam servir aos clientes, mas fazem o contrário – tiram dos que confiaram neles e botam no próprio bolso. Spitzer descobriu memorandos internos mostrando o desprezo daqueles ladrões de colarinho branco pelas pessoas que cometeram a temeridade de confiar neles. Os clientes são ridicularizados. E o combustível em Wall Street, como todo mundo sabe, é a cocaína. No fundo diferem pouco dos assaltantes de banco.

Assim, quando é maior o lucro de bancos e corretoras os executivos se apressam a botar a mão da mufunfa. Em 2006 o ranking foi assim: 1. Goldman Sachs; 2. Morgan Stanley; 3. Blackstone Group; 4. Lehman Brothers; 5. JP Morgan; 6. Citigroup Investment; 7. Merrill Lynch; 8. Lazard; 9. Credit Suisse; 10. JP Morgan Chase; 11. UBS; 12. Citigroup; 13. Deutsche Bank; 14. Bear Stearns. Já se sabia do subprime, o país estava preocupado, mas eles não hesitaram em enfiar a mão assim mesmo.

Basta ler as listas para notar a presença de alguns dos bancos que ruiram em 2008. Atendo-se apenas aos fatos, sem emitir opinião ou fazer crítica, o New York Times publicou em 2006 – apropriadamente, no dia de Natal – a sugestiva reportagem sobre o caso dos bônus dos executivos. O título foi: “Tanto dinheiro e tão poucas Ferraris”. Explicava que não houve Ferrari 599 GTB Fiorano (US$ 250 mil cada) em número suficiente na revendedora de Greenwich (Connecticut) para atender às encomendas dos executivos de Wall Street.

Apartamentos de US$ 20 milhões

O jornal contou ainda que uma aeromoça vendia, em frente à sede da Goldman Sachs, vôo fretado (a US$ 30 mil). “É como se fosse seu jato particular”, explicou a um executivo que se mostrava interessado. Ao mesmo tempo, um corretor de imóveis, de olho na gorda comissão, lamentava não ter conseguido encontrar em Manhattan duas propriedades de US$ 20 milhões encomendadas por altos executivos.

Explicação do jornal: financistas já instalados em multimilionários apartamentos e town houses, estão agora comprando apartamentos de US$ 5 milhões para os filhos. E mais: casas de férias, em geral compradas e vendidas na primavera, são muito procuradas em pleno inverno, inclusive em resorts privados (como o Yellowstone Club, perto do Parque Nacional de Yellowstone em Montana).

Nas três semanas anteriores àquele Natal, segundo o Times, uma imobiliária vendera seus quatro últimos apartamentos em Greenwich Village. A venda final fora um de dois quartos e dois banheiros, com uns 200 metros quadrados. Preço: US$ 7 milhões. Uma agente imobiliária contou: os executivos queriam consumar a compra imediatamente, com medo de aparecer outro executivo dando mais dinheiro.

Qualquer um que leia hoje o texto do Times de dois anos atrás entende tudo: os ladrões de Wall Street se apropriavam do que fosse possível. Sabiam que a lambança deles ia estourar a qualquer momento – como de fato aconteceu neste ano de 2008.

(Veja abaixo o gráfico publicado pelo Times ilustrando a reportagem do Natal de 2006. É verdade que uns poucos executivos, como Lay, acabaram na prisão. Mas os outros, que criaram a lambança para o mundo inteiro, depois ainda se deram ao luxo de curtir suas Ferraris, vôos fretados, propriedades de luxo, apartamentos US$7 milhões, etc.)

nyt_itens1 

Published in: on novembro 18, 2008 at 4:41 pm  Deixe um comentário  

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