Inspirado em FDR, para corrigir o New Deal

obama_fdr2Esta caricatura de Barack Obama – piteira, óculos e sorriso de Roosevelt – pode ter inspirado a pergunta “Franklin Delano Obama?”, título de uma coluna de Paul Krugman sobre um novo New Deal. Desenhada por Richard Thompson, era uma das “visões de Obama” depois da vitória, apresentadas pela revista The New Yorker, que no calor da campanha o tinha retratado na capa como muçulmano ao lado da “guerrilheira” Michelle (confira abaixo, à direita).

Quanto a Krugman, Nobel de economia além de colunista do New York Times, tinha mais uma pergunta: “Até que ponto a era FDR, de Roosevelt, é mesmo capaz de servir de orientação no mundo atual?” Ele acha isso possível, desde que Obama aprenda tanto pelos fracassos como pelos sucessos. Pois o New Deal, diz, não foi tão bem sucedido a curto prazo como o foi a longo prazo.

“A razão para os êxitos limitados a curto prazo, que quase anularam o programa como um todo, foi o fato de terem sido suas políticas econômicas excessivamente cautelosas”, escreveu o colunista. E sobre as conquistas a longo prazo? “As instituições que FDR criou mostraram-se tanto duráveis como essenciais. E elas permaneceram como alicerce de nossa estabilidade econômica”. (Para ler a coluna na íntegra clique AQUI).

Deturpação deliberada à direitaOBAMA NEW YORKER

Krugman pediu ao leitor para imaginar como seria pior a crise financeira se o New Deal não tivesse garantido a maioria dos depósitos bancários. E ainda para imaginar como os americanos mais idosos se sentiriam agora se os republicanos tivessem conseguido, quando tentaram, desmantelar o Social Security (seguridade social)”, uma herança de FDR.

Os progressistas esperam hoje, assinalou, que o governo Obama, como o New Deal, responda à atual crise econômica e financeira criando instituições, em especial um sistema universal de assistência à saúde que altere o contorno da sociedade americana para as futuras gerações. Mas o governo não deve copiar um aspecto menos exitoso do New Deal: sua resposta inadequada à própria Grande Depressão.

Existe hoje, para Krugman, toda uma indústria intelectual, operando em especial a partir de think tanks (institutos de reflexão política) de extrema direita dedicados a propagar a idéia de que FDR na verdade tornou a Depressão pior. É importante, acha ele, saber que a maioria do que se ouve nessa linha baseia-se em deturpação deliberada dos fatos: o New Deal socorreu, sim, a maioria dos americanos.

O erro maior que tem de ser evitado

Nos dois mandatos iniciais, diz Krugman, FDR não buscou construir a plena recuperação econômica – falha frequentemente citada como prova contra a economia keynesiana, para a qual mais gastos públicos empurram uma economia estagnada. Mas o estudo definitivo da política fiscal do período, do economista (M.I.T) E. Cary Brown, concluiu outra coisa: o estímulo fiscal deixou de ser bem sucedido não por não ter funcionado, mas por não ter sido tentado.

E os milhões de americanos que trabalharam graças ao WPA, CCC e outras siglas do New Deal? Construção de estradas, escolas e outras obras públicas não equivalem a grande estímulo fiscal? Não tão grande como possa parecer, responde Krugman. O efeito dos gastos foram neutralizados por outros fatores, como o efeito do aumento de impostos herdado do governo Herbert Hoover.

Além de relutante em ampliar a expansão fiscal, FDR estava ansioso para voltar aos princípios orçamentários conservadores – o que quase desfez seu legado. Após a vitória esmagadora de 1936, o governo cortou gastos e aumentou impostos, precipitando uma recaída econômica que levou a taxa de desemprego de volta aos dois dígitos, causando sua grande derrota na eleição parlamentar de 1938.

O que salvou a economia e o New Deal, para Krugman, foi o enorme projeto de obras públicas  conhecido como II Guerra Mundial, que finalmente forneceu um estímulo fiscal adequado às necessidades econômicas. Essa história, assim, traz lições importantes para o governo Obama, a ser iniciado a 20 de janeiro.

Esperança sim. E audácia também

obama_tombachtellA primeira lição é de que passos errados na economia podem subverter rapidamente um mandato eleitoral. Os democratas acabam de ter uma grande vitória, mas em 1936 ela tinha sido ainda maior – e seus ganhos evaporaram depois da recessão de 1937-38. Os americanos não esperam resultados econômicos instantâneos do próximo governo, mas esperam resultados. A euforia dos democratas terá vida curta se eles não produzirem uma recuperação econômica.

A lição econômica é a importância de fazer o suficiente. FDR acreditou estar sendo prudente ao controlar seus planos de gastos; na verdade, estava pondo em risco a economia e seu próprio legado. “Eis o meu conselho à gente de Obama” – escreveu Krugman. “Calculem bem a ajuda que acham necessária à economia. E depois, acrescentem 50%.”

O colunista e economista prêmio Nobel está convencido de que é muito melhor, numa economia deprimida, errar para mais estímulos do que para menos. E a chance de Obama (à esquerda, desenho de Tom Bachtell) liderar um novo New Deal, segundo Krugman, dependerá em grande parte de serem suficientemente vigorosos os planos econômicos a curto prazo. “Os progressistas esperam apenas que ele tenha a audácia necessária”, concluiu.

Resta, enfim, registrar abaixo a esperança com mais “visões de Obama” – do projeto pos-eleitoral de The New Yorker. Começando pela ilustração de John Ritter, sobre trabalhos de James Rosenquist, Steve Schapiro (AP), Bruce Davidson (Magnum), Eve Arnold (Magnum) e Platon.

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Prevalecendo sobre os adversários Hillary Clinton, George W. Bush e John McCain – ilustração de John Cuneo

 

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Na Capela Sixtina, aprés Michelangelo, com o gesto que na campanha foi chamado de terrorista.

 

 

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Revivendo o gótico de Grant Wood, à esquerda, o oeste americano na década da depressão – ilustração de Barry Blit 

 

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Também na visão de Barry Blitt, abaixo, à direita, a jogada política digna do baseball de Jackie Robinson, primeiro negro a penetrar num espaço então exclusivo dos brancos 


Published in: on novembro 15, 2008 at 2:56 pm  Comments (1)  

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  1. Argemiro Ferreira
    Aprecio seus artigos inteligentes, mais do que oportunos. A história americana tem um viés próprio, inteligente, que pode ser utilizado por nós brasileiros, pelos nossos homens públicos, de sorte a podermos avançar no contexto da crise em que o mundo está debruçado, no nomento.
    A história política americana é muito rica em acontecimentos, dela precisamos saber tirar proveito.
    Sua atuação jornalística merece os melhores elogios.


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