Geórgia, outra mentira da dupla Bush-Cheney

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Num post de agosto reproduzi neste blog a advertência indignada do ex-presidente Mikhail Gorbachev contra a versão fantasiosa dos patos mancos George W. Bush e Dick Cheney, em apoio ao títere deles, Mikhail Saakashvili (confira AQUI). Segundo a declaração de Gorbachev à rede CNN, não houve a apregoada invasão russa da Geórgia e sim “um assalto bárbaro perpetrado pela Geórgia na Ossétia do Sul”. “Quem começou isso foi a Geórgia”, enfatizou ele.

Logo no início de setembro, no entanto, Cheney viajou a Tbilisi para abençoar Saakashvili (veja os dois na foto acima e leia AQUI o que o vice americano falou). E nos EUA nem os críticos do governo pato-manco e nem mesmo o então candidato presidencial democrata Barack Obama deram maior atenção a Gorbachev – aquele que, no passado recente, encantara Ronald Reagan e tornara-se herói americano por desmantelar o império soviético. Agora, dois correspondentes do New York Times reconheceram: era verdade. Ou seja, a dupla Bush-Cheney tinha mentido de novo.

A reportagem saiu quinta-feira da semana passada, dois dias depois da eleição vencida por Obama. No Times, os correspondentes C. J. Chivers e Ellen Barry escreveram que novos relatos de observadores militares independentes sobre o início da guerra entre a Georgia e a Rússia questionavam a alegação de Saakashvili, protegido dos EUA, segundo a qual “agira para se defender de agressão russa separatista”.

A versão que Bush abraçou

Ao contrário disso, afirmou o jornal, os relatos sugerem que os militares da Georgia “atacaram a isolada capital separatista de Tskhinvali no dia 7 de agosto com fogo indiscriminado de artilharia e foguetes, ameaçando as vidas de civis,  soldados da tropa russa de manutenção da paz e monitores desarmados”. Ficou clara a mentira de que a Georgia tinha atuado militarmente contra uma invasão e para restabelecer a ordem (leia a reportagem na íntegra AQUI).

putin_bushOs novos relatos independentes, assim, confirmaram o que fora afirmado também pelo primeiro-ministro russo Vladimir Putin (na foto ao lado ele ainda estava de namoro com Bush). Ainda que não haja razões especiais para se morrer de amores por tal personagem, a verdade é que nesse episódio ele foi demonizado injustamente pelos EUA – e o conjunto da mídia dos EUA – a partir das palavras enganosas do dirigente georgiano. O ex-secretário assistente do Tesouro (no governo Reagan) Paul Craig Roberts, por exemplo, não se conteve. Horrorizou-se com a “dupla de bobalhões” (expressão dele) e escreveu: “Presidente Bush, por favor, cale a boca” (leia AQUI).

Em relação à dupla Bush-Cheney, tal leviandade na política externa não chega a ser novidade. Mas vale a pena lembrar ainda, como fez no website Truthdig.com o veterano jornalista Robert Scheer, ex-colunista do Los Angeles Times, que na época também o candidato republicano John McCain, que tinha como conselheiros lobistas altamente remunerados pelo governo da Geórgia, estava especialmente ansioso para botar lenha na fogueira contra os russos (leia a íntegra do artigo AQUI).

Nostálgicos da guerra fria ameaçam

Segundo Scheer (foto),scheer2 a Casa Branca já sabia então – e escondeu deliberadamente do público – certos fatos sobre a provocação feita pelas forças da Geórgia, treinadas pelos EUA. Elas mataram civis na capital da Ossétia do Sul a pretexto de que estava havendo uma “invasão russa”. Só que o tal ataque ocorrera muito antes de terem as tropas russas atravessado a fronteira, conforme advertira Gorbachev na CNN.

A provocação da Geórgia foi documentada ainda pela BBC, a rede britânica de televisão, através de uma reportagem de investigação, e ainda por um consenso crescente de fontes consideradas confiáveis. O pior, claro, é toda aquela mentirada ter sido bancada cinicamente pela dupla Bush-Cheney – patos mancos que continuam no poder e antes de 20 de janeiro ainda poderão encenar mais espetáculos irresponsáveis.

Como qualquer pessoa minimamente sensata, Robert Scheer manifestou ao mesmo tempo sua preocupação com a facção nos EUA de nostálgicos da guerra fria – já que são muitos os que sonham com uma volta breve àquele tempo do confronto com os russos. O senador Obama certamente podia ter sido mais cauteloso antes de alinhar sua posição, quase automaticamente, à do governo Bush, mas agora será saúdavel uma reavaliação, se não antes, pelo menos depois da posse.

E o que fazer com a Colômbia?

Está bem claro que a tal agressão russa foi mera fantasia bushista – a Rússia não atacou sem ter havido provocação antes, ao contrário do que se dissera. A equipe do presidente eleito dos EUA tem plena consciência hoje, também, de que a postura belicista unilateral do governo Bush-Cheney não é menos ofensiva do que se pensava – pode ser até pior. E o mundo inteiro, que contava com a mudança em Washington, vai preferir que escorregões assim não prevaleçam na nova política externa.

uribe_riceNesse quadro de final de governo, há mais riscos. A mídia sugeriu, esta semana, que na visita a Bush, o presidente eleito Obama defendeu nova ajuda à indústria automobilística (GM, Ford), que já obteve algumas dezenas de bilhões. E que Bush teria condicionado tal iniciativa, antes da posse, ao apoio dos democratas, majoritários no Congresso, ao acordo de livre comércio com a Colômbia. Desmentiu-se apenas o quid-pro-quo, não que se tenha falado das duas questões.

A América Latina está ansiosa para saber mais sobre a chance de ser votado o acordo comercial, parte do sonho uribista de virar Israel no continente. Os EUA continuarão a patrocinar o colombiano Alvaro Uribe (na foto acima, com Condoleezza Rice), a um custo superior a US$1 bilhão por ano, de olho no petróleo da Venezuela e em provocações à Bolívia, Equador e outros vizinhos? Interessa em especial ao Brasil saber mais, já que Uribe conta com essa nova bênção de Bush para a aposta num terceiro mandato.

Published in: on novembro 12, 2008 at 7:05 pm  Comments (1)