Mercadores da morte na família Bush

bushes_iraq1O cartum do Political Humor (ao lado) lembra como tudo começou: “Saddam tentou matar o papai de W. Agora o SEU papai vai matar aqueles jóqueis de camelo”. Mas em 2008 W sai de cena aos poucos, enquanto outros fazem a conta da guerra dele, de US$3 trilhões, no Iraque. Nos dados oficiais, 4.193 militares americanos mortos, 30.774 feridos (na estimativa extraoficial, mais de 100 mil), sem falar nos civis iraqueanos mortos (mais de 1 milhão). Mas a família Bush se deu bem. Até o tio Bucky (William H.T. Bush) já tinha lucrado US$450 mil em fevereiro de 2005.

Segundo texto enviado então, de Washington para o Los Angeles Times, pelo correspondente Walter F. Roche Jr. (leia AQUI), a guerra tinha ajudado a Engineered Support Systems Inc (ESSI), fornecedora do Pentágono sediado em St. Louis, a ter lucros recordes, que foram em parte para o bolso de Bucky, irmão mais novo do ex-presidente George H.W. Bush – este, por sua vez, estava na cúpula do grupo Carlyle, controlador de grandes corporações que faturavam na guerra.

Para o presidente, o tio Bucky deve ser um patriota: sua ESSI contribuia para “disseminar a democracia pelo mundo” – último dos pretextos do governo para justificar a invasão do Iraque, que ao ser desencadeada ainda invocava como razão a defesa do povo americano contra inexistentes armas de destruição em massa e fantasiosas ligações do Iraque com a al-Qaeda.

Uma velha tradição na dinastia

Na Casa Branca, naturalmente, Bush acha natural o tio fazer dinheiro com guerras. É tradição na família. Mesmo antes de se saber do meio milhão que tio Bucky lucrou, eu tinha feito referência num artigo a reportagem do jornal britânico The Guardian sobre o avô de Bush, Prescott Sheldon Bush (1895-1972). O título do jornal: “How Bush’s grandfather helped Hitler’s rise to power”: Como o avô de Bush ajudou a ascensão de Hitler ao poder (leia AQUI).

Leitores do meu livro O Império Contra-Ataca – As guerras de George W. Bush antes e depois do 11 de Setembro já tinham encontrado ali informações sobre o caso, que a grande mídia americana sempre preferiu omitir ou subestimar. Os Bush estão envolvidos há várias décadas em negócios e relações promíscuas com o poder. E faturam com guerras desde pelo menos a I Guerra Mundial.

Personagem notório nesse capítulo da construção da fortuna da família foi o bisavô do atual presidente, Samuel Prescott Bush (1863-1948). Ainda no governo de Woodrow Wilson, Samuel era dono da Buckeye Steel Castings Co., fabricante de peças para ferrovias do magnata E. H. Harriman (pai dos irmãos Averell e Roland Harriman). Como tal tornou-se diretor de armamentos menores e munições no Escritório das Indústrias de Guerra.

Mais tarde seria ainda conselheiro do presidente Herbert Hoover. A Buckeye não pertencia só a ele. Também era, em parte, de Frank Rockefeller, irmão mais jovem do então odiado John D. Rockefeller (o barão-ladrão da Standard Oil, mais tarde Esso, hoje Exxon/Mobil). Samuel Bush dobrou a fortuna na I Guerra Mundial. Seus produtos incluíam munição, canos de canhões e outras armas.

Sem espaço para a verdade

Samuel foi um dos “mercadores da morte” (banqueiros e industriais que ganhavam dinheiro com guerras) que se tornaram alvos da célebre investigação parlamentar presidida pelo senador Gerald Nye em 1933-36 (a comissão Nye), cobrindo o período a partir da I Guerra Mundial. Estranho, mas nem tanto, é terem sido destruídos (a pretexto de “economia de espaço”) os registros e a correspondência de S.P. Bush no Arquivo Nacional sobre armas e transações.

O assunto é examinado, como explico em O Império Contra-Ataca,merchants_of_death num livro publicado em 1997 por Matthew Ware Coulter, The Senate Munitions Inquiry of the 1930s: Beyond the Merchants of Death (veja a capa à direita e saiba mais AQUI). Os interessados podem analisar ainda as conexões do banqueiro de investimentos George Herbert Walker, outro bisavô do presidente. Seu envolvimento com finanças e contratos de guerra são notórios. E na década de 1920 ele se tornou protegido e sócio de Averell Harriman numa nova firma de Wall Street.

americandinasty

Depois da guerra, Harriman e Walker entregaram-se a grandes investimentos e projetos na Rússia (produção de manganês e renovação dos campos petrolíferos de Baku, a uns 800 quilômetros do Iraque) e na Alemanha (em conexão com a Linha Hamburgo-América e os interesses metalúrgicos do grupo Thyssen), despertando as suspeitas do governo dos EUA.

Os negócios melhoraram mais com a união dos Bush com os Walker, pelo casamento da filha de George Walker, Dottie (Dorothy), com o filho de Samuel Bush, Prescott. Kevin Phillips, autor em 2004 de American Dynasty: Aristocracy, Fortune and the Politics of Deceit in the House of Bush (veja a capa acima e saiba mais AQUI sobre o livro) observou que a ascensão dos Bush à cena nacional refletia o surgimento do que, bem mais tarde (em 1961), Eisenhower chamou “complexo militar-industrial”.

Do banco nazista para o Senado

U1285423INPSamuel tivera aqueles vínculos com o governo durante a guerra, enquanto os Harriman, sócios dele, ligaram-se cada vez mais ao Partido Democrata. Ele nunca foi candidato a cargo eletivo. Isso ficou para seu filho Prescott Sheldon Bush (foto ao lado), pai do primeiro presidente Bush e avô do segundo. Prescott elegeu-se senador por Connecticut logo depois da II Guerra Mundial.

Foi insólito Prescott ir para o Senado, pois tinha sido diretor e acionista do UBC (United Banking Corporation), um banco acusado de transações com o inimigo (vendia armas e material crítico para a indústria armamentista alemã) após comprar do industrial nazista Fritz Thyssen, o “anjo de Hitler”, a Consolidated Silesian Steel Corporation, suspeita até de usar trabalho escravo de presos de Auschwitz.

Dois sobreviventes de Auschwitz tentam há anos, na Justiça, um processo bilionário contra os Bush, o que a mídia nos EUA tem preferido omitir. Em 1942, o caso chegara aos jornais porque o governo Roosevelt agiu: investigou o UBC, enquadrou-o na Lei de Transações com o Inimigo e fez intervenção branca no grupo. O banco ainda pôde operar, mas teve de desistir de lucrar nas transações com os nazistas.

Roosevelt evitou aprofundar-se porque queria os homens de negócios unidos no esforço de guerra e sabia do risco de saírem chamuscadas corporações gigantes como a Standard Oil (Rockefeller), Chase Bank e General Motors. Prescott distanciou-se em 1943 do UBC, que ajudara Hitler e os nazistas exatamente quando a máquina de guerra alemã invadia a Polônia e a França, bombardeava Londres e criava os campos de extermínio.

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Published in: on novembro 10, 2008 at 7:27 pm  Deixe um comentário  

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