Da vitória histórica ao desafio da mudança

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Uma etapa está vencida. Barack Obama derrotou o republicano John McCain por maioria esmagadora no Colégio Eleitoral e vantagem também expressiva, na votação popular, de 7 milhões de votos. Sem falar no índice de comparecimento às urnas, o mais elevado em quase um século. Tudo isso depois do que pode ter sido a mais longa companha presidencial da história. Como Obama está eleito, o país já é outro. E o 44º presidente será diferente.

Pela primeira vez desde que as colônias se uniram para declarar a independência, há 232 anos, um negro chega à Casa Branca. Nada menos de 52% dos eleitores, mais de 62,4 milhões, quiseram assim. Foram convencidos pelo seu perfil, pela sua trajetória humana e política singular, pela sua eloquência, pelo seu carisma. Ele teve de superar eventuais imperfeições e também acusações duras, às vezes torpes e de má fé, algumas claramente motivadas pelo racismo.

Mas a votação de Obama no eleitorado branco, embora bem inferior à do adversário republicano, foi significativa para um candidato democrata. Na verdade, superior à de todos os democratas que se candidataram à Casa Branca nos últimos 32 anos, desde o sulista Jimmy Carter (1976), inclusive Bill Clinton, eleito duas vezes. O feito de Obama tem um significado especial e é motivo de orgulho para os negros do país, ou africano-americanos, como destacou o próprio senador McCain ao reconhecer a derrota.

Como desfazer o legado de Bush 

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Naquele parque de sua Chicago, ao falar à multidão entusiasmada, 150 mil a 200 mil pessoas, Obama deixou claro que tem um caminho longo e difícil a percorrer. “Mesmo agora, enquanto comemoramos, temos consciência de que os desafios a enfrentar são os maiores de nosso tempo – duas guerras, um planeta ameaçado e a pior crise financeira em um século”. Foi enfático ainda ao dizer que não recebe o mandato de um partido ou uma ideologia. Recebe a missão de mudar o país.

O cartunista do jornal britânico The Guardian (veja acima) sintetizou a missão de Obama ao desenhar a máquina de destruir papéis, com as listas e estrelas da bandeira, a devorar e desfazer a imagem de George W. Bush e seu legado desastroso da crise econômica, das guerras e do ressentimento antiamericano no mundo. Se é essa sua missão, o presidente eleito tem serenidade e elegância suficientes para cumprí-la, mesmo diante das provocações e acusações sórdidas de adversários.

murdoch_2007Há muito a fazer. É revelador, no entanto, que ante a aproximação do desfecho da campanha de 2008, passou a prevalecer um eforço insólito na Fox News do magnata Rupert Murdoch (foto) – reduto do jornalismo mais tendencioso dos EUA, no qual pontificam estrelas do neoconservadorismo bushista. Neocons notórios como Bill Kristol e Fred Barnes (que criaram para Murdoch a revista ideológica Weekly Standard), Charles Krauthammer e outros menos intelectuais advertem Obama ali contra “ir para a esquerda”.

Os neocons de novo no palco

É a mesma gente que, no passado recente, teve sucesso em empurrar o governo Clinton para a direita, até forjando no Congresso a lei do regime chance (mudança de regime) para o Iraque. A guerra contra o Iraque, para tomar o controle de petróleo, foi criada no Projeto do Novo Século Americano (PNAC) de Kristol, com a ajuda de Krauthammer, Barnes, Paul Wolfowitz e o resto dos guerreiros neocons. Clinton, em minoria no Congresso, acabou por assinar a lei.

Perdida a eleição de 2008, os neocons ainda acham que serão capazes de impor ao futuro governo, as mesmas posições extremistas e belicistas, que Clinton absorveu em parte porque os republicanos tomaram a Câmara e o Senado em 1994. O que a facção neoconservadora da mídia tenta agora é prolongar a aventura bushista dos últimos oito anos, mesmo depois da derrota eleitoral. E adverte Obama e sua equipe para fugir da esquerda porque “o país é conservador e centrista”.

Para os neocons, esquerda é quem defende qualquer regulamentação contra a livre roubalheira dos executivos larápios de Wall Street – aqueles das fraudes da Enron, WorldCom, Arthur Andersen, dos bancos de investimento que roubam clientes e acionistas. Em colapsos sucessivos desde 2001, eles levaram à lambança geral e ao tsunami financeiro. O próprio presidente da Bolsa de Valores de Nova York, Dick Grasso, foi um dos executivos conspícuos pilhados.

Punir lambões e fraudadores, para os neocons, é esquerdismo e comunismo. Afinal, foi um deles, Ken Lay, o maior financiador da carreira política de George W. Bush – até ir para a cadeia por causa do conjunto de fraudes da Enron. Tudo aquilo fora possível graças à era Reagan-Bush (1981-1992) e aos dois mandatos de Bush II (2001-2008). Exatamente o legado que cabe a Obama desfazer no shredder.

Receita para repudiar a marcha-a-ré

Usando o 11/9 como pretexto, o governo Bush II oficializou em setembro de 2002 como Estratégia de Segurança Nacional (NSS) um texto (conheça AQUI a nova versão, de 2006) baseado em documentos que o PNAC discutia desde o governo de Bush I (1988-92), inicialmente uma Orientação de Política de Defesa (DPG, Defense Planning Guidance), que ao ser revelada publicamente horrorizou todo o Establishment de política externa do país e os principais aliados dos EUA na Europa.

Quando surgiram, o DPG, o PNAC e um documento posterior dos neocons, conhecido pelas iniciais RAD (de Rebuilding America’s Defense: Strategy, Forces and Resources for a New Century) não tinha acontecido a ação terrorista de 11/9 (World Trade Center, etc) e não se prestava qualquer atenção a Osama Bin Laden ou ao terrorismo. Mas os neocons agarram-se ao terrorismo como pretexto – e o governo Bush II abraçou a insanidade e lançou a histeria patrioteira para justificá-la, incluindo a invasão do Iraque.

Agora, a causa deles é não deixar Obama “ir para a esquerda”: os mesmo neocons que no passado venderam a Clinton o regime change tentarão empurrar o futuro governo para o rumo que desejam – ainda que Bush tenha manchado para sempre a imagem dos EUA no mundo com suas aventuras bélicas e produzido a tragédia da desintegração financeira, justificando o repúdio atual de mais de 70% dos americanos e a mudança consagrada nas urnas.

A diferença entre Clinton e Obama é a extensão da vitória eleitoral de 2008. Pois além de esmagadora na votação popular e no Colégio Eleitoral (349 a 163, faltando ainda dois estados), ela ainda ampliou a vantagem no Senado (pelo menos 56 das 100 cadeiras) e na Câmara (pelo menos 252 contra 173). Esses números equivalem em princípio a uma garantia contra rendição ou intimidação.

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Published in: on novembro 5, 2008 at 1:46 pm  Comments (2)