Obama, McCain e os boatos mais sórdidos

O Politico.com, um website que cobre muito bem a campanha presidencial de 2008 e a política dos EUA (leia AQUI), fez um balanço dos rumores levianos contra os dois candidatos na Internet. E que levam pessoas – algumas, talvez de boa fé, mas muitas apenas empenhadas em iludir outros através de jogo sujo – a reclamar a atenção da mídia em geral para aqueles boatos.

A vítima mais frequente das intrigas e esforços sórdidos de difamação, claro, é o democrata Barack Obama, mas também John McCain é alvo de ataques. Na reta final da campanha, nos últimos dias, o esforço subterrâneo redobrou. E leitores cobram informações dos jornais e outros veículos, em especial da TV. Às vezes o leitor exagera na queixa, exigindo a cobertura, a pretexto de que os boatos não podem ser ignorados.

Veículos como a rede de cabo Fox News, conservadora e favorável à disseminação de boatos lançados claramente para denegrir Obama, não esconde o desejo de ver o democrata despencar da liderança nas pesquisas. Mas o Politico.com revelou a informação supreendente de que esse canal, do império Murdoch de mídia, julgou “absolutamente falso” pelo menos um boato difamatório, iniciado com a capa em julho da revista New Yorker (veja à direita), de que Michelle Obama fora radical raivosa contra os brancos.

O ativismo conservador religioso

Alguém que tenha acompanhado a total irresponsabilidade da grande mídia do Brasil (organizações Globo, Veja, Estadão & cia.) durante a campanha presidencial de 2006, quando os veículos acabaram humilhados por causa da obsessão de mudar a tendência do eleitorado e impedir a reeleição do presidente Lula, poderia estranhar que veículos dos EUA não sejam tão levianos na cobertura eleitoral.

Curiosamente, um brasileiro que escreve para jornais do Rio e São Paulo está em processo de assimilação pela direita religiosa dos EUA através de um “ativista conservador cristão”. E envia regularmente ataques à mídia, dos dois países, por omitir os boatos suspeitos. Ao mesmo tempo, veicula – ele próprio – os rumores selvagens que a mídia americana rejeita como maluquice sem pé nem cabeça.

Não por coincidência, claro, também abraça com entusiasmo baboseiras que fazem a festa no submundo dos talk shows de rádio, onde as falsidades são veiculadas com aparência de verdades eternas. A essa gente referia-se o Politico.com no texto publicado agora – um balanço do que chamou de “os mais sórdidos rumores” da campanha de 2008, sobre os quais seus leitores têm perguntado e pedem mais informações.

A certidão de nascimento de Obama

Em matéria de sordidez, o boato que deixa longe todos os outros continua a ser o da certidão de nascimento de Obama. Primeiro alegou-se que o candidato não tinha a tal certidão. Depois que o documento foi exposto no website do candidato, mostrando que ele de fato nasceu no Havaí, onde morava a mãe, americana branca, e o pai, negro do Quênia, adaptou-se o rumor. E em seguida passou-se ao novo ataque, com a denúncia de que a certidão é falsa.

Para ser presidente dos EUA, não basta ser americano: é preciso ter nascido no país. E os boateiros juram que Obama nasceu no Quênia. O rumor já circulava, durante as primárias, em blogs que apoiavam Hillary Clinton. Agora existe até uma ação judicial, na Filadélfia, iniciada pelo advogado Philip Berg – o mesmo que, depois do 11/9, tinha denunciado o governo Bush como cúmplice da ação terrorista no World Trade Center.

O Politico.com citou o website Annenberg Political Fact Check (confira AQUI), que reuniu provas da autenticidade da certidão de nascimento – documentação farta e até ampliações dos detalhes. Não há qualquer dúvida, mas Berg disse há seis dias, no talk show do extremista de direita Michael Savage, que “em um ou dois dias” mostraria gravação na qual a avó queniana de Obama jura ter ele nascido num hospital do Quênia. Ao menos por enquanto a tal fita não apareceu.

O caso Odinga e outros boatos

A Jerome Corsi (veja-o ao lado, na tela da Fox News), autor de um dos livros escritos para difamar Obama (depois de ter feito o mesmo com John Kerry em 2004, em outro livro), é atribuído o boato de que o atual premier do Quênia, Raila Odinga, que se diz primo distante do candidato, teve apoio de Obama para chegar ao cargo. Na versão de Corsi, os dois conspiraram ainda para “impor a lei islâmica no Quênia” – o que não faz sentido, pois ambos são cristãos (Odinga é anglicano).

Boatos envolvendo McCain estão longe de ter a mesma gravidade. Um deles refere-se a suposto palavrão ofensivo que ele teria dito em 1992, referindo-se à esposa Cindy – e citado depois pela revista Vanity Fair. Na mesma linha, falou-se de conduta imprópria e insultos de McCain a turistas certa vez em Fiji. Mesmo se fossem boatos com fundamento, o que não é o caso, parece coisa sem maior relevância.

O boato que poderia ser mais sério – mas foi considerado falso pelo mesmo FactCheck que investigou a certidão de nascimento de Obama – referia-se à suspeita de conduta irresponsável de McCain como piloto, que teria causado um acidente grave. Não há qualquer prova de que seja verdade. Se fosse o caso, não passaria de um excesso como tantos que ocorrem com pilotos jovens. E, afinal, acidentes acontecem.

Published in: on outubro 31, 2008 at 10:45 pm  Comments (36)