A votação popular e o colégio eleitoral

Na atual campanha presidencial dos EUA, a 12 dias da eleição, o candidato democrata Barack Obama está numa situação privilegiada. Desde a primeira quinzena de setembro mantém a dianteira praticamente em todas as pesquisas sobre a votação popular e também nos cálculos destinados a prever a tendência do Colégio Eleitoral integrado pelos eleitores de cada estado – o que de fato decide.

Como se sabe, a eleição americana não é direta. A função da votação popular de 4 de novembro é a de selecionar em cada estado – cada um com direito a representação proporcional à sua população – os 538 eleitores de um ou do outro partido que vão integrar o Colégio Eleitoral com a missão de escolher, a 15 de dezembro, o novo presidente. Para ganhar, o candidato terá de totalizar no mínimo 270 votos (metade mais um).

A pesquisa Gallup de acompanhamento diário mostra Obama hoje, na votação popular, com a preferência de 52% contra 41%, vantagem de 11 pontos percentuais. No cálculo dos votos do Colégio Eleitoral, somando-se os votos eleitorais dos estados onde é sólida a tendência favorável com os daqueles que também se inclinam para ele (ainda sem vantagem definitiva), Obama tem 277, mais do que o necessário para vencer.

As previsões invertidas de 2000

Fazendo, em relação a John McCain, a mesma conta do Colégio Eleitoral – os votos dos estados onde tem preferência sólida mais os que se inclinam para ele (ainda sem vantagem definitiva – o republicano totaliza apenas 174 votos eleitorais. Ou seja, faltariam 96 votos para McCain ganhar. Os estados onde ainda há empate técnico, fora do cálculo por estarem indefinidos entre os dois, são 87, menos do que ele precisa.

Isso sugere que a vitória de Obama no Colégio Eleitoral, o que realmente decide,  pode ser até mais fácil, a esta altura, do que a da votação popular. A situação sugere uma comparação com a de George W. Bush dias antes da votação de novembro de 2000. A campanha republicana estava certa naqueles dias de que ele ganharia a votação popular; mas via um risco de Bush ser derrotado no Colégio Eleitoral.

Do lado democrata, a campanha de Al Gore analisava os dados de forma parecida. Achava que Gore seguramente ganharia no Colégio Eleitoral, como temia Bush. E considerava a hipótese de derrota na votação popular. A 1º de novembro de 2000, em artigo enviado de Nova York, escrevi que “a campanha de Bush preparava estratégia para reagir caso o republicano ganhasse na votação popular e perdesse no Colégio Eleitoral”.

Como Gore apostava no Colégio

Na mesma época o democrata Gore chegou a fazer uma declaração, na qual dizia inequivocamente que teria de prevalecer o Colégio Eleitoral, como mandava a Constituição. Por ironia, iria acontecer exatamente o contrário (caso aceitemos, apenas para efeito de raciocínio, que Bush de fato venceu na votação popular da Flórida por 537 votos). Oficialmente, Gore ganhou a votação popular no país e perdeu no Colégio Eleitoral.

Entre outras coisas, o artigo que enviei de Nova York transcrevia uma pergunta feita no jornal novaiorquino Daily News pelo jornalista Michael Kramer: “E se Al Gore ganhar estados cruciais que estão em disputa atualmente, como Flórida, Michigan e Pensilvânia, obtendo o total mágico de 270 votos eleitorais, enquanto George Bush consegue a maioria da votação popular do país?”

A pergunta, claro, refletia a incerteza nos dois lados da campanha presidencial. A discrepância entre a votação popular e o Colégio Eleitoral tinha ocorrido duas vezes ha história: 1. Rutherford Hayes tornou-se presidente em 1876, em meio a outros complicadores, já que os republicanos faziam fraude para compensar no Sul a intimidação dos democratas racistas contra o voto dos negros; 2. Em 1888 foi a vez de Benjamin Harrison, que tinha sido derrotado na votação popular por diferença inferior a 90 mil.

Receita potencial de crise

Naqueles dois casos, como manda a Constituição com mais de dois séculos de existência, prevaleceu o resultado do Colégio Eleitoral (leia AQUI análise da CNN antes do resultado de 2000). Teria prevalecido ainda, da mesma forma, em 1976, contra Jimmy Carter, que teve 1,7 milhão de votos mais do que o rival republicano, caso o presidente Gerald Ford, candidato à reeleição, tivesse conseguido mudar apenas 5.500 votos no Ohio e 6.500 em Mississippi.

O risco de acontecer a discrepância agora parece remoto, pelo menos com base nas tendências atuais para a votação popular e o Colégio. Em 2000 os republicanos preparam-se para contestar o resultado do Colégio Eleitoral como basicamente injusto – que afinal os beneficiou. E Gore, que antes contava certo com a vitória no Colégio, sequer tinha como contestar as regras, já que as defendera publicamente antes.

Fica claro o potencial de crise que o Colégio Eleitoral ainda representa (saiba mais sobre ele AQUI). Em 2000 a campanha de Bush planejava operação maciça junto à opinião pública, envolvendo a mídia, em defesa da votação popular. Seria questionado o caráter obsoleto do sistema – criado porque não existia um eleitorado nacional e os fundadores da república desconfiavam do julgamento do povo. Algum dia a crise virá, caso não se faça alguma coisa antes. Vale a pena voltar ao assunto depois – e a outros antecedentes históricos.

Published in: on outubro 22, 2008 at 8:07 am  Comments (1)  

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One CommentDeixe um comentário

  1. Caro Argemiro,

    Parabéns pelo blog. Passei a conhecê-lo recentemente e leio seus textos todos os dias.
    Gostaria de saber se há algum debate ou proposta sobre o fim deste colégio eleitoral.
    E se algum candidato ao parlamento, que não seja democrata ou republicano, consegue se eleger?
    Abraço,
    Ney Pacheco


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