A chave do dinheiro na campanha de Obama

A 14 dias da votação, a campanha democrata parece convencida de que nem baixando ainda mais o nível os republicanos conseguirão melhorar a situação de John McCain. É que os republicanos estão com pouco dinheiro, por ter o candidato optado no estágio inicial da campanha pelo financiamento público. Barack Obama pensava fazer o mesmo no ano passado, para reduzir o papel dos grandes contribuintes e lobbies. Só mudou de idéia ante o sucesso das doações menores, via Internet.

A primeira experiência com uso mais intenso da Internet foi na campanha do governador Howard Dean em 2004, ainda na fase das primárias. O sucesso surpreendeu o próprio Dean, que só saiu do páreo devido aos erros insólitos cometidos. John Kerry e John Edwards firmaram-se, enquanto Dean, com a Internet, ficava para trás. Mas a revista Wired chegou a contar a história de como Dean fora “inventado” pela Internet (leia AQUI).

O responsável por aquela revolução, que chegou a colocar o então desconhecido Dean à frente entre os democratas (hoje ele preside o Partido Democrata) foi Joe Trippi (foto à esquerda; saiba mais sobre ele AQUI), depois afastado da direção da campanha. Só quatro anos mais tarde – na campanha presidencial de Obama, mas ainda em 2007 – a experiência foi adequadamente retomada. E de novo o sucesso surpreendeu, a ponto de ter o candidato decidido rever sua preferência anterior pelo financiamento público.

US$150 milhões só em setembro

No último mês de setembro, a campanha democrata de Obama conseguiu totalizar nada menos de US$150 milhões. Segundo a Fox News (leia AQUI), o total geral da campanha vai além de US$600 milhões. Mas a maior parte chega em pequenas contribuições via Internet – algo que inevitavelmente afetará todas as campanhas no futuro. O lado positivo é que, vindo o dinheiro em contribuições pequenas, o candidato não fica amarrado a compromissos com grandes contribuintes. Eventualmente as regras poderão ser mais rigorosas, assegurando a lisura e o caráter democrático do processo.

Em entrevista a Chris Wallace ontem, no programa “Fox News Sunday” (leia AQUI), o candidato republicano queixou-se da abundância de recursos na campanha de Obama. Sugeriu até que o rival repetia Nixon. “Desde Watergate não ocorre isso”, afirmou com malícia. O caso que envolveu Nixon, na verdade foi um escândalo: doações vultosas, às escondidas, como a soma (em dinheiro vivo) de US$100 mil, canalizada por Howard Hughes através de Charles (Bebe) Rebozo, amigo de Nixon (saiba mais AQUI).

Em princípio o sistema de arrecadação pela Internet pode revelar-se tão eficaz como legítimo e democrático. Tanto que já é usado, também, por candidatos alternativos como Ralph Nader (ex-democrata) e Bob Barr (ex-republicano). A inovação de Nader tem toques pitorescos. Ele promete enviar como brinde receitas da mãe (ou de hummus, ou de bolo de maçã) a quem faça doações a partir de US$2 (isso mesmo: dois dólares). E explica: o limite legal é US$2.300 (saiba mais AQUI).

O rumo perigoso do baixo nível

Obviamente, o enfoque do senador McCain, que já tinha tentado trapacear e driblar a lei depois de ter optado pelo financiamento público, parece duvidoso. O financiamento das campanhas sempre foi problema grave. Mas regras rigorosas e pulverização das contribuições via Internet é saudável, até por reduzir a relevância das doações elevadas. Além disso, encoraja o envolvimento de pessoas comuns, tornando as campanhas mais democráticas.

Antes de sua atual tentativa rumo à Casa Branca, McCain aparentava mais zelo em relação a regras democráticas. Da mesma forma que seus comerciais de campanha com ataques pessoais nada têm a ver com a lisura que buscava aparentar antes, agora abraça um vale-tudo. O ex-secretário de Estado Colin Powell estranhou a mudança, citando os comerciais sobre Bill Ayers (veja a imagem abaixo), com as acusações de terrorismo e até de socialismo – fora de moda desde o fim da guerra fria.

Ataques assim têm efeitos perigosos. Hoje, num restaurante da Carolina do Norte, uma mulher viu Obama entrar e berrou: “Socialista, socialista, saia daqui!”. A acusação de “socialista” é a mais recente nos comerciais republicanos. Obama tem respondido com elegância e sem perder a serenidade. Mas o boato é de que McCain, desmentindo o que prometera, está disposto ainda a ressuscitar o reverendo Jeremiah Wright, ex-pastor do qual o democrata afastou-se há meses.

A diferença no apoio dos jornais

Parece difícil McCain reverter o quadro atual devido aos recursos de que a campanha de Obama dispõe, suficientes para responder à altura. Além disso, na última pesquisa Gallup de acompanhento diário, a vantagem de Obama subiu de novo para 10 pontos percentuais: 52% contra 42%. E mais 15 jornais do país declararam apoio a Obama, contra mais 3 a favor de McCain. Antes a revista Editor & Publisher estimara em 103 os jornais que declararam apoio a Obama – e apenas em 32 os que estão com McCain (leia AQUI).

Essa proporção de 3 por 1 a favor do democrata é sem precedentes. Até a eleição passada a maioria  dos jornais apoiava o candidato republicano. Este ano a maior supresa foi o apoio do Chicago Tribune a Obama. Desde que foi fundado, há 161 anos, esse jornal nunca apoiara um democrata (saiba mais AQUI). Também surpreendeu o apoio da revista Esquire a Obama. Fundada há 75 anos, ela nunca manifestara preferência antes por qualquer candidato presidencial.

Enquanto isso o império Murdoch de mídia – que inclui o New York Post, o Wall Street Journal, a Fox News Channel (FNC) e outros veículos – mantém o esforço obsessivo e sórdido para derrotar o candidato presidencial democrata. A novidade da FNC hoje, insistindo na fantasia da “conexão terrorista”, foi a reprodução de anúncio antigo de um livro de Bill Ayers, sobre o qual o então senador estadual Obama disse ser “um relato oportuno sobre o sistema judicial juvenil” (veja acima).

Published in: on outubro 20, 2008 at 5:23 pm  Deixe um comentário  

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