Al Franken, a receita do humor no Senado

Talvez só quem tenha conhecido o lendário Barão de Itararé, que ocupou uma cadeira na Câmara de Vereadores do Rio (até ter o mandato cassado por algum Gilmar Mendes da época, submisso às ordens do império para botar o velho partidão na ilegalidade), pode imaginar o que seria a chegada ao Senado dos EUA, em 2009, do humorista Al Franken (veja AQUI como as pesquisas prevêem sua vitória).

O nobre Barão, para quem não sabe ou já esqueceu depois do Alzheimer, foi o criador do jornal satírico A Manha (paródia do governista A Manhã). Nele o nosso herói fez certa vez uma piada ousada sobre castigos físicos na Marinha. Acabou sequestrado, espancado e abandonado nu na floresta da Tijuca – o que o levou depois a colocar o seguinte aviso na porta da redação: “Entre sem bater”.

Al Franken é desse time. No cartum acima, o velho pouco ortodoxo acha difícil Minnesota eleger alguém tão ofensivo. Mas Franken, ultrajantemente engraçado quando aparecia no “Saturday Nigh Live”, pode ganhar em Minnesota. As pesquisas o mostram com vantagem de dois pontos percentuais sobre o senador republicano Norm Coleman, um troglodita nostálgico do macartismo. Franken deslanchou na política graças em parte ao sucesso do apresentador de talk show de rádio e autor de best-seller Rush Limbaugh, a quem os republicanos dedicaram a vitória nas eleições de 1994 para o Congresso. 

No colo de Lincoln 

Decidido a avacalhar Limbaugh, cujo livro The Way Things Ought to Be passou meses na lista de best-sellers do New York Times, Franken (veja-o ao lado nos braços de Lincoln) lançou em 336 páginas, no início de 1996, sua devastadora resposta ideológico-satírica, sob o título Rush Limbaugh is a Big Fat Idiot (Limbaugh é um gordão idiota). Descobriu então uma receita infalível: faturar com os malucos da direita, falando deles e dizendo verdades. Seu livro (veja a capa abaixo) foi tão best-seller como o de Limbaugh.

Depois disso, passou a escrever mais livros voltados para a política. Em plena histeria patrioteira pos-11/9, investiu contra o presidente Bush, o vice Dick Cheney e duas celebridades da TV naqueles dias sombrios: o pomposo apresentador Bill O’Reilly, da Fox News, e a loura desbocada Ann Coulter, ambos autores de best-sellers. Título de Franken: Lies – and the Lying Liars Who Tell Them (Mentiras e os mentirosos que as contam). Processo judicial da Fox contra o livro, pelo uso satírico do slogan no subtítulo (A Fair and Balanced Look at the Right – um olhar justo e equilibrado sobre a direita) foi rejeitado pelo juiz (veja a capa abaixo). 

Era quase um tratado sobre as mentiras cínicas ditas na época (às vésperas da invasão do Iraque a pretexto de inexistentes armas de destruição em massa) pelos mentirosos Bush, Cheney, O’Reilly, Coulter e mais alguns menos votados. E também foi parar nas listas de best-sellers, entre elas a do New York Times. Al Franken tornou-se um convidado altamente cotado também em programas políticos da TV.

Se os donos do poder fingiram ignorar a afronta, os vaidosos O’Reilly e Coulter reagiram – até porque o livro teve o cuidado de provar, sempre com humor, tudo o que afirmava sobre cada um. Por causa do livro O’Reilly oficializou Franken como seu inimigo público número 1, tentando pintá-lo ainda como “inimigo dos EUA”, “anti-americano”  e extremista de esquerda. Coulter preferiu a tarefa inglória de tentar contestá-lo.

Vencendo a arrogância da Fox

Além disso, O’Reilly e Franken entraram em choque numa feira de livros e o debate entre os dois foi gravado. A certa altura O’Reilly gritou Shut Up! (Cala a boca!), como costuma fazer com convidados no seu programa. É que o livro de Franken contava a história da alegação dele de que ganhara dois Peabody, prêmio de jornalismo, quando apresentava “Inside Edition”, um tablóide jornalístico da TV.

Ao procurar o pessoal desse prêmio, Franken ouviu a verdade: o “Inside Edition” nunca ganhara o Peabody. “Falei com O’Reilly pelo telefone, ele pediu um tempo, depois chamou de volta e disse que se enganara. O prêmio, explicou, era outro, o Polk. Mas Franken descobriu que, embora esse outro prêmio tivesse sido efetivamente dado ao “Inside Edition”, isso só aconteceu depois que O’Reilly já estava fora do programa.

Franken resumiu assim: “O’Reilly alegou ‘engano’. Ou seja, ele ‘confundiu’ um Polk que o programa ganhou quando ele já não trabalhava lá com dois Peabody, sobre o qual dissera: ‘nós’ ganhamos.” A trapalhada virou fofoca nos jornais e na TV. Mereceu notas maliciosas na mídia (Washington Post, Newsday de Nova York), o que transformou o arrogante campeão de audiência da Fox em quase inimigo mortal de Franken.

Paciente e minucioso, Franken parece ter prazer em comprar briga com cachorro grande. No caso de Coulter, por exemplo, reproduziu o relato dela segundo o qual o New York Times é tão anti-americano que ignora as notícias que interessam ao povo. Ela citou um exemplo: a 19 de fevereiro de 2001, o acidente na Daytona 500 que matou o piloto Dale Earnhardt, sete vezes campeão da NASCAR Winston. Mas Franken reproduziu o Times do dia: a notícia estava em três colunas da primeira página. 

Como salvar a esquerda liberal

No livro, o autor também foi irônico ao falar do programa Hannity & Colmes, da Fox News. Hannity é astro bonitão e ultra-reacionário. Colmes, o liberal, não podia ser mais feio – e insignificante. É o que a Fox chama de fair and balanced (honesto e equilibrado). Exatamente como planejara o presidente da rede, Roger Ailes, ex-assessor de relações públicas do presidente Ronald Reagan. Ele o criara como “Hannity & algum liberal a ser escolhido”. Escolheu Colmes a dedo, para Hannity brilhar.

Quando cursava a Universidade de Harvard, Franken tentou inutilmente integrar a equipe do pasquim dos alunos, Harvard Lampoon. Depois fez dupla com ex-colega do curso secundário, Tom Davis, e percorreu o país entre 1975 e 1980, fazendo um humor estilo Monty Python, sob contrato com o produtor Lorne Michaels para os dois escreverem e interpretarem. Franken atuou ainda no “Saturday Night Live”, filmes e séries da TV.

Nos últimos anos excedeu-se no envolvimento político, principalmente brigando com a Fox News e suas estrelas. Afinal, fez a opção pela política – sem abrir mão do humor. Lutou ainda para salvar uma rede liberal de rádio, a Air America (foto acima), fundada para disputar o mercado com a enxurrada de talk-shows de direita que pregam o obscurantismo e o fundamentalismo religioso. Por enquanto a rádio ainda sobrevive.

Published in: on outubro 14, 2008 at 5:43 pm  Comments (1)  

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  1. Torçamos para que a política não lhe mate a verve.


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