Quem é o verdadeiro John McCain?

Existem dois. Um deles, sob o controle da linha dura de sua própria campanha presidencial, parece o Mr. Hyde da ficção do escritor Robert Louis Stevenson (em 1886). Destemperado, incita as pessoas publicamente a atacar o rival Barack Obama como se este fosse um terrorista estrangeiro determinado a incendiar o país, a serviço do casal Ayers, que explodia bombas no passado contra a guerra do Vietnã.

O outro John McCain, como o Dr. Jekyll da mesma criação de Stevenson, parece mais inclinado a ser um bom sujeito. Torturado depois de bombardear áreas civis do Vietnã do Norte, assinou uma “confissão” declarando-se “criminoso de guerra” e depois voltou aos EUA como herói. Tornou-se senador e discorda das pessoas que chamam Obama de “terrorista”. Jura tratar-se de “uma pessoa decente”, “homem de família”.

O McCain/Dr. Jekyll odeia os excessos praticados pelo outro – o McCain/Mr. Hyde. Pelo menos foi o que deu a entender num de seus comícios nos últimos dias, ao ver o público, instigado pelos anúncios destemperados da campanha, reagir com ódio (leia AQUI análise do Wall Street Journal que sugere uma cisão interna na campanha). O evento da campanha ocorreu na Flórida. Obama foi chamado de “terrorista” e “traidor” por alguém que ainda gritou: “Matem o cara” (saiba mais AQUI, com video).

Incitamento ao assassinato?

Segundo os relatos que têm sido publicados pela mídia, inclusive por jornalões liberais como o New York Times (leia AQUI) e o Washington Post (AQUI), o público está cada vez mais agressivo nos eventos da chapa McCain-Palin. E na sexta-feira o McCain/Mr. Hyde mudou subitamente para o modo McCain/Dr. Jekyll e, assustado, chegou até a tomar o microfone de uma pessoa exaltada.

Não era um comício nos padrões tradicionais, como os do Brasil. Era no formato predileto da campanha, tipo town-hall, igual às reuniões locais do passado, nas quais os cidadãos debatiam os problemas da cidade. Qualquer um, em princípio, pode falar e dizer o que pensa. E ficou claro que estavam todos irados com a torpeza e a indignidade atribuídas a Obama pelos comerciais da campanha.

Aquelas pessoas devem ter ficado atordoadas com o tom repreensivo de McCain (já então no modo Dr. Jekyll), já que, como assinalou o Times, ele até “sugeriu que se Obama fosse eleito para a Casa Branca, seria um presidente aceitável”. Ou seja, não seria “terrorista”, nem “traidor” e nem devia ser “eliminado” por algum dos presentes, como fizeram com Lincoln, Garfield, McKinley e Kennedy.

Os recuos depois dos ataques

O problema de quem vai a comícios de McCain é que não sabe qual dos dois vai estar ali, Dr. Jekyll ou Mr. Hyde. Em Wisconsin, ele prometeu ser duro no ataque a Obama. Quando um homem disse a ele estar “com medo” de Obama chegar à Casa Branca, Mr. Hyde voltou: “Quero ser presidente dos EUA, mas digo a você: Obama é uma pessoa decente. Você não tem de ter medo se for eleito presidente”.

A declaração foi recebida com vaias estrepitosas. Com razão. Aquelas pessoas estavam ali incitadas pelos comerciais incendiários da campanha McCain-Palin na TV, dizendo a eles que Obama é o mais abjeto dos vilões, tem planos ocultos para fazer o diabo, até escravizar pessoas. Os comerciais sugerem que os planos de Obama são feitos na sala de visita do casal Ayers, hoje pacatos professores universitários, onde teria nascido a carreira política de Obama.

Talvez por ter visto comerciais de McCain e programas da Fox News (como o de Sean Hannity que deu a palavra ao racista e anti-semita Andy Martin para um ataque difamatório contra Obama – leia AQUI), uma mulher disse a McCain num subúrbio de Minneapolis não confiar em Obama por ser ele “árabe”. Dr. Jekyll reagiu: “Não, minha senhora. Tenho divergências com ele, mas é um cidadão e de família decente”. Dessa vez houve palmas.

Em quem acreditar? No misantropo Mr. Hyde, determinado a fazer campanha botando fogo no circo, talvez com assassinato de Obama? Ou no indulgente Dr. Jekyll, que no fundo prefere ganhar sem jogo sujo? O sujeito que gritou na Flórida aquele “Matem o cara” estava motivado pelos comerciais da campanha, autorizados por McCain – que vive os dois papéis, Dr. Jekyll e Mr. Hyde (veja à esquerda a capa da primeira edição de O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde).

Entre Deus e o diabo

Num discurso que repete em toda parte, o republicano costuma perguntar: “Quem é o verdadeiro Obama?” Depois da longa campanha dificilmente algum americano ignore a resposta. Até McCain sabe – e já o disse – que Obama é um cidadão decente, tem uma família e uma história pessoal, nada fez para alguém ter medo. Não é encarnação do diabo. Só o pintam assim porque ousa ser candidato a presidente.

No mesmo comício da Flórida no qual alguém gritou que devia ser morto, um insulto com conotação racial foi gritado para um cinegrafista negro que filmava o evento. O deputado negro Elijah Cummings, de Maryland, disse em entrevista ao Times ter ficado surpreendido porque nem McCain e nem Sarah Palin reagiram, ou criticando publicamente o comportamento ou discutindo o fato depois.

“Preocupa-me muito quando pessoas chegam a dizer palavras como aquelas numa disputa política, numa campanha presidencial. Acho apenas que o país é melhor do que isso”, afirmou Cummings. Mas o chefe da campanha de McCain, Rick Davis, achou o episódio irrelevante. Talvez tirando partido do fato de que McCain não conseguiu ainda fazer sua opção – se, afinal, é Dr. Jekyll ou Mr. Hyde.

Published in: on outubro 11, 2008 at 5:25 pm  Comments (3)